quarta-feira, 30 de maio de 2012

»Sobre as Personagens d'O Monte dos Vendavais

Para quem leu.

 (Faz sentido para a natureza destas personagens quando a Kate Bush diz: «let me have it, let me grab your soul», porque a Catherine parece, de facto, a dona da alma do Heathcliff, capaz de despedaçá-la e renascê-la quando lhe dá na gana...)


É a segunda vez que leio um livro em que detesto/desprezo/me irrito praticamente com todas as personagens. O outro foi o Madame Bovary, em que a dita cuja, Emma Bovary, era uma mártir queixosa, egoísta, mimada, caprichosa, carente que dava dó e cheia de mesquinhices. O marido era um panhonha e ela fazia gato-sapato dele e os seus amantes... afinal, o que é que viam numa mulher tão desprezível?

A Catherine Earnshaw... é uma vendida. Ama um homem cuja alma se funde, claramente, com a sua. E é também burra, porque não se dá conta de que não poderá prosseguir sem ele. Julga que a vida será mais fácil se desposar alguém rico, bonito e respeitado nas redondezas. Não é ninguém que a afasta de Heathcliff: não é preciso, ela desdenha dele. Na mesma conversa diz que o ama e que lhe seria degradante casar-se com ele. Depois decide que, ela não pode tê-lo, mais ninguém o terá. Que é como quem diz, faz os possíveis - é mesmo maldosa - para o afastar da sua pretendente. É intriguista, chorosa, uma vez mais mimada e caprichosa. Não chega a ser ternurenta, é uma peste. Só Heathcliff poderia, de facto, amá-la. E é por isso que são feitos um para o outro.

Heathcliff começa por ser maltratado n'O Monte dos Vendavais. É humilhado e leva uns quantos sopapos, e a única pessoa que costuma ficar do seu lado - até que surja alguém que lhe interesse mais - é a Cathy. Acontece que, um dia, ela deixa-se ter um «insignifcante» capricho pelo Linton - que é loiro, rico e bem aparentado na região. Este afastamento da sua única amiga torna-o frio e áspero e, ao contrário das suspeitas, largamente vingativo. Desaparece no mundo e enriquece e, quando regressa, vem disposto às piores vilanias. É cruel, bruto, não tem respeito nem admiração a ninguém excepto, talvez, à Nelly que é, juntamente com o Hareton, a minha personagem favorita.

A Catherine Linton, filha da Catherine, é outra menina mimada, desobediente, caprichosa e chorona. Tem subidas e descidas de humor, faz promessas que quebra, escapa-se de casa, apaixona-se por um imbecil e deixa-se enganar por todos. Além disso é preconceituosa e desdenha do primo Hareton, que é apaixonado por ela e o único disposto a protegê-la das iras e dos desmandos do Heathcliff n'O Monte dos Vendavais.


A Nelly Dean é a governanta, creio. É metediça, mas é também a voz da razão. Acaba por estar em todo o lugar, saber de tudo e até, ocasionalmente, interfere na vida dos que a rodeiam. É atrevida de língua e dei umas boas risadas graças ao modo aberto como ela desafiava o Heathcliff, que ela praticamente cria, e de quem todos os outros têm medo.

O Hareton é o meu favorito. É a personagens que faz o caminho inverso das outras, que vão endurecendo devido às maldades, e que têm naturezas rancorosas e vingativas. O pai de Hareton Earnshaw, Hindley, estava louco e, como consequência, divertiu-se largamente a aterrorizar o filho quando este é pequeno. Heathcliff toma-o depois a seu cargo, fica-lhe com os bens, embrutece-o ainda mais e Hareton tem-lhe uma lealdade de cão. Ao contrário do próprio Heathcliff, cuja história é semelhante, não odeia o seu carcereiro, pelo contrário, ganha-lhe respeito e afecto, provavelmente porque as raízes humildes (para não dizer miseráveis) de Heathcliff permite a este último entender a degradação em que o próprio Hareton cresce. Mas, ainda que a prima, Catherine Linton, desdenhe do seu analfabetismo, ele ofende-se e fica magoado, mas não lhe ganha rancor. Também não é tão orgulhoso que despeite a amizade dela quando ela lha oferece com honestidade e, é certo, é no coração deste rapaz tão maltratado que surgem as sementes que vão proporcionar a paz e a harmonia a esta família, por fim reduzidas aos dois: Catherine Linton e Hareton Earnshaw, este sim, um amor muito mais bonito do que o da própria Catherine (mãe) com Heathcliff.

terça-feira, 29 de maio de 2012

»Leituras para Junho/Relatório de Maio

Tendo cumprido o meu desafio pessoal a dia 30.05.2012, defino o próximo:
1. Acabar o Sob o Céu de Paris
2. Acabar A Guerra dos Tronos (desisti)
3. Começar e acabar o Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher
4. Começar e acabar o Frankenstein (em vez do Drácula)
5. Começar e acabar O Teu Rosto Será o Último
6. Começar e acabar o Terra de Neve
7. Começar e acabar O Deus das Pequenas Coisas
  

Opcional 1: Um Crime no Expresso Oriente, Agatha Christie

Novas regras:
(pelo menos)
1 autor luso por mês
1 clássico por mês


Desafio de Maio: cumprido
http://castelos-de-letras.blogspot.pt/2012/05/leituras-para-maiorelatorio-abril.html


Li 114/396 páginas do Demência (e terminei-o: http://castelos-de-letras.blogspot.pt/2012/05/30-loureiro-celia-correia-demencia.html)
Li 447/715 páginas d'A Rainha no Palácio das Correntes de Ar (e terminei-o: http://castelos-de-letras.blogspot.pt/2012/05/32-larsson-stieg-rainha-no-palacio-das.html)
Li 293/293 páginas do Ficarei à Tua Espera (e terminei-o: http://castelos-de-letras.blogspot.pt/2012/05/33-baron-michael-ficarei-tua-espera.html)
Li 372/372 páginas do Promessas de Amor (e terminei-o: http://castelos-de-letras.blogspot.pt/2012/05/34-thomas-sherry-promessas-de-amor.html)
Li 254/254 páginas do Soberba Escuridão (e terminei-o: http://castelos-de-letras.blogspot.pt/2012/05/31-ferreira-andreia-soberba-escuridao.html)
Li 315/315 páginas do Monte dos Vendavais (e terminei-o: http://castelos-de-letras.blogspot.pt/2012/05/35-bronte-emily-o-monte-dos-vendavais.html)
Li 61/379 d'A Guerra dos Tronos
Li 54 páginas do Sob o Céu de Paris


Total: 1910 páginas em Maio

#35 BRONTË, Emily - O Monte dos Vendavais

Sinopse: O Monte dos Vendavais é uma das grandes obras-primas da literatura inglesa. Único romance escrito por Emily Brontë, é a narrativa poderosa e tragicamente bela da paixão de Heathcliff e Catherine Earnshaw, de um amor tempestuoso e quase demoníaco que acabará por afectar as vidas de todos aqueles que os rodeiam como uma maldição. Adoptado em criança pelo patriarca da família Earnshaw, o senhor do Monte dos Vendavais, Heathcliff é ostracizado por Hindley, o filho legítimo, e levado a acreditar que Catherine, a irmã dele, não corresponde à intensidade dos seus sentimentos. Abandona assim o Monte dos Vendavais para regressar anos mais tarde disposto a levar a cabo a mais tenebrosa vingança. Magistral na construção da trama narrativa, na singularidade e força das personagens, na grandeza poética da sua visão, nodoso e agreste como a raiz da urze que cobre as charnecas de Yorkshire, O Monte dos Vendavais reveste-se da intemporalidade inerente à grande literatura.


Opinião: O Monte dos Vendavais é um daqueles títulos de livro que chegam a toda a gente, inclusive a quem não costuma ler. Eu não fazia ideia do que se tratava, mas o mais próximo que pensei estar da verdade foi ao compará-lo com o E Tudo o Vento Levou. Estava enganada porque ambos os livros são sobre guerra – a obra prima da Mitchell fala sobre a Guerra de Secessão na América, enquanto o Monte dos Vendavais fala sobre uma série de guerras interiores, praticamente tão extensos no acompanhamento de personagens um quanto o outro. Refiro ainda que ambas as mulheres, Mitchell e Brönte, publicaram apenas uma obra e que estas fazem parte dos melhores círculos da literatura internacional.
Quanto ao Monte dos Vendavais, para quem nunca ouviu falar do livro – ou para quem, como eu, já tinha ouvido falar mas sem encetar a viagem necessária pelas suas páginas – é a história de duas famílias, os Earnshaw e os Linton, conspurcada por um amor diabólico entre duas pessoas. Duas pessoas que foram incapazes de se abrir uma perante a outra. Talvez um título adequado para este romance fosse “Orgulho e Preconceito”, porque os há aqui mais do que na obra da Jane Austen assim baptizada. É a história de como os piores sentimentos germinam nos peitos rancorosos, incitados por mesquinhezes e ódios, e estas pessoas se tornam sedentas de vingança. É sobre vingança, sim. É sobre tirar o que se pôde a quem nos fez mal, sobretudo aquilo que lhe sabemos ser mais valioso. A Emily prestou-se a um mergulho a fundo na natureza humana, e emergiu dela para este romance com o pior que lá encontrou.
Acho que a Emily fez uma aposta inteligente quando colocou a governanta do Monte dos Vendavais, Nelly Dean, a contar a história da família ao novo inquilino da Granja vizinha ao Monte, Mr. Lockwood. Depois é louvá-la, à Nelly pelas suas francas oscilações de humor, tão facilmente compreensíveis por qualquer humano que nem requerem explicação. E à Emily, por aceitar revelar o nível de introspecção que creio ter sido necessário para a construção deste livro em particular.
Quanto às personagens, muitos são apenas capazes de se referir a elas com amor ou ódio… Eu sou incapaz, menos de uma hora depois de ter lido o livro, de reflectir sobe o seu carácter, os seus motivos e os seus comportamentos. Deste modo me comprometo, após reflectir, a criar um tópico somente sobre Catherine Earnshaw e Heathcliff.
Classificação: 5*****
Sobre as personagens

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Citação #1

#1

Diálogo entre Catherine Earnshaw e Nelly Dean, a ama, decorrido no mesmo momento:

Sobre o amor de Catherine a Edgar Linton

«- Antes de mais nada, ama Mr. Edgar?
- Quem pode deixar de o amar? Claro que amo.
Submeti-a, então, ao seguinte catecismo, a que não faltava acerto, vindo de uma rapariga de vinte e dois anos:
- Porque é que o ama, Miss Cathy?
- Que disparate, amo-o: isso basta.
- De modo algum; deve dizer porquê.
- Bem, porque é bonito, e é agradável estar com ele.
- Mau - foi o meu comentário.
- E porque é jovem e alegre.
- Mantenho o mau.
- E porque ele me ama.
- Indiferente, nesse ponto.
- E será rico, e eu gostaria de ser a mulher mais importante das redondezas, e sentirei orgulho de ter tal marido.
- Pior que tudo! E agora, quer dizer-me como o ama?
- Como toda a gente ama. É tola, Nelly.
- Não, não sou. Responda.
- Amo o chão que ele pisa, o ar que respira, e tudo aquilo em que toca, e cada palavra que ele diz... Amo todas as suas feições, e todos os seus actos, e a ele todo e completamente. Pronto, aí tem!
- E porquê? (...) Longe de mim estar a troçar, Miss Catherine. A menina ama Mr. Edgar porque ele é bonito, e jovem, e alegre, e rico, e a ama. O último pormenor, no entanto, não vale nada: amá-lo-ia sem isso, provavelmente, e, com isso, poderia não o amar, a não ser que ele possuísse os primeiros quatro atractivos (...) Mas há no mundo vários outros jovens bonitos e ricos, possívelmente, até, mais bonitos e mais ricos do que ele é... O que a impediria de os amar? (...) E ele não será sempre jovem e bonito, e poderá não ser sempre rico.
- Agora é. E a mim só me interessa o presente (...)
- Bem, isso arruma a questão: se só lhe interessa o presente, case com Mr. Linton.»

Sobre o amor de Catherine a Heathcliff

«Agora desagradar-me-ia casar com Heathcliff; por isso, ele nunca saberá como o amo, e amo-o, não por ele ser bonito, Nelly, mas porque ele é mais eu própria do que eu sou. Seja do que for que as nossas almas são feitas, a dele e a minha são iguais, e a de Linton é tão diferente quanto um raio de luar é de um relâmpago, ou a geada do fogo (...) Não sei exprimi-lo, mas certamente vossemecê e toda a gente têm a noção de que existe, ou deveria existir, uma existência nossa para além de nós. Para que serviria a minha criação se eu estivesse inteiramente contida aqui? Os meus grandes tormentos neste mundo têm sido os tormentos de Heathcliff, e eu observei e senti cada um deles desde o princípio; o meu grande pensamento na vida é ele. Se tudo o mais desaparecesse, e ele permanecesse, eu continuaria a existir, e se tudo o mais desaparecesse e ele permanecesse, eu continuaria a existir, e se tudo o mais permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo transformar-se-ia num imenso desconhecido. Eu não pareceria uma parte dele. O meu amor por Linton é como a folhagem das florestas. O tempo há-de mudá-lo, tenho perfeita consciência disso, como o Inverno muda as árvores. O meu amor por Heathcliff assemelha-se às rochas eternas que existem por baixo: uma fonte de pouco deleite visível, mas necessárias. Nelly, eu sou Heathcliff, ele está sempre na minha mente, não como um prazer, do mesmo modo que eu não sou sempre um prazer para mim mesma, mas como o meu próprio ser.»

O Monte dos Vendavais, Emily Brontë


#2
Desabafo de Heathcliff para com Catherine:

«- Estás a mostrar-me agora como foste cruel, cruel e falsa. Porque me desprezaste? Porque traíste o teu próprio coração, Cathy? Não tenho uma palavra de conforto: tu mereces isto. Mataste-te a ti própria. Sim, podes beijar-me, e chorar, e arrancar-me beijos e lágrimas. Eles desgraçam-te, elas amaldiçoam-te. Amavas-me. Sendo assim, que direito tinhas de me abandonar? Que direito, responde-me!, tinhas de sentir o insignificante capricho que sentiste por Linton? Como nem a miséria, nem a degradação, nem a morte, nem nada que Deus ou Satanás pudessem inflingir nos teria conseguido separar, tu, por tua própria verdade, fizeste-o. Eu não despedacei o teu coração: tu é que despedaçaste o meu. Pior, muito pior para mim que sou forte. Quero viver? Que vida será a minha quando tu... Oh, Deus! Gostarias tu de viver com a tua alma na sepultura?»


#3

Heathcliff a propósito do filho do seu inimigo, a quem abriga por morte do segundo:

«- Ele causa-me prazer! - continuou a pensar alto. - Satisfez as minhas expectativas. Se fosse um idiota nato, não me agradaria tanto. Mas não é idiota nenhum, e eu posso compreender todos os seus sentimentos, porque os senti pessoalmente. Sei, por exemplo, o que está a sofrer agora, exactamente, e que não é mais do que o começo do que sofrerá. E ele nunca será capaz de emergir do seu absurdo de rudeza e ignorância. Tenho-o mais apertado do que o patife do pai me teve a mim, e mais rebaixado, pois ele orgulha-se da sua bruteza. Ensinei-o a desdenhar de tudo quanto não é animal como sendo estúpido e fraco (...) Se o maldito defunto pudesse levantar-se da cova para me insultar pelos danos causados ao seu rebento, eu teria o prazer de ver o dito rebento enxotá-lo de novo para lá, indignado por ele se atrever a injuriar o único amigo que tem no mundo!
A ideia fez Heathcliff soltar uma gargalhada diabólica.»

terça-feira, 22 de maio de 2012

»34 THOMAS, Sherry - Promessas de Amor

Sinopse: Elissande Edgerton é uma mulher desesperada, uma prisioneira na casa do tio tirano. Apenas através do casamento pode ela reivindicar a liberdade por que anseia. Mas como encontrar o homem perfeito? Lorde Vere está habituado a armadilhas irresistíveis. Como agente secreto do governo, localizou alguns dos criminosos mais tortuosos em Londres, enquanto mantém a sua fachada de solteirão idiota e inofensivo. Mas nada pode prepará-lo para o escândalo de ser apanhado por Elissande. Forçados a um casamento de conveniência, Elissande e Vere estão prestes a descobrir que não são os únicos com planos secretos. Com a sedução como única arma - e um segredo obscuro do passado a pôr em risco as vidas de ambos – poderão eles aprender a confiar um no outro, mesmo enquanto se entregam a uma paixão que não pode ser negada?

Opinião: O primeiro livro que li da Sherry Thomas foi o “Um Amor Quase Perfeito”. Visto que já li centenas de romances históricos – costumava ler um por noite, que baixava da internet e devorava até altas horas da madrugada – é-me impossível catalogá-los todos e, mais ainda, é-me impossível distingui-los. Mas os da Sherry distinguem-se, sem dúvida. Não só as personagens são únicas, como são inteligentes, perspicazes, transcendem os limites da ficção e parecem-nos quase pessoas comuns e excepcionais. O Lorde Vere, por exemplo, foi acusado por alguns críticos ao romance de ser estupidamente idiota. Ora bem; leram bem o livro? Qual é a parte que não entenderam sobre ele ter inúmeros motivos, entre os quais ser Agente da Coroa, para se fingir de tolo? Era importante que ninguém lhe desse credibilidade. Ri-me sobremaneira com as situações que proporcionou, e arrepiei-me literalmente quando emergia desse torpor de asno e assumia a inteligência que era, de facto, dele. Ele esteve sempre muito à frente de todos no livro, muito honesto e fiel a si próprio nas suas desconfianças. Apercebi-me agora que costumo gostar muito mais dos personagens masculinos que a Thomas cria do que dos femininos. A Verity, d’O Fruto Proibido, passou-me quase ao lado. Foi ele, o Stuart, com a sua franqueza imperturbável, que me ficou na memória. A Lady Tremaine chamava-se como, mesmo? Estou a falar do meu romance “romance” favorito de todos os tempos e não me recordo do nome dela. Ele? Lorde Tremaine? Chamava-se Camden e foi inesquecível, tortuoso, lógico e brilhante. Mas gostei da Elissande, entendi os seus motivos e anseio igualmente pela liberdade que ela ansiava. Não é uma tola em busca de amor – é uma prisioneira em busca de ar fresco.
Por algum motivo os RITA Awards elegeram o “Promessas de Amor” como o melhor romance histórico de 2011. A Thomas não se limita a criar enredo para cama e romance com “um bocadinho de estória” (odeio esta forma de escrever estória, mas quis que se entendesse do que falo). Não, não. Os livros dela têm História, intriga, inteligência, acção, romance, sensualidade, sofrimento, etc., quanto baste. Ainda não a vi cair em clichés. Pelo menos, até aqui, nenhuma das suas personagens principais foi raptada. Não houve mal-entendidos ridículos entre o casal-maravilha. Há sim motivos plausíveis – e culpas mútuas – para que se mantenham afastados. E ela descreve a solidão, a distância, o afastamento… o anseio por quem se ama como ninguém. Pensar em “Um Amor Quase Perfeito” ainda me traz angústias…
                Aquele maravilhoso trecho em Copenhaga… <3
Classificação: 5*****

segunda-feira, 21 de maio de 2012

#33 BARON, Michael - Ficarei à Tua Espera

Sinopse: Por vezes, o que nos ultrapassa é precisamente aquilo de que necessitamos... 
Gerry Rubato tinha tudo o que julgava precisar da vida. Continuava apaixonado pela namorada dos tempos da faculdade, com quem casara há quase vinte anos; tinha uma filha inteligente e de espírito autónomo e a novidade de um novo filho a caminho. Foi então que tudo mudou drasticamente. Sem grandes explicações, a filha fugiu com o namorado e um mês após o nascimento do filho, a mulher morreu de repente. Agora Gerry tem que enfrentar um novo desafio, pois precisa de ser tudo para o seu filho recém-nascido e ter coragem para continuar a lutar e refazer a sua vida. Carregado de ternura, humor, sabedoria e personagens inesquecíveis, Ficarei à tua Espera é um romance que lhe vai arrebatar o coração.

Opinião: A comparação que um dos críticos fez, entre o Michael Baron e o Nicholas Sparks, não é de todo despropositada. O livro tem, de facto, um enredo tipicamente Sparksiano. Felizmente, é um pouco mais profundo do que isso. Ainda não assim, não foi o suficiente para me cativar. Além de uma obsessão óbvia pela palavra «fascínio», palavra que me irrita deveras quando constantemente utilizada a propósito de sopas, o autor meteu demasiado baseball no livro. Dá ideia que precisa de encher chouriços. É interessante o desenvolvimento da relação do pai com o filho bebé, assim como o desenvolvimento do pequenino. É até tocante a perda pela qual passa, e não quereria imaginar-me nessa situação. Mas é um livro muito leve, muito corriqueiro, aborreceu-me deveras várias vezes. Se tivesse voltado atrás, não teria apreendido esta pequena viagem. Faço uma ressalva ao bom humor do autor, que me pôs a rir com algumas deixas. Quanto à editora, houve uma altura do livro em que o texto tem umas quantas gralhas – perguntei-me se a revisora estaria a ter um mau dia quando reviu este livro. É uma leitura leve, ideal para as férias de verão e para quem não quer aborrecer-se demais com a leitura. Houve um ou outro momento em que me comovi… o autor é bom a expressar sentimentos. É o enredo que não me prendeu.
Classificação: 3***

domingo, 20 de maio de 2012

»mais duas opiniões sobre o «Demência»

20 Maio 2012 - Margarida Costa - 5 (em 5)


Acabei de ler o livro e estou absolutamente encantada!

Nunca pensei dar a minha opinião sobre um livro publicamente. Não sou crítica literária, sou apenas uma leitora que gosta de bons livros. Por norma apenas partilho a minha opinião com as pessoas mais chegadas e a quem gosto de “tentar” com as minhas leituras, para depois partilharmos pensamentos, sensações e até talvez criticas, mas nunca me atrevi a fazê-lo publicamente.

Este caso foi diferente! As emoções ao ler o livro foram tão intensas que senti que tinha de dizer alguma coisa.

Gosto muito de autores portugueses! Gosto de “estórias” sobre este nosso cantinho e tenho sempre curiosidade em conhecer os nossos novos autores.
Ao ler a sinopse fiquei conquistada. Talvez pelo facto de referir uma aldeia beirã e as minhas raízes virem de uma! Ou pelo tema ou talvez apenas curiosidade por ser uma autora tão jovem e portuguesa. Não sei, conquistou-me e não descansei enquanto não consegui o livro, o que aconteceu exactamente através da autora, com quem troquei alguns e-mail e cuja personalidade naquelas poucas palavras me fascinou. E não me enganei! Ela é fascinante.
Assim que comecei a ler o livro, confirmou-se uma boa escolha! É um livro com bastante ritmo, que nos prende desde a primeira frase e que se torna difícil de pousar. Uma história arrebatadora!
Os temas que escolheu são ambiciosos por dolorosos e difíceis, infelizmente reais mas a autora não teve medo de lhes pegar e trabalhou-os com uma maturidade que nos espanta numa pessoa tão jovem. Mostrou um conhecimento profundo do Mal e da alma humana e do Mundo, que gente bastante mais velha não possui.
A escrita é acessível e fluída, arrebatadora mas também profunda e nota-se que foi crescendo ao longo do livro. Gostei e tive dificuldades em “livrar-me” dele depois de lido, é tão intenso que permanece em nós mesmo depois de terminado, e talvez por isso sentisse necessidade de falar sobre ele, tinha de o “expulsar”.
No final da leitura fica a sensação que somos amigos, vizinhos ou simples conhecidos das personagens e que gostaríamos de continuar com elas, é difícil despedirmo-nos…
São personagens fortes com uma grande carga psicológica intensa, que ao longo do livro nos emocionam, nos revoltam, que nos fazem ter vontade de interferir, que nos fazem “torcer” por elas. Os “recadinhos” de Olímpia a ela própria são enternecedores, e fazem-nos pensar como deve ser desesperante não conseguir lembrar. Luz e Maria são as filhas que todos gostaríamos de ter, embora ache que pelo menos a Luz podia ter tido um papel mais relevante. A força e a coragem de Letícia impõem-se no decurso da trama e emocionam-nos ainda que por vezes nos revolte a falta de reacção perante o que pensam dela e não reaja perante tanta injustiça, mas é um romance e não a vida real.
As personagens masculinas principais, Sebastião e Gabriel, embora de gerações diferentes, são movidas pelos mesmos sentimentos: amizade, amor, e acima de tudo a necessidade de proteger as mulheres que de uma forma ou outra fazem e fizeram sempre parte da sua vida, são personagens muito ricas. Acho que o Sebastião podia ter sido um pouco mais explorado e ter tido um papel mais activo.
Não vou obviamente contar a história. Essa terá de ser uma experiência pessoal, mas digo: vale a pena. É uma história sobre o nosso tempo, mas é também intemporal. É uma história sobre sentimentos, emoções, lutas interiores, mas é também uma história sobre o nosso Portugal interior com grande riqueza de pormenores, com cor, com cheiros…
A Célia tem talento, na minha humilde opinião muito talento! Tenho a certeza que virá a ser um grande nome no panorama literário português. Leiam este “Demência” e compreenderão o que digo. Eu já o fiz e já espero ansiosamente o próximo livro.
Obrigada Célia. Continue sempre e sempre igual a si própria.
Parabéns.

(quase chorei, Margarida, obrigada!!!)

16 de Maio 2012 - Susana Cardoso - 3,5 (em 5)

Este é um livro de leitura bastante acessível. Que retrata temas muito actuais e que deveriam ser discutidos com mais frequência. Um livro com personagens envolventes e um ritmo constante e agradável. A Célia é uma escritora promissora, e sendo este o seu início de carreira, estou certa de que, se ela realmente optar pela escrita ao longo da vida, terá sucesso junto do público, principalmente feminino.
Toda a evolução temporal é bastante coerente. Não denotei nenhuma falha, e está em completa concordância com a realidade (21 de Dezembro de 1945 foi, de facto, uma Sexta-feira)
Outro ponto bastante positivo, pelo menos na minha opinião, é que o livro não foi escrito obedecendo ao Acordo Ortográfico de 1990. 
Na minha opinião, as duas histórias principais deste livro competem uma com a outra pela intensidade e, julgando pelo título do livro, pensei que se centrasse mais sobre uma delas. Tenho pena que assim não tenha sido. A autora decidiu conferir maior intensidade ao romance do que própriamente à doença mental, o que tenho a certeza cativará mais público.
Ao longo da leitura, apercebi-me de algumas falhas gramaticais, ou de escolhas de um ou outro vocábulo menos felizes, mas nada que o treino não resolva.
No geral, é um bom trabalho, mas com possibilidade de melhorar a nível técnico (uso de mais figuras de estilo, vocabulário mais abrangente). Uma excelente escolha para uma leitura de férias.

(Obrigada Susana, especialmente pelo trabalho de análise profunda à obra que me enviou por e-mail!)

Obrigada às duas e a todos os outros leitores :)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

»Na prateleira e por ler

Certamente que não sofro sozinha deste mal:
- Ter cerca de 27,5% dos livros de que disponho ainda por ler.

Decidi listá-los e lançar-me a uma leitura activa dos mesmos.
Devo estar numa óptima fase porque decidi que não compro mais livros enquanto não ler pelo menos cinco dos que me proponho a ler.

Em baixo a lista dos livros (meus) que nunca li:

Ora cá estão esses 27,5% da minha biblioteca:
A azul os primeiros cinco a que me lançarei...

  1. O Priorado do Cifrão, João Aguiar
  2. Retrato de Ricardina, Camilo Castelo Branco
  3. Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett
  4. És o Meu Segredo, Tiago Rebelo
  5. O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro
  6. Uma Linha de Torres, Emílio Miranda
  7. As Flores do Templo, Rani Manicka
  8. A Leste do Sol, Julia Gregson
  9. As Vinhas da Ira, John Steinback
  10. A Pérola, John Steinback
  11. Blonde, Joyce Carol Oates
  12. O Monte dos Vendavais, Emily Brönte
  13. Jane Eyre, Charlotte Brönte
  14. Sense and Sensibility, Jane Austen (EN)
  15. Mansfield Park (EN)
  16. O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas
  17. Vinte Quatro Horas na Vida de Uma Mulher, Stefan Zweig
  18. Leite Derramado, Chico Buarque
  19. Um Capricho da Natureza, Nadine Gordimer
  20. A Ratazana, Günter Grass
  21. As Meninas dos Chocolates, Annie Murray
  22. A Casa na Rua da Esperança, Danielle Steel
  23. O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy
  24. Flores na Tempestade, Laura Kinsale
  25. A Ilha dos Desencontros, Anita Shreve
  26. Testemunho, Anita Shreve
  27. Um Fogo Eterno, Barbara & Stephanie Keating
  28. Luz Efémera, Barbara & Stephanie Keating
  29. Promessas de Amor, Sherry Thomas
  30. Dracula, Bram Stoker
  31. Desejos do Coração, Jude Deveraux

Veremos...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

#32 LARSSON, Stieg - A Rainha No Palácio das Correntes de Ar



1891 páginas depois, acabei de ler a Trilogia Milénio, do falecido jornalista Stieg Larsson. Com esta “viagem” atribulada de quase cinco meses, tirei várias conclusões sobre mim como leitora, sobre o meu género de livro e, sobretudo, sobre o não me meter em Trilogias/Sagas porque é um desgaste enorme de tempo e cabeça. Muitas vezes avançamos frustrados, na ânsia de resolver todas as pontas soltas de uma vez, de chegar à realização dos heróis e à punição dos bandidos. Esta Trilogia é, média de pontuações, 5*****. No entanto, devo dizer que o segundo livro é, de longe, o meu favorito. E o terceiro o mais “fraco” em termos de ritmo e entusiasmo.

Como leitora dei por mim a pensar, várias em vezes, em como o Larsson conseguiu hipnotizar-me. Quando algo me é difícil demais, desisto. No entanto sorvo 1891 páginas de uma cultura que desconheço - a sueca - de pessoas que me são estranhas e com as quais não é suposto ter ponto algum de concordância - o jornalista mulherengo Blomkvist e a excêntrica hacker da Salander, de um governo e um sistema judicial ao qual nunca tinha dedicado dois minutos, à própria Europa do Norte e às suas questões financeiras - indústria, investimentos, equipamentos, e social - imigração, comunicação social, problemas sociais. E política, claro. Primeiros-ministros, monarquia, etc., etc., etc.. Fiquei orgulhosa de mim por ter mergulhado tão fundo em questões tão complexas. Os livros são o raio de uns tabuleiros de xadrez avançadíssimo. Por vezes dei por mim totalmente às aranhas e só esforçando-me à séria cheguei lá... Mas são simultaneamente acessíveis, e por isso consegui!

Adorei o surrealismo das situações que o Larsson teceu em teia ao longo de três longos livros, adorei o modo quase científico como alinhavou as explicações. Convenceu-me do princípio ao fim, pôs-me a rir - a franguela da Salander avia dois motoqueiros machões com um taser e uma pistola que consegue remover das mãos dum deles - e fez-me amar de coração uma autêntica heroína massacrada dos tempos modernos, que não se fica e é francamente mais inteligente do que todos ao seu redor. Oh Lisbeth... vou ter saudades tuas!

Esta personagem [Lisbeth Salander] é épica, ao lado da Scarlett O’Hara do “E Tudo o Vento Levou”, é a minha favorita de tudo o que li até agora. Com a sua extrema magreza, olhos pintados de negro, tachas e correntes, saias curtas de couro, botas de biqueira de aço e cabelo tingido de preto e escortanhado, com piercings nos mamilos e tatuagens por todo o lado... Adorei o seu passado, admiro-a, admiro o seu instinto esmagador de sobrevivência. Amo o facto de ter sido, ao longo dos três livros e sob descrição do próprio Mickael Blomkvist “Uma rapariga cheia de recursos”. Acabou a trilogia com uma pistola de pregos eléctrica na mão, a lutar por se safar às manápulas implacáveis dum gigante sem sensibilidade à dor.

O Larsson habituou-me à sua escrita quase jornalística. Por vezes áspera, por vezes comparável à de uma menina inocente. “Fazer amor”, aplicado a um mulherengo. “F**er”, quando é a Lisbeth Salander a dizê-lo.

Sinopse: Lisbeth Salander sobreviveu aos ferimentos de que foi vítima, mas não tem razões para sorrir: o seu estado de saúde inspira cuidados e terá de permanecer várias semanas no hospital, completamente impossibilitada de se movimentar e agir. As acusações que recaem sobre ela levaram a polícia a mantê-la incontactável. Lisbeth sente-se sitiada e, como se isto não bastasse, vê-se ainda confrontada com outro problema: o pai, que a odeia e que ela feriu à machadada, encontra-se no mesmo hospital com ferimentos menos graves e intenções mais maquiavélicas…

Entretanto, mantêm-se as movimentações secretas de alguns elementos da Säpo, a polícia de segurança sueca. Para se manter incógnita, esta gente que actua na sombra está determinada a eliminar todos os que se atravessam no seu caminho.
Mas nem tudo podia ser mau: Lisbeth pode contar com Mikael Blomkvist que, para a ilibar, prepara um artigo sobre a conspiração que visa silenciá-la para sempre. E Mikael Blomkvist também não está sozinho nesta cruzada: Dragan Armanskij, o inspector Bublanski, Anika Gianini, entre outros, unem esforços para que se faça justiça. E Erika Berger? Será que Mikael pode contar com a sua ajuda, agora que também ela está a ser ameaçada? E quem é Rosa Figuerola, a bela mulher que seduz Mikael Blomkvist?
Também revi este da Trilogia Milénio:

Opinião: Sabe-se, praticamente desde o início, que a Lisbeth Salander vai ser julgada. Acontece que ela foi quase mortalmente ferida pelo Zalachenko, pelo que passa metade do livro a restabelecer-se no Hospital, sob vigia médica e policial. O julgamento só sucede praticamente nas últimas duzentas páginas de um livro de 731. É no mínimo frustrante. Todo o livro é um jogo de estratégia avançada. É por isso que fiquei estupefacta com a mente brilhante do Larsson. Temos, em várias frentes e sob diversos propósitos, todos em conjunto para conduzirem a absolição/condenação/internamento da Lisbeth conforme os favorece, a polícia sueca, a Säpo (polícia especial de segurança do estado), a Secção dentro da Säpo (um banco de rufiões a manipular os assuntos de estado), a revista Milénio (com Mickael Blomkvist na frente e os seus colaboradores na sua peugada), a Milton Security, o psiquiatra de Lisbeth desde os seus doze anos, Peter Teleborian, e o tutor de Lisbeth desde os dezasseis. É um combate épico em que o estado se contorce para esconder espiões estrangeiros do tempo da Guerra Fria, questões de violência doméstica abafadas, prostituição, escutas e atentados ilegais, pervertidos a perseguir o objecto das suas obsessões, imigrantes a tentar entrar no país em busca de uma vida melhor e a serem inseridas violentamente em redes de prostituição internacional, exploração infantil, desfalques, deturpação de provas, etc., etc.. E a Salander no centro disto tudo, somente munida de um computador de bolso (ela, uma hacker brilhante) estendida numa cama com um colar cervical e a cicatriz recente de uma bala que lhe foi extraída do cérebro...
 
Classificação: 5*****

sábado, 12 de maio de 2012

»Primeira frase da obra II

Hoje estive na feira do livro com a minha editora, e a dado momentou falam-me da importância da primeira frase de um livro. Eu já tinha ouvido essa associação de ideias algures (inclusive fiz um post neste blogue), e decidi testar a qualidade das primeiras frases das minhas obras. Tudo porque a Dulce Maria Cardoso, com o seu "O Retorno", pareceu deixar todos KO com esta frase:

"Mas na metrópole há cerejas"


Decidi fazer um apanhado das primeiras frases dos meus projectos:



Demência
«Olímpia Vieira era, aos sessenta e três anos, um osso duro de roer.»

O Funeral da Nossa Mãe
«Decidiu que o faria ao nascer do dia.»

A Portuguesa
«Até aos trinta e dois anos nunca senti qualquer espécie de realização pessoal.»

1809
«D. João de Albuquerque apoiou a mão da sua única filha conforme esta subia para a berlinda.»

1755
«O novo espaço era amplo, solarengo e impossível de cingir com o olhar.»

Os Pássaros
«A casa era um lugar seguro.»


Surpreende-me ver que traduzem uma importância significativa (se não crucial) em relação ao curso de todos eles.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

»Demência, Críticas e Entrevistas

Compilação:


Opiniões do “Demência”



1 - Isabel Almeida

Blogue: “Os Livros nossos”
Classificação: 5*****


2 - Andreia Ferreira (autora de “Soberba Escuridão”)
Blogue: “D311nh4”
Classificação: 5*****


3 - Clarinda Cortes
Blogue: “Ler é Viver”
Classificação: 5*****


4 - Cristina
Blogue: O tempo entre os meus livros
Classificação: 4****+


5 - Carla M. Soares (autora de “Alma Rebelde”),
Blogue: “Monster Blues”
Classificação: 4(,5)*****


Outras:

6 - Sofia Rodrigues

Podia ser um livro qualquer como tantos outros. Mas este é especial. Soube-o assim que passei os olhos pela sinopse: Alzheimer. Para muitos esta palavra será igual, banal como tantas outras. Não para mim. Seria apenas o reflexo desfocado pelo tempo de uma realidade que me bateu à porta, mas em vez disso deixou marca profunda na minha memória. Hoje adulta, outrora uma criança, que viu a adorada bisavó a ficar estranha, confusa. Ou como diria a Célia, demente. Por que no fundo é disso mesmo que se trata, uma demência que sem pena nem pudor vai roubando a memória aos pedaços, deita fora peças de uma vida, esfuma aquilo que nos faz sentido. Dos muitos episódios estranhos a que assisti, os quais não importa nomear, refiro um. Aquele que até hoje me enche de lágrimas os olhos. Os mesmos olhos que imploraram por reconhecimento. No dia em que tu “avó” (como sempre te chamei) não me reconheceste. Querias ver a tua menina. Vieram todas as da aldeia… e não era nenhuma delas. Até que cheguei eu. Estava ali à tua frente e os teus olhos ignoraram-me com uma frieza atroz. Olhaste para um retrato meu (tirado três anos antes) e lá estava a tua menina. Não eu. Eu, e tantos outros, fomos apagados. Passei a ser uma intrusa. Mais uma estranha aos teus olhos. Doeu demais…

Mas enfim, esta opinião, crítica ou aquilo que lhe queiram chamar não é sobre mim. Quis apenas justificar parte do meu interesse pela história. Isto de sair da história para entrar nas partidas que a memória nos prega enquanto lemos, tem muito que se lhe diga!

O Demência, livro da Célia Correia Loreiro, não é sobre Alzheimer. Também não é sobre violência doméstica. Ou sequer sobre a luta de uma mulher para sobreviver às marcas impressas pelo passado e que o presente insiste em lhe relembrar a cada passada que dá. É, na minha opinião, a simbiose perfeita de tudo isso indo mesmo, diria, um pouco mais além. Numa amálgama de sentimentos, os olhos voam sobre as palavras da Célia. As páginas viram-se sozinhas e quando damos por isso já mergulhámos na história. Não queria desvendar demasiado o que se passa nestas 394 páginas, mas gostaria imenso de que, com as minhas palavras, outras pessoas sentissem curiosidade de as ler. É bom dar uma oportunidade a uma autora portuguesa que está ainda a dar os primeiros passos no mundo dos livros enquanto objecto impresso, mas que já é uma “veterana” neste jogo da palavra, na conjugação perfeita daquilo que são personagens, histórias e destinos.
A certa altura, admito, senti que a Olímpia foi um pouco deixada no esquecimento da história. Perguntei-me o que lhe estaria a acontecer enquanto a Letícia lhe roubava o protagonismo. Não é um reparo ou crítica negativa, mas apenas uma constatação. Com o decorrer da leitura percebi apenas que era o meu lado sentimentalista que se perguntava por ela.

Achei incríveis de tão realistas as descrições dos espaços, das mentalidades e costumes. Também eu cresci num aldeia como aquela que é palco deste livro. E é tal e qual. A integridade e humildade de uns são rapidamente abafadas pela mente fechada, costumes desgastados por um tempo injusto que já foi. Ou deveria ter ido e ainda permanece.

A Letícia é uma mulher fictícia com uma imensa força. Há muitas Letícias por aí. Vítimas da velha (mas sempre recorrente) história do lobo que vestia pele de cordeiro e quase lhe destruiu a vida. Quase. No fim de contas, isto é um romance!

Célia, confesso, que tenho evitado ler os últimos excertos que tens publicado. Li os primeiros e fiquei com uma terrível vontade de ler o teu próximo livro! Penso que já se percebeu que sou fã da forma como escreves. Expões a história ao sabor de um jogo de palavras, conceitos e sentimentos que simplesmente adoro.»
Obrigada também pela dedicatória. Palavras tão simples mas que marcam a diferença. Como vês, apaixonei-me pela história e mantenho contacto contigo!

Um grande beijinho;
Sofia»
  
7 - Ana Filipa Marques

«O rating que atribuí ao livro não teve nada a ver com o facto de conhecer a escritora.

A história, por sua vez, teve a capacidade de me transportar para todo aquele mundo imaginário/real com o qual nos vamos deparando ao longo da mesma. A maneira como o percurso das diferentes personagens vai sendo traçado, o desespero destas, a angústia e o sofrimento com o qual nos cruzamos também nos sufoca a nós leitores.

É demasiado fácil criar uma relação de amor/amizade com as personagens. Desde o mais novo ao mais velhinho, passando pelo bom e pelo vilão, todas elas demonstram a sua subtileza, a sua compaixão, o motivo pelo qual agem de certa maneira perante determinado problema.
É extremamente importante que o leitor, enquanto ser humano capaz de compreender todo o mundo e todas as alternativas que tem ao seu dispor ao longo da vida, compreenda o porquê de Letícia ter tomado alguma decisões no passado que irão de encontro à história de vida de Olímpia, que sucumbirá num dos mais lamentáveis e incompreensíveis desfechos.

O bom na história é que ao lê-la é possível que captemos os cheiros daquela explêndida aldeia. No final irão ver que foi tão bom simpatizar com todas aquelas mulheres e aqueles homens. Foi tão bom compreender a Letícia e verter uma lágrima pela Olímpia. Melhor que tudo isto será descobrir, no final, que afinal valeu a pena...que tudo vale a pena. Que a vida é uma montanha russa na qual nos podemos perder e encontrar de novo.»


8 - Vanessa (de) Campos

Sou uma leitora de 22 anos, razão pela qual (penso eu) este género literário não é o que mais me estimula. Daí a minha pontuação ser de 4 estrelas.
Em relação ao livro em si, abstraindo-me dos meus gostos literários, penso que é um livro que realmente nos transporta à pequena aldeia beirã, e que nos faz sentir um pouco do que as personagens vão sentido ao longo do livro, tanto física como emocionalmente. Também gostei particularmente das conclusões que se vão tirando ao longo do livro, e de como as personagens vão evoluindo neste campo, pois não mostram ser personagens estáticas, o que na minha opinião é bastante importante tanto na literatura como no cinema (a existência de um arco de personagem).
Sobre a autora do livro, com 22 anos apenas, demonstra realmente alguma maturidade emocional pouco característica desta idade. A forma como descreve situações tão delicadas e nos transporta para lá, pondo-nos mesmo na situação/perspectiva das personagens sem tomar um partido como único é espectacular e delicada, demonstrando um elevado grau de maturidade neste aspecto.

É um livro que aconselho a ler, especialmente a um público mais maduro que com certeza irá sentir o livro de forma mais intensa.

Vanessa de Campos.


Entrevistas

1- Isabel Almeida,
Blogue: “Os Livros nossos”

«Sempre fiquei meio assombrada por ver o modo como o ambiente condiciona crenças, modos de vida, costumes, superstições, o próprio certo e o errado. Sempre lhes invejei a liberdade, também. Aquelas pessoas estão cingidas a um pequeno espaço, que assume assim a dimensão do mundo inteiro, e circulam nele como se circulava quase há séculos atrás.»

2 - Sofia Teixeira
Blogue “Morrighan”


«Quais as tuas influências?
Nenhumas. De todas as vezes que quis aplicar «influências» nos meus enredos, desisti e apaguei tudo. Não sou a Isabel Allende nem a Joanne Harris, por muito que as admire. A cada vez que quis pôr um espectro a atravessar uma sala dei-me conta disso.»

3 - Andreia Ferreira (autora de “Soberba Escuridão”),
Blogue: “D311nh4”


«De onde surgiu a ideia para esta história?
Não partiu de nenhuma experiência pessoal ou próxima de violência doméstica, mas talvez da minha veia feminista e de considerar um ultraje que os homens se prestem a esse papel de monstros. Creio que, embora actualmente também já existam homens vítimas do mesmo mal, sendo a mulher a vítima é pior ainda porque estamos perante uma situação em que a força dela é subjugada.»

4 - Cristina
Blogue: O tempo entre os meus livros


«Fala-nos do teu livro:
Quis que ambas as personagens fossem protagonistas de uma história de sobrevivência, que as suas essências coincidissem nesse ponto e fossem motivo de incompreensão mútua. Quis valer-me da ironia da vida, do destino, dos caminhos que parecem despregados e que se entrelaçam e fazem sentido em situações impensadas. Quis incluir um pouco do improvável neste enredo realista. Creio que os acontecimentos retratados são familiares a muitos portugueses.»

5- Sara Baptista
Blogue: Espectacular’te

Peço desculpa se me estou a esquecer de alguém, acuse-se!

terça-feira, 8 de maio de 2012

#31 FERREIRA, Andreia - Soberba Escuridão

Sinopse: Quando o relógio pisca as doze horas intermitentes, Carla recebe no seu quarto uma visita indesejada.A partir daí, todo o seu mundo desmorona e a solidão e o medo encarregam-se de a arrastar para um estado deprimente que só um desconhecido parece compreender.Cega de paixão, nega as evidências de que o seu novo amor é mais do que um rosto angelical. Ele esconde segredos que a levarão para perigos que parecem emergir das profundezas do inferno.

Opinião: Tenho imensa coisa para dizer a respeito desta primeira obra da Andreia Ferreira. Antes de mais, permitam-me clarificar um ponto: eu e a autora partilhamos a mesma editora, mas não temos contrato algum de bajulação mútua. Que isso fique claro, até porque ela é uma mulher do norte sem papas-na-língua e eu também tenho costela do Norte. Enfrentámo-nos ao vivo e a cores na Feira do Livro de Lisboa, no passado dia 6 de Maio, e o compromisso foi de que lhe daria a minha opinião sincera. Ela estava com receio de que não fosse favorável – porque o sobrenatural não é o meu género, nem nunca li nada se não agora A Guerra dos Tronos – e eu estava aterrorizada com a possibilidade de não gostar do livro e não saber como dizer-lho. “Er…, dou-lhe um três e depois digo que está muito bem escrito mas não gosto destas coisas”, era esse o meu plano b), se não tivesse gostado da obra. O que, como vêm pelas cinco estrelinhas a cintilar a vermelho, não foi o caso.

Esta classificação espelha a minha redenção face ao cepticismo e também a minha estupefacção quando fechei o livro, há minutos. É uma lição de humildade e de mente aberta. Quando, por volta de Junho do ano passado, tomei conhecimento da existência deste livro no catálogo de obras da Alfarroba pensei: que péssimo, a febre dos vampiros chegou a Portugal. E que sabia eu dos vampiros ou deste género literário? Exactamente, nada. Fiz logo o quadro todo em mente: a autora devia ser uma adolescente que vivia na lua (e, se vive na lua agora sei que é no bom sentido!) e que era maluca pelo Crepúsculo e tinha copiado a história, mais coisa menos coisa. Os preconceitos - pré-conceito - surgem em relação aos assuntos mais inesperados, e assim me apercebi de como estava a julgar erradamente alguém pelo seu gosto de leitura/escrita. Mas isso passou-se há um ano atrás, e entretanto a Andreia tem-me vindo a dobrar. Primeiro com a sua simpatia e prontidão, depois e definitivamente com a sua obra.

Qual foi o meu banho de cair no real quando comecei a falar com a Andreia e descobri que é uma adulta responsável – jovial, divertida e tagarela – que, de facto, vive na lua e sorve daí a sua inspiração e daí lhe advém o talento. Vou roubar as palavras da própria em relação a mim: Quando há talento, há! E encontrei-o logo desde o princípio do livro. Às primeiras palavras tornou-se óbvio que ela não tem necessidade de se esforçar – é-lhe inato, vêm-se trechos que só podem advir de uma espontaneidade fluída que é o que consolida os bons escritores, os escritores de gema. A primeira parte do livro (aí até à página cem) é, de facto, um pouco difícil de desbastar. Isto porque a narração é fluída, com laivos de bom humor, e espelha muito bem – melhor do que bem, através de expressões idiomáticas – a essência do povo português. Da família portuguesa – sobretudo da mãe portuguesa, que quase “aterroriza” esta adolescente, a Carla, como as nossas mães e avós nos aterrorizam a nós com a hora do deitar e a pressa do levantar e os “ó filha isto” e “ó filha aquilo”. Foi muito português de Portugal, e adorei essa faceta da história. Li, nalguns comentários, que as referências da Andreia lhe eram demasiado familiares. Bom, para mim foi tudo um terreno novo. Exceptuando o Harry Potter, os meus livros favoritos retratam realidades invulgares e enriquecedoras – mas realidades. Ia convencida de que ia ler um “monte de clichés” sobre vampiros, mas levei outra bofetada quando me dei conta de que o livro aborda toda esta temática de um modo muito mais original. Embora se saiba que o livro é do género sobrenatural, houve ali algumas explicações, em certas alturas, sobre a existência e realidades paralelas, que fizeram um sentido estrondoso. Não digo que rocem uma possibilidade real, mas são extensões complexas demasiado amplas, raciocínios bem estruturados. Não sei se toda aquela arrumação das criaturas e dos seus mundos/realidades, misticismos e etc., encontra par em outras obras do género, mas se for esse o caso foram bem aplicadas. Se não for, muitos parabéns, Andreia, por teres inventado um mundo com contornos palpáveis.
Apesar de já conhecer a autora, consegui desligar-me dela ao ler o livro, o que espelha o quão bom ele é, o quão bem ele flui nas minhas mãos. Quando conheço o autor e leio a sua obra é como se bebesse as palavras dos seus lábios, como se o visse sentado a criar a história. Mas a Andreia não – não estava em lado nenhum. A Carla é a Carla e o livro é o livro, e ela é somente a criadora. Conseguiu criar algo de que gosta tanto completamente desprendido de si. As palavras são acessíveis, há momentos que me puseram de nervos em franja, outros que me enterneceram (o romance está super bem explorado embora a Carla o viva com alguma imaturidade, gostaria de tê-la visto resistir ao jeitosão com mais afinco, de início, talvez ser um pouco mais desconfiada), e houve momentos em que me segurei para não me pôr às gargalhadas. A Ana é, sem dúvida, a minha favorita. Gostei muito da panóplia geral de personagens e, sobretudo, da coesão que lhes deste.
Como digo, um livro é um exercício de arquitectura e a Andreia soltou pontas ali e uniu-as aqui e ainda deixou margem para muito andamento no “Soberba Tentação”, que sai para Julho. Vou ter que penar muito até ler o segundo e, mais ainda, até ler o terceiro!
Para terminar gostava de dizer algo que acho que também já li algures em relação a esta autora e à sua obra, e que não pensei vir a concordar mas que de facto concordo com sinceridade: se fosse no estrangeiro teria inúmeras portas abertas e seria um sucesso enorme instantâneo. Criar-se-iam clubes de fãs com números enormes e, quem sabe, far-se-iam filmes e franchisings. Além de um bom enredo tens boas palavras, bem escolhidas, e às vezes isso é o mais difícil. Dar substância a uma história sem se ser pretensioso, nem aborrecido, nem maçador.
Cá fico, entristecida, com dois meses pela frente à espera da continuação…!
Classificação: 5*****

quinta-feira, 3 de maio de 2012

#30 LOUREIRO, Célia Correia - Demência


Sinopse: No seio de uma aldeia beirã, Olímpia Vieira começa a sofrer os sintomas de uma demência que ameaça levar-lhe a memória aos poucos. A única pessoa que lhe ocorre chamar para assisti-la é a sua nora viúva, Letícia. Mas Letícia, que se faz acompanhar das duas filhas, tem um passado de sobrevivência que a levou a cometer um crime do qual apenas a justiça a absolveu. Perante a censura dos aldeões, outrora seus vizinhos e amigos, e a confusão mental da sogra, Letícia tenta refazer-se de tudo o que perdeu e dos erros que foi obrigada a cometer por amor às filhas. O passado é evocado quando Sebastião, amigo de infância de Olímpia, surge para ampará-la e Gabriel, protagonista da vida paralela que Letícia gostaria de ter vivido, dá um passo à frente e assume o seu papel de padrinho e protector daquelas três figuras solitárias…

Opinião: Ontem terminei - a tarde e más horas - a leitura do meu primeiro romance editado. Este Demência foi um trabalho descontínuo desde 2009, e foi culminar em cento e qualquer coisa páginas escritas de um sopro em Julho de 2011. Antes de o escrever, tinha uma ideia diferente para ele. Lembro-me de ir trabalhar para Lisboa, em 2007, a remoer a ideia de uma professora loira e baixa chamada Lavínia, que carregava uma filha pequenina no colo e que era ignorada pela pequena aldeia onde vivia - a aldeia da minha avó, que tão bem conheço - por ter sido obrigada a salvar-se das maldades de um marido alcoólico e violento. Lembro-me também de carregar na ideia uma idosa sem memória, muito à imagem da minha bisavó paterna, que perdesse capacidades a olhos vistos. E depois em 2009 surgiu a ideia de as juntar a ambas, num enredo em que seria impossível entenderem-se mutuamente. A sogra detesta a nora - apenas está esquecida disso metade do tempo. E lembrei-me de polvilhar isto com duas crianças inocentes, mas espertas, um velhote adorável (que é a minha personagem favorita, a par com um o Gabriel), e um professor céptico, inteligente e ligeiramente mal-humorado.

Agora que acabei de ler o livro como leitora, fiquei fascinada. Apesar das gralhas ocasionais - lamento a revisão do livro, deixou um pouco a desejar mas a verdade é que tanto eu como a editora trabalhámos incansavelmente para alinhavar essas falhas. Falhas de quem escreveu metade em 2009, a um ritmo, e a segunda metade a um ritmo bem mais acelerado em 2011. Sou muito exigente com o que leio, tanto como com o que escrevo, e a história venceu-me outra vez, e vencer-me-ia sempre mesmo que não fosse da minha autoria. Fui eu que a escrevi - mas mais do que um eu, Célia, fui eu, portuguesa. As palavras com que me expressei são aquelas, não foram traduzidas nem seleccionadas pela editora. São mesmo aquelas - desconcertantes, por vezes, duras, cruas, comoventes, descritivas, desoladoras. São aquelas e não outras.
 Apercebi-me de várias nuances do enredo que nem eu própria tinha tido noção de ter criado. Estou apaixonada com a complexidade do romance, com o puzzle subtil que se forma e que faz sentido no final, estou orgulhosa do modo como tudo se entrelaça e não há pontas soltas.

É um enredo sobre fé - não me tinha apercebido disso - e sobre sacrifícios a todos os níveis. Sobre os motivos pelos quais as pessoas são levadas a acreditar numa asserção, ou escolhem acreditar nessa asserção. Os motivos podem ser condicionados, inconscientemente, pelo próprio empirismo, pela racionalidade, pelos estereótipos, pelos preconceitos, pelas ideias pré-concebidas, pelo nosso próprio conhecimento, tantas vezes ignorante ou insuficiente, dos outros e dos factos. Neste livro há muita gente a formar ideias só porque parecem a mais plausível. O que não significa que esteja correcta. As circunstâncias obrigam a que se adopte determinada versão de um facto, de uma verdade incontornável, e a humanidade de cada um cimenta-a e acarinha-a, de modo quase irredutível. Deu-me um prazer enorme alterar estas certezas, assim como me deu agora desmantelá-las ao ler. Sou obrigada a concordar que criei personagens humanas, quase palpáveis. A complexidade das histórias pessoais, tão ricas, os passados arrastados ao longo de décadas, de metades de século. As expectativas de vida - tantas vezes goradas - os afectos que se acalentam e que ou triunfam ou dão em nada, um quê de romantismo nu, cru, presente apenas na medida em que se ama com mãos e alma rudes. 

Não consigo ir para o goodreads classificar o meu romance com cinco. Não posso dar-lhe cinco. Como mãe que o deu à luz, não me compete a mim clarividência para avaliar as qualidades do meu rebento. Mas, se me distanciar, posso dizer que lhe daria um 4,5 sólido. Não lhe daria o cinco por um motivo plausível: tendo sido eu a mão criadora, tenho consciência de tudo aquilo que gostaria de mudar. É deste 0,5 que não me consigo distanciar, como mãe. Mudar, mudar, apetece-me criar mais situações, voltar a pegar na Olímpia, na Letícia, nas miúdas, no Sebastião, no Fernando, no Gabriel, na Pilar e no Pedro e criar novos diálogos, novas interacções. Pôr os meus autómatos a caminhar em plena aldeia, a ofenderem-se, a amarem-se, a apoiarem-se e a apedrejarem-se. Ontem tive até desejo de pegar num núcleo qualquer e criar uma segunda parte da história.

Quem sabe as memórias da Olímpia, escritas pelo Sebastião? Quem sabe pôr um obstáculo no casamento pontuado de fé da Pilar e do Pedro? Ou fazer crescer a Luz e conceder-lhe a sua própria história?

Enfim, são tudo quimeras porque tenho outros projectos pela frente. Mas deu-me um prazer enorme escrevê-lo e é agradável saber que, quando estou com pouco apetite para leituras, é o meu pequeno (não assim tanto) Demência que me pisca o olho da estante e é ele que me distrai. As páginas voam - como leitora, que bebe as palavras que lê, e não como a escritora que lhes deu voz - nas minhas mãos.

Espero que quem quer que o leia retire este mesmo prazer dele. E que se recorde que o escrevi entre os 19 e os 21 anos. Tenho toda uma vida pela frente para conquistar, para mim própria, mais 0,5 pontos.