sábado, 31 de março de 2012

»Leituras para Abril de 2012

Tendo lido 7 livros até agora, neste ano de 2012, apercebi-me que só sob desafios é que consigo ultrapassar-me.

Por isso, e porque ler me salva da vida quotidiana e me mete a viajar (quase) de graça, este mês comprometo-me a começar/terminar e dar a minha opinião dos seguintes livros:

  1. PEARSE, Lesley - Nunca me esqueças (anda a engonhar há dois meses)
  2. HUNTER, Madeline - Mil noites de paixão (esta senhora começou muito bem, mas agora até me envergonha lê-la, desceu bastante do histórico para o pretextos para sexo, sexo, sexo)
  3. LOUREIRO, Célia C. - Demência (tenho que terminá-lo como leitora, está quase, não haverá se não sinopse deste, são sou a pessoa indicada para fazer-lhe críticas)
  4. BRÖNTE, Emily - O monte dos vendavais
  5. REBELO, Tiago - um qualquer a anunciar (tenho que ler livros portugueses)
  6. LARSSON, Stieg  - A rainha no palácio das correntes de ar (último da trilogia, vou devorá-lo certamente)
E está o mês de Abril planeado.

#14 MITCHELL, Margaret - E Tudo o Vento Levou

Scarlett & Rhett

«- Não te insulto. Estou até a louvar a tua virtude física. Mas, enfim, não me tomes por um imbecil, como é teu costume julgar os homens... É mau menosprezar a força ou a inteligência dos adversários. Eu não sou imbecil. Ouve: quando estavas nos meus braços, eu bem sei que pensavas em Ashley Wilkes (...) Não desconfiaste disto?
Scarlett mostrava claramente no rosto a estupefacção que a tomara.
- É pândego, hem? Até parece uma história de fantasmas. Três pessoas na mesma cama... quando só deviam estar duas. - Sacudiu-a pelos ombros, teve um soluço e sorriu - Ah, sim, ficaste fiel porque Ashley não te quis! Caramba! Eu não iria disputar-lhe o teu corpo (...) Mas o que não lhe quero ceder é o teu coração e o teu espírito pouco escrupuloso. Posso ter todas as mulheres que desejar. Insisto, porém, em guardar a tua alma e o teu coração, coisas que jamais cederei. É como a alma de Ashley, que tu também não conseguiste. Eis a razão por que me causas dó.
- Dó... de mim?
- Sim, porque és uma criança. Uma criança que chora a pedir a Lua. Que faria ela da Lua, se lha dessem? Causa-me pena ver-te deitar a felicidade pela janela fora, só porque pretendes outra coisa... que não te fará feliz. Causa-me pena porque és insensata. Ignoras que não há felicidade fora de dois seres que foram feitos um para o outro. Se eu morresse, se Melanie morresse e ficasses enfim com o teu precioso apaixonado só para ti, julgas que te sentirias feliz com ele? Pois enganas-te! Nunca chegarias a conhecê-lo, não saberias nunca o que ele pensava e não o entenderias como não entendes música, poesia, literatura e tudo o que não tem relação com dólares e cêntimos. Ao passo que nós, esposa do meu coração, podíamos ser perfeitamente felizes se quisesses dar-nos essa oportunidade, porque somos muito semelhantes. Ambos somos uns crápulas, e nada nos detém quando se nos mete alguma coisa na cabeça. Podíamos ter sido felizes, porque te amava e porque te conhecia, Scarlett, como jamais Ashley te conhecerá. E teria o maior desprezo por ti, se conhecesse... Mas não, hás-de passar a vida a suspirar por um homem que não compreendes. E eu, minha jóia, continuarei a consolar-me com meretrizes. E sou capaz de jurar que nos entendemos melhor do que a maioria dos casais.»


Margaret Mitchell, E Tudo o Vento Levou (1936, Pulitzer Prize)

Sinopse: (Pela primeira vez neste blogue, fá-la-ei eu) Scarlett O'Hara tem mau feitio. É ambiciosa, calculista, mesquinha se for preciso. É cínica, egoísta e mimada. Não olha a meios para atingir os seus fins e, o único fim que está fora do seu alcance é o amor de Ashley Wilkes. Ashley é bem o oposto de Scarlett: conservador, moralista, é correcto em todas as suas acções. Acredita na Causa do Sul e vai combater contra o Norte abolicionista. A história é quase toda passada em Atlanta, onde as famílias do Sul se refazem da Guerra de Secessão e dão novos rumos às suas vidas, agora tão desfazadas das que sempre tinham conhecido... E é neste cenário de mudança que Scarlett conhece Rhett, um céptico igualmente egoísta e cínico que também não olha a meios para atingir fins. Rhett Buttler tem uma reputação péssima, está excluído de praticamente todos os círculos da sociedade mas é inteligente, oportunista e vivido. Do modo mais humano, melhor intrincado que alguma vez li ou percepcionei na arte, a relação dos dois desenvolve-se com nuances, altos e baixos, e com a obstinação de Scarlett por Ashley e o orgulho de Rhett a meterem-se constantemente pelo meio.

Opinião: Sem dúvida, o melhor livro que li. Tenho plena consciência de que jamais voltará a ser escrita uma obra como esta. A complexidade, o rigor histórico, a profundidade humana das personagens - com os seus erros, as suas vulnerabilidades, os seus egoísmos expostos a nu, as suas más intenções, os seus medos e pequenas conquistas. Ri, aprendi algumas lições e chorei. Confrontei-me assim com a realidade dos negros do Sul muito ligado a explorações de algodão, pobre em indústria. Fiquei assim a saber que a perspectiva abolicionista não estava assim tão carregada de boas intenções - pelo contrário, precisavam dos negros como aliados contra o Sul. Fiquei assim a conhecer aquela que pode ser descrita como a mulher mais detestável de todos os tempos, esta Scarlett O'Hara de olhos verdes e sorriso insinuante. Fiquei a conhecer uma mulher dócil, dada a perdoar, que no entanto não é tola - Melanie Wilkes. Fiquei a conhecer um homem profundamente apegado às suas raízes e à tradição do estado que muito ama, e que está assim disposto a dar a vida por uma guerra que, no seu íntimo, sabe que vai perder. Fiquei assim a conhecer um homem que me ensinou inúmeras lições sobre a natureza humana - Rhett Buttler, que não dá um chavo por causas perdidas. O país que se afunde: ele não se deixará afundar com ele. Tira o partido que puder das situações. Não tem reputação e sabe que aquele que não a tem é o homem mais livre entre os homens livres. Não deve nada a ninguém. Ninguém espera nada dele. 

Livro algum pode ser posto ao lado deste, ligeiramente aproximado a ele que seja, sem ser fortemente ridicularizado. Ficam todos abaixo, em triângulo, e o E Tudo o Vento Levou acima deles. A genialidade óbvia de uma mulher do início do século XX que mal sonhava com a repercurssão épica da sua grandiosa obra... Pena que seja o único. Brilhante, Mrs Mitchell. Adoro o universo que criou.

Classificação: 10********** em 5

#13 JAPRISOT, Sébastien

Sinopse: Numa noite de Janeiro de 1917, cinco soldados condenados à morte em conselho de guerra são lançados, de mãos amarradas atrás das costas, diante das trincheiras inimigas. O mais novo não tem ainda 20 anos e deixa atrás de si uma jovem noiva e um amor interrompido. Chegada a paz, Mathilde quer saber a verdade sobre esta ignomínia e descobrir o que realmente aconteceu àquele a quem continua ligada pelos laços de um longo e trágico noivado. Com mais intensidade do que nunca, Sébastien Japrisot oferece-nos nesta história de paixão e mistério o virtuosismo e a magia da sua escrita. A mulher obstinada e frágil, envolvente e subtil, que aqui se encontra na figura de Mathilde, figurará certamente entre as heroínas mais memoráveis do universo romanesco moderno.
Aquando da sua publicação, "Um Longo Domingo de Noivado" obteve em França o prestigiado Prémio Interallié.
O romance foi adaptado ao cinema por Jean-Pierre Jeunet, realizador de "O Fabuloso Destino de Amélie", contando com Audrey Tautou, que protagonizou o mesmo filme, no papel principal.

Opinião: Genial, este Japrisot. Outro autor em que apostei por intuição, ainda antes de ouvir falar do filme, sequer. Que história - que intricado difícil de compreender e mais ainda de criar. Quando comecei a ler o livro, pensei que não ia conseguir passar da primeira meia dúzia de páginas. Ele já tinha introduzido tantas personagens - com nomes e alcunhas e cônjuges - ele já tinha falado de tantos locais diferentes... Até hoje guardo a memória deste livro como do mais difícil que alguma vez li. Não basta o cenário ser a I Guerra Mundial. Sinto-me orgulhosa de ter conseguido vencer os obstáculos lógicos daquelas páginas e de ter chegado ao fim. Precisei de complementar a leitura com 3 ou 4 visualizações do (maravilhoso, fenomenal!) filme do Jean-Pierre Jeunet para compreender a totalidade desta complexidade. Perfeito. Educativo. 

Classificação: 6******

#12 SHREVE, Anita - Casamento em Dezembro

Sinopse: Um casamento reúne um grupo de velhos amigos num reencontro que mudará as suas vidas para sempre.
Casamento em Dezembro é o mais comovente e ambicioso romance de Anita Shreve. Uma incursão na motivação e anseios humanos, escrita com a elegância e a perícia que fazem da autora "uma das melhores romancistas do nosso tempo", nas palavras do Boston Herald.

Opinião: É um livro lento, com pouca acção, bastante descritivo. A autora é sempre uma mestra nas descrições das relações humanas, e não estava a dormir quando escreveu este "Casamento em Dezembro". Eu quase adormeci ao longo das páginas, porque me pareceu demasiado nostálgico, pensei que não fosse a lugar algum. E então, de repente, conforme me estendia à beira da piscina num festival de verão com ele aberto, aconteceu: a revelação, o inesperado, a qualidade inegável da autora a evidenciar-se. E não vou revelar o que sucede que me trouxe lágrimas aos olhos num local público, numa situação jamais esperada. Foi a escritora a falar da vida, da ilusão de que o passado está enterrado e que tudo está bem ou vai, simplesmente, acabar bem. É por isso que a adoro e que amei o livro, embora não seja o meu favorito dela.
Classificação: 4****

#11 MCEWAN, Ian - Expiação

Sinopse: No dia mais quente do Verão de 1935, Briony Tallis, de 13 anos, vê a irmã Cecilia despir-se e mergulhar na fonte que existe no jardim da sua casa.  É também observada por Robbie Turner, um amigo de infância que, à semelhança de Cecilia, voltou há pouco tempo de Cambridge. Depois desse dia, a vida das três personagens terá mudado para sempre. Robbie e Cecilia terão ultrapassado uma fronteira que, à partida, nem sequer imaginavam e tornar-se-ão vítimas da imaginação da irmã mais nova. Briony terá presenciado mistérios e cometido um crime que procurará expiar ao longo de toda a sua vida. 

Opinião: Marcadamente poderoso, como se gritasse de um modo subtil e perturbadoramente silencioso. Como que perfeito. O momento em que nos apercebemos de que o final feliz... ainda que conturbado, é... Foi uma epifânia, um momento de clarividência, um encontro com o nosso próprio interior. Recomendo a todos os que tiverem interesse de mergulhar na percepção humana - por vezes errónea, susceptível a males entendidos - e na natureza humana. Egoísta, teimosa, obstinada e, também, profundamente envergonhada e arrependida, profundamente marcada pela culpa. Foi através deste livro que primeiramente reflecti sobre estas duas palavras tão significativas: expiação e arrependimento.

Classificação: 5*****

#10 MAGALHÃES, Júlio - Os Retornados

Sinopse: Outubro, 1975. Quando o avião levantou voo deixando para trás a baía de Luanda, Carlos Jorge tentou a todo o custo controlar a emoção. Em Angola deixava um pedaço de terra e de vida. Acompanhado pela mulher e filhos, partia rumo ao desconhecido. A uma pátria que não era a sua. Joana não ficou indiferente ao drama dos passageiros que sobrelotavam o voo 233. O mais difícil da sua carreira como hospedeira. No meio de tanta tristeza, Joana não conseguia esquecer o olhar firme e decidido de Carlos Jorge. Não percebia porquê, mas aquele homem perturbava-a profundamente. Despertava-a para a dura realidade da descolonização portuguesa e para um novo sentimento que só viria a ser desvendado vinte anos mais tarde. Foram milhares os portugueses que entre 1974 e 1975 fizeram a maior ponte área de que há memória em Portugal. Em Angola, a luta pelo poder dos movimentos independentistas espalhou o terror e a morte por um país outrora considerado a jóia do império português. Naquela espiral de violência, não havia outra solução senão abandonar tudo: emprego, casa, terras, fábricas e amigos de uma vida.

Opinião: Considerei as personagens pobres, o enredo pobre. O tema, contudo, dava a possibilidade de um romance muito mais desenvolvido, muito mais profundo e pertinente. Especialmente tendo em conta a pesquisa a que se deve ter obrigado.

Classificação: 2**

#9 PEDROSA, Margarida - Só ao Bispo Me Confesso

Sinopse: Inês de Toledo, feiticeira e física da corte de D. João II, estava preparada para morrer na Praça do Giraldo, em Évora. O povo acotovelava-se para assistir ao sacrifício e na tribuna apenas falta o bispo. Quando este chega, Inês reconhece nele Miguel de Olivença, o homem que tinha amado toda a vida e que julgava morto nas galés. Por isso, para o poder ver de novo, pede como desejo para só a ele se confessar e a ele deixar a sua verdade.
Só ao Bispo me Confesso é um romance histórico envolvente, mágico e cativante. Com ele conhecemos detalhes sempre esquecidos da nossa história, desde a espionagem e a política de sigilo aos piratas e corsários, passando pelas ordens religiosas ou pelos sonhos de além-mar, elementos que surgem nas palavras de Inês de Toledo com um realismo enternecedor.


Opinião: O que posso dizer desta obra de Margarida Pedrosa? Comprei-a pela capa, pela seda reluzente do vestido da senhora. E porque sou apaixonada por história, e trata-se de um romance histórico. 
Ao lê-lo, confrontei-me com algumas curiosidades interessantes do país - lembro-me de se falar em mezinhas com plantas das colónias e de leprosos e das punições a crimes. Achei interessante o facto de a personagem principal se fingir ocasionalmente de homem. O romance em si não foi propriamente arrebatador... o final prima pela escolha do fado das personagens, mas não pelo modo como foi conseguido. 
Em suma, infelizmente, esta obra da Margarida Pedrosa é outro dos motivos pelos quais tenho sempre um pé atrás com a literatura portuguesa. Ela e o José Luís Peixoto conseguiram essa proeza.

Classificação: 2**