quinta-feira, 19 de abril de 2012

#24 MODIGNANI, Sveva Casati


Sinopse: Um casamento em crise: como se a baunilha e o chocolate já não combinassem tão bem como outrora... O grande "clássico" de Sveva Casati Modignani.
O que se passa com Penelope e Andrea após dezoito anos de um casamento quase perfeito? A baunilha e o chocolate já não combinam? Impossível! Desde sempre, apesar do contraste de cores e sabores, fizeram uma mistura fantástica, como algumas uniões afetivas, que vão aguentando, aguentando, como que levadas por um vento milagroso. Mas o vento, às vezes, deixa de soprar...
Inesperadamente, Andrea revela-se protagonista de inúmeras escapadelas mal escondidas e o seu comportamento, por vezes, é tão infantil e egoísta que Penelope decide oferecer-lhe um presente: deixá-lo sozinho a lidar com os três filhos e com as inúmeras tarefas domésticas, que até agora pesavam única e exclusivamente sobre os seus ombros. Quanto a ela, refugia-se na casa da família em Cesenatico. A separação revela-se, para ambos, um desafio cansativo e, por vezes, angustiante, mas a verdade acabará por vir ao de cima: o amor que os uniu continua vivo...

Opinião: Baunilha e o Chocolate é, para mim, o melhor romance de Sveva Casati Modignani. Por muito singelo que seja, sem grandes sobressaltos ou reviravoltas de cortar a respiração. É um romance sobre compromisso e fidelidade. É sobre Penelope, que apaixona loucamente por Andrea, e sobre Andrea que, mesmo amando Penelope, mesmo sendo pai dos seus três filhos, não consegue que ela lhe baste. Pula de saia em saia e, a cada vez que o faz, Penelope é humilhada ao receber o gelado de baunilha e chocolate que ele traz para forçar as pazes.
É apenas quando Penelope se afasta para a antiga villa da sua avó e deixa o marido mimado a braços com a filha anoréctica, o filho cheio de piercings e com uma cobra como animal de estimação e o pequeno e asmático Luca, que Andrea repensa o seu valor na sua vida.
Andrea tem até este ultimato: não a contactar até que ela meta a cabeça no lugar. É uma viagem agradável pela Itália, com um enredo simples mas enriquecedor, no melhor registro de Sveva que, infelizmente, é o que ela aplicou também a todos os outros livros...
 Classificação: 4****

sexta-feira, 13 de abril de 2012

#23 SOARES, Carla M. - Alma Rebelde

Sinopse: No calor das febres que incendeiam a Lisboa do século XIX, Joana, uma burguesa jovem e demasiado inteligente para o seu próprio bem, vê o destino traçado num trato comercial entre o pai e o patriarca de uma família nobre e sem meios. Contrariada, Joana percorre os quilómetros até à nova casa, preparando-se para um futuro de obediências e nenhuma esperança. Mas Santiago, o noivo, é em tudo diferente do que esperava. Pouco convencional, vivido e, acima de tudo, livre, depressa desarma Joana, com promessas de igualdade, respeito e até amor. Numa atmosfera de sedução incontida e de aventuras desenham-se os alicerces de um amor imprevisto... Mas será Joana capaz de confiar neste companheiro inesperado e entregar-se à liberdade com que sempre sonhou? Ou esconderá o encanto de Santiago um perigo ainda maior?


Opinião: O meu plano inicial, ao ultrapassar o meio do livro, era atribuir-lhe um quatro e meio. Ainda assim, quatro. Estava muito concentrada nas interjeições, e embirro com elas porque dão um tom afectado ao discurso, uma espécie de suspiro muito português. As interjeições (tantos ohs, e ahs! e pontos de exclamação!) mantiveram-me longe da literatura portuguesa, mas sobretudo a má qualidade dos enredos e a pobreza de escrita foram os culpados por esse afastamento. Agora, após perseguir ferozmente este livro durante a tarde de hoje (12.04.2012), em que saiu para a luz do mercado, agora... que acabei de o ler, convido todos nós, portugueses e portuguesas amantes de um bom romance histórico, de um um bom nível de português - acessível e bem alinhavado - a embrenharem-se neste livro, que é quase uma viagem contínua. Li-o de enfiada, como se comprova com facilidade. Fala sobre uma rapariga, Joana, cujo pai é rico e despoleta, assim, as ambições de um nobre na miséria, D. Miguel. Este D. Miguel arranja um casamento entre Joana e o seu filho, Santiago, para que com o dote possa reaver um pouco da sua glória passada. 

O que dizer destas personagens? Gosto mais do Santiago que da Joana, é a verdade. Mas parece-me que ela foi escrita para se entranhar, e ele para nos apaixonar-mos à primeira vista. Contudo, no enredo, é o oposto que sucede entre os dois. Ela estranha-o e ele fica vidrado nela. 

Não é o enredo em si que me faz valorizar a história - achei a Joana um pouco queixosa para uma pessoa que tinha a melhor amiga numa situação muito pior - mas sim a humanidade que encontrei nas personagens e, sobretudo, o talento evidente da escritora, que soube valer-se de conta e medida para se manter num terreno seguro. Não dramatizou excessivamente, não caiu em clichés, surpreendeu-me até várias vezes, e agradavelmente, o que raramente acontece quando leio, posto que já li tanta coisa. 

O Santiago é cativante, qualquer mulher o quereria para si. A D. Ana é enternecedora e o D. Miguel é daquelas pessoas frustrantes com quem temos perfeita consciência de que nunca conseguiremos lidar. Considerei todo o desenrolar de acontecimentos bastante pertinente e, apesar de algumas falhas de comunicação entre as personagens principais, a autora teve suficiente mestria para nos fazer compreender, com clareza, o porquê de se compreenderem as asserções de modo oposto. O romance prometia sensualidade e gabo também a elegância, a classe, com que conseguiu envolver-nos nessa sugestão sem cair nas vulgaridades que tenho lido em muitos livros ultimamente. Já me tinha esquecido que, tal como no E Tudo o Vento Levou, meia palavra arrepia muito mais do que uma frase completa à letra. 

Curiosamente, a Joana é a personagem de quem gostei menos. Achei que a Rosália (a ama dela), a dado momento, perdeu-se no enredo, mas adorei a construção geral. Dei por mim a sorrir em diversas partes, dos atrevimentos do Santiago e das explosões da Brites e da doçura da D. Ana. Os desvios de língua da Joana também deram pano para mangas, porque incitaram o Santiago a revelar-se mais. 

Os termos históricos acho que vieram na medida certa. Dei por mim extasiada ante a menção do meu adorado romance Madame Bovary, do Flaubert, e de outras referências históricas que reconheci de imediato porque sou amante da História. O casamento de D. Pedro com D. Estefânia. A América com presidentes e quase, quase em cima da Guerra de Secessão. A inauguração, em 1856, do primeiro troço de caminhos-de-ferro em Portugal. O Brasil e a promessa de uma vida melhor... Nas últimas páginas retive o fôlego, a autora virou o enredo de forma tão convincente que vislumbrei um final alternativo para o livro, vestiu-o de nexo e de credibilidade e deixou-me a arfar por ler mais depressa. 

Em suma, todo o livro foi lido de um só sopro. Os meus sinceros parabéns àquela que considero, sem dúvida, a melhor autora de romances «romance» portuguesa. Destronou a rainha da pop destas bandas (ou rainha da asneira e da futilidade), Margarida Rebelo Pinto (atenção que nunca foi rainha alguma para mim). Um adeus também ao Tiago Rebelo, reforme-se porque não atinge (com o seu jornalismo e quês), metade da perícia com as palavras, metade da profundidade e da complexidade humanas que a Carla expôs. Um triunfo perfeito para um primeiro lançamento. Fico a contar os dias até ao próximo.
Classificação 5*****

segunda-feira, 9 de abril de 2012

#22 WALKER, Alice - A Cor Púrpura


Sinopse: Através das cartas que escrevem uma à outra, duas irmãs negras americanas falam das suas vivências pessoais, dos seus dramas, mas também das suas alegrias, na época que separou as duas guerras mundiais. Obra vigorosa - que levou alguns críticos a comparar Alice Walker com Faulkner - este romance valeu à autora, negra também ela, os dois prémios máximos da literatura norte-americana de ficção em 1983: o Pulitzer e o American Book Award. E deste romance fez Steven Spielberg um filme admirável.

Opinião: Li este livro em Junho de 2006, da última vez que fui à aldeia da minha tia, com 16 anos. É, em parte, devido ao calor das tardes lânguidas que passei a ler, no pátio, que trago lembranças tão boas desta aldeiazinha. O livro é um relato em primeira mão da vida de uma negra no início do séc. XX na América do Norte, e é surreal. Ganhou, inclusive, um Pulitzer. É surreal que, no início do século passado, ainda houvesse segregação. Ainda se tratassem os negros abaixo de cão. É surreal que fosse permitido que a personagem principal, a Celie, fosse arrastada ao sabor das vontades do pai e do marido. Fosse obrigada a abdicar de duas crianças. Fosse obrigada a viver aterrorizada com os humores do marido e humilhada pelo seu amor à famosa cantora negra Shug Avery que, a seu tempo, se torna na melhor amiga de Celie. É um conto ingénuo sobre uma mulher negra no entre-guerras, tantas vezes comovedor, de uma feminilidade tocante e uma mostra inegável do talento da senhora Walker.
Classificação: 5*****

#21 SÜNSKIND, Patrick - Perfume, História de Um Assassino


Sinopse: Esta estranha história passa-se no século XVIII e é fruto de um extraordinário trabalho de reconstituição histórica que consegue captar plenamente os ambientes da época tal como as mentalidades. O protagonista é um artesão especializado no ofício de perfumista, e essa arte constitui para ele - nascido no meio dos nauseabundos odores de um mercado de rua - uma alquímica busca do Absoluto. O perfume supremo será para ele uma forma de alcançar o Belo e, nessa demanda nada o detém, nem mesmo os crimes mais hediondos, que fazem dele um ser monstruoso aos nossos olhos. Jean-Baptiste Grenouille possui no entanto uma incorrupta pureza que exerce um forte fascínio sobre o leitor. O Perfume, publicado em 1985, de um autor então quase desconhecido, foi considerado um dos mais importantes romances da década e nunca mais deixou de ser reeditado desde então, totalizando os 4 milhões de exemplares vendi dos, só na Alemanha, e 15 milhões em países estrangeiros. Foi traduzido em 42 línguas. Este fenómeno transformou-o num dos mais importantes livros de culto de sempre. Em 2006, O Perfume passa a ser uma longa-metragem inspirada no romance de Patrick Süskind.

Opinião: A minha primeira opinião é a de que não deveria ser indicado para o 7º, 8º e 9º ano no contexto do plano de leitura nacional português - canibalismo? Assassinatos? Jean-Baptiste Grenouille é um dos maiores psicopatas de todos os tempos. Mas também dos que melhor se enraizam no leitor. É necessário explicar que ele tem o sentido do olfacto excepcionalmente desenvolvido, e a sua percepção do real advém sempre daí. Ele é completamente obcecado pelo mundo dos cheiros, e é nele em que gravita, indiferente a tudo o resto. Ele é tão egoísta que, quando mete na cabeça que quer criar a essência do amor, não lhe custa nada acabar com a vida de jovens mulheres, umas atrás das outras, a fim de lhes extrair a fragrância que, combinada, culminará nesta poção poderosa, até se tornar numa espécie de serial killer do século XVIII, perseguido por toda a França conforme deixa para trás o seu rasto doentio. E esta essência do amor é tão poderosa que o próprio Grenouille substima os riscos de a aplicar em si. É maravilhoso sermos despertados para a importância deste sentido que é, em geral, tão menosprezado. Foi um festim de fragrâncias, muitas das quais desconhecidas, que se insinuou perante mim, como leitora, e que me embalou ao longo das páginas do livro. O final foi de génio, o único possível, tiro o chapéu ao senhor Sünskind por mergulhar num universo tão sombrio e emergir dele como um dos escritores mais talentosos de todos os tempos, na minha humilde opinião. Quando pego no livro ainda me cheira às alperces que a ruiva carrega.
 Classificação: 5*****

#20 BROWN, Dan - Anjos e Demónios


Sinopse: Quando um famoso cientista do CERN é encontrado brutalmente assassinado, o professor de simbologia Robert Langdon é chamado para identificar o estranho símbolo gravado no peito do cientista. A sua conclusão é avassaladora: a marca é de uma antiga Irmandade chamada Illuminatti, supostamente extinta há séculos e inimiga da Igreja Católica. Em Roma, o Colégio dos Cardeais está reunido para eleger um novo Papa quando se apercebe do rapto de quatro cardeais, ao mesmo tempo que a Guarda Suíça é informada de que uma perigosa arma está na Cidade do Vaticano com o propósito de a destruir. Robert Langdon – quem não o conhece? – ajudado desta vez por Victoria Vetra, cientista do CERN, procura desesperadamente a antimatéria no meio das intricadas pistas deixadas pelos Illuminati, lutando contra o tempo para salvar o Vaticano.

Opinião: Como pessoa que me interesso genuinamente por religião, arte, ciência e viagens, a modos que este livro é um coquetél perfeito destes elementos. O melhor conseguido dos livros do Sr. Brown, segundo os meus gostos pessoais, fala de um intrincado esquema duma suposta organização cinquentenária para atirar a Igreja Católica ao chão por terra. A intriga religiosa, pautada pela visão que a ciência tem do comportamento da Igreja ao longo dos séculos, manteve-me pregada a cada página. As personagens são únicas e vívidas - o Camerlengo foi dos meus favoritos ao longo de todo o livro. A Vittoria e os seus calções são uma imagem nítida ao longo da acção, as igrejas de roma, os seus artistas mais notáveis, as suas obras são esmiuçados de um ponto de vista simbólico e remetem o autor para uma enxorrada de cultura que me deixou extasiada. Foi como reencontrar velhos amigos dentro do livro. É uma óptima intriga que acaba por dar uma pequena lição de História, Arte, Ciência e Religião. Adorei o professor e os colegas de turma.

Aproveito para mencionar que o filme - com aquela banda sonora genial do Hans Zimmer - é igualmente digno de um visionamento.

Classificação: 5****

#19 THOMAS, Sherry - Um Amor Quase Perfeito

Sinopse: Durante dez anos Camden e Gigi, Lorde e Lady Tremaine, tiveram o mais perfeito dos casamentos, baseado na cortesia, no respeito e… na distância. Um segredo, uma traição e um oceano separam-nos desde o dia seguinte ao seu enlace. Gigi vive na bela mansão londrina do casal, enquanto Camden se estabeleceu em Nova Iorque. Nenhum se mete na vida do outro. Agora as coisas vão mudar. Gigi decidiu agarrar-se à sua última oportunidade de ser feliz e aceitar a proposta de casamento do seu pretendente, Lorde Frederick. Assim, escreve ao marido, enviando-lhe os papéis do divórcio. Mas em vez de devolvê-los assinados, Camden apresenta-se à porta da mansão de Londres para lhe oferecer um acordo: vai conceder-lhe o divórcio, mas antes Gigi deve dar-lhe um filho, um herdeiro. Se ela não aceitar, ele não lhe concede o divórcio. Gigi aceita, mas impõe um período de um ano. Um ano em que se acumulam as lembranças da paixão que outrora os uniu, um ano em que segredos são revelados, um ano em que o desejo volta mesmo contra vontade, e um ano em que ambos devem decidir se o casal mais admirado de Londres deve voltar a apaixonar-se... ou separar-se para sempre.

Opinião: Ambientado na última década do século XIX, o livro não é tão cor-de-rosa nem linear quanto a sinopse faz parecer. Pelo contrário, é sobre expectativa e desilusão. A Gigi não é nenhuma santa: era tão doente pelo Camden, quando o conheceu, que fez algo de muito errado para ficar com ele. E é graças a isso (que fere o orgulho dele e) que faz com que ele opte por uma vida separada durante longos anos. Esta separação de duas pessoas que obviamente se amam - mas que têm um fantasma no armário - é comovente e angustiante. Há um trecho do livro em que os dois se cruzam em Copenhaga e em que se reconhecem à distância. Ela está a passear num barquinho de recreio e ficam ambos pasmados ao reconhecer-se. O que mais me interessou neste enredo, super bem conseguido, foi o facto de que ambos reconstroem as suas vidas e enriquecem como pessoas à sua maneira. O Camden mora em Nova Iorque e tem uma empresa de iates. É um ás do desenho e um visionário. Além disso, protagoniza uma das cenas mais tocantes da história dos protagonistas masculinos mais atormentados de sempre: a sua performance nocturna da Dream of Love, Franz Liszt, ao piano. A Gigi mora em Inglaterra e não se deixou ficar sozinha ao longo dos anos que passam separados. Tem muito pouco da heroína habitual, esta teve amantes ocasionais e afogou a dor da ausência na arte. Evolui de uma jovem apaixonada e desesperada, para uma mulher fria e determinada que acaba por dispensar terminantemente a vida dele na sua vida - a fim de evitar mais estragos. Tem as paredes de casa forradas de Monets. Não lhes é fácil recomeçar - nem querem, tão pouco, recomeçar. Só que, quando ela mete na cabeça que o mundo está suficientemente evoluído para que possam divorciar-se sem um escândalo de maior, ele convence-se que só lhe dará o divórcio se, em contra-partida, ela lhe der um herdeiro... Está no topo dos meus romances estilo romance favoritos.
Classificação: 5*****

domingo, 8 de abril de 2012

#18 KLEYPAS, Lisa - Desejo Subtil

Sinopse: Quatro jovens da sociedade elegante de Londres partilham um objectivo comum: usar os seus encantos femininos para arranjarem marido. E assim nasce um ousado esquema de sedução e conquista. A delicada aristocrata Annabelle Peyton, determinada a salvar a família da desgraça, decide usar a sua beleza e inteligência para seduzir um nobre endinheirado. Mas o admirador mais intrigante e persistente de Annabelle – o plebeu arrogante e ambicioso Simon Hunt – deixa bem claro que tenciona arruinar-lhe os planos, iniciando-a nos mais escandalosos prazeres da carne. Annabelle está decidida a resistir, mas a tarefa parece impossível perante uma sedução tão implacável… e o desejo descontrolado que desde logo a incendeia. Por fim, numa noite escaldante de verão, Annabelle sucumbe aos beijos tentadores de Simon, descobrindo que, afinal, o amor é o jogo mais perigoso de todos.

Esclarecimento quanto à série e ao livro: Antes de mais, eu tinha lido este livro em inglês há alguns anos, sob o título Secrets of a Summer Night, o que fazia muito mais sentido visto tratar-se de uma série de 4 livros, cada um alusivo a uma estação diferente e centrado num casal diferente. Uma vez mais, senti-me envergonhada pelo rosto e pelo título que as chancelas portuguesas atribuem a obras inglesas. Eu sei que o romance em si promete alguma intimidade, mas não uma tal que defina a sua essência. Depois permitam-me corrigir esta sinopse ultrajante: se eu não conhecesse o livro sentir-me-ia enganada. As senhoras (Annabelle, Lilian, Daisy e Evie) não usam encantos femininos alguns para caçar um marido. Elas fazem-se, sim, valer dos esquemas conjuntos. Estão todas desesperadas por casar; não porque precisem de um homem, mas porque estão em péssima situação, cada uma da sua perspectiva. Annabelle está sozinha com a mãe e um irmão pequeno e estão enterrados em dívidas, Lillian e Daisy são ricas, mas americanas e, assim sendo, não têm lugar na sociedade inglesa. Os pais massacram-nas e querem libertar-se desse peso. Não podemos esquecer que os livros serão ambientados na década de 40 do século XIX. Evie é maltratada pela tia que sempre cuidou dela, e está prestes a ser forçada a casar-se com um primo asqueroso e facilmente manipulável, que a deixaria, após o matrimónio, na mesma situação de dependência. Este primeiro volume centra-se na Annabelle, que é da aristocracia e está falida e a passar dificuldades, e em Simon Hunt - o filho do açougueiro - que, graças ao talento natural, investiu no progresso dos caminhos de ferro para produzir locomotivas e construiu, deste modo, um império sólido. Na Inglaterra do séc. XIX, convém ter-se boas relações para, mesmo imoralmente rico, se ter as portas da sociedade abertas. Mas Simon despreza a sociedade em geral, nunca se esforçou por se enquadrar, move-se nos círculos mais altos porque se tornou bom amigo de alguns nobres visionários que, tal como ele, estão por dentro do mundo dos negócios. É também mentira que o Simon se aproveite do seu atractivo - ou do efeito que claramente tem sobre a Annabelle - para a convencer a abandonar os seus planos de ficar com um qualquer nobre rico. Ele limita-se a escorregar, com ela, para aquilo que ambos querem. Mas não é dissimulado nem tece planos para a desgraçar. Sedução implacável? Ele nunca se aproxima dela com más intenções. Enfim, toda a sinopse dá a entender que ele consegue que a mulherzinha se enrole com ele num palheiro qualquer numa "noite escaldante de verão", numa infeliz alusão ao nome do livro em inglês, indiscriminadamente posto de parte. Lamentando alongar-me, digo apenas que o meu livro favorito destes quatro é o terceiro, The Devil in Winter, que se centra na Evie, gaga, ruiva, maltratada pela família, insegura e demasiado inocente, e em Sebastian St. Vincent, um visconde que passou a vida entre todas as coxas que lhe cruzavam o caminho e que está na penúria. É que a Evie tem muito a herdar e quer desesperadamente fugir da casa onde é quase uma prisioneira.
Opinião: Pondo de parte as promessas (erróneas) da editora, o livro fala sobre a construção de um amor. Na minha humilde opinião, fala de um homem que não tem problemas em assumir o que quer. E ele quer a Annabelle, só que tem uma reputação péssima e nem a riqueza lhe vale nos círculos da nobreza. E ela quer voltar aos tempos áureos da sua vida, antes de o pai morrer e as deixar na penúria e quase excluídas da sociedade. É por aí que se torna difícil um entendimento. Mas o livro, ao contrário de muitos do género, não é previsível. Ele não surge para a salvar a cada vez que ela tem um desentendimento com alguém. Nenhum dos dois se baseia em opiniões alheias para formar o seu próprio discernimento sobre o outro. Têm os seus próprios motivos - ele para a querer e ela para o manter longe. E então, como é evidente, no momento certo, o livro sofre uma reviravolta e a opinião dela em relação a ele altera-se. Talvez a arrogância deste Mr. Hunt tenha algum fundo de bom-humor. Talvez ele não se ache acima de ninguém ou tenha razão ao desprezar os nobres pançudos que nunca moveram uma palha na vida e que prefeririam morrer afogados a ter que remar para a costa. Resumidamente: foi um livro com alma. Não ficam pontas soltas, compreende-se os porquês daquelas pessoas. Nem tudo se resume a Annabelle e ao Hunt. Há mais do que isso, há uma introdução à picardia épica da Lillian com o Lorde Westcliff (que peca bastante no volume seguinte, porque parece desfazer-se do nada), há uma bonita amizade entre quatro mulheres desprezadas. Gostei bastante e estou ansiosa pelo próximo. Não revelo o nome porque é tão vergonhoso quanto este... mas anda por aí, pelas internets.
Classificação: 4****