sábado, 12 de maio de 2012

»Primeira frase da obra II

Hoje estive na feira do livro com a minha editora, e a dado momentou falam-me da importância da primeira frase de um livro. Eu já tinha ouvido essa associação de ideias algures (inclusive fiz um post neste blogue), e decidi testar a qualidade das primeiras frases das minhas obras. Tudo porque a Dulce Maria Cardoso, com o seu "O Retorno", pareceu deixar todos KO com esta frase:

"Mas na metrópole há cerejas"


Decidi fazer um apanhado das primeiras frases dos meus projectos:



Demência
«Olímpia Vieira era, aos sessenta e três anos, um osso duro de roer.»

O Funeral da Nossa Mãe
«Decidiu que o faria ao nascer do dia.»

A Portuguesa
«Até aos trinta e dois anos nunca senti qualquer espécie de realização pessoal.»

1809
«D. João de Albuquerque apoiou a mão da sua única filha conforme esta subia para a berlinda.»

1755
«O novo espaço era amplo, solarengo e impossível de cingir com o olhar.»

Os Pássaros
«A casa era um lugar seguro.»


Surpreende-me ver que traduzem uma importância significativa (se não crucial) em relação ao curso de todos eles.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

»Demência, Críticas e Entrevistas

Compilação:


Opiniões do “Demência”



1 - Isabel Almeida

Blogue: “Os Livros nossos”
Classificação: 5*****


2 - Andreia Ferreira (autora de “Soberba Escuridão”)
Blogue: “D311nh4”
Classificação: 5*****


3 - Clarinda Cortes
Blogue: “Ler é Viver”
Classificação: 5*****


4 - Cristina
Blogue: O tempo entre os meus livros
Classificação: 4****+


5 - Carla M. Soares (autora de “Alma Rebelde”),
Blogue: “Monster Blues”
Classificação: 4(,5)*****


Outras:

6 - Sofia Rodrigues

Podia ser um livro qualquer como tantos outros. Mas este é especial. Soube-o assim que passei os olhos pela sinopse: Alzheimer. Para muitos esta palavra será igual, banal como tantas outras. Não para mim. Seria apenas o reflexo desfocado pelo tempo de uma realidade que me bateu à porta, mas em vez disso deixou marca profunda na minha memória. Hoje adulta, outrora uma criança, que viu a adorada bisavó a ficar estranha, confusa. Ou como diria a Célia, demente. Por que no fundo é disso mesmo que se trata, uma demência que sem pena nem pudor vai roubando a memória aos pedaços, deita fora peças de uma vida, esfuma aquilo que nos faz sentido. Dos muitos episódios estranhos a que assisti, os quais não importa nomear, refiro um. Aquele que até hoje me enche de lágrimas os olhos. Os mesmos olhos que imploraram por reconhecimento. No dia em que tu “avó” (como sempre te chamei) não me reconheceste. Querias ver a tua menina. Vieram todas as da aldeia… e não era nenhuma delas. Até que cheguei eu. Estava ali à tua frente e os teus olhos ignoraram-me com uma frieza atroz. Olhaste para um retrato meu (tirado três anos antes) e lá estava a tua menina. Não eu. Eu, e tantos outros, fomos apagados. Passei a ser uma intrusa. Mais uma estranha aos teus olhos. Doeu demais…

Mas enfim, esta opinião, crítica ou aquilo que lhe queiram chamar não é sobre mim. Quis apenas justificar parte do meu interesse pela história. Isto de sair da história para entrar nas partidas que a memória nos prega enquanto lemos, tem muito que se lhe diga!

O Demência, livro da Célia Correia Loreiro, não é sobre Alzheimer. Também não é sobre violência doméstica. Ou sequer sobre a luta de uma mulher para sobreviver às marcas impressas pelo passado e que o presente insiste em lhe relembrar a cada passada que dá. É, na minha opinião, a simbiose perfeita de tudo isso indo mesmo, diria, um pouco mais além. Numa amálgama de sentimentos, os olhos voam sobre as palavras da Célia. As páginas viram-se sozinhas e quando damos por isso já mergulhámos na história. Não queria desvendar demasiado o que se passa nestas 394 páginas, mas gostaria imenso de que, com as minhas palavras, outras pessoas sentissem curiosidade de as ler. É bom dar uma oportunidade a uma autora portuguesa que está ainda a dar os primeiros passos no mundo dos livros enquanto objecto impresso, mas que já é uma “veterana” neste jogo da palavra, na conjugação perfeita daquilo que são personagens, histórias e destinos.
A certa altura, admito, senti que a Olímpia foi um pouco deixada no esquecimento da história. Perguntei-me o que lhe estaria a acontecer enquanto a Letícia lhe roubava o protagonismo. Não é um reparo ou crítica negativa, mas apenas uma constatação. Com o decorrer da leitura percebi apenas que era o meu lado sentimentalista que se perguntava por ela.

Achei incríveis de tão realistas as descrições dos espaços, das mentalidades e costumes. Também eu cresci num aldeia como aquela que é palco deste livro. E é tal e qual. A integridade e humildade de uns são rapidamente abafadas pela mente fechada, costumes desgastados por um tempo injusto que já foi. Ou deveria ter ido e ainda permanece.

A Letícia é uma mulher fictícia com uma imensa força. Há muitas Letícias por aí. Vítimas da velha (mas sempre recorrente) história do lobo que vestia pele de cordeiro e quase lhe destruiu a vida. Quase. No fim de contas, isto é um romance!

Célia, confesso, que tenho evitado ler os últimos excertos que tens publicado. Li os primeiros e fiquei com uma terrível vontade de ler o teu próximo livro! Penso que já se percebeu que sou fã da forma como escreves. Expões a história ao sabor de um jogo de palavras, conceitos e sentimentos que simplesmente adoro.»
Obrigada também pela dedicatória. Palavras tão simples mas que marcam a diferença. Como vês, apaixonei-me pela história e mantenho contacto contigo!

Um grande beijinho;
Sofia»
  
7 - Ana Filipa Marques

«O rating que atribuí ao livro não teve nada a ver com o facto de conhecer a escritora.

A história, por sua vez, teve a capacidade de me transportar para todo aquele mundo imaginário/real com o qual nos vamos deparando ao longo da mesma. A maneira como o percurso das diferentes personagens vai sendo traçado, o desespero destas, a angústia e o sofrimento com o qual nos cruzamos também nos sufoca a nós leitores.

É demasiado fácil criar uma relação de amor/amizade com as personagens. Desde o mais novo ao mais velhinho, passando pelo bom e pelo vilão, todas elas demonstram a sua subtileza, a sua compaixão, o motivo pelo qual agem de certa maneira perante determinado problema.
É extremamente importante que o leitor, enquanto ser humano capaz de compreender todo o mundo e todas as alternativas que tem ao seu dispor ao longo da vida, compreenda o porquê de Letícia ter tomado alguma decisões no passado que irão de encontro à história de vida de Olímpia, que sucumbirá num dos mais lamentáveis e incompreensíveis desfechos.

O bom na história é que ao lê-la é possível que captemos os cheiros daquela explêndida aldeia. No final irão ver que foi tão bom simpatizar com todas aquelas mulheres e aqueles homens. Foi tão bom compreender a Letícia e verter uma lágrima pela Olímpia. Melhor que tudo isto será descobrir, no final, que afinal valeu a pena...que tudo vale a pena. Que a vida é uma montanha russa na qual nos podemos perder e encontrar de novo.»


8 - Vanessa (de) Campos

Sou uma leitora de 22 anos, razão pela qual (penso eu) este género literário não é o que mais me estimula. Daí a minha pontuação ser de 4 estrelas.
Em relação ao livro em si, abstraindo-me dos meus gostos literários, penso que é um livro que realmente nos transporta à pequena aldeia beirã, e que nos faz sentir um pouco do que as personagens vão sentido ao longo do livro, tanto física como emocionalmente. Também gostei particularmente das conclusões que se vão tirando ao longo do livro, e de como as personagens vão evoluindo neste campo, pois não mostram ser personagens estáticas, o que na minha opinião é bastante importante tanto na literatura como no cinema (a existência de um arco de personagem).
Sobre a autora do livro, com 22 anos apenas, demonstra realmente alguma maturidade emocional pouco característica desta idade. A forma como descreve situações tão delicadas e nos transporta para lá, pondo-nos mesmo na situação/perspectiva das personagens sem tomar um partido como único é espectacular e delicada, demonstrando um elevado grau de maturidade neste aspecto.

É um livro que aconselho a ler, especialmente a um público mais maduro que com certeza irá sentir o livro de forma mais intensa.

Vanessa de Campos.


Entrevistas

1- Isabel Almeida,
Blogue: “Os Livros nossos”

«Sempre fiquei meio assombrada por ver o modo como o ambiente condiciona crenças, modos de vida, costumes, superstições, o próprio certo e o errado. Sempre lhes invejei a liberdade, também. Aquelas pessoas estão cingidas a um pequeno espaço, que assume assim a dimensão do mundo inteiro, e circulam nele como se circulava quase há séculos atrás.»

2 - Sofia Teixeira
Blogue “Morrighan”


«Quais as tuas influências?
Nenhumas. De todas as vezes que quis aplicar «influências» nos meus enredos, desisti e apaguei tudo. Não sou a Isabel Allende nem a Joanne Harris, por muito que as admire. A cada vez que quis pôr um espectro a atravessar uma sala dei-me conta disso.»

3 - Andreia Ferreira (autora de “Soberba Escuridão”),
Blogue: “D311nh4”


«De onde surgiu a ideia para esta história?
Não partiu de nenhuma experiência pessoal ou próxima de violência doméstica, mas talvez da minha veia feminista e de considerar um ultraje que os homens se prestem a esse papel de monstros. Creio que, embora actualmente também já existam homens vítimas do mesmo mal, sendo a mulher a vítima é pior ainda porque estamos perante uma situação em que a força dela é subjugada.»

4 - Cristina
Blogue: O tempo entre os meus livros


«Fala-nos do teu livro:
Quis que ambas as personagens fossem protagonistas de uma história de sobrevivência, que as suas essências coincidissem nesse ponto e fossem motivo de incompreensão mútua. Quis valer-me da ironia da vida, do destino, dos caminhos que parecem despregados e que se entrelaçam e fazem sentido em situações impensadas. Quis incluir um pouco do improvável neste enredo realista. Creio que os acontecimentos retratados são familiares a muitos portugueses.»

5- Sara Baptista
Blogue: Espectacular’te

Peço desculpa se me estou a esquecer de alguém, acuse-se!

terça-feira, 8 de maio de 2012

#31 FERREIRA, Andreia - Soberba Escuridão

Sinopse: Quando o relógio pisca as doze horas intermitentes, Carla recebe no seu quarto uma visita indesejada.A partir daí, todo o seu mundo desmorona e a solidão e o medo encarregam-se de a arrastar para um estado deprimente que só um desconhecido parece compreender.Cega de paixão, nega as evidências de que o seu novo amor é mais do que um rosto angelical. Ele esconde segredos que a levarão para perigos que parecem emergir das profundezas do inferno.

Opinião: Tenho imensa coisa para dizer a respeito desta primeira obra da Andreia Ferreira. Antes de mais, permitam-me clarificar um ponto: eu e a autora partilhamos a mesma editora, mas não temos contrato algum de bajulação mútua. Que isso fique claro, até porque ela é uma mulher do norte sem papas-na-língua e eu também tenho costela do Norte. Enfrentámo-nos ao vivo e a cores na Feira do Livro de Lisboa, no passado dia 6 de Maio, e o compromisso foi de que lhe daria a minha opinião sincera. Ela estava com receio de que não fosse favorável – porque o sobrenatural não é o meu género, nem nunca li nada se não agora A Guerra dos Tronos – e eu estava aterrorizada com a possibilidade de não gostar do livro e não saber como dizer-lho. “Er…, dou-lhe um três e depois digo que está muito bem escrito mas não gosto destas coisas”, era esse o meu plano b), se não tivesse gostado da obra. O que, como vêm pelas cinco estrelinhas a cintilar a vermelho, não foi o caso.

Esta classificação espelha a minha redenção face ao cepticismo e também a minha estupefacção quando fechei o livro, há minutos. É uma lição de humildade e de mente aberta. Quando, por volta de Junho do ano passado, tomei conhecimento da existência deste livro no catálogo de obras da Alfarroba pensei: que péssimo, a febre dos vampiros chegou a Portugal. E que sabia eu dos vampiros ou deste género literário? Exactamente, nada. Fiz logo o quadro todo em mente: a autora devia ser uma adolescente que vivia na lua (e, se vive na lua agora sei que é no bom sentido!) e que era maluca pelo Crepúsculo e tinha copiado a história, mais coisa menos coisa. Os preconceitos - pré-conceito - surgem em relação aos assuntos mais inesperados, e assim me apercebi de como estava a julgar erradamente alguém pelo seu gosto de leitura/escrita. Mas isso passou-se há um ano atrás, e entretanto a Andreia tem-me vindo a dobrar. Primeiro com a sua simpatia e prontidão, depois e definitivamente com a sua obra.

Qual foi o meu banho de cair no real quando comecei a falar com a Andreia e descobri que é uma adulta responsável – jovial, divertida e tagarela – que, de facto, vive na lua e sorve daí a sua inspiração e daí lhe advém o talento. Vou roubar as palavras da própria em relação a mim: Quando há talento, há! E encontrei-o logo desde o princípio do livro. Às primeiras palavras tornou-se óbvio que ela não tem necessidade de se esforçar – é-lhe inato, vêm-se trechos que só podem advir de uma espontaneidade fluída que é o que consolida os bons escritores, os escritores de gema. A primeira parte do livro (aí até à página cem) é, de facto, um pouco difícil de desbastar. Isto porque a narração é fluída, com laivos de bom humor, e espelha muito bem – melhor do que bem, através de expressões idiomáticas – a essência do povo português. Da família portuguesa – sobretudo da mãe portuguesa, que quase “aterroriza” esta adolescente, a Carla, como as nossas mães e avós nos aterrorizam a nós com a hora do deitar e a pressa do levantar e os “ó filha isto” e “ó filha aquilo”. Foi muito português de Portugal, e adorei essa faceta da história. Li, nalguns comentários, que as referências da Andreia lhe eram demasiado familiares. Bom, para mim foi tudo um terreno novo. Exceptuando o Harry Potter, os meus livros favoritos retratam realidades invulgares e enriquecedoras – mas realidades. Ia convencida de que ia ler um “monte de clichés” sobre vampiros, mas levei outra bofetada quando me dei conta de que o livro aborda toda esta temática de um modo muito mais original. Embora se saiba que o livro é do género sobrenatural, houve ali algumas explicações, em certas alturas, sobre a existência e realidades paralelas, que fizeram um sentido estrondoso. Não digo que rocem uma possibilidade real, mas são extensões complexas demasiado amplas, raciocínios bem estruturados. Não sei se toda aquela arrumação das criaturas e dos seus mundos/realidades, misticismos e etc., encontra par em outras obras do género, mas se for esse o caso foram bem aplicadas. Se não for, muitos parabéns, Andreia, por teres inventado um mundo com contornos palpáveis.
Apesar de já conhecer a autora, consegui desligar-me dela ao ler o livro, o que espelha o quão bom ele é, o quão bem ele flui nas minhas mãos. Quando conheço o autor e leio a sua obra é como se bebesse as palavras dos seus lábios, como se o visse sentado a criar a história. Mas a Andreia não – não estava em lado nenhum. A Carla é a Carla e o livro é o livro, e ela é somente a criadora. Conseguiu criar algo de que gosta tanto completamente desprendido de si. As palavras são acessíveis, há momentos que me puseram de nervos em franja, outros que me enterneceram (o romance está super bem explorado embora a Carla o viva com alguma imaturidade, gostaria de tê-la visto resistir ao jeitosão com mais afinco, de início, talvez ser um pouco mais desconfiada), e houve momentos em que me segurei para não me pôr às gargalhadas. A Ana é, sem dúvida, a minha favorita. Gostei muito da panóplia geral de personagens e, sobretudo, da coesão que lhes deste.
Como digo, um livro é um exercício de arquitectura e a Andreia soltou pontas ali e uniu-as aqui e ainda deixou margem para muito andamento no “Soberba Tentação”, que sai para Julho. Vou ter que penar muito até ler o segundo e, mais ainda, até ler o terceiro!
Para terminar gostava de dizer algo que acho que também já li algures em relação a esta autora e à sua obra, e que não pensei vir a concordar mas que de facto concordo com sinceridade: se fosse no estrangeiro teria inúmeras portas abertas e seria um sucesso enorme instantâneo. Criar-se-iam clubes de fãs com números enormes e, quem sabe, far-se-iam filmes e franchisings. Além de um bom enredo tens boas palavras, bem escolhidas, e às vezes isso é o mais difícil. Dar substância a uma história sem se ser pretensioso, nem aborrecido, nem maçador.
Cá fico, entristecida, com dois meses pela frente à espera da continuação…!
Classificação: 5*****

quinta-feira, 3 de maio de 2012

#30 LOUREIRO, Célia Correia - Demência


Sinopse: No seio de uma aldeia beirã, Olímpia Vieira começa a sofrer os sintomas de uma demência que ameaça levar-lhe a memória aos poucos. A única pessoa que lhe ocorre chamar para assisti-la é a sua nora viúva, Letícia. Mas Letícia, que se faz acompanhar das duas filhas, tem um passado de sobrevivência que a levou a cometer um crime do qual apenas a justiça a absolveu. Perante a censura dos aldeões, outrora seus vizinhos e amigos, e a confusão mental da sogra, Letícia tenta refazer-se de tudo o que perdeu e dos erros que foi obrigada a cometer por amor às filhas. O passado é evocado quando Sebastião, amigo de infância de Olímpia, surge para ampará-la e Gabriel, protagonista da vida paralela que Letícia gostaria de ter vivido, dá um passo à frente e assume o seu papel de padrinho e protector daquelas três figuras solitárias…

Opinião: Ontem terminei - a tarde e más horas - a leitura do meu primeiro romance editado. Este Demência foi um trabalho descontínuo desde 2009, e foi culminar em cento e qualquer coisa páginas escritas de um sopro em Julho de 2011. Antes de o escrever, tinha uma ideia diferente para ele. Lembro-me de ir trabalhar para Lisboa, em 2007, a remoer a ideia de uma professora loira e baixa chamada Lavínia, que carregava uma filha pequenina no colo e que era ignorada pela pequena aldeia onde vivia - a aldeia da minha avó, que tão bem conheço - por ter sido obrigada a salvar-se das maldades de um marido alcoólico e violento. Lembro-me também de carregar na ideia uma idosa sem memória, muito à imagem da minha bisavó paterna, que perdesse capacidades a olhos vistos. E depois em 2009 surgiu a ideia de as juntar a ambas, num enredo em que seria impossível entenderem-se mutuamente. A sogra detesta a nora - apenas está esquecida disso metade do tempo. E lembrei-me de polvilhar isto com duas crianças inocentes, mas espertas, um velhote adorável (que é a minha personagem favorita, a par com um o Gabriel), e um professor céptico, inteligente e ligeiramente mal-humorado.

Agora que acabei de ler o livro como leitora, fiquei fascinada. Apesar das gralhas ocasionais - lamento a revisão do livro, deixou um pouco a desejar mas a verdade é que tanto eu como a editora trabalhámos incansavelmente para alinhavar essas falhas. Falhas de quem escreveu metade em 2009, a um ritmo, e a segunda metade a um ritmo bem mais acelerado em 2011. Sou muito exigente com o que leio, tanto como com o que escrevo, e a história venceu-me outra vez, e vencer-me-ia sempre mesmo que não fosse da minha autoria. Fui eu que a escrevi - mas mais do que um eu, Célia, fui eu, portuguesa. As palavras com que me expressei são aquelas, não foram traduzidas nem seleccionadas pela editora. São mesmo aquelas - desconcertantes, por vezes, duras, cruas, comoventes, descritivas, desoladoras. São aquelas e não outras.
 Apercebi-me de várias nuances do enredo que nem eu própria tinha tido noção de ter criado. Estou apaixonada com a complexidade do romance, com o puzzle subtil que se forma e que faz sentido no final, estou orgulhosa do modo como tudo se entrelaça e não há pontas soltas.

É um enredo sobre fé - não me tinha apercebido disso - e sobre sacrifícios a todos os níveis. Sobre os motivos pelos quais as pessoas são levadas a acreditar numa asserção, ou escolhem acreditar nessa asserção. Os motivos podem ser condicionados, inconscientemente, pelo próprio empirismo, pela racionalidade, pelos estereótipos, pelos preconceitos, pelas ideias pré-concebidas, pelo nosso próprio conhecimento, tantas vezes ignorante ou insuficiente, dos outros e dos factos. Neste livro há muita gente a formar ideias só porque parecem a mais plausível. O que não significa que esteja correcta. As circunstâncias obrigam a que se adopte determinada versão de um facto, de uma verdade incontornável, e a humanidade de cada um cimenta-a e acarinha-a, de modo quase irredutível. Deu-me um prazer enorme alterar estas certezas, assim como me deu agora desmantelá-las ao ler. Sou obrigada a concordar que criei personagens humanas, quase palpáveis. A complexidade das histórias pessoais, tão ricas, os passados arrastados ao longo de décadas, de metades de século. As expectativas de vida - tantas vezes goradas - os afectos que se acalentam e que ou triunfam ou dão em nada, um quê de romantismo nu, cru, presente apenas na medida em que se ama com mãos e alma rudes. 

Não consigo ir para o goodreads classificar o meu romance com cinco. Não posso dar-lhe cinco. Como mãe que o deu à luz, não me compete a mim clarividência para avaliar as qualidades do meu rebento. Mas, se me distanciar, posso dizer que lhe daria um 4,5 sólido. Não lhe daria o cinco por um motivo plausível: tendo sido eu a mão criadora, tenho consciência de tudo aquilo que gostaria de mudar. É deste 0,5 que não me consigo distanciar, como mãe. Mudar, mudar, apetece-me criar mais situações, voltar a pegar na Olímpia, na Letícia, nas miúdas, no Sebastião, no Fernando, no Gabriel, na Pilar e no Pedro e criar novos diálogos, novas interacções. Pôr os meus autómatos a caminhar em plena aldeia, a ofenderem-se, a amarem-se, a apoiarem-se e a apedrejarem-se. Ontem tive até desejo de pegar num núcleo qualquer e criar uma segunda parte da história.

Quem sabe as memórias da Olímpia, escritas pelo Sebastião? Quem sabe pôr um obstáculo no casamento pontuado de fé da Pilar e do Pedro? Ou fazer crescer a Luz e conceder-lhe a sua própria história?

Enfim, são tudo quimeras porque tenho outros projectos pela frente. Mas deu-me um prazer enorme escrevê-lo e é agradável saber que, quando estou com pouco apetite para leituras, é o meu pequeno (não assim tanto) Demência que me pisca o olho da estante e é ele que me distrai. As páginas voam - como leitora, que bebe as palavras que lê, e não como a escritora que lhes deu voz - nas minhas mãos.

Espero que quem quer que o leia retire este mesmo prazer dele. E que se recorde que o escrevi entre os 19 e os 21 anos. Tenho toda uma vida pela frente para conquistar, para mim própria, mais 0,5 pontos.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

#29, BALOGH, Mary - Uma Noite de Amor

Sinopse: " Numa manhã perfeita de Maio… Neville Wyatt, conde de Kilbourne, aguarda a sua noiva no altar. Mas, para espanto geral, em vez da bela jovem que todos conhecem aparece uma mendiga andrajosa. Perante a nata da aristocracia, o perplexo conde olha para ela e declara que é Lily, a sua mulher! Ao olhar para aquela que em tempos desposou, que amou e perdeu nos campos de batalha de Portugal, ele compromete-se a honrar o seu compromisso… apesar do abismo que agora os separa. Até que Lily fala com franqueza… E afirma querer começar de novo… e que Neville a ame verdadeiramente. Para isso, sabe que terá de estar à altura das expectativas dele, o que a leva a aceitar ser dama de companhia da sua tia e aprender as boas maneiras. A determinada Lily rapidamente conquista a admiração da alta sociedade, demonstrando ser uma condessa à altura do seu conde. Por seu lado, Neville está disposto a tudo para provar à sua formidável mulher que o que sentiu por ela no campo de batalha foi muito mais que desejo, muito mais do que o arrebatamento de… Uma noite de amor."


Opinião: Lily Doyle foi criada pelo exército inglês que ajudou Portugal a ver-se livre dos franceses. A história captou o meu interesse porque sou portuguesa e porque, pela primeira vez, um dos romances que tanto adoro era passado em parte aqui. Neville, Conde de Kilbourne, escolheu ser um soldado a fim de contrariar a vontade do pai. Mas não se enganem: nenhuma destas duas personagens se insere num lugar-comum. São ambos bastante humanos e complexos. Conforme o pai de Lily morre no campo de guerra, Neville jura casar-se com Lily e protegê-la, mas falha e ela é baleada. Conforme também ele é ferido e levado para Lisboa, é levado a querer que ela morreu. Mais de um ano depois ela surge em Inglaterra, no dia em que ele sobe ao altar com uma prima a fim de o lembrar do seu voto...

Não posso atribuir um 5 a este livro, somente porque na segunda parte a senhora Balogh lembrou-se de criar um segundo enredo, uma espécie de mistério em torno da identidade da Lily. Até aí, a beleza do livro residia precisamente no facto de que a Lily não pertencia ao mundo do Conde, mas ele tinha feito uma promessa de a amar abertamente, independentemente desse pormenor que os assombra desde o início. Entretive-me bastante a ler este livro, apaixonei-me pelas personalidades das personagens principais, mas a meio odiei o facto de ele deslizar para centenas de outros livros que já li, sobre alguém a seguir a donzela e a actuar de modo suspeito e a conspirar para matar as personagens principais. Espero que ela não faça o mesmo com o One Summer to Remember, que é a continuação centrada noutros personagens e que espero que seja editado em Portugal também. Como comprei este livro em Fevereiro, e a sua primeira edição foi lançada agora em Portugal e o li em dois dias, provavelmente terei de esperar bastante até que saia o segundo...

De qualquer forma, é melhor do que muitos livros do género, com a óbvia excepção da Sherry Thomas, que é a rainha do género na minha opinião.
Classificação: 4****

terça-feira, 1 de maio de 2012

#28 KEATING, Barbara e Stephanie - Irmãs de Sangue

Sinopse: Quénia, 1957. Durante a infância, três meninas de meios sociais muito diferentes tornam-se irmãs de sangue: a irlandesa Sarah Mackay, a africânder Hannah van der Beer e a britânica Camilla Broughton-Smith juram que nada nem ninguém quebrará o laço que as une. Mas o que o futuro lhes reserva vai pôr à prova os seus sonhos e certezas. Separadas pela distância e pelas obrigações familiares, as três jovens são atiradas para um mundo de interesses em conflito. Camilla alcança o sucesso como modelo na animada Londres da década de 1960; Sarah Mackay é enviada para a universidade na sua Irlanda natal, uma experiência penosa que apenas fortalece a sua determinação de voltar para África; e a família de Hannah Van der Beer esforça-se para manter a fazenda que os seus antepassados africânderes erigiram na viragem do século. Os seus laços serão constantemente postos à prova e, a par do exotismo de África, a sua amizade será pano de fundo para interesses amorosos cruzados e promessas quebradas.

Opinião: Comecei a ler este livro há anos atrás. Se não me engano, comprei-o na feira do livro de 2010. Portanto comecei a lê-lo aí, em Maio de 2010. Tem 670 páginas e devorei 600 delas num instante. Não posso dizer que me recordo de todos os pormenores da história, mas recordo-me dos núcleos centrais, da Hannah, da Sarah e da Camilla. Das vidas e das angústias de cada uma. Recordo-me de que a Sarah foi sempre apaixonada pelo irmão da Hannah, o Piet, e que o Piet foi sempre um capacho da Camilla (até certo ponto). Depois recordo-me de que a Camilla era apaixonada por um homem da savana que combate caçadores ilegais, o Anthony, e que este Anthony é um mulherengo. E lembro-me das tradições africanas, deste Quénia dos anos 60, quando a Inglaterra finalmente recua e o país fica entregue a si próprio. Recordava-me das violências raciais e do medo e das atrocidades que foram pautando as vidas daquelas três amigas.


Hoje, 01 de Maio de 2012, peguei nas últimas 70 páginas e li-as de enfiada. Recordei-me do sentimento geral do livro - tão humano. Da história de África, do seu perfume, tão bem transmitido nestas linhas... Não sei se é de África - que sempre me chamou através do meu avô materno - ou se é do talento inegável destas duas irmãs e autoras, mas o que é certo é que há meses que não chorava ao ler um livro, e quando dei por mim, estas 70 páginas renascidas de outras 600 lidas em 2010 levaram a lágrimas involuntárias. Levaram a um sentimento de saudade e melancolia e pertença. E fiquei ansiosa por ler os próximos desta trilogia, por muito maçudos que sejam!
Classificação: 5*****

»Leituras para Maio/relatório Abril

Sendo que em Abril não comecei sequer o Monte dos Vendavais, nem acabei o meu Demência, nem acabei o A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, vou ser menos ambiciosa este mês... vejamos.


1 - Acabar o Demência
2 - Acabar A Rainha no Palácio das Correntes de Ar
3 - Começar e acabar O Monte dos Vendavais (substitui A Guerra dos Tronos)
4 - Começar e acabar o Soberba Escuridão
5 - Começar e acabar o Promessas de Amor
6 - Começar e acabar o Ficarei à Tua Espera (substitui o Eu Sei que Voltarás)

Quanto ao mês passado:

Li 250/715 páginas d'A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, Stieg Larsson
Li 191/334 páginas do Mil Noites de Paixão (e terminei-o: http://castelos-de-letras.blogspot.pt/2012/04/26-hunter-madeline-mil-noites-de-paixao.html), Madeline Hunter
Li 113/432 páginas do Nunca Me Esqueças (e terminei-o: http://castelos-de-letras.blogspot.pt/2012/04/27-pease-lesley-nunca-me-esquecas.html), Leasley Pearse
Li 56/400 páginas do Demência, Célia Correia Loureiro
Li 50/379 da Guerra dos Tronos, George R. R. Martin

Total: 1160 páginas em Abril