terça-feira, 29 de maio de 2012

#35 BRONTË, Emily - O Monte dos Vendavais

Sobre o amor de Catherine a Edgar Linton

«- Antes de mais nada, ama Mr. Edgar?
- Quem pode deixar de o amar? Claro que amo.
Submeti-a, então, ao seguinte catecismo, a que não faltava acerto, vindo de uma rapariga de vinte e dois anos:
- Porque é que o ama, Miss Cathy?
- Que disparate, amo-o: isso basta.
- De modo algum; deve dizer porquê.
- Bem, porque é bonito, e é agradável estar com ele.
- Mau - foi o meu comentário.
- E porque é jovem e alegre.
- Mantenho o mau.
- E porque ele me ama.
- Indiferente, nesse ponto.
- E será rico, e eu gostaria de ser a mulher mais importante das redondezas, e sentirei orgulho de ter tal marido.
- Pior que tudo! E agora, quer dizer-me como o ama?
- Como toda a gente ama. É tola, Nelly.
- Não, não sou. Responda.
- Amo o chão que ele pisa, o ar que respira, e tudo aquilo em que toca, e cada palavra que ele diz... Amo todas as suas feições, e todos os seus actos, e a ele todo e completamente. Pronto, aí tem!
- E porquê? (...) Longe de mim estar a troçar, Miss Catherine. A menina ama Mr. Edgar porque ele é bonito, e jovem, e alegre, e rico, e a ama. O último pormenor, no entanto, não vale nada: amá-lo-ia sem isso, provavelmente, e, com isso, poderia não o amar, a não ser que ele possuísse os primeiros quatro atractivos (...) Mas há no mundo vários outros jovens bonitos e ricos, possívelmente, até, mais bonitos e mais ricos do que ele é... O que a impediria de os amar? (...) E ele não será sempre jovem e bonito, e poderá não ser sempre rico.
- Agora é. E a mim só me interessa o presente (...)
- Bem, isso arruma a questão: se só lhe interessa o presente, case com Mr. Linton.»

Sobre o amor de Catherine a Heathcliff


«Agora desagradar-me-ia casar com Heathcliff; por isso, ele nunca saberá como o amo, e amo-o, não por ele ser bonito, Nelly, mas porque ele é mais eu própria do que eu sou. Seja do que for que as nossas almas são feitas, a dele e a minha são iguais, e a de Linton é tão diferente quanto um raio de luar é de um relâmpago, ou a geada do fogo (...) Não sei exprimi-lo, mas certamente vossemecê e toda a gente têm a noção de que existe, ou deveria existir, uma existência nossa para além de nós. Para que serviria a minha criação se eu estivesse inteiramente contida aqui? Os meus grandes tormentos neste mundo têm sido os tormentos de Heathcliff, e eu observei e senti cada um deles desde o princípio; o meu grande pensamento na vida é ele. Se tudo o mais desaparecesse, e ele permanecesse, eu continuaria a existir, e se tudo o mais permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo transformar-se-ia num imenso desconhecido. Eu não pareceria uma parte dele. O meu amor por Linton é como a folhagem das florestas. O tempo há-de mudá-lo, tenho perfeita consciência disso, como o Inverno muda as árvores. O meu amor por Heathcliff assemelha-se às rochas eternas que existem por baixo: uma fonte de pouco deleite visível, mas necessárias. Nelly, eu sou Heathcliff, ele está sempre na minha mente, não como um prazer, do mesmo modo que eu não sou sempre um prazer para mim mesma, mas como o meu próprio ser.»

Sinopse: O Monte dos Vendavais é uma das grandes obras-primas da literatura inglesa. Único romance escrito por Emily Brontë, é a narrativa poderosa e tragicamente bela da paixão de Heathcliff e Catherine Earnshaw, de um amor tempestuoso e quase demoníaco que acabará por afectar as vidas de todos aqueles que os rodeiam como uma maldição. Adoptado em criança pelo patriarca da família Earnshaw, o senhor do Monte dos Vendavais, Heathcliff é ostracizado por Hindley, o filho legítimo, e levado a acreditar que Catherine, a irmã dele, não corresponde à intensidade dos seus sentimentos. Abandona assim o Monte dos Vendavais para regressar anos mais tarde disposto a levar a cabo a mais tenebrosa vingança. Magistral na construção da trama narrativa, na singularidade e força das personagens, na grandeza poética da sua visão, nodoso e agreste como a raiz da urze que cobre as charnecas de Yorkshire, O Monte dos Vendavais reveste-se da intemporalidade inerente à grande literatura.

Opinião: O Monte dos Vendavais é um daqueles títulos de livro que chegam a toda a gente, inclusive a quem não costuma ler. Eu não fazia ideia do que se tratava, mas o mais próximo que pensei estar da verdade foi ao compará-lo com o E Tudo o Vento Levou. Estava enganada porque ambos os livros são sobre guerra – a obra prima da Mitchell fala sobre a Guerra de Secessão na América, enquanto o Monte dos Vendavais fala sobre uma série de guerras interiores, praticamente tão extensos no acompanhamento de personagens um quanto o outro. Refiro ainda que ambas as mulheres, Mitchell e Brönte, publicaram apenas uma obra e que estas fazem parte dos melhores círculos da literatura internacional.
Quanto ao Monte dos Vendavais, para quem nunca ouviu falar do livro – ou para quem, como eu, já tinha ouvido falar mas sem encetar a viagem necessária pelas suas páginas – é a história de duas famílias, os Earnshaw e os Linton, conspurcada por um amor diabólico entre duas pessoas. Duas pessoas que foram incapazes de se abrir uma perante a outra. Talvez um título adequado para este romance fosse “Orgulho e Preconceito”, porque os há aqui mais do que na obra da Jane Austen assim baptizada. É a história de como os piores sentimentos germinam nos peitos rancorosos, incitados por mesquinhezes e ódios, e estas pessoas se tornam sedentas de vingança. É sobre vingança, sim. É sobre tirar o que se pôde a quem nos fez mal, sobretudo aquilo que lhe sabemos ser mais valioso. A Emily prestou-se a um mergulho a fundo na natureza humana, e emergiu dela para este romance com o pior que lá encontrou.
Acho que a Emily fez uma aposta inteligente quando colocou a governanta do Monte dos Vendavais, Nelly Dean, a contar a história da família ao novo inquilino da Granja vizinha ao Monte, Mr. Lockwood. Depois é louvá-la, à Nelly pelas suas francas oscilações de humor, tão facilmente compreensíveis por qualquer humano que nem requerem explicação. E à Emily, por aceitar revelar o nível de introspecção que creio ter sido necessário para a construção deste livro em particular.
Quanto às personagens, muitos são apenas capazes de se referir a elas com amor ou ódio… Eu sou incapaz, menos de uma hora depois de ter lido o livro, de reflectir sobe o seu carácter, os seus motivos e os seus comportamentos. Deste modo me comprometo, após reflectir, a criar um tópico somente sobre Catherine Earnshaw e Heathcliff.
Classificação: 5*****

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Citação #1

#1

Diálogo entre Catherine Earnshaw e Nelly Dean, a ama, decorrido no mesmo momento:

Sobre o amor de Catherine a Edgar Linton

«- Antes de mais nada, ama Mr. Edgar?
- Quem pode deixar de o amar? Claro que amo.
Submeti-a, então, ao seguinte catecismo, a que não faltava acerto, vindo de uma rapariga de vinte e dois anos:
- Porque é que o ama, Miss Cathy?
- Que disparate, amo-o: isso basta.
- De modo algum; deve dizer porquê.
- Bem, porque é bonito, e é agradável estar com ele.
- Mau - foi o meu comentário.
- E porque é jovem e alegre.
- Mantenho o mau.
- E porque ele me ama.
- Indiferente, nesse ponto.
- E será rico, e eu gostaria de ser a mulher mais importante das redondezas, e sentirei orgulho de ter tal marido.
- Pior que tudo! E agora, quer dizer-me como o ama?
- Como toda a gente ama. É tola, Nelly.
- Não, não sou. Responda.
- Amo o chão que ele pisa, o ar que respira, e tudo aquilo em que toca, e cada palavra que ele diz... Amo todas as suas feições, e todos os seus actos, e a ele todo e completamente. Pronto, aí tem!
- E porquê? (...) Longe de mim estar a troçar, Miss Catherine. A menina ama Mr. Edgar porque ele é bonito, e jovem, e alegre, e rico, e a ama. O último pormenor, no entanto, não vale nada: amá-lo-ia sem isso, provavelmente, e, com isso, poderia não o amar, a não ser que ele possuísse os primeiros quatro atractivos (...) Mas há no mundo vários outros jovens bonitos e ricos, possívelmente, até, mais bonitos e mais ricos do que ele é... O que a impediria de os amar? (...) E ele não será sempre jovem e bonito, e poderá não ser sempre rico.
- Agora é. E a mim só me interessa o presente (...)
- Bem, isso arruma a questão: se só lhe interessa o presente, case com Mr. Linton.»

Sobre o amor de Catherine a Heathcliff

«Agora desagradar-me-ia casar com Heathcliff; por isso, ele nunca saberá como o amo, e amo-o, não por ele ser bonito, Nelly, mas porque ele é mais eu própria do que eu sou. Seja do que for que as nossas almas são feitas, a dele e a minha são iguais, e a de Linton é tão diferente quanto um raio de luar é de um relâmpago, ou a geada do fogo (...) Não sei exprimi-lo, mas certamente vossemecê e toda a gente têm a noção de que existe, ou deveria existir, uma existência nossa para além de nós. Para que serviria a minha criação se eu estivesse inteiramente contida aqui? Os meus grandes tormentos neste mundo têm sido os tormentos de Heathcliff, e eu observei e senti cada um deles desde o princípio; o meu grande pensamento na vida é ele. Se tudo o mais desaparecesse, e ele permanecesse, eu continuaria a existir, e se tudo o mais desaparecesse e ele permanecesse, eu continuaria a existir, e se tudo o mais permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo transformar-se-ia num imenso desconhecido. Eu não pareceria uma parte dele. O meu amor por Linton é como a folhagem das florestas. O tempo há-de mudá-lo, tenho perfeita consciência disso, como o Inverno muda as árvores. O meu amor por Heathcliff assemelha-se às rochas eternas que existem por baixo: uma fonte de pouco deleite visível, mas necessárias. Nelly, eu sou Heathcliff, ele está sempre na minha mente, não como um prazer, do mesmo modo que eu não sou sempre um prazer para mim mesma, mas como o meu próprio ser.»

O Monte dos Vendavais, Emily Brontë


#2
Desabafo de Heathcliff para com Catherine:

«- Estás a mostrar-me agora como foste cruel, cruel e falsa. Porque me desprezaste? Porque traíste o teu próprio coração, Cathy? Não tenho uma palavra de conforto: tu mereces isto. Mataste-te a ti própria. Sim, podes beijar-me, e chorar, e arrancar-me beijos e lágrimas. Eles desgraçam-te, elas amaldiçoam-te. Amavas-me. Sendo assim, que direito tinhas de me abandonar? Que direito, responde-me!, tinhas de sentir o insignificante capricho que sentiste por Linton? Como nem a miséria, nem a degradação, nem a morte, nem nada que Deus ou Satanás pudessem inflingir nos teria conseguido separar, tu, por tua própria verdade, fizeste-o. Eu não despedacei o teu coração: tu é que despedaçaste o meu. Pior, muito pior para mim que sou forte. Quero viver? Que vida será a minha quando tu... Oh, Deus! Gostarias tu de viver com a tua alma na sepultura?»


#3

Heathcliff a propósito do filho do seu inimigo, a quem abriga por morte do segundo:

«- Ele causa-me prazer! - continuou a pensar alto. - Satisfez as minhas expectativas. Se fosse um idiota nato, não me agradaria tanto. Mas não é idiota nenhum, e eu posso compreender todos os seus sentimentos, porque os senti pessoalmente. Sei, por exemplo, o que está a sofrer agora, exactamente, e que não é mais do que o começo do que sofrerá. E ele nunca será capaz de emergir do seu absurdo de rudeza e ignorância. Tenho-o mais apertado do que o patife do pai me teve a mim, e mais rebaixado, pois ele orgulha-se da sua bruteza. Ensinei-o a desdenhar de tudo quanto não é animal como sendo estúpido e fraco (...) Se o maldito defunto pudesse levantar-se da cova para me insultar pelos danos causados ao seu rebento, eu teria o prazer de ver o dito rebento enxotá-lo de novo para lá, indignado por ele se atrever a injuriar o único amigo que tem no mundo!
A ideia fez Heathcliff soltar uma gargalhada diabólica.»

terça-feira, 22 de maio de 2012

»34 THOMAS, Sherry - Promessas de Amor

Sinopse: Elissande Edgerton é uma mulher desesperada, uma prisioneira na casa do tio tirano. Apenas através do casamento pode ela reivindicar a liberdade por que anseia. Mas como encontrar o homem perfeito? Lorde Vere está habituado a armadilhas irresistíveis. Como agente secreto do governo, localizou alguns dos criminosos mais tortuosos em Londres, enquanto mantém a sua fachada de solteirão idiota e inofensivo. Mas nada pode prepará-lo para o escândalo de ser apanhado por Elissande. Forçados a um casamento de conveniência, Elissande e Vere estão prestes a descobrir que não são os únicos com planos secretos. Com a sedução como única arma - e um segredo obscuro do passado a pôr em risco as vidas de ambos – poderão eles aprender a confiar um no outro, mesmo enquanto se entregam a uma paixão que não pode ser negada?

Opinião: O primeiro livro que li da Sherry Thomas foi o “Um Amor Quase Perfeito”. Visto que já li centenas de romances históricos – costumava ler um por noite, que baixava da internet e devorava até altas horas da madrugada – é-me impossível catalogá-los todos e, mais ainda, é-me impossível distingui-los. Mas os da Sherry distinguem-se, sem dúvida. Não só as personagens são únicas, como são inteligentes, perspicazes, transcendem os limites da ficção e parecem-nos quase pessoas comuns e excepcionais. O Lorde Vere, por exemplo, foi acusado por alguns críticos ao romance de ser estupidamente idiota. Ora bem; leram bem o livro? Qual é a parte que não entenderam sobre ele ter inúmeros motivos, entre os quais ser Agente da Coroa, para se fingir de tolo? Era importante que ninguém lhe desse credibilidade. Ri-me sobremaneira com as situações que proporcionou, e arrepiei-me literalmente quando emergia desse torpor de asno e assumia a inteligência que era, de facto, dele. Ele esteve sempre muito à frente de todos no livro, muito honesto e fiel a si próprio nas suas desconfianças. Apercebi-me agora que costumo gostar muito mais dos personagens masculinos que a Thomas cria do que dos femininos. A Verity, d’O Fruto Proibido, passou-me quase ao lado. Foi ele, o Stuart, com a sua franqueza imperturbável, que me ficou na memória. A Lady Tremaine chamava-se como, mesmo? Estou a falar do meu romance “romance” favorito de todos os tempos e não me recordo do nome dela. Ele? Lorde Tremaine? Chamava-se Camden e foi inesquecível, tortuoso, lógico e brilhante. Mas gostei da Elissande, entendi os seus motivos e anseio igualmente pela liberdade que ela ansiava. Não é uma tola em busca de amor – é uma prisioneira em busca de ar fresco.
Por algum motivo os RITA Awards elegeram o “Promessas de Amor” como o melhor romance histórico de 2011. A Thomas não se limita a criar enredo para cama e romance com “um bocadinho de estória” (odeio esta forma de escrever estória, mas quis que se entendesse do que falo). Não, não. Os livros dela têm História, intriga, inteligência, acção, romance, sensualidade, sofrimento, etc., quanto baste. Ainda não a vi cair em clichés. Pelo menos, até aqui, nenhuma das suas personagens principais foi raptada. Não houve mal-entendidos ridículos entre o casal-maravilha. Há sim motivos plausíveis – e culpas mútuas – para que se mantenham afastados. E ela descreve a solidão, a distância, o afastamento… o anseio por quem se ama como ninguém. Pensar em “Um Amor Quase Perfeito” ainda me traz angústias…
                Aquele maravilhoso trecho em Copenhaga… <3
Classificação: 5*****

segunda-feira, 21 de maio de 2012

#33 BARON, Michael - Ficarei à Tua Espera

Sinopse: Por vezes, o que nos ultrapassa é precisamente aquilo de que necessitamos... 
Gerry Rubato tinha tudo o que julgava precisar da vida. Continuava apaixonado pela namorada dos tempos da faculdade, com quem casara há quase vinte anos; tinha uma filha inteligente e de espírito autónomo e a novidade de um novo filho a caminho. Foi então que tudo mudou drasticamente. Sem grandes explicações, a filha fugiu com o namorado e um mês após o nascimento do filho, a mulher morreu de repente. Agora Gerry tem que enfrentar um novo desafio, pois precisa de ser tudo para o seu filho recém-nascido e ter coragem para continuar a lutar e refazer a sua vida. Carregado de ternura, humor, sabedoria e personagens inesquecíveis, Ficarei à tua Espera é um romance que lhe vai arrebatar o coração.

Opinião: A comparação que um dos críticos fez, entre o Michael Baron e o Nicholas Sparks, não é de todo despropositada. O livro tem, de facto, um enredo tipicamente Sparksiano. Felizmente, é um pouco mais profundo do que isso. Ainda não assim, não foi o suficiente para me cativar. Além de uma obsessão óbvia pela palavra «fascínio», palavra que me irrita deveras quando constantemente utilizada a propósito de sopas, o autor meteu demasiado baseball no livro. Dá ideia que precisa de encher chouriços. É interessante o desenvolvimento da relação do pai com o filho bebé, assim como o desenvolvimento do pequenino. É até tocante a perda pela qual passa, e não quereria imaginar-me nessa situação. Mas é um livro muito leve, muito corriqueiro, aborreceu-me deveras várias vezes. Se tivesse voltado atrás, não teria apreendido esta pequena viagem. Faço uma ressalva ao bom humor do autor, que me pôs a rir com algumas deixas. Quanto à editora, houve uma altura do livro em que o texto tem umas quantas gralhas – perguntei-me se a revisora estaria a ter um mau dia quando reviu este livro. É uma leitura leve, ideal para as férias de verão e para quem não quer aborrecer-se demais com a leitura. Houve um ou outro momento em que me comovi… o autor é bom a expressar sentimentos. É o enredo que não me prendeu.
Classificação: 3***

domingo, 20 de maio de 2012

»mais duas opiniões sobre o «Demência»

20 Maio 2012 - Margarida Costa - 5 (em 5)


Acabei de ler o livro e estou absolutamente encantada!

Nunca pensei dar a minha opinião sobre um livro publicamente. Não sou crítica literária, sou apenas uma leitora que gosta de bons livros. Por norma apenas partilho a minha opinião com as pessoas mais chegadas e a quem gosto de “tentar” com as minhas leituras, para depois partilharmos pensamentos, sensações e até talvez criticas, mas nunca me atrevi a fazê-lo publicamente.

Este caso foi diferente! As emoções ao ler o livro foram tão intensas que senti que tinha de dizer alguma coisa.

Gosto muito de autores portugueses! Gosto de “estórias” sobre este nosso cantinho e tenho sempre curiosidade em conhecer os nossos novos autores.
Ao ler a sinopse fiquei conquistada. Talvez pelo facto de referir uma aldeia beirã e as minhas raízes virem de uma! Ou pelo tema ou talvez apenas curiosidade por ser uma autora tão jovem e portuguesa. Não sei, conquistou-me e não descansei enquanto não consegui o livro, o que aconteceu exactamente através da autora, com quem troquei alguns e-mail e cuja personalidade naquelas poucas palavras me fascinou. E não me enganei! Ela é fascinante.
Assim que comecei a ler o livro, confirmou-se uma boa escolha! É um livro com bastante ritmo, que nos prende desde a primeira frase e que se torna difícil de pousar. Uma história arrebatadora!
Os temas que escolheu são ambiciosos por dolorosos e difíceis, infelizmente reais mas a autora não teve medo de lhes pegar e trabalhou-os com uma maturidade que nos espanta numa pessoa tão jovem. Mostrou um conhecimento profundo do Mal e da alma humana e do Mundo, que gente bastante mais velha não possui.
A escrita é acessível e fluída, arrebatadora mas também profunda e nota-se que foi crescendo ao longo do livro. Gostei e tive dificuldades em “livrar-me” dele depois de lido, é tão intenso que permanece em nós mesmo depois de terminado, e talvez por isso sentisse necessidade de falar sobre ele, tinha de o “expulsar”.
No final da leitura fica a sensação que somos amigos, vizinhos ou simples conhecidos das personagens e que gostaríamos de continuar com elas, é difícil despedirmo-nos…
São personagens fortes com uma grande carga psicológica intensa, que ao longo do livro nos emocionam, nos revoltam, que nos fazem ter vontade de interferir, que nos fazem “torcer” por elas. Os “recadinhos” de Olímpia a ela própria são enternecedores, e fazem-nos pensar como deve ser desesperante não conseguir lembrar. Luz e Maria são as filhas que todos gostaríamos de ter, embora ache que pelo menos a Luz podia ter tido um papel mais relevante. A força e a coragem de Letícia impõem-se no decurso da trama e emocionam-nos ainda que por vezes nos revolte a falta de reacção perante o que pensam dela e não reaja perante tanta injustiça, mas é um romance e não a vida real.
As personagens masculinas principais, Sebastião e Gabriel, embora de gerações diferentes, são movidas pelos mesmos sentimentos: amizade, amor, e acima de tudo a necessidade de proteger as mulheres que de uma forma ou outra fazem e fizeram sempre parte da sua vida, são personagens muito ricas. Acho que o Sebastião podia ter sido um pouco mais explorado e ter tido um papel mais activo.
Não vou obviamente contar a história. Essa terá de ser uma experiência pessoal, mas digo: vale a pena. É uma história sobre o nosso tempo, mas é também intemporal. É uma história sobre sentimentos, emoções, lutas interiores, mas é também uma história sobre o nosso Portugal interior com grande riqueza de pormenores, com cor, com cheiros…
A Célia tem talento, na minha humilde opinião muito talento! Tenho a certeza que virá a ser um grande nome no panorama literário português. Leiam este “Demência” e compreenderão o que digo. Eu já o fiz e já espero ansiosamente o próximo livro.
Obrigada Célia. Continue sempre e sempre igual a si própria.
Parabéns.

(quase chorei, Margarida, obrigada!!!)

16 de Maio 2012 - Susana Cardoso - 3,5 (em 5)

Este é um livro de leitura bastante acessível. Que retrata temas muito actuais e que deveriam ser discutidos com mais frequência. Um livro com personagens envolventes e um ritmo constante e agradável. A Célia é uma escritora promissora, e sendo este o seu início de carreira, estou certa de que, se ela realmente optar pela escrita ao longo da vida, terá sucesso junto do público, principalmente feminino.
Toda a evolução temporal é bastante coerente. Não denotei nenhuma falha, e está em completa concordância com a realidade (21 de Dezembro de 1945 foi, de facto, uma Sexta-feira)
Outro ponto bastante positivo, pelo menos na minha opinião, é que o livro não foi escrito obedecendo ao Acordo Ortográfico de 1990. 
Na minha opinião, as duas histórias principais deste livro competem uma com a outra pela intensidade e, julgando pelo título do livro, pensei que se centrasse mais sobre uma delas. Tenho pena que assim não tenha sido. A autora decidiu conferir maior intensidade ao romance do que própriamente à doença mental, o que tenho a certeza cativará mais público.
Ao longo da leitura, apercebi-me de algumas falhas gramaticais, ou de escolhas de um ou outro vocábulo menos felizes, mas nada que o treino não resolva.
No geral, é um bom trabalho, mas com possibilidade de melhorar a nível técnico (uso de mais figuras de estilo, vocabulário mais abrangente). Uma excelente escolha para uma leitura de férias.

(Obrigada Susana, especialmente pelo trabalho de análise profunda à obra que me enviou por e-mail!)

Obrigada às duas e a todos os outros leitores :)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

»Na prateleira e por ler

Certamente que não sofro sozinha deste mal:
- Ter cerca de 27,5% dos livros de que disponho ainda por ler.

Decidi listá-los e lançar-me a uma leitura activa dos mesmos.
Devo estar numa óptima fase porque decidi que não compro mais livros enquanto não ler pelo menos cinco dos que me proponho a ler.

Em baixo a lista dos livros (meus) que nunca li:

Ora cá estão esses 27,5% da minha biblioteca:
A azul os primeiros cinco a que me lançarei...

  1. O Priorado do Cifrão, João Aguiar
  2. Retrato de Ricardina, Camilo Castelo Branco
  3. Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett
  4. És o Meu Segredo, Tiago Rebelo
  5. O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro
  6. Uma Linha de Torres, Emílio Miranda
  7. As Flores do Templo, Rani Manicka
  8. A Leste do Sol, Julia Gregson
  9. As Vinhas da Ira, John Steinback
  10. A Pérola, John Steinback
  11. Blonde, Joyce Carol Oates
  12. O Monte dos Vendavais, Emily Brönte
  13. Jane Eyre, Charlotte Brönte
  14. Sense and Sensibility, Jane Austen (EN)
  15. Mansfield Park (EN)
  16. O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas
  17. Vinte Quatro Horas na Vida de Uma Mulher, Stefan Zweig
  18. Leite Derramado, Chico Buarque
  19. Um Capricho da Natureza, Nadine Gordimer
  20. A Ratazana, Günter Grass
  21. As Meninas dos Chocolates, Annie Murray
  22. A Casa na Rua da Esperança, Danielle Steel
  23. O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy
  24. Flores na Tempestade, Laura Kinsale
  25. A Ilha dos Desencontros, Anita Shreve
  26. Testemunho, Anita Shreve
  27. Um Fogo Eterno, Barbara & Stephanie Keating
  28. Luz Efémera, Barbara & Stephanie Keating
  29. Promessas de Amor, Sherry Thomas
  30. Dracula, Bram Stoker
  31. Desejos do Coração, Jude Deveraux

Veremos...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

#32 LARSSON, Stieg - A Rainha No Palácio das Correntes de Ar



1891 páginas depois, acabei de ler a Trilogia Milénio, do falecido jornalista Stieg Larsson. Com esta “viagem” atribulada de quase cinco meses, tirei várias conclusões sobre mim como leitora, sobre o meu género de livro e, sobretudo, sobre o não me meter em Trilogias/Sagas porque é um desgaste enorme de tempo e cabeça. Muitas vezes avançamos frustrados, na ânsia de resolver todas as pontas soltas de uma vez, de chegar à realização dos heróis e à punição dos bandidos. Esta Trilogia é, média de pontuações, 5*****. No entanto, devo dizer que o segundo livro é, de longe, o meu favorito. E o terceiro o mais “fraco” em termos de ritmo e entusiasmo.

Como leitora dei por mim a pensar, várias em vezes, em como o Larsson conseguiu hipnotizar-me. Quando algo me é difícil demais, desisto. No entanto sorvo 1891 páginas de uma cultura que desconheço - a sueca - de pessoas que me são estranhas e com as quais não é suposto ter ponto algum de concordância - o jornalista mulherengo Blomkvist e a excêntrica hacker da Salander, de um governo e um sistema judicial ao qual nunca tinha dedicado dois minutos, à própria Europa do Norte e às suas questões financeiras - indústria, investimentos, equipamentos, e social - imigração, comunicação social, problemas sociais. E política, claro. Primeiros-ministros, monarquia, etc., etc., etc.. Fiquei orgulhosa de mim por ter mergulhado tão fundo em questões tão complexas. Os livros são o raio de uns tabuleiros de xadrez avançadíssimo. Por vezes dei por mim totalmente às aranhas e só esforçando-me à séria cheguei lá... Mas são simultaneamente acessíveis, e por isso consegui!

Adorei o surrealismo das situações que o Larsson teceu em teia ao longo de três longos livros, adorei o modo quase científico como alinhavou as explicações. Convenceu-me do princípio ao fim, pôs-me a rir - a franguela da Salander avia dois motoqueiros machões com um taser e uma pistola que consegue remover das mãos dum deles - e fez-me amar de coração uma autêntica heroína massacrada dos tempos modernos, que não se fica e é francamente mais inteligente do que todos ao seu redor. Oh Lisbeth... vou ter saudades tuas!

Esta personagem [Lisbeth Salander] é épica, ao lado da Scarlett O’Hara do “E Tudo o Vento Levou”, é a minha favorita de tudo o que li até agora. Com a sua extrema magreza, olhos pintados de negro, tachas e correntes, saias curtas de couro, botas de biqueira de aço e cabelo tingido de preto e escortanhado, com piercings nos mamilos e tatuagens por todo o lado... Adorei o seu passado, admiro-a, admiro o seu instinto esmagador de sobrevivência. Amo o facto de ter sido, ao longo dos três livros e sob descrição do próprio Mickael Blomkvist “Uma rapariga cheia de recursos”. Acabou a trilogia com uma pistola de pregos eléctrica na mão, a lutar por se safar às manápulas implacáveis dum gigante sem sensibilidade à dor.

O Larsson habituou-me à sua escrita quase jornalística. Por vezes áspera, por vezes comparável à de uma menina inocente. “Fazer amor”, aplicado a um mulherengo. “F**er”, quando é a Lisbeth Salander a dizê-lo.

Sinopse: Lisbeth Salander sobreviveu aos ferimentos de que foi vítima, mas não tem razões para sorrir: o seu estado de saúde inspira cuidados e terá de permanecer várias semanas no hospital, completamente impossibilitada de se movimentar e agir. As acusações que recaem sobre ela levaram a polícia a mantê-la incontactável. Lisbeth sente-se sitiada e, como se isto não bastasse, vê-se ainda confrontada com outro problema: o pai, que a odeia e que ela feriu à machadada, encontra-se no mesmo hospital com ferimentos menos graves e intenções mais maquiavélicas…

Entretanto, mantêm-se as movimentações secretas de alguns elementos da Säpo, a polícia de segurança sueca. Para se manter incógnita, esta gente que actua na sombra está determinada a eliminar todos os que se atravessam no seu caminho.
Mas nem tudo podia ser mau: Lisbeth pode contar com Mikael Blomkvist que, para a ilibar, prepara um artigo sobre a conspiração que visa silenciá-la para sempre. E Mikael Blomkvist também não está sozinho nesta cruzada: Dragan Armanskij, o inspector Bublanski, Anika Gianini, entre outros, unem esforços para que se faça justiça. E Erika Berger? Será que Mikael pode contar com a sua ajuda, agora que também ela está a ser ameaçada? E quem é Rosa Figuerola, a bela mulher que seduz Mikael Blomkvist?
Também revi este da Trilogia Milénio:

Opinião: Sabe-se, praticamente desde o início, que a Lisbeth Salander vai ser julgada. Acontece que ela foi quase mortalmente ferida pelo Zalachenko, pelo que passa metade do livro a restabelecer-se no Hospital, sob vigia médica e policial. O julgamento só sucede praticamente nas últimas duzentas páginas de um livro de 731. É no mínimo frustrante. Todo o livro é um jogo de estratégia avançada. É por isso que fiquei estupefacta com a mente brilhante do Larsson. Temos, em várias frentes e sob diversos propósitos, todos em conjunto para conduzirem a absolição/condenação/internamento da Lisbeth conforme os favorece, a polícia sueca, a Säpo (polícia especial de segurança do estado), a Secção dentro da Säpo (um banco de rufiões a manipular os assuntos de estado), a revista Milénio (com Mickael Blomkvist na frente e os seus colaboradores na sua peugada), a Milton Security, o psiquiatra de Lisbeth desde os seus doze anos, Peter Teleborian, e o tutor de Lisbeth desde os dezasseis. É um combate épico em que o estado se contorce para esconder espiões estrangeiros do tempo da Guerra Fria, questões de violência doméstica abafadas, prostituição, escutas e atentados ilegais, pervertidos a perseguir o objecto das suas obsessões, imigrantes a tentar entrar no país em busca de uma vida melhor e a serem inseridas violentamente em redes de prostituição internacional, exploração infantil, desfalques, deturpação de provas, etc., etc.. E a Salander no centro disto tudo, somente munida de um computador de bolso (ela, uma hacker brilhante) estendida numa cama com um colar cervical e a cicatriz recente de uma bala que lhe foi extraída do cérebro...
 
Classificação: 5*****