quinta-feira, 9 de agosto de 2012

#50 ENRIGHT, Anne - A Valsa Esquecida


Sinopse: Gina recorda a senda de desejo e de acaso que a levou a apaixonar-se por Seán, «o amor da sua vida». Enquanto a cidade lá fora fica paralisada pela neve, Gina recorda os tempos que passaram em diversos quartos de hotel: longas tardes que a felicidade e a negação tornaram indistintas. Agora, enquanto as ruas silenciosas e a quietude e a vertigem da neve que cai tornam o dia luminoso e pleno de possibilidades, Gina enfrenta a intempérie para se ir encontrar com uma rapariga a quem chama o «belo erro» de Seán: Evie, a sua frágil filha de doze anos. Neste romance extraordinário, uma espécie de caixa de segredos, deparamo-nos com o relato de acontecimentos súbitos e decisivos da vida quotidiana, com as relações voláteis entre as pessoas, com a frescura do olhar para cada estremecimento e gesto, com a captação irónica e exata das famílias, do casamento e da fragilidade da meia idade. São evidentes toda a verve, o humor e o extraordinário controlo característicos da autora, bem como a capacidade de fundir o banal e o miraculoso. Em Valsa Esquecida, toda a atenção é voltada para o amor e acompanhamos a viagem sentimental de uma heroína prevaricadora e inesquecível. Uma obra-prima de inteligência, paixão e originalidade.

Opinião: Sou um bocadinho snobe no que diz respeito a literatura. Bom, é verdade, admito. Eu própria me envergonho disso por dois motivos que considero válidos; primeiro porque a leitura é extraída da escrita, e a escrita, como arte que é, é subjectiva. Toca uns e passa ao lado de outros. Que direito tenho de torcer o nariz a quem lê livros que considero de qualidade inferior? Depende do quanto descermos... humpf. Depois, porque nem eu li jamais Tolstoi, ou Dostoievsky, ou mesmo Shakespeare, e isso é que seria a boa literatura, não?

Mas este "A Valsa Esquecida" intrigou-me. Ganhou um Orange Prize, tem uma capa que apela à melancolia, à reflexão e aos valores morais e enraizados... não? A mim foi essa ideia que passou. Agora adivinhem? Eu não entendo porque é que o livro tem este título - nem valsas, nem convenções, nem um passado para esquecer, nada que se lhe associe. E a capa? Bom a ideia que tenho da protagonista é uma trintona de ganga e cabedal, cabelos curtos, álcool e maquilhagem a mais. Onde é que isto combina com a saia plissada e os sapatinhos clássicos da senhora na capa?

Ponto positivo: a escritora e o cenário são irlandeses e vou à Irlanda em Setembro, teve, para mim, um interesse particular
Ponto negativo: fiquei na mesma quanto à Irlanda, a escritora não aproveitou a visibilidade para falar de nada que não da crise e do sector imobiliário

Personagens: mas que azar é este que tenho com as personagens? Perguntei-me, ao terminar o livro, se sou eu que embirro. Senti-me ligeiramente decepcionada por ter a certeza de que ia gostar do 2º livro da Balogh publicado em Portugal. Perguntei-me se seria o género: será por amar tanto os romances históricos que me aborreci de morte com este da Enright? Mas tive a minha resposta: na segunda página do "Um Verão Inesquecível", já eu estava a rir. Já o personagem masculino foi apresentado, com toda a margem que há-de haver para as suas inconstâncias e imprevisibilidades. Já os homens na multidão tinham mais alma, mais profundidade, mais dimensões, do que a cabecinha oca da Gina e o canalha do Seán d"A Valsa Esquecida".

A dado momento o romance resvalou do foco do romance extraconjugal para a filha do adúltero, que tem epilepsia. Ora bem... quando o casal morreu - alguma vez houve chama? Aí pela página 160 de 225 (aprox.) a autora lembrou-se de remexer na filha. De "inventar" uma relação entre a adúltera e a filha do adúltero. Relação cliché, mal explorada, vazia, até porque a Gina não tem nada de terno, vulnerável ou maternal. A cabeça do Seán? Nunca entendemos. O porquê daquela atracção mútua? Idem.

O que salva [escapa n]o romance - muito repetitivo em cenários, muitos quartos de hotel, muitas festas com os mesmos convidados, álcool, pseudo-dramas e rotina doméstica aborrecida - são os trechos, as associações espirituosas ocasionais que sugerem que a Anne, de facto, tem talento. Este só não é um livro que eleve o seu potencial.
PS - Voei sobre as últimas cinquenta páginas. Precious time, this one of mine...
Classificação: 2**

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

#49 MAUGHAM, Somerset - O Véu Pintado


Sinopse: «Kitty sente-se prisioneira de um casamento infeliz e de um estilo de vida que está longe de ser aquele que sonhou para si. Sem que tivesse obtido a notoriedade social que desejava e afastada do seu país e da família devido à profissão do marido – bacteriologista destacado para Hong Kong –, a jovem acaba por encontrar algum consolo numa relação extra conjugal. Mas a traição acaba por ser descoberta pelo marido, que leva a cabo uma estranha e terrível vingança… Através do despertar espiritual da adorável e fútil Kitty, Somerset Maugham pinta um retrato vívido da presença britânica na China e apresenta-nos uma galeria de personagens inesquecíveis.»

Opinião: "O Véu Pintado", adaptação com Edward Norton e Naomi Watts, é dos meus filmes favoritos. A banda sonora é simplesmente sublime! Li trechos do livro a ouvi-la, amplamente comovida pela beleza e a nostalgia que transmite. Já ouvi quem dissesse que estava muito aquém do livro, mas hoje, e terminada a leitura, considero até que o filme - tendo em conta a altura a que um filme se pode erguer perante um livro, é tão bom quanto o dito cujo, neste caso. Vou explicar que matemáticas básicas me levam a este resultado: o filme romanceou um pouco a história, fazendo com que a Kitty se redimisse devido ao amor e à admiração que acaba por nutrir pelo marido. Julguei que fosse um romance assim, sobre redenção. Sobre o facto de ela ser jovem e viver de centelhas de brilho para, em seguida, se dar conta do verdadeiro valor intrínseco à natureza humana. Em contrapartida o livro exibe o talento nato do autor para explorar o funcionamento da mente e das emoções humanas.
O livro é sobre erros. Sobre arrependimento e sobre recaídas, sobre desprezo, compreensão e incompreensão, e sobre o quão inalcançáveis algumas pessoas nos parecem, tal fechado é o seu modo de ser. Houve uma parte em que a Kitty teve um relance da complexidade do marido e descreve esse momento como olhar para uma floresta frondosa e escura à noite, vê-la alumiada momentaneamente por um relâmpago, julgar ter lá visto algo e, então, regressar às trevas. O Walter Fane é um puzzle fascinante e comovente. É ternamente apaixonado pela Kitty (não digo loucamente porque é demasiado tímido e contido, mas a dimensão do seu afecto é obviamente desmesurada) e fica feito em cacos quando ela o trai. Provavelmente para se perdoar a si próprio - por ter amado uma criatura como ela, uma adúltera mimada e caprichosa - e para atenuar a sensação de desprezo por si mesmo (pelos mesmos motivos), obriga-se a fazer um sacrifício maior. Um sacrifício que porá em risco tanto a sua vida quanto a da sua esposa infiel: como bacteriologista, refugia-se em Mei-tan-fu, um recanto na China onde as pessoas perecem como moscas devido à Cólera.E é nesse cenário exótico e de choque de culturas que a Kitty "cresce". Nos poucos meses (dois ou três) que passa em contacto com a doença, com as freiras do orfanato, com o seu vizinho inglês que vive com uma mulher manchu, a sua mente expande-se e ela começa a reflectir sobre a vida, o amor, a felicidade, si própria, a religiosidade, e a tentar decifrar o modo como a sua traição modificou o marido - outrora tão dedicado - e a condenou à infelicidade e a caminhar lado-a-lado com a morte. As suas prioridades rearranjam-se e ela começa a vencer os próprios preconceitos e a desejar ser uma pessoa melhor.A Kitty Fane tornou-se, rapidamente, uma das minhas personagens favoritas da literatura. A Naomi Watts é bonita e tem aquele ar doce meio espevitado, mas a personagem em três dimensões do livro tem pensamentos preciosos que espelham a mesquinhez que ocupa tão frequentemente a mente dos humanos. Ela enoja-se, de início, por ter de conviver com crianças chinesas - amarelas e de nariz achatado e olhos inexpressivos, segundo ela própria. Ela sente repulsa de uma criança que tem uma doença que implica um tamanho de cabeça desproporcional em relação ao corpo e que se baba, e que para mais a segue e está obcecada por conseguir o seu afecto. Ela pensa nela própria antes de pensar nos outros - e com o seu desenvolvimento ao longo do livro começa a importar-se cada vez menos consigo e mais com o bem estar geral, de um modo sincero que acaba por espelhar um crescimento gradual e maduro. Faz amizades genuídas que a ajudam a entreabrir os véus que envolvem os grandes mistérios da personalidade e das razões humanas.O filme, tendo forjado uma reconciliação entre o Dr. Fane e ela, satisfez o meu senso romântico, porque achei que havia ali muito pano por onde debater. O orgulho ferido dele e o amor que, vencendo o primeiro, prevalece. O vencer do asco que parece ter ao marido - por ele não ser bem-parecido nem popular e por ceder com facilidade aos seus desígnios - por parte da Kitty. Mas *spoiler alert!* a Kitty do livro acaba por admirar e respeitar o marido, mas a reconciliação nunca se dá. Inclusive, ao morrer, ela implora-lhe por perdão. E ele responde: o cão foi que morreu.Adorei a viagem ao interior da Kitty e à sua percepção de quem a rodeava. Adorei as paisagens chinesas e a sua cultura (é o segundo livro, no espaço de um mês, que leio e que revolve em torno da China). Adorei as reviravoltas da mente do autor, que me pôs a reflectir seriamente e, inclusive, me comoveu uma ou outra vez. Fiquei fascinada pelo Walter, que pertence exactamente ao tipo de homem que só se ama quando se tem um elevado grau de maturidade. E sobretudo adorei o absurdo da vida: qual é o caminho a seguir? A Kitty não sabe. Algum dia virá a perdoar-se a si própria? A Kitty não sabe. O marido chegou a perdoá-la? A Kitty também não sabe. É um romance desconcertante, lido num sopro que durou dois dias, que me comoveu e me encheu de melancolia e de pequenas tristezas. As das despedidas para sempre. As das grandes viagens para não mais regressar. As da tragédia humana e social. Apesar de magistralmente bem escrito, arquitectado e conduzido, não consigo dar-lhe cinco. Atribuo-lhe um quatro e setenta e cinco sólido. Apenas não posso dar cinco porque o li à procura desse descer à terra da Kitty, mas os seus erros, de tão térreos, acabam por ser exasperantes. O autor foi tão realista que não sobrou umas lascazinhas de romance para esta romântica se agarrar. A relação da Kitty e do Walter tem tantas potencialidades a partir do momento em que ela se apercebe do valor dele! Como é que o autor não a desenvolveu? Oh Somerset, eu sei que na vida real as pessoas têm tendência a prosseguir pela estrada mais fácil, pelo caminho dos erros aonde se insinua, lá ao fundo, a pirite, qual ouro dos tolos... mas não poderias ter levado a Kitty a um porto seguro? Não podias tê-la conduzido até ao ouro genuíno? Não poderia ela ser daquelas raras pessoas que a literatura descreve como tendo-o achado, enquanto a pirite é para os que se ficam pela vida real...? Até isso louvo na tua obra...! Que coragem para não dares aos leitores o que eles querem.Contudo, foi das leituras mais prazerosas dos últimos tempos. Certamente que um dia voltarei a lê-lo... quem saiba esteja eu própria mais consciente da falta de nexo da existência.

«But soon a wonder came to light,
That showed the rogues they lied;

The man recovered of the bite,
The dog it was that died.»




Oliver Goldwin
Classificação: 4,75****/*



quarta-feira, 1 de agosto de 2012

»O Véu Pintado

«- Nunca tive ilusões a seu respeito - disse. - Sabia que era pateta, frívola, uma cabecinha oca. Mas amava-a. Sabia que os seus objectivos e ideais eram triviais, lugares comuns. Mas amava-a. Sabia que não era lá grande coisa. Mas amava-a. É engraçado quando penso no esforço que fazia para achar graça às mesmas coisas e na ansiedade com que lhe escondia que não era ignorante, banal, maledicente e estúpido. Sabia como a inteligência lhe metia medo e fazia tudo o que podia para que pensasse que eu era tão idiota como o resto dos homens que conhecia. Sabia que só tinha casado comigo por conveniência. Mas amava-a tanto que não me importava.»

Walter Fane para Kitty Fane,
O Véu Pintado

terça-feira, 31 de julho de 2012

#48 PEARSE, Lesley - Nunca Digas Adeus


Sinopse: Num chuvoso dia de outono, Susan Wright entrou numa clínica, matou duas pessoas a sangue-frio e aguardou que a polícia chegasse. Terá sido um ato de loucura? Uma vingança planeada? Susan não parece interessada em defender-se e recusa falar. O seu silêncio estende-se a Beth Powell, a advogada a quem é atribuído o caso. Beth é uma mulher de sucesso com uma carreira brilhante mas nada a preparara para o momento em que identifica a autora daquele crime tão bárbaro. Quando eram crianças, Beth e Susan juraram ser amigas para sempre. Vinte e nove anos depois, mal se reconhecem. Mas as memórias dos verões felizes das suas infâncias são suficientemente poderosas para as unir de novo. Enquanto as provas contra Susan se acumulam, elas partilham recordações e revelam os segredos que ditaram o rumo das suas vidas. 
A amizade entre as duas mulheres torna-se cada vez mais forte mas sobre uma delas pende a implacável mão do destino…

Opinião: É o segundo livro que li da Lesley Pearse, tendo o primeiro sido o “Nunca me Esqueças”, e a impressão com que fiquei foi a mesma. Desta vez o enredo revolve em torno de Susan Wright, que matou duas pessoas a sangue frio numa clínica médica e se deixou capturar, e de Beth Powell, uma advogada que lhe calha na rifa para a defender. O livro foi realista neste ponto, estes detalhes legais foram bem geridos, pareceu-me. Felizmente a autora não optou pelo cliché de manter a Beth como advogada de defesa da Susan, e agora vou mudar o meu discurso para não revelar demasiado.
A sinopse é um pouco enganadora – elas não juraram ser amigas para sempre, isso remete ao lugar-comum de juramentos de sangue, etc. Elas simplesmente tiveram-se apenas uma à outra, em pequenas. Depois os seus caminhos seguem direcções opostas. 
Quanto à minha opinião do livro… acho que se mistura com a opinião que tenho da autora. É-me compreensível que tanta gente adore os livros dela, porque de facto ela tem imaginação e um bom enredo. Na minha opinião, o que me impede que lhe dar mais do que um três pela segunda vez, é a extensão de quatrocentas e trinta páginas para uma história que seria sublimemente contada em duzentas e cinquenta. A acção arrasta-se, lenta e, pior, repetitiva! Dei por mim a revirar os olhos. A Susan pensava em a). Contava à Beth/Steven, etc… reflectiam sobre isso. Depois era novamente repensado pela Susan que, por último, o apresenta em tribunal. Bagh!
Outra coisa que detesto nos livros da Lesley é que tudo gira em torno destes termos – injustiça, maldade, piedade, misericórdia, autocomiseração, pena, admiração. É a segunda vez que leio sobre uma coitadinha que até é esperta e se safa bem de quem toda a gente tem pena e com quem toda a gente – do momento, porque o passado é que foi triste, simpatiza. Toda a gente tem pena delas, toda a gente as acham amorosas, toda a gente compreende. Bom eu achei que a Susan merecia, de facto, ser bastante bem castigada. A Lesley pôs-me a pensar sobre o poder de influência que os livros têm sobre as pessoas. Com este pareceu passar a seguinte mensagem: se tiverem uma vida triste, se vos humilharem e maltratarem, se gozarem convosco, podem bem matá-los que os vossos amigos verdadeiros perdoam-vos e continuam a chorar lágrimas amargas por vocês. (PS – A Beth não era assim tão amiga da Susan, geralmente fala com ela retorcida e com azedume, meio seca e céptica e até invejosa por a outra ter tido mais sorte/à-vontade nos relacionamentos carnais). É que também já me aconteceu. Também já me maltrataram e já me humilharam. Pessoas trocadas e depois gozadas – com demonstrações de afecto que vão não se sabe bem onde debaixo das nossas próprias barbas – é um acontecimento habitual na vida de qualquer pessoa. Há egoístas e imorais e gozões e pessoas sem um pingo de decência ou decoro nas vidas de todos. E isso seria, então, razão suficiente para os abatermos a tiro?
Bom, não revelei demasiado porque começam a haver enredos secundários dentro do romance, isto não se prende necessariamente com a linha principal. O que quero dizer é que a Lesley foi demasiado branda com a Susan. Os homens são demasiado ternos – choram x vezes durante o romance, porque se comovem com tudo. Não digo que não suceda, mas quais as probabilidades? Mal sei distinguir as duas principais personagens masculinas, o Steve e o Roy, porque são ambos tolos “ternos” que choram aqui ou ali. E elas? A Beth e a Susan? Foi-me óbvio que a Lesley lhes despejou uma boa dose de desgraças de vida para cima (de ambas) para apelar à nossa pena – do leitor. Mas eu não acho a pena nada de nobre, como me deu a entender a autora, nem tão pouco digno de admiração. Ultrapassar os motivos que fazem os outros terem pena de nós sim, é nobre e admirável. Agora admirar alguém porque cuidou da mãe obrigado, coitado, desgraçadinho… onde é que isto é digno de alguma admiração? Onde é que o ter-se sido vítimas de desgraças nos concede o direito de também sermos cruéis?
Enfim, atribuo três a este livro apenas porque o enredo foi bem pensado e estruturado. Com cento e cinquenta páginas (e lágrimas) a menos, com os cortes dos momentos de reflexão/acção (muito pouca) repetidos, teria funcionado bem. Inclusive emocionei-me quase no final, ri-me um pouco. Mas esperar quatrocentas páginas para me emocionar… haja paciência!

PS - Ainda assim melhor do que muitos romances da treta que por aí andam, com histórias de caracacá, capas e sinopses (enganadoras) muito apelativas...
 Classificação: 3***


domingo, 29 de julho de 2012

»Plano de leitura de Agosto/Relatório de Julho


1 - Acabar o Ligações Proibidas - desisto
2 - Começar e acabar O Véu Pintado
3 - Começar e acabar o Budapeste
4 - Começar e acabar Os Maias
5 - Começar e acabar o To Kill a Mockingbird
6 - Começar e acabar O Caso Rembrandt
7 - Começar e acabar o Um Verão Inesquecível

Parece-me que isto será tudo esquecido em prol d'Os Maias e do Conde de Monte Cristo.

Clube de Leitores d'O Segredo dos Livros
- A Valsa Esquecida
- No Coração do Império
- O Mistério do Quadro de Bellini

Desafio de Julho: incompleto

Li 80/383 páginas do Ligações Proibidas
Li 50/50 páginas d'Os Três Mosqueteiros e terminei-o
Li 50/50 páginas d'A Ilha do Tesouro e terminei-o

Li 2 autores lusos

Não li nenhum clássico - ou contarei Os Três Mosqueteiros como clássico sendo uma versão juvenil?!

Total de páginas lidas: 2300

#47 MCAULEY, Roisin, As Vinhas do Amor

Sinopse: Moonbeam Star, conhecida pelos amigos como Melanie, é filha de um casal hippie. O pai esqueceu-se de regressar de Woodstock e a mãe partiu para se encontrar, portanto, Melanie foi criada pelos avós. Agora na casa dos vinte, Melanie estuda e trabalha num estabelecimento vinícola na Califórnia. Quando o avô tem um ataque cardíaco, revela um segredo que guardou desde que o seu avião foi abatido sobre a França durante a Segunda Guerra: teve um filho com a rapariga que salvou. A criança era um rapaz, e Melanie fica intrigado com a existência desse tio francês e parte à sua procura. Em Inglaterra, a jovem irlandesa Honor Brady apaixona-se por Hugo, um comerciante de vinhos, que a leva para o seu castelo em Astignac, na zona vinícola de Entre Deux Mers. Hugo vende vinhos raros a connoisseurs; vinhos com história; vinhos escondidos durante a guerra; vinhos salvos do Palácio de Inverno em Sampetersburgo… e Honor é deixada sozinha, o que a leva a conhecer Didier, cuja família outrora foi dona do château de Hugo e está ligada ao tio de Melanie. À medida que as vida das duas mulheres se sobrepõem, é descoberta uma teia de mentiras que se estendeu durante décadas.

Opinião: É sempre triste quando a sinopse (enganosa) é mais interessante do que o livro... e esta era muito promissora! Eu não costumo fazer isto (aliás, que me lembre nunca fiz). Quis muito este livro e consegui lê-lo através do clube de leitores do qual faço parte. Tive que ler na diagonal... não conseguia engonhar mais, sou uma pessoa muito ocupada e tenho muito bons livros em linha. Resumindo:
- Oco- Sem substância- Aborrecido- Personagens vazias- Frases feitas- Forçado- Abrupto- Light - a "puxar" ao drama- Cliché
Enfim, isto tudo junto classifica a miséria da classificação.

Classificação: 1*

quinta-feira, 19 de julho de 2012

#46 - BASU, Kunal - O Português Inquieto

Sinopse: Lisboa, 1898: António Maria, jovem médico e afamado playboy, descobre que o seu pai está a morrer de sífilis, a terrível praga que afeta todas as camadas da sociedade. Órfão de mãe desde criança, António não se conforma com a ideia de perder o pai tão cedo. Determinado a encontrar a cura, parte para Pequim, na esperança de que a medicina tradicional chinesa tenha a resposta que teima em escapar ao Ocidente. Sob a orientação do Dr. Xu, António inicia-se naquela prática ancestral. Contudo, esta não vai ser a sua única revelação a Oriente. Quando conhece a sedutora e independente Fumi, ele apaixona-se pela primeira vez. Mas à sua volta, a violência eclode. A Rebelião dos Boxers ameaça todos os estrangeiros a viver no país. António terá de decidir-se rapidamente entre a fuga e a permanência na China, a sua segurança pessoal e a possível cura para a doença. E há ainda Fumi, o amor a que ele não tenciona renunciar e que o leva a questionar tudo, alterando irreversivelmente o rumo da sua vida.

Opinião: Tirei muitos apontamentos ao Português Inquieto enquanto o lia. Primeiro apercebi-me que as páginas fluíam, ao início a justificação foi simples: era um escritor Indiano a escrever sobre um médico português no século XIX, 1898. Era um livro de época a falar de Santo António, sardinhas, noivas, manjericos e tradições antigas, tão nossas. Como podia não gostar?
Depois, apesar do ritmo continuar parecido – porque ao interesse por Portugal neste século, esmiuçado pelo tal Kunal Basu indiano, sobrepôs-se a vontade de conhecer a China – dessa época ou de outra qualquer, e de facto é um relato cuidado e interessante, que não soa forçado. Mas… conforme avançava, foi-se tornando mais óbvio que havia algo em falta. Tive 428 páginas para desvendar o quê, e aqui surgem os motivos pelos quais este livro me deixou um travo acre na boca:
Há um leque riquíssimo de personagens e um tema central riquíssimo, que vai da medicina à cultura chinesa, à política, a tradições, costumes, gastronomia, cheiros, flora, fauna… pareceu tudo novo e vívido, como uma viagem à China oitocentista envolta em nuvens de vapores de ópio… Havia cônsules e personagens de várias nacionalidades, divertidos, outros tempestivos, um padre glutão, um mestre do Nei Ching (medicina chinesa) divertido, e havia os dois eunucos (um carrancudo e outro ingenuamente adorável), havia a Imperatriz Invisível a morar lado a lado com António no palácio, sem se deixar ver, e havia um cigano negociante de artefactos e objectos de valores chineses… Havia ainda a Arees em Lisboa, a suposta “noiva” de António (o português inquieto), com ideais e uma língua que não hesitava em encosta-lo à parede, de tal como que comecei por pensar que eles ficavam bem juntos – isto no início do livro, antes de conhecer o António e de ele partir para a China. Depois comecei a achar que ela era boa demais para ele. E depois havia o António.
Sim, o português inquieto é um António Maria que parte para a China obcecado com a cura da sífilis, a propósito da qual adorei ler. Mas “obcecado” parece ser uma palavra demasiado adequada a este protagonista. Infelizmente, o António é bidimensional. No início do livro só quer saber de mulheres. A dois quartos só quer saber da sífilis, na última metade do livro só quer saber da Fumi – e, por cada coisa em que se foca sem ver mais nada, dá a vida, a segurança, as noites de sono, os pesadelos, tudo. Além disso, este António é francamente estúpido e cego. De início perguntei-me se seria uma característica da personagem – simplesmente era alheado e largava conversas a meio. Depois apercebi-me que era o escritor a tentar prolongar os “mistérios” do livro, as “conspirações”, porque chega um momento em que todo o enredo descamba para uma teia de conspirações, diz que disse e etc. O António, como inquieto que é, esmiúça todos a propósito da sífilis, de início. O médico que o introduz na medicina chinesa, o Dr. Xu, dá-lhe meias respostas. Muito engraçado de início, porque mantém-nos interessados, mas a meio do livro será viável que o protagonista continue a distrair-se com os grous e as peónias a meio de conversas em que todos parecem fazê-lo de tolo? Não há uma única conversa satisfatória neste livro. Nem uma. Porque todas são interrompidas pelo “primeiro arroz” (pequeno-almoço), pela chegada de alguém, pela morte de alguém, pelos boxers ou pelo cair da noite que seja. Deu-me a ideia que o próprio protagonista não tinha prioridades, porque o autor não se deu ao trabalho de estabelecê-las. É um burro teimoso que arrasta o leitor sem lhe oferecer respostas, porque é um frouxo, demasiado fraco para arrancar respostas. E, pior do que isso, quando a verdade está perante os seus olhos, e é péssima: continua a querer fazer amor com a sua querida Fumi, isto no momento em que descobre a que facção ela pertence, e que nem sabe se a sua vida está segura com ela – tudo na mesma recta de pensamentos que se segue à descoberta. Despedida dela? Não há. Depois de tanta parvoíce em seu nome, não lhe dedica um pensamento no final. Deu-me a ideia que é uma história baseada na Madame Butterfly, um marinheiro que vai ao porto e tem um affair. Sim, um affair, porque onde é que havia amor ali? O autor justificou-o com os cânones que outros inventaram. Reflexões sobre saudade e inquietude sobre o seu paradeiro e enfrentar riscos desnecessários para estar na sua companhia. Mas como é que tudo começou? Não sei, ele estava doente e ela “aterrou”, literalmente, em cima dele. Num momento ele não está certo se aconteceu alguma coisa – teria delirado? -, no parágrafo seguinte são amantes furtivos. Dela o que é que se sabe? Só que tem olhos côr de âmbar, quando a tonalidade, os odores da pele chinesa, o negro lustroso dos cabelos chineses teriam tanta poesia para explicar o encantamento (ou palas nos olhos) do António pela Fumi… Eu não simpatizei com ela, terá sido embirrância minha ou ela dilui-se realmente no leque de personagens, tal como o próprio António é sempre o interveniente menos interessante em cada conversa?
Nunca vi um livro com tantos problemas de falhas de comunicação. Ninguém fala abertamente, o que talvez seja compreensível se não se sabe em quem confiar. Mas é tudo dito em meias palavras e conversas inacabadas (entretanto chega o chá e muda-se de assunto), o que é um pouco frustrante quando se deseja compreender como eu. As viagens, no início – Portugal-China -, são omissas, porque de repente ele já lá está. Seria interessante conhecer alguns pormenores, não?
Como justifico a estupidez gritante deste “melhor médico de Portugal” e “melhor médico estrangeiro na China”? Bom, havia conversas em que ele perguntava “porquê?”, numa perda de tempo absurda em situações de crise, quando ele devia saber, se eu sabia por conversas que ele tinha tido, os motivos. E ele perguntava “Porquê?” na maior das inocências, sem um clarão de luz que fosse. E mais, num momento crucial em que embarcar pode significar viver quando ficar em terra pode equivaler à morte, é-lhe especificamente dito que na cidade onde se encontra, nas circunstâncias em que se encontra, os chineses são muito mal vistos, principalmente por estrangeiros que têm relações próximas com eles – por isso, muito cuidado no momento de tentar embarcar o seu criado, Tian, de quem é também amigo. Ora bem… o que faz o António para o salvar? São abordados no momento do embarque e a conversa desenrola-se do seguinte modo:
«- O melhor é dizerem ao vosso criado para se despachar a trazer as vossas coisas de onde quer que as tenham escondido.
[Ao que o brilhante António responde:]
- Ele não é nosso criado.
- Não? – O americano pareceu ficar surpreendido. – Então é o quê?
- Um amigo
Ao que terão de descobrir vocês aonde leva esta extraordinária sinceridade do António. Bom, compreende-se que não gosto dele, certo? Da história – muito boa, embora a acção só comece a 50 páginas do fim. Das personagens? Muito boas, excepto o protagonista. Ri com o livro, por causa de algumas personagens únicas. Com este António só exasperei. O final pareceu-me muito apressado, meio às três pancadas, e cheguei a perguntar-me se ele não teria contraído sífilis e se não estaria também ele louco. Parece uma marioneta desajeitadamente conduzida pelo autor…
Aconselho pelo valor da cultura chinesa e pelos pormenores históricos e, sobretudo, pelo choque de culturas. Se ele voltar a publicar, lerei. Preciso de descobrir se o tolo é o autor (incapaz de criar um protagonista com substância) ou o António, que era oco, coitado.
Classificação: 3***