domingo, 30 de setembro de 2012

»Plano de Leitura de Outubro/Relatório de Setembro

PLANO DE LEITURA PARA OUTUBRO:




1 - Acabar de ler O Senhor dos Anéis - A Irmandade do Anel
2 - Acabar de ler o Rosa Selvagem
3 - Acabar de ler o Peripécias do Coração
4 - Acabar de ler o Mistério do Quadro de Belini substituído por A Viagem do Elefante
5 - Ler pelo menos 100 páginas do Conde de Monte Cristo
6 - Ler o Um Fogo Eterno

Clube de Leitura:
1 - O Sedutor, Madeline Hunter
2 - D. Estefânia, Um Trágico Amor
3 - Histórias de um Portugal Assombrado

A aguardar o anúncio das obras que me cabem.

Desafio de Setembro: incompleto

Li 26/304 páginas d'O Mistério do Quadro de Belini
Li 24 páginas d'A Grande Mão
Li 236/368 páginas d'A Rosa Selvagem
Li 136/384 páginas do Peripécias do Coração
Li 305/468 páginas do Senhor dos Anéis
Li 85 páginas d'O Funeral da Nossa Mãe
Li 162/615 páginas d'Os Maias e terminei
Li 251/251 páginas d'Uma Escolha por Amor e terminei
Li 140/140 páginas do Budapeste e terminei

Total: 1365

domingo, 23 de setembro de 2012

#54 BUARQUE, Chico - Budapeste


Sinopse: José Costa é um escritor anónimo pago para produzir artigos de jornal, discursos políticos, cartas de amor, monografias e autobiografias romanceadas que outros assinam. Um dia, regressando de um congresso de escritores anónimos em Istambul, é obrigado a fazer uma escala forçada em Budapeste. Fascinado pela língua magiar, «segundo as más-línguas, a única língua que o Diabo respeita», José Costa retorna à capital húngara, passando a ser Zsoze Costa, e tornando-se amante de Kriska, a sua professora. A obsessão de dominar completamente o novo idioma leva-o a viver num tresloucado vaivém entre o Rio de Janeiro, onde vive com a sua mulher Vanda, e Budapeste, onde passa a viver com Kriska. Budapeste é a história de um escritor dividido entre duas cidades, duas mulheres, dois livros e duas línguas, uma intrigante e por vezes divertida especulação sobre identidade e autoria.

Opinião: «Budapeste: no exacto momento em que termina, transforma-se em poesia». Foi isto que li na badana do «Leite Derramado» a propósito do Budapeste e que me deixou de expectativas tão altas. Em consequência de ter lido um livro de autor brasileiro, estou novamente escrevendo a crítica nessa língua transatlântica. Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira. Como eu adoro aventuras por língua estrangeira, e conheço bem os seus triunfos e embaraços, achei sublime esta primeira frase. Tendo gostado bastante do livro anterior, esperei apaixonar-me também por este outro, sobretudo debruçado sobre uma capital europeia na qual deposito bastante curiosidade. No entanto, o estilo corrido do livro, por vezes a desconexão dos acontecimentos, fez-me sentir meio perdida no meio do livro. Reconheci-lhe bastante mérito, porque quebrar com a lógica dos eventos é algo que eu não teria ainda coragem de fazer. Por enquanto vou explicando as cabeças daqueles sobre quem escrevo. Mas a qualidade da escrita do Chico Buarque é inegável. Tem reviravoltas que apreciei bastante, como um rosto reflectido numa lente de câmara fotográfica, ou mesmo um «jacaré com controle remoto» que me pôs a rir no voo. Não perdi a fé no talento deste autor por ter gostado um pouco menos deste segundo livro seu que li. Hei de ler o «Estorvo» também. Felizmente o livro é pequeno e, apesar dos parágrafos de três páginas, li-o em três fôlegos.

Classificação: 3***

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

#53 SPARKS, Nicholas - Uma Escolha Por Amor

É para aí o décimo livro que leio de Nicholas Sparks depois de uma pausa de alguns anos… o último que tinha lido foi o Juntos ao Luar. Resumindo: continua o mesmo. Se querem conhecer o estilo recorrente de NS somem estes ingredientes:
- Muitos diálogos a propósito de nada com piadas aleatórias.
- Chavalinho porreiro com covinhas na cara que bebe cerveja
- Chavalinha com mau feitio que bebe Light Coke
- Encontros comuns – jantares, barbecues – combinados e sem nada de espontâneo, onde eles discutem a espontaneidade e decidem que vão dar um mergulho, aprender a andar de mota, algo do género.
- Beijos conservadores no final desse primeiro encontro
- Um viúvo
- Alguém estéril
- Um acidente
- Uma doença
- Um cão (ou mais)
- Refeições (com respectiva descrição dos pitéus)
- Alpendres
- Barquinhos (o senhor costuma adorar velejar)
- Uma ligação inexplicável com um animal que não lembra a ninguém – como o Noah da Alquimia do Amor com o cisne, ou agora o Travis com um pombo.
- Um dilema moral complicado, do género: a) ela está a morrer, vale a pena ficar com ela? b) ela diz que para ficar com ela tenho que deixar de mandar garrafas com mensagens à minha mulher que morreu c) ela não pode ter filhos, fico com ela? d) o irmão dela é que atropelou e matou a minha mulher, fico com ela? e) ela pediu que, caso ficasse em coma, etc., eu devia desligar as máquinas ao final de doze semanas. Desligo?
Este dilema e) teria dado um livro excelente. A sério. Gabo-lhe o ter pensado nessa questão, embora não seja totalmente nova, e teria sofrido e vivido realmente este tema. Tudo porque, saberei lá eu explicar, fiz o mesmo pedido a uma pessoa próxima. Se por algum motivo ficar em estado vegetativo, ajudem-me a morrer, já que cá não se pode escolher esse desligar das máquinas, segundo sei. A pessoa disse que não o faria. Não o faria porque gosta de mim. Bom eu devo ter uma ideia muito distorcida do amor, detestei. Não, detestei não chega, DETESTEI, em caps, a mensagem que o Sparks passa neste livro. Fiquei indignada com a pequenhez deste amor que ele descreve e que vende, e que muitas mulheres/homens, se é que o lêem, compram como o ideal. O único, o genuíno. E a dignidade humana? A mulher teria de ficar meses – anos…! – à espera de acordar numa cama, quem sabe se aprisionada no próprio corpo mas consciente, a ansiar por ser libertada? Por poder morrer? Para lhe removerem os tubos que lhe sustêm a vida? Com o corpo a atrofiar-se? O rabo a ser limpo por terceiros? Amor, para mim, tem de ser mais. Mais do que ele gostar dela e não imaginar a vida sem ela. Se a ama respeita-a. Se a respeita cumpre o que ela lhe pediu, em desespero. Mas não, mais vale arriscar, queimar os papéis legais onde ela estipula esse pedido e fazer figas para que ainda esteja vivo um dia, se ela acordar. E depois, como é Nicholas Sparks *spoiler* a senhora claro que acorda. E nem se zanga! É escusado dizer que, se fosse eu, embora agradecesse a oportunidade para ter regressado, me separasse quase certamente de um homem em que não podia confiar. É isso o amor, não? Pedir a alguém que nos dê voz quando ela nos falta, e esperar que repita as nossas palavras sem egoísmos. E ele foi egoísta, tão egoísta…!      Não concebo amores assim.

Passada a fase da indignação acrescento que isto representa a segunda parte do livro. A primeira deve-se ao modo como estes dois vizinhos se conhecem e a sinopse só se debruça sobre ela. Ora a senhora tem namorado – quase noivo – e, ao final de três dias, já anda enrolada com o vizinho. True love, says Nicholas Sparks. Devo mencionar que, dias depois quando um colega de trabalho dela tenta beijá-la o dito vizinho o esmurra e a aconselha a abrir um processo contra ele de agressão física? Fuck logic. Aonde está a explicação dela ao namorado quando o larga? O livro sofre um pulo. Ora estão a passear de mota e conhecem-se há três dias, ora já ela está em coma e ele a ama perdidamente, anos depois, casados e com filhos. O senhor escreveu o livro nos joelhos. A Presença, mesmo na 8ª edição, tem o livro cheio de gralhas. Não admira que seja dos dele de que menos se fala…

Enfim, se eu entrar em coma, se eu tiver um AVC e não puder falar, se eu partir o pescoço e implorar a alguém que me ajude a ter paz, façam-no! Como dizia Ramón Sampedro (Mar Adentro), Aquele que me ama é aquele que me ajudará a morrer.

PS - O nome do livro devia ser "Uma Escolha por Egoísmo Que Acaba Bem Porque, Afinal, é Nicholas Sparks"
Classificação: 2**/*

terça-feira, 4 de setembro de 2012

#52 QUEIRÓS, Eça de - Os Maias


"Os Maias", obra-prima de Eça de Queirós e romance intemporal, foi primeiramente publicado no Porto em 1888. Popularmente falado por se tratar de uma história de amor incestuoso com uma introdução exageradamente descritiva, onde é apresentada ao leitor a casa da família Maia. De facto, da primeira vez que tentei ler o romance, em 2006, fui desmotivada pela referida descrição do Ramalhete. Pareceram-me quinze páginas sobre chaminés e tapetes. Agora que lhes dei uma segunda oportunidade decidi que ia apreciar a descrição da casa, ia deixar que o Eça me levasse lá pela mestria da sua escrita - de que tinha tido um vislumbre n’A Cidade e as Serras. E sabem que mais? A casa tem uma descrição de meia dúzia de parágrafos. Pronto. Pode ser muito a respeito de uma mera propriedade, mas de facto faz sentido, porque é a introdução a uma vida de luxos e vícios, que retrata bem a sociedade portuguesa no último quartel do séc. XIX.
Eça de Queirós, do pouco que entendo de literatura, pertence à corrente realista. Denota-se, inclusive, um certo despeito pelo romantismo e ultra-romantismo que imortalizaram, por exemplo, Camilo Castelo Branco, cerca de vinte anos antes. Não na pena do autor, mas nas palavras que vai colocando na boca dos seus personagens, todos eles muito críticos, dados a fervorosos discursos de honra e de ideais. Tudo parece digno de esmiuçar nesta sociedade retratada por Eça, e todos se dão ares de grande integridade moral. No entanto, nenhuma personagem é realmente casta ou moralmente correcta.
Ega, Carlos da Maia, o Eusebiozinho, Dâmaso, o Taveira, Cruges, o Cohen, o Craft, Castro Gomes, o Gouvarinho. Nunca se compreende realmente o que fazem estes condes e homens do governo e de pândegas. São, ao que é sugerido, a fina flor das relações de Lisboa. No entanto nunca se chega a compreender muito bem aonde vão buscar os rendimentos que sustentam as suas vidas de luxos, whist (jogo de cartas muito apreciado à época), charutos, cigarrettes, teatro, grémios e passeiozinhos de charrete em Sintra. O retrato geográfico de Portugal é delicioso - com o comboio até ao Porto, “estradas de ferro”, assim chamados os caminhos de ferro, numa desconfiaça muito lusitana, mais de cem anos depois de a Inglaterra ter dado o impulso à Revolução Industrial, o vapor para o Alfeite, etc. A Lawrence, em Sintra, os travesseiros, os ovos moles de Aveiro, os fados assim mencionados, louvados mais de cem anos antes de se tornarem património mundial...! Eça foi um visionário. Tantas referências que tive de absorver no estudo do turismo assim naturalmente descritas, como se Eça adivinhasse que, pela sua qualidade, perdurariam no tempo... Tão contemporâneo e intemporal quanto se tivesse sido escrito hoje sob o signo dos romances de época, tão em voga.
Referências literárias, filosóficas e políticas são outras tantas: Robespierre, Proudhon, Darwin, Voltaire, Garibaldi, democracia, um cheirinho já ao socialismo e à república, etc., etc.. Foi como um meeting de figuras famosas, só que vivenciadas em tempo real. As opiniões sobre tudo e sobre nada preenchem centenas de folhas. Perto do fim, inclusive, as intrigas sociais e as discussões políticas e literárias multiplicam-se, ficando a Maria Eduarda e o Carlos um pouco esquecidos. Todo o livro é muito boémio, com trejeitos de ironia preciosos e um clima bonacheirão e de bazófia que ora nos desespera, ora nos enche de bom humor. A cobardia, os falsos ares de finura, os falsos escrúpulos, duelos de florete, ameaças de escarros em faces gorduchas, a falta de moral para se discursar sobre determinado assunto, o amante da mulher casada que se ofende com o seu marido, por se ter atrevido a surpreendê-los...! E as mulheres? Fonte de problemas, infiéis, frágeis, insistentes, a personificação do pecado. E então surge Maria Eduarda, um aparente modelo de virtudes, ainda assim corruptível, que se revela a maior das desgraças na vida de Carlos da Maia... mas também a maior das lições.
As últimas linhas, o último raciocínio deste romance, são desconcertantes, esperançosos, trazem um sorriso aos lábios e um inchaço bom ao peito. Não há trevas no final de uma intriga que tanta dor causa a tantas personagens que acabamos por amar. Há, sim, um certo optimismo de quem tem noção de ser impotente perante os grandes factos. Aqui também vejo o realismo, porque por muito difícil que seja o desafio, por muito que doa a perda, a vida continua. E, quando tivermos de voltar a correr, correremos. Está-nos no sangue, é a nossa natureza.
Ao nível dos grandes clássicos, e digo-o enquanto leio, em paralelo, O Conde de Monte Cristo. Mostra uma vanguarda de pensamentos, uma insolaridade que nos é típica, um carácter muito português e uma influência - na realidade pouco influente, quase ridícula de tão mal absorvida - dos estrangeiros, sobretudo da França. Tudo é motivo para se colocar uma expressãozinha francesa. Tudo é très chique, chique a valer. No fundo, o “português” prevalece sobre o cavalheiro, de cabeça quente e punho cerrado, apostado em encher cabeças de bengaladas ao primeiro desaforo... Um autêntico teatro de civilidade ensaiada. Um romance único que requer pés e cabeça durante a leitura. Quase quatro semanas depois, terminei-o finalmente. O sentimento é um misto de feito grandioso - e de admiração perante um feito grandioso que foi, para Eça, escrever uma obra ao nível dos grandes clássicos - e de alívio.
Já conheço os Maias.

Classificação: 5*****

sábado, 1 de setembro de 2012

»Desafio de Setembro e relatório de Agosto

Para Setembro: 

Volume II da trilogia Langani:
KEATING, Barbara e Stephanie - Um Fogo Eterno - substituído por O Senhor dos Anéis - Parte I
Volume II da série Bridgerton:
QUINN, Julia - Peripécias do Coração
GOODWIN, Jason - O Mistério do Quadro de Bellini
QUEIRÓS, Eça - Os Maias (terminar)

Leitor luso:
BUARQUE, Chico - Budapeste

Faltam 2 a 3 livros do clube de leitores.

[Este mês não posso ser muito ambiciosa porque há as férias culturais pelo meio...]

Relatório de Agosto:

Li 232/232 páginas d'A Valsa Esquecida e acabei-o
Li 240/240 páginas do No Coração do Império e acabei-o
Li 368/368 páginas d'Um Verão Inesquecível e acabei-o
Li 296/296 páginas d'O Véu Pintado e terminei-o
Li 378/582 páginas d'Os Maias 
Li 127/880 páginas d'O Conde de Monte Cristo
Li 23/360 páginas d'A Grande Mão


Desafio de Agosto : incompleto

Total de páginas lidas: 1664

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Carta ao Escritor, ao Leitor; o Funeral; os Escritos e o "Crítico"




Caros leitores e caros colegas escritores - caro crítico,

É mais escritor aquele que escreve do que aquele que publica? Não estou certa disso. Sempre me senti um pouco escritora. Cá na rua cantei bastante em criança, e daí me chamavam “a cantora”. Depois a minha avó denunciou os meus hábitos nocturnos de escrita, e vai daí chamavam-me “a escritora”. Fiquei-me por aqui, creio.
Hoje terminei a revisão de 430 páginas d’O Funeral da Nossa Mãe. É um trabalho que não voltarei a ter na vida respeitante a esta obra e, em respeito à Célia de 2022, mais do que um suspiro pelo trabalho exaustivo terminado, ergo um copo a este momento. Se é algo em grande? Nem por isso. Nem tão pouco em casa o comunicarei, até porque ninguém compreenderia e ninguém daria valor. É simples; escrever é-me tão natural que há pouco de extraordinário nisso. É mais comum que eu escreva do que veja novelas, ou que escreva do que vá à praia. É, até, um hábito aborrecido e por vezes inconveniente, porque se mete no caminho quando os outros reclamam a minha atenção ou, somente, a minha presença na Terra.
Em relação a esta revisão, confesso que não tive metade do ânimo que dispensei ao “Demência”. Não porque ame menos este meu fruto – e quem os tem sabe que, por mais orgulho que se tenha neste ou naquele, um rebento é um rebento e é sempre amado por isso. Talvez eu até ame este livro mais do que o anterior, porque é todo um processo de aperfeiçoamento e uma segunda chance de me superar que o primeiro proporcionou. Mas eu já sabia no que me estava a meter. São horas e horas a tentar focar a vista em letrinhas pequeninas que escrevemos há meses e que, de tão bem as conhecermos, se misturam e soam todas à nossa mesma voz. Se forem como eu, isto é, loucamente embevecidos pelo que de nós sai em parto natural, perdemo-nos até no prazer que a escrita nos proporciona, e que se danem as gralhas, gafes e erros de gramática, que eu de gramática também nada sei.
Falaram-me em estruturas de romance; lamento, não sei o que isso é. Não estudei jamais Literatura, não tenciono faze-lo. Quero que, o que quer que desta ideia saia, pertença primeiro a mim e, só depois, ao mundo. E não ao mundo – às ciências humanísticas e literárias – antes de a mim. Espero que, com isto que crio, consiga tocar as profundezas da compreensão e da comoção (quem sabe) de quem me lê. Tal como o “Demência”, este livro é uma reflexão sobre culpas e consequências. Não sei fazer livros muito felizes – mas não nego algum humor, alguma ironia, a quem se atrever a ler-me.
Poderá até vir a encontrar neste livro amores maiores; daqueles que murcham quem deles padece, e amores menores – aqueles que vivem do benefício do momento, da circunstância. Sim, neste Funeral há mais amor do que no “Demência” e há mais reflexões em torno desse amor do que no “Demência”.

Também hoje sucedeu outra situação curiosa. Descobri que uma opinião que dei a respeito de uma crítica – na minha opinião despropositadamente maldosa – é ainda recordada meses depois. E só nós, escritores, sabemos o peso que as palavras têm quando repercutidas no tempo. Não sei se me envaideça por ter causado tal eco, não sei se estremeça de decepção pela pobreza de espírito das pessoas. As pessoas que, dando saltos como os de Descartes, esquecem que há vida para além de tudo isto e dedicam tempo ao que as aborrece. A mim nada me aborrece, pelo que qualquer reflexão é, infrutuosamente, uma tentativa de trazer paz também aos outros. É a minha veia budista que fala a respeito das coisas de importância maior. E assim me explico, numa tentativa vã de fazer-me compreender; não em meu benefício, que da fadiga de me tentar fazer compreender não o obtenho, mas em benefício de quem se sente lesado, ofendido, conspurcado pela minha vilania.
Pus-me a reflectir se não teria sido exagerada a minha defesa da obra em questão - não tanto da obra, sobre a qual apenas posso expressar a minha opinião, e essa vale o mesmo que a de todos numa democracia -, mas do trabalho da autora, e desta feita concluo que fui até suave demais. Isto porque há escritores de grande nome, grande fama, e pouco talento. Sim, há-os aos pontapés, há-os cada vez mais, a receberem honras e a poderem passar aquilo que quiserem – mensagens de paz ou de ódio, lições de amor ou de guerra – (que é o que de facto lhes invejo) aos seus leitores, e a optarem por criar algo que renda, sem puxar muito pela cabeça. O desperdício de ser ouvido sem que de algo importante se queira falar! A deitarem para fora alimento de fogueira atrás de alimento de fogueira. E aí andam, louvados pelo leitor fácil, pelo leitor de ouvido e de cara, que ouviu falar dele aqui, o viu ali. Alimentados ainda pelas editoras, que da literatura não exigem mais do que o lucro garantido. E isto entristece-me. Entristece-me sempre que os pódios sejam roubados a quem, talvez, os merecesse, em prol de quem fez mais vista. Isto porque – e possivelmente excluindo-me disso, que a qualidade dum escritor é o leitor que avalia e não o próprio criador – certamente que os há (escritores) melhores do que estes que nos atiram para os tops de vendas. Certamente que os tem de haver – se não, invista-se na educação, pois que não haverá ninguém com nada pertinente a dizer? Não haverá ninguém a saber dizê-lo?
E depois havemos nós. E por nós entendamos eu, Andreia, outros tantos. Nós que lutamos afincadamente por trazer a nossa obra aos leitores e, enquanto houver um leitor que retire prazer do nosso trabalho, continuaremos a escrever. Eu sim, pelo menos - e com isto saliento que não falo em meu nome e da Andreia ( que dela, a esta hora, nada sei. Jantará, talvez?). Nós que mergulhámos nisto de cabeça com a força de quem dá os primeiros passos numa indústria destas, que investimos tanto – de  nós, do que é nosso – não para termos a cara nas revistas de Sábado, nas crónicas dos magazines lidos pelos portugueses, mas para nos termos na vossa mão, mão de quem nos lê…
E então há pessoas que, estando estiraçadas confortavelmente a ler, acham por bem usar de deboche para nos esmiuçar. Chico Buarque diz "devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira". Eu digo, com o mesmo tom corriqueiro: devia ser proibido debochar de quem trabalha e se empenha, e "deboche" é, aqui, a palavra de ordem. Não se critica o criticar, não se opina sobre o opinar, critica-se e opina-se sobre o "debochar". E eu aceito – ninguém respeita liberdades de expressão como eu, visto que rasgaria a pele a quem tentasse roubar-me a minha, e se me mandassem fechar a boca, estando eu em silêncio, o certo seria morrer pelo grito – que não se aprecie uma obra. Ah pois, eu não aprecio muitas obras. Posso até ser menos diplomática com autores que, da minha opinião, fazem papel higiénico, continuando a receber os respectivos cheques chorudos (se é que alguém recebe bem por escrever neste país) e continuando a parir obras que um terço do país – do país que  -, certamente, sorverá. Mas seria incapaz de, tendo experimentado o alívio que é terminar um trabalho tão moroso, deitar abaixo um autor que tenha subido, a pezinhos e lã e a sua conta e risco, até ao pequeno patamar que agora ocupamos. Dar-lhe-ia água fresca e um pano para secar a testa. "Não gostei do teu livro, mas não consigo debochar de quem subiu até aqui para mo passar". Falo de nós, mal conhecidos, primeiros passos na indústria e sema cara no jornal e o livro na homepage da Fnac Online.
E é a esses, que se divertem a destruir com os pés os castelos de areia dos sonhadores, dos lutadores, dos corajosos… - requer coragem expormo-nos a este nível, sendo o livro um espelho fiel do autor; da sua inteligência ou falta dela, da sua perspicácia, da sua concepção do mundo e dos outros, do seu nível de observação ou de distracção para com tudo o resto, da sua vaidade até, por vezes - que me dirijo. Não é preciso alguém, nos bastidores, a esfregar as mãos e a citar partes íntimas da nossa história e a compará-la a jogos de Lego. Não é preciso alguém que se gabe e se orgulhe de ser “honesto”, porque a honestidade é um estado absoluto de opinião, diverge de pessoa para pessoa, mas poderia ao menos ter em conta estas considerações que lhe faço? Aliás, que lhe fiz e que pareceram tão desaforadas?
Tenho sido frequentemente abordada por muito boa gente – muito inteligente e capaz, que inclusive me apresentam textos com evidentes rasgos de brilhantismo – e que me dizem que não conseguem dar continuidade a uma ideia. Que não têm imaginação. Ou que não sabem sobre o que escrever. E com isto entendi, finalmente, que escrever não é natural. Que ter-se ideias – ser-se, até, perseguido por ideias – não é natural, que ser-se capaz de terminar um livro não é natural, embora seja cada vez mais banal, mas não é natural. Ser-se arquitecto no espaço e jogar-se apenas com a assimetria e a dissonância das palavras não é natural. Erguer castelos de letras de alicerces sólidos não é natural... Concluir uma obra de 300 ou 400 páginas com pés e cabeça ainda é algo digno de congratulações. Ainda é algo que nem toda a gente consegue.
E é por isso que não me arrependo de ter defendido uma pessoa que vi investir tanto de si numa obra que custou a nascer e que, em geral, foi bastante apreciada. A arte tem esse efeito – afastar-nos da vida, geralmente tão dura, tão impiedosa, tão pouco importada com o fazer sentido. A arte eleva-nos; perdoem-me, fãs do Fifty Shades of Grey, se continuar a disparatar a seu respeito. Pensem “a Célia acha um disparate e uma perda de tempo, mas a Célia sabe que uma pessoa deve fazer o que for preciso para ser feliz e ela às vezes até lê a TV 7 Dias”. Seja ler o Fifty Shades, seja gastar o ordenado de meio mês em livros. E a liberdade é uma coisa doce. Por isso, digam o que quiserem. Eu digo o que quero e calo o que, por respeito, considero melhor ficar silenciado. E que o entendimento de cada um sobre respeito, esforço e dedicação seja só do seu foro, e assim permaneça.

Quanto a mim, estou em júbilo.
O Funeral da Nossa Mãe tem 430 páginas, começa com um poema a respeito do indigno que é desejar-se algo pelo qual não se luta, e termina com um gosto a vida. Um travo de possibilidades.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

#51 VIDAL, Alexandra - No Coração do Império

Sinopse: O Terramoto de Lisboa de 1531 foi um duro golpe no coração do Império português. E decidiu a história de Maria da Esperança e Rodrigo Montalvão, um amor intenso que desafiou as regras da corte de D. João III. Numa manhã fria no início do século XVI, chega a Portugal um carregamento de escravos vindos do Congo. Os melhores negros são encaminhados para a corte de D. João III, para servir a rainha D. Catarina de Áustria. Entre eles segue Imani, baptizada como Maria da Esperança pelos frades portugueses. Pela sua inteligência e natural elegância, destaca-se entre os escravos – é ensinada a ler e a aprender a religião católica. O seu mestre é o gramático Rodrigo Montalvão, um nobre de alta condição, que por ela se apaixona. Nasce, entre ambos, um amor intenso e proibido, que é posto à prova no dia 26 de Janeiro, quando se dá o grande terramoto de 1531 que causou a morte de mais de 30 mil pessoas e a fuga de milhares de lisboetas, tornando irreconhecível aquela que era a grande capital do Império, no auge dos Descobrimentos.

É a história de uma paixão controversa, vivida numa corte de riqueza e intriga, em que uma mulher e um homem testam o valor do amor e da liberdade.


Opinião: Não sei bem o que diga a respeito desta primeira obra da Alexandra Vidal. Aliás, tenho até demais a dizer. Por uma vez decidi ignorar os meus instintos a respeito das obras portuguesas que retratam eventos históricos e lê-lo sem ideias pré-concebidas. Começou bem, até, lá nas paisagens do Congo. Mas isso durou três ou quatro páginas.
O livro prometia um amor daqueles entre uma escrava e um nobre da corte, e ainda uma catástrofe natural a interpor-se entre eles. Quem for lê-lo pelo terramoto – como esta tonta, desengane-se. Se procurarem um documentário com alguns pós de ficção – ao nível de uma novela da TVI em que a má desaparece da acção convenientemente no final por ter enlouquecido depois de muito atentar contra a felicidade os principais, e em que estes dois principais nunca têm uma conversa de jeito nem nunca chegam a explicar coisa alguma ao outro – então este é o livro indicado para vocês.
O livro também prometia uma grande história de amor. Não sei a que se referia, já que não é apresentado motivo algum para o amor entre a escrava e o gramático excepto, talvez, que ele gosta delas morenas (embora não o saiba de início – e por início entenda-se a discussão épica em que ele se recusa a ensiná-la, para daí a três páginas já estar orgulhoso dos progressos dela) e que ela se embeiça por ele porque é o único branco próximo e livre a dedicar-lhe duas palavras. Algo como “podes pousar ali o livro e sai”.
O livro prometia ainda o inédito de uma escrava a aprender a ler – mas tal não sucede devido à inteligência dela. Aliás, esta personagem principal funde-se nas pedras das paredes, de tão insípida. Nem isso é apresentado com paixão alguma…
O terramoto apresenta-se assim:
«- Não quero esta coifa de pano de linho, quero a outra de seda (…) De repente, as portadas de madeira que protegiam as enormes janelas do aposento da guarda-roupa começaram a bater, quebrando os ferrolhos e partindo os vidros das janelas»
E então segue-se uma listagem bem tirada de um livro de História sobre o que caiu e o que ficou de pé na cidade. Não há um diálogo com naturalidade: ou estão a passar “sabedoria” e “filosofias” ou estão a debitar factos históricos. De repente o tempo voa. Os filhos de D. Catarina (rainha) são crianças acabadas de nascer e, meia dúzia de páginas depois (quando começa tudo a voar para o fim) já têm filhos – já o D. Sebastião está apostado em ir para África guerrear com os infiéis. A ideia que me deu é que a escritora quis fazer tudo em grande e pensou: que se lixe, já agora faço disto um romance épico. Em dez páginas pulo trinta anos e faço disto aqueles amores que nunca chegam bem a concretizar-se. Já agora meto cá o D. Sebastião, que até foi importante. Espanta-me que não tenha falado do D. João IV, afinal o homem recupera o país… era só pular mais oitenta ou noventa aninhos. E da Catarina casada com o Carlos II, sempre foi rainha de Inglaterra, não? Calma, daqui a nada estamos no Sócrates a mudar-se para Paris. A mal ou a bem também teve a sua importância na História. Bom, estou a exagerar, como é evidente.
O terramoto ocupa, no máximo, vinte páginas do romance em que a informação é toda debitada. De repente temos mil olhos – já somos o guarda dos escravos, o nobre a quem os escravos fogem, somos os escravos, somos as vozes da corte e o não sei quantos que toma conta dos gatos da rainha. Somos tudo e, no instante a seguir ao terramoto já temos o relato completo dos danos e do número de mortos. A propósito… a sério que foram 30 000 pessoas enterradas com orações?! Não admira que, em 1755, o Marquês de Pombal tenha apressado os enterros!
Em termos históricos não encontrei grande coisa a apontar – excepto, talvez, a utilização do termo “gótico” relativamente à escrita por parte do gramático. A minha ideia é que o termo “gótico” só tem realmente adesão no século XIX, com os revivalismos, e que antes disso surgiu no século XVI mas como algo pejorativo. Isto é, à luz do renascimento qualquer arte anterior seria vista como arcaica - excepto a clássica em que se inspirou - não? A minha questão é: falava-se em caracteres góticos tal como agora se fala associados sobretudo à Idade Média?
O rei nem chega a ser apresentado ao leitor, parece-me que só surge uma vez a dar as mãos à rainha numa sucessão de situações sem grande importância aparente. Sucedem-se listas intermináveis de tipos de tecidos e diálogos meio afectados, muito pouco naturais.
As personagens são unidimensionais, até a escrava principal lamenta duas vezes “nunca ter explicado os seus motivos” para uma dada fuga que enceta. Mas que motivos? Na altura ela simplesmente se junta a quem foge, sabemos lá nós ao certo o que vai na cabeça dela! E que motivo maior precisa um escravo para fugir? Parece que um longo diálogo sobre o valor da liberdade tinha de ser ali pespegado para que o idiota do seu grande amado – que conhece-a tão bem como o leitor, ou seja: nada – a compreendesse.
Não percebi nada do que a autora quis passar com o romance, excepto que a escravatura é feia – asserção defendida sem grandes acrescentos àquilo que é do saber comum- , e que o terramoto – que se perde ali no meio – foi uma desgraça. Ah, e que o amor vence (?) preconceitos. Bom este não venceu coisa alguma.
Para mim valeu pena lição de História. Como romance...
Classificação: 2,5**/*