sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Sem tempo para ler... treta


De vez em quando acontece-me andar a engonhar a ler um livro e, rapidamente, me convenço do seguinte:

- ando cansada
- sem tempo
- será que comecei a perder a "pujança" na leitura?
- andarei a precisar de uma pausa nestas andanças?

E com engonhar significa que estou a gostar muito do livro do Ferreira de Castro - A Selva - mas ando a lê-lo há 20 dias. Vinte. Tratando-se de um livro de 230 e tal páginas, algo está errado. Não tenho tido tempo, ando cansada...

O que é certo é que há dois dias peguei no Peaches for Monsieur le Curé (O Aroma das Especiarias) da Joanne Harris e cheguei hoje à pág. 247. É um livro grande que pensei que me viria empatar as leituras, mas é um daqueles. Daqueles que trazem aromas, paladares, água na boca, curiosidade, vontade de regressar constantemente às suas páginas... Sabem como é, certamente. Não significa que o Ferreira de Castro não seja um talento nato - porque o é, pude comprovar - mas neste momento não consigo absorvê-lo a um ritmo mais rápido.

Por isso, daqui por diante, tenho de recordar-me de que a minha absoluta necessidade de leitura não morre assim. O problema nunca será meu, mas do livro. Quem quer ler realmente arranja sempre tempo, faz como eu: lia nas aulas de código, leio nas reuniões de pais, leio na rua, nos transportes, durante o almoço, enquanto o jogo carrega, enquanto as unhas secam, enquanto espero a um balcão pela bica matinal.

Ouvi uma vez alguém dizer que quem gosta mesmo de ler não tem tempo, arranja tempo.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

#70 LIMA, Beatriz, Anjo de Cristal


PARTE II (PARTE I)

Terminei a leitura.

Introdução:
A Beatriz era muito nova quando escreveu este livro. Ainda assim, comprometer-se com 177 páginas de uma mesma história é mais do que muitos adultos conseguem fazer, reconheço-lhe isso. Também consigo antever que, de futuro, fará muito melhor do que isto. Tem potencial, isso é incontornável. Mas esse potencial perceptível não pode toldar a minha percepção quanto a esta obra em particular. Bem como esta obra não pode toldar as capacidades que, bem desenvolvidas, darão origem a bons enredos.

O espírito da autora transparece neste romance. Eu própria ainda luto muito para esconder o meu nas minhas obras, e se vem mais escondido é precisamente porque aprendi a contrariar-me. Às vezes também escrevo cenas impulsivas ou violentas que, depois, me dou conta de que ficariam melhor num livro de Banda Desenhada com super-heróis. Tudo isso seria limado com o tempo.
Influenciada pelos romances que lia, os filmes que via, as novelas que davam, escrevi coisas semelhantes. Escrevi histórias sobre gémeas, perdas de memória, mudança de nomes e de identidade, doenças terminais, meninas mimadas, o valor da amizade, mulheres a “espancar” homens de fúria. Tudo isso foi limado ao longo dos últimos 12 anos, combatido, aperfeiçoado. 

Este livro, contudo, espelha bem esses meus primeiros manuscritos e é por isso que não consegui deixar de sentir uma certa ternura pela autora, que me lembra de mim própria há dez anos. Os próprios nomes das personagens, como mencionei na publicação anterior, transparecem essa mesma imaturidade, pureza e denunciam o quão sonhadora é: Luz, Lua, Lírio. Fala-se em estrelas cadentes e a vertente inconsciente – sonho – está muito presente. Demasiado presente. A personagem tem constantemente sonhos que a afastam da realidade e a ajudam a tomar decisões.

Balanço de ingredientes/géneros/tendências/debates: misticismo, romantismo, acção, guerra, amor, amizade, drama. Tudo vivido com a mesma intensidade, lição explicada, vivenciada e aprendida em meia dúzia de páginas.

Personagem principal: Anne Marie ou “Ange de Crystal”. Não consigo gostar dela, não é coesa. Tem uma certa presença, porque consegui abstrair-me da escritora, de facto via esta Anne Marie, mas detestava-a ao ponto de querer esbofeteá-la. Deve ser bipolar e esquizofrénica. Contradiz-se. Ora é uma mártir ora diz que “sabe que não tem coração”. Ora é frágil, desmaia do nada e entra em coma, ora imobiliza dois soldados e diz-lhes que o melhor é “não se meterem com ela”. Não funcionam. Os ingredientes que a compõem não funcionam.

Ritmo do livro: Ora oscila entre descrições intermináveis de tarefas banais, ora pula tempo precioso para se compreender o fio (de incoesão) da meada e os acontecimentos já se estão a precipitar.

Contexto temporal: desfazado.
Contexto espacial: desfazado. “Vou para a guerra”, “Quando estava quase a chegar à guerra”. Deu ideia de que a guerra é uma região da França.

Final: abrupto, a escritora parece exausta de escrever, precipita as acções finais (num clímax cansativo em que recapitula tudo o que a personagem viveu no livro) e fecha a obra.

Contexto geral: a obra existe num recanto da imaginação da autora que não tem, na minha opinião, como funcionar – a menos que esta inventasse um país e uma guerra e lhe atribuísse as características que bem entendesse.

Enredo: cliché e previsível.

Pode ser culpa minha, porque sou presa à realidade e ao exequível (embora reconheça falhas nas minhas obras também a esse nível, mas é sobre elas que pretendo crescer), registei muitas coisas impossíveis que basicamente mandam a lógica à fava. Alguns exemplos (não muito mesquinhos, espero):

- Uma rapariga de vinte anos desmaia ao ver o seu grande amor e “entra em coma”;
- Uma criança de oito anos perde a mãe e adopta no mesmo instante outra mulher como mãe, chamando-a desse modo e chamando “pai” a um homem que nunca viu e que está na guerra;
- Não existe espaço, o tempo é ambíguo;
- Uma mulher que acaba de perder o marido na guerra e de fazer um escândalo sobre essa notificação está a beijar um homem (segundo a temporalidade do livro) nessa mesma tarde e a dizer-se de novo apaixonada;
- A autora não se aventurou muito em pormenores históricos, mas quando o faz não é assertiva;
- Uma mulher dá uma coça a dois homens (soldados) só porque está irritada;
- Os nomes (sei que insisto nisto mas era o mínimo dos mínimos para a autora nos ambientar na França, já que poderia dizer que tudo se passa na Inglaterra e seria igual, visto que nunca “vemos” nem “cheiramos” a França) não têm um contexto coeso – Luz, Lua, Lírio, Liz, Liana, Anne Marie, Ange Crystal, Peter, Daniel, Roger, Diana, Margarida, Sky, Esther, Haillie, Heather, Ashley;
- Pelo menos duas pessoas dizem que “mudaram de nome”, uma para fugir à família que não aceita o seu casamento, outra para ir para a guerra… não se entende porquê;
- Os temas não se conjugam bem nem são representativos da época, ou pelo menos o modo como são abordados: violência doméstica, tráfico de droga, penas de prisão perpétua, adopção, jornalistas asiáticas na França e de “madeixas loiras”, revistas cor-de-rosa, lojas de pronto-a-vestir (1939) onde se compram dez casacos de uma vez em clima de austeridade e guerra.

Enfim, não me levem a mal. Não digam que estou a deitar abaixo uma autora quando deveria incentivá-la. Mas, honestamente, a mim deu-me jeito saber que havia por aí pessoas que poderiam pegar no meu trabalho e decepá-lo. Tive dez vezes mais cuidado n’O Funeral da Nossa Mãe, e terei vinte vezes mais cuidado quando escrever/publicar o próximo.
Perdoem-me mas não basta ter-se treze anos e escrever-se para se receber palmadinhas nas costas. Há que escrever bem para se ser merecedor disso, o mérito não pode vir às prestações e não digo que a Beatriz não vá longe, mas terá sempre sido uma decisão pouco acertada ter-se estreado com este livro. O primeiro romance do Eça certamente que não foi nada desta espécie e o Flaubert dedicou-se anos à simplicidade do seu “Madame Bovary”, que nem mexe assim tanto com pesquisa exterior mas sim com o carácter das pessoas, e não quis publicar mais nada para não comprometer a qualidade inegável deste romance. Era um perfeccionista. Há que não se ser demasiado apressado quando queremos que as coisas corram bem.
Os meus parabéns à autora pelas 177 páginas de uma história linear, é evidente que tem a vida toda pela frente para se aprimorar. Mas não posso dar-lhe os parabéns pelo conteúdo da obra.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Anjo de Cristal...

*contém spoilers*

Lendo o Anjo de Cristal da Beatriz Lima (14 anos à época da sua publicação e mais jovem ainda quando o escreveu), descobri que o meu palpite acertou em certos pontos e estiraçou-se no chão noutros. Ora bem… vejamos:

Para quem não sabe a Beatriz é jovem (nasceu em 1997!) e publicou este romance pela Alphabetum edições em 2012. Acedendo ao website da editora descobri inúmeros links onde podemos acompanhar o percurso da Beatriz desde a publicação do livro, bem como a reacção da imprensa. Houve, inclusive, um convite de Moçambique para uma iniciativa cultural. Após assistir também a uma entrevista num programa com o José Figueira e outro com a Conceição Lino, considerei que tanto alarido deveria ter algum fundamento de verdade e abri o livro, lendo as primeiras cinquenta páginas em meia hora (e sem pular linhas!).

Até à página cinquenta já foi uma história de amor, uma história de amizade, uma história de guerra, uma história de caridade, uma história de violência doméstica e uma história de acção, tudo separadamente e com a mesma intensidade a cada instante. 


- O livro evidencia um défice que qualquer amante de História considerará grave no que diz respeito ao contexto político-histórico-temporal. Poderia ser passado noutro qualquer país e noutra qualquer época;

- Concordo que é difícil, sobretudo quando se é tão jovem, fazer-se uma boa pesquisa e background num romance mas, sem querer ser má - e talvez já o sendo - mas há que ser exigentes connosco próprios e, sobretudo, não tentarmos ir além dos nossos recursos. Um ponto onde teria sido fácil a autora pelo menos aproximar-nos um bocadinho de França teria sido adoptando nomes franceses. O que não é o caso.


- Todo o livro evidencia aquilo que eu própria sentia aos doze, treze anos, quando escrevia. Uma certa leveza de espírito, um certo sentido de que há coisas a fazer em que ninguém repara, a ânsia por liberdade, até o sentido maternal, o amor romântico, me parecem familiares. A autora é uma sonhadora, consigo dizê-lo e acho bonito e puro que assim seja. O livro transpira essa mesma ingenuidade e é por isso que se fala em príncipes, fadas, estrelas cadentes e as pessoas se chamam Lua, Sky ou Lírio. 


- A acção precipita-se, tudo acontece em cinco minutos e com a maior naturalidade e, mais, assegura-se genuíno. Amores, ódios, crimes. 


- Ora o narrador surge como presente, ora parece mero espectador no modo como refere as outras personagens;


- A Anne Marie é uma “mártir” com quem seria fácil simpatizar – a deixar uma criança de c. seis anos (segundo dá a entender) com um arranhão na perna dormir na sua casa duas horas depois de a conhecer, sem sequer lhe indagar o que seja a respeito dos seus pais;


- Considero as personagens estereotipadas, desadequadas do seu tempo, espaço e pressuposta cultura, com reacções exageradas e deslocadas, rotinas fúteis e eventos precipitados, pouco ponderados;

- Vírgulas separam o sujeito do verbo;

- Enredo irrealista e a puxar ao dramático sem que os acontecimentos isso justifiquem;

Review final por surgir.
Alterei a review porque o objectivo não era ferir as susceptibilidades de ninguém, nem ser "uma cabra". No entanto não posso deixar de partilhar a minha opinião.


Aspirações de leitura para 2013

E atenção que há um motivo para não usar a palavra "plano", isto porque sou Doutorada em fintar planos de leitura.

Ora bem, em linhas gerais é isto que espero de 2013

1 - LER MAIS AUTORES PORTUGUESES
Como sejam:
- Ferreira de Castro (A Selva, A Lã e a Neve)
- Vitorino Nemésio (Mau Tempo no Canal)
- José Cardoso Pires (De Profundis, Valsa Lenta)
- Rosa Lobato Faria (As Esquinas do Tempo)
- José Saramago (detalhado no ponto 5.)

2 - CONTINUAR COM A LEITURA DE TRILOGIAS
Como sejam:
- Trilogia Langani, Barbara & Stephanie Keating (Luz Efémera, volume III)
- Trilogia do Anel, Tolkien (As Duas Torres [II], O Regresso do Rei [III])
- Trilogia Alexander e Tatiana (II Volume)

3 - INVESTIR NOS CLÁSSICOS, QUE NUNCA ME FALHAM
Como sejam:
- Terminar o mega-volume do Alexandre Dumas (O Conde de Monte Cristo)
- Introduzir-me à obra do Leo Tolstoi (A Valsa de Kreutzer, Anna Karénina)
- Ler o Notre Dame de Paris (Victor Hugo)
- Ler A Túlipa Negra (Alexandre Dumas)
- Ler O Jogador (Dostoievsky)

4 - DAR UMA CHANCE AO GABRIEL GARCÍA MARQUEZ
Não digo voltar a pegar no Cem Anos de Solidão, mas:
- Ler o Amor em Tempos de Cólera
- Ler o Memórias das Minhas Putas Tristes


5 - INVESTIR TEMPO E € (ADQUIRIR E LER) MAIS JOSÉ SARAMAGO
A par de Caim, Ensaio Sobre a Cegueira, Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e As Intermitências da Morte, que já adquiri, comprar:
- Levantado do Chão
- Jangada de Pedra

E ler, pelo menos:
- As Intermitências da Morte
- Caim
- O Evangelho Segundo Jesus Cristo

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

#69 BRONTË, Charlotte, Jane Eyre



Sinopse: Charlotte Brontë conseguiu em Jane Eyre uma fusão perfeita entre o realismo e o romance, incorporando dois temas que persistem no inconsistente colectivo porque expressam aspirações humanas permanentes: o mito de Cinderela, a rapariga pobre e oprimida que casa com o príncipe poderoso, e o mito do sucesso: a recém-chegada sofre, persevera e triunfa da adversidade. 
No entanto, Jane Eyre não é um mero romance de evasão, tem uma verdade e um realismo totais; nos momentos mais empolgantes da acção, os detalhes, como na vida real, são solidamente prosaicos e mesmo o triunfo final de Jane é um triunfo incompleto, à escala humana.
O que caracteriza a arte desta grande romancista inglesa, e ainda hoje a impõe à nossa admiração é, essencialmente, ter sabido descer ao mais profundo dos seres, mostrando-nos, na sua verdade integral, o mau e o bom, o forte e o fraco, na complexidade das suas motivações e das paixões que os dominam, a verdade e a profunda riqueza das figuras que construiu, assim como a violência que as agita, e a humanidade de que vibram e que, página após página, não cessa de nos manter suspensos e ansiosos.

Opinião: Tendo lido anteriormente O Monte dos Vendavais da irmã da autora, Emily Brontë, e conhecendo o enredo desta obra graças ao filme protagonizado por Mia Wasikowska (2011), julguei que a Charlotte seria preterida à irmã. Confesso que o enredo não me interessava tanto, porque sou um bocado adversa ao que pende para o sobrenatural. Mas em boa verdade o livro - ao contrário do filme, que me emocionou mas que não ficou exactamente guardado no meu consciente - conquistou-me e superou, como aliás já é hábito, o filme homónimo.
Estas duas irmãs são tão boas que, apesar da mesma época e do provável mesmo contexto em que foram criadas e educadas, a Emily é uma criadora e a Charlotte é, inegavelmente, outra. A sensibilidade de ambas é impossível de misturar ou dissimular. Enquanto a Emily é crua e mexe com ventos exteriores e perturbadores, a Charlotte mergulha fundo nos motivos ocultos de cada um, sendo que ambas fornecem quadros precisos da natureza humana em estádios diferentes.
Em Jane Eyre acompanhamos alguns dos demónios de carácter que parecem presentes n’O Monte dos Vendavais que a sua irmã publicou alguns anos depois. A natureza a exaltar-se contra o Homem. O carácter ambíguo das pessoas de que nos rodeamos. Mas a escrita de Charlotte é menos intrincada, sendo o Jane Eyre mais fácil de apreender, mais suave (menos áspero) do que a obra-prima da Emily. Também fala em loucura mas, enquanto a que a irmã descreve fervilha, estridente, e povoa cada gesto das personagens, a loucura em Jane Eyre é clínica e fonte involuntária de dissabores.

Deixem-me explicar o enredo deste clássico da literatura inglesa... Jane Eyre é uma órfã acolhida por um tio bondoso, que se torna um fardo para a tia e os primos quando o dito tio falece. Deste modo transforma-se numa criança difícil, vítima inconformada dos maltratos psicológicos e físicos a que é submetida. Eventualmente, acaba por ser afastada da família e encerrada em Lowood, uma escola rígida para meninas. Sendo as condições miseráveis - fome, frio, trabalhos e insensibilidades - também aqui Jane não é feliz.

O calor humano chega-lhe quando, tendo ensinado em Lowood ao formar-se, se torna Perceptora da pequena Adèle em Thornfield e conhece o dono do seu novo lar - Mr. Edward Rochester.

Aqui entra o evidente talento de Charlotte para as relações humanas. Mr. Rochester é multidimensional, mantendo apenas a constância quanto à aura de mistério que o envolve e a um peso incómodo que recai sobre cada um dos seus gestos ou palavras. Não tivesse assistido ao filme e - ignorante da realidade das suas circunstâncias - consideraria que apenas hesita porque faz pouco daquela que se torna, ao longo da leitura, a nossa querida Jane. Também neste ponto a Charlotte difere da irmã no seu Monte dos Vendavais, porque todas as personagens deste são absolutamente desprezíveis. Fascinantes precisamente pelo quão desprezíveis são e pelo quanto, mesmo assim, nos interessamos pelo seu futuro.

Ao contrário do rol de personagens d’O Monte dos Vendavais - amorais, egoístas, cruéis, vingativos, imparáveis - a Jane é determinada, decente, bondosa, caridosa, preocupada com o certo e o errado. É incapaz de infringir mal ou de quebrar as regras da moral e dos bons costumes, inclusive quando sai prejudicada dessa escolha. Este altruismo e abnegação torna esta obra tão rica e única, mesmo quando comparada com o conteúdo de outro clássico da mesma época, elaborado por um punho com quem a sua criadora partilha o ADN, as circunstâncias e a educação.

Apesar de ser irremediavelmente apaixonada pelo Monte dos Vendavais, aconselho igualmente a obra da sua irmã a todos, visto ser fonte de raciocínios pertinentes que tornam a condição humana em algo intemporal. Li algures que é uma primeira obra a emergir sob o signo da emancipação feminina e de facto é-o, na medida em que a Jane está à frente do seu tempo, tanto quanto Charlotte Brontë estava ao acenar-nos lá de trás, da bruma do início do séc. XIX, com valores tão actuais.
 Classificação: 5***** 

domingo, 23 de dezembro de 2012

»Jane Eyre (Charlotte Brontë)

«A consciência da minha vida estragada, do meu amor perdido, das minhas esperanças mortas, da minha fé aniquilada erguia-se diante de mim como uma montanha imensa, prestes a esmagar-me. Não encontro palavras para descrever aquelas horas de amargura. Como dizem as Escrituras: "As águas invadiram a minha alma, mergulhei no pélago profundo e as ondas tragaram-me".»


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

»Uma Promessa de...

Ora o mês passado consegui fintar por completo o plano de leitura que eu mesma estabeleci. Posto isto verei como me comportarei em 2013... valerá a pena criar-me novos desafios apenas para me desafiar a contorná-los?

Há alguns livros que me fitam da estante e que me causam arrepios de prazer de expectativa...

São estes:

1. Luz Efémera (Volume III da Trilogia Langani)

~Trata-se daquilo que imagino ser a chave de ouro de uma trilogia deliciosa que começou nos anos 60 num Quénia dominado pelos Britânicos, a clamar por liberdade. Desenvolve os conceitos de «africânder», introduz-nos a algumas das tribos locais e, sobretudo, às vidas atribuladas de três amigas: Sarah (a minha favorita), Hannah (que me exaspera e irrita) e Camilla (tantas vezes só me apetece esbofeteá-la. A Sarah é descendente de irlandeses e é loucamente apaixonada pelo Piet, irmão da Hannah, no primeiro volume. No segundo volume, tendo superado (ou tentando superar) uma horrível prova de fogo que até a mim me arrepia e agonia, é uma fotógrafa profissional que vive numa reserva natural e acompanha manadas de elefantes. O Piet é apaixonado pela Camilla. A Camilla é apaixonada pelo guia de safaris Anthony - o gostosão mulherengo lá da área - e vive entre as passerelles de Londres e o cenário de sonho da sua infância. Hannah está determinada em manter o legado da sua família de africânderes e de desenvolver a reserva natural que o seu irmão tanto sonhara construir. Mas a ameaça dos nativos que os consideram intrusos ronda-lhes o espaço, compromete-lhes a vida e traz memórias de violências passadas, quando enormes atrocidades se cometeram do lado de ambas as nações num estado de sítio que guarda consequências para os seus descendentes.

2. O Aroma das Especiarias (Volume III da Trilogia do Chocolate)

~O Chocolate entranhou-se no meu imaginário desde que eu tinha doze ou treze anos. Um livro envolvente, emotivo, supersticioso, com um toque místico, personagens fortes e inesquecíveis - até hoje recordo a postura da Armande a beber chocolate quente na La Céleste Praline. Há um filme protagonizado pela Juliette Binoche e o Johnny Depp que deturpa um pouco o romance original, mas ainda assim penetra-me nos ossos. Há até musicais em torno dessa primeira magnifica obra que conta a história de uma mulher do mundo, mãe solteira de capa e sapatos vermelhos (Vianne) que corre o mundo ao sabor dos ventos do Norte. Ao chegar a Lansquenet-sur-Tânnes, decide abrir uma chocolataria no período da Quaresma, em que se fala de jejum e abnegação. Esta religiosidade cínica - retraída, reprimida - é marca presente nas obras da autora, como em Na Corda Bamba (no seu original Holy Fools). No Sapatos de Rebuçado Vianne e a sua pequena filha, Anouk, vivem novas aventuras, numa obra carregada da mesma fragrância doce e mística. E por último segue-se este regresso a Lansquenet... e eu ansiosa por voltar com ela.

3. Anna Karenina (Leo Tolstoi)

~Por favor, não pensem que descobri esta obra do Tolstoi aquando do remake do filme pelo meu adorado realizador Joe Wright (Orgulho e Preconceito, Expiação). Nem me recordo ao certo como ouvi falar desta obra, certo é que o adultério, a separação, o ostracismo e o século XIX em geral me interessam desde sempre. Após muito namorar esta obra, lá a adquiri (PVP 35,33€, conseguida com 50% de desconto numa daquelas campanhas mirabolantes da minha adorada/odiada Fnac). Agora está cá em casa, à espera que eu ganhe coragem para pegar nesta obra colossal que promete muitas emoções e que se adivinha sublime.

4. Servidão Humana (W. Somerset Maugham)

~Tendo corrido muito para o encontrar - escrevendo inclusive e-mails à Asa e perguntando pelo paradeiro dum último livro que pudesse ter sobrevivido ao stock - fui informada de que a edição estava esgotada e de que não sabiam quando a reporiam. Conclusão: na feira do livro de Almada, na Bertrand do Rio Sul e aos magotes na Fnac de Almada, lá anda esta obra do Maugham. O que espero dela? Existencialismo, dureza, lições de vida, reflexões profundas, algo a somar a quem sou, ao que conheço do mundo, das pessoas e da literatura em geral.