quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

#73 FIDALGO, Vanessa, Histórias de um Portugal Assombrado


Sinopse: Hoje o Palácio Beau Séjour é ocupado pelo Gabinete de Estudos Olisiponenses, da Câmara Municipal, de Lisboa, mas noutros tempos foi a residência do Barão da Glória, que ainda hoje por lá anda a arrastar grossos volumes de livros e caixotes de documentos, para desespero dos funcionários, que, dias depois, voltam a encontrá-los no exato local onde haviam procurado. O Barão também é culpado, acusam, pelo tilintar da chávenas em cima das mesas e pelo soar das campainhas da Quinta de São Domingos de Benfica. No Castelo de Almourol ou no de Bragança, amores incompreendidos deixaram espetros a pairar nas suas torres e ameias. Na Serra de Sintra sobram razões para ter medo, entre casas assombradas e almas que deambulam pelas estradas. No Porto, há espetros a discutir a herança pela calada da noite e apartamentos que, afinal, contra todas as razões lógicas, não estão vazios como aparentam. Em Castro Marim, as mouras ainda andam à solta, e, em Penafiel, os sustos marcam o ritmo dos dias na Quinta da Juncosa, que há séculos foi palco de um crime hediondo. Em Langarinhos, Gouveia, há uma casa inacabada, obra que, por mais que tente, nenhum proprietário consegue finalizar. 
Falar de fantasmas, casas assombradas e mistérios difíceis de explicar não é tarefa fácil. Há quem fique com pele de galinha, outros não deixam de esboçar um sorriso trocista.

Opinião: Não tinha qualquer expectativa quanto a este livro. Como me interesso por História, lendas e pelo património do meu país, julguei que talvez pudesse satisfazer um pouco dessas curiosidades nesta obra da Teresa Fidalgo. Até por volta da página 180 as compilações de situações foram isto tudo. A partir daí transformou-se num livrinho infantil sobre princesas mouras e alcaides/cavaleiros cristãos. Enfim...
Bom, o que me surpreendeu mais pela positiva foram as palavras escolhidas pela autora. Pensei, em dados trechos, que ela escreveria um bom romance. Não significa que tenha mergulhado muito a fundo nas personagens - ou sequer que não se tenha repetido "n" vezes, porque a dado momento as histórias eram todas iguais - mas tem um discurso fluído, que era onde receava ressentir-me mais na leitura.
Li histórias muito interessantes sobre casas, povoações, específicas. Pessoas com nome e história e moradas memoráveis. Edifícios conhecidos de qualquer lisboeta ou mesmo estruturas em Carcavelos e no Estoril, onde estudei três anos, aproximaram-me deste imaginário tenebroso. Infelizmente, intercaladas com estas histórias e depoimentos surgiam lendas sem grande fundamento, sem fontes que não o linguajar popular.
Entreteve-me (assustou-me e valeu-me um sonho daqueles de pôr os cabelinhos em pé), mas penso que a autora devia ter cortado tudo a partir da página 180/90 e poupar-nos às agruras dos amores medievais, bem como deveria ter-se encurtado na descrição das histórias centenárias de alguns edifícios. Não conseguiu, deste modo,  manter-me o interesse aceso. Ainda assim li-o em dois dias.
Aconselho, até porque aprendi um pouco da realidade dos sanatórios - doentes pulmonares - e de crenças populares como a suspeita de que, se uma mulher engravidasse de gémeos, cada filho seria de um pai diferente, votando-a à ostracização dos adúlteros.
Ia dar-lhe um 4*, mas as últimas 60/70 páginas sobre princesas, suicídios de amor, os amados sob a forma de neblina matinal e maldições assolapadas desmotivou-me.
Classificação: 3***/*

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

#3 Para Roma com Amor



Título oficial: To Rome With Love @ 2012
Realizador: Woody Allen
Actores principais: Alec Baldwin, Woody Allen, Penelope Cruz, Ellen Page, Roberto Benigni, Jesse Eisenberg
Classificação IMDb: 6,4
Minha classificação: 6

Sinopse: As vidas de alguns turistas e residentes em Roma e os seus romances, aventuras e peripécias.





Opinião: Nunca fui grande fã de Woody Allen. O meu filme favorito dele nunca foi ultrapassado: Match Point. A aura do Jonathan Rhys-Meyers conquistou-me esse apreço. Também gostei do Cassandra’s Dream, mas uma vez mais pode dever-se ao Colin Farrell. Onde andou a Scarlett Johansson nesta produção? Não que eu sinta falta dela neste filme (ou em algum filme) mas estranhei, havia ali um ou outro papel que podiam ter-lhe pertencido.
O Roberto Benigni (A Vida é Bela) está óptimo como sempre, bem como todos os autores romanos, que conferiram alguma autenticidade ao filme. Foi para mim um regalo observá-los, ouvi-los, ver como se vestem, o que comem, como se exprimem e barafustam.
Estarei em Roma em Junho e foi por Roma que procurei no filme. Vi-a e ela brilhou muito mais do que qualquer foco da história, isto porque, por ex., no Vicky Christina Barcelona nem tão pouco me recordo de Barcelona. A cidade não foi uma personagem. Paris foi uma personagem no Midnight in Paris. Neste último filme – talvez porque a minha atenção se centrou aí – mas a cidade foi a grande protagonista. Roma e os romanos. Todos os outros são dispensáveis.
Há uma espécie de grilo falante – o Alec Baldwin – aos ouvidos do Jesse Eisenberg (A Rede Social). A Ellen Page (Juno) surge num papel detestável. Não que não conheça sex animals que se excitem principalmente com enrolarem-se com os namorados das amigas, mas acho que já a vi demasiadas vezes com o mesmo tipo de actuação. Tive pena que ela estivesse tão monótona quando tem tanto potencial.
A Penelope Cruz enche a tela quando sorri, mas já a vi igual noutros tantos filmes com esta mesma caracterização (para não dizer papel). No Nine, por exemplo. É um figurão, contudo.
O Woody Allen fez de velho preconceituoso e inconveniente, embora com algumas certeiras que me fizeram sorrir. Para mim a cena mais marcante será aquela em que Fabio Armiliato canta ópera perante uns quantos senhores da indústria musical. Não fosse a minha adorada Nessun Dorma (G. Puccini, Turandot) ainda faz uma cara inesquecível…
Foi um filme leve – demasiado leve para Woody Allen, superficial, pointless.
Em suma, nada do filme perdurará por muito tempo na minha memória tão sobrecarregada excepto, talvez… Roma

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

#72 KEATING, Barbara & Stephanie, Luz Efémera


Sinopse: Em crianças, Hannah, Sarah e Camilla tornaram-se irmãs de sangue. Com o passar dos anos, conseguirá esta aliança manter-se inquebrável? 
 Hannah e o marido são donos da fazenda Langani e do Safari Lodge. Juntos, lutam para preservar a vida selvagem e as suas terras, ameaçadas por caçadores furtivos e funcionários governamentais corruptos. Contudo, vai ser a relação entre a filha de ambos e um rapaz africano a constituir o verdadeiro teste à união familiar. Por seu lado, Sarah é uma reputada fotógrafa e investigadora da vida animal. A morte do seu amor de infância marcou com violência a sua entrada na idade adulta; tantos anos depois, procura ainda recuperar a inocência perdida. Camilla conseguiu vingar no exigente mundo da moda e parece estar prestes a viver plenamente o seu grande amor ao lado do carismático guia de safáris Anthony Chapman. Mas uma triste reviravolta ensombra a vida de ambos e ameaça agora estilhaçar os sonhos que em tempos partilharam.
 Passado nas regiões selvagens e imprevisíveis do Quénia, Luz Efémera é uma história de coragem, amizade, traição e sacrifício redentor.
  
Opinião: Comprei o Irmãs de Sangue em 2009, na Feira do Livro. Li as primeiras 600 páginas deste primeiro volume num sopro, desconcertada com tanta beleza. O Quénia - Nairobi, os safaris, a fazenda Langani - são cenários de cortar a respiração e, mesmo "lido", causa impacto se soltarmos a imaginação e estivermos receptivos. Nesse ponto algo horrível aconteceu e magoou-me tanto que fechei o livro, emocionalmente exausta. Dois anos depois peguei-lhe e sorvi as últimas 60 páginas. Chorei e sorri. Sim, o livro ainda tinha esse poder sobre mim. Li o segundo o ano passado, tendo investido nos outros dois volumes ao descobrir que se tratava de uma trilogia. Fui ao ponto de vender o meu 1º volume e re-comprá-lo novo para que a capa fizesse "pandan" com os irmãos na prateleira. Sim, isto expressa o quanto esta trilogia mexeu comigo. Os cenários em África, a História de África, um pouco também de todo o Império Britânico na segunda metade do século XX (em que sucumbiu) encantou-me desde o primeiro parágrafo.

Este discurso continuaria assim se, a cada novo parágrafo que lia deste último livro o meu encanto não fosse esmorecendo. Pôs-me, inclusive, a pensar no rumo e no ritmo dos volumes anteriores. Apesar de todas as "falhas" que lhe apontarei abaixo, porque no final elas sobrepuseram-se ao enredo que tanto me havia apaixonado, são livros para ser lidos e vividos. Esqueçam tudo e foquem-se na beleza de África, e eles valerão a pena.

Neste terceiro volume resolveram-se crises e problemas que se arrastaram desde o segundo. Infelizmente, as personagens principais decepcionaram-me todas, sem excepção. As três irmãs de sangue estão a crescer e a emburrecer. Mais intolerantes, mais histéricas, mais dramáticas, menos práticas, mais emotivas, mais briguentas, mimadas e por vezes até ridículas. Os alvos principais dos seus rancores e mal humores são, como não poderia deixar de ser, primeiro os maridos e depois, quando a comunicação com eles já está quebrada - porque de súbito tanto a Sarah como a Hannah parecem ter a idade mental de 12 anos - viram-se para os filhos (caso da Hannah) e outras amigas (caso da Sarah, que se mete numa briga enorme com a Camilla). Foi para mim incomodativo observar pessoas que haviam passado por tanto e que supostamente tinham crescido a comportarem-se como a minha irmã adolescente (felizmente as crises já lhe passaram) e a dizer atrocidades que magoavam os maridos que, quanto mais as aturavam, mais eu gostava deles. O Lars e o Rabrindrah merecem um altar.
A Suniva foi a minha personagem favorita neste livro, juntamente com o James. Ambos personificam um amor sólido e inabalável e ambos lutam e abdicam do que for preciso em nome dessa ligação. São o espelho inverso da relação dos pais da Suniva, que parece degradada ao ponto de um deles quase se suicidar. O James também foi muito benéfico para o enredo deste último livro, pena que ambos não tivessem tido mais protagonismo.
A Camilla cresce finalmente. Por muito que tenha sido sempre a "irmã" que me aborrecia mais, neste livro é um sopro de equilíbrio e ar fresco. É abnegada e confiante (sem grandes crises existenciais, como as outras), prática e assertiva. Finalmente concretiza o seu grande amor com o Anthony (como a própria sinopse revela) e dedica-se-lhe a cem por cento. Fora um acto que lhe condeno, mas que ela própria também se condena, só precisava de mais sal para ter roubado a cena por completo.
A Hannah irritou-me sobremaneira no livro anterior. Quis esbofeteá-la umas quantas vezes. Neste livro detestei-a ainda mais, tornou-se, a meus olhos, uma vilã. Tiraniza o marido, negligencia a Suniva em prol do Piet, é amarga para com o James e hostiliza os sogros que são pessoas amorosas. Sem mencionar que é a sombra principal sobre o amor da Suniva e do James, só por aí bastaria.
A Sarah enojou-me. Sempre foi, para mim, a personagem mais fiel a si mesma e mais sentimental. Mas neste livro tem uma fraqueza que, noutra personagem, associaria à natureza humana. Nela soa-me a inconsistência do autor. Pareceu-me a Hannah em demasiados pontos, e acreditem que a Hannah é detestável. É inflexível para com um marido admirável, está obcecada com ter um filho e neurótica. Mas há algo que ela faz que me fez perder toda a fé nela, bem como parar de lhe desejar um final feliz.
O livro tem c. 750 páginas. Na página 690 as cenas começam a atropelar-se. Cinco anos passam, depois dez. Pessoas morrem, aparecem com filhos, mudam de país, entregam casas, fogem de casa, pedem outras em casamento. Num livro tão grande onde se enrolou tanto - houve momentos em que a observações das chitas me fazia pensar num domingo de manhã a ver os documentários da BBC - e onde se deu tanta importância a insignificâncias, não podiam ter caprichado um bocadinho mais nestes desenvolvimentos finais?
A trilogia não foi encerrada com chave de ouro. As personagens estavam, por vezes, irreconhecíveis. Há diálogos - personagens, até - situações e crises pointless, que vêm do nada e desaparecem no nada, sem nada acrescentarem ao romance. Confesso que pulei muitos parágrafos na leitura, já estava francamente exausta.

Vale a pena lerem porque o enredo, o fio condutor da história, é flawless. É a consistência das personagens, o ritmo e o conteúdo, o modo como a história nos vai sendo estendida, ora numa lentidão agonizante ora tão rápida que ficamos "what the hell?", que não funcionou.
Classificação: 3***/*

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

#2 Django Libertado


Título oficial: Django Unchained @ 2012
Realizador: Quentin Tarantino
Banda sonora: Ennio Morricone
Actores principais: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington
Classificação IMDb: 8,6
Minha classificação: 9,5


*O melhor filme que vi nos últimos tempos*

Nunca fui grande fã de Tarantino... isto é, nunca senti apelo algum aos filmes dele. Resumia-os a isto: sangue, violência gratuita, bad guys looking cool. O primeiro filme dele que vi foi o Inglourious Basterds, e o segundo é agora o Django. Gostei do Inglourious Basterds e pu-lo na linha do Snatch - Porcos e Diamantes (@2000 Guy Ritchie), onde é tudo maluco, tudo aos tiros, mas com humor e alguma mestria.
Não fiquei com grande vontade de voltar a ver o Inglourious Basterds, mas fiquei com vontade de voltar a ver o trabalho do Tarantino. Assim sendo sentei-me no cinema nesta quarta-feira passada com expectativas elevadas quanto ao filme. Já esperava o sangue e algum humor e, ainda assim, excedeu todas as minhas expectativas. A direcção - planos, cortes, ângulos, abordagens - é perfeita. A ironia é perfeita. Ri-me várias vezes, tive o coração nas mãos outras tantas.
A história é original e interessante, abordando a escravatura sem apelar a lágrimas humanitárias, mas recordando-nos da sua selvageria. Pretos a discriminarem pretos, pretos a mandarem “discretamente” nos seus amos brancos, pretos a matarem brancos e a receber por isso. Tarantino foi audaz, poderia ter causado uma onda de controvérsias - e o filme é controverso. Mas considerei-o sublime.
A banda sonora dirigida por Ennio Morricone (Cinema Paraíso, A Missão) e com participações de Rick Ross de Anthony Hamilton e Elayna Boynton dirige as emoções e ajuda a descodificar os momentos em tela. Algumas citações são inesquecívels:
“Gentleman, you had my curiosity but now you have my attention!” Ficará para a posterioridade.
Ri-me, chorei, caiu-me o queixo, estremeci, tive o coração nas mãos e exultei com a "awesomeness” do filme. Com o devido sobreaviso quanto à violência e aos momentos em que o Tarantino deixa o espectador frustrado e desconcertado, aconselho todos a verem esta película que, no fim, se revela bastante gratificante.
Deixo-vos com esta magnífica “Freedom”, que personifica tão bem toda a acção e a essência do filme.

Curiosidade: O Leonardo DiCaprio cortou realmente a mão numa das cenas, continuando a representar sem exigir um corte na cena. O sangue foi-lhe escorrendo pela mão e criou um efeito perturbador que cai maravilhosamente à personagem. A dado momento esfrega a mão na cara de Kerry Washington, espalhando o sangue no seu rosto para dar ênfase às suas ameaças. Pareceu-me um momento de excelência na representação, em que ambos deram o melhor de si de improviso e conquistaram mais uns pontinhos para a obra-prima que é o filme.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

#1 LINCOLN


Título oficial: Lincoln @ 2012
Realizador: Steven Spielberg
Banda sonora: John Williams
Actores principais: Daniel Day-Lewis, Sally Field, Joseph Gordon-Levitt, Tommy Lee Jones
Classificação IMDb: 7,9
Minha classificação: 6

Sinopse: Conforme a Guerra de Secessão decorre, o Presidente da América luta continuamente, inclusive contra os homens da sua própria facção, a respeito da 13ª Emenda que conferiria a liberdade aos escravos.


Opinião: Meus queridos eu sou absolutamente doida pela Guerra da Secessão. Na minha opinião é o período mais importante da História Americana e carrega muitas repercussões consigo. Para quem não sabe, trata-se de um conflito de cariz civil decorrido entre 1861 e 1865 entre os Estados da América mais a Norte, a "União", e os Estados Confederados a Sul, a "Confederação". A guerra despoletou porque o Sul, ruralizado, cujo sistema económico assentava totalmente na produção de algodão suportada pelo trabalho escravo, pretendia desligar-se do Norte industrializado, baseado no proteccionismo económico e anti esclavagista (este ponto é controverso). Criando uma Confederação independente dos Estados a Norte, causou uma fricção que, já com Abraham Lincoln no poder, se estendeu em combates sangrentos durante quatro longos anos.
O meu filme favorito de sempre é o E Tudo o Vento Levou. Para quem pensa que é a história de amor de uma rapariga bonita e de mau feitio e um cretino arrogante, fique a saber que é a História do Sul, onde os valores aristocratas e o liberalismo económico imperava. A arrogância do Sul elevada a um poema, apesar de todos os erros humanitários... A Margaret Mitchell, com o seu maravilhoso romance, criticou e exaltou uma "nação" à parte da restante América. Os negros são bem tratados, mas não são livres. A economia do Sul, embora liberalista, irá colapsar porque está dependente do preço do algodão. O que se vê no maravilhoso filme do David O. Selznick e do Victor Fleming de  1939 é a queda de um modo de vida, impulsionada pela guerra. O Norte pretende absorvê-los, por muito que não os compreenda nem os valorize, e o Sul, orgulhoso, rebela-se. Durante a guerra ambas as facções sobrem atrozmente as baixas e os horrores do conflito. Muito sangue é derramado e, na perspectiva do Sul, a estratégia do Norte para angariar mais braços para a sua causa e sufocar de vez a sua economia é libertar os escravos. Deste modo perderiam os braços dos negros que combatiam (obrigados) pelo Sul e, quando a guerra terminasse, não teriam mão de obra para levar a produção algodoeira  a bom porto. De facto, há uma reflexão sobre o facto de os negros não estarem, sequer, preparados para a alforria. Não têm outra estrutura social que não pertencer a uma casa, trabalhar a sua terra, dormir nas camas providenciadas pelos amos e cuidar dos seus filhos. Livres tornam-se velhacos, vingativos (como é compreensível), causam mortes, abusam de mulheres, estabelecem-se em acampamentos e embebedam-se nos botequins. Eu faria o mesmo depois de três séculos de escravatura, mas torna-se também compreensível a perspectiva do Sul, que não conhece outro modo de sustentabilidade.

Vendo o filme do Spielberg, aliás nomeado para os Óscares, adormeci na primeira parte. I did, pela primeira vez no cinema. O filme começa com diálogos (francamente forçados) que expõem - tell - as estratégias da União e os receios dos civis, das esposas, dos filhos. Lincoln surge com um sorriso benevolente e postura exausta. Penso que o Daniel Day-Lewis conseguiu recriar a aura em torno deste Presidente, até porque é bem mais jovem do que Lincoln era mas, por vezes, a caracterização pareceu-me um pouco caricata. A moda não era muito amiga da estética à época e surgem um pouco exageradas aquelas patilhas, difícil é fazer a personagem parecer credível. Creio que a representação do Day-Lewis é irrepreensível, mas o envolvimento tornou o filme, para mim, um bocado teatral. Bom bocado dessa primeira parte (antes de adormecer) foram sequências de homens a disparar leis e a discutir o papel estratégico da 13ª Emenda (a que libertaria os escravos) para o fim da guerra, que é tudo o que se ambiciona.
Pareceu-me, a dado momento, que a 13ª Emenda era algo de abstracto, uma ferramenta mais política do que humanitária. Aliás, isto resume o livro. É bem mais político do que humanitário, e era o lado humanitário que eu procurava no filme - se tivesse alguma expectativa no filme, que aliás não tinha.
Todo o filme é muito sóbrio, muito formal, tirando uma piadinha ou outra, bem como a personagem do Tommy Lee Jones, que quando actua rouba a cena, teria dormido ao longo de toda a segunda parte também.
Os cortes de cenas causam quase anticlímaxes, eu procurava, sendo o Spielberg, alguma arte intrínseca, mas pareceu tudo muito técnico, muito sóbrio, muito frio.


A banda sonora, que poderia ter ajudado a salvar o filme - John Williams! Por amor de Deus (Memoirs of a Geisha) - é monótona, ajudou a embalar-me. Não há um clímax, uma composição que fique na memória... e logo eu, sempre tão atenta à soundtrack.

Enfim... 6*/10* e porque é a Guerra de Secessão.

Quase oiço a Scarlett O'Hara a dizer "Tonight I wouldn't mind dancing with Abe Lincoln himself!".


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

#71 KLEYPAS, Lisa, Devil in Winter


Opinião

E dei-me conta de que não fiz uma review ao Devil in Winter, o meu favorito das Wallflowers! (Em Portugal corresponde ao #3 da série À Flor da Pele da 5 Sentidos). Tendo enviado um e-mail à editora, responderam-me que não preveem, de momento, mais nenhuma publicação nesta série. Fiquei destroçada e amaldiçoei esses bandidos sem coração! Mas também me recordei que já li o livro pelo menos duas vezes numa tradução brasileira manhosa que circula na internet, em inglês idem e até o comprei no book depository e esperei por ele duas semanas vindo do UK. É uma das pérolas da minha biblioteca, uma edição com muita classe que não denuncia o seu conteúdo...

Bom, certamente que quem já leu os dois volumes anteriores da série, sobretudo o que diz respeito à Lillian Bowman, se recorda do abominável Sebastian St. Vincent que atenta contra a pode donzela a fim de a obrigar a casar-se consigo e a embolsar uma boa quantia? E lembram-se certamente também da ruiva tímida e gaga... a Evie? Pois bem, o terceiro volume das Wallflowers começa com a pobre Evie a munir-se de uma coragem que não sabíamos que dispunha e aborda o escroque. Pede-lhe... *aclaro a voz* que se case com ela. É um negócio simples: o pai dela está a morrer e vai deixar-lhe uma casa de jogo rentável. Em simultâneo ela é maltratada pelos familiares que olham por ela e quer livrar-se da sua influência.
É aqui que a história começa a ser interessante. O St. Vincent é um sacana sedutor habituado a enrolar-se com tudo o que mexe, mas está com graves problemas financeiros e não quer abdicar do luxo a que está habituado. Por isso não hesita em casar-se com a Evie...
Começa a sentir-se útil e a ser bem sucedido na gerência da casa de jogo do pai dela e, qual é o seu espanto, sente-se responsável e protector para com ela. Mas, e apesar de se sentir atraída pelo marido, ela não tem interesse algum em sofrer uma desilusão, ver-se traída ou confirmar que a sua amiga Lillian tem razão quanto ao mau carácter do St. Vincent. Para isso exige distância ... e isso é um chamariz para o St. Vincent, pouco habituado a ser rejeitado...
Adoro o livro porque as minhas personagens favoritas são sempre aquelas que se reinventam. Li muitas vezes que o St. Vincent "mudou rápido demais", visto ser desprezível no livro anterior. Mas as pessoas não mudam rápido quando finalmente descobrem o seu lugar? Não parece que "nasceram" para aquilo? É assim o St. Vincent a gerir uma casa de jogo. Idem quanto à Evie. Nasceram um para o outro, sobretudo porque ela lhe dá uns quantos "nãos" nas barbas...

sábado, 19 de janeiro de 2013

#71 HARRIS, Joanne, O Aroma das Especiarias


Sinopse: Vianne Rocher recebe uma estranha carta. A mão do destino parece estar a empurrá-la de volta a Lansquenet-sur-Tannes, a aldeia de Chocolate, onde decidira nunca mais voltar. Passaram já 8 anos mas as memórias da sua mágica chocolataria La Céleste Praline são ainda intensas. 

A viver tranquilamente em Paris com o seu grande amor, Roux, e as duas filhas, Vianne quebra a promessa que fizera a si própria e decide visitar a aldeia no Sul de França. À primeira vista, tudo parece igual. As ruas de calçada, as pequenas lojas e casinhas pitorescas… Mas Vianne pressente que algo se agita por detrás daquela aparente serenidade. O ar está impregnado dos aromas exóticos das especiarias e do chá de menta.
Mulheres vestidas de negro passam fugazes nas vielas. Os ventos do Ramadão trouxeram consigo uma comunidade muçulmana e, com ela, a tão temida mudança. Mas é com a chegada de uma misteriosa mulher, velada e acompanhada pela filha, que as tensões no seio da pequena comunidade aumentam. E Vianne percebe que a sua estadia não vai ser tão curta quanto pensava. A sua magia é mais necessária do que nunca! 

Opinião: O Aroma das Especiarias é o terceiro volume da trilogia inaugurada com o sublime Chocolate. Esclareçam-me se haverão mais… se for uma trilogia finda-se aqui, mas aquele final talvez sugira mais.
Ao longo das suas quase quinhentas páginas acompanhamos o regresso da Vianne Rocher à aldeia onde Chocolate teve lugar. Lansquenet-sur-Tannes é agora um local diferente e, oito anos volvidos após La Céleste Praline, também os seus habitantes estão diferentes. Um feliz reencontro com Joséphine, Luc e Caro Clairmont, Guillaume e os ciganos do rio, intensificado pelo twist na personagem do Père Reynaud, em torno de quem parece girar agora o romance e que se tornou, rapidamente, na minha personagem favorita deste volume. Cada um transporta agora novos segredos que muito gosto me deram a desvendar. Para quem não sabe (como eu, que não estava à espera), há uma comunidade de Muçulmanos de niqab a viver na tacanha aldeia a que a Joanne Harris já nos habituou.
Imaginem só o modo como as coscuvilhices da pequena aldeia revolvem em torno desta nova comunidade e dos seus muitos segredos, a fervilhar sob véus, lantejoulas e a rigidez do Ramadão. São personagens fascinantes, uns e outros. Conheci uma Anouk crescida, uma Rosette quase mística, uma Vianne por uma vez insegura, hesitante em usar os seus poderes. Um Reynaud que aprendeu a lição em Chocolate
A somar a tudo isto existe o fascínio de conhecer uma nova cultura apresentada por esta autora que me é tão querida e que tem o dom de, nos seus enredos, aproximar pessoas das mais diversas origens. Receei que o livro fosse previsível mas deu-se bem o oposto. Todo ele tem aroma a pêssegos (Peaches for Monsieur le Curé), açafrão, chili, chocolate. Outra aventura dos sentidos e mais personagens para desvendar. Mais cartas de tarot e destinos a serem decifrados em sonhos e no fumo da mistura do chocolate.
A Joanne habituou-me a um universo só seu onde a contemporaneidade sempre pareceu ficar voluntariamente excluída. Lê-la a referir-se ao Facebook, telemóveis e rede arrastou-me para a reflexão que é promovida no livro, para a mudança dos tempos, a tolerância que é aconselhada e os perigos envolvidos. Foi algo novo de encontrar nesta minha escritora quase favorita e é bom saber que algumas receitas nunca azedam.
Na realidade atribuo-lhe 4,5 estrelas, porque de algum modo não é um livro perfeito. Penso que o Chocolate tem uma atmosfera mais própria, mais homogénea. Neste livro senti a Vianne distante, como se em vez de ter amadurecido estivesse menos atenta ao que sucede em redor. Uma vez mais há um culminar – um clímax – num livro dela e confesso que não o antevi, pelo que foi uma surpresa que me obrigou a sorver quase 200 páginas de um sopro em pouco mais de uma hora. Ainda assim, o clímax de Chocolate não mete ninguém em perigo mas é inesquecível! Gostei muito do livro, mas por vezes considerei o discurso da autora forçado – a revolver desnecessariamente em torno dos receios da Vianne - sobretudo no início, em que a decisão de regressar a Lansquenet foi muito precipitada. A Anouk poderia ter sido melhor desenvolvida, visto que começa a fascinar tanto quanto a própria mãe e o Roux é quase uma personagem secundária, estranhamente encaixado nos eventos finais. É o Père Reynaud e Lansquenet, que é sem dúvida uma das personagens, que marcam os 4,5 pontos que atribuo à obra.
Classificação: 4****/*