sexta-feira, 1 de março de 2013

#77 DURAS, Marguerite, O Amante


Sinopse: Saigão, anos 30. Uma bela jovem francesa conhece o elegante filho de um negociante chinês. Deste encontro nasce uma paixão. Ela tem quinze anos e é pobre. Ele tem vinte e sete e é rico. Os amantes, isolados num mundo privado de erotismo e auto-descoberta  desafiam as convenções da sociedade.
Enquanto ela desperta para a possibilidade de traçar o seu próprio caminho no mundo, para o seu amante não há fuga possível. A separação é inevitável e tragicamente cadenciada pelos últimos acordes da presença colonial francesa a Oriente.
A jovem é a própria autora e este é o relato exacerbado de uma paixão inquieta e dilacerante. De tão etérea, a sua realidade gravar-lhe-ia no rosto marcas implacáveis de maturidade. Para o mundo, fica uma obra que contém toda a vida.

Obra intemporal, relato de um mundo perdido, O Amante foi vencedor do prestigiado Prémio Goncourt, em 1984, e confirmou o génio literário de Marguerite Duras, nome cimeiro da literatura mundial.

«Muito cedo na minha vida foi tarde demais»

Opinião: (Demorei dois dias a reunir 'material' para fazer esta review) Raramente me acontece estar perante uma situação/livro/discurso que não suscite nada em mim. Isto é, que não me indigne, nem fascine, nem horrorize, nem apaixone. Este livro, infelizmente, foi assim. Reconheço que está maravilhosamente escrito e que as reviravoltas textuais da cabeça da narradora, a própria rapariga branca, nos levam por labirintos existentes em nós próprios. Mas importar-me com ela? Não me importei. Nem com ela nem com a família dela. O irmão mais velho é um bandido. Conheço alguns assim; roubam à família para sustentar vícios, destroem-se e à família com o dito. O "irmãozinho" é um doce, demasiado fraco para erguer sequer a voz, sendo por isso o receptáculo de toda a ternura da irmã. A mãe destes três irmãos é um ser alheado, inconsistente por natureza, que não esconde que apenas ao filho mais velho tudo tolera. É uma mulher marcada pela perda do marido e pela malícia do filho mais velho. Esconde os seus bens nos lençóis de casa. A menina branca é ávida de viver e de aprender. Tirando este escandaloso caso com um chinês (que, apesar de milionário), objecto de grande preconceito e desdém por parte da sua família, não tem mais nada de transgressor na sua existência. Tem momentos de vulnerabilidade, mas nunca tive pena dela. Quanto ao chinês, ama-a e é por ela desprezado e humilhado ao sabor do humor oscilante da jovem de 15 anos. A história é compreensível, porque penso que nem a própria narradora sabe se o amava ou não. Começa o livro ao dizer que aos 18 anos já era tarde demais para si, o que me faz crer que já tinha deixado fugir-lhe a felicidade por entre os dedos. Também pode referir-se à velhice que diz que lhe tomara já o rosto, devido a todos os desgostos e angústias que a família lhe traz. 
De momento fiquei sem o bichinho de ler mais Marguerite Duras. Vejamos no futuro.
O livro é bonito em termos literários, por vezes entrei em comunhão com os sentimentos das personagens. Mas não voltei a pensar neles. Se calhar porque não há um fio condutor, o livro vale-se do ritmo dos pensamentos, como se ondulasse a um vento que avança e regressa onde ficou. Não há tell, o que é óptimo, mas o show nem sempre é simples. Cheguei à conclusão que não entendo nada desta branca, e que nem ela própria se entende.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

#76 MEDEIROS, Teresa, Um Beijo Inesquecível

Classificação: 4****/*

Sinopse: Laura Farleigh precisava de um marido. Se quisesse manter um teto sobre a cabeça dos irmãos, a orgulhosa filha do reitor teria de casar até ao dia do seu vigésimo primeiro aniversário. Ao encontrar inconsciente na floresta um misterioso desconhecido de rosto angelical e corpo de Adónis, que não se lembrava do nome e do passado, decide reclamá-lo como seu. Mal sabia ela que aquele anjo caído era afinal um demónio disfarçado. Sterling Harlow, o famoso devasso conhecido como o «Demónio de Devonbrooke», acorda com o beijo encantador de uma formosa jovem que lhe confessa ser ele o seu prometido. Com as faces beijadas pelo sol e sardentas, Laura é uma jovem inocente apesar do encanto feminino das suas curvas. Quando lhe garante ser ele um perfeito cavalheiro, Sterling pergunta a si próprio se, para além da memória, terá perdido o juízo. Juraria não ser homem para se satisfazer apenas com beijos - principalmente os da doce e sensual Laura. Tentando descobrir a verdade antes da noite de núpcias, um beijo inesquecível ateia a paixão que nenhum deles alguma vez esquecerá

Opinião: É daqueles livros que leio em algumas horas, compulsivamente. Sou obrigada a atribuir uma apreciação baseada no que o livro suscita em mim e não na sua qualidade literária. Basicamente fartei-me de rir com a história e, na última parte, houve ali alguns apertos de peito. Adorei a química entre o Sterling e a Laura, funcionou muito bem (algo que falta nos livros da Mary Balogh). Por muito que não seja um livro pesado, a autora levou-o a bom porto com a infância do Sterling e o que os pais fizeram por ele. Derramei algumas lágrimas quando ele finalmente lê as cartas da mãe. E é por isso que gostei mais desta Teresa Medeiros do que, por exemplo, da Patrícia Cabot ou da referida Mary Balogh (esta última repete-se um pouco nos enredos, cópias uns dos outros, e a Patrícia/Meg Cabot é inconsistente nas personagens e nas suas ideologias, querendo atribuir-lhes força e descurando a persistência. Mudam de direcção ao sabor do vento.



Nesta primeira obra que leio da Medeiros, é-me contada a história de um rapazinho que se vê privado da companhia dos pais, à mercê de um tio hediondo e da herança de um título que não lhe era destinado e que lhe sai caro. Incapaz de perdoar a mãe, Sterling torna-se numa criatura amarga e violenta que só encontra conforto na guerra. Na altura toda a Europa era um campo de batalha de lanças apontadas a Napoleão ou sob o seu comando (1815) e, tendo acabado agora o 1809, foi para mim um gosto voltar a este período.
Laura Fairleigh é arrastada para a precariedade de ficar dependente da caridade do novo senhor do casario quando a sua protectora morre. Receando pelo futuro dos irmãos órfãos compreende que deve casar o quanto antes para assegurar um tecto sobre as suas cabeças. É Sterling que, sem que ela saiba e devido a uma queda que lhe causa uma perda de memória, vai servir essa urgência.

Nada disto é novo, grande parte do livro é até "déjà-vu", mas este género é algo de confortável. Várias versões de uma mesma história, numa época em que a escolha estava bem mais limitada do que agora e, devido à complexidade do carácter de Sterling, que é sem dúvida a melhor personagem (embora Lord Thane, Diana, Lottie, George, o caseiro Dowe ou mesmo a cozinheira Cookie também sejam maravilhosamente bem individualizados e com deixas hilariantes de acordo com o carácter de cada um), me deu muito gosto "beber".
Aconselho a todos (as) amantes do género!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

#5 A Vida de Pi




Título oficial: Life of Pi @ 2012
Realizador: Ang Lee
Banda Sonora: Mychael Danna
Actores principais: Suraj Sharma, Irrfan Khan
Classificação IMDb: 8,2
Minha classificação: 9,5
Prémios: Óscares - Melhores Efeitos Visuais, Melhor Realizador, Melhor Banda Sonora, Globos de Ouro – Melhor Banda Sonora

Sinopse: Um jovem sobrevive a um naufrágio e fica cativo numa viagem de aventura e descoberta. Enquanto náufrago, cria um laço inesperado com outro sobrevivente: um feroz tigre de bengala.
 Opinião: Para quem não sabe, este filme é inspirado num romance de Yann Martel. Infelizmente, parece que o autor esteve envolvido num escândalo por ter plagiado o enredo de um livroMax e os Felinos, de outro autor. O filme, contudo, não tem responsabilidade sobre isso. Limita-se a retratar a história de Piscine Patel, que fica 227 dias à deriva no Pacífico, com alguns animais selvagens e, por fim, um tigre, após o naufrágio do navio onde seguia com a família. 
A Vida de Pi é de uma beleza esmagadora

Por algum motivo liderou os óscares nas categorias técnicas (não que os óscares sejam exactamente sinónimo de bons filmes). Mas sim, é de uma beleza desconcertante. É mais ou menos óbvio quando um bom filme tem, por trás, aquilo que desconfio agora tratar-se de um bom livro. Tem cabeça, tronco e membros. As personagens não nos são despejadas, entranham-se em nós. Não vêm do nada, mas sim de algo que nos é compreensível. 
Quanto à Índia, haverá sempre um certo exotismo a envolve-la, e neste filme essa magia esteve presente. A coexistência de hindus, católicos e muçulmanos na mesma comunidade tanto pode gerar conflitos, para mentes fechadas – religion is darkness, como uma das personagens diz no filme – como pode trazer grande riqueza cultural e interior a quem estiver aberto ao respeito e à compreensão. Pi (Piscine Patel, aliás) é assim. A própria história do nome da personagem principal leva-nos para dentro dela: Piscine, Pissing, Pi, e a conexão com o 3,14 da tão odiada matemática tornam o filme em algo de maior. É uma aprendizagem interior através da fome, da solidão, do contacto com animais (eu diria mesmo com o animal interior), e da eminência da morte perante a natureza opressora, tantas vezes subestimada pelo Homem.
O final quebrou qualquer coisa cá dentro, porque penso que entendi para além do que é visualizado. Penso que terei de ler o livro para tirar mais dúvidas, mas de qualquer modo dou os parabéns ao Ang Lee. O filme é arrebatador. Quase desejo viver uma aventura semelhante. Tendo visto o Argo (Globo de Ouro e Óscar de Melhor Filme), que também me deixou de coração nas mãos, digo que este A Vida de Pi contribuiu muito mais para mim como pessoa e amante de cinema. O Argo é contornável, esquecível. A Vida de Pi não.

PS - Vi-o de novo no dia seguinte, valeu a pena para compreendê-lo.

#4 Guia para um Final Feliz


Título oficial: The Silver Linnings Playbook @ 2012
Realizador: David O. Russell
Banda Sonora: Danny Elfman
Actores principais: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro
Classificação IMDb: 8,0
Minha classificação: 8,0
Prémios: Melhor Actriz Princial (Jennifer Lawrence)


Sinopse: Após um internamento forçado numa instituição psiquiátrica, o professor Pat Solitano volta a morar com os seus pais enquanto tenta reconciliar-se com a sua ex-mulher. A sua busca pelo equilíbrio dificulta-se quando conhece Tiffany, uma misteriosa rapariga com a sua quota de problemas.


Opinião: Este filme mexeu comigo de um modo muito particular. As doenças mentais, compulsivas, que se revezam contra a vontade do seu portador, são um tema angustiante e tantas vezes têm dado origem a filmes comoventes (I Am Sam [2001], One Flew Over a Cuckoo’s Nest [1975]). Vi este filme sem grandes expectativas, espantada por aquelas duas caras bonitas (Cooper, Lawrence) terem protagonizado um filme que não foi encarado como uma comédia romântica comum, mas sim como um potencial vencedor de óscares. O enredo é rico em personagens e nas suas nuances comportamentais, deixando-nos no limbo quanto à concepção de “normalidade”. Pat (Cooper) sofre de bipolaridade. Devido a um choque emocional cometeu um acto de violência que lhe valeu uma estadia de vários meses num hospital psiquiátrico. Ao sair pretende recuperar a sua vida no ponto onde esta estava. No entanto é agora outra pessoa, apostada em melhorar em relação ao que fora antes, a fim de recuperar a mulher que o deixou. Tiffany (Lawrence) valeu o Óscar de melhor actriz a esta jovem de 22 anos. De facto, o seu papel é carismático e cativante, elevado a uma espécie de girl next door um bocadinho neurótica mas, em simultâneo, compreensível e empática. A personagem da Lawrence roubou realmente a cena a todos os outros os actores, mas também o Pat foi uma personagem profunda e versátil, sendo a sua evolução credível e, por vezes, inquietante. Robert De Niro ficou com o papel de pai de Pat, com obsessões compulsivas por sua vez (problemas de jogo, apostas, superstições).


Gostei muito de conhecer estas pessoas com os seus defeitos e vícios entranhados, numa luta constante entre o equilíbrio e a harmonia com a sociedade, e os seus resvalos interiores, difíceis de contornar. Por vezes as pessoas ditas “normais” que com eles se cruzavam eram tão ou mais infelizes do que o Pat e a Tiffany, o que me fez reflectir sobre o que significa, no fundo, ser-se normal.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

1809 - II


Carta do religioso Noel Antoine (1804) às autoridades, pedindo que se substituísse a perigosa Ponte das Barcas, que custara 1 milhão de cruzados de empréstimo à Inglaterra

“A entrada e saída da ponte são tão mesquinhamente estreitas que todos os dias existem dificuldades perigosas que se acentuam muitíssimo nos dias das feiras e quando há afluência de charretes de bois, cavalos, moços de fretes (…)”

1809 - I


Notas e documentos para o 1809:

Decreto do Conselho de Guerra de 11 de Dezembro de 1808

“Sendo a defeza da Patria o primeiro dever que a honra, a razão, e a mesma natureza impõe a todos os homens quando huma Nação barbara, desprezando os direitos mais sagrados que no mundo se conhecem, intenta reduzillos á escravidão, roubando as suas propriedades, destruindo a sua religião, violando os seus templos, e cometendo as maiores atrocidades (…) sem que tenham os seus habitantes outro algum meio de evitar os horrores a que se vem expostos (…) sou servido determinar, que toda a Nação Portuguesa se arme pelo modo que a cada hum for possível: que todos os homens, sem excepção de pessoa, ou classe, tenhão huma espingarda, ou pique com ponta de ferro de doze a treze palmos de comprido, e todas as mais armas que as suas possibilidades permitirem. Que todas as cidades, Villas e povoações consideráveis se fortifiquem tapando as entradas e ruas principais com dous, três e mais travezes, para que, reunindo-se aos seus habitantes todos os moradores dos Lugares, Aldêas, e Casaes vizinhos, se defendão alli vigorosamente quando o inimigo se apresente (...)”

E Soult acrescentaria mais tarde “Tive de me defrontar com uma nação inteira. Todos os habitantes, homens, mulheres, crianças, velhos e padres, estavam em armas, as aldeias abandonadas, os desfiladeiros emboscados. Fanáticos precipitavam-se contra as colunas francesas, onde encontravam a morte”

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

#75 HEMINGWAY, Ernest, Na Outra Margem, entre as Árvores


Sinopse: Na outra Margem, entre as Árvores é uma das melhores obras de ficção de Ernest Hemingway, onde o famoso escritor recria alguns episódios da segunda guerra mundial, magistralmente narrados por uma personagem muito ao gosto de Hemingway, o coronel Cantwell, velho combatente que passa as últimas vinte e quatro horas da vida na estranha e bela cidade de Veneza. Retrato de um mundo violento e conturbado, obtido através da imagem de um homem, Na outra Margem, entre as Árvores é uma obra-prima do genial autor de O Velho e o Mar, onde Hemingway mais uma vez manifesta as qualidades que o impuseram como um dos maiores escritores do nosso tempo.

Opinião: Há aquela lista de escritores incontornável para qualquer pessoa que goste de ler. E o Hemingway encontra-se entre eles. Só lendo ficamos a conhecer os motivos pelos quais algum autor é elogiado, mas de vez em quando também se dá o caso de não compreender de todo o frufru em torno de determinada obra literária/criador literário. Li-o como se jamais alguém tivesse dito que ele é um dos maiores escritores do nosso tempo, o que por vezes pode confundir-se com procurar-lhe defeitos. De início isso aconteceu bastante, mas depois deixei-me envolver-me na história e a minha apreciação tornou-se mais apurada, com filtro anti-influências.

Eu gosto de avaliar as coisas pela minha cabeça, não com base no que dizem do livro, não com base no estatuto do autor no mundo literário, mas com base em todo o resto que li. Posto isto, já li melhor do que este livro. Isto basta para dizer que conheço o autor? Não, mas alguns traços dele são tão marcados que certamente hão de estar impressos noutras obras.

Um dos pontos altos do livro são os diálogos. Apesar de fazerem pouco sentido – porque parecem seguir ao ritmo dos pensamentos e das associações de ideias – tiveram alguns trejeitos mais importantes para a compreensão das personagens e do seu mundo interior do que o descritivo do conteúdo das suas cabeças. A escrita também é fácil, leve e fluída, embora por vezes se perca em pormenores demasiado técnicos ou francamente desnecessários. O autor é muito visual, o que ora beneficia a obra, ora a torna mais enfadonha.

Neste livro específico, Hemingway explora a vida de um coronel que combateu na II Guerra Mundial, tendo parte da sua missão decorrido em Itália. Estamos portanto em Veneza, onde Ricardo (penso que seja Richard no original, não entendendo se assim for o motivo desta tradução) vive aquilo que nos informa (uma dezena de vezes) ser o seu “último e único e verdadeiro amor”. Achei o coronel demasiado self centered, impondo autoridade de vez em quando, dando ordens a propósito de tudo. Agradou-me o seu trato rude, a aspereza com que se exprime e o modo cínico como vê o mundo, o poder, a guerra e as suas esferas e “heróis”. Algumas reflexões são interessantes. Uma delas ficou-me na ideia: o único, último e verdadeiro amor do coronel sugere-lhe que escreva as suas memórias de guerra. O coronel diz ao seu único, último e verdadeiro amor, que esse género de romance de guerra sai melhor de mãos que não lutaram, nem viveram realmente a guerra. Tive de concordar. O Hemingway está claramente muito – demasiado – relacionado com o conflito para escrever algo que não seja realista, técnico, melindroso e, desde modo, por vezes fastidioso, em relação à dita cuja.

A partir de certo momento o romance tornou-se um longo monólogo do coronel quanto aos episódios da guerra. Primeiro a personagem feminina (Renata) parece só existir para lhe implorar por explicações da guerra. Penso que entendo a ideia do autor: digamos assim que ela o ama realmente, mesmo com a mão estropiada, e que se interessa por aquilo que nele é maior; a profissão, a guerra. Na minha opinião, esta mulher não existe. Em segundo lugar, quando ela dorme, quando ele pensa, quando ele olha para o retrato dela, para o espelho, para o barqueiro, para o Gran Maestro, para o Conde Alvarito e todas as outras personagens, é sempre a guerra, sempre a mesma sombra a imiscuir-se em cada fio da narrativa. Como dizia, um longo monólogo com personagens secundárias como receptáculo destas palavras a respeito de um mesmo assunto.

O coronel, contudo, é uma personagem bastante realista. Compreendo as nuances do seu pensamento, o quanto luta por ser cordial quando, na sua natureza e na sua experiência, apenas adquiriu hábitos de brusquidão e aspereza.

O ponto alto do livro foi, para mim, um ou dois parágrafos (máximo) em que o coronel finalmente conta dois pormenores, dois episódios, humanos sobre a guerra. Um episódio em que finalmente são se fala em nomes de generais e de tenentes, nem de aviões, nem de operações, nem de troços específicos de uma estrada qualquer, na operação tal, com um motor tipo x e uma pistola tipo y, nem na farda com a medalha z para o oficial tal.
Não vou desistir do autor, mas não me foi inesquecível.

Classificação: 3,5***/*