segunda-feira, 18 de março de 2013

#79 HIRST, John, Breve História da Europa


Classificação: 4****

Uma perspectiva única da Europa pelos olhos de um Professor Universitário de Melbourne. A História é, tantas vezes, uma questão de prisma. Com isto em mente, deixei-me maravilhas pelo modo singular como um cidadão de outro continente analisou o percurso histórico da Europa, um continente que tanto contribuiu (tantas vezes através dos meios errados) para o pé em que o mundo se encontra actualmente.
Este pequeno “resumo” da nossa história conjunta foca-se no raiar de uma civilização, evidenciando a importância da sabedoria grega e da organização romana para a construção da nossa identidade civilizacional. Da democracia grega ao Direito romano, acompanhamos o modo como estes elementos chave foram tendo mais e menos destaque no desenvolvimento da Europa, que, segundo John Hirst assenta sobre três pedras fundadoras: a Cristandade, a Cultura Greco-Romana e os Guerreiros Germânicos. A intersecção destes três elementos permitiu que o Velho Continente nascesse sob o signo em que se tem aperfeiçoado nos últimos milénios.

[A Igreja teve um papel significativo neste nascimento. Eu confesso que o meu grande inimigo ideológico é, mais do que o Hitler, a Igreja Católica. Se me falarem das obras de caridade e do ensino, etc., eu sou obrigada a dizer que o próprio Hitler (porquê ir tão longe?) Salazar, também terá certamente dado alguns contributos à sociedade, ou teria sido imediatamente desprovido da sua influência. Mas a Igreja agiu sempre com o intuito de explorar a ignorância do povo a fim de sobreviver a todos os tempos, posicionando-se do lado dos fortes, incitando-os a guerras religiosas, pilhagens, massacres, juramentos infames, queimando quem se atrevia a tentar lançar luz sobre o seu oportunismo – religion is darkness – e torturando os hereges. A interpretação que a Igreja fez da bíblia tem invenções de autoria desconhecida, que durante séculos se manteve no silêncio do desconhecimento. Foi preciso que viesse Lutero traduzir a bíblia para uma língua acessível aos europeus para que esta interpretação se revelasse manipulada, enganosa, durante pelo menos quinze séculos. Vendia salvações, funcionava como uma multinacional onde haveria sempre oportunidades para os ambiciosos rejeitados pela restante organização social. O paraíso dos segundos filhos, de homens corrompidos e hipócritas, com sede de poder e sem lugar noutro lado. Jesus era Judeu. Os Judeus traíram Jesus, conluiados com os Romanos. A Cristandade vira as costas à religião de Jesus. Abre guerras abertas contra eles (ama o próximo) e estende-se a todo o território Europeu. Para sobreviver, vale-se da conversão do Imperador Constantino (313 A.D.) para galvanizar simpatizantes e, pouco depois, torna-se Igreja Católica Romana. Posiciona-se assim do lado dos traidores de Cristo. Em seguida, para sobreviver à queda do Império Romano do Ocidente, à mão dos germânicos invasores, convence-os a dirigirem a sua ânsia por conflitos aos inimigos da Igreja, os infiéis. Isto é, a Igreja administra o que os germânicos não querem administrar, porque só o saque e a violência os tenta. E estes lutam as suas guerras num pacto duplamente vantajoso. Já em 325, no Concílio de Niceia, a Igreja votara a natureza divina de Cristo a seu favor, escolhendo a “abordagem” a tomar daí por diante. Posteriormente é-lhe descoberta a carapuça quando, no Renascimento, a sabedoria grega (mencionei que as escolas cristãs se baseiam nos ensinamentos pagãos para exercer influência sobre o povo?) começa a ser questionada e, nalgumas ocasiões, é desacreditada. A Reforma revela várias incongruências desta entidade tão poderosa – à custa de algum sangue. Mais tarde surge a Inquisição no âmbito de uma campanha de marketing agressiva apelidada de Contra Reforma. Compras o meu peixe? Não? Vou-te queimar.]

Enfim, vou pular o capítulo da Igreja, é para mim um mistério saber como sobreviveu este monstro durante tantos séculos, à custa de mentiras.
A Europa vale-se do facto de dividirem o espaço com outros países tantas vezes rivais, o que a mantém alerta e em constante competição por progresso e desenvolvimento – social, militar, económico. É para mim um prazer pertencer a este cantinho civilizacional, e sobretudo a Portugal, a partir de onde se deu a Expansão Marítima Europeia, que aproximou o mundo e desbloqueou os seus limites, aumentando assim o nosso conhecimento do planeta e do universo.

Lamento que o autor não tenha mencionado o Humanismo um pouco mais a fundo, mencionado Montesquieu, Jean-Jaques Rousseau ou mesmo o advento da imprensa um pouco mais aprogundado. Também termina abruptamente no alvor da Revolução Agrícola e Industrial, não se aventurando a partir de 1800. É uma pena porque as próprias campanhas de Napoleão e as reacções dos diferentes Estados a esta tentativa de unificação - ou a levada a cabo pela União Europeia - seria interessante de analisar. Também não foram abordadas as disputas de territórios estrangeiros, levando aos conflitos internacionais do séc. XX. A escravatura teria sido outro ponto a abordar, porque fomos, durante séculos, originários de sistemas esclavagistas cruéis. A luta contra esta brutalidade é um ponto social demasiado importante para ser assim ignorado em prol dos adventos agrícolas do séc. XVIII. 
A conclusão não foi satisfatória. A "colonização" do restante mundo teria sido pertinente. Se tudo isto fosse incluído, contudo, não estariamos a ler o "Breve História da Europa". Gabo-lhe, assim, o carácter de "História da Europa explicada a quem não a estuda há anos, mas se interessa e ainda se recorda de qualquer coisa". Abriu-me o apetite para leituras sobre o Classicismo e outras, como a Divina Comédia (Dante), A República (Platão), o Príncipe (Maquiavel).

O livro tem também bastantes gralhas o que, num livrinho de um académico de 200 páginas, de uma editora como a D. Quixote (grupo Leya) me reafirma a certeza de que é tudo publicado sobre o joelho e às pressas, ao sabor do interesse do mercado.

terça-feira, 12 de março de 2013

#78 SARAMAGO, José, As Intermitências da Morte

(acherontia atropos)

Classificação: 4,5****/*

Sinopse: «No dia seguinte ninguém morreu.» Assim começa este romance de José Saramago. Colocada a hipótese, o autor desenvolve-a em todas as suas consequências, e o leitor é conduzido com mão de mestre numa ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor, e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.

Opinião: O que se espera desta obra é, além da escrita signatária do nosso Nobel da Literatura (1998), um retrato duma sociedade a quem a morte (ela exige que não se use maiúscula) virou as costas. Um ensaio sobre o fim magistralmente conduzido...

Saramago expõem-nos um conto (posso dirigir-me a esta obra nestes termos?) reflexivo, do interesse de qualquer ser vivo temente à morte - mais do que a deus. 
Na primeira metade do livro (por vezes um pouco exaustiva, devido a tantas hierarquias e pontos de vista acerca deste fenómeno de não-morte, assistimos à reacção de um país às inesperadas "férias" desta entidade. Se a morte deixasse de matar, que faríamos com a dor e o sofrimento? Que seria dos corredores dos hospitais? Que seria das monarquias com os seus reis convalescentes em eterna agonia? Como realça o narrador, sempre é diferente de eternamente. Que faria a humanidade se fosse eterna? Se não houvesse passagem para o outro lado?
Além de desesperar, faria os possíveis para aceder a esse outro lado, sugere Saramago. Pagaria para morrer, sugere Saramago. A Igreja veria a base dos seus alicerces deitada por terra, a sua utilidade real desfeita. O Governo debater-se-ia com a moral, uma crise económica e demográfica, de braço estendido a quem se oferecesse para resolver os problemas - clandestinamente - por eles. Os funerários, trabalhadores de morgues, floristas, carpideiros, etc., lamentariam a falta de matéria-prima para a prática do seu ofício. As famílias, hospitais, lares, lutariam, embaraçados, por livrar os seus espaços e as suas camas dos moribundos. Filósofos sair-se-iam com teorias sobre diferentes tipos de morte, o herdeiro nesta Monarquia Constitucional receia ainda que a mãe nunca lhe dê lugar, visto recusar-se a passar para o outro lado.

Fatalidade incontornável, fim da viagem, última etapa, inquietação constante, a morte afigura-se, neste livro, com uma voz, um rosto (descarnado) e curiosidade para com os mortais. Afigura-se também como alívio supremo, a seu tempo tão desejado.
A cerca de 60% da leitura, surge a perspectiva da morte. Da morte que dá mostras de cansaço, de entorpecimento de ossos, de até algum desgaste mental e solidão, pois que fala com a sua gadanha, quando intrigada, aguardando por uma explicação. Em certas ocasiões a gadanha até responde. O ritmo do livro corre muito mais fluido, envolvendo o leitor e impedindo-o de deixar as suas páginas... 
Parece, contudo, que demos duas partes muito distintas no livro, com um estilo narrativo e ritmos diferentes. Primeiro a perspectiva das vítimas da ausência da morte, num ritmo que pula de prisma em prisma, que corre rápido, prático, por vezes um pouco moroso mas sem se perder em detalhes. Tudo é política, religião, máphia, estratégia. Depois a perspectiva da morte, num ritmo bem mais rápido (a narrativa acompanha-se com mais facilidade, mas as acções não se atropelam), mais emotivo, mais intimista, mais musical, literalmente. 

O discurso de José Saramago, quando nos embrenhamos na sua escrita, é assertivo, emblemático, sarcástico e perspicaz. É um gosto sentir que o acompanho. Fiquei muito surpreendida pelo facto de que esta obra de inegável lucidez ter sido publicada em 2005, quando o autor tinha já 83 anos. Aqui está a prova irrevogável de que Saramago é, realmente, uma mente de excelência no panorama da literatura mundial.


Que magnífica perspectiva sobre a vida e a (sua necessidade da) morte!

«No dia seguinte ninguém morreu»

Quem me dera ter tempo para...

Não sei se é da falta de tempo, se culpa de uma certa apatia, se é das obras que tenho escolhido, mas...

Gostava muito de me dedicar (em breve) às seguintes leituras, já que isto anda muito enferrujado este ano:






Vejamos se o tempo me sobeja ...

domingo, 10 de março de 2013

Scarlett & Rhett


«Jamais te passou pela cabeça que eu te amasse tanto como um homem pode amar uma mulher? Que te amei durante anos antes de seres minha? Durante a guerra, parti para longe na esperança de te esquecer, mas não deu resultado, tive de voltar. Depois da guerra deixei-me prender, porque vim em tua procura. Amava-te tanto que julgo que seria capaz de matar Frank Kennedy [marido dela, à época] se ele nao morresse de outra forma. Amava-te, mas não queria que o soubesses. Tu és cruel para com os que te amam, Scarlett. Pegas no amor deles, fazendo-o estalar sobre as suas próprias cabeças, como um chicote (...) Sabia o que pensavas de Ashley, mas, insensato como era, pensei conseguir um dia o que não tinha. Podes rir, se quiseres; a verdade é que pretendi tomar cuidado de ti e dar-te tudo o que desejasses. Quis casar contigo, proteger-te, conceder-te carta branca em tudo que te fizesse feliz... (...) Ninguém sabia tão bem como eu as privações por que havias passado. Quis que deixasses de combater, porque eu combateria por ti (...) É evidente que fomos feitos um para o outro. Tão evidente... que eu era o único homem das tuas relações capaz de te amar depois de te conhecer a fundo... de saber que eras cruel, voraz e pouco escrupulosa como eu (...) Pensei que Ashley se apagaria da tua memória (...) Se ao menos me tivesses deixado agir, poderia ser o marido mais terno de quantos existem. Mas não queria que conhecesses a minha ternura, porque então me considerarias fraco e tratarias de te servir do meu amor contra mim. E Ashley continuava.... Comecei a perder a cabeça. Não podia sentar-me à tua frente sem perceber quem terias preferido que fosse Ashley e não eu quem ali estivesse. Não podia apertar-te nos braços sem desconfiar que...(...)
De repente, Scarlett sentiu-se apiedada. Teve tanta pena dele que não pensou na sua própria dor nem nas ameaças que se continham nas palavras ditas pelo marido. Era a primeira vez na sua vida que ela se condoía de alguém sem lhe votar ao mesmo tempo desprezo; era a primeira vez que entendia um ser humano (...)
- Ah, meu querido - disse Scarçett, aproximando-se mais, na ideia de que ele lhe estendesse os braços e a sentasse nos joelhos. - Meu querido Rhett, estou tão arrependida... Façamos por esquecer isso tudo! Podemos ser felizes, agora que conhecemos a verdade... Escuta... quem sabe ainda se teremos filhos... (...)
- Não, obrigado - ripostou o marido, como quem recusa um bocado de pão - Não arriscarei o meu coração pela terceira vez.»

Margaret Mitchell, Gone With the Wind

sexta-feira, 1 de março de 2013

#77 DURAS, Marguerite, O Amante


Sinopse: Saigão, anos 30. Uma bela jovem francesa conhece o elegante filho de um negociante chinês. Deste encontro nasce uma paixão. Ela tem quinze anos e é pobre. Ele tem vinte e sete e é rico. Os amantes, isolados num mundo privado de erotismo e auto-descoberta  desafiam as convenções da sociedade.
Enquanto ela desperta para a possibilidade de traçar o seu próprio caminho no mundo, para o seu amante não há fuga possível. A separação é inevitável e tragicamente cadenciada pelos últimos acordes da presença colonial francesa a Oriente.
A jovem é a própria autora e este é o relato exacerbado de uma paixão inquieta e dilacerante. De tão etérea, a sua realidade gravar-lhe-ia no rosto marcas implacáveis de maturidade. Para o mundo, fica uma obra que contém toda a vida.

Obra intemporal, relato de um mundo perdido, O Amante foi vencedor do prestigiado Prémio Goncourt, em 1984, e confirmou o génio literário de Marguerite Duras, nome cimeiro da literatura mundial.

«Muito cedo na minha vida foi tarde demais»

Opinião: (Demorei dois dias a reunir 'material' para fazer esta review) Raramente me acontece estar perante uma situação/livro/discurso que não suscite nada em mim. Isto é, que não me indigne, nem fascine, nem horrorize, nem apaixone. Este livro, infelizmente, foi assim. Reconheço que está maravilhosamente escrito e que as reviravoltas textuais da cabeça da narradora, a própria rapariga branca, nos levam por labirintos existentes em nós próprios. Mas importar-me com ela? Não me importei. Nem com ela nem com a família dela. O irmão mais velho é um bandido. Conheço alguns assim; roubam à família para sustentar vícios, destroem-se e à família com o dito. O "irmãozinho" é um doce, demasiado fraco para erguer sequer a voz, sendo por isso o receptáculo de toda a ternura da irmã. A mãe destes três irmãos é um ser alheado, inconsistente por natureza, que não esconde que apenas ao filho mais velho tudo tolera. É uma mulher marcada pela perda do marido e pela malícia do filho mais velho. Esconde os seus bens nos lençóis de casa. A menina branca é ávida de viver e de aprender. Tirando este escandaloso caso com um chinês (que, apesar de milionário), objecto de grande preconceito e desdém por parte da sua família, não tem mais nada de transgressor na sua existência. Tem momentos de vulnerabilidade, mas nunca tive pena dela. Quanto ao chinês, ama-a e é por ela desprezado e humilhado ao sabor do humor oscilante da jovem de 15 anos. A história é compreensível, porque penso que nem a própria narradora sabe se o amava ou não. Começa o livro ao dizer que aos 18 anos já era tarde demais para si, o que me faz crer que já tinha deixado fugir-lhe a felicidade por entre os dedos. Também pode referir-se à velhice que diz que lhe tomara já o rosto, devido a todos os desgostos e angústias que a família lhe traz. 
De momento fiquei sem o bichinho de ler mais Marguerite Duras. Vejamos no futuro.
O livro é bonito em termos literários, por vezes entrei em comunhão com os sentimentos das personagens. Mas não voltei a pensar neles. Se calhar porque não há um fio condutor, o livro vale-se do ritmo dos pensamentos, como se ondulasse a um vento que avança e regressa onde ficou. Não há tell, o que é óptimo, mas o show nem sempre é simples. Cheguei à conclusão que não entendo nada desta branca, e que nem ela própria se entende.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

#76 MEDEIROS, Teresa, Um Beijo Inesquecível

Classificação: 4****/*

Sinopse: Laura Farleigh precisava de um marido. Se quisesse manter um teto sobre a cabeça dos irmãos, a orgulhosa filha do reitor teria de casar até ao dia do seu vigésimo primeiro aniversário. Ao encontrar inconsciente na floresta um misterioso desconhecido de rosto angelical e corpo de Adónis, que não se lembrava do nome e do passado, decide reclamá-lo como seu. Mal sabia ela que aquele anjo caído era afinal um demónio disfarçado. Sterling Harlow, o famoso devasso conhecido como o «Demónio de Devonbrooke», acorda com o beijo encantador de uma formosa jovem que lhe confessa ser ele o seu prometido. Com as faces beijadas pelo sol e sardentas, Laura é uma jovem inocente apesar do encanto feminino das suas curvas. Quando lhe garante ser ele um perfeito cavalheiro, Sterling pergunta a si próprio se, para além da memória, terá perdido o juízo. Juraria não ser homem para se satisfazer apenas com beijos - principalmente os da doce e sensual Laura. Tentando descobrir a verdade antes da noite de núpcias, um beijo inesquecível ateia a paixão que nenhum deles alguma vez esquecerá

Opinião: É daqueles livros que leio em algumas horas, compulsivamente. Sou obrigada a atribuir uma apreciação baseada no que o livro suscita em mim e não na sua qualidade literária. Basicamente fartei-me de rir com a história e, na última parte, houve ali alguns apertos de peito. Adorei a química entre o Sterling e a Laura, funcionou muito bem (algo que falta nos livros da Mary Balogh). Por muito que não seja um livro pesado, a autora levou-o a bom porto com a infância do Sterling e o que os pais fizeram por ele. Derramei algumas lágrimas quando ele finalmente lê as cartas da mãe. E é por isso que gostei mais desta Teresa Medeiros do que, por exemplo, da Patrícia Cabot ou da referida Mary Balogh (esta última repete-se um pouco nos enredos, cópias uns dos outros, e a Patrícia/Meg Cabot é inconsistente nas personagens e nas suas ideologias, querendo atribuir-lhes força e descurando a persistência. Mudam de direcção ao sabor do vento.



Nesta primeira obra que leio da Medeiros, é-me contada a história de um rapazinho que se vê privado da companhia dos pais, à mercê de um tio hediondo e da herança de um título que não lhe era destinado e que lhe sai caro. Incapaz de perdoar a mãe, Sterling torna-se numa criatura amarga e violenta que só encontra conforto na guerra. Na altura toda a Europa era um campo de batalha de lanças apontadas a Napoleão ou sob o seu comando (1815) e, tendo acabado agora o 1809, foi para mim um gosto voltar a este período.
Laura Fairleigh é arrastada para a precariedade de ficar dependente da caridade do novo senhor do casario quando a sua protectora morre. Receando pelo futuro dos irmãos órfãos compreende que deve casar o quanto antes para assegurar um tecto sobre as suas cabeças. É Sterling que, sem que ela saiba e devido a uma queda que lhe causa uma perda de memória, vai servir essa urgência.

Nada disto é novo, grande parte do livro é até "déjà-vu", mas este género é algo de confortável. Várias versões de uma mesma história, numa época em que a escolha estava bem mais limitada do que agora e, devido à complexidade do carácter de Sterling, que é sem dúvida a melhor personagem (embora Lord Thane, Diana, Lottie, George, o caseiro Dowe ou mesmo a cozinheira Cookie também sejam maravilhosamente bem individualizados e com deixas hilariantes de acordo com o carácter de cada um), me deu muito gosto "beber".
Aconselho a todos (as) amantes do género!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

#5 A Vida de Pi




Título oficial: Life of Pi @ 2012
Realizador: Ang Lee
Banda Sonora: Mychael Danna
Actores principais: Suraj Sharma, Irrfan Khan
Classificação IMDb: 8,2
Minha classificação: 9,5
Prémios: Óscares - Melhores Efeitos Visuais, Melhor Realizador, Melhor Banda Sonora, Globos de Ouro – Melhor Banda Sonora

Sinopse: Um jovem sobrevive a um naufrágio e fica cativo numa viagem de aventura e descoberta. Enquanto náufrago, cria um laço inesperado com outro sobrevivente: um feroz tigre de bengala.
 Opinião: Para quem não sabe, este filme é inspirado num romance de Yann Martel. Infelizmente, parece que o autor esteve envolvido num escândalo por ter plagiado o enredo de um livroMax e os Felinos, de outro autor. O filme, contudo, não tem responsabilidade sobre isso. Limita-se a retratar a história de Piscine Patel, que fica 227 dias à deriva no Pacífico, com alguns animais selvagens e, por fim, um tigre, após o naufrágio do navio onde seguia com a família. 
A Vida de Pi é de uma beleza esmagadora

Por algum motivo liderou os óscares nas categorias técnicas (não que os óscares sejam exactamente sinónimo de bons filmes). Mas sim, é de uma beleza desconcertante. É mais ou menos óbvio quando um bom filme tem, por trás, aquilo que desconfio agora tratar-se de um bom livro. Tem cabeça, tronco e membros. As personagens não nos são despejadas, entranham-se em nós. Não vêm do nada, mas sim de algo que nos é compreensível. 
Quanto à Índia, haverá sempre um certo exotismo a envolve-la, e neste filme essa magia esteve presente. A coexistência de hindus, católicos e muçulmanos na mesma comunidade tanto pode gerar conflitos, para mentes fechadas – religion is darkness, como uma das personagens diz no filme – como pode trazer grande riqueza cultural e interior a quem estiver aberto ao respeito e à compreensão. Pi (Piscine Patel, aliás) é assim. A própria história do nome da personagem principal leva-nos para dentro dela: Piscine, Pissing, Pi, e a conexão com o 3,14 da tão odiada matemática tornam o filme em algo de maior. É uma aprendizagem interior através da fome, da solidão, do contacto com animais (eu diria mesmo com o animal interior), e da eminência da morte perante a natureza opressora, tantas vezes subestimada pelo Homem.
O final quebrou qualquer coisa cá dentro, porque penso que entendi para além do que é visualizado. Penso que terei de ler o livro para tirar mais dúvidas, mas de qualquer modo dou os parabéns ao Ang Lee. O filme é arrebatador. Quase desejo viver uma aventura semelhante. Tendo visto o Argo (Globo de Ouro e Óscar de Melhor Filme), que também me deixou de coração nas mãos, digo que este A Vida de Pi contribuiu muito mais para mim como pessoa e amante de cinema. O Argo é contornável, esquecível. A Vida de Pi não.

PS - Vi-o de novo no dia seguinte, valeu a pena para compreendê-lo.