quarta-feira, 3 de abril de 2013

Rayuela - iv


Durante toda aquela tarde, ele assistiu uma vez mais, uma de tantas vezes mais, testemunha irónica e comovida do seu próprio corpo. Às surpresas, encantos e decepções daquela cerimónia. Habituado sem saber aos ritmos da Maga, de repente um novo mar, uma ondulação diferente arrancava-o dos automatismos, confrontava-o, parecia denunciar obscuramente a sua solidão rodeada de dissimulações.
O encanto e o desencanto de passar de uma boca para a outra, de procurar de olhos fechados um pescoço onde a mão dormiu, recolhida, e sentir que a curva não é igual, que tem uma base mais espessa, um tendão brevemente tenso com o esforço de se aproximar para beijar ou morder. Cada momento do seu corpo frente a um desencontro delicioso, ter que esticar-se um pouco mais ou que baixar a cabeça para encontrar a boca que antes estava ali tão próxima, acariciar uma anca mais definida, provocar uma resposta e não a obter, insistir, distraído, até se perceber que é necessário inventar tudo mais uma vez, que o código ainda não foi estabelecido, que as chaves e os números vão nascer novamente, e serão diferentes, e responderão a outra coisa. O peso, o cheiro, o tom de uma gargalhada ou de uma súplica, os tempos e as precipitações, nada coincide sendo sempre igual, tudo nasce novamente sendo imortal. O amor brinca a inventar-se, foge de si mesmo para regressar na sua espiral acolhedora, os seios cantam de outra forma, a boca beija mais profundamente ou como que vinda de longe, e num momento onde antes havia apenas cólera e angústia, existe agora o jogo puro, a brincadeira incrível, ou pelo contrário, à hora em que antes de caía no sono, no balbuciar de algum disparate, existe agora uma tensão, algo não comunicado mas presente, que exige entrar, qualquer coisa como uma raiva insaciável. Só o prazer no seu estado último é ele mesmo; antes e depois o mundo ficou desfeito em pedaços, e é necessário nomeá-lo novamente, dedo por dedo, lábio por lábio, sombra por sombra.

cap. 92

quinta-feira, 28 de março de 2013

Rayuela - iii


«Em Montevideu era a mesma coisa, uma pessoa não podia amar ninguém de verdade, passavam-se de imediato coisas estranhas, histórias de lençóis ou de cabelos, e tantas outras coisas para uma mulher, Ossip, os abortos por exemplo.»

cap. 27





Montevideu (1964)

quinta-feira, 21 de março de 2013

#80 CABOT, Patricia, Um Pequeno Escândalo


Classificação: 3***


Sinopse: Quando a bela Kate Mayhew é contratada como dama de companhia de Isabel, a filha obstinada de Burke Traherne, o marquês vê-se numa situação impossível. Dividido entre saber que ela é exatamente aquilo de que Isabel precisa mas, para ele, a pior tentação possível, encontra-se constantemente perto de alguém que ameaça a sua independência. Conhecido pelo seu autodomínio férreo desde o dia em que apanhou a mulher com um amante, Burke jurou nunca mais arriscar-se a casar. Ao aceitar a oferta de emprego de Sua Senhoria, a temperamental Kate enfrenta dois perigos: sua atração irresistível por um homem que abdicou do amor, e um encontro com o seu próprio passado escandaloso... que ela não pode manter secreto para sempre.


Opinião: E com isto desisto da Cabot. Outra personagem estavanada, absurda, ridícula, nem um pouco credível. Diálogos vazios, entre estúpidos. Na página 33 já me apetece começar a pular páginas. E sim, eu tenho sentido de humor, não vale a pena dizerem que é um romance ‘leve’. É um romance ‘mau’, até certo ponto, o que é diferente. Pelo menos é bem mau em quase toda a primeira metade. A segunda metade, contudo, foi muito mais satisfatória. Pareceu-me que só aí a autora aqueceu. Só aí a Kate deixou de ser uma idiota alvoraçada. Infantil, teimosa, mas definida como “madura”. Não consigo rir-me dos momentos forçados da primeira parte, e eu estou sempre pronta a rir. Muito do que senti quanto ao livro anterior cá publicado repete-se. A personagem feminina vira de uma coisa que é suposto ser espontânea e temerária no início, para uma boneca frágil, vulnerável e mentalmente incapaz de tomar decisões. Há partes mais do que desnecessárias.

De contexto histórico pouco vi. Não fossem carruagens, vestidos onde as mulheres tropeçam, palacetes e uma (não tão invulgar) aparição de Gretna Green e estalagens onde só há um quarto disponível em dia de chuva, poderia ser algo contemporâneo.
Também me aborrece tanto tell. Aquele típico momento em que outra personagem só existe para listar a história toda de idiotices apaixonadas que a) fez por b). sim, claro que gostas dela! olha no dia 4 tomaste o pequeno-almoço uma hora mais cedo do que o habitual, só porque é a hora em que ela também toma. e no dia 10 apertaste a gravata virado para a janela, porque é a hora em que ela passeia, claro que a amas!. Por muito lugar-comum que sejam livrinhos históricos sobre duas pessoas apaixonadas que já sabemos que ficarão juntas no fim, alguns cumprem o intento de me animar e outros não...
Desmotiva-me porque não me estimula nem 1% intelectualmente. Houve ali umas revelações e alguma profundidade lá para o fim, se todo o livro fosse nesse nível não o teria lido na diagonal a partir da pág. 33.
Aborrecem-me os clichés sobre o “estava de camisola de noite e nem tinha reparado se não fosse ele a olhar-me para as mamas” ou “oops vou escorregar do escadote ele está mesmo aqui para me agarrar”.Uma vez mais é a personagem masculina que salva um livro da ruína. Este Burke (detesto o nome) sempre tem mais profundidade do que a Kate da primeira parte do livro. É uma personagem que confere algum realismo ao livro, o suficiente para que eu pare de pensar que é tudo um circo com pessoas a chamarem-se nomes de animais “toupeiras”, “ursos”, etc. Detestei a Kate – cópia da Pegeen (Rosa Selvagem). Detesta a classe alta, faz-se de difícil, é pouco sensata e no entanto, descrita como um modelo de razoabilidade e sensatez. Os ideais dela mudam do dia para a noite e o joguinho idiota com o Burke fez-me pensar que, se ela existisse de facto, ele devia era fugir.Também não suporto falhas de comunicação em livros. Absurdo! E nem a história do “acordei agora na cama dele e não me lembro do que aconteceu esta noite. Oops dormi com ele!”.Enfim… espero que divirta outras leitoras, eu achei um circo. Rio-me muito com a Julia Quinn, mas não com esta Cabot.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Rayuela - ii





«- A pintura é outra coisa, não é um produto visual – disse Etienne. – Eu pinto com todo o meu corpo, e nesse sentido não sou assim tão diferente do teu Cervantes ou do teu Tirso de não sei quantos. O que dá cabo de mim é a mania das explicações, o Logos entendido exclusivamente como verbo.
- Etcétera, disse Oliveira, mal-humorado. – Por falar em sentido, a vossa conversa parece um diálogo de surdos.
A Maga cingiu-se ainda mais contra ele. «Agora esta vai dizer alguma das suas asneiradas», pensou Oliveira. «Primeiro precisa de esfregar-se, de decidir-se epidermicamente.». Sentiu uma espécie de ternura rancorosa, algo tão contraditório que devia ser a pura verdade. «Seria necessário inventar-se a bofetada doce, o pontapé de abelhas. Mas neste mundo as últimas sínteses continuam por descobrir. Perico tem razão, o grande Logos vela. Que pena, fazia falta o amoricídio, por exemplo, a verdadeira luz negra, a antimatéria que tanto dá que pensar a Gregorovius.»

cap. 9

Rayuela - i


«A desordem em que vivíamos, isto é, a ordem segundo a qual um bidé se vai convertendo natural e paulatinamente em arquivo de discos e de correspondência por responder, parecia-me uma disciplina necessária, ainda que não quisesse dizê-lo à Maga. Tinha-me levado muito pouco tempo a compreender que não havia por que apresentar a problemática da realidade em termos metódicos à Maga; o elogio da desordem tê-la-ia chocado tanto como a sua denúncia. Para ela não havia desordem, soube-o no mesmo momento em que vi o conteúdo da sua mala (foi num café da rue Réamur, chovia e nós começávamos a desejar-nos), e depois de ter reparado nesse detalhe, eu aceitei-o e favoreci-o; a minha relação com a maior parte das pessoas era feita dessas desvantagens, e quantas vezes, deitado numa cama que não era feita há muitos dias, ouvindo a Maga chorar porque um bebé no metro lhe tinha trazido à memória Rocamadour ou vendo-a pentear-se depois de ter passado a tarde inteira em frente a um retrato de Leonor de Aquitânia e estar morta de vontade de se parecer com ela, me ocorria como um género de arroto mental que esse a-b-c da minha vida era uma penosa estupidez porque se ficava pelo mero dialéctico, pela escolha de uma má conduta em lugar de uma conduta, de uma módica indecência em vez de uma decência gregária. A Maga penteava-se, despenteava-se, voltava a pentear-se. Pensava em Rocamadour, cantava algo de Hugo Wolf (mal), beijava-me, perguntava-me algo sobre o penteado, punha-se a desenhar num papelinho amarelo, e tudo isso era indissoluvelmente ela, enquanto eu ali, numa cama deliberadamente suja, a beber uma cerveja deliberadamente quente, era sempre eu e a minha vida, eu com a minha vida diante dos outros.»

cap. 2

segunda-feira, 18 de março de 2013

#79 HIRST, John, Breve História da Europa


Classificação: 4****

Uma perspectiva única da Europa pelos olhos de um Professor Universitário de Melbourne. A História é, tantas vezes, uma questão de prisma. Com isto em mente, deixei-me maravilhas pelo modo singular como um cidadão de outro continente analisou o percurso histórico da Europa, um continente que tanto contribuiu (tantas vezes através dos meios errados) para o pé em que o mundo se encontra actualmente.
Este pequeno “resumo” da nossa história conjunta foca-se no raiar de uma civilização, evidenciando a importância da sabedoria grega e da organização romana para a construção da nossa identidade civilizacional. Da democracia grega ao Direito romano, acompanhamos o modo como estes elementos chave foram tendo mais e menos destaque no desenvolvimento da Europa, que, segundo John Hirst assenta sobre três pedras fundadoras: a Cristandade, a Cultura Greco-Romana e os Guerreiros Germânicos. A intersecção destes três elementos permitiu que o Velho Continente nascesse sob o signo em que se tem aperfeiçoado nos últimos milénios.

[A Igreja teve um papel significativo neste nascimento. Eu confesso que o meu grande inimigo ideológico é, mais do que o Hitler, a Igreja Católica. Se me falarem das obras de caridade e do ensino, etc., eu sou obrigada a dizer que o próprio Hitler (porquê ir tão longe?) Salazar, também terá certamente dado alguns contributos à sociedade, ou teria sido imediatamente desprovido da sua influência. Mas a Igreja agiu sempre com o intuito de explorar a ignorância do povo a fim de sobreviver a todos os tempos, posicionando-se do lado dos fortes, incitando-os a guerras religiosas, pilhagens, massacres, juramentos infames, queimando quem se atrevia a tentar lançar luz sobre o seu oportunismo – religion is darkness – e torturando os hereges. A interpretação que a Igreja fez da bíblia tem invenções de autoria desconhecida, que durante séculos se manteve no silêncio do desconhecimento. Foi preciso que viesse Lutero traduzir a bíblia para uma língua acessível aos europeus para que esta interpretação se revelasse manipulada, enganosa, durante pelo menos quinze séculos. Vendia salvações, funcionava como uma multinacional onde haveria sempre oportunidades para os ambiciosos rejeitados pela restante organização social. O paraíso dos segundos filhos, de homens corrompidos e hipócritas, com sede de poder e sem lugar noutro lado. Jesus era Judeu. Os Judeus traíram Jesus, conluiados com os Romanos. A Cristandade vira as costas à religião de Jesus. Abre guerras abertas contra eles (ama o próximo) e estende-se a todo o território Europeu. Para sobreviver, vale-se da conversão do Imperador Constantino (313 A.D.) para galvanizar simpatizantes e, pouco depois, torna-se Igreja Católica Romana. Posiciona-se assim do lado dos traidores de Cristo. Em seguida, para sobreviver à queda do Império Romano do Ocidente, à mão dos germânicos invasores, convence-os a dirigirem a sua ânsia por conflitos aos inimigos da Igreja, os infiéis. Isto é, a Igreja administra o que os germânicos não querem administrar, porque só o saque e a violência os tenta. E estes lutam as suas guerras num pacto duplamente vantajoso. Já em 325, no Concílio de Niceia, a Igreja votara a natureza divina de Cristo a seu favor, escolhendo a “abordagem” a tomar daí por diante. Posteriormente é-lhe descoberta a carapuça quando, no Renascimento, a sabedoria grega (mencionei que as escolas cristãs se baseiam nos ensinamentos pagãos para exercer influência sobre o povo?) começa a ser questionada e, nalgumas ocasiões, é desacreditada. A Reforma revela várias incongruências desta entidade tão poderosa – à custa de algum sangue. Mais tarde surge a Inquisição no âmbito de uma campanha de marketing agressiva apelidada de Contra Reforma. Compras o meu peixe? Não? Vou-te queimar.]

Enfim, vou pular o capítulo da Igreja, é para mim um mistério saber como sobreviveu este monstro durante tantos séculos, à custa de mentiras.
A Europa vale-se do facto de dividirem o espaço com outros países tantas vezes rivais, o que a mantém alerta e em constante competição por progresso e desenvolvimento – social, militar, económico. É para mim um prazer pertencer a este cantinho civilizacional, e sobretudo a Portugal, a partir de onde se deu a Expansão Marítima Europeia, que aproximou o mundo e desbloqueou os seus limites, aumentando assim o nosso conhecimento do planeta e do universo.

Lamento que o autor não tenha mencionado o Humanismo um pouco mais a fundo, mencionado Montesquieu, Jean-Jaques Rousseau ou mesmo o advento da imprensa um pouco mais aprogundado. Também termina abruptamente no alvor da Revolução Agrícola e Industrial, não se aventurando a partir de 1800. É uma pena porque as próprias campanhas de Napoleão e as reacções dos diferentes Estados a esta tentativa de unificação - ou a levada a cabo pela União Europeia - seria interessante de analisar. Também não foram abordadas as disputas de territórios estrangeiros, levando aos conflitos internacionais do séc. XX. A escravatura teria sido outro ponto a abordar, porque fomos, durante séculos, originários de sistemas esclavagistas cruéis. A luta contra esta brutalidade é um ponto social demasiado importante para ser assim ignorado em prol dos adventos agrícolas do séc. XVIII. 
A conclusão não foi satisfatória. A "colonização" do restante mundo teria sido pertinente. Se tudo isto fosse incluído, contudo, não estariamos a ler o "Breve História da Europa". Gabo-lhe, assim, o carácter de "História da Europa explicada a quem não a estuda há anos, mas se interessa e ainda se recorda de qualquer coisa". Abriu-me o apetite para leituras sobre o Classicismo e outras, como a Divina Comédia (Dante), A República (Platão), o Príncipe (Maquiavel).

O livro tem também bastantes gralhas o que, num livrinho de um académico de 200 páginas, de uma editora como a D. Quixote (grupo Leya) me reafirma a certeza de que é tudo publicado sobre o joelho e às pressas, ao sabor do interesse do mercado.

terça-feira, 12 de março de 2013

#78 SARAMAGO, José, As Intermitências da Morte

(acherontia atropos)

Classificação: 4,5****/*

Sinopse: «No dia seguinte ninguém morreu.» Assim começa este romance de José Saramago. Colocada a hipótese, o autor desenvolve-a em todas as suas consequências, e o leitor é conduzido com mão de mestre numa ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor, e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.

Opinião: O que se espera desta obra é, além da escrita signatária do nosso Nobel da Literatura (1998), um retrato duma sociedade a quem a morte (ela exige que não se use maiúscula) virou as costas. Um ensaio sobre o fim magistralmente conduzido...

Saramago expõem-nos um conto (posso dirigir-me a esta obra nestes termos?) reflexivo, do interesse de qualquer ser vivo temente à morte - mais do que a deus. 
Na primeira metade do livro (por vezes um pouco exaustiva, devido a tantas hierarquias e pontos de vista acerca deste fenómeno de não-morte, assistimos à reacção de um país às inesperadas "férias" desta entidade. Se a morte deixasse de matar, que faríamos com a dor e o sofrimento? Que seria dos corredores dos hospitais? Que seria das monarquias com os seus reis convalescentes em eterna agonia? Como realça o narrador, sempre é diferente de eternamente. Que faria a humanidade se fosse eterna? Se não houvesse passagem para o outro lado?
Além de desesperar, faria os possíveis para aceder a esse outro lado, sugere Saramago. Pagaria para morrer, sugere Saramago. A Igreja veria a base dos seus alicerces deitada por terra, a sua utilidade real desfeita. O Governo debater-se-ia com a moral, uma crise económica e demográfica, de braço estendido a quem se oferecesse para resolver os problemas - clandestinamente - por eles. Os funerários, trabalhadores de morgues, floristas, carpideiros, etc., lamentariam a falta de matéria-prima para a prática do seu ofício. As famílias, hospitais, lares, lutariam, embaraçados, por livrar os seus espaços e as suas camas dos moribundos. Filósofos sair-se-iam com teorias sobre diferentes tipos de morte, o herdeiro nesta Monarquia Constitucional receia ainda que a mãe nunca lhe dê lugar, visto recusar-se a passar para o outro lado.

Fatalidade incontornável, fim da viagem, última etapa, inquietação constante, a morte afigura-se, neste livro, com uma voz, um rosto (descarnado) e curiosidade para com os mortais. Afigura-se também como alívio supremo, a seu tempo tão desejado.
A cerca de 60% da leitura, surge a perspectiva da morte. Da morte que dá mostras de cansaço, de entorpecimento de ossos, de até algum desgaste mental e solidão, pois que fala com a sua gadanha, quando intrigada, aguardando por uma explicação. Em certas ocasiões a gadanha até responde. O ritmo do livro corre muito mais fluido, envolvendo o leitor e impedindo-o de deixar as suas páginas... 
Parece, contudo, que demos duas partes muito distintas no livro, com um estilo narrativo e ritmos diferentes. Primeiro a perspectiva das vítimas da ausência da morte, num ritmo que pula de prisma em prisma, que corre rápido, prático, por vezes um pouco moroso mas sem se perder em detalhes. Tudo é política, religião, máphia, estratégia. Depois a perspectiva da morte, num ritmo bem mais rápido (a narrativa acompanha-se com mais facilidade, mas as acções não se atropelam), mais emotivo, mais intimista, mais musical, literalmente. 

O discurso de José Saramago, quando nos embrenhamos na sua escrita, é assertivo, emblemático, sarcástico e perspicaz. É um gosto sentir que o acompanho. Fiquei muito surpreendida pelo facto de que esta obra de inegável lucidez ter sido publicada em 2005, quando o autor tinha já 83 anos. Aqui está a prova irrevogável de que Saramago é, realmente, uma mente de excelência no panorama da literatura mundial.


Que magnífica perspectiva sobre a vida e a (sua necessidade da) morte!

«No dia seguinte ninguém morreu»