Algures no Goodreads surge uma review a este livro, com uma classificação bastante depreciativa, em que o identifica como “uma sucessão de erros da personagem principal”, é vê-lo cometer um disparate atrás do outro. Eu concordo com isto, mas adoro o livro por esse mesmo motivo. Acho que acabei de entender o que é que o Maugham pretendia com este livro: vêem-se assim expostos os vícios e as fraquezas de uma civilização a quem nada está vedado. As possibilidades são infinitas. Desde o meu último update, o Phillip já esteve em Inglaterra (Kent) e na Alemanha (Heidelberg), e também em grandes urbes como Londres ou Paris. Já trilhou uma espécie de Introdução à Contabilidade, que emerge na viragem do século como profissão de novos cavalheiros, e estuda Arte em Paris. No novo século é-lhe até difícil distinguir um cavalheiro dum comum trausente. No novo século as mulheres têm famas dúbias e envolvem-se em escândalos amorosos (mesmo as solteiras). Viveu um envolvimento conturbado com Mrs. Wilkinson, uma criaturinha que ele quase abomina mas da qual se serve apenas porque, na visão de Phillip, estava na hora de ter um romance para narrar aos amigos. Se Phillip é uma personagem amorosa, admirável? Não, Phillip é, na minha opinião, uma marioneta. Dança ao sabor das milhentas possibilidades do novo século. A Europa inteira é-lhe um anfiteatro de ruelas por onde se embrenhar. A onde ir? O que aprender? O que fazer? Quem ser? Phillip está perdido. Podendo ser qualquer coisa, dispersa-se. Terá vinte e poucos anos e já desistiu da carreira eclesiástica (desacredita Deus), já largou um ano de estágio em Contabilidade, está agora a desencantar-se com o seu parco talento para a pintura numa escola de Paris. Mas a culpa não é de Phillip, a culpa é dos tempos. Os tempos obrigam-no a ter um caso amoroso - e ele é muito susceptível ao que pensam dele, é muito orgulhoso e tímido também -, os tempos obrigam-no a deslocar-se para onde a vida fervilha realmente, a Cidade das Luzes, os tempos obrigam-no a querer imitar um Manet ou um Monet, um Renoir ou um Degas. O desafio é a limitação do seu talento aos seus almejos. Ele nem sequer é uma pessoa efusiva, mas deixa-se absorver pelas personalidades marcantes que vão surgindo aqui e ali, todas elas mais fortes do que ele. Ele é uma sombra da luz que os outros emanam, absorve-os e tenta seguir-lhes o exemplo, quase sempre com fraco desempenho. Impressiona-se facilmente e, apesar de ser inteligente, é demasiado ingénuo (e novo) para se conhecer a si próprio. Está ancorado às convenções, ao que parece bem, enquanto brame que é um homem moderno e dono do seu destino. É uma alma fraca, ansiosa por se ligar a outras, ciumento, cobarde demais para ser cruel ou directo, persistente mas também teimoso, desmotivado e desmoralizado pela anomia social do século que se aproxima.Célia's quotes
"«On ne voit bien qu'avec le coeur, l'essentiel c'est invisible pour les yeux»"— Antoine de Saint-Exupéry
terça-feira, 28 de maio de 2013
Servidão Humana #2
Algures no Goodreads surge uma review a este livro, com uma classificação bastante depreciativa, em que o identifica como “uma sucessão de erros da personagem principal”, é vê-lo cometer um disparate atrás do outro. Eu concordo com isto, mas adoro o livro por esse mesmo motivo. Acho que acabei de entender o que é que o Maugham pretendia com este livro: vêem-se assim expostos os vícios e as fraquezas de uma civilização a quem nada está vedado. As possibilidades são infinitas. Desde o meu último update, o Phillip já esteve em Inglaterra (Kent) e na Alemanha (Heidelberg), e também em grandes urbes como Londres ou Paris. Já trilhou uma espécie de Introdução à Contabilidade, que emerge na viragem do século como profissão de novos cavalheiros, e estuda Arte em Paris. No novo século é-lhe até difícil distinguir um cavalheiro dum comum trausente. No novo século as mulheres têm famas dúbias e envolvem-se em escândalos amorosos (mesmo as solteiras). Viveu um envolvimento conturbado com Mrs. Wilkinson, uma criaturinha que ele quase abomina mas da qual se serve apenas porque, na visão de Phillip, estava na hora de ter um romance para narrar aos amigos. Se Phillip é uma personagem amorosa, admirável? Não, Phillip é, na minha opinião, uma marioneta. Dança ao sabor das milhentas possibilidades do novo século. A Europa inteira é-lhe um anfiteatro de ruelas por onde se embrenhar. A onde ir? O que aprender? O que fazer? Quem ser? Phillip está perdido. Podendo ser qualquer coisa, dispersa-se. Terá vinte e poucos anos e já desistiu da carreira eclesiástica (desacredita Deus), já largou um ano de estágio em Contabilidade, está agora a desencantar-se com o seu parco talento para a pintura numa escola de Paris. Mas a culpa não é de Phillip, a culpa é dos tempos. Os tempos obrigam-no a ter um caso amoroso - e ele é muito susceptível ao que pensam dele, é muito orgulhoso e tímido também -, os tempos obrigam-no a deslocar-se para onde a vida fervilha realmente, a Cidade das Luzes, os tempos obrigam-no a querer imitar um Manet ou um Monet, um Renoir ou um Degas. O desafio é a limitação do seu talento aos seus almejos. Ele nem sequer é uma pessoa efusiva, mas deixa-se absorver pelas personalidades marcantes que vão surgindo aqui e ali, todas elas mais fortes do que ele. Ele é uma sombra da luz que os outros emanam, absorve-os e tenta seguir-lhes o exemplo, quase sempre com fraco desempenho. Impressiona-se facilmente e, apesar de ser inteligente, é demasiado ingénuo (e novo) para se conhecer a si próprio. Está ancorado às convenções, ao que parece bem, enquanto brame que é um homem moderno e dono do seu destino. É uma alma fraca, ansiosa por se ligar a outras, ciumento, cobarde demais para ser cruel ou directo, persistente mas também teimoso, desmotivado e desmoralizado pela anomia social do século que se aproxima.quarta-feira, 22 de maio de 2013
Servidão Humana #1
Conheci o Somerset Maugham através d’O Véu Pintado, e conheci O Véu Pintado
através da adaptação de 2006 com o Edward Norton e a Naomi Watts. Filme
precioso, um olhar íntimo sobre a vida privada de um casal dos anos 30. O livro
é diferente; é desconcertante na sua abordagem ao coração humano, à inclinação
incontornável ao erro, ao mais fácil, ao queimar-se uma outra vez na mesma
chama. A profundidade humana é tocante, fascinante e qualquer leitor se
identifica facilmente com estes espectros erróneos que o Maugham descreve. Foi
um romance um pouco mais da minha linha, no sentido em que há uma relação
central como fio da meada. Há a China, a cólera e a mulher infiel. E pronto, eu
estava rendida. Não precisei de muito para penar pelo seu “Servidão Humana”. Já
mencionei que, de visita à Russborough House, em Wiclow (Irlanda), parei numa
biblioteca enorme à procura dum autor que conhecesse e, de entre todos os nomes
desconhecidos, apenas Maugham me acenou? Foi como estar, subitamente, em casa.SPOILERS, SPOILERS ALL AROUND!
0-135
O livro começa com a morte de uma mãe. Uma criança órfã que
anseia por carinho e por vitimar-se. É humano, será que vale a pena dizermos
que quer vitimar-se? Trata-se apenas de tirar alguma vantagem das desgraças
pessoais. Para este rapazinho, isso espelha-se no abraço, na palavra de
compaixão, nos mimos que podem servir de recompensa à perda da mãe. Nesta
primeira centena de páginas podia já o romance encerrar-se, e eu estaria já
rendida e apaixonada. Não há romance, há apenas relações humanas. O servilismo,
a existir, é do eu perante si
próprio. Este Phillip Carey, esta pessoa tão comum e, contudo, tão intrigante,
é já uma das minhas personagens favoritas de sempre. Isto porquê? Phillip sofre
de todas as mesquinhices humanas: vaidade, mentira ocasional, orgulho
exacerbado, ciúme injustificado, ocasionalmente inveja. Cresceu à sombra dum
tio vigário e, por isso, nunca duvidou de Deus ou da veracidade absoluta da
doutrina da Igreja Anglicana. Nunca,
até certo ponto. Nesta primeira centena de páginas Phillip foi já confrontado
com a possibilidade de vir a tornar-se também ele vigário e, posteriormente,
começa a questionar, através de conhecimentos que faz na Alemanha, longe do
Kent onde cresceu, se existirá realmente uma religião verdadeira ou um deus único. O que estou a apreciar é,
sobretudo, o meu desbastar dos receios que alimentava quanto a este livro; é um
livro enorme (lê-se incrivelmente bem), Somerset é um grande escritor, será que
conseguirei acompanhá-lo? (ele esforça-se por vir ao meu encontro sem, no
entanto, me tomar por imbecil), será um pseudo-intelectual? Terá algo a
acrescentar-me? (o autor atira-nos para os olhos a ignorância de Phillip mais
gritante a cada vez que algo de novo lhe é ensinado. Tão vastas as extensões,
depressões, viragens de rumo da Natureza humana num livro com ainda tanto para
oferecer.
Philipp é tímido, tem pé boto, é inteligente mas tantas vezes estes dois
factores impedem-no de expressar essa inteligência e é tomado por idiota. Cada
pessoa com que se cruza – as que ama e as que odeia – são palpáveis e
apaixonantes a seu modo. Mr. Carey, o tio vigário. Mrs. Carey, nunca mãe, tia
de sangue, frágil e submissa (queixa-se,
porque é mulher, obedece, porque é esposa). Mr. Watson, o director de
colégio religioso que ri demasiado alto e é bruto a demonstrar carinho pelos
alunos. Mr. Perkins, director da escola preparatória, descendente de um
fanqueiro, por isso desprezado pela trupe de intelectuais abastados que ensinam
nessa escola, tão inteligente e perspicaz que é finalmente com ele que a
sagacidade de Phillip se expande.
Phillip a descobrir o poder da literatura para alheamento dos que vivem
existências infelizes. Phillip a aprender a ser selectivo na Literatura. Phillip a considerar a Igreja Anglicana como um elemento de conforto na sua
vida. Phillip a considerar deus um
ultraje a igreja um embuste. Phillip a considerar a sua orfandade motivo de
pena, de dessabor. Phillip a considerar o seu pé boto um entrave para criar
ligações. Phillip a agradecer a deus pelo fardo do pé boto, que lhe permitiu
crescer mais ou menos à margem dos restantes, aculturando-se enquanto os
restantes jogam futebol. Phillip a querer alguém – um amigo – só para si. Phillip odiar esse amigo. Phillip a querê-lo de volta. Phillip a querer
desistir da escola, a lutar afincadamente para consegui-lo. Phillip inconsolável, irritado consigo mesmo, por ter conseguido deixar a escola,
vencido a batalha, quando afinal tudo o que quer é ficar. E a sua comoção face à beleza, à arte, à natureza, surge como um marco importante na vida de qualquer ser humano. Foi naquele dia que primeiramente testemunhou a beleza, e a sua vida mudou.
Estou arrebatada, encantada por tanta complexidade. Estão aqui algumas das
melhores personagens com que tive o prazer de privar na Literatura, juntando-se
a Kitty Fane d’O Véu Pintado, Scarlett O’Hara e Rhett Buttler do E Tudo o Vento
Levou, e Dr. Victor Frankenstein e o monstro, do livro homónimo ao médico.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
#86 BESSA-LUÍS, Agustina, A Sibila
Sinopse: A Sibila é um romance de Agustina Bessa-Luís. Sibila, que remete para a figura clássica da Sibila de Delfos, significa adivinha e refere-se à personagem Joaquina Teixeira, a Quina. O livro não se atreve a narrar a história do nascimento à morte da protagonista, mas contou a vida de duas gerações anteriores da família Teixeira e duma posterior e ainda de outras famílias e amigos próximos desta. Narra conspirações, corrupções e intrigas de parentes, criados, amigos e inimigos. De passagem ocorrem críticas à burguesia rural, mas no romance avulta sobretudo uma reflexão sobre a dimensão metafísica do ser humano. Quina não tinha poderes sobrenaturais, era apenas atilada e prática conselheira; ninguém da sua igualha a tratava por sibila. Morreu velha e doente, mas orgulhosa da casa que salvara da falência e da fortuna que amealhara. A história começa e termina com Germa, sua sobrinha, filha do irmão Abel, que representa uma geração já urbana, desenraizada dum espaço a que Quina sempre se sentira presa.
Opinião: De vez em quando acontece-me ler um livro
onde perco o pé. Em relação à “Sibila”, da Agustina Bessa-Luís, julguei-me na
eminência de me afogar. A cerca de setenta páginas do fim (é um livro pequeno,
de 248 páginas) recuperei esse pé, e tornou-se um gosto nadar por estas águas.
Perguntei-me, inclusive, o que se terá passado nas restantes páginas para que
lhes tivesse tamanho alheamento. Já próximo do fim identifiquei o factor em
falta n. 1 - a convergência, a eminência de uma revelação, uma história com a estrutura
“habitual” (facilitada, vá), do género 1. problema 2. tentativa de resolução
3. solução! Neste livro estende-se sim a narração da vida de uma família do
Minho - penso que seja o Minho, devido a alguns elementos culturais que
identifiquei - vinho verde e filigrana entre os mais óbvios. Mas sem um
problema, um mistério, um segredo por desenvolver. É um simples (not so
simple, though) relato de algumas gerações cujas vivências se deram sob o
mesmo tecto. É esse o principal fio da meada, no livro - a casa da Vessada,
como nenhum outro. Dando por mim a apreciar finalmente o livro - logo quando
estava prestes a findar-se, identifiquei o factor em falta n. 2, o que me
impediu de segui-lo com sofreguidão desde o início: não é uma história de amor,
não há, tãopouco, amor em lado algum. Não há, nesta obra, qualquer vestígio de
amor romântico. É um relato um pouco cru dos afectos, como se estes estivessem
sempre suspensos da utilidade que nos possam ter, do quanto estamos dispostos a
darmos de nós, do que somos e do que queremos que os outros pensem que somos.
Há amor, sim, mas um amor conturbado, ora devoto, ora despeitoso, ora
amargurado por ser amor, ora orgulhoso de não ser outra coisa qualquer.
Deixem-me tentar explicar-me melhor, num discurso bem mais básico do que o da
mestria fluida da Agustina:

O livro tem dois marcos temporais - que eu
tenha identificado - o ano de recuperação da casa da Vessada, 1870, e a
Implantação da República, porque desaparecem dos carros (a tracção animal) os
brasões. Fora isto, o tempo é algo demolidor, transversal, algo que mescla
todos e que não discrimina ninguém. A história não tem um elo de ligação muito
acentuado. A passagem temporal é algo ténue, é contada como que algo
percepcionável. Isto é, ora a pessoa se sente nova - e todos ao seu redor são
jovens, ora a pessoa ainda se sente nova e enérgica, mas todos ao seu redor já
são velhos, ora a pessoa já está velha e acabada e os restantes lhe parecem
mais fortes. A casa sofre algumas fases que acompanham o vigor de Quina, a
personagem principal. Primeiro é totalmente destruída por um fogo, gravando-se
em seguida o ano de 1870 na varanda. Em seguida Quina nasce, a propriedade
começa a recuperar-se e a prosperar discretamente. Quina atinge a juventude com
mais vitalidade que a mãe e, tendo o pai falecido, assume naturalmente o rumo
da propriedade; impõem-se-lhe. É nesta época que, pressupostamente, se encontra
mais aguçada a sua capacidade de “sibila”, de vidente, de mulher do oculto, das
intuições das entrelinhas da vida. Mas confesso que de vidente não lhe vi
muito. Se calhar procurei literalmente esse dom quando, na realidade, se trata
de mexeriquice de vizinhos, de cegos perante um elemento que vê. Penso que o
seu condão de bruxa é apenas a sua inteligência límpida por entre tolos, o seu
conhecimento do outro que a faz sobrepôr-se-lhe, conduzi-lo, extrair-lhe o que
pretende. Na Quina denoto uma certa pretensão, um certo desejo preemente de ser
diferente dos outros, mais sensitiva, procurada para conselhos e rumos, livre
para proferir desmandos. No fundo, ela quer ser mais do que um adereço, dois
braços, suor, num mundo de homens, e vale-se assim daquilo que é temido - em
certas épocas combatido, noutra tolerado com o respeito do receio - nas
mulheres; o sexto sentido, a adivinhação, a sensibilidade para prever desfechos,
a esperteza feminina equiparada a feitiçaria. Nunca a vi a fazer mais do que
umas rezas aos vizinhos, mas estes próprios a apelidam de “sibila”, e ela gosta
disso. Com o amadurecimento, contudo, passa da vaidade à quase apatia. Torna-se
mais humilde, passa a reconhecer valores - como a simplicidade forçada de quem
vive bem mas não quer ostentar - que outrora lhe causavam espécie. Uma das
minhas personagens favoritas é o Custódio. Lembrou-me o Heathcliff do Monte dos
Vendavais. Aliás, muito deste livro me recordou o Monte dos Vendavais, mas
enquanto n’A Sibila a natureza humana se agita nos sobressaltos da vida, na
obra-prima de Emily Brontë agita-se nas incongruências do amor.
Quando se aproxima do fim – para mim,
mera leitora – torna-se mais fácil de compreender, embora continue a primar pela complexidade. Que princípios moveram,
afinal, esta personagem, esta Quina? O que, na vida, lhe foi mais importante?
Apesar da luta por se impor, por ser diferente sem no entanto ofender, a
que convenções é incapaz de fugir?
“A Sibila” é um romance complexo, difícil
de digerir. Tive alguma ajuda ao adquiri-lo na edição da Guimarães editores em
segunda mão, porque todas as palavras difíceis (que são aí cinco por página)
vinham sublinhadas e com a respectiva definição na margem, o que me permitiu
lê-lo em três semanas em vez de três meses. Arrastou-se sempre, contudo, a
impressão perturbadora de não compreender a totalidade do que estava perante os
meus olhos.
Penso que um dia o lerei de novo - com a
atenção sobre-humana que dediquei às últimas dezenas de páginas -, porque é-me
sempre precioso ver uma mulher erguer-se, com os seus defeitos e fraquezas
inerentes, e vingar num meio de homens.
Voltarei, sim, a ler Agustina Bessa-Luís,
quase certa de que encontrarei a mesma perspicácia, a mesma profundidade
humana, em qualquer outro dos seus romances.
Classificação: 4****/*
sábado, 4 de maio de 2013
#85 MARTEL, Yann, A Vida de Pi
Classificação: 5*****
Sinopse: Quando Pi tem dezasseis anos,
a família decide emigrar para a América do Norte num navio cargueiro juntamente
com os habitantes do zoo. Porém, o navio afunda-se logo nos primeiros dias de
viagem. Pi vê-se na imensidão do Pacífico a bordo de um salva-vidas acompanhado
de uma hiena, um orangotango, uma zebra ferida e um tigre de Bengala. Em breve
restarão apenas Pi e o tigre.
Opinião: Este livro – e o respectivo filme – estão
envoltos em muito falatório. Primeiro os elogios à tecnologia utilizada para
recriar, no filme, um tigre e o ambiente inóspito do pacífico. Ang Lee ganha,
felizmente, o Óscar pela direcção deste filme sublime. Uma obra gritante de
beleza, espiritualidade e talento. Não imagino um ocidental a consegui-lo. Mas
quanto ao filme já falei aqui. Entretanto também o livro havia sido
premiado com o Booker Prize. Yann Martel é acusado de plágio – Max e os
Felinos, de Moacyr Scliar seria a fonte original. É ainda criticado pela
arrogância com que reagiu a essa acusação. Eu lavei-me desse escândalo e isolei-o do conteúdo da obra.
Li, em resenhas de quem já tinha percorrido as suas páginas, que a obra
sofre um corte abrupto. Aproximadamente as cem primeiras páginas falam de uma
vida na Índia. Um nome, “Piscine”, uma cidade, “Pondicherry”, um jardim
zoológico com um rinoceronte que, por se sentir solitário, partilha o espaço
com um rebanho de cabras. A Índia… os cheiros, os rostos, as crenças. E um
rapaz simultaneamente hindu, cristão e muçulmano. Uma aventura – poderia
dizer-se -, visto que este rapaz lingrinhas e vegetariano sofre um naufrágio e
fica à deriva no Pacífico com um tigre, uma zebra, uma hiena e um orangotango.
Mas não é bem isso, é ainda mais do que isso. Uma aventura interior, contra a
nossa própria natureza, os nossos limites, o nosso corpo que cede mesmo quando
a mente se esforça por continuar, as nossas fraquezas e melindres. Um conto
solitário, angustiante, ainda assim enternecedor. Eu quase sentia a doçura
intrínseca entre Pi e o tigre. Tanto o Martel como o Ang Lee conseguiram tornar
essa relação sólida, palpável, subtil e credível. É um feito. Sorri com
diversas nuances da interacção entre este rapazinho indiano e o
tigre.
De facto há uma mudança abrupta da primeira parte do livro para a segunda.
Não necessariamente má, como fui levada a crer. A primeira parte é sobre
necessidades de ser enquanto a segunda é sobre as de sobreviver. Um livro que
nos obriga a rever quem somos e até onde iríamos se a fome, a sede, o medo da
morte, o definhar lento, nos instigassem.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
#84 QUINN, Julia, Romancing Mr. Bridgerton
Classificação: 3,5***/*
Synopsis: Penelope Featherington has secretly
adored her best friend's brother for . . . well, it feels like forever. After
half a lifetime of watching Colin Bridgerton from afar, she thinks she knows
everything about him, until she stumbles across his deepest secret . . . and
fears she doesn't know him at all.
Colin
Bridgerton is tired of being thought nothing but an empty-headed charmer, tired
of everyone's preoccupation with the notorious gossip columnist Lady
Whistledown, who can't seem to publish an edition without mentioning him in the
first paragraph.
But
when Colin returns to London from a trip aboard, he discovers nothing in his
life is quite the same, especially Penelope Featherington, the girl haunting
his dreams!
And
when he discovers that Penelope has secrets of her own, this elusive bachelor
must decide . . . is she his biggest threat, or his promise of a happy ending?
Opinião: O que gostei mais a respeito deste livro foi o facto de ter prestado tanta
atenção ao Colin e à Penelope nos anteriores. O destino estava sempre a
colocá-la a suspirar por ele e a refazer-se das ofensas que ele - não por
maldade mas por descuido - lhe incutia. A Penelope é a ovelha negra da
sociedade Londrina. Neste livro está com 28 anos, é uma solteirona que deixou
de se importar se sai ou não acompanhada de casa. O Colin acabou de regressar
de uma viagem ao Chipre. Como já tem trinta e três anos a mãe parece mais
inclinada em dar-lhe uma trégua.
É neste contexto que ele a Penelope começam a aproximar-se. Ele sente-se em
dívida para com ela devido às grosserias que cometeu ao longo dos doze anos em
que ela o admirou secretamente. O “amor” não foi apressado, nem a afeição do
Colin foi justificada por uma mudança drástica da parte da Penelope (do género
emagrecer ou passar a vestir-se melhor). É ele que admite que muda e que lhe vê
qualidades que só agora é capaz de valorizar. A Penelope havia desistido por
completo. É interessante vê-la revelar-se aos poucos, agora que é assumidamente
solteirona e não tem nada a perder, e também agora que já não tem ilusões
românticas quanto ao Colin. Finalmente é livre de abrir a boca e dizer o que
lhe vai na cabeça. Acabamos por descobrir que parte do seu espírito menos
submisso já lá estava.
Este é o livro da série em que depositei mais esperanças. Talvez porque o
Colin tivesse tanto que se desculpar para com a Penelope... e como ia um homem
tão popular e divertido encontrar algum estímulo numa mosca morta como a
Penelope???
Neste livro também descobrimos, finalmente, quem é Lady Whistledown. Não
faço ideia se continuará a fazer comentários argutos nos próximos livros,
porque desmascarada ser-lhe-á mais difícil criticar os vestidos das senhoras.
Não sei... penso que as histórias do Simon e da Daphne, do Benedict e da
Sophie, foram bem mais bonitas. Talvez a Julia tenha posto mais alma nelas.
Talvez as minhas expectativas estivessem demasiado altas.
English version: What I liked the most about this book was the fact that I paid a lot of
attention to Colin and Penelope in the other volumes. Fate was always making
her long for him as well as she'd get back on her feet from his last offense -
not that he meant it, but he was way too clumsy to avoid it. Penelope is the
black sheep of London's society. In this book she's 28, an old maid who just
stop worrying about leaving home without a chaperone for a walk. Colin just got
home from a trip to Cyprus. Since he's already 33, his mother finally gives him
a break from the "bride's hunt".
This is the
context in which the two of them start spending more time together. He feels he
owes her an apology due to the ruthless way he've been threating her at times,
during the last twelve years in which she loved him secretly. Love was not
rushed and Colin's affection was not justified by a drastic change in
Penelope's way (like losing weight or dressing up better). It's him who admits
he has changed and who admits he's now able to see her qualities as he wasn't
before. Penelope gave up completely. It is interesting to see her reveal
herself; she's unassumingly a maid and she has nothing to lose, she has even
put aside her romantic illusions towards Colin. She's now free to open her
mouth to whatever she intends to say. We end up finding out that there isn't
much bondage on her true spirit.
This is the book
from these series that I've put more expectations on. Maybe because Colin had
to make it up to Penelope for all the times his comments hurt her. And how
would such a popular and funny man ever find amusement in a wallflower like
Penelope???
In this book
you'll also find who is Lady Whistledown - finally! I have no idea if, from now
on, she'll continue criticizing the ladies gowns on balls.
I don't know I
just... I think Simon and Daphne, Benedict and Sophie... their stories where
prettier. Maybe Quinn put more soul into them. Or maybe my expectations were
way too high.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
#83 QUINN, Julia, Amor & Enganos
Classificação: 4,5****/*
Sinopse: Sophie Beckett tinha um plano ousado: fugir de casa para ir ao famoso baile de máscaras de Lady Bridgerton. Apesar de ser filha de um conde, ela viu todos os privilégios a que estava habituada serem-lhe negados pela madrasta, que a relegou para o papel de criada. Mas na noite da festa, a sorte está do seu lado. Sophie não só consegue infiltrar-se no baile como conhece o seu Príncipe Encantado. Depois de tanto infortúnio, ao rodopiar nos braços fortes do encantador Benedict Bridgerton, ela sente-se de novo como uma rainha. Infelizmente, todos os encantamentos têm um fim, e o seu tem hora marcada: a meia-noite. Desde essa noite mágica, também Benedict se rendeu à paixão. O jovem ficou até imune aos encantos das outras mulheres, exceção feita... talvez... aos de uma certa criada, que ele galantemente salva de uma situação desagradável. Benedict tinha jurado tudo fazer para encontrar e casar com a misteriosa donzela do baile, mas esta criada arrebatadora fá-lo vacilar. Ele está perante a decisão mais importante da sua vida. Tem de escolher entre a realidade e o sonho, entre o que os seus olhos veem e o que o seu coração sente. Ou talvez não...
Opinião: O que guardo
sempre dos livros da Julia Quinn são as gargalhadas. As situações caricatas e o
aperto no peito quando as personagens finalmente metem o humor de lado para se
abrirem perante as outras.
Gostei muito deste livro.
Lembra-me a versão da Renee Olstead do “When I fall in love”. É um livro
romântico – o mais romântico que li em anos – sonhador, doce e angustiante em
diversas partes. Adorei a Sophie, apaixonei-me pelo Benedict à terceira página,
adorei a condução da história deles.
O Benedict é o segundo dos
irmãos Bridgerton, com uma mãe que dedica todos os seus recursos à “caça ao
cônjuge” para os filhos. Neste livro também ela revelou outra faceta sua ao dar
a entender que foi uma mulher muito feliz com o marido e que, por isso, deseja
felicidade sentimental aos filhos acima de tudo. Quanto a Sophie, é uma filha
bastarda de conde, maltratada pela Madrasta.
A Cinderela… Bom, nem sei
bem que diga da Cinderela. Em pequena alugava o filme todos os fins-de-semana.
Pais e irmãos mais do que saturados daquela criatura submissa. Este livro
começou como se estivesse perante a história da Cinderella, com uma Sophie maltrada
e dócil. Entretanto revelou-se de carácter forte e batalhador, sem os arrufos
idióticos de personagens como a Pegeen (Patricia Cabot). Benedict é um artista,
um romântico. Todo ele padrões morais e respeitabilidade. Adorei deslindar o modo
como ele se debatia entre a misteriosa mulher que conhecera num baile – e que
se eclipsara – e a criada que vivia sob o tecto das suas irmãs.
Suspirei, ri às
gargalhadas, apaixonei-me pelo Benedict, quis torcer o pescoço à madrasta
(Araminta) e bater as palmas a uma das meias-irmãs (Posy). Aconselho aos
românticos! Não atribuo 5 porque faltou ali um pozinho mágico qualquer... Talvez consiga finalmente dar essa classificação à Quinn com o Colin e a Penelope.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
#82 SPARKS, Nicholas - Um Refúgio para a Vida
Classificação: 4****
Há
muito que o Nicholas Sparks não me tentava. Comprei o “Um
Homem com Sorte” porque vi o filme num momento em que me apetecia algum
romance. Já sei sempre o que esperar dele e, tantas vezes, fica aquém do seu
próprio melhor. Com melhor menciono sempre o livro “Laços que Perduram”, que
não se vê em lado algum mas que consegui por milagre.
À semelhança do “Laços
que Perduram”, eu entendi que esta história abordava o tema da violência
doméstica. O trailer do filme (a química evidente entre as duas personagens
principais) fez-me vê-lo. E revê-lo. Segurei-me para não derramar algumas
lágrimas no cinema. Adoro o filme, os actores, a banda sonora, a história.
Desci do cinema directa para a banca de livros. “Um Refúgio para a Vida” – check.
Li o livro em quatro
dias. Conta a história de Katie, recém-chegada a uma pequena cidade da (sempre)
Carolina do Norte. Alex é viúvo (habitual) e tem dois filhos. Katie apega-se às
crianças e apaixona-se por Alex. Uma personagem muito interessante é o rosto do
passado que persegue a reservada Katie – Kevin. Gostei muito desta personagem,
que se vai tornando melhor (e mais perturbada) quanto mais o livro avança. É um
óptimo suporte, bem sólido, do enredo central.
Também a acção
principal do filme está melhor. Arrasta-se o mistério durante mais tempo. Katie
é mais relutante em confiar. O romance é mais natural, mais credível do que no
ritmo lento e “doce” do livro, que não se precipita nem tem ímpetos de paixão.
O “mistério” é levado a bom porto duma forma muito mais interessante. Muitas
premissas do filme estão ausentes no livro, bem mais simplista. Achei o livro muito visual e cinematográfico, como se já fosse previsto que acabasse no cinema. Coisas como "pestanejou e viu-se na infância", "pestanejou e voltou ao presente", "pestanejou e viu-se de cabelo loiro e comprido", etc.
Em geral gostei do
livro. Vou mantê-lo aqui. Mas é um daqueles casos raros em que o filme é
melhor. Aconselho-vos a ver o filme primeiro, porque podem gostar mesmo muito dele. Se lerem o livro
primeiro vão perder a abordagem aprimorada que este faz à história. Mesmo a
revelação das últimas três páginas de livro causa muito mais impacto no filme - e não o digo por já conhecer o desfecho.
Uma pessoa sai do cinema sem saber se ria se chore.
A nota que lhe atribuo é devido à leveza e facilidade com que viajei através dele, fortemente sustentada pelo Kevin, a revelação final e o facto de permanecer em mim após terminado.
A nota que lhe atribuo é devido à leveza e facilidade com que viajei através dele, fortemente sustentada pelo Kevin, a revelação final e o facto de permanecer em mim após terminado.
O filme deu-me vontade de ler o livro. O contrário talvez não tivesse acontecido...
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