sábado, 29 de junho de 2013

#89 HOLMAN, Michelle, Do Céu com Amor


Sinopse: Depois de uma colisão frontal entre um elegante carro desportivo e um utilitário, um anjo bondoso faz uma troca na sala de espera do Céu. Uma professora baixinha, temperamental e amante de râguebi recebe uma segunda oportunidade e encontra-se no corpo de uma americana alta, deslumbrante e promíscua. Tem um marido rico e lindo de morrer que parece ter acabado de sair de um romance -, mas por uma razão qualquer, não suporta sequer olhar para ela. Ela pensa que enlouqueceu, e se contar a alguém as pessoas saberão que isso é verdade... e irão interná-la. E ela não pode fugir e esconder-se: tem uma perna partida.

Opinião:

Pormenores desnecessários acerca da minha história com este livro:


Comprei este livro ontem à tarde, apenas porque desde o anúncio da sua publicação que tinha ficado intrigada com a sinopse. A bem dizer não gosto muito de histórias fantasiosas - do género f**k logic! – mas decidi dar-lhe uma chance. Há muito que não lia nada simultaneamente cor-de-rosa e contemporâneo. Tenho lido muitos romancezecos histórico-eróticos, mas tinha desistido de todo de historietas contemporâneas. Aborrecem-me de morte e, talvez pela premissa deste livro ser tão diferente, adquiri-o. Eram quase sete da tarde de ontem e fi-lo porque o cabeleireiro só podia atender-me em meia hora e me mandou “dar uma volta”. Fui à livraria mais próxima e, após passar a vista pela montra, decidi-me por este.

Não dava nada pelo livro, honestamente. Foi mesmo a sinopse e a ideia do marido jeitosão que me convenceu. A girl needs a little romance. No entanto, esperava uma história às três pancadas – o dito f**k logic – com personagens estúpidas e muitos erros de comunicação e mal-entendidos. Nada disso. Mesmo a pedra-base da história acaba por ser credível, porque as personagens (todas) se esforçam por compreender o que aconteceu e adaptam as suas vivências a isso. Não é daquelas histórias em que algo estranho acontece e – sendo americanos, estou a lembrar-me dos filmes – aceitam isso com a naturalidade com que saem meninas do televisor para matá-los. Uns gritinhos e tal, e depois “A sério? O que havia de te acontecer!”
Lisa Jackson é fiel a si própria desde o momento em que desperta do acidente no corpo de outra mulher. Dan está ferido pela conduta promíscua da sua mulher e a distância entre ambos deriva daí. Contudo, são duas personagens palpáveis, humanas, inteligentes. O livro denota o cuidado que a autora teve com a pesquisa – fala-se de dislexia e outras questões médicas, posto que Dan é médico. Não há pontas soltas, não há personagens vazias. Há algum humor, tensão sexual e química bem-conseguidos, há mesmo uns laivos do dia-a-dia e da cultura da Nova Zelândia que me fazem considerar que estava enganada. Isto porque já tinha planeado trocar este livro assim que acabasse de lê-lo. Não, não, é meu!
Em geral gostei muito da Lisa e do Dan, foram definitivamente feitos um para o outro. O livro é comovente, emotivo, está longe do leviano embora tenha um ambiente muito positivo. A personagem principal está grata por estar viva. Mas também a família da Lisa – a irmã, Sherry, o irmão, Ben, o pai jardineiro e a mãe fumadora me entretiveram bastante. 
Basta dizer que abri uma excepção com este livro e comecei a lê-lo ontem no cabeleireiro, vim mais cedo do café-com-amigos-pós-jantar para vir lê-lo, deitei-me às tantas para lê-lo e hoje acordei às 9 para tomar o antibiótico e não voltei a deitar-me porque cometi a imprudência de abri-lo enquanto comia os cereais. Acabei agora.
Aconselho vivamente!

Classificação: 5/5*****

sábado, 22 de junho de 2013

#88 KLEYPAS, Lisa, Paixão Sublime

Sinopse: Quatro jovens damas da sociedade londrina procuram um bom partido. Chega a vez de Evangeline Jenner, a mais tímida, mas também a mais rica, logo que cobre a sua herança. Para escapar às garras da família, Evie pede ajuda a Sebastian, Lord St. Vincent, um conhecido libertino, fazendo-lhe uma proposta irrecusável: que se case com ela, trocando riqueza por proteção. Mas a proposta impõe uma condição: depois da noite de núpcias, os dois não voltarão a encontrar-se na intimidade, pois Evie não quer ser mais um coração partido na longa lista de conquistas de Sebastian. A Sebastian resta esforçar-se mais para a seduzir… ou entregar finalmente o coração, em nome do verdadeiro amor.

[Antiga review (fruto de uma ou duas leituras num brasileiro miserável e duma terceira - e quarta, e talvez quinta - leitura em inglês)]

5*


Dei-me conta de que não fiz uma review ao Devil in Winter, o meu favorito das Wallflowers! (Em Portugal corresponde ao #3 da série À Flor da Pele da 5 Sentidos). Tendo enviado um e-mail à editora, responderam-me que não preveem, de momento, mais nenhuma publicação nesta série. Fiquei destroçada e amaldiçoei esses bandidos sem coração! Mas também me recordei que já li o livro pelo menos duas vezes numa tradução brasileira manhosa que circula na internet, em inglês idem e até o comprei no book depository e esperei por ele duas semanas vindo do UK. É uma das pérolas da minha biblioteca, uma edição com muita classe que não denuncia o seu conteúdo...

Bom, certamente que quem já leu os dois volumes anteriores da série, sobretudo o que diz respeito à Lillian Bowman, se recorda do abominável Sebastian St. Vincent que atenta contra a pobre donzela a fim de a obrigar a casar-se consigo e a embolsar uma boa quantia? E lembram-se certamente também da ruiva tímida e gaga... a Evie? Pois bem, o terceiro volume das Wallflowers começa com a pobre Evie a munir-se de uma coragem que não sabíamos que dispunha e aborda o escroque. Pede-lhe... *aclaro a voz* que se case com ela. É um negócio simples: o pai dela está a morrer e vai deixar-lhe uma casa de jogo rentável. Em simultâneo ela é maltratada pelos familiares que olham por ela e quer livrar-se da sua influência.

É aqui que a história começa a ser interessante. O St. Vincent é um sacana sedutor habituado a enrolar-se com tudo o que mexe, mas está com graves problemas financeiros e não quer abdicar do luxo a que está habituado. Por isso não hesita em casar-se com a Evie...

Começa a sentir-se útil e a ser bem sucedido na gerência da casa de jogo do pai dela e, qual é o seu espanto, sente-se responsável e protector para com ela. Mas, e apesar de se sentir atraída pelo marido, ela não tem interesse algum em sofrer uma desilusão, ver-se traída ou confirmar que a sua amiga Lillian tem razão quanto ao mau carácter do St. Vincent. Para isso exige distância ... e isso é um chamariz para o St. Vincent, pouco habituado a ser rejeitado...
Adoro o livro porque as minhas personagens favoritas são sempre aquelas que se reinventam, as que se redimem. Li muitas vezes que o St. Vincent "mudou rápido demais", visto ser desprezível no livro anterior. Mas as pessoas não mudam rápido quando finalmente descobrem o seu lugar? Não parece que "nasceram" para aquilo? É assim o St. Vincent a gerir uma casa de jogo. Idem quanto à Evie. Nasceram um para o outro, sobretudo porque ela lhe dá uns quantos "nãos" nas barbas...


Nova review, baseada na edição da 5 Sentidos (Porto Editora) em PT - leitura de 21/22 Junho 2013.


4,5*

Antes de mais, continua a ser o meu romance do género favorito. Contudo a tradução - a escolha de certas expressões, bem como alguns erros que encontrei - deturpam-lhe um pouco a essência. O St. Vincent parece um homem diferente quando se expressa em Inglês daquele que se expressa em PT:
"Vou ter cuidado, minha pomba", traduzido de "I'll be so gentle, love", é um raio duma diferença. Fá-lo parecer parvo, na versão em PT. «Pomba» soa-me a um pervertido. Não no bom sentido, como o Sebastian é.
OK, este livro é o meu guilty pleasure. Adoro as personagens, as cambalhotas deles, a dificuldade que o St. Vincent tem em admitir que se preocupa mais com a Evie do que com o seu próprio ego. Mas a versão inglesa continua a ser a minha favorita.
Em Português, entre o casal principal, ora surge o tratamento "tu" ora surge "você, o senhor, a senhora". É uma discrepância difícil de ignorar, porque acontece também com outras personagens, que ora se tratam com deferência, ora assumimos que já estão mais à vontade, ora volta a surgir um "você" para nos desenganar.
Não consigo tirar da cabeça que, caso este género de livro passasse para as salas do cinema eu ia a voar vê-lo.
E sugeriria o Aaron Johnson para St. Vincent e a Rachel Hurd-Wood para Evie <3

terça-feira, 4 de junho de 2013

#87 MAUGHAM, Somerset, Servidão Humana


Quer queiramos quer não, um livro está impregnado do espírito do autor. Não significa que traduza tudo o que ele é nem todas as suas crenças; o autor pode, inclusive, ter-se esforçado por explorar temas que lhe são desconhecidos e adoptar posturas que condena. Neste “Servidão Humana” descobri a grandeza da simplicidade. Eu desconfiava da sua existência, mas jamais a vira em tamanha graça e glória. É uma obra grandiosa na sua simplicidade. Não é sobre grandes vitórias, não é sobre um grande aventureiro, sobre bravura, sobre perfeição incompreendida ou sobre uma vida madrasta. É sobre os caminhos escolhidos, as consequências que aí advém e os diversos prismas pelos quais é possível encarar-se a situação. Phillip Carey tem pé boto, é órfão acolhido pelos tios e cresce no puritanismo do Kent de finais do século XIX. Já crescido, passa a desprezar a languidez do tio, a sua inércia e o seu egoísmo, assim como ora se comove ora se exaspera com a lamechice exacerbada da tia. Deus é um amigo, uma verdade inabalável até certo ponto. Ao desistir, contudo, da carreira eclesiástica, vai estudar para a Alemanha e depara-se com o protestantismo. Também um budista e um católico dividem o mesmo espaço consigo e todos, a par dele que é anglicano, parecem ver a verdade apenas na sua religião. Isso e a sua falta de insolência ou vaidade levam-no a concluir que a religião é, sobretudo, uma questão de geografia. Como ele próprio diz, teria grandes chances de ser protestante se tivesse nascido na Alemanha, ou católico se tivesse nascido em Itália. Isso significa que, por não ser crente na fé anglicana, estaria condenado às chamas do Inferno? É aqui a primeira grande viragem da sua vida. Deus já não comanda a sua vida; o bem e o mal advêm da sua percepção, as escolhas emergem duma mentalidade jovem no início de um século em que a própria sociedade, a economia, a tecnologia, a medicina, o mundo, todo o resto se encontram em ebulição e em franca mudança. Phillip é muito distinto, convencido que está de que é um cavalheiro. As dezenas de personagens – todas elas fortíssimas e indispensáveis – vêm baralhar-lhe as convicções de si próprio. Perante um rico é um burguês patético. Perante um pescador é quase um aristocrata. Embora não seja da sua natureza ser snob – porque também ele é duramente maltratado pela sua condição física e escassez de recursos – discrimina involuntariamente várias vezes. É generoso, mas discreto, tímido e cobarde. Essa sua tendência em pregar-se a uma personalidade mais forte levam-no a tornar-se a sombra dos amigos na escola, na arte, na quase totalidade da sua existência. Ele vai-se dando conta disso, mas não confia no seu próprio juízo. Também isto é uma lição importante a assimilar.
E depois há a Mildred, claro. O papel que, no filme de 1934, impulsionou Bette Davis para o sucesso. Feia, vulgar, snob, miserável, interesseira, estúpida e leviana. Uma simples criada que o humilha num primeiro momento e perante quem Phillip terá sempre tendência a deixar-se perder. Deixa que ela faça dele o que quer, desbarata a sua herança com ela, deixa-o traí-lo de todas as formas possíveis e volta sempre a estender-lhe a mão quando ela regressa, por sua vez desdenhada por um homem mais esperto, que a vê como aquilo que ela é. Que personagem perturbadora, esta Mildred, com a sua decadência moral, as suas mentiras, os seus falsos ares de senhora, os seus queixumes, amuos, sorrisinhos e seduções fáceis, a sua gratidão fingida e momentânea, os seus clarões de fragilidade, o seu desinteresse por qualquer assunto que não entretenimento – jantares, teatro, passeios -, a sua ignorância, “istudante”, a sua fúria sempre prestes a dar azo a outra discussão. Os seus amores assolapados, rápidos a vir e a partir, dando lugar a ódios exacerbados. E Phillip, seu bom “amigo”, a patrocinar-lhe férias com o seu melhor amigo, a cobri-la de chapéus e vestidos, a sustentar-lhe a filha de outro. E depois vem a pobreza extrema, para ensiná-lo a valorizar o trabalho e a ver a vida no seu estado mais dificultado.
Amor, dinheiro, falta de trabalho. Acompanhando o crescimento de Phillip, a sua maturação, surgem assim, por ordem cronológica, os três motivos pelos quais as pessoas parecem dispostas a suicidar-se. E ele, ponderando fazê-lo por cada uma delas, vai-se obrigando a prosseguir. Os tempos são outros. O que é crucial na vida, afinal? Assumindo que esta não tem propósito, ficamos assim perante o seu único sentido; a ausência de nexo. Sem um deus que o guarde, Phillip está por si próprio. A sonhar, a cometer erros atrás de erros, a almejar para si uma felicidade que parece estar sempre ao lado daquilo para que ele se precipita. E então, numa conclusão brilhante, pueril, verdadeira (sobre a qual eu própria discursei bastante durante os meus tempos de faculdade), parece despertar para aquilo que, na vida, se pode extrair de mais doce.
Aconselho vivamente a quem quer que queira experienciar os grandes sobressaltos da existência de qualquer um dos nove aos trinta anos deste Phillip. Tratanto-se de uma autobiografia ficcionada do próprio autor, posso apenas dizer que, como Phillip ou como Somerset, Maugham é um espírito admirável.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Servidão Humana #3

Se eu conhecesse o Phillip Carey, provavelmente desprezá-lo-ia. Se fosse criada de mesa, jovem e pobre, provavelmente ter-me-ia aproveitado dele como a Mildred Rogers faz. Da página duzentos e pouco até à quatrocentos atravessamos os novos erros e avaliações de consciência do Phillip. Ele não consegue ser totalmente feliz porque, sendo uma pessoa do mais banal que existe, insiste em procurar ser maior, acreditando que algo de grandioso lhe está reservado. Este medo de perecer sem ficar na memória, sem responder às grandes questões filosóficas nem se engrandecer através da Arte ou duma profissão, é muito humano e identificável com todos nós. Com a diferença de que o Phillip é tão volátil que abandona tudo o que está a fazer a cada vez que acorda com os pés de fora. Como bem diz o seu tio vigário, falta-lhe perseverança. Ele quer algo fácil, instantâneo. Anseia por liberdade e por aventura mas, na realidade, é snob, burguês, aborrecido e insosso. É tão palpável, contudo, que é impossível não nos debruçarmos com interesse para esta personagem. É a Mildred, contudo, que até aqui fez emergir no Phillip o que de mais fraco ele tem. 


É-lhe servil, cegamente devoto – cegamente está aqui mal aplicado, porque ele reconhece que ela é estúpida, snob, pretensiosa, vaidosa, interesseira e obsoleta. Ainda assim, amava-a. É-lhe um paradoxo ver-se assim desprovido de razão e de integridade. Esta mulher, esta miserável criada de uma casa de chá, desdenha dele, aproveita-se dele, não se preocupa realmente com nada que lhe diga respeito e dispensa-o sempre que alguém lhe oferece algo melhor. É feia – lábios finos, pálida, anémica, magra, sem ancas, sem peito, de franja. E ele arde de desejo por todas estas imperfeições físicas, por uma vez familiarizado com as incongruências do amor e espicaçado pelo desejo carnal. Ele tem de tê-la. O rapaz tímido, ingénuo, é agora inflamado e espontâneo. Pena de ciúmes, é esbanjador em relação à atitude poupada anterior. Obcecado em conseguir o afecto desta mulher leviana, desperdiça até aquilo que poderia ter sido um bom futuro ao lado de uma viúva que o ama mais do que ele a ela. Mas como o próprio Phillip diz, o que importa no amor não é tanto ser amado, mas amar. E por isso sujeita-se aos caprichos da Mildred. Vejamos onde vai isto dar.
(Tendo lido mais cem páginas)

Concluo que o Phillip é daquelas pessoas tão desengraçadas e de tão baixa auto-estima que, por serem incapazes de se valorizar, pensam que só adquirem afecto comprando-o. Então, “aproveitando-se” dum momento difícil da Mildred – na realidade é ela que se aproveita dele – julga que a tem na mão porque ela precisa dele financeiramente. Embora tenha consciência de que ela é uma “cadela”, como ele próprio diz, que salta de colo em colo, é a única maneira de a ter e contenta-se com qualquer farrapo de atenção que ela lhe atribui. Em troca delapida a herança do pai em chapéus para essa ingrata (palavras dele próprio), vestidos, e chega ao ponto de ter tão pouco amor-próprio que lhe sustenta a filha de outro e lhe patrocina jantares e idas a teatros de variedades quando ela se enamora do melhor amigo dele. Mais do que isto… paga-lhes umas românticas férias em Oxford, tudo porque compreende que ela se tenha apaixonado pelo seu bom amigo, que considera tão mais cativante do que ele próprio, e porque assume que a culpa é sua por tê-los apresentado. Não estamos perante uma personagem vulgar ou cativante. O Phillip é uma pessoa desprezível na sua cobardia e na sua timidez. É incapaz de um gesto mau, tirando chamar-lhe “cadela” e ajoelhar-se-lhe aos pés em seguida, que sabe ele de dar-se ao respeito? Culpa o pé boto pelos seus problemas relacionais, mas nesta fase do livro acaba de ser confrontado por um jovem com pé boto que é perfeitamente feliz. Talvez tenha entendido que os seus problemas não são físicos, mas sim que sofre de uma fraqueza de carácter exasperante. Que personagens notáveis, Somer.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Servidão Humana #2

Algures no Goodreads surge uma review a este livro, com uma classificação bastante depreciativa, em que o identifica como “uma sucessão de erros da personagem principal”, é vê-lo cometer um disparate atrás do outro. Eu concordo com isto, mas adoro o livro por esse mesmo motivo. Acho que acabei de entender o que é que o Maugham pretendia com este livro: vêem-se assim expostos os vícios e as fraquezas de uma civilização a quem nada está vedado. As possibilidades são infinitas. Desde o meu último update, o Phillip já esteve em Inglaterra (Kent) e na Alemanha (Heidelberg), e também em grandes urbes como Londres ou Paris. Já trilhou uma espécie de Introdução à Contabilidade, que emerge na viragem do século como profissão de novos cavalheiros, e estuda Arte em Paris. No novo século é-lhe até difícil distinguir um cavalheiro dum comum trausente. No novo século as mulheres têm famas dúbias e envolvem-se em escândalos amorosos (mesmo as solteiras). Viveu um envolvimento conturbado com Mrs. Wilkinson, uma criaturinha que ele quase abomina mas da qual se serve apenas porque, na visão de Phillip, estava na hora de ter um romance para narrar aos amigos. Se Phillip é uma personagem amorosa, admirável? Não, Phillip é, na minha opinião, uma marioneta. Dança ao sabor das milhentas possibilidades do novo século. A Europa inteira é-lhe um anfiteatro de ruelas por onde se embrenhar. A onde ir? O que aprender? O que fazer? Quem ser? Phillip está perdido. Podendo ser qualquer coisa, dispersa-se. Terá vinte e poucos anos e já desistiu da carreira eclesiástica (desacredita Deus), já largou um ano de estágio em Contabilidade, está agora a desencantar-se com o seu parco talento para a pintura numa escola de Paris. Mas a culpa não é de Phillip, a culpa é dos tempos. Os tempos obrigam-no a ter um caso amoroso - e ele é muito susceptível ao que pensam dele, é muito orgulhoso e tímido também -, os tempos obrigam-no a deslocar-se para onde a vida fervilha realmente, a Cidade das Luzes, os tempos obrigam-no a querer imitar um Manet ou um Monet, um Renoir ou um Degas. O desafio é a limitação do seu talento aos seus almejos. Ele nem sequer é uma pessoa efusiva, mas deixa-se absorver pelas personalidades marcantes que vão surgindo aqui e ali, todas elas mais fortes do que ele. Ele é  uma sombra da luz que os outros emanam, absorve-os e tenta seguir-lhes o exemplo, quase sempre com fraco desempenho. Impressiona-se facilmente e, apesar de ser inteligente, é demasiado ingénuo (e novo) para se conhecer a si próprio. Está ancorado às convenções, ao que parece bem, enquanto brame que é um homem moderno e dono do seu destino. É uma alma fraca, ansiosa por se ligar a outras, ciumento, cobarde demais para ser cruel ou directo, persistente mas também teimoso, desmotivado e desmoralizado pela anomia social do século que se aproxima.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Servidão Humana #1


Conheci o Somerset Maugham através d’O Véu Pintado, e conheci O Véu Pintado através da adaptação de 2006 com o Edward Norton e a Naomi Watts. Filme precioso, um olhar íntimo sobre a vida privada de um casal dos anos 30. O livro é diferente; é desconcertante na sua abordagem ao coração humano, à inclinação incontornável ao erro, ao mais fácil, ao queimar-se uma outra vez na mesma chama. A profundidade humana é tocante, fascinante e qualquer leitor se identifica facilmente com estes espectros erróneos que o Maugham descreve. Foi um romance um pouco mais da minha linha, no sentido em que há uma relação central como fio da meada. Há a China, a cólera e a mulher infiel. E pronto, eu estava rendida. Não precisei de muito para penar pelo seu “Servidão Humana”. Já mencionei que, de visita à Russborough House, em Wiclow (Irlanda), parei numa biblioteca enorme à procura dum autor que conhecesse e, de entre todos os nomes desconhecidos, apenas Maugham me acenou? Foi como estar, subitamente, em casa.

SPOILERS, SPOILERS ALL AROUND!

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O livro começa com a morte de uma mãe. Uma criança órfã que anseia por carinho e por vitimar-se. É humano, será que vale a pena dizermos que quer vitimar-se? Trata-se apenas de tirar alguma vantagem das desgraças pessoais. Para este rapazinho, isso espelha-se no abraço, na palavra de compaixão, nos mimos que podem servir de recompensa à perda da mãe. Nesta primeira centena de páginas podia já o romance encerrar-se, e eu estaria já rendida e apaixonada. Não há romance, há apenas relações humanas. O servilismo, a existir, é do eu perante si próprio. Este Phillip Carey, esta pessoa tão comum e, contudo, tão intrigante, é já uma das minhas personagens favoritas de sempre. Isto porquê? Phillip sofre de todas as mesquinhices humanas: vaidade, mentira ocasional, orgulho exacerbado, ciúme injustificado, ocasionalmente inveja. Cresceu à sombra dum tio vigário e, por isso, nunca duvidou de Deus ou da veracidade absoluta da doutrina da Igreja Anglicana. Nunca, até certo ponto. Nesta primeira centena de páginas Phillip foi já confrontado com a possibilidade de vir a tornar-se também ele vigário e, posteriormente, começa a questionar, através de conhecimentos que faz na Alemanha, longe do Kent onde cresceu, se existirá realmente uma religião verdadeira ou um deus único. O que estou a apreciar é, sobretudo, o meu desbastar dos receios que alimentava quanto a este livro; é um livro enorme (lê-se incrivelmente bem), Somerset é um grande escritor, será que conseguirei acompanhá-lo? (ele esforça-se por vir ao meu encontro sem, no entanto, me tomar por imbecil), será um pseudo-intelectual? Terá algo a acrescentar-me? (o autor atira-nos para os olhos a ignorância de Phillip  mais gritante a cada vez que algo de novo lhe é ensinado. Tão vastas as extensões, depressões, viragens de rumo da Natureza humana num livro com ainda tanto para oferecer.
Philipp é tímido, tem pé boto, é inteligente mas tantas vezes estes dois factores impedem-no de expressar essa inteligência e é tomado por idiota. Cada pessoa com que se cruza – as que ama e as que odeia – são palpáveis e apaixonantes a seu modo. Mr. Carey, o tio vigário. Mrs. Carey, nunca mãe, tia de sangue, frágil e submissa (queixa-se, porque é mulher, obedece, porque é esposa). Mr. Watson, o director de colégio religioso que ri demasiado alto e é bruto a demonstrar carinho pelos alunos. Mr. Perkins, director da escola preparatória, descendente de um fanqueiro, por isso desprezado pela trupe de intelectuais abastados que ensinam nessa escola, tão inteligente e perspicaz que é finalmente com ele que a sagacidade de Phillip se expande.
Phillip a descobrir o poder da literatura para alheamento dos que vivem existências infelizes. Phillip a aprender a ser selectivo na Literatura. Phillip a considerar a Igreja Anglicana como um elemento de conforto na sua vida. Phillip a considerar deus um ultraje a igreja um embuste. Phillip a considerar a sua orfandade motivo de pena, de dessabor. Phillip a considerar o seu pé boto um entrave para criar ligações. Phillip a agradecer a deus pelo fardo do pé boto, que lhe permitiu crescer mais ou menos à margem dos restantes, aculturando-se enquanto os restantes jogam futebol. Phillip a querer alguém – um amigo – só para si. Phillip  odiar esse amigo. Phillip a querê-lo de volta. Phillip a querer desistir da escola, a lutar afincadamente para consegui-lo. Phillip inconsolável, irritado consigo mesmo, por ter conseguido deixar a escola, vencido a batalha, quando afinal tudo o que quer é ficar. E a sua comoção face à beleza, à arte, à natureza, surge como um marco importante na vida de qualquer ser humano. Foi naquele dia que primeiramente testemunhou a beleza, e a sua vida mudou.
Estou arrebatada, encantada por tanta complexidade. Estão aqui algumas das melhores personagens com que tive o prazer de privar na Literatura, juntando-se a Kitty Fane d’O Véu Pintado, Scarlett O’Hara e Rhett Buttler do E Tudo o Vento Levou, e Dr. Victor Frankenstein e o monstro, do livro homónimo ao médico.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

#86 BESSA-LUÍS, Agustina, A Sibila

Sinopse: A Sibila é um romance de Agustina Bessa-Luís. Sibila, que remete para a figura clássica da Sibila de Delfos, significa adivinha e refere-se à personagem Joaquina Teixeira, a Quina. O livro não se atreve a narrar a história do nascimento à morte da protagonista, mas contou a vida de duas gerações anteriores da família Teixeira e duma posterior e ainda de outras famílias e amigos próximos desta. Narra conspirações, corrupções e intrigas de parentes, criados, amigos e inimigos. De passagem ocorrem críticas à burguesia rural, mas no romance avulta sobretudo uma reflexão sobre a dimensão metafísica do ser humano. Quina não tinha poderes sobrenaturais, era apenas atilada e prática conselheira; ninguém da sua igualha a tratava por sibila. Morreu velha e doente, mas orgulhosa da casa que salvara da falência e da fortuna que amealhara. A história começa e termina com Germa, sua sobrinha, filha do irmão Abel, que representa uma geração já urbana, desenraizada dum espaço a que Quina sempre se sentira presa.

Opinião: De vez em quando acontece-me ler um livro onde perco o pé. Em relação à “Sibila”, da Agustina Bessa-Luís, julguei-me na eminência de me afogar. A cerca de setenta páginas do fim (é um livro pequeno, de 248 páginas) recuperei esse pé, e tornou-se um gosto nadar por estas águas. Perguntei-me, inclusive, o que se terá passado nas restantes páginas para que lhes tivesse tamanho alheamento. Já próximo do fim identifiquei o factor em falta n. 1 - a convergência, a eminência de uma revelação, uma história com a estrutura “habitual” (facilitada, vá), do género 1. problema 2. tentativa de resolução 3. solução! Neste livro estende-se sim a narração da vida de uma família do Minho - penso que seja o Minho, devido a alguns elementos culturais que identifiquei - vinho verde e filigrana entre os mais óbvios. Mas sem um problema, um mistério, um segredo por desenvolver. É um simples (not so simple, though) relato de algumas gerações cujas vivências se deram sob o mesmo tecto. É esse o principal fio da meada, no livro - a casa da Vessada, como nenhum outro. Dando por mim a apreciar finalmente o livro - logo quando estava prestes a findar-se, identifiquei o factor em falta n. 2, o que me impediu de segui-lo com sofreguidão desde o início: não é uma história de amor, não há, tãopouco, amor em lado algum. Não há, nesta obra, qualquer vestígio de amor romântico. É um relato um pouco cru dos afectos, como se estes estivessem sempre suspensos da utilidade que nos possam ter, do quanto estamos dispostos a darmos de nós, do que somos e do que queremos que os outros pensem que somos. Há amor, sim, mas um amor conturbado, ora devoto, ora despeitoso, ora amargurado por ser amor, ora orgulhoso de não ser outra coisa qualquer. Deixem-me tentar explicar-me melhor, num discurso bem mais básico do que o da mestria fluida da Agustina:

O livro tem dois marcos temporais - que eu tenha identificado - o ano de recuperação da casa da Vessada, 1870, e a Implantação da República, porque desaparecem dos carros (a tracção animal) os brasões. Fora isto, o tempo é algo demolidor, transversal, algo que mescla todos e que não discrimina ninguém. A história não tem um elo de ligação muito acentuado. A passagem temporal é algo ténue, é contada como que algo percepcionável. Isto é, ora a pessoa se sente nova - e todos ao seu redor são jovens, ora a pessoa ainda se sente nova e enérgica, mas todos ao seu redor já são velhos, ora a pessoa já está velha e acabada e os restantes lhe parecem mais fortes. A casa sofre algumas fases que acompanham o vigor de Quina, a personagem principal. Primeiro é totalmente destruída por um fogo, gravando-se em seguida o ano de 1870 na varanda. Em seguida Quina nasce, a propriedade começa a recuperar-se e a prosperar discretamente. Quina atinge a juventude com mais vitalidade que a mãe e, tendo o pai falecido, assume naturalmente o rumo da propriedade; impõem-se-lhe. É nesta época que, pressupostamente, se encontra mais aguçada a sua capacidade de “sibila”, de vidente, de mulher do oculto, das intuições das entrelinhas da vida. Mas confesso que de vidente não lhe vi muito. Se calhar procurei literalmente esse dom quando, na realidade, se trata de mexeriquice de vizinhos, de cegos perante um elemento que vê. Penso que o seu condão de bruxa é apenas a sua inteligência límpida por entre tolos, o seu conhecimento do outro que a faz sobrepôr-se-lhe, conduzi-lo, extrair-lhe o que pretende. Na Quina denoto uma certa pretensão, um certo desejo preemente de ser diferente dos outros, mais sensitiva, procurada para conselhos e rumos, livre para proferir desmandos. No fundo, ela quer ser mais do que um adereço, dois braços, suor, num mundo de homens, e vale-se assim daquilo que é temido - em certas épocas combatido, noutra tolerado com o respeito do receio - nas mulheres; o sexto sentido, a adivinhação, a sensibilidade para prever desfechos, a esperteza feminina equiparada a feitiçaria. Nunca a vi a fazer mais do que umas rezas aos vizinhos, mas estes próprios a apelidam de “sibila”, e ela gosta disso. Com o amadurecimento, contudo, passa da vaidade à quase apatia. Torna-se mais humilde, passa a reconhecer valores - como a simplicidade forçada de quem vive bem mas não quer ostentar - que outrora lhe causavam espécie. Uma das minhas personagens favoritas é o Custódio. Lembrou-me o Heathcliff do Monte dos Vendavais. Aliás, muito deste livro me recordou o Monte dos Vendavais, mas enquanto n’A Sibila a natureza humana se agita nos sobressaltos da vida, na obra-prima de Emily Brontë agita-se nas incongruências do amor.


Quando se aproxima do fim – para mim, mera leitora – torna-se mais fácil de compreender, embora continue a primar pela complexidade. Que princípios moveram, afinal, esta personagem, esta Quina? O que, na vida, lhe foi mais importante? Apesar da luta por se impor, por ser diferente sem no entanto ofender, a que convenções é incapaz de fugir?
“A Sibila” é um romance complexo, difícil de digerir. Tive alguma ajuda ao adquiri-lo na edição da Guimarães editores em segunda mão, porque todas as palavras difíceis (que são aí cinco por página) vinham sublinhadas e com a respectiva definição na margem, o que me permitiu lê-lo em três semanas em vez de três meses. Arrastou-se sempre, contudo, a impressão perturbadora de não compreender a totalidade do que estava perante os meus olhos.
Penso que um dia o lerei de novo - com a atenção sobre-humana que dediquei às últimas dezenas de páginas -, porque é-me sempre precioso ver uma mulher erguer-se, com os seus defeitos e fraquezas inerentes, e vingar num meio de homens.
Voltarei, sim, a ler Agustina Bessa-Luís, quase certa de que encontrarei a mesma perspicácia, a mesma profundidade humana, em qualquer outro dos seus romances.

Classificação: 4****/*