terça-feira, 16 de julho de 2013

#93 CARDOSO, Dulce Maria, O Retorno


Sinopse:1975 Luanda. A descolonização instiga ódios e guerras. Os brancos debandam e em poucos meses chegam a Portugal mais de meio milhão de pessoas. O processo revolucionário está no seu auge e os retornados são recebidos com desconfiança e hostilidade. Muitos não têm para onde ir nem do que viver. Rui tem quinze anos e é um deles.
1975. Lisboa. Durante mais de um ano, Rui e a família vivem num quarto de um hotel de 5 estrelas a abarrotar de retornados — um improvável purgatório sem salvação garantida que se degrada de dia para dia. A adolescência torna­-se uma espera assustada pela idade adulta: aprender o desespero e a raiva, reaprender o amor, inventar a esperança. África sempre presente mas cada vez mais longe.


Opinião: Que sei eu de África, além de que o meu avô era Angolano (do lado dos pretos, não do lado dos brancos que viviam em Angola)? É uma questão delicada, esta. Sempre tive uma perspectiva limpa, moralmente correcta – a dita esperada das democracias modernas que reconhecem a supremacia de cada Estado. Depois de ler este livro fiquei um bocado abalada nestas minhas convicções. Não acredito que a autora se tenha proposto a mudar a ideia de um qualquer português que nasceu no continente pós-guerra colonial e que enche o peito para dizer: quem nos mandou explorar os africanos? O continente é deles, o país era deles. Só fomos para lá fazer figura de ursos, perder pernas e braços para nada. O país, concluo agora, esqueceu-os a todos. Aos que perderam a terra – ditos Retornados – e aos que perderam os braços, os militares que trilharam as selvas e enterraram os companheiros de batalhão num qualquer recanto impensado da imensidão do desconhecido.
Neste livro da Dulce Maria Cardoso, tudo se resume a esta citação:
«Estou de luto, hoje morreu-me a minha terra, hoje tornei-me um desterrado, vivemos na certeza de que as terras não morrem, vivemos na certeza de que a terra onde enterramos os nossos mortos será nossa para sempre e que também nunca faltará aos nossos filhos a terra onde os fizemos nascer, vivemos nessa certeza porque nunca pensamos que a terra pode morrer-nos, mas hoje morreu-me a minha terra, hoje morreram os meus mortos.»
E aqui vêem o estilo narrativo da autora e sentem o desamparo que estas pessoas sentiram. Foram arrancados a uma vida que se esforçavam por construir, por querer melhor, e atirados para um país que os criticava e os não compreendia. 
Rui, Milucha, Glória são resgatados de Angola durante a ponte aérea e acolhidos num hotel de 5* na Linha do Estoril. Estão profundamente magoados; abandonaram a sua terra, a casa, as toalhas de bordados, a cadela, os amigos, o uísque favorito do pai, as palavras a que se haviam apegado – matabicho, em vez de pequeno-almoço, geleira em vez de frigorífico – o estatuto de “igualdade” face aos seus amigos da escola e das ruas. Mesmo o pai ficou para trás, levado pelos negros. E estas pessoas só conhecem uma realidade: uma África distante, à qual não poderão regressar.
Todo o livro é contado na primeira pessoa pelo rapazinho adolescente, Rui, que de repente se vê chefe de família. Através dos seus olhos vemos Angola, os seus produtos, a sua economia, a sua fertilidade, a desigualdade e mesmo a discriminação face aos negros, aos “paneleiros”, aos diferentes. Também Rui é assim, um decalque de toda uma mentalidade tão portuguesa e não tão ultrapassada quanto isso. A mãe é doente. A irmã é rapariga, não conta. Gostei da humanidade destas personagens, dos seus defeitos e imperfeições. A mãe, especialmente, é o género de pessoa que abomino. Dada a achaques, mentirosa, inventa histórias para que a creiam menos miserável, vulnerável, apegada a frigoríficos e rendas. Ainda assim, pelos olhos de Rui vemo-la e amamo-la. E o pai de dentes amarelos, brusco, incumpridor de promessas, que dá tareias de cinto e fuma demasiado é, ainda assim - sobretudo assim -, o nosso pai.
Aconselho a todos aqueles que queiram ter uma noção de família, de dificuldades, de recomeçar. O futuro, o passado, todos ali mesclados com a História do nosso país como manto de fundo a recordar-nos que um português que não baixa os braços é um português que aguenta tudo e vai longe. Uma importante mensagem nos tempos que correm.

Classificação: 5*****

sexta-feira, 12 de julho de 2013

#92 HOYT, Elizabeth, Vertigem de Paixão

Sinopse: Durante anos, Melisande Fleming amou Lorde Vale de longe... vendo-o seduzir uma sucessão de amantes e, uma vez, entrevendo a intensidade de sentimentos sob o seu exterior despreocupado. Quando ele é abandonado no dia do casamento, ela enche-se de coragem e oferece-se para ser sua mulher. Vale tem todo o gosto em desposar Melisande, nem que seja apenas para produzir um herdeiro. Porém, tem uma agradável surpresa: uma dama tímida e recatada durante o dia, ela é uma libertina durante a noite, entregando-lhe o seu corpo... mas não o seu coração. Decidido a descobrir os segredos de Melisande, Vale começa a cortejar a sua sedutora mulher - enquanto esconde os pesadelos dos seus dias de soldado nas Colónia que ainda o atormentam. No entanto, quando uma mortífera traição do passado ameaça separá-los, Lorde Vale tem de expor a sua alma à mulher com quem casou... ou arriscar-se a perdê-la para sempre.

Opinião: Diálogos fúteis, mas estranhamente adequados à época - vestidos, corte formal e pitoresca, esquilos, a comida, o vinho, o animalzinho de estimação. Quer dizer, estas pessoas não se conhecem quando se casam, parece-me lógico que não tenham nada de interessante a debater. Achei graça ao jeito do Jasper, porque disparava palavrinhas doces - e não sentidas - em cada frase. Acredito que na época fossem assim, namoriscadores. No entanto não consegui levar as personagens a sério. A história do tal "Jack", uma espécie de conto do soldado caminhante, não me suscitou nenhuma curiosidade. Passei quase tudo isso à frente. Li quase tudo na diagonal. Contudo entendi - porque também vivi algo parecido, a ânsia da Melisande relativamente ao Jasper. I mean... há seis anos que ela gostava dele - e queria estar com ele, conhecê-lo melhor, reconfortá-lo, desejava-o insanamente, etc. Esse desejo consumado é muito perceptível e traduz as ânsias dela, o seu acto de rebeldia ao pedi-lo em casamento. Essa parte foi-me fácil de entender. Mas não acrescenta nada ao género, não tem nada de invulgar. Os segredos de um e doutro são coisas previsíveis.
Não sei se vale a pena gastarem dinheiro nisto.

Classificação: 2,5**/*

domingo, 7 de julho de 2013

#91 TOLSTOI, LEO, A Sonata de Kreutzer

Um livrinho tão pequeno e com tanta intensidade! Foi a minha estreia com Tolstoi e maravilhou-me. É daqueles livros em que, de termos experienciado apenas a amargura de um lado da moeda, nunca saberemos o que sucedeu de resto. Este é um livro sobre um ciumento doentio, inseguro, cronicamente insatisfeito? Ou sobre um homem honesto que, na tentativa de se tornar num modelo de moralidade, casa como de si é esperado e é vítima duma vil traição? Haverá, de facto, traição?
O livro começa com uma viagem de comboio onde desconhecidos partilham a mesma carruagem. São russos numa Rússia do último quartel do século XIX. Pessoas que procuram acompanhar o progresso tecnológico, intelectual e, sobretudo, social da Europa, tantas vezes evocada como termo de comparação. Em seguida a história esvoaça para um caso que sucedeu há pouco: um marido que matou friamente a sua mulher, por suspeita de traição. Um dos passageiros é esse marido assassino, que se dispõe a contar ao nosso narrador o que aconteceu para o levar a esse extremo.
Portanto viajamos com um assassino, um homem perturbado, um fumador compulsivo que se esforça por beber chá e que nos introduz ao esperado do jovem russo; que visite prostíbulos, que conheça mulheres, que se proteja toscamente da sífilis e que, depois de “adquirir experiência”, escolha para si a mais inocente das jovens russas para casar. A ironia, o tom de crítica de Tolstoi e os seus ideais transparecem nesta tão pequena obra. Um homem sujo que apenas se acha digno da mais pura das mulheres. O pai honesto que folga em causar a filha donzela com o porco promíscuo mais rico disponível. O casamento sem amor, infeliz, fonte de desacatos, ódios, conflitos constantes.
Tolstoi parece culpar a sociedade por todos os erros cometidos na existência deste homem perturbado. Primeiro empurraram-no para as mulheres, por ser o esperado de si. Depois empurram-no para um casamento com uma jovem casta de boas famílias, para que ele a conspurque. Depois são incapazes de tolerar-se mutuamente, mas uma separação é praticamente impensável. Tudo isto é estranhamente contemporâneo – não a obrigação de a moça se casar, mas a efectividade de todas estas “imundícies” que causam dissabores e infelicidade parecem-me ainda presentes na nossa sociedade.
Acaba abruptamente, deixando-me um tanto ou quanto desconcertada. Dividida, confusa. Virei a página e, de súbito, com o chegar de um comboio a uma estação, há um adeus e o drama pessoal/conjugal encerra-se.
O autor é humano, contemplativo, reflexivo, provocador, capaz de analisar eventos como algo de maior, crítico e sarcástico. Um génio não apenas da literatura, mas também do coração humano.

Classificação: 5*****

terça-feira, 2 de julho de 2013

#90 ROSA, Carina, O Intruso




Opinião: Foi a minha estreia com a Carina Rosa. Tal como muitos outros leitores, também tenho sempre um certo “pé atrás” com os livros portugueses. Isto porque já li alguns mesmo muito maus, como sejam o de um beta-reading que fiz há pouco e que me deitou por terra. Não me ocorria um único motivo lógico pelo qual alguém quereria escrever tal livro e, pior ainda, porque o consideraria digno de ser lido por outrem.

Mas isto não é sobre essa experiência infeliz, é sobre o livro da Carina Rosa. Eu não sou muito ligada ao sobrenatural, tem que ser muito credível para me convencer. Por exemplo, eu não duvido nada que a Terra Média e Westeros existam - já lá estive! Mas não achei o enredo muito credível. Achei as personagens demasiado fáceis a dar-se (não é a dar um primeiro beijo ou um primeiro gesto de afecto). É a “dar-se”. Puff e estão apaixonados. E não sei se as suposições acerca de onde se conheceriam foram muito convincentes. O assunto das vidas passadas ficou um pouco subexplorado. Houve ali algumas reminiscências de romances do Nicholas Sparks que podem bem agradar alguns leitores. A autora é terna e tem classe ao expressar desejo e afecto. Palmas para ela, porque tenho lido coisas medonhas nesse campo.

Eu acho que a autora tem grande margem para crescimento. Tem sentimento e é expressiva, sem ser lamechas. Basta-lhe limar algumas arestas, cortar algumas expressões (e algumas vírgulas a mais) e está bem encaminhada. É mais do que se pode esperar de muito bons nomes a publicar por aí.
Fico a aguardar o próximo, porque não tenho dúvida de que esta autora vai crescer de trabalho em trabalho.
Sinopse: Sara é uma mulher deprimida e atormentada por um passado trágico. A casa que outrora pensara ser um refúgio contra as lembranças de uma vida que desejava esquecer, é agora um antro de sombras que a perseguem.
O reencontro com Martim, um rosto que lhe é de alguma forma familiar, de um passado longínquo, provoca-lhe uma avalanche de sentimentos que poderão mudar a sua vida para sempre. Mas o passado nunca poderá ser apagado e Sara vê-se obrigada a tomar decisões que podem fazer a derradeira diferença ente a vida e a morte.
Poderá Martim salvá-la de uma realidade que foge ao seu alcance? Ou poderá afundá-la ainda mais naquele poço sem fundo, em que não há saída possível, senão a morte?

Classificação: 3/5***



sábado, 29 de junho de 2013

#89 HOLMAN, Michelle, Do Céu com Amor


Sinopse: Depois de uma colisão frontal entre um elegante carro desportivo e um utilitário, um anjo bondoso faz uma troca na sala de espera do Céu. Uma professora baixinha, temperamental e amante de râguebi recebe uma segunda oportunidade e encontra-se no corpo de uma americana alta, deslumbrante e promíscua. Tem um marido rico e lindo de morrer que parece ter acabado de sair de um romance -, mas por uma razão qualquer, não suporta sequer olhar para ela. Ela pensa que enlouqueceu, e se contar a alguém as pessoas saberão que isso é verdade... e irão interná-la. E ela não pode fugir e esconder-se: tem uma perna partida.

Opinião:

Pormenores desnecessários acerca da minha história com este livro:


Comprei este livro ontem à tarde, apenas porque desde o anúncio da sua publicação que tinha ficado intrigada com a sinopse. A bem dizer não gosto muito de histórias fantasiosas - do género f**k logic! – mas decidi dar-lhe uma chance. Há muito que não lia nada simultaneamente cor-de-rosa e contemporâneo. Tenho lido muitos romancezecos histórico-eróticos, mas tinha desistido de todo de historietas contemporâneas. Aborrecem-me de morte e, talvez pela premissa deste livro ser tão diferente, adquiri-o. Eram quase sete da tarde de ontem e fi-lo porque o cabeleireiro só podia atender-me em meia hora e me mandou “dar uma volta”. Fui à livraria mais próxima e, após passar a vista pela montra, decidi-me por este.

Não dava nada pelo livro, honestamente. Foi mesmo a sinopse e a ideia do marido jeitosão que me convenceu. A girl needs a little romance. No entanto, esperava uma história às três pancadas – o dito f**k logic – com personagens estúpidas e muitos erros de comunicação e mal-entendidos. Nada disso. Mesmo a pedra-base da história acaba por ser credível, porque as personagens (todas) se esforçam por compreender o que aconteceu e adaptam as suas vivências a isso. Não é daquelas histórias em que algo estranho acontece e – sendo americanos, estou a lembrar-me dos filmes – aceitam isso com a naturalidade com que saem meninas do televisor para matá-los. Uns gritinhos e tal, e depois “A sério? O que havia de te acontecer!”
Lisa Jackson é fiel a si própria desde o momento em que desperta do acidente no corpo de outra mulher. Dan está ferido pela conduta promíscua da sua mulher e a distância entre ambos deriva daí. Contudo, são duas personagens palpáveis, humanas, inteligentes. O livro denota o cuidado que a autora teve com a pesquisa – fala-se de dislexia e outras questões médicas, posto que Dan é médico. Não há pontas soltas, não há personagens vazias. Há algum humor, tensão sexual e química bem-conseguidos, há mesmo uns laivos do dia-a-dia e da cultura da Nova Zelândia que me fazem considerar que estava enganada. Isto porque já tinha planeado trocar este livro assim que acabasse de lê-lo. Não, não, é meu!
Em geral gostei muito da Lisa e do Dan, foram definitivamente feitos um para o outro. O livro é comovente, emotivo, está longe do leviano embora tenha um ambiente muito positivo. A personagem principal está grata por estar viva. Mas também a família da Lisa – a irmã, Sherry, o irmão, Ben, o pai jardineiro e a mãe fumadora me entretiveram bastante. 
Basta dizer que abri uma excepção com este livro e comecei a lê-lo ontem no cabeleireiro, vim mais cedo do café-com-amigos-pós-jantar para vir lê-lo, deitei-me às tantas para lê-lo e hoje acordei às 9 para tomar o antibiótico e não voltei a deitar-me porque cometi a imprudência de abri-lo enquanto comia os cereais. Acabei agora.
Aconselho vivamente!

Classificação: 5/5*****

sábado, 22 de junho de 2013

#88 KLEYPAS, Lisa, Paixão Sublime

Sinopse: Quatro jovens damas da sociedade londrina procuram um bom partido. Chega a vez de Evangeline Jenner, a mais tímida, mas também a mais rica, logo que cobre a sua herança. Para escapar às garras da família, Evie pede ajuda a Sebastian, Lord St. Vincent, um conhecido libertino, fazendo-lhe uma proposta irrecusável: que se case com ela, trocando riqueza por proteção. Mas a proposta impõe uma condição: depois da noite de núpcias, os dois não voltarão a encontrar-se na intimidade, pois Evie não quer ser mais um coração partido na longa lista de conquistas de Sebastian. A Sebastian resta esforçar-se mais para a seduzir… ou entregar finalmente o coração, em nome do verdadeiro amor.

[Antiga review (fruto de uma ou duas leituras num brasileiro miserável e duma terceira - e quarta, e talvez quinta - leitura em inglês)]

5*


Dei-me conta de que não fiz uma review ao Devil in Winter, o meu favorito das Wallflowers! (Em Portugal corresponde ao #3 da série À Flor da Pele da 5 Sentidos). Tendo enviado um e-mail à editora, responderam-me que não preveem, de momento, mais nenhuma publicação nesta série. Fiquei destroçada e amaldiçoei esses bandidos sem coração! Mas também me recordei que já li o livro pelo menos duas vezes numa tradução brasileira manhosa que circula na internet, em inglês idem e até o comprei no book depository e esperei por ele duas semanas vindo do UK. É uma das pérolas da minha biblioteca, uma edição com muita classe que não denuncia o seu conteúdo...

Bom, certamente que quem já leu os dois volumes anteriores da série, sobretudo o que diz respeito à Lillian Bowman, se recorda do abominável Sebastian St. Vincent que atenta contra a pobre donzela a fim de a obrigar a casar-se consigo e a embolsar uma boa quantia? E lembram-se certamente também da ruiva tímida e gaga... a Evie? Pois bem, o terceiro volume das Wallflowers começa com a pobre Evie a munir-se de uma coragem que não sabíamos que dispunha e aborda o escroque. Pede-lhe... *aclaro a voz* que se case com ela. É um negócio simples: o pai dela está a morrer e vai deixar-lhe uma casa de jogo rentável. Em simultâneo ela é maltratada pelos familiares que olham por ela e quer livrar-se da sua influência.

É aqui que a história começa a ser interessante. O St. Vincent é um sacana sedutor habituado a enrolar-se com tudo o que mexe, mas está com graves problemas financeiros e não quer abdicar do luxo a que está habituado. Por isso não hesita em casar-se com a Evie...

Começa a sentir-se útil e a ser bem sucedido na gerência da casa de jogo do pai dela e, qual é o seu espanto, sente-se responsável e protector para com ela. Mas, e apesar de se sentir atraída pelo marido, ela não tem interesse algum em sofrer uma desilusão, ver-se traída ou confirmar que a sua amiga Lillian tem razão quanto ao mau carácter do St. Vincent. Para isso exige distância ... e isso é um chamariz para o St. Vincent, pouco habituado a ser rejeitado...
Adoro o livro porque as minhas personagens favoritas são sempre aquelas que se reinventam, as que se redimem. Li muitas vezes que o St. Vincent "mudou rápido demais", visto ser desprezível no livro anterior. Mas as pessoas não mudam rápido quando finalmente descobrem o seu lugar? Não parece que "nasceram" para aquilo? É assim o St. Vincent a gerir uma casa de jogo. Idem quanto à Evie. Nasceram um para o outro, sobretudo porque ela lhe dá uns quantos "nãos" nas barbas...


Nova review, baseada na edição da 5 Sentidos (Porto Editora) em PT - leitura de 21/22 Junho 2013.


4,5*

Antes de mais, continua a ser o meu romance do género favorito. Contudo a tradução - a escolha de certas expressões, bem como alguns erros que encontrei - deturpam-lhe um pouco a essência. O St. Vincent parece um homem diferente quando se expressa em Inglês daquele que se expressa em PT:
"Vou ter cuidado, minha pomba", traduzido de "I'll be so gentle, love", é um raio duma diferença. Fá-lo parecer parvo, na versão em PT. «Pomba» soa-me a um pervertido. Não no bom sentido, como o Sebastian é.
OK, este livro é o meu guilty pleasure. Adoro as personagens, as cambalhotas deles, a dificuldade que o St. Vincent tem em admitir que se preocupa mais com a Evie do que com o seu próprio ego. Mas a versão inglesa continua a ser a minha favorita.
Em Português, entre o casal principal, ora surge o tratamento "tu" ora surge "você, o senhor, a senhora". É uma discrepância difícil de ignorar, porque acontece também com outras personagens, que ora se tratam com deferência, ora assumimos que já estão mais à vontade, ora volta a surgir um "você" para nos desenganar.
Não consigo tirar da cabeça que, caso este género de livro passasse para as salas do cinema eu ia a voar vê-lo.
E sugeriria o Aaron Johnson para St. Vincent e a Rachel Hurd-Wood para Evie <3

terça-feira, 4 de junho de 2013

#87 MAUGHAM, Somerset, Servidão Humana


Quer queiramos quer não, um livro está impregnado do espírito do autor. Não significa que traduza tudo o que ele é nem todas as suas crenças; o autor pode, inclusive, ter-se esforçado por explorar temas que lhe são desconhecidos e adoptar posturas que condena. Neste “Servidão Humana” descobri a grandeza da simplicidade. Eu desconfiava da sua existência, mas jamais a vira em tamanha graça e glória. É uma obra grandiosa na sua simplicidade. Não é sobre grandes vitórias, não é sobre um grande aventureiro, sobre bravura, sobre perfeição incompreendida ou sobre uma vida madrasta. É sobre os caminhos escolhidos, as consequências que aí advém e os diversos prismas pelos quais é possível encarar-se a situação. Phillip Carey tem pé boto, é órfão acolhido pelos tios e cresce no puritanismo do Kent de finais do século XIX. Já crescido, passa a desprezar a languidez do tio, a sua inércia e o seu egoísmo, assim como ora se comove ora se exaspera com a lamechice exacerbada da tia. Deus é um amigo, uma verdade inabalável até certo ponto. Ao desistir, contudo, da carreira eclesiástica, vai estudar para a Alemanha e depara-se com o protestantismo. Também um budista e um católico dividem o mesmo espaço consigo e todos, a par dele que é anglicano, parecem ver a verdade apenas na sua religião. Isso e a sua falta de insolência ou vaidade levam-no a concluir que a religião é, sobretudo, uma questão de geografia. Como ele próprio diz, teria grandes chances de ser protestante se tivesse nascido na Alemanha, ou católico se tivesse nascido em Itália. Isso significa que, por não ser crente na fé anglicana, estaria condenado às chamas do Inferno? É aqui a primeira grande viragem da sua vida. Deus já não comanda a sua vida; o bem e o mal advêm da sua percepção, as escolhas emergem duma mentalidade jovem no início de um século em que a própria sociedade, a economia, a tecnologia, a medicina, o mundo, todo o resto se encontram em ebulição e em franca mudança. Phillip é muito distinto, convencido que está de que é um cavalheiro. As dezenas de personagens – todas elas fortíssimas e indispensáveis – vêm baralhar-lhe as convicções de si próprio. Perante um rico é um burguês patético. Perante um pescador é quase um aristocrata. Embora não seja da sua natureza ser snob – porque também ele é duramente maltratado pela sua condição física e escassez de recursos – discrimina involuntariamente várias vezes. É generoso, mas discreto, tímido e cobarde. Essa sua tendência em pregar-se a uma personalidade mais forte levam-no a tornar-se a sombra dos amigos na escola, na arte, na quase totalidade da sua existência. Ele vai-se dando conta disso, mas não confia no seu próprio juízo. Também isto é uma lição importante a assimilar.
E depois há a Mildred, claro. O papel que, no filme de 1934, impulsionou Bette Davis para o sucesso. Feia, vulgar, snob, miserável, interesseira, estúpida e leviana. Uma simples criada que o humilha num primeiro momento e perante quem Phillip terá sempre tendência a deixar-se perder. Deixa que ela faça dele o que quer, desbarata a sua herança com ela, deixa-o traí-lo de todas as formas possíveis e volta sempre a estender-lhe a mão quando ela regressa, por sua vez desdenhada por um homem mais esperto, que a vê como aquilo que ela é. Que personagem perturbadora, esta Mildred, com a sua decadência moral, as suas mentiras, os seus falsos ares de senhora, os seus queixumes, amuos, sorrisinhos e seduções fáceis, a sua gratidão fingida e momentânea, os seus clarões de fragilidade, o seu desinteresse por qualquer assunto que não entretenimento – jantares, teatro, passeios -, a sua ignorância, “istudante”, a sua fúria sempre prestes a dar azo a outra discussão. Os seus amores assolapados, rápidos a vir e a partir, dando lugar a ódios exacerbados. E Phillip, seu bom “amigo”, a patrocinar-lhe férias com o seu melhor amigo, a cobri-la de chapéus e vestidos, a sustentar-lhe a filha de outro. E depois vem a pobreza extrema, para ensiná-lo a valorizar o trabalho e a ver a vida no seu estado mais dificultado.
Amor, dinheiro, falta de trabalho. Acompanhando o crescimento de Phillip, a sua maturação, surgem assim, por ordem cronológica, os três motivos pelos quais as pessoas parecem dispostas a suicidar-se. E ele, ponderando fazê-lo por cada uma delas, vai-se obrigando a prosseguir. Os tempos são outros. O que é crucial na vida, afinal? Assumindo que esta não tem propósito, ficamos assim perante o seu único sentido; a ausência de nexo. Sem um deus que o guarde, Phillip está por si próprio. A sonhar, a cometer erros atrás de erros, a almejar para si uma felicidade que parece estar sempre ao lado daquilo para que ele se precipita. E então, numa conclusão brilhante, pueril, verdadeira (sobre a qual eu própria discursei bastante durante os meus tempos de faculdade), parece despertar para aquilo que, na vida, se pode extrair de mais doce.
Aconselho vivamente a quem quer que queira experienciar os grandes sobressaltos da existência de qualquer um dos nove aos trinta anos deste Phillip. Tratanto-se de uma autobiografia ficcionada do próprio autor, posso apenas dizer que, como Phillip ou como Somerset, Maugham é um espírito admirável.