segunda-feira, 30 de junho de 2014

#13 The Normal Heart

 Título oficial: The Normal Heart @ 2014
Realizador: Ryan Murphy
Actores principais: Mark Ruffalo, Taylor Kitsch, Matt Bomer, Julia Roberts
Classificação IMDb: 8,3
Minha classificação: 9,0

Apesar de não ter andado com grande apetite para filmes, vi uma frase deste filme que me deu vontade de ir descobrir o trailer. “Man do not naturally not love. They learn not to”. Depois do Dallas Buyers Club, que adorei, surge um filme em torno do mesmo tema. Porém, aqui temos a perspectiva da comunidade nova-iorquino gay. Pessoas com acesso a altos cargos, papéis na imprensa e na saúde, que a partir de 1981 parecem começar a morrer de uma epidemia desconhecida. Um novo tipo de cancro, suspeita-se. Um cancro que apenas ataca os homossexuais. Os pacientes são submetidos a quimioterapia e tratamentos experimentais mal financiados, apenas para morrerem desse mal desconhecido. Suspeitam de uma conspiração do governo para acabar com os homossexuais. O histerismo social eleva-se; é punição pelo pecado da promiscuidade.

Neste contexto, temos o jornalista/escritor Ned Weeks (Mark Ruffalo), judeu, a conhecer o amor pela primeira vez. Foi um homossexual reprimido e, apesar da boa relação com o irmão, nem este parece considera-lo um igual. Como inconformista que é, Ned alia-se a uma médica igualmente inconformada (Julia Roberts) que está desesperada por financiamento para pesquisas e que vê os seus pacientes a morrerem sistematicamente sem que o governo atribua a devida importância ao assunto.
De mencionar que apenas em 1986 o Presidente Reagan finalmente menciona a doença perante o país, permitindo que saia do estigma das minorias sociais.
O filme demonstra, sobretudo, o esforço levado a cabo e a união da comunidade gay, que se vê vítima de ainda mais discriminação perante o desconhecido.
O filme tem uma realização e um argumento muito realistas, muito terra-a-terra. Nada de dramatismo exagerado, por vezes o conformismo com que se aceita o inevitável é mais tocante que uma cena de lágrimas e gritos. É uma obra de grande sensibilidade, que mostra o amor homossexual com mestria, de um modo que toca o coração e que não ridiculariza as diferenças nem cai em estereótipos. O filme está tão bem conseguido que, não fossem as repetidas menções aos direitos das minorias, ao facto de os gays serem igualmente cidadãos americanos, não teria atribuído qualquer importância à orientação sexual do casal principal. Ruffalo e Bomer trabalhavam com eficiência nas suas personagens – a actuação do primeiro é assombrosa, e o segundo completa-o. A química entre os dois é de louvar.
Mas o que fica no final do filme é o sabor a amargo na boca. A dúvida se uns são mais cidadãos do que outros, se há, ainda agora, um modo correcto e um modo errado de viver, se merecemos todos o mesmo tipo de respeito e protecção por parte do Estado. Se o Estado, basicamente, nos leva a todos a sério.
Ned Weeks compara a situação que atravessam ao passado recente do seu povo; todo o mundo suspeitava do que estava a suceder aos judeus e, ainda assim, ninguém fez nada. Todos lavaram daí as mãos até que o assunto “Hitler” lhes tocou também. Acrescenta que um dos grandes responsáveis pelo final da II Guerra Mundial (Green Beret) foi um homossexual que acabou por se suicidar mais tarde devido à sua orientação sexual.
É um filme sobre aceitar-se a si próprio, aceitar os outros como iguais, lutar pelos nossos direitos e abraçar causas, ainda que pareçam não nos tocar directamente. É também um trabalho sobre frustração e esforço caído no vazio, porque nem sempre as coisas recebem a importância que merecem nem na altura devida.
Até ao final de 1986 houve 24 559 mortes relatadas” devido ao HIV. Só aí Ronald Reagan finalmente se pronunciou acerca dessa epidemia. Desde aquilo que se pensa ter sido o surgimento da doença, em 1981, morreram, até hoje e em estimativa, cerca de 36 milhões de pessoas com SIDA. Isto equivale a cerca de seis vezes o holocausto.
Alerta também para que não devemos eludir-nos: o vírus não está extinto, a cura não foi encontrada, e lá porque há controlo e mesmo um certo abafo da circunstância, ninguém está livre de vê-lo bater-lhe à porta.

Comovi-me e chorei com o filme. Compadeci-me da causa. Aprendi dados que considero importantes para melhor compreender a sociedade actual e o mundo em geral. É tudo o que peço da sétima arte.

«It’s because you are too good to be true, because I’ve been waiting for a lover like you for my whole life and you haven’t showed up until now, and I am scared as shit that I might do something to fuck it up. Am I crazy?»

segunda-feira, 16 de junho de 2014

#112 ZUSAK, Markus, A Rapariga que Roubava Livros


Sinopse: Molching, um pequeno subúrbio de Munique, durante a Segunda Guerra Mundial. Na Rua Himmel as pessoas vivem sob o peso da suástica e dos bombardeamentos cada vez mais frequentes, mas não deixaram de sonhar. A Morte é a narradora omnipresente e omnisciente e através do seu olhar intemporal, é-nos contada a história da pequena Liesel e dos seus pais adoptivos, Hans, o pintor acordeonista, e Rosa, a mulher com cara de cartão amarrotado, do pequeno Rudy, assim como de outros moradores da Rua Himmel, e também a história da existência ainda mais precária de Max, o pugilista judeu, que um dia veio esconder-se na cave da família Hubermann. Um livro sobre uma época em que as palavras eram desmedidamente importantes no seu poder de destruir ou de salvar. Um livro luminoso e leve como um poema, que se lê com deslumbramento e emoção.

Opinião: A Rapariga que Roubava Livros é uma história inesquecível. Cada personagem é mais memorável do que a outra, mas o ponto mais precioso de todos, onde o autor prima, é nas relações interpessoais.

A Morte é a narradora, o que causa arrepios ocasionais ao leitor, mas também nos transmite uma sensação de pequenez que vem a calhar em certas épocas da história. Quando nos consideramos maiores e super-poderosos, vem a morte dizer que nos observa de cima. Que nos acolhe no último momento, sem se impressionar com os homens e com as suas vilezas.

A Morte, que em 1943 diz ter estado em toda a parte, graças ao Fürer, narra-nos aqui a história de Liesel Meminger e das vezes em que as duas se cruzaram. A pequena órfã da rua Himmel (Céu), nos subúrbios de Munique, fora acolhida pelo acordeonista Hans Hubberman e a sua mulher com a estrutura de um roupeiro, Rosa Hubberman.

Tantas vezes lemos sobre a II Guerra Mundial, sempre da perspectiva dos aliados, das vítimas arrastadas para um conflito acicatado pela ambição doentia de Hitler, ou da perspectiva dos judeus estilhaçados pela sua loucura. Aqui temos um romance que nos mostra os alemães perante o Fürer, pálidos, trémulos, receosos, de boca amordaçada e membros agrilhoados. Nada de se rebelarem, nada de terem pena, nada de se permitirem ser humanos, nada de desobedecer. Liesel não entende bem o que se passa, só sabe que há fogueiras de livros proibidos, fome, pessoas a serem arrebatadas aos seus lares e aprisionadas na farda da Alemanha nazi. Fanáticos – também os há -, que só atendem os clientes se estes erguerem a mão e bramirem Heil Hitler.

Esta é uma história de corações humanos que são obrigados a silenciarem-se pela loucura geral. É uma visão única da guerra, pela perspectiva alemã, que nos mostra relances de caridade e gentileza. Cada interveniente na vida de Liesel é enternecedor, pessoas vibrantes e cheias de personalidade; o papá, de cigarro ao canto dos lábios e olhos cor de prata, a mamã a chamar nomes a toda a gente – especialmente aos que ama – o seu amigo Rudy, de cabelos cor de limão, a pedir-lhe um beijo. Max e os seus desenhos, a sua saudade e a sua angústia face à família judaica que lhe foi arrebatada. As noites no abrigo antiaéreo e uma menção ao dia de Julho em que a Operação Gomorrah arrasou 45 mil vidas em Hamburgo, onde eu própria estive. Tanta dor, tanta perda... e tão real. Eu diria até, tão recente. E a Morte, como testemunha-mor, a expor os eventos de forma inesquecível, arrebatadora, única. Um livro sem igual, que quebrou o meu jejum literário de 2014. Vejam também o filme, o casting é perfeito.

Classificação: 5*****

terça-feira, 15 de abril de 2014

#111 SIMONS, Paullina, Tatiana [O Cavaleiro de Bronze #2]

Opinião: Há dias, a ver uma entrevista da Paullina Simons sobre o último livro desta trilogia, “The Summer Garden” em Inglês, ou “Alexander” em Português, guardei uma frase que a autora disse. Com um sorriso melancólico, a escritora garantiu que não conhece ninguém no mundo como conhece a Tatiana e o Alexander. E, quando se cria personagens assim tão transcendentes, é natural que sejam todas elas humanas e que possamos conhecê-las melhor do que a nós próprios. Mas este livro não deveria ser chamado “Tatiana”, nem “Tatiana e Alexander” no original. Este livro é algo de maior. E é-o porque a Paullina, nascida em 1963 em Leninegrado, tem um passado de família que ajudou a colorir este amor intemporal, este cenário épico de guerra.
As histórias de guerra são, sem sombra de dúvida, as minhas favoritas. Quem leu o primeiro volume, sobre o qual escrevi aqui, sabe que entre a Tatiana e o Alexander, nas noites brancas de Leninegrado, nasceu um amor que tudo suporta e tudo supera. Neste livro esse amor são lembranças, um conforto terno por entre quilómetros de marcha num continente irreconhecível. Eu, que amo história, fui tomada da agonia destes soldados, tomada das suas dores, aprisionada pelos mesmos grilhões que os mantiveram cingidos uns aos outros.
Nunca lera nada sobre a Segunda Guerra Mundial da perspectiva da Rússia, e aqui tenho uma nativa do maior país do mundo a falar-me da sua cultura e dos seus horrores. Que conflito ignóbil, mas, sobretudo, que filosofias asquerosas as que se confrontaram via térrea, marítima e aérea nesta época. É caso para dizer “venha o diabo e escolha”. Nem Hitler nem Estaline eram alternativa para um mundo melhor, e mesmos os Aliados fizeram uma triste figura ao retalhar Berlim e ao ceder praticamente o Leste todo Europeu às ambições da União Soviética.
Sem revelar demasiado do livro, deixem-me revelar-vos um pouco da época e desta nação comunista, fortemente militarizada, que foi arrastada para a guerra por um passo imprudente do Hitler.
Aos dezasseis anos, era-se obrigado a entrar para o Exército Vermelho. Isto é, como a América estava mergulhada na Grande Depressão (1929), cidadãos americanos e do restante mundo abraçaram a filosofia de Marx e mudaram-se para o estado socialista que se comprometia a dar-lhe forma com eficácia. Era-se assim obrigado a abdicar da sua verdadeira nação. Os emigrantes, na URSS, eram colocados em apartamentos onde dividiam a casa e as latrinas com estranhos. Um quarto geralmente era tudo o que era atribuído por um Estado a uma família. As profissões eram pagas de acordo com as posses do Estado, sem que se gerasse qualquer lucro, pelo que mesmo que se trabalhasse em dobro não havia qualquer hipótese de melhorar o estilo de vida. Apesar de todo o esforço para implementar planos Quinquenais, todos falharam e não só a nível industrial… Também o sector alimentício era incapaz de fornecer alimentos a toda a população, sendo a mesma racionada. Isto intensificou-se com o início da Guerra.
Quando a guerra começou de facto, os Russos achavam que se livrariam do Hitler num instante, mas as suas defesas estavam em baixo. Apesar da militarização da sociedade, não havia fábricas de armamento que suportassem as frentes. Os Alemães promoveram cercos às principais cidades Russas (Moscovo, Leninegrado/São Petersburgo) e, já nos Julgamentos de Nuremberga, descobriram-se documentos onde Hitler e os seus compinchas se comprometiam a destruir totalmente o património Russo, sobretudo a nível de construção civil e cultural. Queriam que as suas cidades e os seus tesouros “desaparecessem do mapa”, fossem “arrasados por completo”. Não se preocupavam com a população, a quem não permitiriam fugir aos cercos, pois a Pátria Mãe Alemã não iria promover quaisquer esforços para matar a fome aos soviéticos, ainda que civis.
Os soldados soviéticos eram acusados de alta traição se se deixassem capturar pelos inimigos da Pátria. Eram acusados do mesmo se desertassem ou se cumprissem qualquer serviço (campos de trabalho, por exemplo) para o inimigo da Mãe Rússia.
Após a libertação da Europa do domínio nazi, os prisioneiros de guerra foram deixados em liberdade. Britânicos, Americanos, Franceses, etc., sob domínio Alemão, bem como os poucos sobreviventes judeus do Holocausto, ficaram livres de partir. Os cidadãos soviéticos (de qualquer país sob este domínio) foram obrigados a esperar nos campos de trabalho/prisões pela chegada do Exército Vermelho, que tinha outros planos para os seus soldados. Apesar de vencedores, os soldados soviéticos recuperados a campos de prisioneiros de guerra foram condenados à prisão e a trabalhos forçados. As penas andavam à volta de vinte e cinco anos por traição à URSS.
As relações com a Rússia eram tão delicadas que os próprios Americanos receavam interpelá-los a respeito de possíveis soldados americanos extraviados em território soviético e feitos prisioneiros. Mesmo a Cruz Vermelha fora banida dos campos de prisioneiros europeus, pelo que não havia qualquer controlo.
Um cidadão que fugisse da URSS tinha o seu nome notificado nas embaixadas estrangeiras, com um decreto a exigir que fosse entregue à sua pátria para que esta o punisse pela sua ingratidão.
O filho do Estaline foi capturado por tropas inimigas. Estaline não moveu um dedo para o auxiliar; o filho tornara-se um traidor da pátria.
Um país conduzido por um ideal que abomina a ideia de Estado, mas onde o Estado é detentor absoluto de todas as decisões.
Com o mundo do avesso, quero ver como é que o meu querido Alexander e a incansável Tatiana se irão reunir.
Que mundo mais louco, este! E pensar que tudo isto aconteceu há nem cem anos…

O livro foi uma lição de História perfeita, daquelas em que vivemos algo através da nossa afeição às personagens principais. Ambos já fazem parte do meu universo de personagens favoritas. Como Scarlett e Rhett (E Tudo o Vento Levou), na Guerra Civil Americana, ou Matilde e Manet (Um Longo Domingo de Noivado), na Primeira Guerra Mundial. Neste último caso, também estamos perante uma mulher de fé inabalável, que vai percorrer todas as trincheiras da França até descobrir, ao certo, o que sucedeu ao amor da sua vida. Um dos finais que mais me emocionaram até hoje, e um livro nada fácil que tive de ler duas vezes.

Sinopse: Com apenas dezoito anos, Tatiana está grávida e só. O seu marido, Alexander, foi acusado de espionagem e preso pela infame polícia secreta de Estaline.Alexander é um herói de guerra condecorado que carrega um segredo fatal. Nascido na América, vive encurralado desde a adolescência na União Soviética, para onde imigrou com os pais, que queriam viver o ideal comunista. Mas o brutal regime do país rapidamente destroçou os seus sonhos. Para se proteger, Alexander serviu o Exército Vermelho e fez-se passar por cidadão soviético. Para ele, a II Guerra Mundial é já uma causa perdida: tanto a derrota como a vitória significam a morte.
As notícias que dão conta do triste destino de Alexander levam Tatiana a fugir para a América. Quando chega a Nova Iorque, ela é uma jovem viúva com um filho pequeno nos braços e um passado doloroso. Pouco tempo depois, tem um emprego, amigos e a vida com que nunca ousou sonhar. Mas a dor pela perda de Alexander nunca a abandona. Algures dentro de si e contra todas as evidências, ela continua a ouvir a voz do seu grande amor...
Uma história épica de amor e guerra. Um hino ao poder dos sentimentos e da fé humana.
Tatiana é a sequela do bestseller mundial O Grande Amor da Minha Vida.

Classificação: 5*****

quinta-feira, 13 de março de 2014

#110 KLEYPAS, Lisa, Paixão Ardente

Opinião: [Ai, os nomes destes livros, Cristo!] Já tinha lido o livro em inglês e tinha a ideia de que era um pouco “sem sal”, sobretudo no rescaldo do “Devil in Winter” (recuso-me a chamar-lhe a mixórdia que lhe chamaram em português), que é o meu favorito da série.
Este livro encerra a série “Wallflowers”, dando protagonismo à última das encalhadas, Daisy Bowman.
Debruçando-me sobre um quarto livro, seria de esperar que fosse o menos imaginativo, mas é o mais romântico de todos, também porque a Daisy é a mais sensível e sonhadora, e por isso marca pontos para quem está nesse estado de espírito.
A Daisy é uma criaturinha diferente, pouco dada a questões práticas, e nisso identifico-me com ela. Só um homem com uma certa sensibilidade poderia entendê-la, e por isso Matthew Swift é o homem perfeito para ela. Com um passado um tanto obscuro, sempre lhe teve uma afeição bem disfarçada que só agora conhece a luz. É um livro sobre duas pessoas destinadas a estarem juntas, e gostei do conflito inicial gerado pela insistência do pai de Daisy em casá-la com Matthew, e também da forma como a protagonista é fiel ao seu coração e não tenta contrariar os seus sentimentos. No caso de Matthew, embora receie que o passado regresse para o assombrar, decide arriscar e tentar ser feliz. Um lutador e uma jovem de alma pura, a encerrarem com chave de ouro esta série.
Romântico, bem-disposto, foi uma leitura que conseguiu arrancar-me emoções, área em que a Kleypas nunca falha. 

Sinopse: Depois de três temporadas em Londres em busca de pretendente, o pai de Daisy Bowman informa-a de que deverá arranjar marido. E depressa. E se Daisy não conseguir desencantar um candidato adequado, terá de se casar com um homem da escolha do pai: o cruel e emproado Matthew Swift. Daisy está aterrorizada, mas uma Bowman jamais admite a derrota. E, por isso, a jovem decide fazer os possíveis para arranjar outro pretendente que não Matthew. Mas Daisy não contava com o charme inesperado de Swift… nem com a sensualidade escaldante que depressa brota entre ambos, acabando por descobrir que, apesar de segredos e intrigas que o destino teima em impor, o homem que sempre odiou poderá ser aquele com que sempre sonhou.

Classificação: 4****/*

sexta-feira, 7 de março de 2014

#12 La Grande Bellezza | A Grande Decadência

 Título oficial: La Grande Bellezza @ 2013
Realizador: Paolo Sorrentino
Actores principais: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli
Classificação IMDb: 7,8
Minha classificação: 9,0
Prémiações: Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro


A Grande Beleza é um filme arrojado, desconcertante, que nos obriga a olhar para nós próprios e para a nossa posição face à sociedade. É também uma análise dura a essa mesma sociedade, num tom ora indulgente ora acusatório. Sendo Gep Gambardella (Toni Servillo) o espectador, somos simultaneamente a sua consciência e o seu juiz. Isto porque Gep tem visão, tem consciência, tem uma voz que vai narrando a sua percepção do que o rodeia ao longo do filme.
Se mesmo Flaubert falhou ao escrever um livro sobre o nada…” Sendo esta, sem dúvida, a frase mais significativa do filme. Gep está rodeado de um nada absoluto – um nada de espírito e de beleza que o impede de criar um novo livro.
Gep, jornalista, escreveu um livro “O Aparelho Humano” há quarenta anos, o que lhe valeu um lugar na sociedade entre uma classe alta em decadência e uma nobreza falida. Desde então é um frequentador de festas, um amante de álcool, um praticante de sexo casual. As pessoas circulam pela sua vida sem deixar marca, tudo numa superficialidade que, por vezes, roça a hostilidade. Ninguém está limpo e todos conhecem os podres uns dos outros. Pessoas que teriam tudo para ser felizes – dinheiro, estatuto -, mas a quem falta nobreza de alma e força de espírito. Ainda assim, os diálogos são ilustrativos da falência dos valores e, em geral, cativantes e espirituosos. Cada linha do guião é algo de maior, susceptível a interpretação.


Gep está perdido, tem estado perdido há quarenta anos. Um assumido misantropo que pertence à classe que tanto o repugna. Não há nada de sagrado na sua vida excepto, talvez, o grande amor que perdeu na juventude. Ele próprio tem noção da mediocridade da sua “obra”, da nulidade da sua pessoa como escritor e jornalista. Nunca se sabe porque Elisa o deixou; a vida é mesmo assim, um grande e incómodo ponto de interrogação. Mas consta que o amou a vida inteira, e essa descoberta causa incredibilidade e lança-o numa reflexão pessoal. Caminha então, só e nostálgico, pelas ruas da Cidade Eterna. Terá Elisa amado o homem que se deita quando os outros se levantam? Ou terá amado a camada interior dele, a que encarcerou ao lançar-se numa vida de excessos na capital?


Roma surge fotogénica, melancólica, também ela as ruínas graciosas de um Império caído. No interior dos seus palácios arruinados consomem-se drogas, engatam-se pessoas cujos sonhos foram destruídos ou se projectam prenhes de frivolidade, dão-se festas, convive-se com anões, esquizofrénicos, adúlteros, viciados na noite, toxicodependentes, strippers, noviças, até surge uma “Santa” mais para o final da trama. Um apontamento comovente, por entre tanta loucura, o momento de nos reencontrarmos com a firmeza das crenças e da vontade de se fazer a diferença e de se honrar a obra que é o mundo. É a peça-chave do filme; alguém que vive de convicções por entre pessoas que são nada e que se arrastam vazias, sobre os tacões, de divertimento em divertimento.
Um filme de grande beleza que lida com o feio, com o absurdo. Uma voz que tem consciência do ar que respira e que, ainda assim, escolhe cirandar por esse meio, julgando-se, quem sabe, superior. Um homem que não tem nada; nem filhos, nem um grande amor, nem amigos sinceros, nem inspiração para retomar o sucesso literário, nem tempo. Dando-se conta do que perdeu, do que lhe escorreu por entre os dedos, Gep continua a sorrir, continua a ser quem sabe ser; dança e bebe no seu palazzo com vista para o Coliseu.
O absurdo da sociedade moderna, assim exposto, causa um certo incómodo. Um homem que vê, que sente – ele próprio garante ter escolhido o caminho da sensibilidade – e que nunca praticou a sua própria escolha, é decerto um homem desencontrado do seu destino.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Pássaros Feridos I

Eu já esperava bastante deste livro, mas tem sido uma surpresa avassaladora. A Colleen McCullough entrou para o meu mapa de estrelas literárias e já tenho as ideias fixas em O Toque de Midas. Vejamos se consigo chegar-lhe.
Pássaros Feridos tem mais de 600 páginas e é contemplado com um título que lhe assenta como uma luva. Todas as personagens tem a graciosidade de um tentilhão e carrega um peso bem maior. Alguns segredos já foram sendo revelados, e outros estão ainda por vir.
Não querendo fazer um resumo do livro, porque isto de partilhar opiniões não é um encarnar de “Os Apontamentos do Senhor Américo”, vou destacar algumas das maravilhas contidas no livro.
A Austrália, como personagem maior. Por fim entendo o que significa a expressão “os australianos estão demasiado ocupados em evitar que a natureza os mate para…”. Um calor abrasador (que ascende a 48º no inverno - sim, é hemisfério sul) e uma época de secas em que o frio é tão intenso que custa lavarem-se, despirem-se, deitarem-se numa cama de lençóis perceptivelmente molhados. As cobras, as aranhas, os javalis, as emas, tantas outras exoticidades que transformam a paisagem australiana, descrita no livro, num paraíso de actividade. As cheias, as secas, a difícil adaptação ao clima e às distâncias impossivelmente longas.
As personagens são outro tesouro do livro. A Maggie é fácil de ler, embora também tenha um carácter vincado, mas são sobretudo o seu irmão Frank, a tia Mary Carson e o Ralph (o padre por quem é apaixonada) que me cativam a cada virar de página.
Um livro que espelha bem o peso das obrigações, da vergonha, das escolhas. Rebate as invejas, as vaidades, a fé e a descrença com uma mão tão hábil que é certo que esta será uma daquelas obras que perdurarão comigo para sempre.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

11# Um Quente Agosto

Título oficial: August Osage County @ 2013
Realizador: John Wells
Actores principais: Meryl Streep, Julia Roberts, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch
Classificação IMDb: 7,4
Minha classificação: 9,5
 
Que filme poderoso; a prova perfeita de que não é preciso falar-se de grandes questões, genocídios ou intriga e espionagem para se obter algo intenso. Conforme ia absorvendo a míriede de personalidades - todas tão fantásticas, todas tão bem caracterizadas e com um casting tão bem direccionado! - ia desejando que houvesse um livro. Disse à minha irmã que um filme com uma riqueza de enredo e um leque tão rico de personagens teria de ter, necessariamente, um grande livro por trás. Parece que não é livro, é uma peça de Tracy Letts que ganhou o Pulitzer. Se conseguir deitar-lhe a mão, será uma leitura para breve. E pensei também que era exactamente o género de livro que eu gosto de escrever.
Cada vulto da família Weston/Aiken tem uma personalidade muito vincada, muito própria, move-se num ritmo muito seu e vem acompanhado de algumas ligações muitíssimo bem exploradas.
Temos o casal Weston, Violet e Beverly, pais de Barbara, Ivy e Karen. Beverly desaparece de casa, não pela primeira vez, e Violet chama as filhas aquando da ocorrência. Ela própria tem cancro da boca e é viciada em narcóticos. Sobre a Meryl Streep como Violet, guardo a minha opinião para o fim.
Uma Julia Roberts mais velha (azar dos azares, revi o Pretty Woman @ 1990 há duas semanas), mas também mais madura, mais mulher maculada, dá a cara por Barbara. É a filha favorita de ambos os pais - e Violet faz estandarte disso -, mas é também a mais amargurada e a mais difícil. Despreza o cantinho do Oklahoma onde os pais continuam encerrados, tal fica subentendido nalgumas das suas observações. Acho que é um papel soberbo interpretado pela actriz certa, só a Júlia exibe um misto de força e vulnerabilidade capaz de tornar a Barbara num molde da mulher real, outrora um forte, agora uma torre em chamas. Apresenta-se em casa com Bill (Ewan McGreggor) e a filha de ambos, Jean (Abigail Breslin).
Juliette Lewis encarna Karen, a irmã mais nova, pelo que julgo ter compreendido. Também a mais desmiolada, embora seja uma romântica bem intencionada e egocêntrica, com laivos de compaixão nas entrelinhas. Reúne-se com a família trazendo o “noivo” (Dermot Mulroney) de arrastão. Ninguém parece muito convencido da durabilidade da nova relação de Karen, e essa descrença, esse deboche quanto ao modo como conduz a sua vida, contribui para a melhor cena do filme, que é também a melhor cena que vi num filme nos últimos tempos (desde A Vida de Pi @ 2012, que está pejado de cenas de beleza incontornável).
A irmã mais discreta, mas cuja história vai abrindo caminho por entre as participações mais efusivas das irmãs nos assuntos de família, é Ivy (Julianne Nicholson), que se vai revelando como a filha desprezada, sempre criticada pela dureza implacável da mãe, mas também a que sempre permaneceu a seu lado. O facto de estar a começar a ser feliz com um homem vai causar dissidências na família e trazer ao de cima um segredo nunca discutido.
Depois ainda temos a tia Mattie Fae (Margo Martindale), como uma irlandesa amargurada que é quase uma bully para com o próprio filho, Little Charles (Benedict Cumberbatch). É a irmã de Violet e a tia das raparigas, e está por dentro de todos os assuntos, alem de ser a pessoa que mais se assemelha ao carácter ríspido da irmã, que suplanta todos. O filho, Little Charles, soberbamente interpretado por Cumberbatch, que gagueja, se encolhe, baixa o rosto e arregala os olhos sempre que a mãe lhe dirige uma crítica, e que recebe com complacência as carícias de apoio do pai (Chris Cooper).
A melhor cena do filme é a que reúne a tensão de todos à mesa, para um jantar que se segue a um acontecimento infeliz, e em que Meryl Streep rouba a cena. Que ritmo, que energia, que capacidade de pular da louca viciada em narcóticos para a mulher inteligente e calculista que não deixa que nada ao seu redor lhe escape. Que vitalidade numa mulher que, apesar de cada vez mais velha, continua um vulto de carisma e de feminilidade, mais nítida quanto mais alto se ergue a sua voz, quanto mais bruscos são os seus gestos. Que admirável o modo como parece carregar em si todos os azedumes que a vida a fez experimentar, guardando a tradição sem ser retrógada, e sendo, em simultâneo, a pessoa menos convencional da casa. E que par à altura descobre na Julia Roberts, que lhe faz frente com tanta mestria!
O filme é uma lufada de ar, um vir à luz, dos segredos de uma família. Poderia chamar-se assim, “Segredos de Família”, mas chama-se antes, no título original, “August Osage County”, porque é como se o calor intenso que se faz sentir, recorrente em cada cena, condicionasse o caminho escolhido por todos, vulgo, “lhes torrasse os miolos”. e fosse o principal culpado pelos erros de todos. As planície do Oklahoma, de Osage County, como as causadoras da traição, da pobreza, da ascenção económica, da rebelião, da gritaria e, sobretudo, da aridez de quase todos os carácteres femininos.
Um ensaio sobre a natureza das relações, sobre a tomada de oportunidades, sobre escolher-se a si ou escolher os outros, sobre desviar-se do caminho, perder-se (a si, ao rumo). O filme deixou-me maravilhada. Nunca eu vira uma família tão brilhantemente retratada, cuja história foi moldada pelos os outros, pelas circunstâncias económicas, pelas aspirações, pelas infâncias e pelo calor de Osage County.

Classificação: 9,5/10