domingo, 14 de setembro de 2014

#117 MCNAUGHT, Judith, Para Sempre

Sinopse: Victoria Seaton cruzou um oceano. Para trás, deixou tudo o que amava. A sua cidade, Nova Iorque. Andrew, o homem dos seus sonhos. E a casa onde nasceu, agora tristemente vazia após a morte súbita dos pais. Desamparada, Victoria não tem outra solução que não rumar ao desconhecido. A Inglaterra, um país que que nunca visitou. Aos aristocráticos Fielding, uma família que nunca viu e à qual pertence apenas no papel. A uma herança que não sabia existir. O seu único conforto é a sua irmã Dorothy, a quem protege fingindo ser a mulher corajosa que, intimamente, teme não ser. A alta sociedade britânica rapidamente a põe à prova com as suas regras rígidas, tão diferentes dos modos calorosos e simples do seu país natal. Igualmente impenetráveis são as reacções da família. Quando conhece a avó – a duquesa de Claremont - Victoria não percebe o porquê do seu olhar venenoso e a sua obstinação em acolher apenas Dorothy. As irmãs acabam por ser separadas e Victoria fica à mercê do jovem lorde Jason Fielding, seu primo afastado. Jason é um homem frio, sensual e implacável. Nos salões da moda, é o alvo de todas as atenções, a chama que atrai homens e mulheres, o “felino selvagem entre gatinhos domésticos”. Ele permanece um mistério aos olhos de Victoria, que recusa submeter-se às suas ordens ríspidas. Por seu lado, Jason não sabe como reagir ao temperamento explosivo da jovem americana. A relação de ambos é tão excitante quanto impossível. Sobre ela paira - negra e omnipresente - a sombra do passado com os seus mistérios, segredos e crimes…


Opinião: Ao final de se ler centenas de livros, atinge-se um estado interessante… O que deriva do facto de ter lido este livro pela terceira vez como se fosse a primeira.
Da primeira para a segunda vez que o li, a memória obliterou todo o seu conteúdo. Li-o da segunda vez em inglês, na diagonal, e fiquei com um grande fraquinho pelo personagem principal masculino, o Jason.
Depois, quando soube que ia sair em português, pus-me na fila para o adquirir e devorei-o em todos os minutinhos livres de que dispus.
Já li muitos livros do género, a fórmula não varia demasiado: a autora atira dois protagonistas para um casamento arranjado. Aqui variam os motivos A) havia sido acordado pelas famílias e ambos estão desgostosos. B) Ele cobiça-a e consegue-a. Apenas ela está desgostosa. C) Envolveram-se e ele acaba por a pedir em casamento para salvaguardar as aparências. Ambos se fingem de desgostosos. D) Ele pede-a em casamento por uma questão de honra ou para salvá-la da pobreza. Não se entendem durante trezentas páginas porque ela se martiriza por ser um fardo e ele acha que ela só precisa dele para comer.
Enfim, depois variam os desafios que a autora atira para cima do casalinho maravilha. Um deles foi pobre. Um deles foi maltratado pela família. Um deles gagueja. Um deles foge ao passado. Um deles havia jurado nunca se casar. Um deles pensava que amava outra pessoa. Ele é sempre um libertino. Ela é sempre virgem.
Etc., etc., etc.
A Judith fez aqui algumas modificações na história. Primeiro, o Jason é realmente silencioso quanto ao seu passado. Não apenas silencioso quanto discreto. Não tem nada de pedante quanto a isso. Não se gaba de ter saído do nada, não usa a sua influência para obter o que quer, está muito calmo na vida dele, viúvo, quando a Victoria entra pela vida dele adentro. A Victoria não é uma tontinha nem cai de amores por ele assim, sem mais nem menos. É bonito vê-los serem cativados um pelo outro.
A Victoria é americana, perdeu os pais e descobre que a única família que tem pertence à aristocracia inglesa. Ao pôr os pés em Inglaterra, é imediatamente despejada para um noivado de fachada com o viúvo Marquês de Wakefield.
A fórmula também não é assim tão diferente das restantes; ele é sombrio, tem humor negro, é estupidamente atraente, toda a gente foge a esconder-se quando ele dá ordens, raramente se ri. Ela é um sopro de alegria na casa dela, ora infantil, ora uma coisinha sedutora.
Contudo, foi interessante ver um livro que junta duas pessoas perfeitas uma para a outra, duas pessoas que precisam uma da outra, e uma pesquisa histórica tão bem feita. Ao contrário de outros livros do género, em que apenas nos damos conta de estarmos no século XIX porque ela usa decotes imorais, muitas jóias, frequentam muitos bailes e andam muito a cavalo, este contém toda a espécie de detalhe que enternece quem se interessa por história. Além da comparação entre os hábitos sociais na América e em Inglaterra, na época, ficamos a saber quanto tempo deveria uma filha guardar luto pelos pais, o que era esperado dela, em que pé está a medicina, como se passam os serões, que jogos se jogam, o que se bebe, o que bebem as mulheres, o que preferem os homens? O que fazem os homens ao serão? O que fazem as mulheres? Como funciona uma casa? Como se enriquece no século XIX? Quanto tempo duram as cartas a circular pelo mundo? Como faziam os navios a travessia do Atlântico? Como vivem os casais na intimidade? O que é aceitável socialmente de um marido? O que é imperdoável numa mulher?
Gostei muito do livro. Houve mal-entendidos, como é evidente, mas não por falta de comunicação. Os protagonistas guardam os seus sentimentos por receio, mas depois recusam-se a acreditar que o outro não os estime. Não são assim tão inseguros ou cegos. Têm dúvidas, sobretudo se estarão à altura do outro, se o merecem, se podem fazê-lo feliz. São muito humanos, divertidos, coesos.
A Victoria é corajosa, honesta. O Jason tem um orgulho do qual ele próprio, por vezes troça. Como quando uma bala que fez ricochete numa árvore o atinge, e ele fica sentado após o embate, chocado, e comenta que não acredita que foi a árvore, e não o seu oponente, a causar-lhe dano.  
Foram um casal amoroso, muito bem construído. Mesmo os empregados têm personalidades marcantes, dando vontade de ler-se também sobre eles, as suas opiniões e mexericos. A autora mostrou muito bem o que era esperado do mordomo, do cocheiro, do lacaio, do bláblá, e do Northrup, abridor de portas e com orgulho!
Da parte da escritora, lamento que o assunto “Jamie” tenha sido enterrado ao fim do prólogo. Quem ler saberá do que falo. Acho algo demasiado importante para ficar assim enterrado sem repercussões no futuro de alguém como o Jason. Da parte da editora, lamento algumas escolhas de palavreado por parte da tradutora. Enjoei da palavra “delicado/delicada” e “encantador/encantadora”. Gostaria de lhe falar da existência de outros adjectivos.
Aconselho a todas as leitoras que gostam da Julia Quinn, da Sherry Thomas, da Lisa Kleypas. Foi um livro delicioso em que, mesmo nas partes mais íntimas, manteve uma grande elegância. Falta um bocadinho desse realismo a algumas das outras autoras. Não passem por cima da Física e da Anatomia só para provar que estes homens são uns garanhões na cama!

Classificação: 4****/*

sábado, 9 de agosto de 2014

#116 SMITH, Deborah, O Café do Amor



Sinopse: Cathryn Deen vivia num mundo de sonho: atriz famosa, idolatrada, era considerada a mulher mais bela do planeta. A fama era tudo na sua vida. Mas após sofrer um trágico acidente de automóvel, que a deixa marcada para sempre, decide ocultar-se de tudo e todos.
Escondida na casa da sua avó materna nas montanhas da Carolina do Norte, Cathryn tenta ultrapassar os seus traumas com a ajuda da sua grande prima Delta, uma mulher roliça e bem-disposta, dona do café local. Considerada por todos a alma daquele vale, Delta alimenta com os seus cozinhados e biscoitos deliciosos o corpo e o espírito dos mais carentes.
Um dos seus protegidos é Thomas Mitternich, um famoso arquiteto, fugido de Nova Iorque, após os atentados às Torres Gémeas lhe terem roubado o que de mais valioso tinha na vida: a mulher e o filho. Atormentado pela culpa, Thomas acredita que nada nem ninguém lhe poderá devolver a razão de viver e, entregue ao álcool e ao desespero, espera um dia ganhar coragem para se juntar àqueles que mais amava. O destino irá cruzar os caminhos de Cathryn e Thomas numa história magnífica de superação, ensinando-os a transformar as adversidades em oportunidades e a valorizar a beleza que existe em tudo o que os rodeia.
Opinião: Tendo lido “A Doçura da Chuva” e recordando-me do quanto essa obra me enterneceu, lancei-me n’O Café do Amor com grandes expectativas. Apesar disso, o livro excedeu-as (detesto a expressão “encheu-me as medidas”).
Há uma doçura e uma crueza intrínsecas nas histórias de Deborah Smith. Nada de milagres. Aqui fala-se de superação. No caso deste livro, como a própria sinopse anuncia, lidamos com duas pessoas marcadas por tragédias pessoais.
Cathryn Deen é uma espécie de Julia Roberts inventada pela autora. Uma mulher bela (“a mais bela do mundo” segundo uma série de revistas enumeradas), casada com um oportunista e autora de uma linha de cosméticos chamada “Flawless”, que significa, mais ou menos “Perfeita” – ou, literalmente, “sem defeitos”. Por ironia do destino sofre um acidente de carro, parte do corpo é consumido pelas chamas e assim perece também a beleza que lhe abriu tantas portas, a auto confiança e aquilo que definia a sua identidade. Perdida, acaba por aceitar refugiar-se nas Apalaches do Sul, na Carolina do Norte, desesperada por encontrar um novo sentido para a sua vida e por esconder o seu rosto desfigurado dos media.
Thomas Mitternich é um homem perturbado. A catástrofe do 11 de Setembro levou-lhe a mulher e o filho e ele refugiou-se no mesmo local onde Cathryn vem esconder-se. A dona do café de Crossroads, Delta, vai tentando afastá-lo da depressão e das tendências suicidas com biscoitos e tarefas que lhe vai impondo. Apaixonei-me pelo Thomas ao primeiro telefonema que ele fez à Cathy. Não se conheciam e ele foi instigado pela Delta, prima afastada de Cathryn, a consola-la enquanto ela se encontra na Unidade de Queimados, isolada do mundo, confusa e assustada.
Como mencionei, é um livro sobre superação. Sobre ultrapassar-se cicatrizes tão grandes que ameaçam o rumo das nossas vidas. Sobre fechar-se a porta sobre os receios e os pesadelos. Sobre reaprender-se a viver, passo a passo, reaprender-se a dar-se valor e a ser-se útil para alguém. Reviver, depois de se ter perdido tudo e de termos deixado de ser quem éramos – pai, marido, actriz famosa, admirada, bajulada. Reaprender a ser.
Apesar de ter lido comentários onde se diz que o livro é um tanto previsível, não considero a imprevisibilidade um factor determinante para a qualidade de um livro. É bom que existam livros que nos levam a desconfiar que vai acabar tudo bem. Que um dia o Thomas vai deixar a bebida e a Cathy vai deixar de esconder o rosto com lenços. É bom acreditar que vão superar, que é possível salvar o nosso espírito após um rombo tão grande no barco. Que a alma é costurável, recuperável, reciclável. Que só é precisa a pessoa certa com a cola certa. Que uma chávena rachada pode ser restaurada, embora a fenda seja sempre visível num estudo mais cauteloso.
Por muito bonito – e muito actual, e muito socialmente aceitável e até desejável – que as pessoas se desembaracem sozinhas, a verdade é que uns sem os outros somos nada. E este livro ilustra a ausência de vergonha em precisar-se de ajuda e em depender-se doutrem para se sair de um buraco pessoal e se voltar a amar e a ser feliz.

Classificação: 5*****

domingo, 27 de julho de 2014

#15 Voando Sobre Um Ninho de Cucos


Título oficial: One Flew Over the Cuckoo's Nest @ 1975Realizador: Milos FormanActores principais: Jack Nickolson, Louise Fletcher, Danny de VitoClassificação IMDb: 8,8Minha classificação: 8,0
"Um Estranho no Ninho", como lhe chamam os brasileiros, é um filme de 1975 baseado no romance de Ken Kesey de 1962. Jack Nickolson apresenta-se como o irreverente "Mac" McMurphy que, acusado de violar uma rapariga de 15 anos, é levado a um hospital psiquiátrico para se avaliar se é doente mental ou um criminoso comum. 
Apesar de ser um filme comovente, lindíssimo, com muitos assuntos prementes para reflectirmos, o mais importante é entender-se os deslocados. Os tímidos, os dementes, os iludidos, os desajustados. Uma série de loucos senta-se a jogar às cartas diariamente na enfermaria de um hospital psiquiátrico gerido com punho de ferro pela enfermeira Mildred Ratched. Uma mulher rígida que aplica técnicas violentas e opressoras para impor a rotina e impedir os doentes de saírem debaixo da sua asa. Mac assume-se de imediato como o chefe dos doentes, tornando-se um adversário à altura de Mildred. O que se segue é um combate entre as técnicas da enfermeira para vergar espíritos e o espírito aparentemente indomável de Mac.
Para mim, portuguesa, a grande surpresa foi descobrir (que vergonha só o ter sabido agora) que a horrenda técnica de psiquiatria apelidada de “lobotomia”, que transformou tantos homens em vegetais, foi inventada pelo Português Egaz Moniz, o famoso das faculdades e das ruas, que ganhou o Prémio Nobel da Medicina em 1949 por essa barbaridade.
Tenciono ler mais sobre o assunto, quem sabe até desbravar a complexidade da Psiquiatria num novo romance. Mas por enquanto basta-me ficar de queixo caído por saber que o pai de Rosemary Kennedy (e J. K. Kennedy) submeteu a filha rebelde, de 23 anos, a esta técnica, condenando-a a uma incapacidade permanente para o resto da sua vida.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

#115 ROSA, Carina, As Gotas de um Beijo



Sinopse: Desde que o seu casamento de vinte anos terminou, David é um homem solitário. É no stand de automóveis que dirige que afoga as memórias do passado e a solidão do presente. Afastado de casa e dos filhos, é obrigado a gerir sozinho as acções e as escolhas que fez ao longo da vida, nas quais Diana, uma amiga de infância que considera irmã, tem um papel fundamental. Diana é o seu porto de abrigo e o seu braço direito, mas foi mais do que isso durante o seu casamento agora destruído.
A afinidade entre David e Diana, também divorciada, é quebrada pela chegada de uma mulher ruiva que revela muito pouco de si própria. Laura é atraente e misteriosa, e a atracção entre si e David é mútua e intensa. Será ela a mulher doce e simples que aparenta ser? Entre a joalharia e o stand, passa a alternar-se a languidez dos dias com a turbulência das noites e David acaba por se embrenhar num mundo perigoso de segredos, mentiras e traições. Dividido entre duas mulheres, estará David a encaminhar-se para o fundo do abismo?

Opinião: Na realidade, 3,5. Já devo esta review à Carina há imenso tempo, e finalmente reencontrei o livro dela, peguei no touro pelos cornos e acabei-o. É importante ter em conta o enorme potencial desta escritora, bem como a sensibilidade que imprime às suas personagens. O ponto forte da Carina são, sem sombra de dúvida, os diálogos. Coisas que escritores como a MRP constroem banais, o TR sem alma nem sal e o PCF cria sem qualquer nexo, só pelo absurdo de cuspir palavras para o papel. A Carina dá muito ritmo ao livro com os diálogos, são realistas e fluidos e por isso merece os meus parabéns. Não é fácil para um escritor expandir-se, dar vida a outras almas. E a Carina cria personagens sólidas e credíveis, embora sempre atormentadas por dilemas interiores e demasiado rápidas a dar-se. Gostaria de vê-las mais concisas, mais resistentes à mudança e não tão permeáveis aos sentimentos. Quanto ao enredo, está bem conseguido, entendo o dilema da personagem principal, o David, mas não gostei de duas coisas: 1) não consegui simpatizar com ele de modo algum, nem jamais me apaixonaria por ele. 2) a confusão de sentimentos que nutre quanto à Laura e à Diana é pouco dignificante para elas e peca na construção dele como personagem, porque tanta divisão causa-lhe fraqueza de carácter. Achei que o timming do livro também é muito apressado, pelo que temos (leitor) pouco tempo para interiorizar as emoções das personagens. De resto, quanto à Carina, só vejo espaço para crescer e, a seu devido tempo (e o próximo passo está dado) tem todas as capacidades para se tornar a nova escritora favorita de muitos portugueses. Sem falar que é uma Nicholas Sparks de qualidade nacional!

Classificação: 3***

quarta-feira, 16 de julho de 2014

#114 SHREVE, Anita, A Vida Secreta de Stella Bain

Sinopse: Neste envolvente drama, Anita Shreve tece uma apaixonante história acerca do amor e da memória, tendo como pano de fundo uma guerra que devastou milhões de civis e deixou sequelas em todos aqueles que testemunharam os seus horrores. Um romance histórico inesquecível, sério e surpreendente. França, 1916. Uma mulher acorda na cama de um hospital de campanha em Marne, sem qualquer recordação do seu passado ou de como ali chegara. Identificou-se como Stella, mas sente que esse não é o seu verdadeiro nome. De repente, uma palavra incita-a a agir e Stella parte para Londres, onde espera encontrar algumas respostas e abrir as portas para o seu passado. «A viagem interior de Stella permite-nos vislumbrar os horrores da Grande Guerra, o dealbar da psicoterapia e a primeira vaga do movimento feminista... A história de uma mulher improvável e misteriosa.» Los Angeles Times «Contido e elegante, este romance de Anita Shreve revela um conhecimento profundo das dificuldades que as mulheres sentem quando tentam viver a vida segundo os seus próprios desejos.» People «Fascinante... Um romance afetuoso com um tema sério e complexo.» Washington Post «Um livro terno e desapiedado.» Publishers Weekly «Comovente, enternecedor, por vezes tão intenso e vivo que quase conseguimos sentir o medo.» Boston Globe «Um livro que vale mesmo a pena ler!» 

Opinião: Não há um livro da Anita Shreve que não me cative. Tudo porque a escritora tem um jeito despretensioso de apresentar as situações, e é exímia em descrever as cicatrizes que ficam na alma após um trauma.
No início do livro estava intrigada quanto a Stella Bain, a desmemoriada. Mas a autora, que é do género que permite ao leitor formar a sua própria ideia das personagens, não a descreveu fisicamente, nem sequer a pôs a ponderar sobre a sua idade. Na verdade, a primeira parte do livro é um pouco superficial e apressada, sobretudo tendo em conta que a segunda parte, a partir da “revelação”, é tão mais detalhada. Talvez esse vazio seja um relance do interior da mente de Stella, desprovida de quaisquer recordações.
A autora, contudo, não quis focar-se demasiado na situação da enfermeira de guerra sem memória, que acaba por ser o chamariz para o livro se nos basearmos apenas na sinopse. Neste âmbito é abordada a terapêutica de Freud, em voga tanto em Inglaterra como na América, e a doente é temporariamente tratada por psicoterapia. O Doutor August Bridge surge nesse contexto, como estudioso de Freud e interessado nos mistérios da Psiquiatria. O mundo ultrapassava horrores jamais vistos e, regressados das trincheiras e da frente, as capitais europeias estavam assoladas de soldados amputados, desfigurados, desmembrados.
Acabei por entender esta opção de criar uma primeira parte para o livro mais leve, posto que esse estado é apenas um reflexo do papel de Stella no cenário de guerra que a Europa atravessa, e um eco da sua própria mente confusa e amnésica. É um aparte entre o livro anterior, “Tudo o que Ele Sempre Quis”, que devo ter lido há mais de cinco anos, e o desenrolar da história de Etna Bliss. Só entendi a ligação entre os dois livros quando Stella recupera a memória.
A segunda parte do livro, que parece ter aborrecido outros leitores, é a que mais me prendeu. A ligação à sua vida passada, que eu conhecia doutro livro, os seus antigos amores, erros por corrigir e culpas formadas… Há, contudo, fortes ligações a outros livros da autora. É normal, já li várias obras suas e começo a detectar aquilo que a move e intriga. O mundo académico e a Medicina estão sempre muito presentes, bem como a forte amizade entre mulheres e homens, mesmo em épocas em que isso não era bem visto. Por fim, as sequências sobre um julgamento em tribunal pela guarda de um menor recordou-me muito o “A Praia do Destino”, que é o meu livro favorito dela.
Acho a Anita Shreve uma criativa de grande humanidade, sensível e detentora de uma classe que eu jamais terei. Em parte porque a admiro nela, é-lhe natural e intrínseca. Em parte porque a sua crueza elegante foge um bocadinho ao caos que eu gosto de explorar.
Ainda assim, cada nova obra sua é, para mim, um grande momento de leitura.

Classificação: 4****/*

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Filmes em Lista de Espera

Her (2013)
Comecei a vê-lo, acho que sou capaz de compreender essa concepção "abstracta" do amor. Impulsionado pelo fim do seu casamento e pela nova ligação possibilitade entre computador e utilizador, espero encontrar um Joaquin Phoenix introspectivo e comovente.

Sleepless in Seattle (1993)
 
Só porque celebra uma Meg Ryan pré-plásticas e promete ser uma das boas comédias românticas, de banda sonora inesquecível, dos noventas.

Nine 1/2 weeks (1986)
Porque amores perturbados e pessoas perturbadas acabam sempre por me interessar.

Labor Day (2013)
Tem a Kate Winslet e tem um amor improvável. 

Adore (2013)
Inspirado num romance da Nobel Doris Lessing, vejamos se o livro conseguiu mergulhar nas subcamadas do coração humano.

The Spectacular Now (2013)
Porque gosto da capa. E porque me pergunto o que tem esta rapariga de tão especial para andar na berra, porque ainda não a vi em acção...

The Shinning (1980)
Aclamado filme com o bom e velho Jack Nickolson. Só me assusta o facto de o realizador ser o Kubrick.

The Railway Man (2013)
Histórias de amor e guerra? Com o charmoso do Firth em grande plano? Mi piace.

Paris, Texas (1984)
Mulheres muito bonitas e muito perturbadas... e a inspiração para a Paris Texas dos Gotan Project...deal!

 Shame (2011)
Homens muito bonitos e muito perturbados também me interessam.

 Letters from Iwo Jima (2006)
Porque mesmo os americanos admitem que a versão da II Guerra Mundial na voz do Clint Eastwood comoveu mais do ponto de vista japonês.

One Flew Over The Cuckoo's Nest (1975)
A minha mãe diz que é um bom filme. And she knows movies...

#14 La Belle et la Bête

Título oficial: La Belle et la Bête @ 2014
Realizador: Chistophe Gans
Actores principais: Lea Seydoux, Vincent Cassel
Classificação IMDb: 6,4
Minha classificação: 7,8

O conto - ou fábula? - "A Bela e o Monstro" foi para mim, desde sempre, a mais querida das histórias de encantar. Uma mulher cuja bondade transparece nos traços, a imagem da delicadeza (de gestos e de sentimentos), submetida a um monstro e, contra todas as probabilidades, a amá-lo. A ser capaz de amá-lo, porque a capacidade de amar não é coisa que assista a todos.
Este filme, embora com as suas falhas - por exemplo, acho que a relação entre os protagonistas foi demasiado precipitada, e que se perdeu demasiado tempo na sequência do confronto final - é estéticamente lindo. Seja a protagonista, seja o castelo encantado, onde nos é quase possível cheirar as rosas e provar as pêras, sejam os seus vestidos, jóias e toda a magia envolvente.
Isto é uma pequena nota a respeito do filme mais belo - jogando com a palavra beleza visual que vi nos últimos tempos. Todo o filme é um lugar acolhedor para se estar.
Para amantes de grandes amores, do conto intemporal imortalizado por Jeanne Marie Leprince de Beaumont
A França encantada da minha infância...