quinta-feira, 9 de outubro de 2014

#16 Em Parte Incerta



Título oficial: Gone Girl @ 2014
Realizador: David Fincher
Actores principais: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil-Patrick Harris
Classificação IMDb: 8,6
 Minha classificação: 9,0

Opinião: Como disse anteriormente, o meu avião para Dublin, em Fevereiro passado, foi apanhado numa massa de ar junto ao solo, pelo que abortou a primeira aterragem, e chegou-se a equacionar uma aterragem de emergência desviada para Belfast. Eu teria ficado em pânico, não estivesse a ler o Em Parte Incerta, um livro que nos recorda que nem tudo é o que parece. Esta exploração crua de um casamento entre um “rústico” do Missouri e uma beldade Nova-iorquina foi elevada à sublimidade tanto pela autora como, numa adaptação fiel e cuidada, pelo realizador David Fincher.
Sou fã do David Fincher desde “Os Homens que Odeiam as Mulheres”. Agora que penso nisso, um filme destes com a Rooney Mara como protagonista teria sido igualmente bem-sucedido. Tanto o Ben Affleck como a Rosamund Pike primam pelas suas representações. A química entre os dois consolida a aura doentia que circunda a história do casal. Ben Affleck está perfeito como Nick Dunne, um jeitoso apegado às obrigações, tradicional, escritor frustrado e desempregado de barba e videojogo em punho. Rosamund é sublime, tão bonita e inocente quanto bonita e letal no momento a seguir.
Por favor, vejam o filme. Deixem-se conduzir pela mestria da guionista, a própria autora Gyllian Flynn. Para mim o filme do ano. Perturbador, ousado, pertinente, assertivo. Não tem nada de politicamente correcto e a própria banda sonora intensifica as emoções, constitui um floreado em torno dos muitos twists e revelações. É uma história de psicopatas, macabra, perturbadora, tormentosa, que nos obriga a reavaliar o modo como nos relacionamos, as nossas expectativas face aos outros e o papel dos media e da justiça perante os crimes mais hediondos.
Há muito que um filme não penetrava assim sob a minha pele. O último foi, provavelmente, “Os Homens que Odeiam as Mulheres”, em 2009.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

#119 SIMONS, Paullina, Alexander

Sinopse: A viver na América com o filho, Tatiana tentou esquecer a mágoa pela perda do seu grande amor, Alexander. A sua vida seria perfeita se essa memória não estivesse presente a cada momento de cada dia. E quando uma improvável réstia de esperança de encontrar Alexander vivo se apodera dela, Tatiana não hesita. Deixa o pequeno Anthony aos cuidados da amiga Vikki e parte para uma derradeira e perigosa viagem à Alemanha. Em jogo está tudo o que construiu e a sua própria vida. Se for encontrada, Tatiana sabe que não escapará. É uma mulher marcada. Tatiana e Alexander protagonizam uma das grandes histórias de amor da ficção contemporânea. Um inesquecível relato de paixão, guerra, coragem e sobrevivência.



Opinião: Na realidade, 4,5. Contudo atribuo 5 porque foi a melhor história de amor que li desde E Tudo o Vento Levou (descarto O Monte dos Vendavais porque aquilo não é um amor bonito, é um amor doentio).
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Finalmente acabei a leitura do 3º volume da trilogia “O Cavaleiro de Bronze”. Na realidade, o volume 2.5, isto porque a Asa, numa golpada de marketing indecente, decidiu dividir o segundo livro, lucrar em dobro, confundir os leitores e eliminar o terceiro volume do seu calendário de publicações. Uma coisa é certa; aqui a Célia não lhes compra mais volumes 1 de trilogia alguma, não se sabe quando eles mudam de ideias.
Este volume, na realidade uma extensão do segundo livro, avança a um ritmo muito rápido. Parece um pouco apressadinho, propõe-se a fechar este grande amor aos solavancos e com um resumo dos anos vindouros, coisa de que não sou propriamente fã. Contudo, os momentos de magia entre Alexander e Tatiana multiplicam-se. Tive de evocar os livros anteriores para me recordar da intensidade desse amor e dos obstáculos que lhe foram postos.
É importante entendermos como funcionava a mentalidade russa, a máquina soviética, e como se estabeleceu a relação de poderes entre os EUA e a URSS após a segunda guerra. Em simultâneo, temos como pano de fundo a pela Leninegrado, as suas noites brancas, o Jardim de Verão e a Catedral de St. Isaac. Depois passamos para os campos soviéticos, o cenário de guerra do segundo grande conflito mundial, os bosques e vales de uma Europa devastada. E terminamos neste volume, com a paz e o conforto americanos a contrastar com a reconstrução da Europa. Berlim, desfeita, Hamburgo, desfeita, etc., etc.
Um amor tão forte que sobrevive a todo esse horror e ainda encontra forças para lutar. Duas pessoas únicas, apostadas em salvarem-se mutuamente. Eu sou apaixonada por esta trilogia, terei de ler o último volume em inglês. Sim, porque eles ainda não terão paz, a Guerra Fria vem aí e dois soviéticos em território americano podem ser possíveis espiões. Aconselho às românticas, mas sobretudo aos enamorados da História Europeia. Que retrato fiel da guerra sentida pelos russos… Que obra-prima, esta trilogia!


Classificação: 4,5****/*

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

#118 AHERN, Cecelia, Para Sempre, Talvez



Sinopse:  Cecelia Ahern volta a surpreender-nos com o seu segundo livro - "Para Sempre, Talvez". Com grande perspicácia e originalidade, Ahern conta-nos a história envolvente de um amor contrariado por um destino que teima em brincar com os seus dois protagonistas. Alex e Rosie atravessaram a infância e a adolescência juntos, mas quando chega o momento de começarem a descobrir as alegrias das noites na cidade e das primeiras aventuras amorosas, o destino resolve pregar-lhes uma partida ao colocar entre os dois a vastidão do oceano Atlântico, quebrando, assim, a evolução natural e espontânea de uma relação de amizade para algo mais profundo. Mas poderão o tempo, a distância e o próprio destino ser mais fortes que um grande amor?  

Opinião: Ontem terminei, tarde e a más horas, o primeiro livro que li da escritora irlandesa Cecelia Ahern. Descobri-o por causa do trailer do filme “Love, Rosie”, onde figuram a Lily Collins e o meu adorado Sam Claflin. Tentei ler o livro em inglês, ainda comecei, achei o tom animado e simples, mas acabei por decidir comprá-lo em Português.
Todo o livro são bilhetes, cartas, mensagens instantâneas, salas de chat. Assim sendo, apenas temos acesso às personagens e ao seu ponto de vista, sem temos noção do que realmente aconteceu. No trailer do filme, anunciam que a história é sobre “life getting in the way”, ou seja, a vida e os seus muitos twists e desencontros. Lá isso é verdade. Quando as coisas parecem estar prestes a endireitar-se, acontece algo. As pessoas morrem, engravidam, abandonam-se e regressam nos piores momentos possíveis.
A relação entre a Katie e o Alex é bonita, sobretudo porque temos acesso aos pensamentos que cada um guarda para si, recusando-se a partilhá-los com o outro. Mas toda a história é inverosímil, não existe um fio histórico condutor. Passam-se quarenta e cinco anos e há sempre internet, há sempre a conjuntura económica actual. Eu entendo a ideia da escritora, e um livro não tem necessariamente de se enquadrar nos padrões da realidade mas… Enfim. Toda a história retrata, também, um grande desperdício que é o tempo, por parte tanto da Rosie quanto do Alex. É frustrante vê-los desencontrados ao longo de tantos anos.
O livro é assertivo, divertido, exasperante em partes. Não é mau mas, na minha opinião, não funciona muito bem. Espero que o filme saia melhor.

Classificação: 3***

terça-feira, 16 de setembro de 2014

ANDANÇAS....

Olá meus caros leitores,

Para vos notificar do que ando a fazer neste momento;

1) Ando a escrever a continuação de "A Filha do Barão", "Uma Mulher Respeitável". Vou sensivelmente a meio. Mas quando o terminar faltará ainda muita pesquisa para enriquecê-lo.

2) Ando a re-escrever o Demência. Sim, a história da Letícia e do Gabriel, a história do velhinho adorável e da velhinha com Alzheimer, a história das duas meninas adoráveis, Luz e Maria. Estou a torná-lo exequível, real, com contornos que se dispam daqueles que lhe atribuí aos 19 anos, quando o escrevi em toda a minha inexperiência. Se não for publicado, facultá-lo-ei em e-book ou tento metê-lo nos escrytos.

(capa)

Beijoooos!

 

domingo, 14 de setembro de 2014

#117 MCNAUGHT, Judith, Para Sempre

Sinopse: Victoria Seaton cruzou um oceano. Para trás, deixou tudo o que amava. A sua cidade, Nova Iorque. Andrew, o homem dos seus sonhos. E a casa onde nasceu, agora tristemente vazia após a morte súbita dos pais. Desamparada, Victoria não tem outra solução que não rumar ao desconhecido. A Inglaterra, um país que que nunca visitou. Aos aristocráticos Fielding, uma família que nunca viu e à qual pertence apenas no papel. A uma herança que não sabia existir. O seu único conforto é a sua irmã Dorothy, a quem protege fingindo ser a mulher corajosa que, intimamente, teme não ser. A alta sociedade britânica rapidamente a põe à prova com as suas regras rígidas, tão diferentes dos modos calorosos e simples do seu país natal. Igualmente impenetráveis são as reacções da família. Quando conhece a avó – a duquesa de Claremont - Victoria não percebe o porquê do seu olhar venenoso e a sua obstinação em acolher apenas Dorothy. As irmãs acabam por ser separadas e Victoria fica à mercê do jovem lorde Jason Fielding, seu primo afastado. Jason é um homem frio, sensual e implacável. Nos salões da moda, é o alvo de todas as atenções, a chama que atrai homens e mulheres, o “felino selvagem entre gatinhos domésticos”. Ele permanece um mistério aos olhos de Victoria, que recusa submeter-se às suas ordens ríspidas. Por seu lado, Jason não sabe como reagir ao temperamento explosivo da jovem americana. A relação de ambos é tão excitante quanto impossível. Sobre ela paira - negra e omnipresente - a sombra do passado com os seus mistérios, segredos e crimes…


Opinião: Ao final de se ler centenas de livros, atinge-se um estado interessante… O que deriva do facto de ter lido este livro pela terceira vez como se fosse a primeira.
Da primeira para a segunda vez que o li, a memória obliterou todo o seu conteúdo. Li-o da segunda vez em inglês, na diagonal, e fiquei com um grande fraquinho pelo personagem principal masculino, o Jason.
Depois, quando soube que ia sair em português, pus-me na fila para o adquirir e devorei-o em todos os minutinhos livres de que dispus.
Já li muitos livros do género, a fórmula não varia demasiado: a autora atira dois protagonistas para um casamento arranjado. Aqui variam os motivos A) havia sido acordado pelas famílias e ambos estão desgostosos. B) Ele cobiça-a e consegue-a. Apenas ela está desgostosa. C) Envolveram-se e ele acaba por a pedir em casamento para salvaguardar as aparências. Ambos se fingem de desgostosos. D) Ele pede-a em casamento por uma questão de honra ou para salvá-la da pobreza. Não se entendem durante trezentas páginas porque ela se martiriza por ser um fardo e ele acha que ela só precisa dele para comer.
Enfim, depois variam os desafios que a autora atira para cima do casalinho maravilha. Um deles foi pobre. Um deles foi maltratado pela família. Um deles gagueja. Um deles foge ao passado. Um deles havia jurado nunca se casar. Um deles pensava que amava outra pessoa. Ele é sempre um libertino. Ela é sempre virgem.
Etc., etc., etc.
A Judith fez aqui algumas modificações na história. Primeiro, o Jason é realmente silencioso quanto ao seu passado. Não apenas silencioso quanto discreto. Não tem nada de pedante quanto a isso. Não se gaba de ter saído do nada, não usa a sua influência para obter o que quer, está muito calmo na vida dele, viúvo, quando a Victoria entra pela vida dele adentro. A Victoria não é uma tontinha nem cai de amores por ele assim, sem mais nem menos. É bonito vê-los serem cativados um pelo outro.
A Victoria é americana, perdeu os pais e descobre que a única família que tem pertence à aristocracia inglesa. Ao pôr os pés em Inglaterra, é imediatamente despejada para um noivado de fachada com o viúvo Marquês de Wakefield.
A fórmula também não é assim tão diferente das restantes; ele é sombrio, tem humor negro, é estupidamente atraente, toda a gente foge a esconder-se quando ele dá ordens, raramente se ri. Ela é um sopro de alegria na casa dela, ora infantil, ora uma coisinha sedutora.
Contudo, foi interessante ver um livro que junta duas pessoas perfeitas uma para a outra, duas pessoas que precisam uma da outra, e uma pesquisa histórica tão bem feita. Ao contrário de outros livros do género, em que apenas nos damos conta de estarmos no século XIX porque ela usa decotes imorais, muitas jóias, frequentam muitos bailes e andam muito a cavalo, este contém toda a espécie de detalhe que enternece quem se interessa por história. Além da comparação entre os hábitos sociais na América e em Inglaterra, na época, ficamos a saber quanto tempo deveria uma filha guardar luto pelos pais, o que era esperado dela, em que pé está a medicina, como se passam os serões, que jogos se jogam, o que se bebe, o que bebem as mulheres, o que preferem os homens? O que fazem os homens ao serão? O que fazem as mulheres? Como funciona uma casa? Como se enriquece no século XIX? Quanto tempo duram as cartas a circular pelo mundo? Como faziam os navios a travessia do Atlântico? Como vivem os casais na intimidade? O que é aceitável socialmente de um marido? O que é imperdoável numa mulher?
Gostei muito do livro. Houve mal-entendidos, como é evidente, mas não por falta de comunicação. Os protagonistas guardam os seus sentimentos por receio, mas depois recusam-se a acreditar que o outro não os estime. Não são assim tão inseguros ou cegos. Têm dúvidas, sobretudo se estarão à altura do outro, se o merecem, se podem fazê-lo feliz. São muito humanos, divertidos, coesos.
A Victoria é corajosa, honesta. O Jason tem um orgulho do qual ele próprio, por vezes troça. Como quando uma bala que fez ricochete numa árvore o atinge, e ele fica sentado após o embate, chocado, e comenta que não acredita que foi a árvore, e não o seu oponente, a causar-lhe dano.  
Foram um casal amoroso, muito bem construído. Mesmo os empregados têm personalidades marcantes, dando vontade de ler-se também sobre eles, as suas opiniões e mexericos. A autora mostrou muito bem o que era esperado do mordomo, do cocheiro, do lacaio, do bláblá, e do Northrup, abridor de portas e com orgulho!
Da parte da escritora, lamento que o assunto “Jamie” tenha sido enterrado ao fim do prólogo. Quem ler saberá do que falo. Acho algo demasiado importante para ficar assim enterrado sem repercussões no futuro de alguém como o Jason. Da parte da editora, lamento algumas escolhas de palavreado por parte da tradutora. Enjoei da palavra “delicado/delicada” e “encantador/encantadora”. Gostaria de lhe falar da existência de outros adjectivos.
Aconselho a todas as leitoras que gostam da Julia Quinn, da Sherry Thomas, da Lisa Kleypas. Foi um livro delicioso em que, mesmo nas partes mais íntimas, manteve uma grande elegância. Falta um bocadinho desse realismo a algumas das outras autoras. Não passem por cima da Física e da Anatomia só para provar que estes homens são uns garanhões na cama!

Classificação: 4****/*

sábado, 9 de agosto de 2014

#116 SMITH, Deborah, O Café do Amor



Sinopse: Cathryn Deen vivia num mundo de sonho: atriz famosa, idolatrada, era considerada a mulher mais bela do planeta. A fama era tudo na sua vida. Mas após sofrer um trágico acidente de automóvel, que a deixa marcada para sempre, decide ocultar-se de tudo e todos.
Escondida na casa da sua avó materna nas montanhas da Carolina do Norte, Cathryn tenta ultrapassar os seus traumas com a ajuda da sua grande prima Delta, uma mulher roliça e bem-disposta, dona do café local. Considerada por todos a alma daquele vale, Delta alimenta com os seus cozinhados e biscoitos deliciosos o corpo e o espírito dos mais carentes.
Um dos seus protegidos é Thomas Mitternich, um famoso arquiteto, fugido de Nova Iorque, após os atentados às Torres Gémeas lhe terem roubado o que de mais valioso tinha na vida: a mulher e o filho. Atormentado pela culpa, Thomas acredita que nada nem ninguém lhe poderá devolver a razão de viver e, entregue ao álcool e ao desespero, espera um dia ganhar coragem para se juntar àqueles que mais amava. O destino irá cruzar os caminhos de Cathryn e Thomas numa história magnífica de superação, ensinando-os a transformar as adversidades em oportunidades e a valorizar a beleza que existe em tudo o que os rodeia.
Opinião: Tendo lido “A Doçura da Chuva” e recordando-me do quanto essa obra me enterneceu, lancei-me n’O Café do Amor com grandes expectativas. Apesar disso, o livro excedeu-as (detesto a expressão “encheu-me as medidas”).
Há uma doçura e uma crueza intrínsecas nas histórias de Deborah Smith. Nada de milagres. Aqui fala-se de superação. No caso deste livro, como a própria sinopse anuncia, lidamos com duas pessoas marcadas por tragédias pessoais.
Cathryn Deen é uma espécie de Julia Roberts inventada pela autora. Uma mulher bela (“a mais bela do mundo” segundo uma série de revistas enumeradas), casada com um oportunista e autora de uma linha de cosméticos chamada “Flawless”, que significa, mais ou menos “Perfeita” – ou, literalmente, “sem defeitos”. Por ironia do destino sofre um acidente de carro, parte do corpo é consumido pelas chamas e assim perece também a beleza que lhe abriu tantas portas, a auto confiança e aquilo que definia a sua identidade. Perdida, acaba por aceitar refugiar-se nas Apalaches do Sul, na Carolina do Norte, desesperada por encontrar um novo sentido para a sua vida e por esconder o seu rosto desfigurado dos media.
Thomas Mitternich é um homem perturbado. A catástrofe do 11 de Setembro levou-lhe a mulher e o filho e ele refugiou-se no mesmo local onde Cathryn vem esconder-se. A dona do café de Crossroads, Delta, vai tentando afastá-lo da depressão e das tendências suicidas com biscoitos e tarefas que lhe vai impondo. Apaixonei-me pelo Thomas ao primeiro telefonema que ele fez à Cathy. Não se conheciam e ele foi instigado pela Delta, prima afastada de Cathryn, a consola-la enquanto ela se encontra na Unidade de Queimados, isolada do mundo, confusa e assustada.
Como mencionei, é um livro sobre superação. Sobre ultrapassar-se cicatrizes tão grandes que ameaçam o rumo das nossas vidas. Sobre fechar-se a porta sobre os receios e os pesadelos. Sobre reaprender-se a viver, passo a passo, reaprender-se a dar-se valor e a ser-se útil para alguém. Reviver, depois de se ter perdido tudo e de termos deixado de ser quem éramos – pai, marido, actriz famosa, admirada, bajulada. Reaprender a ser.
Apesar de ter lido comentários onde se diz que o livro é um tanto previsível, não considero a imprevisibilidade um factor determinante para a qualidade de um livro. É bom que existam livros que nos levam a desconfiar que vai acabar tudo bem. Que um dia o Thomas vai deixar a bebida e a Cathy vai deixar de esconder o rosto com lenços. É bom acreditar que vão superar, que é possível salvar o nosso espírito após um rombo tão grande no barco. Que a alma é costurável, recuperável, reciclável. Que só é precisa a pessoa certa com a cola certa. Que uma chávena rachada pode ser restaurada, embora a fenda seja sempre visível num estudo mais cauteloso.
Por muito bonito – e muito actual, e muito socialmente aceitável e até desejável – que as pessoas se desembaracem sozinhas, a verdade é que uns sem os outros somos nada. E este livro ilustra a ausência de vergonha em precisar-se de ajuda e em depender-se doutrem para se sair de um buraco pessoal e se voltar a amar e a ser feliz.

Classificação: 5*****

domingo, 27 de julho de 2014

#15 Voando Sobre Um Ninho de Cucos


Título oficial: One Flew Over the Cuckoo's Nest @ 1975Realizador: Milos FormanActores principais: Jack Nickolson, Louise Fletcher, Danny de VitoClassificação IMDb: 8,8Minha classificação: 8,0
"Um Estranho no Ninho", como lhe chamam os brasileiros, é um filme de 1975 baseado no romance de Ken Kesey de 1962. Jack Nickolson apresenta-se como o irreverente "Mac" McMurphy que, acusado de violar uma rapariga de 15 anos, é levado a um hospital psiquiátrico para se avaliar se é doente mental ou um criminoso comum. 
Apesar de ser um filme comovente, lindíssimo, com muitos assuntos prementes para reflectirmos, o mais importante é entender-se os deslocados. Os tímidos, os dementes, os iludidos, os desajustados. Uma série de loucos senta-se a jogar às cartas diariamente na enfermaria de um hospital psiquiátrico gerido com punho de ferro pela enfermeira Mildred Ratched. Uma mulher rígida que aplica técnicas violentas e opressoras para impor a rotina e impedir os doentes de saírem debaixo da sua asa. Mac assume-se de imediato como o chefe dos doentes, tornando-se um adversário à altura de Mildred. O que se segue é um combate entre as técnicas da enfermeira para vergar espíritos e o espírito aparentemente indomável de Mac.
Para mim, portuguesa, a grande surpresa foi descobrir (que vergonha só o ter sabido agora) que a horrenda técnica de psiquiatria apelidada de “lobotomia”, que transformou tantos homens em vegetais, foi inventada pelo Português Egaz Moniz, o famoso das faculdades e das ruas, que ganhou o Prémio Nobel da Medicina em 1949 por essa barbaridade.
Tenciono ler mais sobre o assunto, quem sabe até desbravar a complexidade da Psiquiatria num novo romance. Mas por enquanto basta-me ficar de queixo caído por saber que o pai de Rosemary Kennedy (e J. K. Kennedy) submeteu a filha rebelde, de 23 anos, a esta técnica, condenando-a a uma incapacidade permanente para o resto da sua vida.