quarta-feira, 4 de março de 2015

#20 | 50 Sombras de Grey

Título oficial: Fifty Shades of Grey @ 2014
Realizador: Sam Taylor-Johnson
Actores principais: Dakota Johnson, JamieDorman
Classificação IMDb: 4,3
 Minha classificação: 2,5

Este é o espaço onde partilho opiniões sobre filmes que gostei/não gostei. Só posto os que considero dignos de serem mencionados, para o bem e para o mal. Não faço disto um diário da minha vida filmográfica. Para poder falar por fim com conhecimento de causa, submeti-me a duas horas de Fifty Shades of Grey, apenas para concluir que o panorama geral é ainda pior do que eu imaginava. Senti que, à parte da banda sonora, nada funcionou no filme. Partindo de um livro tão pobre, a Sam Taylor-Johnson não tinha muito por onde se virar. Mesmo porque é sabido que a própria E.L. James não deixou de dar palpites sobre o filme. Isso transparece: a pressão posta em cima do filme, para que funcionasse, e dos actores, para que tornassem credíveis diálogos embaraçosos, de tão absurdos, é evidente.Tive pena do Jamie Dornan, que é acusado de ser mau actor neste filme, por não saber pôr mais afinco nas chicotadas que dá à princesinha Steele. Também, ao contrário do que já tenho ouvido dizer, tenho pena da Dakota Johnson. Parece-me uma menina doce e até um tanto tímida, o que a terá tornado a pessoa ideal para assumir o papel da cabeça-oca da Anastasia Steele. Porém, a estupidez é tamanha que acaba por prejudicá-la também. Como ser-se bom actor com uma pobreza de argumento destas?Eu e a minha irmã assistimos à versão não-explícita do filme juntas. Agora virem a cara porque vão chover spoilers:a) Foram inúmeros os silêncios incómodos que nos obrigaram a soltar risos;b) O filme começa muito mal mesmo, com as incongruências a atropelarem-se umas às outras. Desde os lugares sempre livres à porta do edifício do Grey, ao lugar livre à porta da loja onde ela funciona, à química inexistente entre os actores.c) As personagens são uni-dimensionais, do género que povoavam os meus rascunhos de aspirante a escritora na tenra adolescência. Nessa altura a melhor amiga só servia para ser inconveniente e nos lembrar que estávamos apaixonadas por fulano talo irmão do nosso namorado era o par perfeito para a melhor amiga/irmã solteiraa mãe estava convenientemente afastada para dar uma mobilidade facilitada à jovem heroína, que com a mãe à perna não se poderia meter em aventuras. O rapaz principal era sempre muito novo, muito rico, muito perturbado com a infância e havia sempre um traço físico que fazia com que isso viesse à baila: uma cicatriz no sobrolho, uma queimadura no braço. E poderia continuar para sempre.


b) Falas tipo "I don't make love, I fuck hard", ou "I want to fuck you in the middle of next week", ou "I don't do romance", ou "Like where you keep your Xbox?" ou "This is my red room of pain" ora me punham a rir, ora me embaraçavam. Tive genuína pena dos actores e não entendo como se submeteram a tamanho flop nas suas carreiras.
c) Ele não é controlador, ele é doente. Há uma diferença. O Moisés, que assassinou a ex-mulher (Carla Santos) depois de anos a segui-la e a espiolhar-lhe a vida toda, não era controlador, era doente. Apanhou 20 anos de prisão.
E tudo deve ter começado assim...
d) Da segunda vez que o casal maravilha se vê (se não fosse a óbvia pressão para o Jamie Dornan olhar a moça e dizer "I am looking [at you] eu não adivinharia que vinha aí um relacionamento entre duas pessoas, e ficaria à espera da "faísca", que nunca vem) eu ainda não sentia qualquer conexão entre os dois protagonistas. Contudo, o Mr. Grey já tinha a mioleira a fervilhar, e já lhe estava a perguntar quem era o fotógrafo e o patrão, e etc., etc. Eu e a minha irmã olhámos uma para a outra e gritámos: FOGE! 
e) Pouco depois, na embaraçosa cena em que ela lhe liga, bêbeda, já ele assumiu que é pai dela (sem beijo, sem qualquer romance a insinuar-se). E não é um pai qualquer, é um pai com direito a palmadas, então adivinha onde ela está (o filme não se importa de explicar, assume que todos os que foram assistir tiraram a quarta classe para poder ler o livro), e vai atrás dela. Numa cena nada encenada, onde prima a naturalidade com que os acontecimentos se intercalam, durante a película, o amigo dela (porque não um estranho???) está a tentar beijá-la. Que conveniente para que ele venha salvá-la! Awwww!
f) O filme é um cliché pegado, polvilhado do mau gosto aterrador que creio que seja a essência do livro. Para alguém que não saiba o que está por detrás de tudo isto, e que veja o filme como coisa independente e tente daí extrair algo, o que vê? Uma rapariga desastrada, intimidada pelo homem muito rico (ah, ela é virgem!), que ao  longo do filme exibe a sua riqueza com uma garagem cheia de carros, uma enorme colecção de gravatas, um helicóptero privado, um apartamento grande onde tudo reluz e não há qualquer marca de personalidade, um paralelo óbvio com o "vazio" da vida do Grey antes de conhecer a Steele, um piano que ele toca (composição mais óbvia não há, reconheci-a de imediato), programas fora do comum. Em 1990 já havia um filme igual: chamava-se Pretty Woman, mas de algum modo o Richard Gere tratou a prostituta melhor do que o Mr. Grey, e a Vivian (Julia Roberts) tem mais amor-próprio e dignidade que a virgem deste filme.
g) A tal ideia da BDSM só é absurda (e nunca revolucionária, e muito menos o sexo é revolucionário neste filme, se quiserem dou-vos uma lista de bons filmes que metem cenas de sexo, ou mesmo livros) na medida em que ela é uma ignorante que não faz ideia de onde se está a meter. Não basta ele querer decidir tudo a respeito da sua vida, o que lhe anula o livre arbítrio e a torna uma sombra doutrem, ainda quer agredi-la e magoá-la fisicamente. Preferia não ter sabido de nada disto. Só consigo imaginar as mamãs a mascararem-se e a porem-se a jeito para os maridos lhes darem umas palmadas nas nádegas. Que elas pediram (ok, ao menos isso, ao contrário do filme). Acho muito bem que as pessoas sejam abertas quanto à sua sexualidade, dialoguem e até levem palmadas ou lhes façam chichi em cima, se é a cena delas. Mas de repente meterem palas nos olhos por causa dum livro miseralmente escrito, equipararem a situação a uma revolução sexual e esgotarem as prateleiras de tampões anais das sex shops internacionais já me assusta um bocado... Então foi preciso que viesse esta cegueira para descobrirem que tinham rabo? Foi preciso o Fifty Shades para que se dessem conta que há gente que gosta de pôr trela e levar açoites? E de repente já está tudo bem, porque é disso que fala o único livro que leram na vida? Absurdo. Hipocrisia total.
h) Na parte em que ela se inclina e ele lhe aplica seis valentes açoites com um cinto de couro no rabo, experimentei uma estranha satisfação. Uma parte de mim dizia "Vêm? Vêm como a mulher fica numa posição que a rebaixa e, quer queira quer não, há pouca igualdade nesta situação? Vêm que dói e que até a atrasada mental da Steele entendeu que ele é doente mental por procurar arrastar uma pessoa como ela para um mundo que só ele domina (e é dominador, foi sem querer, este twist)?" E pensei: OK, ela aprendeu. Mas não, ela não aprendeu, porque vêm aí mais dois filmes. Suponho que, a dado momento, ela volte a agachar-se para ele a sovar.
i) Sabem em que pensei, enquanto o Jamie Dorman expelia o ar dos pulmões para transmitir a sensação de alívio que esta personagem mal enjorcada da E.L. James conforme descia o cinto nas nádegas da pobre burrinha? Que há tanta beleza num homem que cuida, que se preocupa, que seria incapaz de nos magoar, fosse como fosse, e que se odiaria se nos causasse qualquer espécie de dissabor...

Este Grey é o oposto daquilo que um homem deve ser, na minha opinião de jovem de 25 anos, solteira, que se calhar vai passar a vida toda à espera que um grande amor me arrebate. E isto é o oposto da história da Cinderela. É-me chocante que sejam as mulheres as principais consumidoras deste produto de caca. É-me chocante que uma mulher absolutamente medíocre como a E.L.James tenha o nome sabido em todas as tascas por causa de um livro que começou doutro tão mau ou pior, e que evoluiu para este histerismo colectivo e infundado. Uma britânica que escreve sobre americanos com expressões britânicas. Uma mulher que não sabe escrever, nem tem imaginação, nem sabe do que fala.

Enfim, é o mundo que temos.
E outras E.L. James virão, porque o povão está aí para papar e adorar.

Que fique claro que não lhe dei 1€ seja com os livros, seja com o filme.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

#1 Catedral Metropolitana N. Senhora da Aparecida | Brasília, Brasil


Informação: Trabalho de Oscar Niemeyer, um dos nomes-chave na construção da cidade 100% projectada de Brasília. A primeira pedra foi colocada a 12 de setembro de 1958, sendo que em ’60 terminavam os trabalhos. Foi necessário o apoio do engenheiro Joaquim Cardozo para conseguir reerguer este templo fiel ao imaginário do arquitecto. É algo de único, de controverso e de inesquecível. A sua inauguração deu-se apenas em 1970.

O acesso ao interior, que parece mergulhado num subterrâneo, é ladeado por quatro estátuas de bronze, monumentais posto que ascendem a 3 metros de altura. As mesmas representam os quatro evangelistas (S. Lucas, S. Mateus, S. Paulo e S. João), e são uma colaboração entre Alfredo Ceschiatti, que as idealizou, e Dante Croce.

No interior o olhar é, de imediato, cativado para uma escultura pendente de três anjos suspensos por cabos de aço. A menor pesa 100 kg, sendo que a maior pesa o triplo.

De salientar a representação da Pietà, de Michelangelo, uma doação do Vaticano em 1989 para a capital federal de um país largamente católico e devoto.

A minha opinião: Trivago
Vista de fora, tem muito pouco da espiritualidade requerida aos templos religiosos. Por dentro, contudo, tem tudo o que uma igreja deve ter. É perturbadora, intimista, uma obra de arte que convida à reflexão. E que dizer das figuras fantasmagóricas dos quatro evangelistas, erguidas da terra alaranjada de Brasília, que conduzem o visitante ao longo do caminho que conduz à sua entrada subterrânea? É única e pôs-me em sintonia com a essência da cultura sul-americana, sobretudo porque, ladeando os evangelistas, temos vendedores de água fresca, água de coco e outras maravilhas brasileiras.
 (acesso, catedral vista de frente - desaparece no subterrâneo)
(os anjos pendentes)
(estátua de um dos quatro envagelistas)
(réplica da Pietà)

@Fotografias da minha autoria | Célia Loureiro
Brasília, Setembro 2014

domingo, 22 de fevereiro de 2015

#18 & #19 Still Alice & We Need to Talk About Kevin

Título oficial: Still Alice @ 2014
Realizador: Richard Glatzer, Wash Westmoreland
Actores principais: Julianne Moore, Alec Baldwick, Kristen Stewart
Premiações: Óscar de Melhor Actriz para Julienne Moore
Classificação IMDb: 7,5
 Minha classificação: 7


Baseado no romance homónimo de Lisa Genova, "Still Alice", ou "O Meu Nome é Alice", em Português, é uma ficção que me encontrou por ter o Alzheimer como tema central. A minha bisavó padeceu dessa doença, o meu primeiro romance publicado girou em torno dela, e por fim uma Julianne Moore lindíssima e super competente dá vida a esta Alice. Devo dizer que o filme foi mais uma espécie de close-up do que é a vida de alguém que sofre dessa doença, que implica a degeneração das células da memória funcional, do que um grande apanhado do assunto. Não se perde em questões médicas, apesar de tanto o marido quanto um dos filhos de Alice praticarem essa profissão. 
O filme apresenta-nos uma mulher de grande tino e elegância, uma Professora universitária de mérito e presença, a definhar aos 50 anos quando começa a sentir-se desorientada e meio "esquecida das coisas"...
Na sua fase mais avançada, o Alzheimer leva a pessoa a esquecer-se de si própria, de quem o rodeia. Faz-se a mesma pergunta inúmeras vezes, é exasperante para quem está ao redor de alguém assim. Além dos queixumes constantes (eu que o dia, além da minha falecida bisavó, também o vizinho do lado passa o dia em "ais"), faltou ao filme mostrar a agressividade que toma os doentes de Alzheimer quando se sentem perdidos e expostos. A determinado momento, tudo se perde: a orientação das ruas, os nomes dos familiares e amigos, a capacidade de executar, até, as tarefas mais simples...
O filme é tocante, não haja dúvida. Até Kristen Stewart, que mantém sempre a mesma expressão impávida, pareceu ter dado mais de si neste drama. A verdade é que o Alzheimer é um teste maior ao amor e à paciência de quem nos rodeia. Do marido que começa por colaborar e depois perde as forças, à filha distante que recusava os conselhos maternais e que se dispõe, em último caso, a cuidar da mãe pessoalmente.
Vale a pena ver, e por isso fiz questão de lhe dedicar algumas palavrinhas aqui.
Título oficial: We Need to Talk about Kevin @ 2011
Realizador: Lynne Ramsay
Actores principais: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller
Classificação IMDb: 7,5
 Minha classificação: 8,5


Temos de falar sobre Kevin é um dos filmes mais perturbadores a que assisti nos últimos tempos. No final fiquei em silêncio por um bocado, e quem me conhece sabe que não sou de ficar calada. E isto é um filme sobre quê? Na minha opinião, há várias respostas, sendo que a que mais me satisfaz é: o amor materno. O amor materno em todo o seu poder de superação, perdão, regeneração, sacrifício e incondicionalidade. Foi a primeira vez que vi a Tilda Swinton a representar, embora tenha traços que lhe tornam o rosto inesquecível. Fez uma Eva credível, tanto na expressão de insegurança, como de fragilidade emocional (e até psiquiátrica) e de amor. Mas é a intriga e as coisas inconfessáveis que dominam o filme.
O trailer não é muito esclarecedor, pelo que me perguntava se seria um filme de terror. Infelizmente, penso que seja o filme de terror de algumas famílias, pois que casos assim ocorrem, lá isso ocorrem...
O filme fez-me reflectir: 
Em que falha uma mãe?
O que leva alguém a levar sentimentos como raiva contida e ciúme a transformarem-se em algo de maior, algo de letal?
Quanto horror e infelicidade pode um coração materno testemunhar sem colapsar?
O que tem um filho de fazer para que a mãe lhe vire as costas?
Não há modo de me alongar sem referir factos. Contudo, as analepses, os diversos momentos em que Eva nos é apresentada, livre a viajar pelo mundo, apaixonada, como mãe e, mais tarde, aparentemente sozinha no mundo e ostracizada, foram muito bem pensadas. Considerei o filme um trabalho artístico difícil de ultrapassar e de esquecer, de uma beleza trágica que contém tudo o que aprecio num bom filme. Permanece em nós após terminado, como que se nos assombrasse, alertando-nos para questões de difícil resolução e sem qualquer explicação.
Aconselho a todos os que perscrutam a natureza humana sem encontrarem respostas.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

#50 Sombras de Imbecilidade Colectiva

Eu gostava de poder ignorar as histerias colectivas, mesmo porque não me é muito habitual fazer parte delas, mas adiante… É difícil.
Desconfio sempre do filme muito aclamado, do músico muito premiado, do livro muito vendido. Isto porque, e perdoem-me o snobismo, tudo o que é consumido à escala de fast food é porque tem características pouco complexas, estandardizadas, que vão ao encontro das massas e que, portanto, cumprem requisitos “mínimos”. As massas, na minha opinião, são ignorantes. Encaixo-me nelas em muitos estádios de ignorância, cada um tem aquilo onde fica às aranhas e aquilo que é a sua praia. A minha praia são as artes. A literatura, sobretudo. Não significa que não me perca se se falar de steampunk. Vamos lá ver a espécie de coisas que andou nas bocas do mundo ultimamente:
Gangnan Style e as pessoas que tatuaram os seus afins na pele.
As Cinquenta Sombras de Grey (já aqui escrevi que até a minha avó, que sabe que adoro ler, me veio perguntar se tinha ficado para trás das suas amigas reformadas que andavam a ler “As Cinquenta Cores”).
A Piradinha.
Avatar.
O Show das Poderosas.
Hannah Montanah.
O Código da Vinci.
As Cinquenta Sombras de Grey.
Crepúsculo.
O Segredo, da Rhonda Byrne.
Casa dos Segredos.
Harlem Shake.
One Direction.
As Cinquenta Sombras de Grey.
Frozen.
Lady Gaga.
Pulseirinhas de elásticos.
Violetta.
As Cinquenta Sombras de Grey, já mencionei?
Em que consiste tudo isto? Além da palavra óbvia que ocorre? Diria que consiste numa linguagem universal, básica, simplista, que unifica todos sem excluir ninguém e que é acessível, pelo seu baixo grau de complexidade, a todos. Trata-se de levar as massas no bico e enriquecer com a falta de selectividade e refinamento e fraco nível de exigência do público.
Gangnan Style nunca ninguém entendeu que raio é que o homem dizia, Harlem shake idem. Avatar? Uma espécie de Atlântida da Disney mas com recurso à nova tecnologia e a óculos 3D, vamos lá pôr-nos na vanguarda da tecnologia. Crepúsculo? Ai, que inovador, transformar o mau no galã da fita. Dá comichões na passarinha das teenagers, mas o pior é que muitas adultas também se deixaram abalar.
Por que venho eu com este discurso arrogante e pretensioso, afinal? Quem sou eu para achar que os gostos se discutem? Passando adiante da certeza de que gostos são gostos, na minha modesta opinião, os gostos sempre se discutiram, e isto preocupa-me.
Preocupa-me porque a literatura foi inundada por livros eróticos, livros não mais elaborados do que os da Harlequin da caixinha de sapatos da minha avó, que eu ia quando era pequena apenas porque tinha curiosidades que não podia discutir (o Google não existia, arrisco-me a dizer!).
Assusta-me que as pessoas gastem rios de dinheiro para levar os filhos ao concerto de Tokyo Hotel e que acampem à porta do Pavilhão Atlântico (agora Meo Arena, para quem veio há umas semanas do concerto da Violetta). Assusta-me que o franchising do Frozen não cesse de render dinheiro à Disney, quando se trata de um filme perfeitamente vazio. “Ah e tal sou muito moderna e independente e o filme não fala sobre um casal, é inovador e fala do amor entre irmãos”. Uma coisa cheia de lacunas, apressada, em que os grandes protagonistas são as paisagens de neve, um boneco de neve e o vestido da “rainha da neve”. Um filme sem diálogos, sem profundida, caído em clichés e lugares-comuns, mas com uma música que fica no ouvido e que é repetida até à exaustão.
E agora As Cinquenta Cores (prefiro a versão da minha avó), essa bosta de livro. Uma coisinha insonsa em que a autora (sou só eu que acho a protagonista do filme, a Dakota Johnson, uma versão mais jovem da E. L. James?) celebra a sua inovação por ter aberto as portas a mais uma cultura de histerismo? Ah, de repente as pessoas recordaram-se que há uma coisa chamada chicote e algemas. Antes também havia, mas era coisa de malucos que passam demasiado tempo a jogar videojogos e que têm pancada e deviam ir ao médico. De repente a senhora estava aborrecida, pega no Crepúsculo e distorce-o, removendo os dentes ao vampiro e inserindo atilhos e tampões anais no enredo, e a coisa vira um fenómeno viral. De repente, pessoas que nunca liam livros inscreveram-se na rede social para bookaholics (Goodreads, não sei se há mais), atribuíam-lhe a pontuação máxima e diziam que nunca tinham lido um livro melhor. Envolviam-se em discussões intermináveis sobre o quanto os outros eram conservadores e quadrados por não entenderem o quanto a autora é arrojada (e sensual, nossa, que sensualidade!) ao colocar o senhor Grey a remover o tampão à mocinha antes de a *****. De repente, as mamãs compravam baby-grows para os bebés a dizer “Há nove meses atrás a minha mãe leu As Cinquenta Sombras de Grey”, o que até é irónico, tendo em conta a triste qualidade da informação lá passada acerca de contracepção, que poderia levar a uma gravidez indesejada. Tenho pena dos maridos, porque parece que algemas, tampões para orifícios até aí negligenciados, chicotes (e até corda e fita-cola!) começaram a voar das prateleiras. Há alturas em que me ponho no lugar dos homens e tenho compaixão deles. Imagino a cara dos chatos dos conservadores que queriam tratar a mulher com respeito e tal, e ela lhes mete a chibata na mão e pede que lhes aplique umas chicotadas.
A graça maior é que as mulheres são um público – lamento dizer – fácil de convencer. Um bocado como as crianças: os produtos que lhes são direccionados só têm de brilhar um bocadinho que elas correm a comprar.
Acredito que as mulheres ainda tenham muitas fantasias reprimidas, mas não acredito que tenha sido um livro miserável (do ponto vista literário ao do BDSM de acordo com as comunidades de entendidos) a tirá-las do armário. O que o livro abriu, e é pena que tenha sido ele a abrir, foi a porta para o diálogo. Se calhar fez as mulheres sentirem-se mais arrojadas, tomarem a iniciativa. O que até deveria ser contraditório, posto que, segundo consta, a mocinha é completamente abusada física e psicologicamente pelo homem de sonho das 46 mil mulheres que compraram o bilhete para a estreia no cinema (isso é o número de bilhetes, vamos considerar que pelo menos 6 mil são namorados forçados a ir ver o filme, sob a fachada do “mente aberta”, que são eles próprios vítimas de violência psicológica por parte das mulheres). Este Dia dos Namorados de 2015 é outra chaga que os homens terão de carregar…
Mas nem quero mencionar “chagas”, se não aí é que nunca mais me calo.
PS – Li 33 páginas do livro: tão mau, mas tão mau, que fui incapaz de forçar-me a mais. E olhem que gosto de romances picantes (desde que haja alguma complexidade nas personagens ou algum esforço da autora perante a história que constrói). Não vou ao cinema ver o filme, não darei dinheiro para tal causa e recuso-me a fazer parte da histeria colectiva que ficou com a patareca aos saltos para estar lá no dia da estreia.

Mas vou vê-lo, ah se vou! Os meus dedinhos tremem só de imaginar as atrocidades que terei a dizer depois. Muahahahahahah!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

#17 Dei-te o Melhor de Mim

Vamos ser honestas, Célia? Não vejo os filmes do Nicholas Sparks (nem leio os livros) em busca de uma boa história. Fi-lo quando, aí entre os doze e os catorze anos, comecei a lê-lo. Depois, comecei a fazê-lo só para me torturar. Só porque não sei que mais faça e às vezes é bom fingir que não cresci e que ainda acredito que existam homens assim, como ele os pinta.
Então, neste fim-de-semana, e para tentar fugir ao milhão de trabalhos que tenho para fazer, meti-me debaixo da manta, chamei a minha irmã (que é dez anos mais nova do que eu mas também dez vezes mais evoluída, e pareceu relutante em ver o filme) e pusemo-lo. Objectivamente, é o seguinte:

o tipo que faz de jovem Dawson (Luke Bracey) é um gatão e entreteve-me até metade do filme.
PS - Começo a achar que Um Refúgio para a Vida deve ter sido produzido por outra pessoa enquanto o Nicholas estava em casa com uma valente constipação...
apesar de não ir com a cara da jovem (não me lembro do nome dela, damn!), acho que havia química entre os dois e ela encarava bem a personalidade que emanava.
na minha óptica, não há qualquer química entre os actores que fazem de Dawson e Amanda (googled it!) mais tarde. A Michelle Monaghan parece, simplesmente, ser mãe do James Marsden.
À luz das histórias do Nicholas Sparks (incluindo das suas produções filmográficas, que tanto fogem aos seus próprios enredos mas são todas elas também iguais entre si):
os ingredientes são os mesmos de sempre: rapariga rica, rapaz pobre, interior da Carolina do Norte, um viúvo, muitos anos de separação, um trabalho perigoso e físico para o moço (bombeiro, trabalhador de petrolífera, soldado no Afeganistão, soldado no Iraque, etc…).
o que varia tem sempre paralelismo com as outras histórias: o outro viúvo era apegado aos quadros da mulher, o outro era apegado às flores da mulher.
os pais dela nunca gostam dele.
ela faz sempre tudo o que quer do tipo, é ela que decide onde e quando. Ele torce-se todo para a convidar para um encontro, depois leva-a a comer comida local no interior. Bebe cerveja e ela bebe cola light. No final do encontro ele não sabe se deve beijá-la, mas beijam-se porque é tradição.
há sempre um momento em que ele “tem de deixá-la ir” para provar que a ama.
há sempre um sacrifício que ele faz por ela.
 não faltou a cena do beijo à chuva, nem o "are you sure of this?" quando ele está prestes a tirar a virgindade à mocinha;
( faltou o passeio de barco, fiquei de queixo caído!)
 coincidências inexplicáveis, mortes desnecessárias to add some drama.
em 50% dos finais ela fica sozinha com as cinzas dele, o ex-marido que já não ama e os filhos que não são dele.  
 as capas são todas iguais.
Gostava de poder dizer que é a última vez que me submeti a tanto cliché, mas a verdade é que noutro domingo frio, sem nada para fazer, pego na manta e lá vou eu, rir-me mais um bocado da desgraça alheia, que é como quem diz: da dificuldade que o homem tem em reinventar-se. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

#123 GOLDING, William, O Deus das Moscas

Sinopse: Publicado originalmente em 1954, O Deus das Moscas de William Golding é um dos mais perturbadores e aclamados romances da actualidade. Um avião despenha-se numa ilha deserta, e os únicos sobreviventes são um grupo de rapazes. Inicialmente, desfrutando da liberdade total e festejando a ausência de adultos, unem forças, cooperando na procura de alimentos, na construção de abrigos e na manutenção de sinais de fogo. A supervisioná-los está Ralph, um jovem ponderado, e o seu amigo gorducho e esperto, Piggy. Apesar de Ralph tentar impor a ordem e delegar responsabilidades, muitos dos rapazes preferem celebrar a ausência de adultos nadando, brincando ou caçando a grande população de porcos selvagens que habita a ilha. O mais feroz adversário de Ralph é Jack, o líder dos caçadores, que consegue arrastar consigo a maioria dos rapazes. No entanto, à medida que o tempo passa, o frágil sentido de ordem desmorona-se. Os seus medos alcançam um significado sinistro e primitivo, até Ralph descobrir que ele e Piggy se tornaram nos alvos de caça dos restantes rapazes, embriagados pela sensação aparente de poder.

Opinião: Gostava de poder levantar-me do sofá, ligar o computador e escrever, com comodidade, a grandiosa review que este livro merece. Porém, tenho cinco quilos de gata sobre a perna, e por esse motivo não me atrevo a mexer-me a arruinar o sono de beleza do Deus dos Gatos. Terei de escrever mesmo no telemóvel.
Eu lembrava-me de ser pequena e de ver um filme, que agora sei ser o de 1990, sobre miúdos selvagens numa ilha, por sua conta. Nem esse visionamento me preparou para este romance perturbador.
Golding apresenta-nos um grupo de rapazes que não sabem grande coisa sobre as suas circunstâncias, na realidade. Os mais velhos de entre eles têm cerca de 12 anos: os mais novos totalizam metade dessa idade. Eis o que o leitor deduz: são britânicos, estão no Pacífico, a segunda guerra está no auge e chegou a esse oceano, devem ser um grupo escolar a viajar em conjunto por algum motivo nunca enunciado. Há conflitos ali próximos, porque além dos clarões de explosões dá-se uma prova ainda mais óbvia da civilização a trucidar-se ali perto. O livro também não se centra no saudosismo das crianças, na falta que o conforto do lar lhes traz, mas sim em como se constrói a sua nova organização, deixando para trás a civilidade.
Num primeiro momento, todos, mesmo a personagem principal (Ralph) são tomados de um entusiasmo contagiante por se verem livres e num belo cenário, com água fresca, piscinas naturais, fruta à mão e sem nenhum adulto a condicioná-los. Não se conhecendo entre si (excepto para o grupo de um coro, liderado por Jack Merridew e um par de gémeos inseparáveis), os rapazes procuram estabelecer uma nova ordem à semelhança da que acabam de deixar. O chefe (Ralph) é eleito por democracia, por possuir um búzio, uma espécie de tesouro na ilha em que todos chegam apenas com a roupa do corpo, e por usá-lo, por instrução de um outro rapaz (Piggy), para convocar reuniões e promover a auto-ajuda.
Nas reuniões discutem-se temas como o asseio pessoal e da ilha, a fogueira que urge manter acessa para que haja fumo na ilha e possam ser salvos, a alimentação, abrigos, exploração da ilha, etc.
Depois temos Piggy, um rapaz gordo, medroso, asmático, queixoso e preguiçoso, que não vê um palmo à sua frente sem os óculos. Piggy é vitima da troça geral por todas estas características, mas é também o rapaz mais sensato de todos pelo que, à revelia de quem o goza, se torna uma espécie de conselheiro de Ralph. Depois existe Simon, corajoso, fiel, individualista. Jack, o chefe dos rapazes do coro, desesperado por se ver à cabeça de todos. As crianças pequenas, vítimas do desinteresse dos outros miúdos, pouco mais velhos.
O livro explora as hierarquias e a ausência de lei e de um governo que institua livre sufrágio e a aplicação do resultado das eleições sem que a chefia seja sólida.Os membros do grupo dividem-se, não só por indecisão mas porque, enquanto Ralph é um chefe brando, outro se insinua com mais fervor, sob o signo do autoritarismo. O povo receia Jack, admira-o a certas o ocasiões, como quando a sua inclinação para a crueldade faz dele o líder ideal para os caçadores, por proporcionar a excitação da caçada e o consolo da carne.
Por outro lado, simpatiza com Ralph, o líder eleito por democracia, possuidor do objecto mágico: o búzio. Mas Ralph é um líder responsável entre crianças, não se regozija com a chefia nem procura nenhum mérito pessoal. Não é vaidoso nem sedento de poder, e insiste para que se faça o correcto.
O desencanto que a situação provoca, e que se vai agravando, vai separando os rapazes, trazendo ao de cima o pior de alguns deles e acicatando a ânsia de poder que atormenta Jack. Cria também uma rivalidade insustentável entre Ralph e Jack, e  de súbito a ilha parece pequena demais para dois chefes tão antagónicos.
As maiores crueldades são cometidas, levando-nos a perguntar se não seria assim, mesmo no mundo dos adultos, caso não houvesse uma entidade superior a policiar e a julgar comportamentos. Enquanto se sentem ligados à civilização, os rapazes experimentam vergonha, bom senso, cordialidade e procura por entendimento. Depois, resvalando para a bestialidade, despem-se da sua civilidade e tornam-se paus mandados de um chefe cruel. Só o receio ao novo chefe, impiedoso, os move, os faz obedecer com cegueira e, inclusive, encontrar prazer nos actos que se vão cometendo.
Este livro fez-me pensar muito e partiu-me o coração. Recordei-me da convicção de Locke e de Hobbes de que os homens não são bons por natureza, o que impede que se dispensem certas instituições que existem com o mero propósito de lhe refrear as mesquinhices.
Recomendo a todos!
Classificação: 5*****

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

#123 SOARES, Carla M., O Cavalheiro Inglês


Sinopse: Portugal. 1892. Na sequência do Ultimato inglês e da crise económica na Europa e em Portugal, os governos sucedem-se, os grupos republicanos e anarquistas crescem em número e importância e em Portugal já se vislumbra a decadência da nobreza e o fim da monarquia. Os ingleses que permanecem em Portugal não são amados. O visconde Silva Andrade está falido, em resultado de maus investimentos em África e no Brasil, e necessita com urgência de casar a sua filha, para garantir o investimento na sua fábrica. Uma história empolgante que nos transporta para Portugal na transição do século XIX para o século XX numa descrição recheada de momentos históricos e encadeada com as emoções e a vida de uma família orgulhosamente portuguesa.

Opinião: Escrevo a respeito deste livro sem primeiro consultar a autora do mesmo, que comecei a considerar, nestes anos de andanças literárias, como uma amiga. Estou a dever-lhe a leitura de A Chama ao Vento, mas infelizmente ainda não me converti aos formatos digitais. Terei de fazê-lo em breve, posto que devo a leitura de A Sombra de um Passado à Carina Rosa, e de Calor à Dra Maria José Núncio. Todos eles e-books, pelo que serei decerto obrigada a comprar um Kobo ou coisa que o valha… Ora bem, saboreando o prazer de ter um livro físico na mão, poder cheirá-lo e folheá-lo, fiquei encantada com a capa. Prometia tudo o que encontrei no seu interior. Desafio, História, intriga, romance. E assim foi. Falando das personagens, gostei da Sofia. Achei-a humana e compreendi-a. Não é fácil para um autor fazer uma personagem principal evoluir sem se contradizer, e a Carla conseguiu-o. A Sofia do início do livro, de espírito crítico mas conivente com os desmandos da nobreza em decadência, não é a Sofia ávida por se superar do fim, não é a Sofia que quebra com as regras e por fim compreende que se deve o direito de ser feliz. O Tião não é o típico idealista desmiolado, na realidade parece-me mais um menino mimado que até sofre boas influências, tem noção do certo e do errado, mas não consegue levar os seus planos a bom porto. Então, entre o influenciável e o impulsivo, acaba por ir pondo os pés pelas mãos e precisar da irmã. Depois há o Robert, o inglês calculista, homem de negócios quase sem escrúpulos, que se encanta pela Sofia. Porque sim, porque não é preciso motivos para uma pessoa se encantar por outra. Talvez seja da luz, talvez das almas que se reconhecem de há muito e se ligam na atmosfera que circunda os corpos, sem que as mentes o antevejam. Disposto a fazer tudo pela “posse” da Silva Andrade, aproveita uma janela do destino para reclamá-la.A grande jóia do livro é a época. Os cenários, os costumes, os entretenimentos. As personalidades da época, os bilhetinhos, o fervor republicano e anárquico, as Avenidas, os cabriolets, as viagens de doze horas de comboio, os bairros da capital e da Invicta, os hotéis, os transatlânticos e o contexto dos acontecimentos que vão tendo lugar. Deliciei-me nos cenários, por muito que haja quem se queixe das descrições, são os cenários que fazem um romance histórico. Vá lá leitores, não sejam preguiçosos! O que é um bailado sem tules? O que é um teatro sem setting? É meu gosto pessoal não gostar muito de mergulhar dentro da cabeça das personagens. É muito meu agir primeiro e pensar depois, daí que não atribua cinco estrelas. Gostaria de ter visto a personagem principal menos reflexiva e mais proactiva. Contudo, em nada prejudica o bonito quadro de época. Aconselho a quem queira espreitar a última década daquele que é o meu século histórico favorito.

Classificação: 4****/*