terça-feira, 30 de abril de 2019

#216 MÁRQUEZ, Gabriel García, Cem Anos de Solidão

Opinião: Gabriel Garcia Márquez publicou aquilo que só pode ser a obra-prima da literatura em língua castelhana em 1967, quando tinha apenas 40 anos. Calculou que lhe bastassem 6 meses a escrever todas as manhãs para o terminar, mas na verdade demorou 18 meses a completá-lo. Segundo o próprio, a inquietação mais premente da sua vida durante esse tempo foi a possibilidade de que lhe acabasse o papel para a máquina de escrever. A cada erro de grafia, destruía a folha e recomeçava de novo. Ao descer do autocarro com a versão final do manuscrito, a editora tropeçou e as folhas caíram numa poça e ficaram expostas à chuva. Foram posteriormente secas com ajuda de um ferro de engomar, e o autor só veio a sabê-lo muitos anos depois. Também conta o próprio que, ao enviá-lo para um editor na Argentina, só tinha fundos para pagar o envio de metade do manuscrito, pelo que o dividou. Ainda por cima, enganou-se e enviou apenas a segunda parte, no lugar da primeira. Acabou por ser o editor, provavelmente assombrado por esta jóia rara, que custeou o envio do início, para assim entender como começa a odisseia dos Buendía. Isto é apenas um pouco do misticismo em torno de Cem Anos de Solidão e do punho do génio das letras que lhe trouxe vida. Porque, ao terminar de ler esta maravilha – no sentido mais literal “de maravilha” –, só posso concluir que o autor era um génio. 

descriptionRevisitei as poucas entrevistas na sua voz no Youtube, e é assim que descubro que o autor se sentou diante da máquina de escrever com uma única frase na ideia, e sem saber onde é que a mesma poderia levá-lo. 

”Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo. ”


Esta frase levou a que o seu romance fosse traduzido em todas as línguas, e resultasse em mais de 50 milhões de cópias vendidas.


Que posso acrescentar a respeito deste magnífico romance?
Cem Anos de Solidão distorce o tempo e transforma Macondo - a povoação fictícia onde tudo se passa - no eixo de um furacão onde tudo sucede em círculos, e onde os males de uma família parecem ser quase uma alegoria para a história de uma humanidade supersticiosa, espiritual, mágica, sem tempo e finita. O que mais me surpreendeu na narrativa não foi tanto o realismo mágico que já havia experimentado, embora em doses menores, em O Amor nos Tempos de Cólera e Crónica de uma Morte Anunciada, mas sim o fulgor e a vitalidade com que cada página é entregue ao leitor, como se tudo tivesse sido escrito a um mesmo ritmo, num mesmo fôlego. Chegar ao fim da leitura é como perder esse fôlego. Primeiro flutuei, depois pareceu que dava cambalhotas, que trazia ao meu redor as borboletas amarelas que acompanhavam Mauricio Babilonia, ou que tinha a casa infestada de formigas-vermelhas, e continuou a cheirar-me aos orégãos do quintal dos Buendía durante um bocado, e talvez todas essas impressões só me abandonem daqui a muito tempo. Qualquer página a que regresse tem o peso da narrativa e a solidez das emoções, e qualquer capítulo, ainda que despregado de tudo o resto, é dos melhores jamais escritos, pelo menos que pelos meus olhos tenha passado.

Considero este livro uma obra de lucidez maior e de talento quase sobrenatural. Um caso nítido em que o homem supera a sua própria condição de mero mortal e se eleva. Uma ode aos costumes caribeños, a uma latitude algo negligenciada, a tempos idos eternizados por estas páginas sem tempo, em que tudo vai acontecendo, mas depois parece retroceder. É sublime o modo como o autor mexeu com as ânsias e as emoções humanas, como que universalizando-as de modo transversal ao longo do globo e da História, ou como jogou com a memória humana e as suas partidas. E a imaginação que vai sobejando de geração para geração, ao longo de sete desafortunados desníveis de Buendías, é a verdadeira matéria-prima da obra. 

Pergunto-me como é que um simples homem, em 18 meses, conseguiu engendrar tanta tropelia, tanto traço genuíno e distintivo, por entre os vícios e as semelhanças dos Aurelianos e dos Jose Arcadios, de modo a que a maravilha que acompanha toda a leitura renasça e nos surpreenda a cada nova geração. E o papel da Mulher, nesta obra de há 50 anos, é de uma perspicácia e de uma honestidade incríveis. É de uma sensibilidade magnífica o modo como um autor assume, sem melindres, que a Mulher, e em especial uma mulher – Úrsula – pode ser a mais clarividente das criaturas, e também a mais equilibrada naquela “casa de loucos”.
Sem dúvida, dos livros que ficam e que mudam a compreensão da literatura e da capacidade do Homem, sobretudo a do homem de 40 anos! - e que é possível que continue a ser lido e relido até ao final dos tempos.

Classificação: 5/5*****


Sinopse: Esta é a história da família Buendia, de Aurelianos e Josés Arcadios, geração após geração, de milagres e fantasias,de paixões e adultérios, descobertas e tragédias, de mortes e mortos, de histórias e histórias... e de muitas vidas, tantas quantas as línguas em que este romance já foi traduzido. O realismo mágico na pena de um dos maiores escritores do nosso tempo!

sábado, 20 de abril de 2019

#215 MAUGHAM, W. Somerset, O Fio da Navalha

Opinião: 
“- Ela tinha uma alma maravilhosa, ardente, idealista e generosa. Os seus ideais eram magnânimos. Até no final houve uma certa nobreza na forma como procurou a destruição.”

O Fio da Navalha, publicado em 1944, e adaptado ao cinema em 1946 e em 1985, é o terceiro romance que leio do escritor britânico W. Somerset Maugham. Quando li o seu Servidão Humana, soube de imediato que tinha encontrado um dos escritores que me acompanhariam pela vida fora, e cujas obras haveria de ler e reler. Guardei este volume para uma altura de crise, em que precisasse de ter confiança na obra em que pegasse e, se o início foi algo espinhoso, depressa a voz única do escritor me envolveu, e quando dei por mim não conseguia pousá-lo. Há muito que não leio romances em pouco mais de vinte e quatro horas, e devorei as 300 páginas deste nesse mesmo período de tempo. Ainda assim, sei que ficará comigo. É daqueles que haverei de mencionar vezes sem conta.

Embora a sinopse sugira que este romance conta a história do aviador Larry Darrell, por quem um companheiro de aviação dá a vida na I Guerra Mundial, o romance é muito mais do que isso. Maugham conseguiu transportar-me para o período entre guerras sem cair em politiquices nem ao detalhes aborrecidos de estratégia militar. De facto, não dissesse ele, a poucas páginas do fim, que “rebentou a guerra”, e nem nos apercebíamos que o maior conflito armado de sempre, com 70 milhões de baixas, se insinuava nas entrelinhas das receções parisienses das personagens que acompanhamos há duas décadas.

A ação tem início em 1919 na sociedade de Chicago, e ao longo destas páginas o próprio Maugham é uma personagem algo secundária, que transita de núcleo em núcleo e que vai tendo notícias das pessoas a quem nos apresenta. Começamos por conhecer Elliott, um americano que circula nas esferas mais altas da sociedade Europeia, e que insiste que a única cidade civilizada para um homem superior viver é Paris. A partir daí, temos a ponte criada entre os capitalistas americanos, a bolsa, os corretores e o desejo desenfreado de progresso nos anos prósperos que antecedem o crash, e a realeza em decadência na Europa pós-guerra, que vive de superficialidades e de pedantismo. 

Sendo Larry o fio condutor que intriga o nosso narrador – e que ilustre narrador! – ao longo dessas duas décadas, ficamos a saber que o aviador parece ter perdido parte do juízo quando o seu melhor amigo da Força Aérea deu a vida para o salvar de uma ofensiva alemã, e o Larry de antes, com apenas 18 anos, bem posicionado na sociedade, com uma fortuna modesta e de noivado marcado com Isabel Bradley, uma menina de bem, muda. De repente, Larry deixa de se interessar pelo lado mundano da vida, e coloca-se à parte, como observador circunspeto. Procuram ceder-lhe um lugar entre os bem-posicionados de Chicago, pedem-lhe que se junte à construção de um país que se evidencia mais próspero do que o velho mundo, delapidado pela guerra e pelos velhos costumes de repente fora de moda, mas Larry garante, para desconcerto de quem o rodeia, que tudo o que deseja da vida é fazer “nada”, e que deve valer-se do privilégio de ter um bom rendimento para poder dedicar-se a isso mesmo.

Esta é a premissa principal de um livro que, um pouco à semelhança de Servidão Humana, me parece uma senda pessoal, muito espiritual e até mística a certa altura. O que, pela voz metódica e ultrarracional – por vezes também romântica e melancólica – de Maugham, poderia soar a contrassenso. 

descriptionHá várias passagens de grande riqueza humana. Aliás, ler o meu escritor favorito referir-se ao “animal humano”, uma expressão com que tantas vezes nos identifico, por ausência de outra que melhor exemplifique o que pretendo dizer, coloca-me em plena sintonia aquilo que julgo que Maugham sentia e pretendia ilustrar. É este o forte deste romancista. A capacidade de observação, a perspicácia, a tempos a ironia e o humor, a classe, a crítica social - elegante, subtil -, mas também a ausência de pedantismo que lhe permite falar ora de rameiras ora de condessas com a mesma elegância, a mesma dignidade.
 
Destaco dois momentos de Nirvana que servem para exemplificar momentos de clarividência de duas personagens – uma delas o próprio Larry, a outra um homem de negócios que de repente, perante o crash da bolsa, se vê despojado de tudo o que lhe era caro. Foram passagens de tamanha beleza, tamanha carga emocional… Maugham encheu-me o peito e depois esvaziou-o com um grande suspiro com essas passagens, mas eu já não me sentia a mesma depois de as ler. São sítios próximos a outros que experimentei em meditação ou em momentos em que contemplei a natureza, e por isso os senti na pele com a nitidez de um arrepio.

A tempos claustrofóbica, a sua descrição da alta sociedade americana e europeia parece-me bastante detalhada, e soa-me desgastante. Tantas receções, cocktails, jantares, idas ao teatro… Enfim, tanto ócio, tanto hedonismo, tanta hipocrisia, tanta superficialidade e, ainda assim, tanta grandeza e humanidade nesses simples humanos, Comuns Mortais como o autor os nomeia, cai-me sempre enternecedora; é-me palpável.

Cheguei a meio do livro sentindo-me íntima não só do nosso escritor deambulante, mas também de toda e cada uma das personagens, e a cada vez que o autor se cruzava numa das suas viagens – Paris, Marselha, Mónaco, Londres – com essas pessoas que, desconfio, são bem reais, mas às quais ele terá prestado a cordialidade de alterar os nomes, dei por mim a beber avidamente das atualizações das suas vivências, das reviravoltas das suas expetativas e desencantos.

Larry, como caminho sinuoso e de poucas palavras que constitui em simultâneo a maravilha e o mistério deste romance, constitui um contraste gritante para com o borrão cinzento dos tais Comuns Mortais. É como se fosse uma obra de Picasso no marasmo bucólico de uma exposição de nenúfares. É com as suas viagens, a sua abordagem à vida, ao mal e aos outros, que o livro de facto se supera, e é das suas parcas palavras que tirei as principais lições de O Fio da Navalha.

Destaco também a elegância desta edição da Asa, que me parece irrepreensível e sem dúvida muito adequada ao conteúdo sublime deste romance. A isto junta-se a grande competência da tradução, que me pareceu elevar um livro já de si de extrema elegância e por vezes até poético.
A ler no momento certo.

Classificação: 5*****

Sinopse: Quando um amigo e colega de combate morre ao tentar salvá-lo, a vida de Larry Darrell muda para sempre. Para o jovem aviador americano, a morte passa então a ter um rosto. O inexorável mistério da morte leva-o a questionar o significado último da frágil condição humana e a embarcar numa obstinada e redentora odisseia espiritual. Ao recusar viver segundo as convenções impostas pela sociedade para buscar o sentido da vida (que encontrará, certa manhã, algures na Índia), Larry torna-se simultaneamente uma frustração para os que o rodeiam - principalmente para Isabel, a namorada, e Elliott, tio desta, que cultivam acima de tudo a aceitação e o prestígio sociais - e a personificação de um ideal de espiritualidade e não-compromisso. Por duas vezes adaptado ao cinema, O Fio da Navalha é um romance intemporal. As ansiedades e dúvidas de Larry são também as nossas; continuamos até hoje a buscar um sentido para a nossa existência. Para encarnar essa luta contra o destino, Somerset Maugham criou um dos mais fascinantes personagens do seu vasto legado literário. Da Primeira à Segunda Guerra Mundial, passando pela Grande Depressão, ele leva-nos, através das sociedades francesa, americana e inglesa, à verdade mais recôndita da alma e do sentimento humanos.

domingo, 14 de abril de 2019

#214 STEINBECK, John, A Pérola

Sinopse: Baseada num conto popular mexicano, A Pérola constitui uma inesquecível parábola poética sobre as grandezas e as misérias do mundo tão contraditório em que vivemos. E, assim, a história comovente de uma pérola enorme, de como foi descoberta e de como se perdeu… levando com ela os sonhos bons e maus que representava, mas é também a história de uma família e da solidariedade especial entre uma mulher, um pobre pescador índio e o filho de ambos.

Opinião:

"Não é bom desejar muito uma coisa. Pode arredar a sorte. Basta desejá-la um pouco, porque é preciso muito tacto com Deus ou com os deuses."

A Pérola é uma novela de J. Steinbeck - provavelmente o meu escritor favorito -, publicada em 1947. Como a sinopse anuncia, é baseado num conto popular mexicano. 

O tom da leitura foi-me muito familiar. Recordou-me sobretudo A Um Deus Desconhecido (1933), que é um dos meus livros favoritos. Tem a mesma carga mística, profética, quase divina desse outro volume.


Uma vez mais, creio antever algum socialismo nas exposições deste autor californiano. Steinbeck volta a pegar num núcleo de pessoas desfavorecidas e atira-os aos lobos. Nesta curta leitura de 98 páginas, nem por isso menos intensa, apresenta-nos a Kino, Juana, e ao filho do casal de pescadores de pérolas, Coyotito. Kino é o chefe da família, é sobre os seus ombros que assentam os seus alicerces. Juana é o lado espiritual, a voz que procura conter os impulsos de bestialidade do bicho-humano. São nativos mexicanos, falam a "língua comum" há pouco tempo, e vivem à beira mar, que lhes traz a cada dia o sustento. Isolados do burburinho da cidade e um pouco à margem das suas regras, não cultivam ambições nem procuram ser mais do que são. A fonte de rendimentos é o barco que Kino herdou do pai, e que pertencera, em tempos, ao seu avô. É com ele que mergulha em busca de pérolas, que depois vendem aos negociantes da cidade.


Steinbeck consegue enlear-nos em toda a sociedade de La Paz (California Sur), e apresenta-nos os muitos defeitos dos extratos que a compõem. Esses defeitos tão humanos são postos em evidência quando Kino encontra uma pérola de valor e dimensão extraordinárias. 


O até então pobre, ignorante e marginalizado Kino, é alvo da curiosidade de toda a cidade. Em breve as coisas escalam e a ganância do padre, do médico, dos outros pescadores e dos compradores de pérolas, põem em risco o equilíbrio sólido da pequena família de nativos que, até então, pouco tivera e menos ambicionara.


Creio que Steinbeck queria mostrar os efeitos nefastos da ganância na sociedade. Diria que esta ganância é a mesma que expôs em As Vinhas da Ira (1929), quando parte da população americana perecia de fome, e a outra aproveitava o seu desespero para progredir pagando baixos salários e explorando-os até à última gota de sangue. Os princípios são os mesmos. Steinbeck deixa também claro o quão difícil é, para alguém à margem, entrar numa sociedade que é aparentemente aberta e heterogénea, plena de oportunidades, mas que no fundo é viciada e corrupta. Deixa evidente que há uma tendência para que o humano tire proveito de outro humano que se lhe apresente vulnerável. A prova disso é que, a partir do instante em que Kino descobre algo valioso, algo que desperta a cobiça de todos os outros, é como se toda a cidade se unisse para o esmagar e expropriar do que poderia significar, para ele, uma possível ascensão social.


Senti as emoções que me acompanharam nestas outras leituras. Injustiça. Desespero. Uma vez mais, o autor conseguiu imprimir uma aura quase de um Jesus Cristo, ou de um profeta, ao seu personagem masculino central. E Juana, por sua vez, é como uma Maria sofredora e mãe. Acima de qualquer coisa, é mãe.


Lê-se muito rápido e é uma excelente introdução à obra deste Nobel (1962) americano.Recomendo vivamente!

Classificação: 5*****

segunda-feira, 1 de abril de 2019

#213 SARAMAGO, José, Caim



Sinopse: Neste novo romance, o vencedor do prêmio Nobel José Saramago reconta episódios bíblicos do Velho Testamento sob o ponto de vista de Caim, que, depois de assassinar seu irmão, trava um incomum acordo com deus e parte numa jornada que o levará do jardim do Éden aos mais recônditos confins da criação.


Se, em O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago nos deu sua visão do Novo Testamento, neste Caim ele se volta aos primeiros livros da Bíblia, do Éden ao dilúvio, imprimindo ao Antigo Testamento a música e o humor refinado que marcam sua obra. Num itinerário heterodoxo, Saramago percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha, conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e de certo modo involuntária, entre criador e criatura. No trajeto, o leitor revisitará episódios bíblicos conhecidos, mas sob uma perspectiva inteiramente diferente.

Para atravessar esse caminho árido, um deus às turras com a própria administração colocará Caim, assassino do irmão Abel e primogênito de Adão e Eva, num altivo jegue, e caberá à dupla encontrar o rumo entre as armadilhas do tempo que insistem em atraí-los. A Caim, que leva a marca do senhor na testa e portanto está protegido das iniquidades do homem, resta aceitar o destino amargo e compactuar com o criador, a quem não reserva o melhor dos julgamentos. Tal como o diabo de O Evangelho, o deus que o leitor encontra aqui não é o habitual dos sermões: ao reinventar o Antigo Testamento, Saramago recria também seus principais protagonistas, dando a eles uma roupagem ao mesmo tempo complexa e irônica, cujo tom de farsa da narrativa só faz por acentuar.

Opinião: Salvo erro, Caim é o último romance escrito e publicado em vida por José Saramago (2009). Lê-se em várias fontes que esta revisitação do Velho Testamento pelo primeiro assassino da humanidade – Caim – é mordaz, provocadora, e que portanto irritou bastante os católicos. Diria, tendo em conta que o Velho Testamento é praticamente a Torá, que deve ter irritado igualmente os judeus. Já o vi acusado de antissemita aqui e ali. Pela minha experiência, uma crítica à religião/cultura judaica/feitos do estado Israelita resulta sempre, para os judeus, como antissemitismo. Talvez antissemitismo para o judeu signifique “ato de criticar um pormenor da cultura judaica”, depois extrapolado para “ódio aos judeus em geral”. 

Saramago era um homem clarividente quanto a deus, e um idealista político. Podemos, ou não, discordar das suas crenças, mas não há como não admitir que dispunha delas de modo coerente. Era um bom argumentador, via o mundo do seu jeito simples e por essas ideias se regia. Não há como não admirar um homem que é fiel às suas crenças, sobretudo quando estas se alinham do lado da humanidade e contra a barbárie – neste caso, contra as fábulas grotescas do Velho Testamento. 

Adorei o livro. Adorei-o por ser agnóstica, adorei-o por compartilhar destes mesmos princípios e deste mesmo horror para com a vileza e a brutalidade. Ri-me, mas, acima de tudo, adorei a viagem. Adorei as imagens, o ângulo que Saramago me emprestou, a partir do qual pude analisar tudo com certa fanfarronice. 

Em “Caim”, Saramago visita o Génesis, introduz-nos a um deus caprichoso e incongruente, ciumento e invejoso, e não se coíbe de assim o denominar. A partir da expulsão de Adão e Eva do paraíso, o autor leva-nos aos seus três filhos, Abel, Caim e Set, e à responsabilidade do todo-poderoso no assassinato de Abel. Marcado na testa e condenado a vaguear pela Terra recém-criada, Caim atravessa os muitos contrassensos do Velho Testamento, e Saramago dá voz a um fratricida, para que este julgue as ações de um ser dito inquestionável. Pasme-se o leitor a cada vez que Caim, que tão friamente assassinou o irmão com uma queixada de jumento, se horroriza com os desmandos do senhor. Montado num jumento, viaja de tempo em tempo, de cidade bíblica em cidade bíblica. É assim que vamos às terras de Nod, à Torre de Babel, e é também assim que assistimos à destruição de Jericó, à desgraça de Job e ao dilúvio que extermina a primeira humanidade.

O Deus do Velho Testamento é cruel, mimado e parece-me terrivelmente enfadado com a sua própria criação. Saramago, valendo-se da sua genialidade, ousadia, e de um humor irónico delicioso, atreve-se a mostrar-nos isso mesmo em “Caim”. Não há como negar essa malvadez que o autor se limita a realçar e a comentar. 

Uma leitura rápida, apesar do estilo à la Saramago. Pareceu-me que, por fim, já falo a sua língua sem dificuldade. Outra viagem prazerosa e que apela a excelentes reflexões, pelo punho do único Nobel de literatura português. Aconselho vivamente!

”O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede (…). O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim.”

Classificação: 5***** 

quinta-feira, 28 de março de 2019

#212 TURGUÉNEV, Ivan, Fumo

"Este Verão, fui ao Palácio de Cristal, perto de Londres, que, como sabe, contém uma espécie de exposição de tudo o que a inteligência humana engendrou – uma enciclopédia da humanidade, por assim dizer. Pois ao passear por entre todas aquelas máquinas e instrumentos e estátuas de grandes homens, pensava ao mesmo tempo que se fosse dada uma ordem para que, se uma nação qualquer desaparecesse da face da Terra, desaparecesse imediatamente do Palácio de Cristal tudo o que essa nação inventara – a nossa mãezinha, a Rússia ortodoxa, podia sumir-se no inferno que nem um prego, que nem um alfinete se moveria: tudo ficaria no seu lugar, pois nem o samovar, os sapatos de corda e o knut – esses nossos famosos produtos – nem eles foram inventados por nós.”

Opinião: Fumo de Ivan Turguénev, é a minha primeira incursão nos grandes autores russos. Porque não começar por Dostoievski ou Tolstoi? Bom, este livro tem umas 500 páginas a menos do que os grandes clássicos da mãe Rússia, e eu imaginava os obstáculos. A sociedade, a complexidade dos costumes, a estranheza dos nomes, da geografia, das ideologistas e da mentalidade.

Tentei enquadrar a mentalidade russa do século XIX em tudo o que sei sobre a época, e que não é muito no contexto dessa nação. Sabia que os Romanov ainda dominavam a Rússia Imperial, sabia que havia príncipes às mãos cheias, e que era uma sociedade militarizada desde as ameaças de Napoleão, passando pela Guerra da Crimeia que, no caso deste romance, fora resolvida há cerca de uma década. As ideias socialistas já viajavam por uma Europa cada vez mais cosmopolita, de contrastes, unida pelo vapor dos comboios.

Em Fumo, consolida-se a ideia de que a Rússia bebia das tradições Europeias. Na época deste romance (1867), vamos conhecer um jovem estudante, Grigori Litvínov, que observa as mutações na sociedade ao seu redor. Vive num tempo de príncipes falidos, de burgueses em ascensão, em que os extratos sociais se misturam, se confundem. O território Russo enfrenta grandes alterações devido a agitações sociais, e é-me claro que o romance é uma sátira, uma crítica duríssima à fanfarronice dos antigos aristocratas, que viviam de imitar os franceses e os alemães. Mas é também época de nacionalismos exacerbados, e creio que os homens que, por entre os fumos da aristocracia, dos salões, dos casinos, dos bailes, erguem a voz para condenar esses hábitos de bons vivants falidos, são os pais dos que, em 1917, escorraçam o Czar do poder. É, portanto, o retrato de cidadãos russos num momento em que, em simultâneo, se maravilham e se repugnam perante a sua pátria e os seus conterrâneos.

A ação decorre em Baden, e parece que todos vivem de ócio, de maledicência, de saudosismo e de tagarelice. É a época do romantismo literário na Europa e, dez anos antes, Gustave Flaubert metia-se em problemas por causa da frivolidade da sua Madame Bovary. Trata-se, talvez por isso, de uma história de amor em todas as suas nuances, entre Grigori e Irina Pavlóvna, duas almas de mundos diferentes. Grigori um idealista, algo conformado, ponderado e honesto, e Irina, uma deslumbrada pelos vestidos, as jóias, as luzes da vida social.

Creio que o autor conseguiu imprimir grande humanidade às suas personagens, no sentido em que temos aqui o leque completo de representantes daquilo que julgo ser a sociedade russa, em toda a sua heterogeneidade, de meados do século XIX. Temos o idealista que vagueia pela cidade alemã em busca de um “verdadeiro russo”, que fale russo e que despreze aqueles ares de Franceses que ao aristocratas e militares se dão, o revolucionários que sobe a cada palanque e grita contra a situação da Rússia, expropriada dos seus valores base, temos o militar orgulhoso que beneficia do momento em voga, a esposa desencantada, aborrecida, amoral, e a rapariga virtuosa, sincera e idealista, que, de algum modo, personifica o que de melhor aquela pátria consegue produzir.

Litvínov não está menos perdido do que os restantes, mas Irina personifica, para o jovem estudante, a fronteira entre os dois mundos. O manter-se na Europa, a salvo dos conflitos russos e da sua crescente instabilidade, o praticar Francês e jogar na roleta, conversar com a elite do seu país e observá-los por entre o fumo dos serões, ou embarcar numa locomotiva de regresso a S. Petersburgo, onde poderá assumir o seu papel de burguês na nova ordem em construção, deixando para trás o fumo de toda aquela leviandade.

Foi um romance agradável, algo melodramático no que ao quadrado amoroso diz respeito, mas parece-me uma aposta segura na introdução aos clássicos russos.


Sinopse: «Fumo, de Turguénev, contém uma notável diagnose da vida política e intelectual russa de meados do século passado, e por isso alguns críticos têm querido considerá-lo um roman à thèse. Sem dúvida, as longas diatribes sobre os problemas políticos e sociais do tempo podem levar-nos a pensar assim. Mas este romance contém também uma das mais belas histórias de amor de Turguénev, e narrada com uma técnica insuperável. E precisamente o que me leva a não aceitar a opinião dos partidários do roman à thése é esta extraordinária história de amor. Julgo que ainda ninguém notou como é singular: uma história de amor que, nas mãos de um escritor romântico como Turguénev (perdoem-me os que o consideram realista, que também é) insolitamente não se resolve em cataclismo.»

Classificação: 3***/*****

segunda-feira, 11 de março de 2019

#211 QUINN, Julia, O Casamento Inventado

Opinião: Há sempre algo de irresistível que me leva a comprar os livros da Julia Quinn. Acho que vem de 2012, quando comecei a ler a série Bridgerton com o primeiro volume Crónica de Paixões e Caprichos. Li a série de enfiada, conforme os livros iam saindo. Deixei-me envolver pela família barulhenta e divertida, e pela ternura dos afetos entre eles. Volvidos 7 anos, talvez não sejam os livros da Julia Quinn que mudaram, mas eu.

Estamos no final do século XVIII e a revolução Americana ainda não está decidida. Os britânicos batiam-se por manter o precioso território ultramarino. A saga da familia Rokesby começou com A Indomável Miss Bridgerton, sendo que Billie Bridgerton estaria de casamento apalavrado com o vizinho, Edward, mas acaba por se apaixonar é pelo irmão dele, George. Edward estava longe, a combater pelo Império Britânico no Novo Mundo, e estava, inclusive, desaparecido em combate.
Neste segundo volume da série, Edward Rokesby acorda num hospital de campanha em Nova Iorque após uma aparente missão falhada no Connecticut, e sofre de amnésia quanto aos últimos meses da sua vida. A irmã do seu melhor amigo e companheiro de combate, Cecilia Hartcourt, desembarca na outrora Nova Amesterdão para procurar o irmão, e acaba à cabeceira de Edward enquanto ele recupera. Uma vez que a época não permitia uma convivência tão próxima entre uma mulher e um homem fora do seu círculo familiar, Cecilia mente e diz ser casada com Rokesby.
Pronto. É uma premissa já muito vista. Deve haver pelo menos uns cinco romances destas autoras referência em torno disto. Matou o livro para mim, porque o pontapé de saída é esse cliché gigantesco. Acho que não há um motivo no mundo para uma pessoa mentir a outra, muito menos para a "manter por perto".
De qualquer modo, as referências históricas aos conflitos, a Nova Amesterdão, aos holandeses e às suas spekulaas, aos jornais que precisavam de ser passados a ferro para a tinta se fixar, etc., foram-me interessantes, mas não aqueceram um livro que senti como ameno.
É fofinho, mas não passa disso.
Comfort literature.

Sinopse: Enquanto dormias...
Órfã e com o irmão ferido nos campos de batalha da América, Cecilia Harcourt vê-se perante duas opções aterradoras: ir viver com uma tia solteirona ou casar com um primo maquiavélico. A jovem escolhe a opção... três: atravessar o Atlântico e ajudar o irmão a recuperar. Mas após uma semana de buscas, Cecilia não encontra o irmão e sim o melhor amigo dele, Edward Rokesby. O galante soldado está inconsciente e a precisar desesperadamente de cuidados. Para lhe salvar a vida, Cecilia recorre a uma pequena mentira...
Eu disse a todos que era tua mulher.
Ao recuperar a consciência, Edward constata que não recorda nada dos últimos três meses. Mas... decerto que se recordaria de ter casado... ou não? Mas se todos dizem que assim é… 
Se ao menos fosse verdade...
A mentira que Cecilia contou pode pôr em risco todo o seu futuro, mas ela fê-lo por amor... pois quanto mais tempo passa com o jovem, mais intensos (e verdadeiros!) são os sentimentos que nutre por ele. E quando a verdade vier ao de cima, quem sabe o que irá acontecer? O próprio Edward poderá ter também algumas surpresas por revelar...

Classificação: 2**/***

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

#210 MORRISON, Toni, Deus Ajude a Criança

Opinião: ”Sem aprofundarem muito, partiram do princípio de que os três viveriam juntos, pelo menos até Queen poder cuidar de si”

Nos últimos tempos, tenho lido muitos livros bons. Li O Som e a Fúria, li As Vinhas da Ira, li À Espera No Centeio, li o Mataram a Cotovia. Posto isto, peguei nesta pequena obra de Toni Morrison, uma autora nova para mim, porque o tema do racismo me interessa genuinamente. Já o explorei nalguns destes romances, e esperava algo ainda mais pungente, ainda mais avassalador, neste Deus ajude a criança, porque a ação nos chega pelo punho de uma negra laureada com o Nobel, nascida em 1931 e que, até pela época em que viveu a sua juventude, deve ter contos de arrepiar a respeito do assunto.

Não sei se comecei pelo livro errado, ainda tenho ali outro da autora na prateleira, mas o certo é que detestei. Oh, se detestei. Detestei-o da página 1 à 149, mas mais ainda da 150 à 157. Vou tentar resumir porque me causa o livro tanta aversão em termos gerais, e depois vou pôr um filtro de spoilers para dizer porque é que um pobre e inocente romance de 157 páginas me causa tanta indignação.

Comecemos do modo politicamente correto: as personagens são fúteis e superficiais. Pode dizer-se isto de personagens que saíram do punho de um Nobel? Diria que sim, se este acaso lhe fosse intencional. Só que não é. O que a autora faz neste romance já vi ser feito muitas vezes: pega-se em personagens de duas dimensões, irritantes, inconsequentes e incoerentes, e pinta-se-lhes um passado infeliz. A partir daí, é como se a tivéssemos enchido de substância. Já não é fútil, é revoltada. Já não é irritante, é reativa. E também não é inconsequente, está é perturbada. Só que as personagens deste livro, da primeira à última, são de um vazio de dar dó. 

Comecemos pela personagem principal, Bride. "Bride" é o apelido que Lula Ann escolheu para si própria. É estúpido, mas podia ser só isso. Não, na realidade, não consigo escolher um nome melhor para uma personagem tão chata como esta Bride. O nome calha-lhe que nem ginjas. De seguida, temos Brooklyn, a amiga de Bride. Nem me ponham a falar dessa amizade entre a menina preta-ónix e a menina loirinha e pálida de rastas loiras. Não acrescentou uma vírgula ao romance, exceto descrevê-las exaustivamente a nível físico, para vermos como são diferentes e como os brancos até podem ter os seus traumas. Depois temos Booker, o ex-qualquer coisa de Bride. Nunca entendemos porque é que gostam um do outro, porque é que se apaixonaram, se estão apaixonados ou se é só o sexo que era maravilhoso. Isto também me faz imensa confusão nos romances: quando os autores nos atiram personagens que são autênticos protótipos do falhanço da nossa espécie, que não conseguem conduzir um carro sem bater, que só fazem disparates, são desastrados, só se metem em problemas, mas, por acaso, são todos deuses no sexo. E como há aquele ênfase aborrecido no sexo e em como sexo de outro mundo é suficiente para forjar relações. “Ele era complicado, mas o sexo era divinal”. Pronto, isto é a relação da Bride com o Booker. Mas há mais personagens, há a Julie, a Raisin/Rain, a Sofia Huxley/ex-professora da Bride, a mãe da Bride, todas muito iguais. Demasiado iguais. Já explicarei abaixo quão iguais.

Agora, para finalizar o excerto sem spoilers… Imaginem uma história que se quer sobre o racismo, um racismo tão acutilante que a premissa principal vendida na sinopse é a de uma mãe que despreza a própria filha pela cor da sua pele. Parece-me um mundo de possibilidades e, no entanto, saíram todas goradas. Parecia-me que estava a ler um livro da Lesley Pearse, tragédia após tragédia. Não há um dedo de credível neste romance. A autora não quis saber de realismo. Pensou “quantas tragédias consigo enfiar num livro passado em para aí dois meses e em 157 páginas?”, e enfiou-as todas. Com especial incidência no racismo, abusos sexuais e desastres em geral. Pois é, esperava uma coisa composta e saiu-me este esboço sobre uma negra da cor da noite cujos atributos físicos vêm referidos até à exaustão, de uma futilidade embaraçosa, tudo num emaranhado de situações irrealizáveis que me puseram num constante estado de a sério?. Gostaria de dizer que foi isso me impediu de viver a história, mas a verdade é que não há história. Não entendo a quantidade de boas reviews. A medicação deve estar a afetar-me o discernimento. 

Para culminar, o livro segue a várias vozes que, em vez de acrescentarem algo de novo, só repetem a mesma circunstância pela segunda e às vezes terceira vez. Num livro tão pequeno, é dose.

Ora vamos lá à parte sumarenta (segue-se um resumo do livro comentado por esta leitora desgostosa):

Lula Mae, negra, tem uma filha chamada Lula Ann, que é preta-azulão. O marido, apesar de negro, não é assim tão negro e deixa-a porque a filha é uma aberração. Bam! Primeira desgraça. Lula Mae fica sozinha a cuidar da filha e a lutar contra a própria aversão à pele da criança. Não é mencionada a sua ocupação - ou estava distraída -, mas algures, quando a filha tem 7 anos e tenta denunciar o senhorio que vê a molestar uma criança atrás de casa - quem nunca?, a mãe diz-lhe que tem dificuldade em arranjar outra casa por aquele preço e exige-lhe que não abra o bico a respeito daquele assunto. Mais ou menos nessa mesma fase da infância da filha, Lula Mae menciona que já não quer saber se a olham de lado por passear uma menina tão negra e feia porque ganha melhor do que aquela gente toda. E deve ganhar, porque a filha sai de casa muito cedo - … - e, aos 23 anos, já mora num apartamentão, é ricaça, conduz um Jaguar e é tipo uma rainha da cosmética e uma fashion icon graças ao facto de ter aprendido a valorizar o seu tom de negro, que basicamente se resume a usar roupa branca, como a autora nos repete pelo menos 57 vezes. É importante recordar que a Lula Ann, que ao crescer decide auto-nomear-se “Bride” - … - tem 23 anos no decorrer desta história. 

Agora a melhor amiga de Bride, Brooklyn: branca e de rastas loiras, é colaboradora da Bride numa loja de cosmética – aquilo dá imenso dinheiro! -, e uma vez, só para ver se o namorado da Bride gostava mesmo dela, entrou no quarto da amiga e viu-o deitado na cama a ler. Então despiu-se toda e juntou-se-lhe na cama, só para testar a fidelidade dele à Bride - quem nunca fez isso por um amigo? -. Já mencionei que a Brooklyn saiu de casa muito cedo - … - e foi molestada? Isto é capaz de começar a ficar um bocado repetitivo, agora. De seguida temos Booker, o namorado trompetista de Bride, que, segundo Brooklyn relata, é mendigo porque ela o viu a pedir na rua ou a tocar na rua em várias partes da cidade. A Bride nada sabe dele, porque, como é evidente, abrimos a nossa casa a quem quer que nos possa oferecer bom sexo, e depois vamos trabalhar durante os meses que dura a relação e a pessoa vai ficando por lá. Como não falamos da vida de um nem da vida do outro, suponho que discutissem cosmética ao jantar, visto que ela nem sabia que ele tocava trompete. 

Ok, regressando a Booker. Booker é muito culto e tinha um irmão gémeo que morreu ainda no útero da mãe. Trágico? Então esperem só até dizer que o outro irmão dele, Adam, um menino prodígio, foi raptado por um predador sexual e assassinado?…. Por último, como se não bastasse, o Booker vem a casa nas férias e tem uma discussão horrível com os pais, porque os pais desmontaram o quarto do irmão falecido para fazer um closet para a irmã, e ele não podia suportar tal frieza, então saiu de casa muito novo - …. Entretanto, a Bride persegue uma Sofia Huxley que foi sua professora, leva-lhe 5000 dólares e uns itens básicos, porque a outra acabou de cumprir 15 anos de cadeia por abuso a menores - …. A professora, ao recordar-se que ela foi uma das crianças que a acusou, dá-lhe uma coça tremenda, e a amiga dela vem buscá-la e leva-a toda partidinha para o hospital. Os elementos importantes da surra são o sapato de designer que a Bride perde ao ser sovada. Que sucede então? A nossa Deusa sexual diz à melhor amiga que levou um tareão de uma ex-reclusa? Não, diz que tentaram violá-la- …. Toda a gente sabe que aos amigos conta-se a versão mais simples, que é para não se porem com muitas perguntas. 

Entretanto, assim que se põe boa, decide ir atrás do ex-namorado, afinal ele desapareceu porque disse que ela não era a mulher certa para ele. Seguindo uma pista, diz adeus à melhor amiga por bilhete, mencionando que tem de fugir e deixar os compromissos pendentes e que não lhe pode dizer onde vai - …. Seguindo o rasto do moço para uma zona rural, e mencionando que está muito escuro e que a estrada é esquisita, a nossa bonita Bride, com botins novos forrados a pele de coelho, vai contra uma árvore com grande estrépito. Fica ali uma noite inteira, com o pé esmagado nos pedais e o telefone sem rede - …. Daí que vem uma menina de olhos muito grandes verdes, e depois o pai da menina vem buscar a Bride e levá-la para sua casa. Chamam um médico e dizem-lhe que precisa de 6 semanas de repouso. Nada mais natural do que ficarmos em casa de estranhos durante seis semanas em repouso, não é? Sem uma alma no mundo a quem ligar, sem desejar aceder a cuidados preferenciais que o nosso bolso pode pagar, em vez de um médico de província a cortar-nos a preciosa bota de pêlo de coelho? Sobretudo quando se conduz um Jaguar e eles são hippies que fazem as necessidades num barraco do quintal, e que não têm chuveiro. 

Entretanto, trava-se amizade com a criança Raisin/Rain, apenas para descobrir que a criança foi posta na rua pela mãe, aos seis anos, porque a mãe recebia dinheiro para a deixar ser molestada por estranhos - … e ela se recusou. Ouviram, meninas de 6 anos abusadas sexualmente? Basta dizer que não querem. Vai daí a Bride está boa do pé e vai-se embora – não é que este impasse acrescente coisa alguma à história, além de mais um caso de abusos sexuais a menores. A Bride nunca mais coxeia nem nada. 

Chegamos então à casa de Queen, tia do Booker, e pensamos que esta porcaria de livro está quase a acabar, mas aproxima-se a tal página 150, em que tudo fica mais estúpido ainda. Portanto a Queen está no quintal a queimar um colchão por causa dos percevejos, e a nossa querida Lula Ann, cof cof, Bride, está muito preocupada porque se lhe fecharam os furos das orelhas, e as mamas estão muito pequenas, e começa a achar que se está a transformar de novo na adolescente desengonçada que a mãe detestava - não sei se já tinha dito que tudo neste livro é sobre aparência. Senta-se à mesa com Queen, apenas para a ouvir falar um bocadinho de como se casou muitas vezes e de como tem muitos filhos que nunca a visitam mas que mandam sempre dinheiro. Acabada a conversa, que dura uma ou duas páginas e que faz delas melhores amigas – ah, e que serve também para a Queen contar a história de Booker, porque já se sabe que no amor as pessoas não comunicam exceto sobre o ponto de ebulição da água - lá é informado à rapariga o paradeiro do seu adorado. Consta que o desgraçado, há poucos dias, partiu um braço (a autora nem se dá ao trabalho de inventar uma circunstância para o rapaz partir o braço, mas eu descobri-a logo adiante), mas está numa caravana ali perto. Portanto a Bride vai até lá, trocam três frases acesas, ela parte-lhe uma garrafa na cabeça - quem nunca partiu uma garrafa na cabeça do seu mais-que-tudo?, ele desmaia por uns instantes, ela acalma-se. Ele acorda e está mais calmo, mas ela adormece sentada na cadeira a meio da discussão. A tia Queen aparece, pergunta que barafunda é aquela, e ajuda-o a deitá-la na cama porque ele tem o bracinho aleijado, e vai-se embora de novo com recomendações de que não sejam estúpidos. Outra coisa que nunca entendi nas novelas/literatura rasca é como é que alguém adormece involuntariamente, mas depois alguns conhecidos dizem que se apagam a ver TV, por exemplo, que é coisa que também nunca me aconteceu. Por esse motivo, aceito que se adormeça em situações de relaxamento, mas não a meio de uma conversa - mas também esse adormecimento tinha outra fisgada, o problema é que era óbvio. E também nunca entendi, só para encerrar, isso de uma pessoa adormecida se deixar levar em braços por estranhos. Se a gata miar na sala, ao fundo do corredor, eu acordo. 

Portanto o rapaz torturado cuida da mulher que lhe deu com uma garrafa na cabeça, ela desperta e rouba comida do prato dele, afinal estava só rabugenta. Falam sobre o passado e ele diz que teve de a deixar sem explicações - as pessoas fazem imenso isso na vida, e neste livro mais ainda - porque ela ia dar dinheiro e apoio a uma condenada por molestação de menores, e o irmão dele morreu por causa de uma pessoa assim. Ela confessa que só queria reparar o que fez porque mentiu em tribunal, só disse que a professora tinha molestado as crianças para a mãe ficar orgulhosa dela - WTF?. Porque, aos 7 anos, a nossa mãe manda-nos calar a boca sobre o senhorio a ser masturbado por uma criança no pátio, mas, aos 8 (salvo erro é logo aos 8), e sem coerção, palpita-nos que a mesma mãe vai ficar super orgulhosa se acusarmos a professora em falso por nos ter molestado. E, como é esta piada de livro, a mãe fica mesmo orgulhosa, passeia de mãos dadas com a Lula Ann e tudo. Vá lá entender-se. 

Pronto, pensamos que acabou o martírio. Só que não… aproximamo-nos perigosamente da página 150. Começa a cheirar a fumo. Esperem… o colchão… os percevejos? A casa da tia Queen? Está a arder, claro. É este livro! A casa arde, e a tia tem a cara a arder, mas os nossos heróis trazem-na para fora, e a Bride tem de tirar a t-shirtdiante dos vizinhos todos para apagar as chamas do cabelo da tia Queen e fica com os seios magros à vista de todos, que horror. Entretanto, a tia vai para o hospital. E a Bride vai para a sua vida? Não, todos sabemos que quando temos alguém doente no hospital, largamos emprego, vida, contas, família e amigos, para nos postarmos à beira do moribundo. E é isso. Bride e Booker ficam ali, unidos a torcer pelo bem da tia Queen, que a Bride diz que ama (afinal, passaram meia hora juntas). Fazem planos de futuro “(…) Começaram a planear o que fazer quando Queen tivesse alta. Arranjar um sítio onde pudessem ficar todos? Uma caravana grande? Sem aprofundarem muito, partiram do princípio de que os três viveriam juntos, pelo menos até Queen poder cuidar de si.”. Quem nunca abandonou a sua vida toda, estacionou o seu Jaguar num parque de roulottes e foi ajudar uma senhora que conheceu há cinco minutos a recuperar de um acidente durante o tempo que fosse necessário? 

Por sorte, Queen está muito melhor. Vai sobreviver, uff! De salientar que os pombinhos estão separados, até porque não têm aquela estranha capacidade de alguns Homo Sapiens Sapiens têm: falar. 

Mas esperem, chegamos à página 150. Na cafetaria, Brooke conta a Bride que Queen tem um grande desgosto – isto é a autora, para gostarmos da personagem, e cheirou-me logo a esturro. A filha Hannah avisou-a que o pai a molestava - A SÉRIO? -, só que a Queen não quis saber e a filha nunca mais lhe falou. Atroz. É para aí o 17º molestado sexualmente neste livro. Entretanto, já eu regurgitava quando a Queen apanha uma bactéria hospitalar… e MORRE. Bam!Não vale a pena dizer mais nada. É um livro de doidos. Uma estupidez pegada. Um insulto aos bons romances. Uma porcaria que qualquer menina de secundário escrevia numa semana se levasse as canetas coloridas para o recreio e o bloco de notas. Pergunto-me se não é a escrita pelo negócio, para vender livros, porque se tem um selo bonito para por na cama a dizer "Prémio Nobel da Literatura", mas já não se tem mais nada a dizer. Chega. Vou tirá-lo do sistema. Péssimo. 

Sinopse: Sweetness não consegue amar a filha incondicionalmente. Bride alcança grande sucesso e beleza, mas cresce sem o apoio da mãe. No centro da discórdia está a cor da sua pele, «negra como a noite, negra do Sudão». No percurso de Bride encontramos Booker, também perturbado pela infância, e Rain, uma criança de tez clara. Neste romance intenso, Toni Morrison mostra-nos como a infância afeta todos os aspetos da vida adulta, comouma música de fundo que nunca deixamos de ouvir.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

#209 CARVALHO, J. Rentes de, O Meças

Sinopse: Novo romance de Rentes de Carvalho. Uma história de violência, em que a progressiva definição dos contornos da memória trará novas e dolorosas verdades. Romance inédito, nele se conta a história de António Roque, homem atormentado, possesso do demónio de funestas memórias. As imagens do passado que regularmente se apoderam dele transformam-no num monstro capaz dos piores atos. No entanto, a obscura história da irmã e do homem abastado que se servia dela - e que, apesar de morto, continua a instigar-lhe um ódio devastador - não é exatamente como ele pensa que se lembra. Depois de anos emigrado na Alemanha, o Meças regressa à sua aldeia de origem. Com ele vivem o filho (a quem detesta) e a nora (a quem deseja, mas inferniza a vida), atemorizando, de resto, todos os que com ele se cruzam. Uma história de violência, em que a progressiva definição dos contornos da memória revelará novas e dolorosas verdades.

Opinião: 


"Criei-me a falar sozinho, a brincar sozinho, forçado a inventar um mundo que, pela fantasia, compensasse o escasso território do pátio em que me isolavam, como se o contacto com os outros fosse um perigo ou desse peçonha.”

Este é o primeiro romance que li de J. Rentes de Carvalho, apesar de o próprio, na Feira do Livro de Lisboa do ano passado (2018) me ter aconselhado a começar pelo "Ernestina". Esse fica para depois. Na mesma ocasião, alguém mencionou que o livro projetou imagens muito sombrias na sua mente, e que acabava por ligar as luzes todas de casa à noite, enquanto o lia, nem sequer senti que a maldade desta personagem fosse de cariz tal que o livro me conseguisse roubar o sono. Não senti esse assombro, mas “O Meças” não deixa de ser um retrato pesado, por vezes agoniante e cru de uma realidade rural que continua a ser a do nosso país em 2019. Porém, como em parte fundamentadas as canalhices da personagem principal, acabo por lhe atribuir mais humanidade do que pura vileza.

Uma das ideias que o livro desenvolve, e que vai ficar comigo durante os próximos tempos, é a de que existe um desencontro entre a imagem de um meio rural português perante os estrangeiros e os que de fora o vêem, e a realidade daquelas vivências. O Portugal de montes idílicos, de ingénua iliteracia e de brandos costumes, tantas vezes elogiado na comunicação social e romanceado na literatura, não existe em “O Meças”, como não existe para mim nem para todo aquele que tenha tido contacto com o país profundo e visceral. Um Portugal de vinganças, incesto, maus fígados, copos e peneiras. Este é, para mim, a espinha dorsal que dá alento a estas 180 páginas.


O autor opta por contar a história a quatro vozes que nos chegam chegam na primeira pessoa, sendo que também surgem trechos narrados por uma voz ausente. António Roque é o Meças, e também o detentor do discurso mais ríspido, mais violento, com rasgos de um Português floreado. Um pouco como se nos chegasse, através dele, o trauma, a dureza, a ausência de remorso, a iliteracia, o preconceito sofrido e o outro, praticado, que é são a essência do livro. Por vezes torna-se difícil acompanhar-lhe os trejeitos de linguagem, mas, terminada a leitura, parece-me que era necessário distinguir esta alma das restantes.


A segunda voz é a do filho do Meças, Abel. Sobre esta relação pai e filho: “São sem conta e antigas as razões de não se gostar de um filho, abundam no Velho Testamento, na mitologia grega, com pouco esforço as encontramos à nossa volta”. Esta segunda voz assemelha-se um pouco àquela que pertence à nora do Meças, Isaura. O discurso é mais moderno, escorreito, e o tom mais leve. Por último surge-nos outra voz, num tom límpido e cristalino, nem por isso mais leviano na sua mensagem, e que diria ser a voz a que nos habituamos quando lemos o comum dos romances, sobre pessoas de parte anónima. É quase um discurso universal no qual repousamos depois da verborreia plena de obstáculos do Meças.


Gostei da história. É para isto que leio livros: para ser introduzida a cenários, a pessoas, a psiques várias – e vejo-as, neste romance, complexas e arredias –, a dramas e dilemas pessoais. O que procuro nos autores é, sempre, o seu imaginário. Entretenham-me com uma história que me cative e eu regresso. Enfadem-me com vocabulário pedante e eu viro as costas.


Apesar de alguma dificuldade em entrar no tom, “O Meças” deixou uma boa impressão das capacidades do seu criador, e estou certa de que, cedo ou tarde, farei a travessia para “Ernestina” com tanta ou maior expetativa.


Classificação: 3,5***/*****

domingo, 3 de fevereiro de 2019

#208 SALINGER, J.D., À Espera no Centeio

Sinopse: A voz do seu protagonista, o anti-herói Holden Caulfield, encontrou eco nos anseios e angústias das camadas mais jovens, tornando-o numa figura icónica do inconformismo. Da mesma forma, os temas da identidade, da sexualidade, da alienação, e do medo de existir, tratados numa linguagem desassombrada e profundamente original, fizeram de The Catcher in the Rye um símbolo da contracultura dos anos 50 e 60. Mas, passados sessenta anos sobre a sua primeira publicação, vendidos mais de 65 milhões de exemplares em quase todas as línguas, e instituído marco incontornável da literatura mundial, À Espera no Centeio mantém toda a actualidade e a frescura da rebelião.

Opinião: 
"Ponho-me a imaginar uma data de miuditos a brincar a um jogo qualquer num grande campo de centeio e tal. Milhares de miuditos, e ninguém por perto, ninguém crescido, quero eu dizer, a não ser eu. E eu fico ali na borda de um abismo lixado. E o que eu tenho de fazer é ficar à espera no centeio e apanhar todos os que desatarem a correr para o abismo..."


À Espera no Centeio foi publicado em 1951, e é ambientado nos anos 40 na escola fictícia de Pencey, e em Nova Iorque. Segue os pensamentos de Holden Caulfield, de 16 anos, ao longo dos dias que antecedem o seu internamento num sanatório.

Quando terminei este romance, em relação ao qual não fazia ideia do que esperar, pus a tocar uma versão em piano de Smoke gets in your eyes, e de repente fui inundada por uma ternura inesperada para com este adolescente desajustado. De algum modo, Salinger conseguiu levar-me de volta à minha própria adolescência e à época em que podia dar-me ao luxo de despender energias a tentar perceber o mundo e a tentar mudar as pessoas.

Holden surge-nos cheio de bazófia no início, mas vai-se tornando mais apático à medida que se vai deixando de tretas e entrando nos assuntos cruciais que se debatem na sua consciência, e que o têm lançado para a beira do precipício em que se encontra. As suas reflexões chegam-nos plenas da gíria juvenil com que o autor decidiu tecer aquilo que julgo ser a sua obra-prima, e creio que essa foi uma das grandes críticas literárias a esta obra. No entanto, não consigo imaginar esta história a ser credível de outro modo. Na minha percepção, o jovem norte-americano, que acaba de ser expulso para aí da terceira escola preparatória, está de luto e está à beira de um esgotamento emocional. Holden sente-se alienado de tudo e de todos, entende o que os pais esperam dele, não tem qualquer desejo de lhes causar desgostos, é louco pela sua irmãzinha, que, aliás, parece ser a única criatura no mundo capaz de ter uma conversa decente com ele, e fazer com que se abra. Também guarda as lembranças do falecido irmão com carinho mas, fora isso, parece não conseguir dar-se a ninguém, nem chegar a ninguém. Vive na permanente frustração de uma comunicação insatisfatória e forçada, da qual se vale para fazer valer o seu ponto de vista de que são todos uns peneirentos ao seu redor. Perante todas a outras personagens com o que jovem se vai cruzando ao longo daquele fim-de-semana em que procura esconder dos pais a sua expulsão de Pencey, Holden é céptico, provocador, desdenhoso. Mas também é obstinadamente idealista e generoso. Se, por um lado, é evidente que é ávido por conhecimento, um leitor assíduo e um miúdo inteligente, por outro é demasiado sensível para as exigências da sociedade, e está fragilizado pelos dois acontecimentos traumáticos da sua curta vida. Holden tem dificuldade em assistir impassível a vidas que lhe parecem vazias de conteúdo, num mundo que lhe parece estéril de encantos. Para ele, nada tem importância e nada tem valor, à excepção do quão bestial era o seu irmão, e do quão esperta é a sua irmã.

Penso que a rota de auto-destruição em que Salinger lança Holden, por caminhadas de quarteirões na Big Apple, e passeios em redor do lago gelado do Central Park, cimentados a álcool e tabaco, recria bem o que é a queda em depressão, ou em apatia. Isolado, o jovem Holden não consegue valer-se a si mesmo. O que lhe vale é o amor da irmã e a paciência de alguns (cada vez menos) conhecidos, que procuram repescá-lo do campo de centeio e para longe do abismo.

Alienação seria a palavra-chave deste romance. O jovem Caulfield não consegue impedir-se de se misturar com os outros, inclusive de os procurar, de lhes pedir que fiquem e que o mantenham acompanhado, mas nada é capaz de mitigar as sensações de solidão e de desgaste que o acompanham para todo o lado. Em instante algum se identifica com as pessoas que o rodeiam, ou se sente compreendido por aqueles com quem priva ao longo daqueles dias. Está constantemente à parte e a observar os outros, enquanto estes lhe recordam, sem melindres, como ele é estranho e desadaptado.

O que me parece ser a riqueza deste clássico americano é o retrato psicológico do jovem Holden, o modo como se esforça para analisar os outros à luz da sua própria juventude, e não dos rótulos sociais. Salinger faz-nos percorrer as ruas gélidas de Nova Iorque nas semanas que antecedem o Natal, na companhia de um miúdo cheio de potencial, mas que se vê enredado nas contradições de um mundo algo hipócrita, onde as pessoas vivem de fachada e se preocupam demasiado com aquilo que ele considera futilidades. 
Apenas não atribuo as cinco estrelas porque, apesar de lhe reconhecer grande beleza, e de me ter emocionado no final, ao som de Smoke gets in your eyes, não creio que seja um dos livros da minha vida. Considero também que, sem a página e meia que o encerra em jeito de epílogo, estaria ainda mais próximo das cinco estrelas. Ali era o momento certo para Salinger terminar a deambulação alucinada do jovem Holden.

Classificação : 4,5****/*

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

#207 STEINBECK, John, A Um Deus Desconhecido


Sinopse: As antigas crenças pagãs, as grandes epopeias gregas e os relatos da Bíblia servem de base a este romance extraordinário, que Steinbeck demorou cinco longos anos a escrever. Ao dar cumprimento àquele que sempre fora um dos grandes desejos do pai, criar uma quinta próspera na Califórnia, Joseph Wayne acaba por vir a acreditar que uma das mais belas árvores dessa quinta incorporou o espírito do seu progenitor. Os irmãos e respectivas famílias, que foram viver com ele, beneficiam dos êxitos e da prosperidade de Joseph, e a quinta vai-se de facto desenvolvendo – até um dos irmãos, assustado pelas suas crenças pagãs, decidir cortar a árvore, o que faz com que a doença e a fome se abatam de súbito sobre todos eles. A um Deus Desconhecido (1933) é um romance quase místico, que tem por tema central o modo como os homens tentam controlar as forças da natureza, e ao mesmo tempo compreender a sua relação com Deus e com o inconsciente. 

Opinião: "A Um Deus Desconhecido" é a minha estreia com Steinbeck. Tinha uma edição antiga de As Vinhas da Ira, mas lembro-me de começar a ler e de ficar perdida em tanta descrição. A descrição é, precisamente, aquilo que me prendeu de modo tão eficaz a este livro. O título é delicioso, e o livro dança em redor da sua simbologia com uma graciosidade admirável. 

O enredo é relativamente simples: estão a dar terras na costa Este e Joseph Wayne, que sempre sonhou em possuir algo de seu, despede-se do pai, quase um moribundo, e parte. Contudo o livro está prenhe de emotividade, de intuição e de superstição, e creio que a personagem principal não se perdoa por ter partido de modo tão impaciente, quando o seu modelo, o pai, lhe garante que pouco falta para morrer, e que então poderia acompanhá-lo em espírito até ao seu novo lar. 
O novo território é quase selvagem, e Steinbeck descreve-o de modo a que nos chega aos sentidos o perfume dos loureiros, da terra húmida, do pêlo das vacas e dos cavalos, enquanto a audição acompanha os cascos das bestas em trote, os cursos de água em confronto com as pedras, o uivo dos coiotes, a porta do celeiro que range. Em termos de cenário, o livro é a quatro dimensões.

Surpreendeu-me também a profunda humanidade em cada reacção destas pessoas, porque, em breve, ao dar notícias da sua prosperidade aos irmãos, Burton e a esposa, Jennie, e Thomas e a respectiva, Rama, juntam-se-lhes com a sua horda de filhos. Joseph é o que nos oferece mais camadas, é uma mescla de aceitação, entusiasmo, desalento, espiritualidade e depois desalento. Tudo de modo homogéneo, apesar de q sua vida estar ligada à da sua terra, aceita com facilidade as crenças dos outros e entende-as. Ao contrário dos que o rodeiam, que se melindram com os diferentes. 
Joseph ama e respeita a terra, comprometendo-se a protegê-la de qualquer ameaça - que, para o efeito, são os anos de seca cíclicos, narrados com dissabor pelos homens da população local, Nuestra Señora. Andam por ali índios, portugueses e mexicanos. Os primeiros têm crenças ligadas aos ritos da terra: sacrifícios, danças e oferendas, clareiras sagradas onde grandes rochedos cobertos de musgo convidam as grávidas à reflexão. Os segundos e os terceiros são profundamente católicos, e devem ao Padre Ângelo a sua salvação espiritual. O clã Wayne é protestante, pelo que Burton, o mais religioso dos irmãos, se sente desenraizado naquela terra, que desde o início lhe parece herege e devota ao demónio. Por outro lado, Thomas, mais rude, tem uma relação única com os animais. Respeita-os, domestica-os, inflinge-lhes a dor e a morte como se a sua alma fosse uma só com a deles. Não é tão reflexivo quanto Joseph, mas é igualmente introspectivo e de valores profundos. É o irmão cuja religiosidade é conservadora, mas a mente alcança um pouco além das escrituras. 

E depois Joseph, que, no ímpeto de se ver feliz e perante uma tal promessa de prosperidade, olha em redor e vê os animais a reproduzirem-se, a natureza em êxtase, o sol e as chuvas em harmonia, e convence-se que tanta bonança advém da bênção do seu pai, cujo espírito estaria presente nos ramos de um velho carvalho. Junto do carvalho busca conselho, regressando sempre que necessita de partilhar algo que, aos outros, poderia soar ridículo. Entende-se assim como a espiritualidade é algo de íntimo, e que se a sua vantagem é a de nos fazer sentir bem com o mundo, então os seus ritos não devem ser impostos a quem nos rodeia. Entende-se também quão destabilizador é, que alguém nos rache as crenças ao meio, só porque lhe parece desenxabidas. Joseph, de bem consigo mesmo, acaba inclusive por permitir que se celebre uma festa em honra da fertilidade do local, para a qual convida o padre Ângelo, que celebra missa e traz as imagens de Nossa Senhora e de Cristo para o altar improvisado. Isto transtorna o seu irmão Burton, que profetiza que toda aquela idolatria e paganismo acabarão por levá-los à desgraça. Na minha óptica, Burton tem receio. Crê num Deus vingativo e colérico, pouco tolerante, e sente que o irmão está a expô-los a todos a um castigo imerecido.

A morte de um humano é um processo longo e demorado. Matamos uma vaca, e a mesma está morta assim que a carne seja comida, mas a vida de um homem morre como uma comoção numa poça tranquila, em pequenas ondas, expandindo-se e regressando à imobilidade. 

A beleza da narrativa consiste nas descrições pueris da natureza, e de como a mesma ora é simples, ora é incompreensível. Mas reside, sobretudo, no modo como o universo significa coisas tão diferentes para cada personagem, e cada um é devoto àquilo que o tranquiliza, sendo que Joseph precisa da árvore para se sentir seguro, Thomas dos animais e Burton das escrituras e dos acampamentos religiosos. Há ainda quem precisa de se cobrir de peles de animais para ir festejar as chuvas, e se rebole na lama para o mesmo efeito. E depois há quem sinta que deve sacrificar a cada pôr do sol uma criatura diferente, para que na sua terra se multipliquem as sementes e a humidade a mantenha fértil. Deus é algo diferente para cada um deles, e a incompreensão por parte dos outros lança sombras sobre a existência de cada um. 

A ideia geral - e que corroboro - é que Deus é uma entidade pessoal para cada um de nós, e podemos encontrá-lo naquilo que nos traz conforto e paz, sem que exista uma explicação lógica. Um belo tratado sobre tolerância religiosa, numa altura em que o diferente voltou a significar ameaça. Se formos capazes de reconhecer a intimidade premente entre cada um e o universo, talvez o bem-estar espiritual chegue a todos.
Um elogio ainda ao evidente carácter intemporal do livro, escrito em 1933 e tão contemporâneo, bem como à feminilidade que brota desta natureza em esplendor, e à ternura e entendimento entre os homens de Steinbeck e a mulher amada. 
Mal posso esperar por voltar a ler o autor.

Classificação: 5/5*****