segunda-feira, 15 de julho de 2019

#226 HEMINGWAY, Ernest, O Adeus às Armas


"- Não tens a impressão de ser um criminoso, pois não?- Não - disse eu. - Quando estou contigo não tenho.- Tu és um rapaz sem juízo - disse ela -, mas hei de olhar por ti. Não é esplêndido, querido, que eu nem sequer sinta náuseas pela manhã?- Estupendo!- Tu não sabes apreciar a esplêndida esposa que tens. Mas não me importo. Hei de arranjar um lugar onde não te possam prender, e então seremos muito felizes. - Vamos já para lá!- Sim, querido. Irei para onde quiseres e quando quiseres.- Não pensemos em nada.- Está bem."


Opinião:
 Ernest Hemingway nasceu em Julho de 1899, perto de Chicago. Com apenas 19 anos, conseguiu que o exército italiano o aceitasse nas suas fileiras, no contexto da I Guerra Mundial, ocasião em que foi condutor de ambulâncias para a Cruz Vermelha. Por essa altura, terá vivido um amor - possivelmente o seu primeiro amor -, com a enfermeira Agnes von Kurowsky. Tudo isto parece ser a matéria-prima de O Adeus às Armas, volvidos dez anos. Tal como o próprio autor, a sua personagem principal, Frederic Henry, é condutor de ambulâncias no exército italiano, pelo que Hemingway pôde pôr a uso o seu conhecimento da realidade, cultura e particularidades dos italianos (creio ter lido algures que Hemingway dizia apenas escrever sobre aquilo que conhecia bem.)


A senhorita Von Kurowsky, que terá abandonado o nosso jovem autor por outro homem, será a provável inspiração para a enfermeira escocesa Catherine Barkley, com quem Henry se envolve com a guerra como pano de fundo. Também este detalhe tem um fundamento na vida do autor, e ajuda a conferir realismo à narrativa: O Adeus às Armasnão tem nada de heróico ou de épico, é apenas o conto de um punhado de humanos enleados na complexa - e incompreensível - teia da guerra e nas provações práticas da mesma (longe das politiquices).

A primeira obra que li de Hemingway foi Na outra Margem, entre as Árvores, publicado em 1950, quando Hemingway tinha 51 anos e, portanto, uma perspectiva diferente (apurada) da guerra, do amor, das mulheres. Considerei-o machista, misógino, aborrecido. Detestei-lhe os diálogos - por um lado povoados daquela pouca coesão caraterística da comunicação oral, por outro lado desconexos ao ponto de me exasperarem. Neste último, conheci um Hemingway com 30 anos, menos cínico, menos áspero, com um toquezinho subtil de humor, mas já com a mesma carga pesada, lúgubre, que parece ser o seu cunho em cada obra.

Neste livro, compreendi-o melhor. Compreendi que um rapaz de 18, 19 anos, partiu voluntariamente para o horror de um conflito Europeu, a um oceano e a um mundo de distância, onde sofreu um ferimento que lhe cravou mais de 200 estilhaços no joelho. Não consigo imaginar o susto, a alienação. Tão longe de casa, rodeado de estranhos, cheio da energia da juventude e, no entanto, metido numa cama de hospital. Surge a enfermeira bonita, estrangeira. É tudo muito exótico, ainda para mais o rapaz sobreviveu, está apaixonado e ela retribui. Deve sentir-se invencível, imortal. De repente ela foge com outro. Ele é devolvido ao teatro de guerra. Uma vez terminado o horror, volta a casa com os seus fantasmas, e encontra a América prestes a atirar-se aos loucos anos 20. Tem a cabeça cheia de obuses, de disparos, de baionetas e de granadas, da lama das trincheiras e dos clarões de artilharia, mas ao seu redor estão todos a dançar o foxtrot.

Resultado? O capitalismo é nojento. As mulheres umas levianas desmioladas. A guerra é tudo o que conhece, e nela há-de debruçar-se uma vez e outra, e ainda assim a guerra nunca faz sentido, em livro algum que escreva. Tudo o que Hemingway sabe é que entra-se na guerra com tudo o que se é e com tudo o que se tem, e que se sai dela despojado de si mesmo. A guerra engole tudo. Engoliu-o, mastigou-o e devolveu-o a um mundo que lhe era estranho e no qual ele se sentia um alienado. Moldou-o para sempre. Não será por acaso que se suicida em 1961, depois de uma vida de controvérsia, suposto abuso de álcool e alguns escândalos. Gostava de gatos - não me posso esquecer que Hemingway gostava dos místicos felinos, que têm tão pouco de bélico.

Gostei muito desta narrativa de guerra, e os diálogos (que ainda assim, por vezes, me parecem repetitivos e sem nexo) são ligeiros e ajudam a avançar nas páginas. Julgo que uma das principais críticas a este romance é que o amor entre Henry e Catherine parece supérfluo. Acabei por (julgar) entender que na guerra se está tão sozinho, mesmo quando rodeado dos "rapazes", que não é difícil apaixonarmo-nos. Fazer planos para os tempos de paz. Estar-se com alguém, na guerra, é como a ilusão de que talvez haja um pouco da nossa essência, do nosso lado emocional, que pode ficar salvaguardado dos horrores quotidianos. 

O final tocou-me, validou o romance, principalmente porque o livro segue um mesmo tom, sem grandes altos e baixos mesmo nos momentos de suposto climax emocional. Creio que Hemingway dirigiu muito bem o tom nesses acontecimentos finais. No fim, a sensação com que se fica é que é a guerra. E não se pode fugir da guerra. 
Mal ele sabia que a guerra ainda havia de persegui-lo por mais 30 anos, até um tiro ir, por fim, alojar-se-lhe na têmpora.

Classificação: 4,5/5*****

Sinopse: "O Adeus às Armas", muito provavelmente o melhor romance americano resultante da experiência da Primeira Guerra Mundial, é a história inesquecível de Frederic Henry, um condutor de ambulâncias que presta serviço na frente italiana, e da sua trágica paixão por uma bela enfermeira inglesa. O retrato franco e sem falsos pudores que Hemingway esboça da ligação amorosa entre o Tenente Henry e Catherine Barkley, arrastados pelo inexorável turbilhão da guerra, brilha com uma intensidade sem paralelo na literatura moderna, e a sua descrição do ataque alemão ao Caporetto – com as intermináveis filas de homens a caminhar à chuva, esfomeados, exaustos e desmoralizados – é decerto um dos grandes momentos de sempre de toda a história literária. Romance de amor e sofrimento, de lealdade e deserção, O Adeus às Armas, escrito quando tinha apenas trinta anos, é uma das obras-primas de Ernest Hemingway. 

sexta-feira, 12 de julho de 2019

#225 CARVALHO, Maria João Lopo de, O Fado da Severa

Sinopse: Na Mouraria, cruzam-se dois mundos quando a noite cai. O dos marujos, dos rufiões, das mulheres de má vida, as tabernas enchem-se com os filhos enjeitados da cidade. À procura de consolo, de um regaço pago, de vinho e de fadistagem. Vão eles e os nobres, embuçados, em busca do fruto proibido. 


Longe do São Carlos, onde as damas e as joias são legítimas, dos palácios nas Laranjeiras, mergulham no mundo sórdido e apaixonante onde se canta e bate o fado. E ninguém o faz melhor do que Severa, filha de cigano e de meretriz. Do pai herda o tom de pele, o sangue quente; da mãe a profissão e as artes de prender os homens.
São muitos os que a visitam, mas só um lhe deixa marca, o conde de Vimioso. É dele e da Severa esta história, nascida entre corridas de toiros, casas de má fama, recitais privados. É esse o amor proibido que Maria João Lopo de Carvalho tão bem evoca, num tom que nos remete para uma Lisboa feroz e verdadeira. 
Uma história onde brilham sempre a luz e as sombras dessa Lisboa e o indomável espírito de Severa: a cigana que inventou o fado, a mulher que vendeu o corpo - mas que nunca vendeu a alma.

Opinião: Este livro foi uma grande surpresa.

Em primeiro lugar, tenho sempre muito receio de ler ficção nacional, sobretudo ficção histórica. As experiências que tenham tido levam a uma "santificação" das figuras da nossa História, o discurso desenrola-se em deixas afetadas, o retrato de época costuma ser feito com largo recurso a descargas de informação que cansam até ao bocejo. Mas a Severa não é bem uma figura passível de santificação, era cigana, prostituta e fadista, o que deve convergir para o fundo do poço da sociedade portuguesa no século XIX. A faixa da sociedade que, não fora ela e o fado, mal seria recordada pelos livros de História.

Houve coisas que considerei excelentes, outras que assim assim, outras que me aborreceram. A classificação transmite o prazer que senti ao longo da leitura, e que me fazia regressar a este livro de tanta presença, ainda para mais bonito e com uma letra gorda que muito facilitou a leitura e o avançar das páginas.

Separando as águas, vamos lá avaliar os ingredientes deste romance histórico.

Pontos positivos que engrandeceram a leitura: 
- O linguajar dos fidalgos e da canalha, que tão bem identifica o nível social a que cada um pertence nesta Lisboa da década de 30 e 40 do século XIX;
- O vocabulário de época, que nos imerge na magia desses tempos;
- As deixas românticas, que conseguem convencer sem ser melodramáticas, coisa que não teria sentido num amor entre um leviano e uma prostituta;
- O retrato psicológico das personagens, sobretudo do conde de Vimieiro, mas também da Marta Mamalhuda, do Nisa, etc., personagens com substância que saltam das páginas, e que povoam Lisboa, o que nos faze sentir que dominamos a capital e as suas figuras;
- A pesquisa histórica - é evidente, mesmo antes de chegar à "Bibliografia", que a autora se empenhou numa pesquisa meticulosa para montar a narrativa, tiro-lhe o chapéu por isso!
- As descrições de espaços, miseráveis e imundos, opulentos e vistosos, que tão bem separaram os dois mundos em que o romance se apoia;
- O conhecimento que passa, de modo natural, a respeito do fado, das suas origens e ritos naquela época que o imprimiu na genética dos portugueses.

E os pontos a melhorar que me causaram ocasional enfado: 
- Nem sempre as informações saem com naturalidade, pelo que é frequente haver grandes trechos descritivos e enumerações, ou mesmo quando as mulheres, em diálogo, falam da moderníssima machine à clavier e a descrevem por x polegadas vezes x polegadas, o que me pareceu pouco realista e que identifico como infodump;
- Na continuação do primeiro ponto, as descrições geográfica, aqui e ali, nomes de ruas, esquinas, etc., são informadas de modo exaustivo, o que talvez faça sentido porque as personagens moviam-se ali, mas também acaba por cansar tanto nome de Rua, Largo, Travessa, etc.;
- O ritmo temporal do romance é algo inconstante, porque começa com uma Severa já adulta, e segue até à sua morte, sendo que por 80% do tempo se concentra em dois ou três anos, e depois sofre um salto como se tivéssemos decidido abandonar a personagem e apressar-lhe o fim (consequentemente, rematar o livro);
- A publicidade pouco discreta a outra personagem que a autora abordou em romance, Marquesa de Alorna, apenas porque também não saiu natural;
- O facto de o mesmo acontecimento ser analisado por várias personagens, o que fez sentir que o livro somente se repetia, sem grande avanço;
- O sentir que, apesar de não ter de haver uma aura de misticismo em torno da Severa para explicar o porquê de ela ter ficado para a posterioridade, também não haver nada que dê a entender que ela era diferente das restantes mulheres do seu tempo, porque, além da sua beleza, não há grande ênfase atribuído às suas caraterísticas únicas (o ser meio cigana, o cantar melhor do que as outras, o dançar com mais alma, etc.).
- O facto de a Severa ser tão conhecida pelo seu amante, o conde de Vimioso, e de este lhe ter aberto - creio não estar errada contra esses factos históricos - a porta para os salões nobres do reino, onde ela terá atuado, ficando assim o seu nome para a posterioridade. Esta realidade é explorada de modo muito contido, aflorada apenas ao de leve.
- Por último, não gostei dos últimos dois capítulos do livro - o primeiro apressa o fim da Severa, como um ponto final abrupto, escrito de um modo tão sumário que voltei atrás para conferir se não estava a ler as Notas Finais. O último não me fez qualquer sentido, porque também não serve para mostrar que a Severa será lembrada, foge ao cerne do livro e só vem baralhar e roubar o travo de melancolia que poderia ficar no fim, e que julguei garantido por ser conhecida a sina da pobre fadista.

O balanço é positivo, porque o livro me entusiasmou do início ao fim. A autora criou um ambiente muito intenso e palpável, que acabou por se tornar uma deliciosa viagem ao século XIX. Infelizmente, foi a Severa quem mais se apagou, mas o Portugal do Costa Cabral surgiu-me bem nítido.

Classificação: 4/5*****

#224 STEPHENS, Henry Morse, Portugal - A História de Uma Nação

Sinopse: «A nação portuguesa é um produto da sua História: isto dá à História de Portugal um valor eminente». É assim que Henry Morse Stephens, docente da Universidade da Califórnia, começa esta obra notável, que em muito contribui para trazer ao conhecimento comum diversos acontecimentos até agora desconhecidos da História de Portugal. Abrange a instauração da nacionalidade, a consolidação do território e da independência, atravessa o período heroico dos Descobrimentos e a criação de um império global, as navegações em África, na Índia, no Próximo Oriente e no Brasil, e culmina no período de declínio, que começa na fatídica batalha de Alcácer Quibir e se prolonga mais ou menos até aos nossos dias, iluminado aqui e ali com alguns lampejos de uma glória fugaz.

Na primeira fase, aliou-se uma força combatente a uma sabedoria administrativa e um tato de governo que granjearam o respeito de toda a Europa. Na segunda, a dos Descobrimentos, a visão estratégica dos principais dirigentes do reino e o insuperável heroísmo dos navegadores trouxeram glória e poder à alma lusa. Finalmente, com a perda da independência e as respetivas consequências, Portugal entra na fase mais negra da sua História. Este é um livro essencial para entender o contexto e os acontecimentos que conferiram ao reino uma individualidade e uma existência nacionais de que justamente se orgulha e para vislumbrar como conseguiu um país tão pequeno erguer o primeiro império global da História.

Opinião: Henry Morse Stephens ilustra, em 308 páginas, como se formou o Reino de Portugal (desde a época em que éramos retalhos na Hispânia), até à falência da monarquia com D. Carlos. Atravessa a fundação do país, escolhendo com tacto os pormenores pertinentes para a construção de um ponto de vista: o de que Portugal, sustentado por um senso de nacionalidade/patriotismo precoce na Europa e no Mundo, é levado pelo povo através dos séculos sem nunca abdicar da sua independência. Mesmo quando interesses de nobres, clero, realeza, comerciantes e soldados se incompatibilizam com a soberania do país, o povo insurgiu-se para manter a sua nacionalidade ao abrigo de outros interesses. E também que Portugal foi, no século XVI, a nação mais rica e poderosa de Europa, e que o restante continente se ia movendo na sua retaguarda. Como o meu curso de Informação Turística me levou a conhecer, ao pormenor, a significância dos grandes monumentos do país (como os Mosteiros de Alcobaça e da Batalha), e ainda a sua História em todos os períodos áureos e de declínio, bem como o modo como tocámos em quase todos os continentes e nações no planeta, considero-me patriota. Ler um livro que expõe, de forma tão concisa e acessível a grandiosidade da odisseia dos Portugueses, nunca poderia resultar em desilusão! 

Classificação: 5/5*****

quinta-feira, 20 de junho de 2019

#223 MAGALHÃES, Helena, Raparigas como Nós

Opinião: 

"Há dois tipos de amor: aquele que serve de comparação e ao qual comparamos todas as pessoas que vamos conhecendo ao longo da vida (era o que eu fazia, comparava todas as paixonetas ao Simão) e um outro tipo de amor que tive - e tenho - com o Afonso: aquele que acaba com todas as comparações porque tudo o que vivemos até então deixa de ter relevância."

Devo começar por referir que não costumo ler YA, e que, como alguns de vocês já devem ter reparado, ando a dedicar os últimos anos à leitura de clássicos ou algo equivalente a isso. A minha review fica então em parte condicionada por me sentir desligada de muitos destes dilemas dos jovens retratados em Raparigas como Nós. Ainda assim, e sobretudo na segunda parte (chamo assim a parte em que a protagonista, Isabel, parece remeter o leitor para o seu diário de quando tinha 14 anos), comecei a sentir que regressava a essa época, e que a premissa do livro talvez esteja bastante correta. A de que estamos cada um com a sua individualidade, mas numa maré de gente não tão diferente assim.


Comecei a leitura com bastante receio, porque realmente não é a minha praia. Mas a Helena é uma querida, e as reviewstêm sido tão boas que a curiosidade venceu-me. Entrei na leitura a medo, e não consegui sentir-me muito ligada aos acontecimentos até surgir a tal "segunda parte", quando a protagonista reencontra uma personagem de (apenas) três anos antes, e me recordei de como, até aí aos 20 anos, havia mundos entre os 15 e os 17, e entre os 17 e os 20, e agora é que é tudo igual, o ter-se 24 ou 25. Já não sei distinguir com que idade aconteceu o quê, porque já não há a escola a balizá-lo.


Perante um livro destes, que aborda uma adolescência semelhante à minha, é inevitável refletirmos sobre as nossas próximas vivências. Foi esse o curioso efeito da segunda parte, efeito esse que só se dissolveu no final. Coisas com que me identifiquei, e que trouxeram a nostalgia dessa década tão delicada:
- O aparelho nos dentes e o bafo metálico;
- Os miúdos a serem cruéis só porque sim, porque parece que temos de nos debater com um mar de gente para alcançar o respeito e o nosso lugar no mundo dos adultos;
- as miúdas giras a darem-se ares;
- o sentir-me à parte, ou que nunca seria parte dos cool, que no fundo eram os que já tinham tirado o aparelho ou tinham dentes naturalmente direitos, os que tinham roupa de marca, os cujos pais os deixavam de carro à porta da escola, ou os que tinham mais dinheiro para o lanche, os que viajavam para longe da cidade, ou mesmo do país, nas férias, os que tinham namorados/namoradas, os que não liam (isso parecia-me "normal"), os que bebiam cerveja à porta da escola, ou que fumavam atrás do pavilhão, etc. (na altura, tudo servia para que a cadeia alimentar sugerisse que uns estavam acima dos outros);
- o crush avassalador para cima de quem a melhor amiga nos empurrava, e que todos sabiam que era a nossa grande paixão, os papelinhos, as cartas de amor, o recortar das fotografias de turma, o discman e as primeiras bandas/artistas que me disseram algo - estávamos em 2001/2002 e era Eminem, Dido, Pink, Linkin Park, Incubus -;
- O ser super preocupada quanto ao meu próprio corpo, bem como a guerra aberta a pelos e ocasionais borbulhas;
- O julgar que os amigos de então seriam os amigos de sempre, ou que o amor de então seria o amor de sempre, porque o tempo passava tããããããão devagar.
Isto é o que mais me marcou no romance da Helena, que ela geriu como uma boa romancista, soltando pontas aqui e unindo-as ali, ao longo de c. 420 páginas em que dei por mim a recordar todos esses rostos, a minha "Marisa das Argolas", a minha "Alice", o meu "Simão", o "Zeca" e os outros todos. Acho que só isto é digno de parabéns, porque, quer nos identifiquemos mais ou menos com um romance, lhe encontremos mais ou menos defeitos de conteúdo, de interesses, etc., NÃO É FÁCIL ESCREVER UM ROMANCE e, digam o que disserem, nem TODA A GENTE CONSEGUE ESCREVER UM ROMANCE, muito menos os que surgem nos tops com nomes inventados por miúdas do secundário. Permitam-me dizer que há autores cujo nome começa por P., termina em F. e o nome do meio começa por C., que nunca escreveram um romance (daquilo que entendo da sua vastíssima obra), e até podem chamar "romance" a textos soltos em que a personagem principal tem o mesmo nome, ou algo do género, mas nós sabemos, cá entre nós, o que é um romance. Um romance é corte e costura, desenvolvimento de personagens, pontas soltas, mudanças, twists, dilemas morais, denúncia social, qualquer coisa que contribua com algo, que seja útil a propósito de algo, que ajude a resolver um bocado do caos geral, não só muitas páginas, mas muita gente e muita complexidade. Nos romances, o "João" apaixonado pela "Maria" tem família, um cão, uma carreira, uma rotina, uma tia vesga e um tio alcóolico, um passado e um presente.


A parte das drogas e do álcool, tão pertinente, levou-me a épocas até recentes, mas sobretudo ao ter-me sempre sentido à parte, alheada da maioria dos jovens ao meu redor, porque via essas coisas - talvez por experiências familiares - com uma seriedade que não lhes via ser atribuídas. Fui-me pondo à parte, fui sempre uma chata, tipo a Isabel. Mas antes uma chata do que alguém que não consegue cumprir-se, e que, por muito que se debata, é incapaz de se resgatar a si mesmo das amarras dos excessos da adolescência, e dela mesma por arrastão.


Sobretudo para um segundo romance, a Helena está de facto de parabéns. Sabem o que vejo? Este livro a ser retomado daqui a dez anos, e a Helena a contar-nos o que foi feito desta gente toda, à medida que ela própria for vivendo e tirando as suas conclusões, fazendo as suas aprendizagens. Fantástico como precisámos de 10 anos para nos vermos em adolescentes, e de mais 10 precisaremos para nos vermos como jovens adultos, e etc., etc. Será que a Isabel voltará, num livro tipo "Mulheres como Nós?", ou "Mães como nós?". Perdoem-me se vos traço o percurso cliché da maioria das senhoras, mas talvez a Isabel não o trilhe, tal como também não sabia bem o que queria fazer aos 17, e voltemos a vê-la fugir do esperado.


Julgo entender que há mais autores que costumam partilhar as playlists dos seus livros no Spotify, ideia que acho fantástica, porque mistura as minhas duas paixões. A Dora Santos Marques já me tinha pedido que partilhasse a do Demência, mas eu sou muito verdinha nestas coisas da tecnologia. No entanto, e num livro tão ligado à música, tal como, lá está, na minha própria adolescência as cantigas insuflavam significado aos momentos, faz todo o sentido que essa playlist exista e nos seja disponibilizada. Way to go, Helena!, ouvi-a durante a leitura, recordei-me de músicas daquelas que conhecemos de ouvido mas cujo artista/nome desconhecia.


Para terminar, acharia crucial levar este livro aos adolescentes, para que entendam que a idade e os problemas que atravessam são relativos, que em breve tudo estará terminado e que o importante, mesmo, é aproveitar cada minutinho dessa época mágica, com a qual passaremos o resto da vida a sonhar e a envergonhar-nos, eheh!


Sinopse:

Festivais de Verão, tardes na praia, experiências-limite com drogas, traições e festas misturam-se com amores improváveis e velhas amizades. Um romance intemporal nos cenários de Lisboa, Cascais e Madrid, que mostra tudo o que pode esconder-se atrás da vida aparentemente normal de uma rapariga… como tu.

«Beijamo-nos ao som daquela música que ouvia em casa sozinha deitada na minha cama. Durante o resto da vida, não importaria o que estivesse a fazer ou onde, quando ouvisse os primeiros acordes […], recordar-me-ia do olhar do Afonso fixado em mim, da sua mão no meu rosto, do meu coração a tremer e de me sentir a rapariga mais feliz do mundo. Porque Lisboa está cheia de bares a abarrotar de miúdas bonitas que, num piscar de olhos, se colocariam de gatas a ronronar nas suas pernas. Mas ele viu-me a mim.»
«Se algum dia se sentirem sozinhas, estranhas, deslocadas do mundo que vos rodeia, lembrem-se da Isabel, da Alice, da Luísa, da Marina e até da Marisa das argolas… Raparigas como nós.


Uma história de amor irresistível, que é também o retrato de uma geração que cresceu sem redes sociais. Pode uma paixão da adolescência marcar o resto da vida?

Classificação: 4/5*****

quinta-feira, 13 de junho de 2019

#222 NÚNCIO, Maria José da Silveira, Brincadeiras de Irmãs

Sinopse: «E, por vezes, dava-me ideia de que tu, que és a minha irmã, sabias. Que, apesar do meu silêncio e das palavras que não se desprendiam, estranguladas na garganta, tu sabias.»


Partindo da morte de um antigo primeiro-ministro, figura prestigiada e reconhecida na sociedade, desvendam-se os segredos familiares que, em noites longas e corredores escuros, engendraram a complexa relação entre duas irmãs, presas numa teia de silêncios e entreditos, em que se confundem amor e raiva, medo e culpa, vingança e perdão.

Opinião: Já anteriormente havia lido parte de Calor, da mesma autora, e verifico que o tipo de narrativa é semelhante em "Brincadeiras de Irmãs".


Creio tratar-se de mais um caso de fluxo de consciência, em que as personagens estão cativas de uma espiral vertiginosa de acontecimentos, geralmente pouco relevantes, e em que o leitor vai extraindo o sumo dos factos que importam e que contribuíram para o trauma, a dor, a omissão em que as personagens que nos oferecem este discurso incorrem. Julgo não proferir um disparate se disser que, nestes casos, estamos sempre perante discurso direto, com um narrador presente e emocionalmente instável, incapaz de se libertar dos seus fantasmas, enleado em pensamentos circulares e claustrobóficos. Gostei do tema, da visão a partir da qual a história nos é oferecida - uma irmã, a outra - a autora parece-me prolífera em escolher assuntos pertinentes, dolorosos, do tipo que retalha famílias e corrompe pessoas que, de outro modo, seriam perfeitamente comuns e bem inseridas na sociedade. Penso que será o caso do seu O que se cala é como se não existisse, que aproveito para elogiar, mesmo sem ter lido, por saber que tem como figura central uma mulher magoada e vítima de circunstâncias difíceis. Ainda bem que, por fim, a mulher quebrada é tema na literatura nacional.

É um livro pequeno, numa edição equivalente a um livro de bolso que me parece muito prática, com uma revisão cuidada e apenas 158 páginas de discurso escorreito. O leitor é facilmente apanhado nesta torrente de acontecimentos, e iniciado ao núcleo disfuncional e enlouquecedor desta família de um ex-primeiro ministro nacional, onde nada é o que parece, porque tudo é feito ao serviço das aparências.

Um bom retrato da nossa sociedade, das nossas elites, dos nossos silêncios por vergonha e embaraço. Dos nossos muito portugueses e fatais Chius.

Também disponível em e-book.
Classificação: 4/5*****

#221 BARRY, Sebastian. Escritos Secretos

Sinopse: Roseanne McNulty tem perto de cem anos e é a doente mais antiga do hospital de saúde mental de Roscommon. O doutor Grene, o psiquiatra encarregado da avaliação dos pacientes, sente-se intrigado pela história daquela mulher, que passou os últimos sessenta anos da sua vida em instituições psiquiátricas. Enquanto o médico investiga, Roseanne faz uma retrospectiva das suas tragédias e paixões, que vai registando no seu diário secreto, desde a turbulenta infância até ao casamento que lhe prometia a felicidade. Quando o doutor Grene desvenda por fim as circunstâncias da sua chegada ao hospital, é conduzido até um segredo chocante. 

Um livro primorosamente escrito, que narra uma história trágica, fruto da ignorância e mesquinhez, mas ainda assim fortemente marcada pelo amor, pela paixão e pela esperança.

Opinião: Peguei neste romance com entusiasmo, porque une dois dos meus temas favoritos: a Irlanda e os asilos psiquiátricos. A receita tinha tudo para dar certo, e começa firme com um certo misticismo irlandês muito caraterístico, uma queda para a fábula e o sobrenatural muito acentuada. 

Esse, talvez, seja um dos problemas. A narrativa é incongruente: apesar de ser a duas vozes (Roseanne e o seu psiquiatra, William Grene), o ritmo é incerto. Senti que a escrita seguiu muito o estado de espírito do autor - foi a primeira vez que senti algo assim num livro, sobretudo num traduzido, pelo que posso estar muito enganada, mas foi a percepção com que fiquei.

Há pelo menos duas coisas que não têm resposta, ou pelo menos não consegui discerni-la na leitura, e que mancham o aprumo com que o enredo foi montado. Posto isto, a narrativa vale pela Irlanda do século XX, do IRA, da guerra civil, da separação Norte/Sul e da miséria absoluta, bem como do clima agreste e da eterna quezília protestantes/católicos. Achei que o romance falha a vários níveis humanos e narrativos, pelo que não me arrebatou. 

Classificação: 3,5/5*****

PS: Acabo de descobrir que há um filme protagonizado pela minha adorada Rooney Mara

#220 HONEYMAN, Gail, A Educação de Eleanor



Sinopse: Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal - ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe.

Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond - o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras - e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua.

A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá por fim abrir o coração.

Opinião: A Educação de Eleanor é o primeiro romance de Gail Honeyman, e, tendo em conta o número de prémios que recebeu, não deve ser o último.
(Ah e adoro, na biografia da autora no Goodreads, a menção a que escreveu o livro enquanto trabalha a Full-time... Ah ah ah ah ah... desculpem, acaba por ser triste.)
Eleanor Oliphant é uma personagem peculiar. Ao longo de 300 páginas, deixamos que nos leve pela mão a uma existência aparentemente normal, mas acabei por sentir que estava a ver o mundo com outras cores, através das lentes especiais da Menina Oliphant. O romance permite-nos aplicar um sentido crítico em eventos banais, em protocolos sociais estabelecidos e que nem nos damos ao trabalho de questionar.
O livro promoveu momentos de comoção, outros de riso e outros de reflexão. Não consegui apaixonar-me por ele tanto quanto outros leitores porque senti que faltou desenvolver melhor o passado de Eleanor. Por exemplo, alguém sugeriu que ela teria Asperger, mas não apanhei nenhuma referência a isso. Houve partes muito angustiantes, e outras que me emprestaram alguma esperança na humanidade.
Em geral, é um page turner que li naquilo que, nesta fase da minha vida, só posso considerar "um tempo recorde". Aconselho! 

Classificação: 4/5*****

sábado, 25 de maio de 2019

#219 LOBO, António Lobo, Os Cus de Judas

Opinião: 

"E só compreendi isso quando vi os prisioneiros no quartel da Pide, a resignada espera dos seus gestos, as barrigas gigantescas de fome das crianças, a ausência de lágrimas no pavor dos olhos. É preciso que entenda, percebe, que no meio em que nasci a definição de preto era «criatura amorosa em pequenino», como quem se refere a cães ou a cavalos (...)"

Ler António Lobo Antunes foi dos maiores desafios literários que me coloquei em 2019
. Sem escapar à certeza de que gostos são gostos, há vários motivos para se ler. Há quem leia para se entreter, o que é muito válido, e eu sinto que, ultimamente, só leio para me inquietar. Sabia que o este psiquiatra e eterno candidato a Nobel da Literatura me haveria de inquietar, mas receava que a inquietude não me chegasse devido às barreiras estilísticas. Em contrapartida, apesar de cumprir bem a missão de me pôr a pensar a nossa História e este falhanço boçal que foi a Guerra do Ultramar, não me senti entretida nem posso dizer que tenha gostado. Gostei de partes, mas o todo parece-me espinhoso. Não tenho especial preferência por livros em que é preciso remover as espinhas para chegar ao núcleo. 

Saí uma noite de casa e fui ao centro comercial (odeio centros comerciais) comprá-lo. Não me esqueço porque queria a edição da D. Quixote, e porque para isso tive de ficar na fila da Bertrand, naquela altura do ano em que os pais vão levantar livros escolares - porque não encomendá-los online? -, a vê-lo no topo de uma prateleira à qual não chegava, e a ensaiar como diria o seu título ao rapaz que me atendesse quando a fila desaguasse na caixa. Tudo porque estava ansiosa para lê-lo. Quando mo meteram na mão, corri para casa e estendi-me no sofá, abri-o, sorvi algo a respeito do Jardim Zoológico de Lisboa, pensei que era familiar, que íamos dar-nos bem, e depois sofri um golpe e fiquei à deriva. Deixei de entender, perdi-me nas voltas e reviravoltas, volutas e floreados do discurso. 

Larguei-o de imediato, mas volvidos poucos meses voltei a pegar-lhe - não havia de vencer-me! Tinha de cumprir o desafio de ler António Lobo Antunes, e ainda para mais esta obra encaixa no perfil de livros de 200 páginas (ou menos) que ando a devorar, porque, de repente, livros maiores do que isso intimidam-me. É um autor nacional - e sei que devo muitas leituras ao universo de autores nacionais, e é um possível candidato a Nobel e queria conhecê-lo antes de receber esse possível galardão. Queria também permitir-lhe a possibilidade de me levar, pelos sentidos, à guerra e ao absurdo do Ultramar. 

O maior desconforto foi o de sentir sempre que as frases deveriam terminar - e com grande classe, claras e pujantes - ao quilómetro três, mas vê-las prolongarem-se por mais cinco quilómetros de metáforas desnecessárias e pura agonia, até uma morte estrepitosa. Dei por mim a reler algumas frases que começavam com asas, e que me enchiam o peito de compreensão e assombro, e a cortar o que vinha em acréscimo, e que só servia para deturpar a perfeição do começo. Abaixo dois exemplos desse exercício:

"O que seria de nós, não é, se fôssemos de facto felizes? Já imaginou como isso nos deixaria perplexos, desarmados, mirando ansiosamente em volta em busca de uma desgraça reconfortadora, como as crianças procuram os sorrisos da família numa festa de colégio?"

ou

"O medo de voltar ao meu país comprime-me o esófago, porque, entende, deixei de ter lugar fosse onde fosse, estive longe demais, tempo demais para tornar a pertencer aqui, a estes outonos de chuvas e de missas, estes demorados invernos despolidos como lâmpadas fundidas."

Apesar de ter conseguido terminá-lo, e dos vislumbres arrepiantes da genialidade que lhe adivinhava, e que com certeza lhe concede a reputação que conquistou no mundo das letras, acabei por acarinhar as imagens, as ideias, o mundo visto pelos olhos do autor, mas detestei o estilo. Detestei as inúmeras menções a artistas - Vermeer, Picasso, Miró, Chagall -, e a músicos - Coltrane, etc. - e a filmes e atores - James Dean, Humphrey Bogart, etc. Foram demasiadas. Tal era como os relógios derretidos do Dali e tal era magro como os galgos de Velasquéz (parafraseando), e a gabardina transformava senhor tal no Bogart, ou a ganga dava-lhe um ar de James Dean, etc. Já deitava essas menções pelos olhos. Até fui capaz de as seguir, porque adoro arte, mas achei uma exibição desproporcionada de snobismo num livro tão pequeno. Talvez em 1979, quando fui publicado, caíssem melhor.

Acabei por entrar no ritmo, oscilar entre a noite lisboeta onde este ex-médico de guerra tenta engatar uma rapariga, e os horrores que testemunhou na guerra e que vai debitando, acabando por nos elucidar também sobre a sua infância privilegiada e a estrutura familiar comum e até monótona. Achei de grande mestria que consiga saltitar entre o Chiúme e a terra vermelha de África e o vodka no copo em Lisboa, o seu apartamento vazio, a sua vida vazia de entusiasmo de homem de quase meia idade divorciado, enquanto constrói um retrato com pinceladas algo impressionistas (um borrão aqui, outro acolá e as sugestões de sombras, figuras e expressões por detrás - e eu a cair nas metáforas do autor). Estamos ao balcão do bar, e este médico de quem - creio - nem chegamos a saber o nome - está bêbedo, e vai cambaleando em direção à mulher em quem prendeu a atenção nesse dia de semana, o que sugere que nem consegue manter uma ocupação. Vai-se repetindo e revisitando as mesmas ideias, mas em ocasiões surge algo que nos cativa por completo, nos agonia, nos dá a volta ao estômago. E, por todo o livro, há um sentido de absurdo e de desnecessário, e um odor pútrido que exala dos caixões de chumbo dos mortos do ultramar, que sabiam que morriam em vão, por uma causa perdida, e que se perpetua pelo chorrilho de horrores que cometeram - no limiar da loucura tropical - e que testemunharam. Suicídios, minas, estropiados, violações, violências várias, torturas, mesquinhice, cobardia e bravura, tudo em vão. Tudo a terminar nos mesmos caixões de chumbo remetidos à metrópole à qual, depois de voltar, o médico já não sente que pertence.

Não é um livro que me tenha arrebatado por completo, mas é uma narrativa que imprime imagens muito fortes de humanidade e politiquices na nossa mente, e que explora a natureza humana sem filtros nem acanhentos, expondo-a distorcida, cruel, desesperada.

Aconselho como “introdução” ao difícil António Lobo Antunes.

Classificação: 3,5/5*****

Sinopse: A memória das experiências vividas durante a guerra em Angola. A partir de um encontro nocturno, num bar, do narrador com uma mulher, sem nome e sem voz, surge num longo monólogo o percurso de um médico militar que, depois de passar vinte e sete meses em Angola a servir o exército colonial, a reconstituir os corpos explodidos na guerra ou a assistir à sua agonia, regressa à metrópole, perdido numa angústia sem saída.

domingo, 12 de maio de 2019

#218 MAUGHAM, W. Somerset, Um Casamento em Florença

A minha edição é o livro #5 da Coleção de Clássicos da Livros do Brasil de 1951, e traz a sinopse do livro seguinte. Por esse motivo, deixo a sinopse da edição com o ISBN 9724128733, edição Asa @ 2002.

Sinopse: Florença. Uma magnífica casa nas colinas serve de cenário para um sonho que, subitamente, se transformará em pesadelo... Nesse refúgio de tranquilidade, as violentas emoções do passado são momentaneamente eclipsadas e Mary Panton pode encarar calmamente as perspectivas do seu segundo casamento com Sir Edgar Swift — que ela admira e respeita, mas não ama. Um simples acto de compaixão, o desejo de proporcionar alguma beleza à vida atribulada e infeliz de um jovem refugiado, vai no entanto dar início a um pesadelo de violência que destruirá a ténue serenidade de Mary. Intuitivamente, ela vai confiar na ajuda e compreensão de Rowley Flint, um estranho de reputação mais que duvidosa. E compreenderá com ele que rejeitar o amor, mesmo com todos os seus múltiplos riscos, é rejeitar a própria vida. Escrito com a simplicidade das grandes obras literárias, Paixão em Florença é um exemplo perfeito da genialidade de Somerset Maugham.


Opinião: Com apenas 189 páginas, onde predomina o intenso odor da velhice neste exemplar com 68 anos, Maugham constrói uma novela intensa. Estimo que Um Casamento em Florença se passe em cerca de uma semana, durante a estadia de Mary - a personagem principal, uma mulher à semelhança de em O Véu Pintado - na villa dos Leonard, em Florença. Numa rotina de receções e de uma realeza caída, no pós-II Guerra, Mary está mais ou menos prometida ao futuro Governador de Bengala, um homem que vê como amigo e que é 24 anos mais velho do que ela. Tudo se complica quando conhece, durante um jantar, um refugiado austríaco miserável. O seu coração e romantismo falam mais altos, mas o que se segue é desastroso e é Rowley, um americano de péssima reputação, quem acaba por formar uma inesperada dupla imoral com ela.
Maugham explora uma vez mais a natureza humana, as expetativas sociais, a Europa desconstruída após a guerra, e a reorganização social - e hipócrita - que se lhe seguiu. Como nunca deixa de acontecer com este autor, é o seu profundo conhecimento da alma humana que empresta solidez e encanto às páginas. E com vários e inesperados twists.
Aconselho vivamente, como todos os outros dele.

Classificação: 4/5*****

terça-feira, 7 de maio de 2019

#217 STEINBECK, John, Ratos e Homens

Sinopse: George e Lennie vagueiam de herdade em herdade na Califórnia da Grande Depressão, numa sobrevivência sustentada por trabalhos episódicos. Mas os dois amigos têm um plano: vão juntar o suficiente para comprar um bocado de terra com uma casinha e aí poderão viver tranquilamente e dedicar-se à criação de coelhos.

George é pequeno e vivo, e é ele quem toma as decisões; Lennie é um gigante simpático, mas tem dificuldade em lembrar-se das coisas e em medir a sua força excecional. Quando arranjam trabalho a carregar cevada numa herdade junto ao rio Salinas, George e Lennie veem o seu sonho aproximar-se a passos largos da concretização - até que a mulher do patrão entra em cena.

Considerado um dos mais importantes romances de John Steinbeck, publicado originalmente em 1937 e várias vezes adaptado ao teatro e ao cinema, Ratos e Homens é uma história sobre amizade, sobre dignidade e sacrifício, mas também uma parábola implacável sobre o ruir do sonho americano.

Opinião:
description
Imagem da adaptação cinematográfica de 1992
"(…) Eu estava a falar de mim. Uma pessoa fica aqui sentada de noite, a ler livros, ou a pensar, ou qualquer coisa assim… Às vezes, ficamos a pensar e não temos ninguém que diga sim ou não. Quando vemos alguma coisa, não sabemos se está certo ou errado. Não podemos perguntar a alguém se viu também. Não podemos falar. Não temos com quem discutir. Tenho visto muitas coisas aqui. E eu não estava bêbedo. Não sei se estava a dormir… Se tivesse um companheiro comigo, ele podia dizer se eu estava a dormir, e tudo ficava bem. Mas não sei…"

Ratos e Homens, título que me parece genial neste contexto, é uma novela de John Steinbeck, publicada em 1937. Narra os piores anos da depressão americana, quando o sonho americano fugia ao alcance de todos e os país se ia transformando num terreno lamacento de degenerados e desvalidos (para não dizer falidos e endividados). É o quarto livro que leio de Steinbeck, e a segunda novela depois de A Pérola. Apesar de os temas nos seus escritos me parecerem terem uma consciência comum – que se interessa pelas condições de vida dos desfavorecidos, pelas suas aspirações e dificuldades –, Steinbeck consegue sempre surpreender a cada narrativa. 

Esta novela conta a história da amizade improvável entre George, um homem simples habituado a desenvencilhar-se, e Lennie, um grandalhão com um evidente e embaraçoso défice cognitivo. Os dois homens vão fazendo a sua vida de herdade em herdade, nas colheitas e na lavra, ou em qualquer tipo de trabalho braçal que pague. É assim que chegam a uma nova herdade e são introduzidos a outros homens, com outro tipo de problemas, que acarinham sonhos semelhantes de terra e de estabilidade. É angustiante entender como era dura a vida na América dos anos 30, e Steinbeck retrata-o com recurso a uma mulher de moralidade duvidosa, que recorre a exageros de vaidade para colmatar as falhas afetivas, a um negro de costas tortas que se queixa do isolamento a que está votado, e que receia os dias em que não mais será capaz de exercer nenhum tipo de trabalho, e a Candy, um velho que vai fazendo trabalhos domésticos na quinta, e que receia ser posto na rua quando não tiver mais utilidade.

A essência do livro, neste pano de fundo decadente, é a amizade e cooperação entre George e Lennie, que acabei por não entender muito bem como nasceu, mas que Steinbeck talhou para ser inquebrável, mesmo perante a maior das provações.

Lê-se rápido e acrescenta muito. 
Livro a livro, J. Steinbeck vai-se consagrando como o meu autor favorito, a par com W. Somerset Maugham.


Classificação: 5*****/5

terça-feira, 30 de abril de 2019

#216 MÁRQUEZ, Gabriel García, Cem Anos de Solidão

Opinião: Gabriel Garcia Márquez publicou aquilo que só pode ser a obra-prima da literatura em língua castelhana em 1967, quando tinha apenas 40 anos. Calculou que lhe bastassem 6 meses a escrever todas as manhãs para o terminar, mas na verdade demorou 18 meses a completá-lo. Segundo o próprio, a inquietação mais premente da sua vida durante esse tempo foi a possibilidade de que lhe acabasse o papel para a máquina de escrever. A cada erro de grafia, destruía a folha e recomeçava de novo. Ao descer do autocarro com a versão final do manuscrito, a editora tropeçou e as folhas caíram numa poça e ficaram expostas à chuva. Foram posteriormente secas com ajuda de um ferro de engomar, e o autor só veio a sabê-lo muitos anos depois. Também conta o próprio que, ao enviá-lo para um editor na Argentina, só tinha fundos para pagar o envio de metade do manuscrito, pelo que o dividou. Ainda por cima, enganou-se e enviou apenas a segunda parte, no lugar da primeira. Acabou por ser o editor, provavelmente assombrado por esta jóia rara, que custeou o envio do início, para assim entender como começa a odisseia dos Buendía. Isto é apenas um pouco do misticismo em torno de Cem Anos de Solidão e do punho do génio das letras que lhe trouxe vida. Porque, ao terminar de ler esta maravilha – no sentido mais literal “de maravilha” –, só posso concluir que o autor era um génio. 

descriptionRevisitei as poucas entrevistas na sua voz no Youtube, e é assim que descubro que o autor se sentou diante da máquina de escrever com uma única frase na ideia, e sem saber onde é que a mesma poderia levá-lo. 

”Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo. ”


Esta frase levou a que o seu romance fosse traduzido em todas as línguas, e resultasse em mais de 50 milhões de cópias vendidas.


Que posso acrescentar a respeito deste magnífico romance?
Cem Anos de Solidão distorce o tempo e transforma Macondo - a povoação fictícia onde tudo se passa - no eixo de um furacão onde tudo sucede em círculos, e onde os males de uma família parecem ser quase uma alegoria para a história de uma humanidade supersticiosa, espiritual, mágica, sem tempo e finita. O que mais me surpreendeu na narrativa não foi tanto o realismo mágico que já havia experimentado, embora em doses menores, em O Amor nos Tempos de Cólera e Crónica de uma Morte Anunciada, mas sim o fulgor e a vitalidade com que cada página é entregue ao leitor, como se tudo tivesse sido escrito a um mesmo ritmo, num mesmo fôlego. Chegar ao fim da leitura é como perder esse fôlego. Primeiro flutuei, depois pareceu que dava cambalhotas, que trazia ao meu redor as borboletas amarelas que acompanhavam Mauricio Babilonia, ou que tinha a casa infestada de formigas-vermelhas, e continuou a cheirar-me aos orégãos do quintal dos Buendía durante um bocado, e talvez todas essas impressões só me abandonem daqui a muito tempo. Qualquer página a que regresse tem o peso da narrativa e a solidez das emoções, e qualquer capítulo, ainda que despregado de tudo o resto, é dos melhores jamais escritos, pelo menos que pelos meus olhos tenha passado.

Considero este livro uma obra de lucidez maior e de talento quase sobrenatural. Um caso nítido em que o homem supera a sua própria condição de mero mortal e se eleva. Uma ode aos costumes caribeños, a uma latitude algo negligenciada, a tempos idos eternizados por estas páginas sem tempo, em que tudo vai acontecendo, mas depois parece retroceder. É sublime o modo como o autor mexeu com as ânsias e as emoções humanas, como que universalizando-as de modo transversal ao longo do globo e da História, ou como jogou com a memória humana e as suas partidas. E a imaginação que vai sobejando de geração para geração, ao longo de sete desafortunados desníveis de Buendías, é a verdadeira matéria-prima da obra. 

Pergunto-me como é que um simples homem, em 18 meses, conseguiu engendrar tanta tropelia, tanto traço genuíno e distintivo, por entre os vícios e as semelhanças dos Aurelianos e dos Jose Arcadios, de modo a que a maravilha que acompanha toda a leitura renasça e nos surpreenda a cada nova geração. E o papel da Mulher, nesta obra de há 50 anos, é de uma perspicácia e de uma honestidade incríveis. É de uma sensibilidade magnífica o modo como um autor assume, sem melindres, que a Mulher, e em especial uma mulher – Úrsula – pode ser a mais clarividente das criaturas, e também a mais equilibrada naquela “casa de loucos”.
Sem dúvida, dos livros que ficam e que mudam a compreensão da literatura e da capacidade do Homem, sobretudo a do homem de 40 anos! - e que é possível que continue a ser lido e relido até ao final dos tempos.

Classificação: 5/5*****


Sinopse: Esta é a história da família Buendia, de Aurelianos e Josés Arcadios, geração após geração, de milagres e fantasias,de paixões e adultérios, descobertas e tragédias, de mortes e mortos, de histórias e histórias... e de muitas vidas, tantas quantas as línguas em que este romance já foi traduzido. O realismo mágico na pena de um dos maiores escritores do nosso tempo!

sábado, 20 de abril de 2019

#215 MAUGHAM, W. Somerset, O Fio da Navalha

Opinião: 
“- Ela tinha uma alma maravilhosa, ardente, idealista e generosa. Os seus ideais eram magnânimos. Até no final houve uma certa nobreza na forma como procurou a destruição.”

O Fio da Navalha, publicado em 1944, e adaptado ao cinema em 1946 e em 1985, é o terceiro romance que leio do escritor britânico W. Somerset Maugham. Quando li o seu Servidão Humana, soube de imediato que tinha encontrado um dos escritores que me acompanhariam pela vida fora, e cujas obras haveria de ler e reler. Guardei este volume para uma altura de crise, em que precisasse de ter confiança na obra em que pegasse e, se o início foi algo espinhoso, depressa a voz única do escritor me envolveu, e quando dei por mim não conseguia pousá-lo. Há muito que não leio romances em pouco mais de vinte e quatro horas, e devorei as 300 páginas deste nesse mesmo período de tempo. Ainda assim, sei que ficará comigo. É daqueles que haverei de mencionar vezes sem conta.

Embora a sinopse sugira que este romance conta a história do aviador Larry Darrell, por quem um companheiro de aviação dá a vida na I Guerra Mundial, o romance é muito mais do que isso. Maugham conseguiu transportar-me para o período entre guerras sem cair em politiquices nem ao detalhes aborrecidos de estratégia militar. De facto, não dissesse ele, a poucas páginas do fim, que “rebentou a guerra”, e nem nos apercebíamos que o maior conflito armado de sempre, com 70 milhões de baixas, se insinuava nas entrelinhas das receções parisienses das personagens que acompanhamos há duas décadas.

A ação tem início em 1919 na sociedade de Chicago, e ao longo destas páginas o próprio Maugham é uma personagem algo secundária, que transita de núcleo em núcleo e que vai tendo notícias das pessoas a quem nos apresenta. Começamos por conhecer Elliott, um americano que circula nas esferas mais altas da sociedade Europeia, e que insiste que a única cidade civilizada para um homem superior viver é Paris. A partir daí, temos a ponte criada entre os capitalistas americanos, a bolsa, os corretores e o desejo desenfreado de progresso nos anos prósperos que antecedem o crash, e a realeza em decadência na Europa pós-guerra, que vive de superficialidades e de pedantismo. 

Sendo Larry o fio condutor que intriga o nosso narrador – e que ilustre narrador! – ao longo dessas duas décadas, ficamos a saber que o aviador parece ter perdido parte do juízo quando o seu melhor amigo da Força Aérea deu a vida para o salvar de uma ofensiva alemã, e o Larry de antes, com apenas 18 anos, bem posicionado na sociedade, com uma fortuna modesta e de noivado marcado com Isabel Bradley, uma menina de bem, muda. De repente, Larry deixa de se interessar pelo lado mundano da vida, e coloca-se à parte, como observador circunspeto. Procuram ceder-lhe um lugar entre os bem-posicionados de Chicago, pedem-lhe que se junte à construção de um país que se evidencia mais próspero do que o velho mundo, delapidado pela guerra e pelos velhos costumes de repente fora de moda, mas Larry garante, para desconcerto de quem o rodeia, que tudo o que deseja da vida é fazer “nada”, e que deve valer-se do privilégio de ter um bom rendimento para poder dedicar-se a isso mesmo.

Esta é a premissa principal de um livro que, um pouco à semelhança de Servidão Humana, me parece uma senda pessoal, muito espiritual e até mística a certa altura. O que, pela voz metódica e ultrarracional – por vezes também romântica e melancólica – de Maugham, poderia soar a contrassenso. 

descriptionHá várias passagens de grande riqueza humana. Aliás, ler o meu escritor favorito referir-se ao “animal humano”, uma expressão com que tantas vezes nos identifico, por ausência de outra que melhor exemplifique o que pretendo dizer, coloca-me em plena sintonia aquilo que julgo que Maugham sentia e pretendia ilustrar. É este o forte deste romancista. A capacidade de observação, a perspicácia, a tempos a ironia e o humor, a classe, a crítica social - elegante, subtil -, mas também a ausência de pedantismo que lhe permite falar ora de rameiras ora de condessas com a mesma elegância, a mesma dignidade.
 
Destaco dois momentos de Nirvana que servem para exemplificar momentos de clarividência de duas personagens – uma delas o próprio Larry, a outra um homem de negócios que de repente, perante o crash da bolsa, se vê despojado de tudo o que lhe era caro. Foram passagens de tamanha beleza, tamanha carga emocional… Maugham encheu-me o peito e depois esvaziou-o com um grande suspiro com essas passagens, mas eu já não me sentia a mesma depois de as ler. São sítios próximos a outros que experimentei em meditação ou em momentos em que contemplei a natureza, e por isso os senti na pele com a nitidez de um arrepio.

A tempos claustrofóbica, a sua descrição da alta sociedade americana e europeia parece-me bastante detalhada, e soa-me desgastante. Tantas receções, cocktails, jantares, idas ao teatro… Enfim, tanto ócio, tanto hedonismo, tanta hipocrisia, tanta superficialidade e, ainda assim, tanta grandeza e humanidade nesses simples humanos, Comuns Mortais como o autor os nomeia, cai-me sempre enternecedora; é-me palpável.

Cheguei a meio do livro sentindo-me íntima não só do nosso escritor deambulante, mas também de toda e cada uma das personagens, e a cada vez que o autor se cruzava numa das suas viagens – Paris, Marselha, Mónaco, Londres – com essas pessoas que, desconfio, são bem reais, mas às quais ele terá prestado a cordialidade de alterar os nomes, dei por mim a beber avidamente das atualizações das suas vivências, das reviravoltas das suas expetativas e desencantos.

Larry, como caminho sinuoso e de poucas palavras que constitui em simultâneo a maravilha e o mistério deste romance, constitui um contraste gritante para com o borrão cinzento dos tais Comuns Mortais. É como se fosse uma obra de Picasso no marasmo bucólico de uma exposição de nenúfares. É com as suas viagens, a sua abordagem à vida, ao mal e aos outros, que o livro de facto se supera, e é das suas parcas palavras que tirei as principais lições de O Fio da Navalha.

Destaco também a elegância desta edição da Asa, que me parece irrepreensível e sem dúvida muito adequada ao conteúdo sublime deste romance. A isto junta-se a grande competência da tradução, que me pareceu elevar um livro já de si de extrema elegância e por vezes até poético.
A ler no momento certo.

Classificação: 5*****

Sinopse: Quando um amigo e colega de combate morre ao tentar salvá-lo, a vida de Larry Darrell muda para sempre. Para o jovem aviador americano, a morte passa então a ter um rosto. O inexorável mistério da morte leva-o a questionar o significado último da frágil condição humana e a embarcar numa obstinada e redentora odisseia espiritual. Ao recusar viver segundo as convenções impostas pela sociedade para buscar o sentido da vida (que encontrará, certa manhã, algures na Índia), Larry torna-se simultaneamente uma frustração para os que o rodeiam - principalmente para Isabel, a namorada, e Elliott, tio desta, que cultivam acima de tudo a aceitação e o prestígio sociais - e a personificação de um ideal de espiritualidade e não-compromisso. Por duas vezes adaptado ao cinema, O Fio da Navalha é um romance intemporal. As ansiedades e dúvidas de Larry são também as nossas; continuamos até hoje a buscar um sentido para a nossa existência. Para encarnar essa luta contra o destino, Somerset Maugham criou um dos mais fascinantes personagens do seu vasto legado literário. Da Primeira à Segunda Guerra Mundial, passando pela Grande Depressão, ele leva-nos, através das sociedades francesa, americana e inglesa, à verdade mais recôndita da alma e do sentimento humanos.

domingo, 14 de abril de 2019

#214 STEINBECK, John, A Pérola

Sinopse: Baseada num conto popular mexicano, A Pérola constitui uma inesquecível parábola poética sobre as grandezas e as misérias do mundo tão contraditório em que vivemos. E, assim, a história comovente de uma pérola enorme, de como foi descoberta e de como se perdeu… levando com ela os sonhos bons e maus que representava, mas é também a história de uma família e da solidariedade especial entre uma mulher, um pobre pescador índio e o filho de ambos.

Opinião:

"Não é bom desejar muito uma coisa. Pode arredar a sorte. Basta desejá-la um pouco, porque é preciso muito tacto com Deus ou com os deuses."

A Pérola é uma novela de J. Steinbeck - provavelmente o meu escritor favorito -, publicada em 1947. Como a sinopse anuncia, é baseado num conto popular mexicano. 

O tom da leitura foi-me muito familiar. Recordou-me sobretudo A Um Deus Desconhecido (1933), que é um dos meus livros favoritos. Tem a mesma carga mística, profética, quase divina desse outro volume.


Uma vez mais, creio antever algum socialismo nas exposições deste autor californiano. Steinbeck volta a pegar num núcleo de pessoas desfavorecidas e atira-os aos lobos. Nesta curta leitura de 98 páginas, nem por isso menos intensa, apresenta-nos a Kino, Juana, e ao filho do casal de pescadores de pérolas, Coyotito. Kino é o chefe da família, é sobre os seus ombros que assentam os seus alicerces. Juana é o lado espiritual, a voz que procura conter os impulsos de bestialidade do bicho-humano. São nativos mexicanos, falam a "língua comum" há pouco tempo, e vivem à beira mar, que lhes traz a cada dia o sustento. Isolados do burburinho da cidade e um pouco à margem das suas regras, não cultivam ambições nem procuram ser mais do que são. A fonte de rendimentos é o barco que Kino herdou do pai, e que pertencera, em tempos, ao seu avô. É com ele que mergulha em busca de pérolas, que depois vendem aos negociantes da cidade.


Steinbeck consegue enlear-nos em toda a sociedade de La Paz (California Sur), e apresenta-nos os muitos defeitos dos extratos que a compõem. Esses defeitos tão humanos são postos em evidência quando Kino encontra uma pérola de valor e dimensão extraordinárias. 


O até então pobre, ignorante e marginalizado Kino, é alvo da curiosidade de toda a cidade. Em breve as coisas escalam e a ganância do padre, do médico, dos outros pescadores e dos compradores de pérolas, põem em risco o equilíbrio sólido da pequena família de nativos que, até então, pouco tivera e menos ambicionara.


Creio que Steinbeck queria mostrar os efeitos nefastos da ganância na sociedade. Diria que esta ganância é a mesma que expôs em As Vinhas da Ira (1929), quando parte da população americana perecia de fome, e a outra aproveitava o seu desespero para progredir pagando baixos salários e explorando-os até à última gota de sangue. Os princípios são os mesmos. Steinbeck deixa também claro o quão difícil é, para alguém à margem, entrar numa sociedade que é aparentemente aberta e heterogénea, plena de oportunidades, mas que no fundo é viciada e corrupta. Deixa evidente que há uma tendência para que o humano tire proveito de outro humano que se lhe apresente vulnerável. A prova disso é que, a partir do instante em que Kino descobre algo valioso, algo que desperta a cobiça de todos os outros, é como se toda a cidade se unisse para o esmagar e expropriar do que poderia significar, para ele, uma possível ascensão social.


Senti as emoções que me acompanharam nestas outras leituras. Injustiça. Desespero. Uma vez mais, o autor conseguiu imprimir uma aura quase de um Jesus Cristo, ou de um profeta, ao seu personagem masculino central. E Juana, por sua vez, é como uma Maria sofredora e mãe. Acima de qualquer coisa, é mãe.


Lê-se muito rápido e é uma excelente introdução à obra deste Nobel (1962) americano.Recomendo vivamente!

Classificação: 5*****