segunda-feira, 18 de novembro de 2019

#234 LEVIN, Ira, Rosemary's Baby

Mia Farrow (Rosemary), no filme de Roman Polanski

Ouvi o audiobook abaixo:



Opinião: Rosemary's Baby é o primeiro livro do género "terror" que me atrevi a tocar. Ouvi o audiobook completo, disponível no Youtube.

Trata-se do segundo livro publicado por Ira Levin em 1966, e vendeu milhões de cópias, despertando o mercado da época para o potencial lucrativo do género. Creio que a adaptação para o cinema, em 1968 por Roman Polanski, tenha ajudado a imortalizar esta dona de casa dos anos 60, bem como a realidade dos nova iorquinos nessa década.

Segundo o livro nos leva a crer, não é fácil encontrar um lugar decente para viver no centro de Nova Iorque nos anos 60. O casal Woodhouse acabou de alugar um apartamento a custo, mas são surpreendidos pela notícia de que está um outro disponível, com 4 quartos, construção pré-II guerra e vista para Oeste do Central Park. É um sonho tornado realidade para o casal Woodhouse, sendo que Rosemary, de 24 anos, se mostra muito insistente para que agarrem a oportunidade de se mudar para o Bramford. Em conversa com um amigo, Hutch, os dois anunciam a boa nova sobre a mudança, e Hutch tem algumas histórias macabras para lhes contar acerca do local e dos seus antigos rendeiros. Desde mortes misteriosas a cultos satânicos, Hutch aconselha-os a ficarem longe daquele edifício porque, apesar de bem localizado, as coisas más tendem a acontecer com maior frequência nele do que em outros prédios da Big Apple.

O casal Woodhouse decide ignorar o aviso e afastar as crendices do amigo mais velho, pelo que selam o negócio e em breve se vêem no 7º Piso do Bramford. Guy é um ambicioso aspirante a ator e Rosemary é um tanto simplória e ingénua - talvez devido à juventude -, e também me parece muito submissa, de tal modo que permite que todos ao seu redor tomem disposições a seu respeito por ela. Creio que Rosemary é uma vítima da prisão domiciliária que era tantas vezes o casamento no século XX, em que o marido é o sustento da casa e a mulher lhe deve gratidão e obediência. É também vítima absoluta das circunstâncias que a rodeiam - do desejo de ascensão social do marido, das convenções sociais que a impedem de recusar a atenção desmesurada dos vizinhos, etc. A sua liberdade - inclusive ao nível do corte de cabelo - é constantemente castrada pelas exigências e palpites de quem com ela priva.

Julguei que a história tivesse a casa - e os seus ruídos e antigos ocupantes - como fonte dos horrores, mas o Mal nesta obra tem outra origem. Em breve, Rosemary vê-se prisioneira da vontade do marido, dos vizinhos Minnie e Roman, do seu obstetra aconselhado por estes últimos, e dá por si isolada, assustada, desconfortável na sua condição de grávida e enclausurada. É como se a sua gravidez fosse propriedade de todos, e todos tivessem algum interesse macabro a seu respeito.

Creio que o grande feito de Levin, nesta obra, é a de transformar uma cidade tão ampla e cheia de vitalidade, como Nova Iorque, num retiro lúgubre, claustrofóbico, onde Rosemary se sente sufocada de atenções e envolvida numa conspiração que, quando revelada, é demasiado cruel - e horripilante - para que possa acreditar!

Aconselho e estou louca por embarcar em outros enredos do género.

Classificação: 4/5*****

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

#233 STEINBECK, John, O Inverno do Nosso Descontentamento


"Now is the winter of our discontent;Made glorious summer by this sun of York"


Se considerar O Inverno do Nosso Descontentamento avulso, atribuir-lhe-ia um 5. À luz de outros trabalhos de Steinbeck, seria um 4 - falta-lhe a pujança e a pertinência de um As Vinhas da Ira, ou a espiritualidade de um A Um Deus Desconhecido, ou mesmo a nota de desconcerto final que nos deixa um Ratos e homens.
Na minha percepção, este é um romance mais contido, mais reflexivo e até mais pessoal. A sociedade está presente, as suas injustiças, hierarquias, vícios e manias. E, uma vez mais, estamos perante a narrativa de um homem honesto, de bom fundo, perante as vilezas que o rodeiam. Não é uma história de sobrevivência, como outras do autor, mas sim de ganância, de status social, e também de idoneidade. Declínio e ascensão na sociedade é o que molda e o que move Ethan Allen Hawley e a sua pequena família, no seio de uma cidade fictícia que o autor inventou para urdir o seu enredo.
Acompanhamos, ao longo das cerca de 300 páginas, a decadência moral que tem lugar por detrás das fachadas de New Baytown, que mina a política e a autoridade local. E Steinbeck presenteia-nos com uma personagem principal complexa, multidimensional, cujas ações nos surpreendem e nos chocam, sem que nunca deixem de nos importar.
Mais um romance de excelência daquele que se tem consagrado como o meu autor favorito, a par com o grandioso Somerset Maugham.

Sinopse: O Inverno do Nosso Descontentamento, o último romance que Steinbeck publicou, em 1961, é dominado pelos temas sociais, que conferiram à obra do autor uma unânime ressonância internacional.
O núcleo do romance é o dinheiro, a hipocrisia e os falsos valores, a crítica serena mas implacável às engrenagens de uma sociedade que mutila o homem no que ele tem de mais autêntico.
Na ponta final da sua carreira literária, John Steinbeck reencontra o fulgor de As Vinhas da Ira, o seu romance mais famoso, galardoado em 1940 com o Prémio Pulitzer

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

As Mulheres e o Nobel

Prémios Nobel atribuídos a mulheres
Apesar de me propor a um texto sobre as mulheres e o Nobel, na realidade este é um texto sobre as mulheres e o sucesso, em geral

Nos últimos 12 meses, reeditei um romance (Demência @ Coolbooks), com todo o trabalho envolvente (revisão, por exemplo), escrevi dois romances de raiz (coloquei ambos em prémios literários, porque a esperança é a última a morrer, e por isso abstenho-me de revelar os seus títulos de momento), e revi um quarto romance para publicação nos próximos seis meses (Os Pássaros @ Coolbooks). Além de todo este trabalho de escrita, li 32 livros nos últimos 12 meses. Não é um número muito elevado, tendo em conta que há quem leia 30 por mês, mas estou orgulhosa de mim mesma porque entre os títulos lidos encontram-se O Som e a Fúria, À Espera no Centeio, Crime e Castigo, O Adeus às Armas, O Fio da Navalha, etc., etc. Nessa lista constam alguns dos melhores livros da minha vida. Dão trabalho e obrigam a pensar - contam em peso na questão da "disponibilidade emocional". Acrescentam inquietação (mesmo porque leio para me inquietar) a uma vida já de si muito exigente.

Mas não foi só isso que fiz nos últimos 12 meses, e é por isso que, quando oiço dizer (a propósito de o Nobel da Literatura de 2018 ter sido atribuído a uma escritora polaca) que "ultimamente as mulheres andam a escrever quase tão bem como os homens", fico um bocado aborrecida.

De algum modo, em 2019, continuo a ver as mulheres mais ancoradas à casa do que os homens. Não todas, mas muitas. Ainda há mulheres a engomar as camisas dos seus homens. Mas eu não tenho homem, então o que me impede de "escrever melhor", segundo esse tipo de comentário? Ou de ter mais visibilidade do que os homens na literatura? Bom em primeiro lugar, talvez, talento. Eu gosto de considerar que os prémios são atribuídos por mérito e meramente apoiados na qualidade do conteúdo dos manuscritos a concurso, embora entenda que isto soa muito ingénuo. Muitas vezes, a nível internacional, os prémios são política e regionalismo. Muitas vezes importa mais o objetivo da obra a concurso, a sua pertinência, do que a execução da mesma. Tudo bem, estou a fugir ao tema.

Voltando à premissa: porque é que eu escrevo pior do que os homens, ou porque é que as mulheres, em geral, imaginam e executam pior literatura do que os homens, segundo algumas vozes ou até segundo a análise das quotas de vencedores de prémios literários em geral, em que o sexo masculino sai sempre beneficiado? Não pôr de lado o facto de a sociedade, em geral, considerar os homens mais capazes para as áreas do intelecto, isso com certeza terá o seu peso. Mas serão os júris assim tão quadrados, hoje em dia?

Ontem, enquanto varria o chão da cozinha pela segunda vez, perguntava-me o que há de biológico em mim que me obriga a tomar atenção ao que se passa na casa. Passei em revista a quantidade de detalhes insignificantes que fazem da vida num lar uma coisa mais higiénica e confortável. Coisinhas às quais empresto o meu cérebro, o meu tempo, a minha "disponibilidade emocional" desde os 23 anos, e que me roubaram tempo e disposição para sonhar, para imaginar. Se eu não andasse pela casa a varrer rodapés, a lavar a parede da bancada da cozinha, a desengordurar o exaustor, a encher o dispensador de sabão, a lavar a gaveta do amaciador da máquina de lavar roupa, a meter sal na de lavar loiça, a lavar o tacho dos gatos, a desentupir o ralo do duche, a verificar o nível de óleos essenciais dos ambientadores da tomada elétrica, a comprar saquetas anti-traças para os guarda-fatos, a ir ao supermercado perder horas nas compras e depois na fila, a pagar contas e a verificar se os débitos diretos não me andam a roubar, a rearranjar os tachos e suas tampas no armário que anda sempre de pernas para o ar, a cozinhar, a estender roupa, a fazer máquinas de roupa, a arrumar a loiça da máquina nos armários, a varrer, a aspirar, a passar o pano na parede branca onde alguém fez um risco, a escovar os gatos, a arrastar o sofá para endireitar a proteção e as mantas, a passar o pano do pó por cima da televisão e pelas prateleiras dos livros... 

Bom, se não tivesse tudo isto para fazer, quem sabe eu e milhentas mulheres mundo fora não pudessem ser Nobel. Escrever melhor. Sonhar mais, sei lá...

O meu tempo (para mim) por dia começa pelas 21h30 durante a semana e pelas 17h ao fim-de-semana. Depois da casa, das compras, de toda a gente que depende de mim. Cortar as unhas ou fazer uma máscara capilar são um luxo. E é assim desde os meus 23 anos. É por isso que dizerem-me que a casa está muito arrumadinha, quando há visitas, me sabe quase melhor do que ganhar um prémio literário. É o bendito reconhecimento do meu trabalho diário. Do meu trabalho a tempo inteiro que roça a escravatura. E, uff, pelo menos não tenho filhos (pequenos). Se tivesse, podia bem arrumar a caneta pelos próximos 10 anos, pelo menos.

A verdade é que o sucesso da mulher, seja em que área for para lá do emprego das 9h às 18h, está sempre dependente da casa. Do dinheiro que dispõe para se comprar mais tempo, contratando uma empregada doméstica, trazendo refeições já feitas, metendo a roupa na lavandaria, comprando uma casa no centro para diminuir o tempo de deslocação de casa ao trabalho (o meu chega a ser de 3 horas diárias), dos recursos para ter uma ama que apanhe as crianças na escola, se as tiver, e que quem sabe vá adiantando os banhos? Sem filhos, sem "casa", sem emprego (ou com um emprego em jornalismo!) é mais fácil chegar-se lá na escrita. É por isso que os homens tiveram esta vantagem civilizacional durante o tempo em que é conhecida a civilização - sempre livres para imaginar que extraterrestres invadem a sua aldeia natal, livres para filosofarem, para terem visões e para serem visionários. E ainda castravam as mulheres que também viviam do ócio em séculos distantes, embora algumas, apesar dos grilhões, tenham sido capazes de dar cartas nas mais diversas áreas do conhecimento.

Ainda assim, há quem consiga, no meio disto tudo, ter excelência em áreas relacionadas com hobbies, como a escrita. É a essas mulheres (e homens) que dou os parabéns: a essas mulheres com filhos e sem dinheiro para empregadas que conseguem levar também uma vida longe do fogão e das reuniões de pais e do condomínio. Posto tudo isto, imagino que sejam poucas, mas bato-lhes palmas. Parabéns, são as minhas heroínas.


As mulheres não andam a escrever melhor do que os homens. Algumas mulheres conquistaram as mesmas circunstâncias dos homens, o que as liberta para as Artes e o pensamento, o que, com certeza, os põe em pé de igualdade pelo menos na qualidade (não digo na premiação). Também discordo de qualquer tipo de pressão que sugira que se devem atribuir prémios a mulheres só porque sim, porque elas também são capazes, coitadinhas! 

A arte deve falar mais alto. Mesmo que seja um elefante quem a criou.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Ainda o Desacordo Ortográfico

Descobri que não sei escrever e isso, para uma pessoa que tem nas letras um hobby, uma terapia, um possível sonho, é inquietante. Antes do Acordo Ortográfico ser implantado, em 2009, eu sabia que «flôr» já não tinha acento circunflexo, como me ensinaram que tinha quando, entre 1995 e 1999, fiz o ensino primário. Quando publiquei o meu primeiro romance, em 2011, não me passava pela cabeça convertê-lo para uma grafia que me era desconhecida, que em certa medida não me parecia lógica e que foi, acima de tudo, controversa. Já se falava no Acordo, mas envolto em tanta polémica que se tornou fácil contorná-lo, ignorá-lo. 

Segui publicando romances de cariz histórico, e consegui contornar o Acordo. De algum modo, parece que é facultativo escrever-se no Português que está instituído legalmente, e que tanto trabalho e esforço deve ter arrancado a uma boa comitiva de intelectuais linguísticos (perdoem-me por não saber como se escreve intelectuais ao dia de hoje – com C ou sem C, eis a questão). Entretanto aportei no facto de que o Português das edições antigas de livros que leio – como “As Vinhas da Ira”, da coleção do Jornal Público   não é o mesmo que o das edições que adquiro recentemente, pelo que ao ler já não estou a aprender a escrever, pelo contrário, estou inclusive a desaprender algo que me era adquirido. Como se uma capacidade da qual me orgulhava me tivesse sido arrebatada sem mais. 

Mas o que me custou mais foi ter entregado um novo manuscrito à minha editora  o primeiro manuscrito em que julguei ter cedido à pressão do Acordo Ortográfico, em que julguei que simplificava, que me aproximava dos muitos mundos e letras portugueses no globo, em que, de modo ingénuo, considerei que a intuição haveria de me ajudar a pôr a minha língua por escrito na sua correta forma  e descobrir que a língua em que escrevi não existe. Há um limbo entre o que era e o que é. Escrevo na antiga grafia e afinal há uma nova para aquele vocábulo, ou arrisco eliminar um C que afinal ficou, e o manuscrito é-me devolvido rasurado a cada página. A cada parágrafo uma nota do revisor a questionar em que me baseei para escrever aquela palavra assim. Menções a vários acordos, pré e pós, isto e aquilo, e a palavra a fundar-se no lodo da incerteza, da imprecisão gráfica. “A autora tem de optar se quer manter Acordo ou não”. Ah é uma opção? Desde 2009 que cada cidadão luso tem o seu próprio Português? Faz a sua própria escolha dependendo da versão do Google Chrome e do Microsoft Word que tem instalado no computador? E quando isso está em colisão com o Outlook que tem instalado no trabalho?

Estou magoada. Não me interessam os motivos do Acordo, as intenções do Acordo. Interessa-me saber que me interesso pela Língua Portuguesa, que a tenho usado como instrumento de trabalho e de lazer, de ócio, de prazer, e que agora me é estranha. Interessa-me – desconcerta-me – saber que escrevo de um modo, os meus avós de outro, e a minha irmã mais nova de outro. Esse fosso geracional linguístico era escusado, pelo menos entre mim e ela. Não nos entendemos nos recados e nos post-its, e nem sequer temos autoridade para corrigir o Português uns dos outros. Sabemos lá nós.

O Acordo Ortográfico roubou-me a palavra, a língua, a certeza. Agora os meus manuscritos têm de ser corridos no conversor do Acordo Ortográfico. Há outro modo de registar corretamente o que tentei atabalhoadamente dizer no meu texto. O meu texto está todo errado. Tornei-me uma iletrada, o que é trágico quando se ama assim as palavras. 

Os Portugueses já não sabem escrever  o AO atirou-nos para o lodo do analfabetismo, iliteracia entre Licenciados, entre Doutores. Quantos de nós, não vivendo dire(c)tamente das Letras (como Tradutores, Editores, Professores, Linguistas), estão certos de saber escrever em Português? Quantos de nós compraram os livrinhos “Português para totós” para reaprender a sua língua, em efe(c)tivo? 

Bom, talvez alguns Portugueses ainda saibam escrever na sua língua. Eu descobri ontem que já não sei. Obrigada, Cavaco Silva.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

#232 HARRIS, Joanne, A Menina que Roubava Morangos

Sinopse: O coração de Vianne Rocher, a encantadora e inquieta maga do chocolate, parece ter finalmente serenado. A vila de Lansquenet-sous-Tannes, que em tempos a rejeitou, é agora o seu lar. Com a filha mais velha, Anouk, a viver em Paris, Vianne dedica-se por inteiro à chocolaterie e a Rosette, a filha mais nova, a sua menina "especial". A acompanhá-las estão os seus amigos do rio, os extravagantes vizinhos, e o circunspecto padre Reynaud. Mas o vento, quando sopra, traz sempre mudanças… E estas começam com a morte de Narcisse, o temperamental florista. A vila fica em alvoroço pois Narcisse deixa não só uma surpreendente herança a Rosette, mas também uma inesperada confissão.

Nada voltará a ser como dantes. E quando uma loja nova abre onde antes se dispunham as magníficas flores de Narcisse, tudo parece um prenúncio de algo: um confronto, alguma turbulência, ou talvez até… um crime? Conseguirá Vianne impedir que o vento leve tudo o que lhe é mais querido?


Há magia no ar. Há luz e sombra. Vingança e amor. Vinte anos depois da publicação de Chocolate, Joanne Harris regressa à pitoresca vila francesa num romance sobre a força do passado, o poder da memória e a aceitação das marcas que a vida deixa em nós.


Opinião: Joanne Harris foi das primeiras autoras que li e adorei, ainda em tenra idade. Comecei pelo Chocolate, segui por todos os seus outros clássicos. Mais tarde adorei reencontrar essas personagens em Sapatos de Rebuçado e O Aroma das Especiarias. Julgo ter entendido que este volume encerra o mundo de Vianne Rocher, com certeza a chocolateira mais famosa do universo literário.

Senti o a narrativa mais fraca, a entrar um bocadinho por aquele campo do espremer uma fórmula ao máximo. Como se a autora não estivesse tão inspirada como nos restantes volumes, apesar de se ler bem, porque me é território confortável. Vianne Rocher cede o protagonismo à sua filha de 16 anos, Rosette, e a M. le Curé, o Père Reynaud. Sem dúvida que as complexidades deste homem de Deus, atormentado pela própria natureza falível, dão substância à melhor personagem (pelo menos à minha favorita) criada pela autora neste universo de uma aldeia francesa à beira-rio, na qual aportam os barcos dos ciganos, onde há uma comunidade muçulmana (Les Marauds) e onde colidem o mundo tradicional das beatas e dos hipócritas com as minorias que despertam a mesquinhez nessas almas cristãs.

Adoro a temática dos livros da autora, que giram sempre em torno da diferença; do ser-se diferente e do aceitar-se o diferente. Neste volume, Rosette é a personagem diferente. Tem um discurso próprio (Bam!) pontilhado dos seus limites de discurso (terá uma doença que a arrasta para tiques nervosos?). Traz alguma pureza à narrativa. É a sua voz, mas também a de Vianne, a de Reynaud e os relatos na primeira pessoa de Narcisse, o antigo florista que morre e que deixa o seu bosque de carvalhos e morangos silvestres à curiosa Rosette que instiga a ação deste último tomo da série. É que os habitantes de Lansquenet-sous-Tannes não compreendem o porquê de um homem inescrutável ter deixado um bosque de valor precioso a uma criança com limitações, e a justificação que oferece ao executor do seu testamento, bem como a nova ocupante da sua loja de flores desocupada, diante da porta da Chocolaterie vão desenterrar os segredos de outro habitante da pequena povoação.

O interessante é a premissa de que ninguém é o que parece, combinada com a mestria da autora em criar universos mágicos, místicos, plenos de superstição e de maravilha, em que o chocolate, os desenhos, a arte em geral, o fogo nas fogueiras dos ciganos, os amuletos islâmicos, as tradições maias, se tornam formas de praticar feitiçaria e de pôr o vento a nosso favor, ou contra os nossos inimigos.

Ocorre-me uma questão interessante sobre a obra da autora: os homens costumam ser personagens voláteis, pouco confiáveis, que vêm e vão com o vento, egoístas. As mulheres têm-nos como adereços temporários. O amor nunca se sobrepõe à razão e, quando o faz, é para desgraça da mulher (recordo-me de algumas das suas mulheres, desgraçadas por homens ignóbeis). Que significa isto? Gostaria de perguntar à autora se é de algum modo feminista, e se conhece homens de integridade inabalável.

Despeço-me com saudade, e um dia regresso com o Hurakan a Lansquenet-sous-Tannes, para reencontrar todos estes amigos de longa data.

Classificação: 4/5*****

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

#231 LOCKHART, E., Quando éramos mentirosos

SinopseA família Sinclair parece perfeita. Ninguém falha, levanta a voz ou cai no ridículo. Os Sinclair são atléticos, atraentes e felizes. A sua fortuna é antiga. Os seus verões são passados numa ilha privada, onde se reúnem todos os anos sem exceção. É sob o encantamento da ilha que Cadence, a mais jovem herdeira da fortuna familiar, comete um erro: apaixona-se desesperadamente. Cadence é brilhante, mas secretamente frágil e atormentada. Gat é determinado, mas abertamente impetuoso e inconveniente. A relação de ambos põe em causa as rígidas normas do clã. E isso simplesmente não pode acontecer. Os Sinclair parecem ter tudo. E têm, de facto. Têm segredos. Escondem tragédias. Vivem mentiras. E a maior de todas as mentiras é tão intolerável que não pode ser revelada. Nem mesmo a si.

Opinião: "Ninguém falha, levanta a voz ou cai no ridículo. Os Sinclair são atléticos, atraentes e felizes. A sua fortuna é antiga. Os seus verões são passados numa ilha privada, onde se reúnem todos os anos sem exceção."

Narrativa simples, despretensiosa, que dispensa demasiadas questões.Os Sinclair são perfeitos, e são-nos apresentados pela voz de Candace, de 17 anos - umas das netas e futura herdeira da sua fortuna. Ela e os dois primos, Johnny e Mirren, juntamente com Gat, são "os Mentirosos". Os Mentirosos são jovens idealistas que convivem com a família completa Sinclair e os seus tesouros, segredos, ambições, todos os verões na sua ilha privada. Os Sinclair têm uma ilha privada onde cada uma das três filhas de Tipper e Harris tem a sua casa, sendo que depois se reúnem todos em Clairmont, a casa dos pais, para discutir quem tem mais direito a herdar o quê, e quem tem a cozinha melhor equipada, e quem deve ficar com as pérolas da mãe depois da sua morte.O que mais gostei no livro foi a prosa acessível, sem trejeitos desnecessários, que me pareceu adequada a uma adolescente com algumas preocupações existenciais, para lá da sua juventude e do seu estatuto de privilegiada. E também do contraste jovem/idealista e adulto/cínico. Li-o em dois fôlegos, fiquei surpreendida com o final e recomendo-o como uma leitura leve com alguma substância.Os Sinclair não são nada do que apregoam ser.


Classificação: 4/5*****

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

#230 CLAUDEL, Philippe, O Arquipélago do Cão

Opinião: Este livro poderia chamar-se Manual para a corrupção

Depois de ler O Barulho das Chaves e Almas Cinzentas, rendi-me a Philippe Claudel. Sobretudo o último romance marcou-me de forma inesperada, e recordou-me de outro autor Francês cujo trabalho também admiro: Sébastien Japrisot, falecido em 2003, que me encantou com Um Longo Domingo de Noivado.
Este "O Arquipélago do Cão" foca-se, como a própria sinopse indica, em torno do facto de o nosso Mediterrâneo se estar a tornar num cemitério, um repositório das vítimas de guerras, fome, crises humanitárias em geral. É clara a premissa do livro, que sugere que há uma responsabilidade coletiva no modo como gerimos a situação, mas é tudo tão mais complexo do que isso. Creio que não se discute aqui a humanidade dos três corpos que dão à costa, nem a dignidade daquelas pessoas com base na cor de pele ou crença religiosa. Parece-me que o ponto fulcral, e que passa ao lado do romance porque este tem um tom apressado de novela, ou talvez de ensaio em que a posição do autor surge clara, é que a maioria dos países europeus não tem qualquer responsabilidade sobre o desterro voluntário - e tantas vezes o perecimento - destes homens que arriscam a vida para chegar ilegalmente à Europa. Reconhece-se o desespero com que essas almas se precipitam numa travessia fadada ao insucesso, mas a verdade é que o impacto que vão ter neste Aquipélago do Cão é negativo, e é com esses "prejuízos", que vão muito além de económicos, que o núcleo central de personagens do romance se debate. Procura minimizá-los - na realidade, omiti-los -, o que constitui um evidente dilema moral, gera culpa e macula a alma coletiva daquela comunidade.
O livro deixou-me um sabor agridoce na boca - não sugere uma solução, não dá a entender que a mesma exista, limita-se a culpabilizar os governos e os povos por se alienarem desse problema, ou por o varrerem para baixo do tapete. Com laivos de superstição e de um fatalismo que não creio que tenha sido bem desenvolvidos nas curtas 180 páginas deste quase "ensaio". Faltou o que me mantém presa aos raciocínios do autor: aquelas tiradas inéditas, esclarecedoras, clarividentes, que vêm acrescentar algo aos meus conhecimentos. Ao invés, achei o livro muito dependente de frases que buscavam uma profundidade que nunca atingiam, e até de alguns clichés de discurso. Considerei-o superficial, mesmo por lidar com temas tão lúgubres e delicados. Senti-o mais um embrião do que um livro concluído. Ainda assim, interessante.

Uma nota para a edição da Sextante: não detetei uma única gralha, livro lindo do ponto de vista estético, quer em cor, textura, tipo de letra ideal, facilitou muito a leitura, papel adequado, etc. Foi um caso raro em que o próprio suporte físico do livro contribuiu para elevá-lo e tornou a leitura mais aprazível.

Classificação: 3/5*****


Sinopse: «A história que ides ler é tão real como vós o sois. Passa-se aqui, tal como teria podido desenrolar-se ali. Seria demasiado cómodo pensar que aconteceu noutro lugar. Os nomes dos seres que a povoam pouco importam. Poderiam ser alterados. Pôr os vossos no lugar deles. Assemelhais-vos tanto, procedendo do mesmo molde inalterável. Estou certo de que, mais cedo ou mais tarde, fareis a vós próprios uma pergunta legítima: terá ele sido testemunha do que nos conta? A minha resposta é: sim, fui testemunha disso. Tal como vós o fostes, mas não quisestes ver.»Três cadáveres de homens negros dão à praia, numa pequena ilha perdida do arquipélago do Cão. Dominados pela força divina do vulcão Brau, as gentes do Cão vivem da pesca, da agricultura, da vinha. Todos se conhecem. Que fazer com aqueles corpos? Philippe Claudel, com mão de mestre, escreve uma história notável, uma negra parábola sobre o cinismo, a indiferença e a apatia moral que invade o nosso tempo, tendo como pano de fundo a tragédia das migrações mediterrâneas de hoje.



quinta-feira, 15 de agosto de 2019

#229 DOSTOIEVSKI, Fiódor, Crime e Castigo

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Dostoievski, por Vasily Perov @ 1872
"Vês, eu nesse tempo perguntava sempre a mim próprio: porque sou eu tão estúpido que, se os outros são estúpidos, e eu sei que são, não quero ser mais inteligente? Depois descobri, Sónia, que se ficamos à espera que os outros se tornem inteligentes, passará demasiado tempo… Depois descobri também que isso nunca acontecerá, que as pessoas não mudarão e ninguém as fará mudar e não vale a pena o esforço!”

“Crime e Castigo”, publicado inicialmente em 1866 por capítulos no “Mensageiro Russo”, tornou-se um clássico da literatura internacional. Confesso que a minha curiosidade quanto aos tão aclamados romances russos nunca foi muito intensa – li A Sonata de Kreutzer e Fumo sem encontrar nada de extraordinário excepto, talvez, algumas reflexões acerca da condição humana e uma dificuldade imensa em acompanhar aqueles caráteres impulsivos, auto-destrutivos e aqueles nomes que me soam tão exóticos. Procurei em “Crime e Castigo” traços do romantismo que, trinta anos anos, lavrava por toda a Europa – o da tuberculose, dos amores condenados, dos suicídios. Numa Rússia profundamente influenciada pelas culturas germânica e francesa, faria todo o sentido que as vozes literárias, de cunho nacionalista, se erguessem para imortalizar a essência de um povo tão sofredor, tão martirizado quanto o russo por essa altura, no entanto, com potencial para tanta grandeza… 

De algum modo, “Crime e Castigo” moldou-me, preparou-me para apreciar melhor a riqueza de emoções humanas desses grandes antropólogos russos, e creio que se voltar agora a ler um desses outros romances, ou se me aventurar num Anna Karénina tirarei muito mais proveito deles do que antes de o ter lido. De repente, vejo-me fascinada pela realidade russa. Há livros assim, que nos expandem a compreensão e nos oferecem um conhecimento maior do mundo ao nosso redor. Há livros que criam um inequívoco antes e depois no leitor…

Creio que é nesse contexto que surgem Dostoievski, Tolstoi, Turguenev e tantos outros seus contemporâneos. Acredito que um escritor é melhor quanto mais tiver sofrido, quanto mais se inquietar com os desconfortos de ser de carne e osso, de sentir, de perder, e a Rússia da segunda metade do século XIX era prolífera nestes desconsolos, pelo que brotaram dela várias vozes superiores nesta nobre arte que é o observar e imortalizar um tempo por via das letras.

Acompanhamos Ráskolnikov numa espiral de desencanto quanto ao seu futuro, às suas circunstâncias e às das pessoas que o rodeiam, em especial a mãe, a irmã, o melhor amigo. Ao cruzar-se com um núcleo sofredor composto por um ex-funcionário público, a sua esposa que decaiu de um estatuto de filha de “quase” governador para infeliz e tísica mulher de um bêbedo (aliás, a personagem que mais me cativou, Katerina Ivánovna), e as muitas e miseráveis crianças desta malfadada união, começa a envolver-se nas misérias de outros, e acaba por ir pondo de lado, em ocasiões, os seus próprios delírios. Destaca-se ainda Sónia, que se ocupa do bem-estar de todos, “aceitando o sofrimento” para apaziguar um pouco as angústias de quem a rodeia, e que personifica uma espécie de Maria Madalena, abnegada e crente, benevolente e sacrificial.

Para mim, a cena de um certo banquete fúnebre é o momento inesquecível deste romance em seis partes, um humor tão apurado, tão delicioso, que não queria sair nunca daquela mesa e daquela companhia:

"- Essa cuca é que tem a culpa de tudo. Compreende de quem estou a falar. Dela, dela! - e Katerina Ivánovna indicava-lhe a senhoria. - Olhe para ela: arregala os olhos, sente que estamos a falar dela, mas não percebe. A coruja! Ah-ah-ah!... E o que quer ela mostrar com aquela touquinha? Gha-gha-gha! Já reparou que ela quer fazer crer a toda a gente que me ajuda e que me honra com a sua presença? Pedi-lhe, como a uma pessoa decente, que convidasse pessoas de qualidade, e concretamente os conhecidos do falecido, e olhe o que ela me trouxe: uns palhaços! Uns porcalhões! Olhe aquele, com a cara cheia de sinais: parece uma ranhoca com duas pernas. E estes polacos...ah-ah-ah! Gha-gha-gha! Ninguém, nunca ninguém os viu por aqui: e porque vieram cá, pergunto eu? Sentadinhos lado a lado, todos cerimoniosos. (...) Não faz mal, que comam. Ao menos não fazem barulho, mas... mas, na verdade, receio pelas colheres de prata da senhoria!... Amália Ivánovna - disse, dirigindo-se à senhoria, quase em voz alta -, se por acaso roubarem as suas colheres, eu não me responsabilizo por elas, aviso-a já! Ah-ah-ah! - e desatou a rir, dirigindo-se outra vez a Ráskolnikov, indicando-lhe de novo a senhoria com a cabeça e alegrando-se com a sua pilhéria. - Não percebeu, não percebeu outra vez. Olhe para ela, ali de boca aberta: uma autêntica coruja com fitas novas, ah-ah-ah!”


“Crime e Castigo” está cheio de personagens complexas, absorventes, que causam pasmo e exasperação. De algum modo, este segundo núcleo proporciona uma redenção inesperada à nossa alma-penada, o assassino torturado que vagueia por S. Peterburgo, o jovem idealista caído da graça de um futuro promissor, mas gorado. O autor criou, neste seu magnus opus, um retrato nítido de uma Rússia desgastada e decadente, sem oportunidades, onde imperam os vícios e as vilanias, pontuados de muita depravação e de uma tendência quase natural para transgredir a lei e os limites da moralidade, para se embebedar, e também por um certo regozijo perante a própria desgraça. A filosofia, a muita dialética que povoa a riqueza destes diálogos vertigionosos, a loucura quase palpável destas personagens em situações extremas de contrariedade e insatisfação, as sementes para a Rússia socialista ali tão evidentes… 

A obra de um génio das letras e da arquitetura narrativa, que me chega tão atual, tão intemporal, cento e cinquenta anos depois do seu momento. Um daqueles livros que não conseguirei esquecer pelo tom lúgubre dos cenários, a dimensão da claustrofobia e do desespero na alma de Ráskolnikov e dos seus conterrâneos. Uma obra colossal alinhavada em torno de um jovem de 23 anos que abandonou os estudos de Direito por acreditar que as pessoas de dividem em “vulgares” e “invulgares”, e que o “invulgar” é raro e é por sua ação que o mundo progride, que a antiga ordem se desfaz para que nasça uma nova, revolucionária, e que lhe é vital ultrapassar os limites das convenções para provar a si mesmo que não é um mero “piolho”, mas sim uma “pessoa”, e por isso urge cometer um crime, livrar-se de uma criatura indesejada e até nociva para a sociedade. 

"Ou supões que eu fiz o que fiz como um tolo, sem pensar? Fi-lo como um homem inteligente e foi isso que me perdeu! Pensarás que eu não sabia, por exemplo, que se começava a interrogar-me sobre se tinha o direito ao poder, precisamente por isso não tinha o direito ao poder? Ou que, se me fizesse a pergunta: é um piolho ou uma pessoa?, por conseguinte a pessoa não era um piolho para mim, mas era piolho para aquele que vai em frente sem fazer essas perguntas…”
Palpita-me que é outro livro que me ficará para a vida, que me há-de ocorrer em inúmeras situações e que voltarei a ler, quando a hora de reler os livros da minha vida chegar.

Classificação: 5/5*****

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

#1 - Jonathan Bate on the Age of Romanticism


Wanderer above the sea of fog - Casper David Friedrich

"Romanticism is above all a movement of ideas. The idea of revolution and the idea of nacionalism. The preposterous sugestion that women, slaves and even animals might have rights. Reverence the nature, vegetarianism and enviromental conscienceness. The radical theory of anarchism and the conservative theory of the organic state. The cult of personality and the very idea of sincerity. The reinvention of poetry as the expression of the self. The belief that nothing matters more to us as human beings than our sensations, our feelings. That individualism and individuals' ideals, whatever they might be, define our freedom and our modernity (...) The modern meanings of the words imagination, creativity, genius, literature. The freedom fighter on the streets and the hiker in the mountains. (...) The alarming notion that it might be glamorous to take drugs and to commit suicide or, at the very least, to live hard and die young. The rebel and the outsider. (…) These are all ideas that emerged or grew in the Romantic Age.”

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

#228 NABOKOV, Vladimir, Lolita

Opinião: Este livro é um daqueles que se pega à pele de quem o lê e assim segue, vida afora. Não me esquecerei da mente conspurcada do Humbert, a ousadia da Lolita e o ambiente doentio que é proporcionado por estas duas pessoas, tão retorcidas, tão marcadas pelo pior da natureza humana. Foi a primeira vez que dei por mim dentro da cabeça do vilão e, consequentemente, surpreendi-me ao desejar que os seus planos se concretizarem sem embaraços. Alguma magia o Nabokov dedicou a este "Lolita"

Classificação: 5*****

Sinopse: «Quase quarenta anos depois, este romance tão artificial criou uma nova palavra internacional ("lolita"), inventou uma América — a dos motéis e autoestradas — de que se nutre ainda boa parte da narrativa americana contemporânea, é uma das obras com o inglês mais rico e preciso da literatura deste século e, ao contrário das acusações iniciais de pornografia que teve de sofrer, é talvez — e no que me diz respeito — o romance mais melancólico, elegante e lírico de quantos li.» [Javier Marías in Literatura e Fantasma]


«A única história de amor convincente do nosso século.»
[Vanity Fair]

«Nabokov escreve prosa do único modo que esta deve ser escrita, ou seja, extasiadamente.»
[John Updike]

quarta-feira, 24 de julho de 2019

#227 STORK, Francisco X., The Memory of Light

"This strange feeling of not belonging, this sense that every task, even the smallest one, is unpleasant and requires effort - this is how my days will be here."

This book pierced me in places I had forgotten about. I had forgotten that it is possible to forget how it's like to be you. Depression does that for people. Back in 2014, shortly after my cat disappeared and I moved into an apartment alone, I was stroke with depression. It wasn't my first, but it was the first time I named it that way, and it got pretty serious. It stood around until about 2016. Only in January 2016 did I quit medication and started feeling like myself again. Sorry for making the review sound personal, I'll eventually get to the part in which I praise kind and loving Francisco X. Stork, who was writing the book at the time, for having had the bravery to touch his own wounds and dig into these themes. Also, I am amazed at how someone who's lived through so much was capable of writing a novel with this voice - such purity in his view of the world that I almost forgot it wasn't a teenager, but an experienced writer and gentleman, the hand behind it. Thank you, Francisco, for throwing this rope to young people, and to explaining so well that having a mental disease is like living life in the hard mode, with everyone telling you that they'd enjoy it better than you. And that the world isn't so awful, maybe your brain is forcing to see it through the goggles of depression.

"The brokeness out there seems so much greater than the strenght and life given to us."

So, back to my experience with depression, to which I've been open about in the past... I didn't know the nature of that sadness when I was 18, but somehow I was able to reset my mind and produce happy thoughts, listened to joyful songs, moved on from what was holding me to the ground. In 2014 I was firstly hurt by the disappearance of my cat. You might say it was just a cat, but pets are never just animals, and you put your heart, your responsibility, sometimes the love you're not able to share with others into the care of that little creature. And the world is cruel and takes it away with no warning. Then I found myself alone after growing up in a house full of people and noise, without a care in the world for the first time ever. And the weight of the world started to lean on my shoulders and my chest. Anxiety, later on panic attacks. Not being able of keeping the tears from falling in public places, for instance. First I'd cry once a week, only at things that would cause me pain. Soon even beauty, besides animal cruelty, ignorance, prejudice, bad weather, everything would be an excuse to cry. I lost the ability of controlling the tears; they were there several times a week, then every day. Weekends alone were dreadful. My friends were way too young and focused in their own lives - as you should be when you're 23 - to fully acknowledge my aching. And yet some of them managed to understand the seriousness of it and to help me out. 

"Is it possible to be loved and not to feel loved? Isn't love supposed to be felt by the beloved?"

Taking medication wasn't easy. It put me to sleep all day long. I could've lost my friends, my job, the support from my family, for I wasn't me anymore. Everything bothered me or left me upset or made me cry. People said they felt like they weren't allowed to smile or express happiness next to me. I reached rock-bottom, and them climbed all the way back up through months of apathy, tiredness, sleepiness and dizziness from the medication. I had to face the prejudice of going to see a Psychiatrist - everybody was telling me good thoughts and keeping busy would solve it for me. I should stay away from 'taking chemicals". My loved ones made me feel like I was damaged. They didn't realize it this way. You see, besides depression there was anxiety and panic attacks. These last two are kind of hard to ignore, or to fight off with happy thoughts. Right as I write this review, the fire of anxiety is burning in my chest. It's like my lungs can't catch enough air. I'm at peace. Got nowhere else to go. The room is fresh and the book I just finished was good. But the fisiology in me is full alert mode, sirens' on, telling me to rush, to run, to worry. It's also taking my breath away.
Don't expect happy twists and endings. When you have a mental disease, I agree you see the world from a different angle. Maybe you feel things more deeply, all the way down to the layer of your skin where it starts to hurt. Maybe you feel lonely and not fully understood. People who you love will address to you as if somehow this is a weakness of yours, a choice, a trait of softness. As if it is your responsibility that you feel this way. They won't want to hear it, because they believe speaking of it summons the thing with more intensity. Ignore it and it'll go away, as if to say. 

People will surely let you down, because no one is prepared to deal with others acting against what's normal due to mental illness or limitations. No one is ready to see you acting as being other than you. But one thing this book also reminded me, and I needed this reminder: depression may be chemical, physical, physiological, mental, and clinical. But the environment you're in is always - I guess - a trigger to it. The way the author wrapped Vicky's reality shows it pretty well. It's the hidden things, the silenced things; non processed pain, feelings, suppressed will and going against yourself that will possibly get you ill. Vicky was a sensitive girl in a toxic environment, and it doesn't require domestic violence, or poverty, or starvation and filth for once to feel like there's a toxic fog around her.

She was frustrated, silenced; she had given up on explaining herself or being heard and understood. She felt lonely and awkward in her circumstances, in her own home. You can't feel alienated from your relatives, your own space, and not become somehow ill. Also, the pressure I believe to be an American thing - such competition from such young age... I mean, what for? What's made of cooperation? It sounds sick to me that a parent would see financial success and prosperity as the only way to grant his children happiness. That's not even a need... A need would be love and care. I relate to Vicky, for I'd never survive with a sane mind in a society which expects me to compete with others at all times.
This is a novel about friendship and overcoming monumental obstacles - obstacles that only you aknowledge. About the little things you can do to help others. About the absolute necessity of making yourself clear and listen to others. Maybe that's all they need: that someone else stops pushing their idea of happiness and health on them, so that they can foresee a future and a happiness of their own.

So thank you, Francisco. You trully are a gentle soul. I'll write you an e-mail telling you what's so special about having finished this book today.

It's a 5 out of 5.

Synopsys: 16-year-old Vicky Cruz wakes up in a hospital's mental ward after a failed suicide attempt. Now she must find a path to recovery - and perhaps rescue some others along the way.


When Vicky Cruz wakes up in the Lakeview Hospital Mental Disorders ward, she knows one thing: After her suicide attempt, she shouldn't be alive. But then she meets Mona, the live wire; Gabriel, the saint; E.M., always angry; and Dr. Desai, a quiet force. With stories and honesty, kindness and hard work, they push her to reconsider her life before Lakeview, and offer her an acceptance she's never had. 

But Vicky's newfound peace is as fragile as the roses that grow around the hospital. And when a crisis forces the group to split up, sending Vick back to the life that drove her to suicide, she must try to find her own courage and strength. She may not have them. She doesn't know. 

Inspired in part by the author's own experience with depression, The Memory of Light is the rare young adult novel that focuses not on the events leading up to a suicide attempt, but the recovery from one - about living when life doesn't seem worth it, and how we go on anyway.