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domingo, 16 de fevereiro de 2020

#242 STEINBECK, John, A Leste do Paraíso

Opinião: 
"E disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E ele disse: Não sei; acaso sou eu guardador do meu irmão?" (Génesis 4:9)


A Leste do Paraíso é um romance publicado por John Steinbeck em 1958, dez anos antes da sua morte e quatro anos antes de lhe ser concedido o Nobel. Li-o convencida de que a maturidade do escritor, em termos de imaginação, de domínio da língua e de compreensão do animal humano estavam no seu auge. Esta percepção levou-me a considerar que esta teria sido a última obra em vida de Steinbeck, mas estava errada. Assim sendo, o apogeu do autor não ocorreu necessariamente quando estava em posse de maior compreensão do mundo ao redor, mas num instante de clarividência em que decidiu debruçar-se sobre a sua família e os seus antepassados, e sobre a vivência dos habitantes do Vale do Salinas, na Califórnia.


"Então Caim deixou a presença do Senhor, e viveu na terra de Nod, a Leste do Paraíso." (Génesis 4:9)


Emprestando a esta obra um cunho vincadamente bíblico, Steinbeck projetou nas família Hamilton e Trask trechos da sua própria ancestralidade, personagens da sua vivência e episódios da sua infância e juventude. A família Hamilton é povoada de personagens inesquecíveis, bem como o núcleo Trask. O mais admirável são, no entanto, as relações. A dinâmica das relações marido e mulher, pai e filhos, irmãos, criados e amos. Várias personagens são francamente inesquecíveis – Adam Trask (Adão), Lee (o chinês sábio que nos enternece desde o início), Samuel Hamilton, o inventor louco e ternurento, a maquiavélica Cathy e os jovens Cal (Caim?) e Aaron (Abel?).
Senti-me envolvida nos diálogos e nas decisões das personagens, torci por elas e sentei-me com elas sob as estrelas na noite californiana, a discutir vocábulos em hebraico, mitologia grega e literatura internacional.
Steinbeck polvilhou este romance colossal de humanidade, de dúvidas existenciais. Importa-lhe menos a sociedade, a injustiça, e mais o indivíduo e os seus dilemas interiores. Neste romance debatem-se o bem e o mal, ao longo de três gerações da família Trask. O bem e o mal, anjos e demónios. Sempre à luz de algo intrinsecamente humano e fulcral: o livre-arbítrio.


Sublime, como só Steinbeck.
"- Sabes onde está o teu irmão? (...)- Não faço a menor ideia. Não me pagam para tomar conta dele." (A Leste do Paraíso)


Sinopse: Com acento bíblico, o grande autor de As Vinhas da Ira define o universo de A Leste do Paraíso através das seguintes inspiradas palavras: “O assunto é o mesmo que cada homem tem utilizado como tema: a existência, o equilibro, a batalha e a vitória, na eterna guerra entre a sabedoria e a ignorância, a luz e a treva, o bem e o mal.” A Leste do Paraíso, vasto fresco levantado a partir do relato da vida de várias gerações de duas famílias norte-americanas, os Trask e os Hamilton, num período crucial da história dos Estados Unidos (1860, Guerra da Secessão – 1920, anos imediatos à Primeira Grande Guerra), proporcionou ao malogrado James Dean talvez o mais importante papel da sua carreira.


Classificação: 5/5*****

#240 VOLTAIRE, Cândido ou o Otimismo

Sinopse: Cândido ou o Otimismo é um conto filosófico de Voltaire, publicado pela primeira vez em Genebra em janeiro de 1759. A par de Zadig e Micromégas, é um dos escritos mais famosos de Voltaire, tendo sido reeditado vinte vezes em vida do autor.
O livro é pretensamente traduzido de uma obra alemã do Dr. Ralph, pseudónimo utilizado por Voltaire para evitar a censura.
No essencial, trata-se de uma crítica às teses do filósofo alemão Leibniz, convencido da excelência da criação divina, através dos princípios da «razão suficiente» e da «harmonia preestabelecida». Voltaire faz essa crítica através das aventuras de Cândido, um jovem alemão possuidor de um espírito simples e reto, nascido como filho ilegítimo no seio da nobreza e adotado pelo barão de Thunder-ten-Tronckh. É no castelo deste que vai ser educado por Pangloss, partidário, como Leibniz, de que «tudo está o melhor possível».
Depressa se torna evidente para os leitores o sarcasmo com que Voltaire trata não apenas as teses de Leibniz mas também o conservadorismo social e a nobreza arrogante.

Opinião: 
"(...) Encontraram um negro caído no chão, não tendo mais do que metade do vestuário, isto é, umas ceroulas de tecido azul. Faltava àquele pobre homem a perna esquerda e a mão direita.(...)
- (...) é o costume - disse o negro. - Por vestimenta dão-nos umas ceroulas duas vezes por ano. Quando trabalhamos nos engenhos de açúcar e a mó nos apanha o dedo, cortam-nos a mão; quando tentamos fugir, cortam-nos a perna. Incorri nestas duas situações. É por esse preço que os senhores comem açúcar na Europa."

Candide ou l'optimisme, publicado em 1759 por Monsieur Le Dr. Ralph, que afinal era Voltaire, que afinal é François-Marie Arouet, foi a maior surpresa literária da minha vida. Jamais tive ambições de ler "Voltaire", e até me senti muito vaidosa nestes dois (curtos) dias em que me passeei nos transportes públicos com esta bomba literária nas mãos. Comprei o livro porque o herói desta sátira, o ingénuo Cândido, desembarca em Lisboa e sofre um terramoto, e ando embrenhada nesse estudo dos terramotos em Lisboa. No fim das contas, o livro valeu por cada parágrafo, e o terramoto ou a estadia em Lisboa são uma pequena vírgula neste mar de reflexões.

É importante deixar claro que quando decidi lê-lo foi sobretudo porque é pequeno - em conteúdo tem 128 páginas -, e porque é um livrinho bonito, outra primorosa edição da Relógio d'Água, que nos últimos tempos tem-se tornado a minha editora de eleição. Assim sendo, a expectativa era zero, sobretudo tendo em conta que deixei as minhas últimas leituras penduradas - A Montanha MágicaO Homem do Castelo Alto e Quando Lisboa Tremeu.

Logo nas primeiras páginas, fui catapultada para a Vestefália e para o tom irónico, bem-humorado, o ritmo rápido, as situações inusitadas, as reações cândidas do nosso Cândido... Em breve surgem as hipocrisias, contradições e crueldades da sociedade do século XVIII, e nesse sentido é evidente que Voltaire fosse persona non grata em muitos círculos, como "libertador do espírito" que era. Voltaire, expondo Cândido às mais difíceis situações, parte da premissa defendida por Leibniz, seu adversário intelectual, de que no mundo tudo está bem, e tudo corre pelo melhor, e tudo é o melhor que pode ser (julgo que esta filosofia só convém ao poder, aristocrático e clerical, porque afasta o povo da contestação - e da consequente revolução, que estava ali ao virar da esquina). Este princípio, defendido pelo seu mestre Pangloss, por quem Cândido tem a maior admiração, é posto à prova nas viagens acidentadas do nosso herói, no decorrer das quais vai conhecendo todo o tipo de pessoas e se vai inteirando de que no mundo nada está bem, tudo poderia ser melhor.

Voltaire arriscou o pescoço ao expor a devassidão e a ganância dos clérigos, tão ou menos honestos do que os ladrões comuns, que mantém amantes e se batem por dinheiro e prestígio. Expôs a Inquisição, "na sua infinita crueldade", ridicularizou o costume de se fazerem autos-de-fé contra desgraças, ignorando a evidência de ser o auto-de-fé em si uma desgraça. As mulheres são objectificadas, violadas, cobiçadas e mantidas por homens desonestos, biltres sem honra nem moral. Em todas as realidades que percorre, a religião infecta o povo, escraviza-o, submete-o aos seus interesses e às suas lavagens cerebrais. O mundo, da Europa à América do Sul, está pejado de religiosos. Há jacobinos, oratorianos, jesuítas, franciscanos, e outros tantos que ele refere e que não chegaram ao nosso tempo, há também protestantes e muçulmanos, e todos se acham donos da verdade, e massacram os diferentes em nome do seu Deus.

Voltaire critica a escravatura e a opulência, o ócio e a malvadez, a presunção dos aristocratas e a crueldade dos costumes. A vida humana nada valia para os governos do século XVIII, que esquartejavam, queimavam, enforcavam, mutilavam, violavam e guilhotinavam o povo para que uma pequena elite mantivesse os seus privilégios.

Neste volume atreveu-se a demonstrar, por a + b, que somos todos iguais e que qualquer governo pode cair a qualquer instante. (Esta ideia tão simples abalava os alicerces do Absolutismo Régio, que estipulava que o rei era intocável e omnipotente, e que Deus o elegia para soberano de um povo. Estas ideias de que os reis são facilmente depostos despoletavam a cólera dos monarcas, e terão granjeado a Voltaire uma horda de inimigos.) Diria que o povo é quem mais ordena e, como pilar do Estado, chegava a hora de tomar as rédeas do seu destino, e de se libertar da tirania dos governos.

Acessível, divertido, pertinente, deliciosamente irónico.
Amei!

Classificação: 5/5*****

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

#233 STEINBECK, John, O Inverno do Nosso Descontentamento


"Now is the winter of our discontent;Made glorious summer by this sun of York"


Se considerar O Inverno do Nosso Descontentamento avulso, atribuir-lhe-ia um 5. À luz de outros trabalhos de Steinbeck, seria um 4 - falta-lhe a pujança e a pertinência de um As Vinhas da Ira, ou a espiritualidade de um A Um Deus Desconhecido, ou mesmo a nota de desconcerto final que nos deixa um Ratos e homens.
Na minha percepção, este é um romance mais contido, mais reflexivo e até mais pessoal. A sociedade está presente, as suas injustiças, hierarquias, vícios e manias. E, uma vez mais, estamos perante a narrativa de um homem honesto, de bom fundo, perante as vilezas que o rodeiam. Não é uma história de sobrevivência, como outras do autor, mas sim de ganância, de status social, e também de idoneidade. Declínio e ascensão na sociedade é o que molda e o que move Ethan Allen Hawley e a sua pequena família, no seio de uma cidade fictícia que o autor inventou para urdir o seu enredo.
Acompanhamos, ao longo das cerca de 300 páginas, a decadência moral que tem lugar por detrás das fachadas de New Baytown, que mina a política e a autoridade local. E Steinbeck presenteia-nos com uma personagem principal complexa, multidimensional, cujas ações nos surpreendem e nos chocam, sem que nunca deixem de nos importar.
Mais um romance de excelência daquele que se tem consagrado como o meu autor favorito, a par com o grandioso Somerset Maugham.

Sinopse: O Inverno do Nosso Descontentamento, o último romance que Steinbeck publicou, em 1961, é dominado pelos temas sociais, que conferiram à obra do autor uma unânime ressonância internacional.
O núcleo do romance é o dinheiro, a hipocrisia e os falsos valores, a crítica serena mas implacável às engrenagens de uma sociedade que mutila o homem no que ele tem de mais autêntico.
Na ponta final da sua carreira literária, John Steinbeck reencontra o fulgor de As Vinhas da Ira, o seu romance mais famoso, galardoado em 1940 com o Prémio Pulitzer

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

#228 NABOKOV, Vladimir, Lolita

Opinião: Este livro é um daqueles que se pega à pele de quem o lê e assim segue, vida afora. Não me esquecerei da mente conspurcada do Humbert, a ousadia da Lolita e o ambiente doentio que é proporcionado por estas duas pessoas, tão retorcidas, tão marcadas pelo pior da natureza humana. Foi a primeira vez que dei por mim dentro da cabeça do vilão e, consequentemente, surpreendi-me ao desejar que os seus planos se concretizarem sem embaraços. Alguma magia o Nabokov dedicou a este "Lolita"

Classificação: 5*****

Sinopse: «Quase quarenta anos depois, este romance tão artificial criou uma nova palavra internacional ("lolita"), inventou uma América — a dos motéis e autoestradas — de que se nutre ainda boa parte da narrativa americana contemporânea, é uma das obras com o inglês mais rico e preciso da literatura deste século e, ao contrário das acusações iniciais de pornografia que teve de sofrer, é talvez — e no que me diz respeito — o romance mais melancólico, elegante e lírico de quantos li.» [Javier Marías in Literatura e Fantasma]


«A única história de amor convincente do nosso século.»
[Vanity Fair]

«Nabokov escreve prosa do único modo que esta deve ser escrita, ou seja, extasiadamente.»
[John Updike]

quarta-feira, 24 de julho de 2019

#227 STORK, Francisco X., The Memory of Light

"This strange feeling of not belonging, this sense that every task, even the smallest one, is unpleasant and requires effort - this is how my days will be here."

This book pierced me in places I had forgotten about. I had forgotten that it is possible to forget how it's like to be you. Depression does that for people. Back in 2014, shortly after my cat disappeared and I moved into an apartment alone, I was stroke with depression. It wasn't my first, but it was the first time I named it that way, and it got pretty serious. It stood around until about 2016. Only in January 2016 did I quit medication and started feeling like myself again. Sorry for making the review sound personal, I'll eventually get to the part in which I praise kind and loving Francisco X. Stork, who was writing the book at the time, for having had the bravery to touch his own wounds and dig into these themes. Also, I am amazed at how someone who's lived through so much was capable of writing a novel with this voice - such purity in his view of the world that I almost forgot it wasn't a teenager, but an experienced writer and gentleman, the hand behind it. Thank you, Francisco, for throwing this rope to young people, and to explaining so well that having a mental disease is like living life in the hard mode, with everyone telling you that they'd enjoy it better than you. And that the world isn't so awful, maybe your brain is forcing to see it through the goggles of depression.

"The brokeness out there seems so much greater than the strenght and life given to us."

So, back to my experience with depression, to which I've been open about in the past... I didn't know the nature of that sadness when I was 18, but somehow I was able to reset my mind and produce happy thoughts, listened to joyful songs, moved on from what was holding me to the ground. In 2014 I was firstly hurt by the disappearance of my cat. You might say it was just a cat, but pets are never just animals, and you put your heart, your responsibility, sometimes the love you're not able to share with others into the care of that little creature. And the world is cruel and takes it away with no warning. Then I found myself alone after growing up in a house full of people and noise, without a care in the world for the first time ever. And the weight of the world started to lean on my shoulders and my chest. Anxiety, later on panic attacks. Not being able of keeping the tears from falling in public places, for instance. First I'd cry once a week, only at things that would cause me pain. Soon even beauty, besides animal cruelty, ignorance, prejudice, bad weather, everything would be an excuse to cry. I lost the ability of controlling the tears; they were there several times a week, then every day. Weekends alone were dreadful. My friends were way too young and focused in their own lives - as you should be when you're 23 - to fully acknowledge my aching. And yet some of them managed to understand the seriousness of it and to help me out. 

"Is it possible to be loved and not to feel loved? Isn't love supposed to be felt by the beloved?"

Taking medication wasn't easy. It put me to sleep all day long. I could've lost my friends, my job, the support from my family, for I wasn't me anymore. Everything bothered me or left me upset or made me cry. People said they felt like they weren't allowed to smile or express happiness next to me. I reached rock-bottom, and them climbed all the way back up through months of apathy, tiredness, sleepiness and dizziness from the medication. I had to face the prejudice of going to see a Psychiatrist - everybody was telling me good thoughts and keeping busy would solve it for me. I should stay away from 'taking chemicals". My loved ones made me feel like I was damaged. They didn't realize it this way. You see, besides depression there was anxiety and panic attacks. These last two are kind of hard to ignore, or to fight off with happy thoughts. Right as I write this review, the fire of anxiety is burning in my chest. It's like my lungs can't catch enough air. I'm at peace. Got nowhere else to go. The room is fresh and the book I just finished was good. But the fisiology in me is full alert mode, sirens' on, telling me to rush, to run, to worry. It's also taking my breath away.
Don't expect happy twists and endings. When you have a mental disease, I agree you see the world from a different angle. Maybe you feel things more deeply, all the way down to the layer of your skin where it starts to hurt. Maybe you feel lonely and not fully understood. People who you love will address to you as if somehow this is a weakness of yours, a choice, a trait of softness. As if it is your responsibility that you feel this way. They won't want to hear it, because they believe speaking of it summons the thing with more intensity. Ignore it and it'll go away, as if to say. 

People will surely let you down, because no one is prepared to deal with others acting against what's normal due to mental illness or limitations. No one is ready to see you acting as being other than you. But one thing this book also reminded me, and I needed this reminder: depression may be chemical, physical, physiological, mental, and clinical. But the environment you're in is always - I guess - a trigger to it. The way the author wrapped Vicky's reality shows it pretty well. It's the hidden things, the silenced things; non processed pain, feelings, suppressed will and going against yourself that will possibly get you ill. Vicky was a sensitive girl in a toxic environment, and it doesn't require domestic violence, or poverty, or starvation and filth for once to feel like there's a toxic fog around her.

She was frustrated, silenced; she had given up on explaining herself or being heard and understood. She felt lonely and awkward in her circumstances, in her own home. You can't feel alienated from your relatives, your own space, and not become somehow ill. Also, the pressure I believe to be an American thing - such competition from such young age... I mean, what for? What's made of cooperation? It sounds sick to me that a parent would see financial success and prosperity as the only way to grant his children happiness. That's not even a need... A need would be love and care. I relate to Vicky, for I'd never survive with a sane mind in a society which expects me to compete with others at all times.
This is a novel about friendship and overcoming monumental obstacles - obstacles that only you aknowledge. About the little things you can do to help others. About the absolute necessity of making yourself clear and listen to others. Maybe that's all they need: that someone else stops pushing their idea of happiness and health on them, so that they can foresee a future and a happiness of their own.

So thank you, Francisco. You trully are a gentle soul. I'll write you an e-mail telling you what's so special about having finished this book today.

It's a 5 out of 5.

Synopsys: 16-year-old Vicky Cruz wakes up in a hospital's mental ward after a failed suicide attempt. Now she must find a path to recovery - and perhaps rescue some others along the way.


When Vicky Cruz wakes up in the Lakeview Hospital Mental Disorders ward, she knows one thing: After her suicide attempt, she shouldn't be alive. But then she meets Mona, the live wire; Gabriel, the saint; E.M., always angry; and Dr. Desai, a quiet force. With stories and honesty, kindness and hard work, they push her to reconsider her life before Lakeview, and offer her an acceptance she's never had. 

But Vicky's newfound peace is as fragile as the roses that grow around the hospital. And when a crisis forces the group to split up, sending Vick back to the life that drove her to suicide, she must try to find her own courage and strength. She may not have them. She doesn't know. 

Inspired in part by the author's own experience with depression, The Memory of Light is the rare young adult novel that focuses not on the events leading up to a suicide attempt, but the recovery from one - about living when life doesn't seem worth it, and how we go on anyway.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

#224 STEPHENS, Henry Morse, Portugal - A História de Uma Nação

Sinopse: «A nação portuguesa é um produto da sua História: isto dá à História de Portugal um valor eminente». É assim que Henry Morse Stephens, docente da Universidade da Califórnia, começa esta obra notável, que em muito contribui para trazer ao conhecimento comum diversos acontecimentos até agora desconhecidos da História de Portugal. Abrange a instauração da nacionalidade, a consolidação do território e da independência, atravessa o período heroico dos Descobrimentos e a criação de um império global, as navegações em África, na Índia, no Próximo Oriente e no Brasil, e culmina no período de declínio, que começa na fatídica batalha de Alcácer Quibir e se prolonga mais ou menos até aos nossos dias, iluminado aqui e ali com alguns lampejos de uma glória fugaz.

Na primeira fase, aliou-se uma força combatente a uma sabedoria administrativa e um tato de governo que granjearam o respeito de toda a Europa. Na segunda, a dos Descobrimentos, a visão estratégica dos principais dirigentes do reino e o insuperável heroísmo dos navegadores trouxeram glória e poder à alma lusa. Finalmente, com a perda da independência e as respetivas consequências, Portugal entra na fase mais negra da sua História. Este é um livro essencial para entender o contexto e os acontecimentos que conferiram ao reino uma individualidade e uma existência nacionais de que justamente se orgulha e para vislumbrar como conseguiu um país tão pequeno erguer o primeiro império global da História.

Opinião: Henry Morse Stephens ilustra, em 308 páginas, como se formou o Reino de Portugal (desde a época em que éramos retalhos na Hispânia), até à falência da monarquia com D. Carlos. Atravessa a fundação do país, escolhendo com tacto os pormenores pertinentes para a construção de um ponto de vista: o de que Portugal, sustentado por um senso de nacionalidade/patriotismo precoce na Europa e no Mundo, é levado pelo povo através dos séculos sem nunca abdicar da sua independência. Mesmo quando interesses de nobres, clero, realeza, comerciantes e soldados se incompatibilizam com a soberania do país, o povo insurgiu-se para manter a sua nacionalidade ao abrigo de outros interesses. E também que Portugal foi, no século XVI, a nação mais rica e poderosa de Europa, e que o restante continente se ia movendo na sua retaguarda. Como o meu curso de Informação Turística me levou a conhecer, ao pormenor, a significância dos grandes monumentos do país (como os Mosteiros de Alcobaça e da Batalha), e ainda a sua História em todos os períodos áureos e de declínio, bem como o modo como tocámos em quase todos os continentes e nações no planeta, considero-me patriota. Ler um livro que expõe, de forma tão concisa e acessível a grandiosidade da odisseia dos Portugueses, nunca poderia resultar em desilusão! 

Classificação: 5/5*****

terça-feira, 7 de maio de 2019

#217 STEINBECK, John, Ratos e Homens

Sinopse: George e Lennie vagueiam de herdade em herdade na Califórnia da Grande Depressão, numa sobrevivência sustentada por trabalhos episódicos. Mas os dois amigos têm um plano: vão juntar o suficiente para comprar um bocado de terra com uma casinha e aí poderão viver tranquilamente e dedicar-se à criação de coelhos.

George é pequeno e vivo, e é ele quem toma as decisões; Lennie é um gigante simpático, mas tem dificuldade em lembrar-se das coisas e em medir a sua força excecional. Quando arranjam trabalho a carregar cevada numa herdade junto ao rio Salinas, George e Lennie veem o seu sonho aproximar-se a passos largos da concretização - até que a mulher do patrão entra em cena.

Considerado um dos mais importantes romances de John Steinbeck, publicado originalmente em 1937 e várias vezes adaptado ao teatro e ao cinema, Ratos e Homens é uma história sobre amizade, sobre dignidade e sacrifício, mas também uma parábola implacável sobre o ruir do sonho americano.

Opinião:
description
Imagem da adaptação cinematográfica de 1992
"(…) Eu estava a falar de mim. Uma pessoa fica aqui sentada de noite, a ler livros, ou a pensar, ou qualquer coisa assim… Às vezes, ficamos a pensar e não temos ninguém que diga sim ou não. Quando vemos alguma coisa, não sabemos se está certo ou errado. Não podemos perguntar a alguém se viu também. Não podemos falar. Não temos com quem discutir. Tenho visto muitas coisas aqui. E eu não estava bêbedo. Não sei se estava a dormir… Se tivesse um companheiro comigo, ele podia dizer se eu estava a dormir, e tudo ficava bem. Mas não sei…"

Ratos e Homens, título que me parece genial neste contexto, é uma novela de John Steinbeck, publicada em 1937. Narra os piores anos da depressão americana, quando o sonho americano fugia ao alcance de todos e os país se ia transformando num terreno lamacento de degenerados e desvalidos (para não dizer falidos e endividados). É o quarto livro que leio de Steinbeck, e a segunda novela depois de A Pérola. Apesar de os temas nos seus escritos me parecerem terem uma consciência comum – que se interessa pelas condições de vida dos desfavorecidos, pelas suas aspirações e dificuldades –, Steinbeck consegue sempre surpreender a cada narrativa. 

Esta novela conta a história da amizade improvável entre George, um homem simples habituado a desenvencilhar-se, e Lennie, um grandalhão com um evidente e embaraçoso défice cognitivo. Os dois homens vão fazendo a sua vida de herdade em herdade, nas colheitas e na lavra, ou em qualquer tipo de trabalho braçal que pague. É assim que chegam a uma nova herdade e são introduzidos a outros homens, com outro tipo de problemas, que acarinham sonhos semelhantes de terra e de estabilidade. É angustiante entender como era dura a vida na América dos anos 30, e Steinbeck retrata-o com recurso a uma mulher de moralidade duvidosa, que recorre a exageros de vaidade para colmatar as falhas afetivas, a um negro de costas tortas que se queixa do isolamento a que está votado, e que receia os dias em que não mais será capaz de exercer nenhum tipo de trabalho, e a Candy, um velho que vai fazendo trabalhos domésticos na quinta, e que receia ser posto na rua quando não tiver mais utilidade.

A essência do livro, neste pano de fundo decadente, é a amizade e cooperação entre George e Lennie, que acabei por não entender muito bem como nasceu, mas que Steinbeck talhou para ser inquebrável, mesmo perante a maior das provações.

Lê-se rápido e acrescenta muito. 
Livro a livro, J. Steinbeck vai-se consagrando como o meu autor favorito, a par com W. Somerset Maugham.


Classificação: 5*****/5

terça-feira, 30 de abril de 2019

#216 MÁRQUEZ, Gabriel García, Cem Anos de Solidão

Opinião: Gabriel Garcia Márquez publicou aquilo que só pode ser a obra-prima da literatura em língua castelhana em 1967, quando tinha apenas 40 anos. Calculou que lhe bastassem 6 meses a escrever todas as manhãs para o terminar, mas na verdade demorou 18 meses a completá-lo. Segundo o próprio, a inquietação mais premente da sua vida durante esse tempo foi a possibilidade de que lhe acabasse o papel para a máquina de escrever. A cada erro de grafia, destruía a folha e recomeçava de novo. Ao descer do autocarro com a versão final do manuscrito, a editora tropeçou e as folhas caíram numa poça e ficaram expostas à chuva. Foram posteriormente secas com ajuda de um ferro de engomar, e o autor só veio a sabê-lo muitos anos depois. Também conta o próprio que, ao enviá-lo para um editor na Argentina, só tinha fundos para pagar o envio de metade do manuscrito, pelo que o dividou. Ainda por cima, enganou-se e enviou apenas a segunda parte, no lugar da primeira. Acabou por ser o editor, provavelmente assombrado por esta jóia rara, que custeou o envio do início, para assim entender como começa a odisseia dos Buendía. Isto é apenas um pouco do misticismo em torno de Cem Anos de Solidão e do punho do génio das letras que lhe trouxe vida. Porque, ao terminar de ler esta maravilha – no sentido mais literal “de maravilha” –, só posso concluir que o autor era um génio. 

descriptionRevisitei as poucas entrevistas na sua voz no Youtube, e é assim que descubro que o autor se sentou diante da máquina de escrever com uma única frase na ideia, e sem saber onde é que a mesma poderia levá-lo. 

”Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo. ”


Esta frase levou a que o seu romance fosse traduzido em todas as línguas, e resultasse em mais de 50 milhões de cópias vendidas.


Que posso acrescentar a respeito deste magnífico romance?
Cem Anos de Solidão distorce o tempo e transforma Macondo - a povoação fictícia onde tudo se passa - no eixo de um furacão onde tudo sucede em círculos, e onde os males de uma família parecem ser quase uma alegoria para a história de uma humanidade supersticiosa, espiritual, mágica, sem tempo e finita. O que mais me surpreendeu na narrativa não foi tanto o realismo mágico que já havia experimentado, embora em doses menores, em O Amor nos Tempos de Cólera e Crónica de uma Morte Anunciada, mas sim o fulgor e a vitalidade com que cada página é entregue ao leitor, como se tudo tivesse sido escrito a um mesmo ritmo, num mesmo fôlego. Chegar ao fim da leitura é como perder esse fôlego. Primeiro flutuei, depois pareceu que dava cambalhotas, que trazia ao meu redor as borboletas amarelas que acompanhavam Mauricio Babilonia, ou que tinha a casa infestada de formigas-vermelhas, e continuou a cheirar-me aos orégãos do quintal dos Buendía durante um bocado, e talvez todas essas impressões só me abandonem daqui a muito tempo. Qualquer página a que regresse tem o peso da narrativa e a solidez das emoções, e qualquer capítulo, ainda que despregado de tudo o resto, é dos melhores jamais escritos, pelo menos que pelos meus olhos tenha passado.

Considero este livro uma obra de lucidez maior e de talento quase sobrenatural. Um caso nítido em que o homem supera a sua própria condição de mero mortal e se eleva. Uma ode aos costumes caribeños, a uma latitude algo negligenciada, a tempos idos eternizados por estas páginas sem tempo, em que tudo vai acontecendo, mas depois parece retroceder. É sublime o modo como o autor mexeu com as ânsias e as emoções humanas, como que universalizando-as de modo transversal ao longo do globo e da História, ou como jogou com a memória humana e as suas partidas. E a imaginação que vai sobejando de geração para geração, ao longo de sete desafortunados desníveis de Buendías, é a verdadeira matéria-prima da obra. 

Pergunto-me como é que um simples homem, em 18 meses, conseguiu engendrar tanta tropelia, tanto traço genuíno e distintivo, por entre os vícios e as semelhanças dos Aurelianos e dos Jose Arcadios, de modo a que a maravilha que acompanha toda a leitura renasça e nos surpreenda a cada nova geração. E o papel da Mulher, nesta obra de há 50 anos, é de uma perspicácia e de uma honestidade incríveis. É de uma sensibilidade magnífica o modo como um autor assume, sem melindres, que a Mulher, e em especial uma mulher – Úrsula – pode ser a mais clarividente das criaturas, e também a mais equilibrada naquela “casa de loucos”.
Sem dúvida, dos livros que ficam e que mudam a compreensão da literatura e da capacidade do Homem, sobretudo a do homem de 40 anos! - e que é possível que continue a ser lido e relido até ao final dos tempos.

Classificação: 5/5*****


Sinopse: Esta é a história da família Buendia, de Aurelianos e Josés Arcadios, geração após geração, de milagres e fantasias,de paixões e adultérios, descobertas e tragédias, de mortes e mortos, de histórias e histórias... e de muitas vidas, tantas quantas as línguas em que este romance já foi traduzido. O realismo mágico na pena de um dos maiores escritores do nosso tempo!

segunda-feira, 1 de abril de 2019

#213 SARAMAGO, José, Caim



Sinopse: Neste novo romance, o vencedor do prêmio Nobel José Saramago reconta episódios bíblicos do Velho Testamento sob o ponto de vista de Caim, que, depois de assassinar seu irmão, trava um incomum acordo com deus e parte numa jornada que o levará do jardim do Éden aos mais recônditos confins da criação.


Se, em O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago nos deu sua visão do Novo Testamento, neste Caim ele se volta aos primeiros livros da Bíblia, do Éden ao dilúvio, imprimindo ao Antigo Testamento a música e o humor refinado que marcam sua obra. Num itinerário heterodoxo, Saramago percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha, conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e de certo modo involuntária, entre criador e criatura. No trajeto, o leitor revisitará episódios bíblicos conhecidos, mas sob uma perspectiva inteiramente diferente.

Para atravessar esse caminho árido, um deus às turras com a própria administração colocará Caim, assassino do irmão Abel e primogênito de Adão e Eva, num altivo jegue, e caberá à dupla encontrar o rumo entre as armadilhas do tempo que insistem em atraí-los. A Caim, que leva a marca do senhor na testa e portanto está protegido das iniquidades do homem, resta aceitar o destino amargo e compactuar com o criador, a quem não reserva o melhor dos julgamentos. Tal como o diabo de O Evangelho, o deus que o leitor encontra aqui não é o habitual dos sermões: ao reinventar o Antigo Testamento, Saramago recria também seus principais protagonistas, dando a eles uma roupagem ao mesmo tempo complexa e irônica, cujo tom de farsa da narrativa só faz por acentuar.

Opinião: Salvo erro, Caim é o último romance escrito e publicado em vida por José Saramago (2009). Lê-se em várias fontes que esta revisitação do Velho Testamento pelo primeiro assassino da humanidade – Caim – é mordaz, provocadora, e que portanto irritou bastante os católicos. Diria, tendo em conta que o Velho Testamento é praticamente a Torá, que deve ter irritado igualmente os judeus. Já o vi acusado de antissemita aqui e ali. Pela minha experiência, uma crítica à religião/cultura judaica/feitos do estado Israelita resulta sempre, para os judeus, como antissemitismo. Talvez antissemitismo para o judeu signifique “ato de criticar um pormenor da cultura judaica”, depois extrapolado para “ódio aos judeus em geral”. 

Saramago era um homem clarividente quanto a deus, e um idealista político. Podemos, ou não, discordar das suas crenças, mas não há como não admitir que dispunha delas de modo coerente. Era um bom argumentador, via o mundo do seu jeito simples e por essas ideias se regia. Não há como não admirar um homem que é fiel às suas crenças, sobretudo quando estas se alinham do lado da humanidade e contra a barbárie – neste caso, contra as fábulas grotescas do Velho Testamento. 

Adorei o livro. Adorei-o por ser agnóstica, adorei-o por compartilhar destes mesmos princípios e deste mesmo horror para com a vileza e a brutalidade. Ri-me, mas, acima de tudo, adorei a viagem. Adorei as imagens, o ângulo que Saramago me emprestou, a partir do qual pude analisar tudo com certa fanfarronice. 

Em “Caim”, Saramago visita o Génesis, introduz-nos a um deus caprichoso e incongruente, ciumento e invejoso, e não se coíbe de assim o denominar. A partir da expulsão de Adão e Eva do paraíso, o autor leva-nos aos seus três filhos, Abel, Caim e Set, e à responsabilidade do todo-poderoso no assassinato de Abel. Marcado na testa e condenado a vaguear pela Terra recém-criada, Caim atravessa os muitos contrassensos do Velho Testamento, e Saramago dá voz a um fratricida, para que este julgue as ações de um ser dito inquestionável. Pasme-se o leitor a cada vez que Caim, que tão friamente assassinou o irmão com uma queixada de jumento, se horroriza com os desmandos do senhor. Montado num jumento, viaja de tempo em tempo, de cidade bíblica em cidade bíblica. É assim que vamos às terras de Nod, à Torre de Babel, e é também assim que assistimos à destruição de Jericó, à desgraça de Job e ao dilúvio que extermina a primeira humanidade.

O Deus do Velho Testamento é cruel, mimado e parece-me terrivelmente enfadado com a sua própria criação. Saramago, valendo-se da sua genialidade, ousadia, e de um humor irónico delicioso, atreve-se a mostrar-nos isso mesmo em “Caim”. Não há como negar essa malvadez que o autor se limita a realçar e a comentar. 

Uma leitura rápida, apesar do estilo à la Saramago. Pareceu-me que, por fim, já falo a sua língua sem dificuldade. Outra viagem prazerosa e que apela a excelentes reflexões, pelo punho do único Nobel de literatura português. Aconselho vivamente!

”O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede (…). O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim.”

Classificação: 5***** 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

#207 STEINBECK, John, A Um Deus Desconhecido


Sinopse: As antigas crenças pagãs, as grandes epopeias gregas e os relatos da Bíblia servem de base a este romance extraordinário, que Steinbeck demorou cinco longos anos a escrever. Ao dar cumprimento àquele que sempre fora um dos grandes desejos do pai, criar uma quinta próspera na Califórnia, Joseph Wayne acaba por vir a acreditar que uma das mais belas árvores dessa quinta incorporou o espírito do seu progenitor. Os irmãos e respectivas famílias, que foram viver com ele, beneficiam dos êxitos e da prosperidade de Joseph, e a quinta vai-se de facto desenvolvendo – até um dos irmãos, assustado pelas suas crenças pagãs, decidir cortar a árvore, o que faz com que a doença e a fome se abatam de súbito sobre todos eles. A um Deus Desconhecido (1933) é um romance quase místico, que tem por tema central o modo como os homens tentam controlar as forças da natureza, e ao mesmo tempo compreender a sua relação com Deus e com o inconsciente. 

Opinião: "A Um Deus Desconhecido" é a minha estreia com Steinbeck. Tinha uma edição antiga de As Vinhas da Ira, mas lembro-me de começar a ler e de ficar perdida em tanta descrição. A descrição é, precisamente, aquilo que me prendeu de modo tão eficaz a este livro. O título é delicioso, e o livro dança em redor da sua simbologia com uma graciosidade admirável. 

O enredo é relativamente simples: estão a dar terras na costa Este e Joseph Wayne, que sempre sonhou em possuir algo de seu, despede-se do pai, quase um moribundo, e parte. Contudo o livro está prenhe de emotividade, de intuição e de superstição, e creio que a personagem principal não se perdoa por ter partido de modo tão impaciente, quando o seu modelo, o pai, lhe garante que pouco falta para morrer, e que então poderia acompanhá-lo em espírito até ao seu novo lar. 
O novo território é quase selvagem, e Steinbeck descreve-o de modo a que nos chega aos sentidos o perfume dos loureiros, da terra húmida, do pêlo das vacas e dos cavalos, enquanto a audição acompanha os cascos das bestas em trote, os cursos de água em confronto com as pedras, o uivo dos coiotes, a porta do celeiro que range. Em termos de cenário, o livro é a quatro dimensões.

Surpreendeu-me também a profunda humanidade em cada reacção destas pessoas, porque, em breve, ao dar notícias da sua prosperidade aos irmãos, Burton e a esposa, Jennie, e Thomas e a respectiva, Rama, juntam-se-lhes com a sua horda de filhos. Joseph é o que nos oferece mais camadas, é uma mescla de aceitação, entusiasmo, desalento, espiritualidade e depois desalento. Tudo de modo homogéneo, apesar de q sua vida estar ligada à da sua terra, aceita com facilidade as crenças dos outros e entende-as. Ao contrário dos que o rodeiam, que se melindram com os diferentes. 
Joseph ama e respeita a terra, comprometendo-se a protegê-la de qualquer ameaça - que, para o efeito, são os anos de seca cíclicos, narrados com dissabor pelos homens da população local, Nuestra Señora. Andam por ali índios, portugueses e mexicanos. Os primeiros têm crenças ligadas aos ritos da terra: sacrifícios, danças e oferendas, clareiras sagradas onde grandes rochedos cobertos de musgo convidam as grávidas à reflexão. Os segundos e os terceiros são profundamente católicos, e devem ao Padre Ângelo a sua salvação espiritual. O clã Wayne é protestante, pelo que Burton, o mais religioso dos irmãos, se sente desenraizado naquela terra, que desde o início lhe parece herege e devota ao demónio. Por outro lado, Thomas, mais rude, tem uma relação única com os animais. Respeita-os, domestica-os, inflinge-lhes a dor e a morte como se a sua alma fosse uma só com a deles. Não é tão reflexivo quanto Joseph, mas é igualmente introspectivo e de valores profundos. É o irmão cuja religiosidade é conservadora, mas a mente alcança um pouco além das escrituras. 

E depois Joseph, que, no ímpeto de se ver feliz e perante uma tal promessa de prosperidade, olha em redor e vê os animais a reproduzirem-se, a natureza em êxtase, o sol e as chuvas em harmonia, e convence-se que tanta bonança advém da bênção do seu pai, cujo espírito estaria presente nos ramos de um velho carvalho. Junto do carvalho busca conselho, regressando sempre que necessita de partilhar algo que, aos outros, poderia soar ridículo. Entende-se assim como a espiritualidade é algo de íntimo, e que se a sua vantagem é a de nos fazer sentir bem com o mundo, então os seus ritos não devem ser impostos a quem nos rodeia. Entende-se também quão destabilizador é, que alguém nos rache as crenças ao meio, só porque lhe parece desenxabidas. Joseph, de bem consigo mesmo, acaba inclusive por permitir que se celebre uma festa em honra da fertilidade do local, para a qual convida o padre Ângelo, que celebra missa e traz as imagens de Nossa Senhora e de Cristo para o altar improvisado. Isto transtorna o seu irmão Burton, que profetiza que toda aquela idolatria e paganismo acabarão por levá-los à desgraça. Na minha óptica, Burton tem receio. Crê num Deus vingativo e colérico, pouco tolerante, e sente que o irmão está a expô-los a todos a um castigo imerecido.

A morte de um humano é um processo longo e demorado. Matamos uma vaca, e a mesma está morta assim que a carne seja comida, mas a vida de um homem morre como uma comoção numa poça tranquila, em pequenas ondas, expandindo-se e regressando à imobilidade. 

A beleza da narrativa consiste nas descrições pueris da natureza, e de como a mesma ora é simples, ora é incompreensível. Mas reside, sobretudo, no modo como o universo significa coisas tão diferentes para cada personagem, e cada um é devoto àquilo que o tranquiliza, sendo que Joseph precisa da árvore para se sentir seguro, Thomas dos animais e Burton das escrituras e dos acampamentos religiosos. Há ainda quem precisa de se cobrir de peles de animais para ir festejar as chuvas, e se rebole na lama para o mesmo efeito. E depois há quem sinta que deve sacrificar a cada pôr do sol uma criatura diferente, para que na sua terra se multipliquem as sementes e a humidade a mantenha fértil. Deus é algo diferente para cada um deles, e a incompreensão por parte dos outros lança sombras sobre a existência de cada um. 

A ideia geral - e que corroboro - é que Deus é uma entidade pessoal para cada um de nós, e podemos encontrá-lo naquilo que nos traz conforto e paz, sem que exista uma explicação lógica. Um belo tratado sobre tolerância religiosa, numa altura em que o diferente voltou a significar ameaça. Se formos capazes de reconhecer a intimidade premente entre cada um e o universo, talvez o bem-estar espiritual chegue a todos.
Um elogio ainda ao evidente carácter intemporal do livro, escrito em 1933 e tão contemporâneo, bem como à feminilidade que brota desta natureza em esplendor, e à ternura e entendimento entre os homens de Steinbeck e a mulher amada. 
Mal posso esperar por voltar a ler o autor.

Classificação: 5/5*****

quinta-feira, 7 de junho de 2018

#196 STEINBECK, John, As Vinhas da Ira

"The Grapes of Wrath became the best-selling book of 1939, selling almost half a million copies (at $2.75 a copy) in the first year of publication alone. In 1940, the novel also won the Pulitzer prize for fiction, and would subsequently be taught in schools and colleges across the United States."

As Vinhas da Ira é a obra-prima de John Steinbeck, publicada em Abril de 1939. É, também, um livro controverso, e o romance americano mais lido e comentado do séc. XX. A controvérsia é facilmente explicada: onde se fala de oprimidos, traça-se, com naturalidade, o perfil do opressor. E os opressores neste livro de monumental coragem e pertinência, eram a Associated Farmers of California, bem como os bancos e os grandes proprietários capitalistas. 

As palavras chave que acompanham a narrativa, ou qualquer artigo que se aceda a propósito deste vencedor de um Pulitzer em 1940, com meio milhão de cópias vendidas só no ano do seu lançamento, são dignidade, perseverança, pobreza. Algures, numa sinopse, li algo como “Um romance sobre gente decente em condições intoleráveis”. Pensemos que é a época da Grande Depressão e um pré-II Guerra Mundial, o mundo está tenso e a economia quebrada. Há teorias académicas sobre superioridade da raça, sobre eugenia. Em 1932, Erskine Caldwell publicara A Estrada do Tabaco que, a meu ver, é a sua perspectiva sobre a indignidade da população pobre, ignorante, suja. Como se não bastasse, dá-se ainda o fenómeno ecológico Dust Bowls, são os Dirty Thirties e formam-se tempestades de poeira sobre o centro dos Estados Unidos, afectando as colheitas dos estados do Oaklahoma, Kansas, Texas e Arizona. Estima-se que, na década de trinta e até 1939, 116 mil famílias (cada uma possivelmente numerosa), se tenha deslocado das Grandes Planícies para a Califórnia, para escapar à seca, às tempestades de poeira e à pneumonia e outros males causados por essa circunstância. Fugiam também à fome, porque os bancos e grandes proprietários vieram cobrar hipotecas de gente endividada após uma década de dificuldades, e arrasaram-lhes as casas com tractores.
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"Se me não dissessem que devia ir-me embora, era provável que eu, a estas horas, estivesse na Califórnia, a papar uvas e a descascar uma laranja quando me apetecesse. Mas, mandarem-me embora estes filhos da mãe, isso não, por Jesus. Um homem como eu não se submete assim."


As Vinhas da Ira conta a saga da família Joad que, após alguns meses na estrada, se mescla por completo com os outros Okies (o modo desdenhoso como os Californianos vão recebendo cada vez mais e mais destituídos). Acompanhamos a família dos seus vários prismas. Primeiro, do ponto de vista individual, o foco principal incide sobre o jovem Tom Joad. Os contornos de cada membro da família Joad são muito nítidos, muito consistentes, e Tom é um tipo tranquilo, malgrado ter acabado de cumprir pena por homicídio. Regressa a casa sem fazer ideia de como a situação se agravou para toda a família (todo o Estado) durante a sua ausência. Steinbeck dá-nos assim a oportunidade de analisar a devastação do seu mundo pelos seus olhos de retornado. À poeira junta-se o oportunismo, e a comunidade está de cabeça para baixo, dividida entre executores de dívidas e executados. O crédito sufoca-os também. À passagem do tractor, nada fica de pé. A família carrega então a sua velha camioneta com os pertences que consideram necessários, e partem de Sallisaw, como todas as outras, rumo a Oeste.
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Não demora muito para que os Joads se dêem conta de que percorrem a Estrada 66 à semelhança de centenas de outros veículos vergados sob o peso da carga de uma vida inteira, e que vão tolhidos pela mesma necessidade de água, comida e trabalho. 

"A 66 é o caminho de um povo em fuga."


O que é de louvar é o modo como os Joad nem por um instante perdem a dignidade. Ou mesmo a generosidade, o companheirismo. Damo-nos conta do papel de amparo de um país, das suas leis. Do modo como a economia se isola de tudo isso, de como o capitalismo, por vezes tão associado à verdadeira essência da América, também causou gravíssimos danos colaterais nalguns momentos da História. Num país já adverso ao comunismo, torna-se evidente, nas linhas de Steinbeck, a necessidade da greve, da união e da subversão para a conquista de direitos básicos e inalienáveis. A etiqueta de vermelhos recai sobre os homens que exigem nada mais do que trabalho digno, respeito. Homens que, apesar de se cavar sob eles o fosso da fome, das epidemias e do desconforto físico, resistem a entregar-se à pilhagem e ao crime. Homens que, enquanto podem, recusam a mendicidade.

Os alicerces da família, cujas intempéries parecem empenhadas em desmantelar, são sem dúvida Tom – o seu espírito vivaço, a sua tranquilidade e o seu crescente sentido de dever, e a Mãe. A Mãe é ela própria uma entidade. Um elo, a alma pulsante da família. Não consigo deixar de comparar esta mulher admirável às marionetes de Hemingway, e fica desde logo claro porque Steinbeck, na minha opinião, lhe é tão superior.
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O romance tem um senso épico, civilizacional. Não admira que se escrevam canções sobre ele (a melancólica/energética The Ghost of Tom Joad, em tantas versões distintas. Que se discuta na escola. Que tenha enfurecido os opressores e granjeado o apoio de Eleonor Roosevelt. Que tenha, de facto, impresso a etiqueta de vergonha nos tornozelos dos fazendeiros impiedosos da Califórnia que, perante a situação da quantidade de a oferta de mão-de-obra ser muito superior à oferta de lavoura, contribuíram para o colapso daqueles miseráveis que, como único pecado, tinham o facto de não ser proprietários nem ter o apoio do estado nem d’o Auxílio. É um Êxodo, de facto. Não pude deixar de compará-los ao povo Judeu, em marcha para fugir à escravidão e à brutalidade dos egípcios. Aqui é o povo das Grandes Planícies, pessoas que, de repente, se dão conta de que são um todo marchante, à beira de um abismo que não cessa de se aprofundar. E vão suportando, suportando, e a ira cresce. 


"Ele disse uma vez que tinha ido para o mato, à procura da própria alma, e que, por fim, descobrira que não tinha uma alma que fosse só dele. Disse que tinha unicamente uma pequena parte de uma alma enorme. E ele achava que não valia de nada andar por sítios desertos, porque aí, a tal pequena alma que ele tinha não servia para nada. Só tinha utilidade quando estava junto das outras com quem formava um todo. (...) Mas agora sei que um indivíduo solitário não tem préstimo nenhum."

Saliento ainda a prosa acessível de Steinbeck, embora, por vezes, o seu discurso, os seus diálogos, tenham contornos Bíblicos, místicos. Quando li A Um Deus Desconhecido, reconheci traços de Jesus na personagem principal. Aqui, com facilidade, podemos reconhecer um outro Jesus em êxodo, e uma Maria sofrida mas de pé, a segurar a família ao seu redor e contra o seio.



E o discurso transcendente, que nos deixa com a garganta apertada e a sensação de estarmos perante algo maior:


"Estarei em toda a parte, em qualquer sítio para onde a senhora se puser a olhar. Onde quer que se lute para que a gente com fome possa comer... eu estarei presente. Onde quer que a polícia estar a bater num tipo, eu estarei presente. (...) Estarei onde quer que vejam criaturas a gritar de raiva... e estarei onde as crianças sorriam porque têm fome, mas saibam que a ceia não tarda. E quando a nossa gente comer aquilo que plantar e morar nas casas que construir... então também estarei presente."

É-me evidente que um dia voltarei a lê-lo.
Classificação: 5*****

segunda-feira, 28 de maio de 2018

#190 Velho, Susana Amaro, As Últimas Linhas Destas Mãos

Sinopse: Depois da morte de Alice, a sua filha Teresa recebe uma herança que a deixa intrigada: um monte de cartas, algumas com tantos anos quanto ela, que contam uma história de amor que não sabe se é ou não real. Não conhece os lugares. Não reconhece as personagens. Não sabe, sequer, quem é a própria mãe e onde se encaixa naquele enredo.


Este amor em linhas vivido por Alice, de tão intenso, tão mordaz, tão vivo e tão presente vai abrindo espaços, alimen
tando dúvidas, resgatando culpas antigas e memórias apagadas.

Mas será ele suficiente para que Teresa possa, finalmente, perceber e perdoar a mãe? Poderão as últimas linhas de Alice ser mais fortes e enlaçar o que ela em vida não conseguiu prender?


Opinião: As Últimas Linhas Destas Mãos é o primeiro romance de Susana Amaro Velho, e conquistou-me desde as primeiras linhas. Apenas o baixei por causa da oferta da Coolbooks na semana passada, em que poderíamos baixar um e-book de modo gratuito. Não sendo fã do formato, ainda assim aproveitei para explorar um pouco o que anda a ser escrito em Portugal de momento, para além das intrigas políticas (e o Vaticano) e dos romances históricos que parecem em ebulição. Não posso negar, também, que o livro me recordou, de modo muito íntimo, o meu próprio O Funeral da Nossa Mãe. A premissa parece-me semelhante, e no entanto a abordagem é diferente. Limpa, clara, plena de vocabulário que enternece e embala. Contudo, a dor está lá: a de uma mulher e a de uma mãe ausente, que sofre, que ama, que segue morta em vida, apesar de constantemente reclamada pela maternidade que desertou.

Para mim, ler este livro foi regressar às páginas que escrevi há sete, oito anos. Ao sentimento de agonia constante que andava comigo pela rua. À atenta absorção de Big My Secret, da banda sonora de O Piano. Um amor enorme, que mata. E acrescentam-se aqui outros pormenores que me parecem quase íntimos, quase meus. A mãe que se retira do seu papel, e a irmã que o assume com mais ou menos dificuldade, por ex.

”Tentei que a vida seguisse normal sem ti, mas o abismo sugou-me primeiro as pernas, depois os braços, depois as mãos e até os dedos.”

O amor é uma coisa terrível. O amor que corrói porque não é correspondido, ou não floresce, ou não cura, é como um cancro.

Neste romance de estreia, a autora pegou nas perspectivas de várias personagens para elaborar um quadro familiar. Teresa destaca-se um pouco das restantes, porque parece ter sido, de todos os que têm voz, a que se recorda da outra face da mãe. A não-deprimida, a não-morta em vida. E porque a mãe parecia confiar nela, mais do que em qualquer outra pessoa, para confessar os motivos da sua amargura. Além de Teresa há o irmão mais novo, Henrique, o pai Sebastião, a tia Cristina e a solitária Alzira. Cada um com a sua personalidade marcada, o seu grau de conhecimento dos factos, o seu papel na história.

Alice, sempre ausente, excepto pelo seu próprio punho, é um vulto nítido, outrora luz, vivacidade, criatividade. De súbito caída em desgraça. A sua lucidez tem tanto de angustiante quanto de admirável, e a única conclusão possível é, de facto, a de que demasiado amor mata.

A narrativa é poética, multiplicam-se os substantivos; tinha saudades de um livro mais sobre o substantivo do que sobre o adjectivo. Reflectindo sobre isso, há pouquíssimos adjectivos no livro, o que só por si me transporta de quadro em quadro, de imagem em imagem, dando-me a oportunidade de catalogar cada borrão como bem entender. 

"Estava sentada no terraço a ler um livro e, de repente, todos os romances eram sobre ti. Todas as músicas do mundo eram sobre ti. Todas as histórias de amor o seriam. (...) Era viva, aí. Sumo de laranja natural. Torrada com mel. Livros. Fotografia. Jornalismo. Casa de campo. Mãe viúva. Guerra. Ultramar. Animais. Música. Pouco tempo. Muita vida (...)"

Um livro multidimensional, onde as personagens são palpáveis, os seus sentimentos extrapolam as páginas, os sentidos são estimulados pela mãe que cheira a arroz doce e a tia que cheira a cigarro, e o grande amor, que tem sinais nas costas, e Alice, que tem sardas no nariz. Magnificamente bem conseguido na simplicidade e coesão com que nos traz esta aflição, e com que retrata os tempos de luz e de esperança. Uma dicotomia cruel. Um retrato de família belo e inquietante, que transborda de emoção e que, sem dificuldades, nos leva à essência de cada personagem e de nós mesmos. Sobre a queda e sobre a superação. Uma escrita poética, que apetece sublinhar, tirar apontamentos. Dei por mim a repetir a mesma frase na cabeça, e a cada vez parecia-me mais bela, mais verdadeira. De uma modéstia desarmante. Isto sim, é a literatura a exacerbar a beleza de uma língua, com uns modos despretensiosos que lhe cai muito bem.

É um amor perpétuo, como a prisão. É como um crime passional, condenada que estou a viver com ele para sempre. Às vezes, o meu amor é hipocondríaco. Age como um doente terminal. Tem neuras, tem birras. Tem dores de barriga, de peito, de coração. É um amor tão grande que vive aqui dentro que, nos dias em que o diagrama me sobe ao pescoço, sinto um pânico de entrar em pânico. Fico na dualidade do que é gerir o amor e este tropel. Quanto mais mergulhamos no caos, mais amamos. Quanto mais intensos são os dias e as emoções, mais corremos o risco de nos estatelarmos de tão bambas que estão as pernas. O meu amor é assim. Confuso e perfeito aos meus olhos. Caminha em bicos de pés, por vezes. Noutras, corta-se em estilhaços de vidro.” 

Se procuram uma nova autora portuguesa com um talento ímpar, estejam atentos a esta.

Classificação: 5/5*****

quarta-feira, 24 de maio de 2017

#183 MCNAUGHT, Judith, Lembras-te de mim?

Opinião: Amei este livro, sobretudo o tecido familiar da Diana Foster, a personagem principal, e a delicadeza das expectativas e das suas acções dentro desse círculo. Não me é fácil simpatizar com uma protagonista, mas isso geralmente acontece com a mesma é uma mistura de força e fragilidade. Também apreciei muito as partes em que a autora nos permitia ver vislumbres do passado da reservada Diana e do rapaz que ajudava o seu pai nas cavalariças enquanto estudava. Gostei do desenvolvimento da relação dos dois, foi ternurento e emotivo, sentia-se de facto o afecto a florescer entre eles, e a autora deu-lhe mais sal do que às habituais histórias em que os atributos físicos são rebobinados ao ponto da exaustão. Também me deixei envolver pelos segredos familiares, a mãe um tanto leviana, o pai meio desligado. É nesse contexto que Diana e Cole se aproximam, e, mesmo depois de anos separados, nunca esquecem a familiaridade que partilharam na juventude. É sempre bom ler sobre duas pessoas que calcorrearam as estações da sua vida com garra e determinação, e que no momento certo se reaproximam, cada um com nova bagagem e as com as suas conquistas e derrotas, e reatam algo que ficara por concretizar no passado.
Não costumo ler romances contemporâneos, contam-se pelos dedos os que li (A Montanha entre nós, Sozinhos na Ilha, Segredos do Passado, poucos mais). Mas este, realmente, valeu a pena. Cativou-me e devolveu-me a vontade de ler Judith Mcnaught.
Quando o bilionário Cole Harrison se aproxima dela com dois flûtes e uma garrafa de champanhe, Diana é apanhada de surpresa, pois reconhece nele o moço de cavalariça que desapareceu da sua vida vinte anos antes. E, fazendo jus à sua reputação de magnata, Cole tem uma proposta para ela: um casamento de conveniência, pois arrisca-se a perder uma fortuna se não se casar em breve. Diana dificilmente imaginaria nessa noite que iria reencontrar Cole, muito menos sucumbir ao esquema elaborado dele, para não falar no perigo de ceder a uma paixão avassaladora


Sinopse: É a contragosto que Diana Foster se encontra num extravagante baile de caridade, rodeada pela fina-flor do Texas. O noivo acabou de a deixar, trocando-a por uma herdeira italiana, e a jovem anseia apenas por um pouco de privacidade. Mas está em jogo a sua carreira e o bom nome da família. Como gestora da empresa familiar, Diana tem uma imagem a manter. E a fasquia não podia estar mais alta pois ela é editora da revista Beautiful Living, uma publicação de referência no que toca à tranquilidade doméstica.

Classificação: 5*****/5

Lido aprox.: Dez. 2016