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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

#23 As Cinquenta Sombras Mais Negras

Título oficial: Fifty Shades Darker @ 2017
Realizador: James Foley
Actores principais: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Kim Basigner

Classificação IMDb: 4,9
 Minha classificação: 2

No Dia dos Namorados, decidi cultivar o meu lado masoquista e, numa de desportiva, fui com uma amiga ao cinema ver “As Cinquenta Sombras mais Negras”. O primeiro tinha oferecido bastante material para risadas, e a minha única expectativa quanto ao filme é que pudesse rir-me do ridículo. Começo logo a rir-me pela tradução portuguesa da coisa, que lhe roupa o sentido, se é que tem algum...
De salientar que nunca tinha lido os livros (li apenas 30 páginas do primeiro, por ser tão mau que o meu cérebro se recusou a prosseguir). Já a ver “Crepúsculo” – outra vez o meu lado masoquista –, o meu cérebro vai ameaçando desligar-se, tipo corte eléctrico. Sofre assim uns apagões e tal, mas ao menos conseguia ir lendo as falas sem encontrar defeitos em todas as palavras. Mas nunca me tinha acontecido, durante uma sessão de cinema, sentir-me a ponto de explodir por não poder assinalar todas as absurdidades, e por as minhas pernas terem quase vida própria e quererem sair dali. Felizmente fui com a melhor das companhias, e apesar de sermos as duas mais odiadas da sala - devido às risadas, aos suspiros, aos "oh my God", "ridiculous" e etc., pude respirar a meio da película e despejar na língua inglesa o mal que aquilo me estava a fazer à saúde. Depois mentalizei-me que era só mais uma horinha, e que se estivesse com cólica renal seria pior, e lá assisti à segunda parte também.

Que fenómeno é este que encheu, ontem às 21:40, a sala 2 de cinema do Almada Fórum? Fileiras inteiras de mulheres de todas as idades e casais jovens pejavam o cinema de uma ponta a outra, até a Primark estava vazia ontem, porque 70% do público-alvo estava de bilhete em punho dois andares acima. Seis anos depois de sair o primeiro livro, continuo sem resposta.

Dakota Johnson continua embaraçosamente má no seu papel. Eu entendo, não é fácil ler aquelas saídas “Sim, aceito jantar contigo, mas só porque estou com fome”, ou gaguejar a cada três linhas, ou gemer a cada duas, ou soltar gritinhos de surpresa a cada vez que muda de direcção ao caminhar. 

Jamie Dornan está bem melhor neste filme, parece que conseguiu ultrapassar o pouco à-vontade do primeiro (arrumando falas como “eu não faço amor, eu fodo à bruta”), mas ainda assim teve de passar por dois momentos em que teriam de me pagar muito bem como actriz: o primeiro ao fingir que está a ter pesadelos, a rebolar-se nos lençóis e a gritar “não”, de modo a que a sua cara-metade venha consolá-lo a meio da noite. Só expliquei em que consiste a cena porque nunca viram isso em lado nenhum. O segundo é quando é obrigado a debitar estas palavras: “tu ensinaste-me a foder, ela ensinou-me a amar”. De salientar que também está bem melhor fisicamente, é da barba. Está mais confortável no personagem e acaba por ser a única coisa menos má do filme, basta imaginarem aquele perfil a dizer-vos ao ouvido “tira as cuecas”, e acabou-se. Está comprado, vamos todas ver o filme. Foi mais ou menos isso que aconteceu. Só que não… até isso se dilui no dilúvio de estupidez. Quando o filme começava a aleijar-me demasiado, punha a vista nele e ligava o piloto automático, e lá aguentava até à próxima panorâmica de Seattle.
É do livro, entende-se à terceira linha. É a escritora que não tem talento, pertinência, tacto, substância, profundidade. Acredito plenamente nela quando diz que ia escrevendo o livro no seu Blackberry, porque a preguiça está lá e qualquer pessoa sabe como se tem de abreviar a lista de compras quando usamos o bloco de notas do telemóvel. Podia ter podido a coisa depois, mas parece que não se deu ao trabalho.

A ideia do ciúme e da posse levados ao extremo é perigosa. A ideia de que uma mulher possa virar as costas a compromissos de trabalho porque o namorado tem ciúmes do seu chefe, pior ainda. E que a escritora acabe por mostrar que o namorado tinha motivos (quando nenhum tinha sido apresentado) para desconfiar do chefe *porque o chefe acaba por se atirar à rapariga* é a gota de água. O facto de este sétimo sentido do Grey acerca de quem quer comer a sua namorada desinteressante, se provar assertivo é um livre passe para que os homens deem ordens às mulheres sob o pretexto do “vais ver, acredita em mim”. Não sendo linear, porque conheço inúmeras mulheres inteligentes, independentes e capazes, mas não são elas as que metem um dia de folga para ir ver este filme. E essas não se sabem proteger, e os homens ao lado delas, ao ouvido dos quais elas explicavam que ele tem um trauma de infância (que ninguém que não tenha lido o livro entende – como eu), começam a achar que como as mães lhes bateram com a concha da sopa, agora podem usar-se de violência para com as namoradas, porque elas estavam ali a rir-se, a torcer as pernas e a soltar longos suspiros enquanto o Grey aplica umas palmadas bem energéticas nas nádegas da Miss Steele. Para quem nada entende do franchising, há palmadas e palmadas. E estas não são do tipo palmadita, são mais do tipo que a pessoa não se consegue sentar no dia seguinte.

Supondo que o cinema e as artes não influenciam assim tanto as pessoas, e que a cena da manteiga em "O Último Tango de Paris" não impulsionou a prática de sexo anal, ficamos só com uma história estúpida, vazia e cheia de incongruências. Uma escrita preguiçosa e desinspirada, em que cada conflito é uma preparação para a cena de sexo seguinte, e em que o protagonista é dono do mundo, viaja em colunas de carros para ir a uma festinha em casa da mãe, refugia-se num barco quando acha que a casa está a ser ameaçada e mantém dossiers acerca de todas as gajas com quem privou. Uma história impossível sobre um homem que compra a empresa onde a namorada trabalha, só porque é maluco, e em que lhe enfia dinheiro pela goela abaixo, quer ela queira, quer não. E ela, claro está, não quer.

De tudo o que me irritou nisto das Cinquenta Sombras de $, o pior é a fingida aura de sucesso e de independência da protagonista, sendo que toda a gente a aborda para lhe dizer que o Christian gosta de mandar e que as mulheres lhe sejam submissas, e que ela não é o tipo de mulher que se deixa controlar. Certo. Ela não é o tipo de mulher que se deixa controlar. Quando, nestas quase três horas de dois filmes assistidos, é que a personagem feminina tomou uma iniciativa? Fez uma pergunta pertinente? Tomou uma decisão? Uma mulher que deixa de cumprir compromissos de trabalho por ordem do namorado, que dá dois minutos de luta só para não ser demasiado óbvio que é unidimensional, para depois ceder sempre? Ah, está bem. No fim do primeiro, quando ele a espanca e ela lhe diz que aquilo não é para ela. (Porém, contudo, no seguimento…) De resto, da pouca vida que E.L. James soprou a esta personagem, só lhe resta gaguejar e falar para dentro, por sorte com toda a gente ao redor muito interessada em escutar o que ela tem a dizer. Nunca a expressão “mosquinha morta” se aplicou melhor.

Por último a questão do ardente, escaldante, alucinante, inigualável sexo entre as personagens principais…

O que vejo é uma história escrita por mulheres e para mulheres, em que o homem cumpre as suas fantasias, certo, mas visualmente o que se vê, o que se ouve, o que se respira são as fantasias de uma mulher. Engraçado que a câmara, como é hábito, esteja focada no corpo feminino, mas é um erro de marketing. O olhar deste lado é de mulheres, pelo que surge assim mais uma coisa para corrigirem. Entendo que depois de um século a explorarem o corpo das mulheres no cinema, a favor dos homens, agora tenham de admitir que as mulheres também têm dinheiro no bolso para gastar, por isso basta mudarem a câmara das pernas da Anastasia para os abdominais do Jamie Dornan, como na cena em que ele está a fazer ginástica em casa, para verem o que são as gajas a gritar mais alto ainda
E em que consistem essas fantasias de mulher que o Mr. Grey cumpre com tanto entusiasmo? São as de um homem que tome iniciativa, que se mexa, que paire acima dela, que lhe dê ordens (geralmente relacionadas com a roupa interior dela, não com a sua carreira), que mostre que a deseja, que se aplique em dar-lhe prazer. Pelo menos pelo filme, não parece que a Steele dê grande retorno ao pobre homem. Uma vez mais, a sua falta de iniciativa a impor-se, e também nunca a vemos empenhada em satisfazê-lo a ele. Neste sentido, não me parece que os casais possam beneficiar muito desta promessa de sexo fantabulástico. Se a mulher não se mexer, e se o homem for como muitos, à espera de ser atendidos, não me parece que as brincadeiras vão muito longe, pelo menos sob o signo das Cinquenta Sombras. Lá está: escrito por mulheres e para mulheres, num universo onírico em que o homem não busca nada e dá tudo, ou, mais perfeito ainda, em que o homem descobre nos gemidos (ainda que de dor) da mulher a sua própria satisfação, e não precisa de mais nada.

Há coisas que sinceramente preferia não saber do universo íntimo destes dois personagens monocromáticos. É que isto não é bem pornografia, mas também não é bem a típica história “rapaz conhece rapariga”, e por várias vezes pensei “já estou a saber demais”. Não quero saber em que posições eles fazem sexo – o que é esquisito, porque o assunto interessa-me. Eles é que não. Este casal tão pouco nítido, em nada palpáveis, nem através da prometida quebra de tabus ganha cor. Fica por ali, fora da sala de cinema, sem alma nem contornos reais. Como o meu cérebro, que também se recusou a entrar na sala e que só me voltou a falar hoje de manhã.
A cada vez que ele dizia que aquela casa também era dele, e a outra propriedade, e as jóias, e os carros, e as empresas, só me perguntava como tudo isto, esta inverosimilhança flagrante, pode apelar a todas as raparigas que estavam sentadas na sala de cinema, e como os seus homens, quem sabe de ordenado mínimo em carteira, podem sentir-se excitados perante uma história de um tipo novo, bom de cama e podre de rico, que faz o que quer de uma miúda descompensada. 

Para entenderem o quão má a coisa é, deixo uma lista de inconsistências. Só não escrevo mais porque não estou desempregada:
Portanto atenção spoiler alert:
- A rapariga passa a vida metida na casa dele, mas quando vai a casa para buscar algumas coisas, é na escova de dentes que pega – porca!
- Há uma antiga submissa do Grey à solta, apostada em assassinar a sonsinha de serviço, e apesar de ser uma pessoa frágil e desequilibrada, consegue infiltrar-se na garagem do Grey, cuja casa é tipo uma fortaleza, mas nunca explicam como;
- Quanto à mesma rapariga, o Grey diz que tem “o seu pessoal” em cima do acontecimento para a encontrar, mas a rapariga entra na casa da Anastasia na boa – sem chave, sem arrombar a porta, sem partir uma janela, para vê-los dormir. Como? Fica por nossa conta.
- Ainda quanto à mesma rapariga, que é o grande conflito e suspense do filme, o pessoal do Grey continua em cima dela, mas uma vez mais ela entra tranquilamente na casa da Anastasia, sem que se saiba como posto que não há nada arrombado nem fora do sítio, para a surpreender com outra das suas inspirações. Acham que nos explicariam porquê? Que se lixe a lógica;
- O matulão despenca-se com grande aparato num helicóptero acompanhado de uma assistente (julgo), acham que morre? Não, primeiro é socorrido não se sabe por quem, faz todo o caminho de Portland para Seattle não se sabe como, chega todo desgrenhado a casa sem que uma equipa de socorros tenha notificado a família de que está inteiro, e apresenta-se em casa a dizer que perdeu o telemóvel e por isso não pode ligar, enquanto a televisão notifica a sua provável morte e a família chora reunida;
- Acham que, no seguimento do acidente, o homem foi descansar e quem sabe reflectir sobre a vida? Não, foi fazer aquilo que pagámos para vê-lo fazer;
- Acham que uma pessoa com sangue na fronte vai ao hospital ou fica em repouso? Nope, o todo-poderoso Grey vai à sua festa de aniversário, com direito a foguetes, e a empregada que se despencou com ele está lá, sem uma entorsezita que seja;
- Christian Grey, com tantas empresas e investimentos, que toca piano e pilota helicópteros e barcos, que viveu uma vida de horror e traumas que o marcaram para sempre, tem que idade? Este bilionário (milionário está fora de moda, a E.L. James quis fazer tudo em grande) que no meio de todo o seu sucesso ainda tem tempo para dar uns tautaus às moças com chicotes e fivelas e coleiras na sua sala vermelha, tem que idade, vá? Um palpite? Trinta e cinco, como eu pensava? Não, não, senhores. Tem vinte e sete. Now deal with it;
- Está sempre lua cheia em Seattle, espero que a NASA já esteja em cima do acontecimento.

Para terminar, concordo com o anónimo – estou a varrer a internet à procura dessa crítica, mas não encontro –, que diz que a coisa mais profunda sobre o filme são o cordão de bolas metálicas que a Anastasia Steele usa. Agora deixo-vos a reflectir onde.

domingo, 9 de outubro de 2016

#21 The Shining

Título oficial: The Shining @ 1980
Realizador: Stanley Kubrick
Actores principais: Jack Nicholson, Shelley Duvall
Classificação IMDb: 8,4
 Minha classificação: 4

Baseado no livro de Stephen King, “The Shining”, ou “O Iluminado”, em português, prometia ser um filme de terror de arrepiar os cabelos. Prometia ser um dos melhores filmes de todos os tempos, dentro do seu género e para além dele. Eu tenho medo de filmes de terror, não assisti a muitos por esse motivo. Mas acho que não devo deixar que os meus gostos ou limitações influenciem, a cem por centro, a minha cultura geral. Então achei que estava na hora de superar o desafio de ver este filme.
Porém, quando a este, senti sobretudo embaraço. Ao longo das duas horas e vinte minutos em que o filme roda, procurei constantemente um sentido para o enredo, um escalar para o prometido clímax, um fio condutor que me permitisse extrair alguma lógica a tudo isto. Nunca encontrei nada por onde pegar. A actuação da Shelley Duvall constrangiu-me. Não vale a pena contra-argumentar-se que o problema está no facto de o filme ter sido rodado há trinta e seis anos: o problema é ela ser má actriz. A Vivien Leigh, em 1939, era muito melhor. A Bette Davis, em 1942, era muito melhor. Portanto, é tão má actriz que o filme se estraga logo aos primeiros minutos, quando ela está a rir e a debitar frases como se as estivesse realmente a ler, a partir do guião. O próprio guião é mau – alguém deve ter recebido muito para o adaptar do livro, mas esqueceu-se de criar a ponte “literatura-cinema”, pelo que as falas galgam esse espaço e vêm estatelar-se no chão. Sobretudo as da Wendy (Duvall), e sobretudo no início, depois acabam por entrar no campo do “normal” para a época e para o género. Houve um momento em que entendi que tinha de parar de culpar a actriz pela disfuncionalidade do seu papel. O que lhe foi pedido também é parvo por si só. Não entendo como não venceu na categoria de Pior Actriz dos Razzies, para a qual foi nomeada.  
Ultrapassando esse problema, penso que a criança, Danny (Danny Loyd) teve uma óptima prestação no filme, contribuiu para nos puxar par ao ambiente lúgrube do Overlook Hotel - e na minha óptica o hotel é o vilão, e o ambiente do hotel é o elemento mórbido que acaba por ser o protagonista do filme -, ver aquele cenário pelos olhos dele é intimidante. E o Jack Nicholson, claro, parece ter sido feito para representar este papel. O rosto dele mexe mais com o espectador do que o chorrillho de disparates das falas. "Assinei um contrato" - *eye roll*, scary.
Se calhar o problema é que, tendo o filme nascido de um livro, procurei nervuras que explicassem o que sucede. Por muito que não haja explicação para tudo, e no mundo do horror e do sobrenatural menos ainda. Se me focasse apenas na banda sonora, nos pormenores que nos desconcertam e inquietam (como a cena em que a criança galga tapetes/soalho em sequência com o triciclo, e o ruído mexe com todos os nervos do nosso corpo), ficaria híper impressionada. 

De facto há uma admirável visão, inquietante, por detrás de todo o projecto. Alguém que soube captar os ângulos, plantar receios, criar ansiedade. Porém sinto que falta alma, um mal identificado, um mal localizado, um mal com cabeça tronco e membros. O hotel, por si só, é arrepiante. Mas fora isso… como se explica tanta coisa? Gosto de respostas. Inquietar só porque sim acaba por cair no esquecimento, para mim. Creio que este filme, assinado por um realizador menos mediático, estaria na lista dos maiores disparates de sempre. Fico feliz de ter visto o filme, mas não entrei para o seu clube de fãs nem creio que volte a vê-lo um dia.

Classificação: 4/10

quarta-feira, 4 de março de 2015

#20 | 50 Sombras de Grey

Título oficial: Fifty Shades of Grey @ 2014
Realizador: Sam Taylor-Johnson
Actores principais: Dakota Johnson, JamieDorman
Classificação IMDb: 4,3
 Minha classificação: 2,5

Este é o espaço onde partilho opiniões sobre filmes que gostei/não gostei. Só posto os que considero dignos de serem mencionados, para o bem e para o mal. Não faço disto um diário da minha vida filmográfica. Para poder falar por fim com conhecimento de causa, submeti-me a duas horas de Fifty Shades of Grey, apenas para concluir que o panorama geral é ainda pior do que eu imaginava. Senti que, à parte da banda sonora, nada funcionou no filme. Partindo de um livro tão pobre, a Sam Taylor-Johnson não tinha muito por onde se virar. Mesmo porque é sabido que a própria E.L. James não deixou de dar palpites sobre o filme. Isso transparece: a pressão posta em cima do filme, para que funcionasse, e dos actores, para que tornassem credíveis diálogos embaraçosos, de tão absurdos, é evidente.Tive pena do Jamie Dornan, que é acusado de ser mau actor neste filme, por não saber pôr mais afinco nas chicotadas que dá à princesinha Steele. Também, ao contrário do que já tenho ouvido dizer, tenho pena da Dakota Johnson. Parece-me uma menina doce e até um tanto tímida, o que a terá tornado a pessoa ideal para assumir o papel da cabeça-oca da Anastasia Steele. Porém, a estupidez é tamanha que acaba por prejudicá-la também. Como ser-se bom actor com uma pobreza de argumento destas?Eu e a minha irmã assistimos à versão não-explícita do filme juntas. Agora virem a cara porque vão chover spoilers:a) Foram inúmeros os silêncios incómodos que nos obrigaram a soltar risos;b) O filme começa muito mal mesmo, com as incongruências a atropelarem-se umas às outras. Desde os lugares sempre livres à porta do edifício do Grey, ao lugar livre à porta da loja onde ela funciona, à química inexistente entre os actores.c) As personagens são uni-dimensionais, do género que povoavam os meus rascunhos de aspirante a escritora na tenra adolescência. Nessa altura a melhor amiga só servia para ser inconveniente e nos lembrar que estávamos apaixonadas por fulano talo irmão do nosso namorado era o par perfeito para a melhor amiga/irmã solteiraa mãe estava convenientemente afastada para dar uma mobilidade facilitada à jovem heroína, que com a mãe à perna não se poderia meter em aventuras. O rapaz principal era sempre muito novo, muito rico, muito perturbado com a infância e havia sempre um traço físico que fazia com que isso viesse à baila: uma cicatriz no sobrolho, uma queimadura no braço. E poderia continuar para sempre.


b) Falas tipo "I don't make love, I fuck hard", ou "I want to fuck you in the middle of next week", ou "I don't do romance", ou "Like where you keep your Xbox?" ou "This is my red room of pain" ora me punham a rir, ora me embaraçavam. Tive genuína pena dos actores e não entendo como se submeteram a tamanho flop nas suas carreiras.
c) Ele não é controlador, ele é doente. Há uma diferença. O Moisés, que assassinou a ex-mulher (Carla Santos) depois de anos a segui-la e a espiolhar-lhe a vida toda, não era controlador, era doente. Apanhou 20 anos de prisão.
E tudo deve ter começado assim...
d) Da segunda vez que o casal maravilha se vê (se não fosse a óbvia pressão para o Jamie Dornan olhar a moça e dizer "I am looking [at you] eu não adivinharia que vinha aí um relacionamento entre duas pessoas, e ficaria à espera da "faísca", que nunca vem) eu ainda não sentia qualquer conexão entre os dois protagonistas. Contudo, o Mr. Grey já tinha a mioleira a fervilhar, e já lhe estava a perguntar quem era o fotógrafo e o patrão, e etc., etc. Eu e a minha irmã olhámos uma para a outra e gritámos: FOGE! 
e) Pouco depois, na embaraçosa cena em que ela lhe liga, bêbeda, já ele assumiu que é pai dela (sem beijo, sem qualquer romance a insinuar-se). E não é um pai qualquer, é um pai com direito a palmadas, então adivinha onde ela está (o filme não se importa de explicar, assume que todos os que foram assistir tiraram a quarta classe para poder ler o livro), e vai atrás dela. Numa cena nada encenada, onde prima a naturalidade com que os acontecimentos se intercalam, durante a película, o amigo dela (porque não um estranho???) está a tentar beijá-la. Que conveniente para que ele venha salvá-la! Awwww!
f) O filme é um cliché pegado, polvilhado do mau gosto aterrador que creio que seja a essência do livro. Para alguém que não saiba o que está por detrás de tudo isto, e que veja o filme como coisa independente e tente daí extrair algo, o que vê? Uma rapariga desastrada, intimidada pelo homem muito rico (ah, ela é virgem!), que ao  longo do filme exibe a sua riqueza com uma garagem cheia de carros, uma enorme colecção de gravatas, um helicóptero privado, um apartamento grande onde tudo reluz e não há qualquer marca de personalidade, um paralelo óbvio com o "vazio" da vida do Grey antes de conhecer a Steele, um piano que ele toca (composição mais óbvia não há, reconheci-a de imediato), programas fora do comum. Em 1990 já havia um filme igual: chamava-se Pretty Woman, mas de algum modo o Richard Gere tratou a prostituta melhor do que o Mr. Grey, e a Vivian (Julia Roberts) tem mais amor-próprio e dignidade que a virgem deste filme.
g) A tal ideia da BDSM só é absurda (e nunca revolucionária, e muito menos o sexo é revolucionário neste filme, se quiserem dou-vos uma lista de bons filmes que metem cenas de sexo, ou mesmo livros) na medida em que ela é uma ignorante que não faz ideia de onde se está a meter. Não basta ele querer decidir tudo a respeito da sua vida, o que lhe anula o livre arbítrio e a torna uma sombra doutrem, ainda quer agredi-la e magoá-la fisicamente. Preferia não ter sabido de nada disto. Só consigo imaginar as mamãs a mascararem-se e a porem-se a jeito para os maridos lhes darem umas palmadas nas nádegas. Que elas pediram (ok, ao menos isso, ao contrário do filme). Acho muito bem que as pessoas sejam abertas quanto à sua sexualidade, dialoguem e até levem palmadas ou lhes façam chichi em cima, se é a cena delas. Mas de repente meterem palas nos olhos por causa dum livro miseralmente escrito, equipararem a situação a uma revolução sexual e esgotarem as prateleiras de tampões anais das sex shops internacionais já me assusta um bocado... Então foi preciso que viesse esta cegueira para descobrirem que tinham rabo? Foi preciso o Fifty Shades para que se dessem conta que há gente que gosta de pôr trela e levar açoites? E de repente já está tudo bem, porque é disso que fala o único livro que leram na vida? Absurdo. Hipocrisia total.
h) Na parte em que ela se inclina e ele lhe aplica seis valentes açoites com um cinto de couro no rabo, experimentei uma estranha satisfação. Uma parte de mim dizia "Vêm? Vêm como a mulher fica numa posição que a rebaixa e, quer queira quer não, há pouca igualdade nesta situação? Vêm que dói e que até a atrasada mental da Steele entendeu que ele é doente mental por procurar arrastar uma pessoa como ela para um mundo que só ele domina (e é dominador, foi sem querer, este twist)?" E pensei: OK, ela aprendeu. Mas não, ela não aprendeu, porque vêm aí mais dois filmes. Suponho que, a dado momento, ela volte a agachar-se para ele a sovar.
i) Sabem em que pensei, enquanto o Jamie Dorman expelia o ar dos pulmões para transmitir a sensação de alívio que esta personagem mal enjorcada da E.L. James conforme descia o cinto nas nádegas da pobre burrinha? Que há tanta beleza num homem que cuida, que se preocupa, que seria incapaz de nos magoar, fosse como fosse, e que se odiaria se nos causasse qualquer espécie de dissabor...

Este Grey é o oposto daquilo que um homem deve ser, na minha opinião de jovem de 25 anos, solteira, que se calhar vai passar a vida toda à espera que um grande amor me arrebate. E isto é o oposto da história da Cinderela. É-me chocante que sejam as mulheres as principais consumidoras deste produto de caca. É-me chocante que uma mulher absolutamente medíocre como a E.L.James tenha o nome sabido em todas as tascas por causa de um livro que começou doutro tão mau ou pior, e que evoluiu para este histerismo colectivo e infundado. Uma britânica que escreve sobre americanos com expressões britânicas. Uma mulher que não sabe escrever, nem tem imaginação, nem sabe do que fala.

Enfim, é o mundo que temos.
E outras E.L. James virão, porque o povão está aí para papar e adorar.

Que fique claro que não lhe dei 1€ seja com os livros, seja com o filme.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

#18 & #19 Still Alice & We Need to Talk About Kevin

Título oficial: Still Alice @ 2014
Realizador: Richard Glatzer, Wash Westmoreland
Actores principais: Julianne Moore, Alec Baldwick, Kristen Stewart
Premiações: Óscar de Melhor Actriz para Julienne Moore
Classificação IMDb: 7,5
 Minha classificação: 7


Baseado no romance homónimo de Lisa Genova, "Still Alice", ou "O Meu Nome é Alice", em Português, é uma ficção que me encontrou por ter o Alzheimer como tema central. A minha bisavó padeceu dessa doença, o meu primeiro romance publicado girou em torno dela, e por fim uma Julianne Moore lindíssima e super competente dá vida a esta Alice. Devo dizer que o filme foi mais uma espécie de close-up do que é a vida de alguém que sofre dessa doença, que implica a degeneração das células da memória funcional, do que um grande apanhado do assunto. Não se perde em questões médicas, apesar de tanto o marido quanto um dos filhos de Alice praticarem essa profissão. 
O filme apresenta-nos uma mulher de grande tino e elegância, uma Professora universitária de mérito e presença, a definhar aos 50 anos quando começa a sentir-se desorientada e meio "esquecida das coisas"...
Na sua fase mais avançada, o Alzheimer leva a pessoa a esquecer-se de si própria, de quem o rodeia. Faz-se a mesma pergunta inúmeras vezes, é exasperante para quem está ao redor de alguém assim. Além dos queixumes constantes (eu que o dia, além da minha falecida bisavó, também o vizinho do lado passa o dia em "ais"), faltou ao filme mostrar a agressividade que toma os doentes de Alzheimer quando se sentem perdidos e expostos. A determinado momento, tudo se perde: a orientação das ruas, os nomes dos familiares e amigos, a capacidade de executar, até, as tarefas mais simples...
O filme é tocante, não haja dúvida. Até Kristen Stewart, que mantém sempre a mesma expressão impávida, pareceu ter dado mais de si neste drama. A verdade é que o Alzheimer é um teste maior ao amor e à paciência de quem nos rodeia. Do marido que começa por colaborar e depois perde as forças, à filha distante que recusava os conselhos maternais e que se dispõe, em último caso, a cuidar da mãe pessoalmente.
Vale a pena ver, e por isso fiz questão de lhe dedicar algumas palavrinhas aqui.
Título oficial: We Need to Talk about Kevin @ 2011
Realizador: Lynne Ramsay
Actores principais: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller
Classificação IMDb: 7,5
 Minha classificação: 8,5


Temos de falar sobre Kevin é um dos filmes mais perturbadores a que assisti nos últimos tempos. No final fiquei em silêncio por um bocado, e quem me conhece sabe que não sou de ficar calada. E isto é um filme sobre quê? Na minha opinião, há várias respostas, sendo que a que mais me satisfaz é: o amor materno. O amor materno em todo o seu poder de superação, perdão, regeneração, sacrifício e incondicionalidade. Foi a primeira vez que vi a Tilda Swinton a representar, embora tenha traços que lhe tornam o rosto inesquecível. Fez uma Eva credível, tanto na expressão de insegurança, como de fragilidade emocional (e até psiquiátrica) e de amor. Mas é a intriga e as coisas inconfessáveis que dominam o filme.
O trailer não é muito esclarecedor, pelo que me perguntava se seria um filme de terror. Infelizmente, penso que seja o filme de terror de algumas famílias, pois que casos assim ocorrem, lá isso ocorrem...
O filme fez-me reflectir: 
Em que falha uma mãe?
O que leva alguém a levar sentimentos como raiva contida e ciúme a transformarem-se em algo de maior, algo de letal?
Quanto horror e infelicidade pode um coração materno testemunhar sem colapsar?
O que tem um filho de fazer para que a mãe lhe vire as costas?
Não há modo de me alongar sem referir factos. Contudo, as analepses, os diversos momentos em que Eva nos é apresentada, livre a viajar pelo mundo, apaixonada, como mãe e, mais tarde, aparentemente sozinha no mundo e ostracizada, foram muito bem pensadas. Considerei o filme um trabalho artístico difícil de ultrapassar e de esquecer, de uma beleza trágica que contém tudo o que aprecio num bom filme. Permanece em nós após terminado, como que se nos assombrasse, alertando-nos para questões de difícil resolução e sem qualquer explicação.
Aconselho a todos os que perscrutam a natureza humana sem encontrarem respostas.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

#17 Dei-te o Melhor de Mim

Vamos ser honestas, Célia? Não vejo os filmes do Nicholas Sparks (nem leio os livros) em busca de uma boa história. Fi-lo quando, aí entre os doze e os catorze anos, comecei a lê-lo. Depois, comecei a fazê-lo só para me torturar. Só porque não sei que mais faça e às vezes é bom fingir que não cresci e que ainda acredito que existam homens assim, como ele os pinta.
Então, neste fim-de-semana, e para tentar fugir ao milhão de trabalhos que tenho para fazer, meti-me debaixo da manta, chamei a minha irmã (que é dez anos mais nova do que eu mas também dez vezes mais evoluída, e pareceu relutante em ver o filme) e pusemo-lo. Objectivamente, é o seguinte:

o tipo que faz de jovem Dawson (Luke Bracey) é um gatão e entreteve-me até metade do filme.
PS - Começo a achar que Um Refúgio para a Vida deve ter sido produzido por outra pessoa enquanto o Nicholas estava em casa com uma valente constipação...
apesar de não ir com a cara da jovem (não me lembro do nome dela, damn!), acho que havia química entre os dois e ela encarava bem a personalidade que emanava.
na minha óptica, não há qualquer química entre os actores que fazem de Dawson e Amanda (googled it!) mais tarde. A Michelle Monaghan parece, simplesmente, ser mãe do James Marsden.
À luz das histórias do Nicholas Sparks (incluindo das suas produções filmográficas, que tanto fogem aos seus próprios enredos mas são todas elas também iguais entre si):
os ingredientes são os mesmos de sempre: rapariga rica, rapaz pobre, interior da Carolina do Norte, um viúvo, muitos anos de separação, um trabalho perigoso e físico para o moço (bombeiro, trabalhador de petrolífera, soldado no Afeganistão, soldado no Iraque, etc…).
o que varia tem sempre paralelismo com as outras histórias: o outro viúvo era apegado aos quadros da mulher, o outro era apegado às flores da mulher.
os pais dela nunca gostam dele.
ela faz sempre tudo o que quer do tipo, é ela que decide onde e quando. Ele torce-se todo para a convidar para um encontro, depois leva-a a comer comida local no interior. Bebe cerveja e ela bebe cola light. No final do encontro ele não sabe se deve beijá-la, mas beijam-se porque é tradição.
há sempre um momento em que ele “tem de deixá-la ir” para provar que a ama.
há sempre um sacrifício que ele faz por ela.
 não faltou a cena do beijo à chuva, nem o "are you sure of this?" quando ele está prestes a tirar a virgindade à mocinha;
( faltou o passeio de barco, fiquei de queixo caído!)
 coincidências inexplicáveis, mortes desnecessárias to add some drama.
em 50% dos finais ela fica sozinha com as cinzas dele, o ex-marido que já não ama e os filhos que não são dele.  
 as capas são todas iguais.
Gostava de poder dizer que é a última vez que me submeti a tanto cliché, mas a verdade é que noutro domingo frio, sem nada para fazer, pego na manta e lá vou eu, rir-me mais um bocado da desgraça alheia, que é como quem diz: da dificuldade que o homem tem em reinventar-se. 

domingo, 27 de julho de 2014

#15 Voando Sobre Um Ninho de Cucos


Título oficial: One Flew Over the Cuckoo's Nest @ 1975Realizador: Milos FormanActores principais: Jack Nickolson, Louise Fletcher, Danny de VitoClassificação IMDb: 8,8Minha classificação: 8,0
"Um Estranho no Ninho", como lhe chamam os brasileiros, é um filme de 1975 baseado no romance de Ken Kesey de 1962. Jack Nickolson apresenta-se como o irreverente "Mac" McMurphy que, acusado de violar uma rapariga de 15 anos, é levado a um hospital psiquiátrico para se avaliar se é doente mental ou um criminoso comum. 
Apesar de ser um filme comovente, lindíssimo, com muitos assuntos prementes para reflectirmos, o mais importante é entender-se os deslocados. Os tímidos, os dementes, os iludidos, os desajustados. Uma série de loucos senta-se a jogar às cartas diariamente na enfermaria de um hospital psiquiátrico gerido com punho de ferro pela enfermeira Mildred Ratched. Uma mulher rígida que aplica técnicas violentas e opressoras para impor a rotina e impedir os doentes de saírem debaixo da sua asa. Mac assume-se de imediato como o chefe dos doentes, tornando-se um adversário à altura de Mildred. O que se segue é um combate entre as técnicas da enfermeira para vergar espíritos e o espírito aparentemente indomável de Mac.
Para mim, portuguesa, a grande surpresa foi descobrir (que vergonha só o ter sabido agora) que a horrenda técnica de psiquiatria apelidada de “lobotomia”, que transformou tantos homens em vegetais, foi inventada pelo Português Egaz Moniz, o famoso das faculdades e das ruas, que ganhou o Prémio Nobel da Medicina em 1949 por essa barbaridade.
Tenciono ler mais sobre o assunto, quem sabe até desbravar a complexidade da Psiquiatria num novo romance. Mas por enquanto basta-me ficar de queixo caído por saber que o pai de Rosemary Kennedy (e J. K. Kennedy) submeteu a filha rebelde, de 23 anos, a esta técnica, condenando-a a uma incapacidade permanente para o resto da sua vida.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Filmes em Lista de Espera

Her (2013)
Comecei a vê-lo, acho que sou capaz de compreender essa concepção "abstracta" do amor. Impulsionado pelo fim do seu casamento e pela nova ligação possibilitade entre computador e utilizador, espero encontrar um Joaquin Phoenix introspectivo e comovente.

Sleepless in Seattle (1993)
 
Só porque celebra uma Meg Ryan pré-plásticas e promete ser uma das boas comédias românticas, de banda sonora inesquecível, dos noventas.

Nine 1/2 weeks (1986)
Porque amores perturbados e pessoas perturbadas acabam sempre por me interessar.

Labor Day (2013)
Tem a Kate Winslet e tem um amor improvável. 

Adore (2013)
Inspirado num romance da Nobel Doris Lessing, vejamos se o livro conseguiu mergulhar nas subcamadas do coração humano.

The Spectacular Now (2013)
Porque gosto da capa. E porque me pergunto o que tem esta rapariga de tão especial para andar na berra, porque ainda não a vi em acção...

The Shinning (1980)
Aclamado filme com o bom e velho Jack Nickolson. Só me assusta o facto de o realizador ser o Kubrick.

The Railway Man (2013)
Histórias de amor e guerra? Com o charmoso do Firth em grande plano? Mi piace.

Paris, Texas (1984)
Mulheres muito bonitas e muito perturbadas... e a inspiração para a Paris Texas dos Gotan Project...deal!

 Shame (2011)
Homens muito bonitos e muito perturbados também me interessam.

 Letters from Iwo Jima (2006)
Porque mesmo os americanos admitem que a versão da II Guerra Mundial na voz do Clint Eastwood comoveu mais do ponto de vista japonês.

One Flew Over The Cuckoo's Nest (1975)
A minha mãe diz que é um bom filme. And she knows movies...

#14 La Belle et la Bête

Título oficial: La Belle et la Bête @ 2014
Realizador: Chistophe Gans
Actores principais: Lea Seydoux, Vincent Cassel
Classificação IMDb: 6,4
Minha classificação: 7,8

O conto - ou fábula? - "A Bela e o Monstro" foi para mim, desde sempre, a mais querida das histórias de encantar. Uma mulher cuja bondade transparece nos traços, a imagem da delicadeza (de gestos e de sentimentos), submetida a um monstro e, contra todas as probabilidades, a amá-lo. A ser capaz de amá-lo, porque a capacidade de amar não é coisa que assista a todos.
Este filme, embora com as suas falhas - por exemplo, acho que a relação entre os protagonistas foi demasiado precipitada, e que se perdeu demasiado tempo na sequência do confronto final - é estéticamente lindo. Seja a protagonista, seja o castelo encantado, onde nos é quase possível cheirar as rosas e provar as pêras, sejam os seus vestidos, jóias e toda a magia envolvente.
Isto é uma pequena nota a respeito do filme mais belo - jogando com a palavra beleza visual que vi nos últimos tempos. Todo o filme é um lugar acolhedor para se estar.
Para amantes de grandes amores, do conto intemporal imortalizado por Jeanne Marie Leprince de Beaumont
A França encantada da minha infância...


segunda-feira, 30 de junho de 2014

#13 The Normal Heart

 Título oficial: The Normal Heart @ 2014
Realizador: Ryan Murphy
Actores principais: Mark Ruffalo, Taylor Kitsch, Matt Bomer, Julia Roberts
Classificação IMDb: 8,3
Minha classificação: 9,0

Apesar de não ter andado com grande apetite para filmes, vi uma frase deste filme que me deu vontade de ir descobrir o trailer. “Man do not naturally not love. They learn not to”. Depois do Dallas Buyers Club, que adorei, surge um filme em torno do mesmo tema. Porém, aqui temos a perspectiva da comunidade nova-iorquino gay. Pessoas com acesso a altos cargos, papéis na imprensa e na saúde, que a partir de 1981 parecem começar a morrer de uma epidemia desconhecida. Um novo tipo de cancro, suspeita-se. Um cancro que apenas ataca os homossexuais. Os pacientes são submetidos a quimioterapia e tratamentos experimentais mal financiados, apenas para morrerem desse mal desconhecido. Suspeitam de uma conspiração do governo para acabar com os homossexuais. O histerismo social eleva-se; é punição pelo pecado da promiscuidade.

Neste contexto, temos o jornalista/escritor Ned Weeks (Mark Ruffalo), judeu, a conhecer o amor pela primeira vez. Foi um homossexual reprimido e, apesar da boa relação com o irmão, nem este parece considera-lo um igual. Como inconformista que é, Ned alia-se a uma médica igualmente inconformada (Julia Roberts) que está desesperada por financiamento para pesquisas e que vê os seus pacientes a morrerem sistematicamente sem que o governo atribua a devida importância ao assunto.
De mencionar que apenas em 1986 o Presidente Reagan finalmente menciona a doença perante o país, permitindo que saia do estigma das minorias sociais.
O filme demonstra, sobretudo, o esforço levado a cabo e a união da comunidade gay, que se vê vítima de ainda mais discriminação perante o desconhecido.
O filme tem uma realização e um argumento muito realistas, muito terra-a-terra. Nada de dramatismo exagerado, por vezes o conformismo com que se aceita o inevitável é mais tocante que uma cena de lágrimas e gritos. É uma obra de grande sensibilidade, que mostra o amor homossexual com mestria, de um modo que toca o coração e que não ridiculariza as diferenças nem cai em estereótipos. O filme está tão bem conseguido que, não fossem as repetidas menções aos direitos das minorias, ao facto de os gays serem igualmente cidadãos americanos, não teria atribuído qualquer importância à orientação sexual do casal principal. Ruffalo e Bomer trabalhavam com eficiência nas suas personagens – a actuação do primeiro é assombrosa, e o segundo completa-o. A química entre os dois é de louvar.
Mas o que fica no final do filme é o sabor a amargo na boca. A dúvida se uns são mais cidadãos do que outros, se há, ainda agora, um modo correcto e um modo errado de viver, se merecemos todos o mesmo tipo de respeito e protecção por parte do Estado. Se o Estado, basicamente, nos leva a todos a sério.
Ned Weeks compara a situação que atravessam ao passado recente do seu povo; todo o mundo suspeitava do que estava a suceder aos judeus e, ainda assim, ninguém fez nada. Todos lavaram daí as mãos até que o assunto “Hitler” lhes tocou também. Acrescenta que um dos grandes responsáveis pelo final da II Guerra Mundial (Green Beret) foi um homossexual que acabou por se suicidar mais tarde devido à sua orientação sexual.
É um filme sobre aceitar-se a si próprio, aceitar os outros como iguais, lutar pelos nossos direitos e abraçar causas, ainda que pareçam não nos tocar directamente. É também um trabalho sobre frustração e esforço caído no vazio, porque nem sempre as coisas recebem a importância que merecem nem na altura devida.
Até ao final de 1986 houve 24 559 mortes relatadas” devido ao HIV. Só aí Ronald Reagan finalmente se pronunciou acerca dessa epidemia. Desde aquilo que se pensa ter sido o surgimento da doença, em 1981, morreram, até hoje e em estimativa, cerca de 36 milhões de pessoas com SIDA. Isto equivale a cerca de seis vezes o holocausto.
Alerta também para que não devemos eludir-nos: o vírus não está extinto, a cura não foi encontrada, e lá porque há controlo e mesmo um certo abafo da circunstância, ninguém está livre de vê-lo bater-lhe à porta.

Comovi-me e chorei com o filme. Compadeci-me da causa. Aprendi dados que considero importantes para melhor compreender a sociedade actual e o mundo em geral. É tudo o que peço da sétima arte.

«It’s because you are too good to be true, because I’ve been waiting for a lover like you for my whole life and you haven’t showed up until now, and I am scared as shit that I might do something to fuck it up. Am I crazy?»

sexta-feira, 7 de março de 2014

#12 La Grande Bellezza | A Grande Decadência

 Título oficial: La Grande Bellezza @ 2013
Realizador: Paolo Sorrentino
Actores principais: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli
Classificação IMDb: 7,8
Minha classificação: 9,0
Prémiações: Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro


A Grande Beleza é um filme arrojado, desconcertante, que nos obriga a olhar para nós próprios e para a nossa posição face à sociedade. É também uma análise dura a essa mesma sociedade, num tom ora indulgente ora acusatório. Sendo Gep Gambardella (Toni Servillo) o espectador, somos simultaneamente a sua consciência e o seu juiz. Isto porque Gep tem visão, tem consciência, tem uma voz que vai narrando a sua percepção do que o rodeia ao longo do filme.
Se mesmo Flaubert falhou ao escrever um livro sobre o nada…” Sendo esta, sem dúvida, a frase mais significativa do filme. Gep está rodeado de um nada absoluto – um nada de espírito e de beleza que o impede de criar um novo livro.
Gep, jornalista, escreveu um livro “O Aparelho Humano” há quarenta anos, o que lhe valeu um lugar na sociedade entre uma classe alta em decadência e uma nobreza falida. Desde então é um frequentador de festas, um amante de álcool, um praticante de sexo casual. As pessoas circulam pela sua vida sem deixar marca, tudo numa superficialidade que, por vezes, roça a hostilidade. Ninguém está limpo e todos conhecem os podres uns dos outros. Pessoas que teriam tudo para ser felizes – dinheiro, estatuto -, mas a quem falta nobreza de alma e força de espírito. Ainda assim, os diálogos são ilustrativos da falência dos valores e, em geral, cativantes e espirituosos. Cada linha do guião é algo de maior, susceptível a interpretação.


Gep está perdido, tem estado perdido há quarenta anos. Um assumido misantropo que pertence à classe que tanto o repugna. Não há nada de sagrado na sua vida excepto, talvez, o grande amor que perdeu na juventude. Ele próprio tem noção da mediocridade da sua “obra”, da nulidade da sua pessoa como escritor e jornalista. Nunca se sabe porque Elisa o deixou; a vida é mesmo assim, um grande e incómodo ponto de interrogação. Mas consta que o amou a vida inteira, e essa descoberta causa incredibilidade e lança-o numa reflexão pessoal. Caminha então, só e nostálgico, pelas ruas da Cidade Eterna. Terá Elisa amado o homem que se deita quando os outros se levantam? Ou terá amado a camada interior dele, a que encarcerou ao lançar-se numa vida de excessos na capital?


Roma surge fotogénica, melancólica, também ela as ruínas graciosas de um Império caído. No interior dos seus palácios arruinados consomem-se drogas, engatam-se pessoas cujos sonhos foram destruídos ou se projectam prenhes de frivolidade, dão-se festas, convive-se com anões, esquizofrénicos, adúlteros, viciados na noite, toxicodependentes, strippers, noviças, até surge uma “Santa” mais para o final da trama. Um apontamento comovente, por entre tanta loucura, o momento de nos reencontrarmos com a firmeza das crenças e da vontade de se fazer a diferença e de se honrar a obra que é o mundo. É a peça-chave do filme; alguém que vive de convicções por entre pessoas que são nada e que se arrastam vazias, sobre os tacões, de divertimento em divertimento.
Um filme de grande beleza que lida com o feio, com o absurdo. Uma voz que tem consciência do ar que respira e que, ainda assim, escolhe cirandar por esse meio, julgando-se, quem sabe, superior. Um homem que não tem nada; nem filhos, nem um grande amor, nem amigos sinceros, nem inspiração para retomar o sucesso literário, nem tempo. Dando-se conta do que perdeu, do que lhe escorreu por entre os dedos, Gep continua a sorrir, continua a ser quem sabe ser; dança e bebe no seu palazzo com vista para o Coliseu.
O absurdo da sociedade moderna, assim exposto, causa um certo incómodo. Um homem que vê, que sente – ele próprio garante ter escolhido o caminho da sensibilidade – e que nunca praticou a sua própria escolha, é decerto um homem desencontrado do seu destino.