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domingo, 22 de março de 2015

#126 APOLLINAIRE, Guillaume, As Onze Mil Vergas


Opinião: Classificado de romance “erótico” pontuado de humor, obscenidade e até erudição, é referenciado como “uma obra-prima”, por Pablo Picasso. De referir que Apollinaire e Picasso deveriam ser grandes amigos, posto que juntos levaram a cabo o roubo da Mona Lisa, em 1911. Apollinaire foi preso pelo suposto roubo. Estes pormenores da vida do autor são interessantes, mas nada nos prepara para o livro que intitulou de “As onze mil vergas”.
Por muito dúbio que o título seja, diria com grande segurança que estas “vergas” não são as óbvias, mas sim as que aplicam “vergastadas”.
O livro, de 1907, narra a história do príncipe romeno Mony Vibescu que, por questões pessoais, deixa Bucareste e viaja para Paris. A carta de despedida que dirige ao vice-cônsul com quem se encontrava amiúde ajuda a explicar esse ensejo por sair da Roménia:
Meu caro Bandi:
Estou farto de ser enrabado por ti. Estou farto das mulheres de Bucareste (…)
Por esta altura estamos na página 13 do livro e já nos deparámos com duas orgias. É assim que se desenrola o livro, todos os acontecimentos entre uma orgia e outra são meros preparativos para a próxima. Sexo em grupo é o que mais vemos no livro. As personagens só servem para se enrolar e trazer um amigo para o próximo encontro amoroso. Temos Cuculina e Alexina Come-Tudo, parisienses que se hão-de cruzar com as personagens noutras paragens. As duas amantes admitem o príncipe e o seu fiel escudeiro, Corno de Boi, na sua alcova. Há a prostituta japonesa, a polaca esposa de um general, a pobre alemã que está a amamentar, o cossaco, e tantos outros personagens que surgem em rol para se envolverem sexualmente com Mony e Corno de Boi, alguns deles vendo-se assassinados no final do interlúdio amoroso.
A sinopse do livro avisa os mais púdicos e os de estômago sensível: há orgias, masoquismo, sadismo, escatofilia (fui ver ao google o que era) e necrofilia. Esqueceram-se de mencionar zoofilia e pedofilia, mas num livro destes, em que as chibatadas se seguem na alvura das nádegas das francesas, e em que se continua a investir sobre o corpo da mulher já expirada, não era necessário mencionar-se que todos os limites seriam ultrapassados.
Duvido que, em toda a minha vida, venha a ler algo mais nojento do que isto. Mas a verdade é que, depois de tanta perversão e envolvimento doentio, por se tornar repetitivo, o livro deixa de chocar. Nem quando um pai viola o filho, ou outro pai viola a filha de quatro meses, nem quando a mãe amamenta o príncipe em vez da filha… Já tudo esperamos e já nada nos contorce o estômago, após as reviravoltas iniciais. Não fui ter com o livro, não é de todo o meu género. Caiu-me no colo e dei-lhe uma oportunidade, mesmo porque era pequeno e tão deslocado de tudo que tive de lê-lo.
Por vezes me perguntei se o livro era uma obra humorística, porque tanto absurdo só poderia resvalar para uma de duas coisas: humor ou tremenda incapacidade de expressão. Sucede que, nas últimas trinta páginas, o autor me surpreendeu um pouco. Não devido a mais cenas de promiscuidade, mas sim devido ao modo como a história (atenção: só é "história" no contexto deste livro, tão estéril) se alinha. As onze mil vergas abatem-se sobre o lombo do príncipe, que não cumpriu a promessa de fornicar vinte vezes seguidas. Depois de tanta crueldade, é Vibescu a vítima do sadismo de outrem, e o exército Japonês, em plena guerra com os Russos, põe assim fim a um livro que, de tão nojento e agoniante, me soltou francas risadas.
Não é para qualquer um, e não é livro em que jamais volte a pegar. Porém, nunca me conseguirei esquecer deste pedaço de loucura literária.

Sinopse: Guillaume Apollinaire foi um dos maiores poetas modernos de língua francesa, um homem erudito e culto, presente em todos os movimentos de vanguarda até à morte, em Paris, no ano de 1918. O presente livro circulou durante muitos anos em edições clandestinas, mas acabou por encontrar um lugar, de corpo inteiro, na obra de Apollinaire. Ninguém deixará de reconhecer o seu espírito num livro tão monstruoso como ternamente erótico.
As Onze Mil Vergas conta a história de um príncipe romeno, Mony Vibescu, no seu périplo de depravação em busca de excitação e aventura que o leva de Bucareste a Paris, passando por vários países da Europa e culminando na China. As suas peregrinações são pontuadas por cenas notavelmente cruas, em que Apollinaire explora, com um humor invulgar, as facetas mais obscenas da sexualidade, do sadismo ao masoquismo, do vampirismo ao safismo, da gerontofilia à pederastia, do onanismo à sexualidade em grupo. Leitor de Sade, Restif de la Bretonne e Andrea de Nerciat, Apollinaire constrói com as suas Onze Mil Vergas a resposta do modernismo aos velhos mestres do erotismo, expandindo e detonando os limites da obscenidade muito para além do imaginável.
Classificação: 1,8/5

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

#67 JAMES, E.L., As Cinquentas Sombras de Grey

Sinopse: As Cinquenta Sombras de Grey é um romance obsessivo, viciante e que fica na nossa memória para sempre. Anastasia Steele é uma estudante de literatura jovem e inexperiente. Christian Grey é o temido e carismático presidente de uma poderosa corporação internacional. O destino levará Anastasia a entrevistá-lo para um jornal universitário. No ambiente sofisticado e luxuoso de um arranha-céus, ela descobre-se estranhamente atraída por aquele homem enigmático, sombrio, cuja beleza corta a respiração. Voltarão a encontrar-se dias mais tarde, por acaso ou talvez não. O implacável homem de negócios revela-se incapaz de resistir ao discreto charme da estudante. Ele quer desesperadamente possuí-la. Mas apenas se ela aceitar os bizarros termos que ele propõe... Anastasia hesita. Todo aquele poder a assusta – os aviões privados, os carros topo de gama, os guarda-costas... Mas teme ainda mais as peculiares inclinações de Grey, as suas exigências, a obsessão pelo controlo… E uma voracidade sexual que parece não conhecer quaisquer limites. Dividida entre os negros segredos que ele esconde e o seu próprio e irreprimível desejo, Anastasia vacila. Estará pronta para ceder? Para entrar finalmente no Quarto Vermelho da Dor?

Opinião: Visto que a minha melhor amiga - que costumam levar o seu tempo a ler um livro - leu este “Cinquenta Sombras” em meia dúzia de dias e o declarou de dificuldade 0, sucumbi à curiosidade. Já suspeitava de que o conteúdo seria uma tristeza pegada e imaginei-me a fazer uma review suculenta a respeito do facto de a senhora ter presenteado o mundo com uma obra medíocre (calma, medíocre significa de qualidade mediana) - miserável - e ter enriquecido desse modo. Porque o sexo vende. Porque o que é fácil é acessível a todos. Porque prometia “sombras”, um homem cativante e, talvez para alguns, porque é um fanfic do Twilight. Graças a isto fiquei mais rica como pessoa; agora sei o que é um fanfic. Mas sou obrigada a pedir que me perdoem por ter tido tão pouca resistência a este best-seller, e até por não ser capaz de destacar todos os momentos dignos de reparo na obra. Estava a fazer-me mal à saúde...


Eu desconfio sempre quando há muito frufru em redor de algo - porque o que é do acesso comum geralmente tem standards muito baixos. Adolescentes excitadas, mulheres casadas que consideraram um escândalo de secretismo e ousadia adquirirem esta obra e lê-la no barco a caminho do trabalho. E ao menos considero que a E.L.James ensinou muita gente a ler - ao menos isso!
Bom, desisti, como não poderia deixar de ser, porque senti que me torturava mentalmente, na página 20. Li conteúdos semelhantes no “I’m In Love With a Pop Star” da Margarida Rebelo Pinto, mas na altura tinha 13 anos e, mesmo a custo, lá acabei o livro. Agora, dez anos depois, sou incapaz de dedicar o meu precioso tempo a coisas que me magoam o intelecto, por muito que prometessem uma review hilariante.
Desfolhando o restante livro, descobri que a deusa interior da senhora dança salsa com passinhos de merengue e, com isto, retorci-me e fechei definitivamente o livro. O senhor é aquilo que os brasileiros chamam um “babaca”. Há muito que sei que o maior poder é o daquele que pode, mas não faz. Uma pessoa que dá ordens atrás de ordens tem graves problemas de autoridade e a sua personalidade berra que, outrora, o pisaram e bem. Não é preciso ser psicóloga para adivinhar isso acerca do Sr. Grey, nem forçar-me a 500 páginas de tortura mental.

Em conversa com a minha amiga descobri algumas coisas preocupantes e ridicularizantes, adversas à verdade ou já do campo da ficção surreal.

A senhora tem um orgasmo na primeira vez? Hum.
A senhora toma uma primeira pílula e remove imediatamente o preservativo das brincadeiras? Não me admira que hajam fatinhos de bebés a dizer “Há nove meses atrás a minha mãe leu o Fifty Shades of Grey”...


Enfim.
Dá que pensar.

Classificação: 1*