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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Servidão Humana #3

Se eu conhecesse o Phillip Carey, provavelmente desprezá-lo-ia. Se fosse criada de mesa, jovem e pobre, provavelmente ter-me-ia aproveitado dele como a Mildred Rogers faz. Da página duzentos e pouco até à quatrocentos atravessamos os novos erros e avaliações de consciência do Phillip. Ele não consegue ser totalmente feliz porque, sendo uma pessoa do mais banal que existe, insiste em procurar ser maior, acreditando que algo de grandioso lhe está reservado. Este medo de perecer sem ficar na memória, sem responder às grandes questões filosóficas nem se engrandecer através da Arte ou duma profissão, é muito humano e identificável com todos nós. Com a diferença de que o Phillip é tão volátil que abandona tudo o que está a fazer a cada vez que acorda com os pés de fora. Como bem diz o seu tio vigário, falta-lhe perseverança. Ele quer algo fácil, instantâneo. Anseia por liberdade e por aventura mas, na realidade, é snob, burguês, aborrecido e insosso. É tão palpável, contudo, que é impossível não nos debruçarmos com interesse para esta personagem. É a Mildred, contudo, que até aqui fez emergir no Phillip o que de mais fraco ele tem. 


É-lhe servil, cegamente devoto – cegamente está aqui mal aplicado, porque ele reconhece que ela é estúpida, snob, pretensiosa, vaidosa, interesseira e obsoleta. Ainda assim, amava-a. É-lhe um paradoxo ver-se assim desprovido de razão e de integridade. Esta mulher, esta miserável criada de uma casa de chá, desdenha dele, aproveita-se dele, não se preocupa realmente com nada que lhe diga respeito e dispensa-o sempre que alguém lhe oferece algo melhor. É feia – lábios finos, pálida, anémica, magra, sem ancas, sem peito, de franja. E ele arde de desejo por todas estas imperfeições físicas, por uma vez familiarizado com as incongruências do amor e espicaçado pelo desejo carnal. Ele tem de tê-la. O rapaz tímido, ingénuo, é agora inflamado e espontâneo. Pena de ciúmes, é esbanjador em relação à atitude poupada anterior. Obcecado em conseguir o afecto desta mulher leviana, desperdiça até aquilo que poderia ter sido um bom futuro ao lado de uma viúva que o ama mais do que ele a ela. Mas como o próprio Phillip diz, o que importa no amor não é tanto ser amado, mas amar. E por isso sujeita-se aos caprichos da Mildred. Vejamos onde vai isto dar.
(Tendo lido mais cem páginas)

Concluo que o Phillip é daquelas pessoas tão desengraçadas e de tão baixa auto-estima que, por serem incapazes de se valorizar, pensam que só adquirem afecto comprando-o. Então, “aproveitando-se” dum momento difícil da Mildred – na realidade é ela que se aproveita dele – julga que a tem na mão porque ela precisa dele financeiramente. Embora tenha consciência de que ela é uma “cadela”, como ele próprio diz, que salta de colo em colo, é a única maneira de a ter e contenta-se com qualquer farrapo de atenção que ela lhe atribui. Em troca delapida a herança do pai em chapéus para essa ingrata (palavras dele próprio), vestidos, e chega ao ponto de ter tão pouco amor-próprio que lhe sustenta a filha de outro e lhe patrocina jantares e idas a teatros de variedades quando ela se enamora do melhor amigo dele. Mais do que isto… paga-lhes umas românticas férias em Oxford, tudo porque compreende que ela se tenha apaixonado pelo seu bom amigo, que considera tão mais cativante do que ele próprio, e porque assume que a culpa é sua por tê-los apresentado. Não estamos perante uma personagem vulgar ou cativante. O Phillip é uma pessoa desprezível na sua cobardia e na sua timidez. É incapaz de um gesto mau, tirando chamar-lhe “cadela” e ajoelhar-se-lhe aos pés em seguida, que sabe ele de dar-se ao respeito? Culpa o pé boto pelos seus problemas relacionais, mas nesta fase do livro acaba de ser confrontado por um jovem com pé boto que é perfeitamente feliz. Talvez tenha entendido que os seus problemas não são físicos, mas sim que sofre de uma fraqueza de carácter exasperante. Que personagens notáveis, Somer.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Servidão Humana #2

Algures no Goodreads surge uma review a este livro, com uma classificação bastante depreciativa, em que o identifica como “uma sucessão de erros da personagem principal”, é vê-lo cometer um disparate atrás do outro. Eu concordo com isto, mas adoro o livro por esse mesmo motivo. Acho que acabei de entender o que é que o Maugham pretendia com este livro: vêem-se assim expostos os vícios e as fraquezas de uma civilização a quem nada está vedado. As possibilidades são infinitas. Desde o meu último update, o Phillip já esteve em Inglaterra (Kent) e na Alemanha (Heidelberg), e também em grandes urbes como Londres ou Paris. Já trilhou uma espécie de Introdução à Contabilidade, que emerge na viragem do século como profissão de novos cavalheiros, e estuda Arte em Paris. No novo século é-lhe até difícil distinguir um cavalheiro dum comum trausente. No novo século as mulheres têm famas dúbias e envolvem-se em escândalos amorosos (mesmo as solteiras). Viveu um envolvimento conturbado com Mrs. Wilkinson, uma criaturinha que ele quase abomina mas da qual se serve apenas porque, na visão de Phillip, estava na hora de ter um romance para narrar aos amigos. Se Phillip é uma personagem amorosa, admirável? Não, Phillip é, na minha opinião, uma marioneta. Dança ao sabor das milhentas possibilidades do novo século. A Europa inteira é-lhe um anfiteatro de ruelas por onde se embrenhar. A onde ir? O que aprender? O que fazer? Quem ser? Phillip está perdido. Podendo ser qualquer coisa, dispersa-se. Terá vinte e poucos anos e já desistiu da carreira eclesiástica (desacredita Deus), já largou um ano de estágio em Contabilidade, está agora a desencantar-se com o seu parco talento para a pintura numa escola de Paris. Mas a culpa não é de Phillip, a culpa é dos tempos. Os tempos obrigam-no a ter um caso amoroso - e ele é muito susceptível ao que pensam dele, é muito orgulhoso e tímido também -, os tempos obrigam-no a deslocar-se para onde a vida fervilha realmente, a Cidade das Luzes, os tempos obrigam-no a querer imitar um Manet ou um Monet, um Renoir ou um Degas. O desafio é a limitação do seu talento aos seus almejos. Ele nem sequer é uma pessoa efusiva, mas deixa-se absorver pelas personalidades marcantes que vão surgindo aqui e ali, todas elas mais fortes do que ele. Ele é  uma sombra da luz que os outros emanam, absorve-os e tenta seguir-lhes o exemplo, quase sempre com fraco desempenho. Impressiona-se facilmente e, apesar de ser inteligente, é demasiado ingénuo (e novo) para se conhecer a si próprio. Está ancorado às convenções, ao que parece bem, enquanto brame que é um homem moderno e dono do seu destino. É uma alma fraca, ansiosa por se ligar a outras, ciumento, cobarde demais para ser cruel ou directo, persistente mas também teimoso, desmotivado e desmoralizado pela anomia social do século que se aproxima.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Servidão Humana #1


Conheci o Somerset Maugham através d’O Véu Pintado, e conheci O Véu Pintado através da adaptação de 2006 com o Edward Norton e a Naomi Watts. Filme precioso, um olhar íntimo sobre a vida privada de um casal dos anos 30. O livro é diferente; é desconcertante na sua abordagem ao coração humano, à inclinação incontornável ao erro, ao mais fácil, ao queimar-se uma outra vez na mesma chama. A profundidade humana é tocante, fascinante e qualquer leitor se identifica facilmente com estes espectros erróneos que o Maugham descreve. Foi um romance um pouco mais da minha linha, no sentido em que há uma relação central como fio da meada. Há a China, a cólera e a mulher infiel. E pronto, eu estava rendida. Não precisei de muito para penar pelo seu “Servidão Humana”. Já mencionei que, de visita à Russborough House, em Wiclow (Irlanda), parei numa biblioteca enorme à procura dum autor que conhecesse e, de entre todos os nomes desconhecidos, apenas Maugham me acenou? Foi como estar, subitamente, em casa.

SPOILERS, SPOILERS ALL AROUND!

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O livro começa com a morte de uma mãe. Uma criança órfã que anseia por carinho e por vitimar-se. É humano, será que vale a pena dizermos que quer vitimar-se? Trata-se apenas de tirar alguma vantagem das desgraças pessoais. Para este rapazinho, isso espelha-se no abraço, na palavra de compaixão, nos mimos que podem servir de recompensa à perda da mãe. Nesta primeira centena de páginas podia já o romance encerrar-se, e eu estaria já rendida e apaixonada. Não há romance, há apenas relações humanas. O servilismo, a existir, é do eu perante si próprio. Este Phillip Carey, esta pessoa tão comum e, contudo, tão intrigante, é já uma das minhas personagens favoritas de sempre. Isto porquê? Phillip sofre de todas as mesquinhices humanas: vaidade, mentira ocasional, orgulho exacerbado, ciúme injustificado, ocasionalmente inveja. Cresceu à sombra dum tio vigário e, por isso, nunca duvidou de Deus ou da veracidade absoluta da doutrina da Igreja Anglicana. Nunca, até certo ponto. Nesta primeira centena de páginas Phillip foi já confrontado com a possibilidade de vir a tornar-se também ele vigário e, posteriormente, começa a questionar, através de conhecimentos que faz na Alemanha, longe do Kent onde cresceu, se existirá realmente uma religião verdadeira ou um deus único. O que estou a apreciar é, sobretudo, o meu desbastar dos receios que alimentava quanto a este livro; é um livro enorme (lê-se incrivelmente bem), Somerset é um grande escritor, será que conseguirei acompanhá-lo? (ele esforça-se por vir ao meu encontro sem, no entanto, me tomar por imbecil), será um pseudo-intelectual? Terá algo a acrescentar-me? (o autor atira-nos para os olhos a ignorância de Phillip  mais gritante a cada vez que algo de novo lhe é ensinado. Tão vastas as extensões, depressões, viragens de rumo da Natureza humana num livro com ainda tanto para oferecer.
Philipp é tímido, tem pé boto, é inteligente mas tantas vezes estes dois factores impedem-no de expressar essa inteligência e é tomado por idiota. Cada pessoa com que se cruza – as que ama e as que odeia – são palpáveis e apaixonantes a seu modo. Mr. Carey, o tio vigário. Mrs. Carey, nunca mãe, tia de sangue, frágil e submissa (queixa-se, porque é mulher, obedece, porque é esposa). Mr. Watson, o director de colégio religioso que ri demasiado alto e é bruto a demonstrar carinho pelos alunos. Mr. Perkins, director da escola preparatória, descendente de um fanqueiro, por isso desprezado pela trupe de intelectuais abastados que ensinam nessa escola, tão inteligente e perspicaz que é finalmente com ele que a sagacidade de Phillip se expande.
Phillip a descobrir o poder da literatura para alheamento dos que vivem existências infelizes. Phillip a aprender a ser selectivo na Literatura. Phillip a considerar a Igreja Anglicana como um elemento de conforto na sua vida. Phillip a considerar deus um ultraje a igreja um embuste. Phillip a considerar a sua orfandade motivo de pena, de dessabor. Phillip a considerar o seu pé boto um entrave para criar ligações. Phillip a agradecer a deus pelo fardo do pé boto, que lhe permitiu crescer mais ou menos à margem dos restantes, aculturando-se enquanto os restantes jogam futebol. Phillip a querer alguém – um amigo – só para si. Phillip  odiar esse amigo. Phillip a querê-lo de volta. Phillip a querer desistir da escola, a lutar afincadamente para consegui-lo. Phillip inconsolável, irritado consigo mesmo, por ter conseguido deixar a escola, vencido a batalha, quando afinal tudo o que quer é ficar. E a sua comoção face à beleza, à arte, à natureza, surge como um marco importante na vida de qualquer ser humano. Foi naquele dia que primeiramente testemunhou a beleza, e a sua vida mudou.
Estou arrebatada, encantada por tanta complexidade. Estão aqui algumas das melhores personagens com que tive o prazer de privar na Literatura, juntando-se a Kitty Fane d’O Véu Pintado, Scarlett O’Hara e Rhett Buttler do E Tudo o Vento Levou, e Dr. Victor Frankenstein e o monstro, do livro homónimo ao médico.