terça-feira, 16 de julho de 2013

#94 ALCOFORADO, Mariana, Cartas Portuguesas


Na realidade já as tinha lido anteriormente, mas não sei se tinha lido todas e com o espírito com que as li agora. Estava em Beja, com as minhas duas irmãs, e senti necessidade de as ligar àquela cidade tanto quanto lhe sou ligada. Aproveitei as tecnologias para baixá-las da internet e ler-lhas, visto que no dia seguinte iríamos ao Convento da Conceição ver a janela que, afinal, não está no local original. Apenas os ferros são os mesmos.

Os franceses reinvindicam a autoria destas cartas, originalmente publicadas em 1669 em França e, posteriormente, na Alemanha. Não acredito que a profundidade deste retrato psicológico feminino pertença a um qualquer "escritor". Creio realmente que estes queixumes partem da mão da pessoa que sofreu, na pele, as agruras dum amor enganado, não correspondido.
Nas duas primeiras cartas, Mariana transparece o sopro nefasto da esperança, do desengano. Está apaixonada e crê que o Marquês de Chamilly sente igualmente a sua falta. Com o avançar das cartas, um ano depois, menciona o engano de que foi vítima. Lamenta ter-se-lhe entregado (é assim que entendo as alusões a prazeres e entrega), praticamente o acusa de ter sido oportunista e de a ter escolhido para desgraçar. O tom lamurioso torna-se aborrecido, como uma amiga que sofre por amor e nos enche os ouvidos. Já fui essa pessoa. A dada altura só nos apetece dizer: esquece-o, anda para a frente, já viste que ele não volta, que não vale a pena. Contudo a sua angústia é justificada e dói na alma.
Mariana referencia a D. Brites, madre do convento, a janela de Mértola, a cidade de Beja, os cavaleiros franceses. Isto sem o pretensiosismo dum escrito e com a veracidade de uma situação real.

Mariana nasceu em 1640, ingressou no Convento da Conceição aos 11 anos e lá morreu, em 1723. Não faço ideia se terá sido algum dia confrontada com algum leitor curioso a respeito das suas supostas cartas de amor.

Li também, há muitos anos, o Mariana da Katherine Vaz, que me deu a conhecer este episódio delicioso da nossa história.

#93 CARDOSO, Dulce Maria, O Retorno


Sinopse:1975 Luanda. A descolonização instiga ódios e guerras. Os brancos debandam e em poucos meses chegam a Portugal mais de meio milhão de pessoas. O processo revolucionário está no seu auge e os retornados são recebidos com desconfiança e hostilidade. Muitos não têm para onde ir nem do que viver. Rui tem quinze anos e é um deles.
1975. Lisboa. Durante mais de um ano, Rui e a família vivem num quarto de um hotel de 5 estrelas a abarrotar de retornados — um improvável purgatório sem salvação garantida que se degrada de dia para dia. A adolescência torna­-se uma espera assustada pela idade adulta: aprender o desespero e a raiva, reaprender o amor, inventar a esperança. África sempre presente mas cada vez mais longe.


Opinião: Que sei eu de África, além de que o meu avô era Angolano (do lado dos pretos, não do lado dos brancos que viviam em Angola)? É uma questão delicada, esta. Sempre tive uma perspectiva limpa, moralmente correcta – a dita esperada das democracias modernas que reconhecem a supremacia de cada Estado. Depois de ler este livro fiquei um bocado abalada nestas minhas convicções. Não acredito que a autora se tenha proposto a mudar a ideia de um qualquer português que nasceu no continente pós-guerra colonial e que enche o peito para dizer: quem nos mandou explorar os africanos? O continente é deles, o país era deles. Só fomos para lá fazer figura de ursos, perder pernas e braços para nada. O país, concluo agora, esqueceu-os a todos. Aos que perderam a terra – ditos Retornados – e aos que perderam os braços, os militares que trilharam as selvas e enterraram os companheiros de batalhão num qualquer recanto impensado da imensidão do desconhecido.
Neste livro da Dulce Maria Cardoso, tudo se resume a esta citação:
«Estou de luto, hoje morreu-me a minha terra, hoje tornei-me um desterrado, vivemos na certeza de que as terras não morrem, vivemos na certeza de que a terra onde enterramos os nossos mortos será nossa para sempre e que também nunca faltará aos nossos filhos a terra onde os fizemos nascer, vivemos nessa certeza porque nunca pensamos que a terra pode morrer-nos, mas hoje morreu-me a minha terra, hoje morreram os meus mortos.»
E aqui vêem o estilo narrativo da autora e sentem o desamparo que estas pessoas sentiram. Foram arrancados a uma vida que se esforçavam por construir, por querer melhor, e atirados para um país que os criticava e os não compreendia. 
Rui, Milucha, Glória são resgatados de Angola durante a ponte aérea e acolhidos num hotel de 5* na Linha do Estoril. Estão profundamente magoados; abandonaram a sua terra, a casa, as toalhas de bordados, a cadela, os amigos, o uísque favorito do pai, as palavras a que se haviam apegado – matabicho, em vez de pequeno-almoço, geleira em vez de frigorífico – o estatuto de “igualdade” face aos seus amigos da escola e das ruas. Mesmo o pai ficou para trás, levado pelos negros. E estas pessoas só conhecem uma realidade: uma África distante, à qual não poderão regressar.
Todo o livro é contado na primeira pessoa pelo rapazinho adolescente, Rui, que de repente se vê chefe de família. Através dos seus olhos vemos Angola, os seus produtos, a sua economia, a sua fertilidade, a desigualdade e mesmo a discriminação face aos negros, aos “paneleiros”, aos diferentes. Também Rui é assim, um decalque de toda uma mentalidade tão portuguesa e não tão ultrapassada quanto isso. A mãe é doente. A irmã é rapariga, não conta. Gostei da humanidade destas personagens, dos seus defeitos e imperfeições. A mãe, especialmente, é o género de pessoa que abomino. Dada a achaques, mentirosa, inventa histórias para que a creiam menos miserável, vulnerável, apegada a frigoríficos e rendas. Ainda assim, pelos olhos de Rui vemo-la e amamo-la. E o pai de dentes amarelos, brusco, incumpridor de promessas, que dá tareias de cinto e fuma demasiado é, ainda assim - sobretudo assim -, o nosso pai.
Aconselho a todos aqueles que queiram ter uma noção de família, de dificuldades, de recomeçar. O futuro, o passado, todos ali mesclados com a História do nosso país como manto de fundo a recordar-nos que um português que não baixa os braços é um português que aguenta tudo e vai longe. Uma importante mensagem nos tempos que correm.

Classificação: 5*****

sexta-feira, 12 de julho de 2013

#92 HOYT, Elizabeth, Vertigem de Paixão

Sinopse: Durante anos, Melisande Fleming amou Lorde Vale de longe... vendo-o seduzir uma sucessão de amantes e, uma vez, entrevendo a intensidade de sentimentos sob o seu exterior despreocupado. Quando ele é abandonado no dia do casamento, ela enche-se de coragem e oferece-se para ser sua mulher. Vale tem todo o gosto em desposar Melisande, nem que seja apenas para produzir um herdeiro. Porém, tem uma agradável surpresa: uma dama tímida e recatada durante o dia, ela é uma libertina durante a noite, entregando-lhe o seu corpo... mas não o seu coração. Decidido a descobrir os segredos de Melisande, Vale começa a cortejar a sua sedutora mulher - enquanto esconde os pesadelos dos seus dias de soldado nas Colónia que ainda o atormentam. No entanto, quando uma mortífera traição do passado ameaça separá-los, Lorde Vale tem de expor a sua alma à mulher com quem casou... ou arriscar-se a perdê-la para sempre.

Opinião: Diálogos fúteis, mas estranhamente adequados à época - vestidos, corte formal e pitoresca, esquilos, a comida, o vinho, o animalzinho de estimação. Quer dizer, estas pessoas não se conhecem quando se casam, parece-me lógico que não tenham nada de interessante a debater. Achei graça ao jeito do Jasper, porque disparava palavrinhas doces - e não sentidas - em cada frase. Acredito que na época fossem assim, namoriscadores. No entanto não consegui levar as personagens a sério. A história do tal "Jack", uma espécie de conto do soldado caminhante, não me suscitou nenhuma curiosidade. Passei quase tudo isso à frente. Li quase tudo na diagonal. Contudo entendi - porque também vivi algo parecido, a ânsia da Melisande relativamente ao Jasper. I mean... há seis anos que ela gostava dele - e queria estar com ele, conhecê-lo melhor, reconfortá-lo, desejava-o insanamente, etc. Esse desejo consumado é muito perceptível e traduz as ânsias dela, o seu acto de rebeldia ao pedi-lo em casamento. Essa parte foi-me fácil de entender. Mas não acrescenta nada ao género, não tem nada de invulgar. Os segredos de um e doutro são coisas previsíveis.
Não sei se vale a pena gastarem dinheiro nisto.

Classificação: 2,5**/*

domingo, 7 de julho de 2013

#91 TOLSTOI, LEO, A Sonata de Kreutzer

Um livrinho tão pequeno e com tanta intensidade! Foi a minha estreia com Tolstoi e maravilhou-me. É daqueles livros em que, de termos experienciado apenas a amargura de um lado da moeda, nunca saberemos o que sucedeu de resto. Este é um livro sobre um ciumento doentio, inseguro, cronicamente insatisfeito? Ou sobre um homem honesto que, na tentativa de se tornar num modelo de moralidade, casa como de si é esperado e é vítima duma vil traição? Haverá, de facto, traição?
O livro começa com uma viagem de comboio onde desconhecidos partilham a mesma carruagem. São russos numa Rússia do último quartel do século XIX. Pessoas que procuram acompanhar o progresso tecnológico, intelectual e, sobretudo, social da Europa, tantas vezes evocada como termo de comparação. Em seguida a história esvoaça para um caso que sucedeu há pouco: um marido que matou friamente a sua mulher, por suspeita de traição. Um dos passageiros é esse marido assassino, que se dispõe a contar ao nosso narrador o que aconteceu para o levar a esse extremo.
Portanto viajamos com um assassino, um homem perturbado, um fumador compulsivo que se esforça por beber chá e que nos introduz ao esperado do jovem russo; que visite prostíbulos, que conheça mulheres, que se proteja toscamente da sífilis e que, depois de “adquirir experiência”, escolha para si a mais inocente das jovens russas para casar. A ironia, o tom de crítica de Tolstoi e os seus ideais transparecem nesta tão pequena obra. Um homem sujo que apenas se acha digno da mais pura das mulheres. O pai honesto que folga em causar a filha donzela com o porco promíscuo mais rico disponível. O casamento sem amor, infeliz, fonte de desacatos, ódios, conflitos constantes.
Tolstoi parece culpar a sociedade por todos os erros cometidos na existência deste homem perturbado. Primeiro empurraram-no para as mulheres, por ser o esperado de si. Depois empurram-no para um casamento com uma jovem casta de boas famílias, para que ele a conspurque. Depois são incapazes de tolerar-se mutuamente, mas uma separação é praticamente impensável. Tudo isto é estranhamente contemporâneo – não a obrigação de a moça se casar, mas a efectividade de todas estas “imundícies” que causam dissabores e infelicidade parecem-me ainda presentes na nossa sociedade.
Acaba abruptamente, deixando-me um tanto ou quanto desconcertada. Dividida, confusa. Virei a página e, de súbito, com o chegar de um comboio a uma estação, há um adeus e o drama pessoal/conjugal encerra-se.
O autor é humano, contemplativo, reflexivo, provocador, capaz de analisar eventos como algo de maior, crítico e sarcástico. Um génio não apenas da literatura, mas também do coração humano.

Classificação: 5*****

terça-feira, 2 de julho de 2013

#90 ROSA, Carina, O Intruso




Opinião: Foi a minha estreia com a Carina Rosa. Tal como muitos outros leitores, também tenho sempre um certo “pé atrás” com os livros portugueses. Isto porque já li alguns mesmo muito maus, como sejam o de um beta-reading que fiz há pouco e que me deitou por terra. Não me ocorria um único motivo lógico pelo qual alguém quereria escrever tal livro e, pior ainda, porque o consideraria digno de ser lido por outrem.

Mas isto não é sobre essa experiência infeliz, é sobre o livro da Carina Rosa. Eu não sou muito ligada ao sobrenatural, tem que ser muito credível para me convencer. Por exemplo, eu não duvido nada que a Terra Média e Westeros existam - já lá estive! Mas não achei o enredo muito credível. Achei as personagens demasiado fáceis a dar-se (não é a dar um primeiro beijo ou um primeiro gesto de afecto). É a “dar-se”. Puff e estão apaixonados. E não sei se as suposições acerca de onde se conheceriam foram muito convincentes. O assunto das vidas passadas ficou um pouco subexplorado. Houve ali algumas reminiscências de romances do Nicholas Sparks que podem bem agradar alguns leitores. A autora é terna e tem classe ao expressar desejo e afecto. Palmas para ela, porque tenho lido coisas medonhas nesse campo.

Eu acho que a autora tem grande margem para crescimento. Tem sentimento e é expressiva, sem ser lamechas. Basta-lhe limar algumas arestas, cortar algumas expressões (e algumas vírgulas a mais) e está bem encaminhada. É mais do que se pode esperar de muito bons nomes a publicar por aí.
Fico a aguardar o próximo, porque não tenho dúvida de que esta autora vai crescer de trabalho em trabalho.
Sinopse: Sara é uma mulher deprimida e atormentada por um passado trágico. A casa que outrora pensara ser um refúgio contra as lembranças de uma vida que desejava esquecer, é agora um antro de sombras que a perseguem.
O reencontro com Martim, um rosto que lhe é de alguma forma familiar, de um passado longínquo, provoca-lhe uma avalanche de sentimentos que poderão mudar a sua vida para sempre. Mas o passado nunca poderá ser apagado e Sara vê-se obrigada a tomar decisões que podem fazer a derradeira diferença ente a vida e a morte.
Poderá Martim salvá-la de uma realidade que foge ao seu alcance? Ou poderá afundá-la ainda mais naquele poço sem fundo, em que não há saída possível, senão a morte?

Classificação: 3/5***



sábado, 29 de junho de 2013

#89 HOLMAN, Michelle, Do Céu com Amor


Sinopse: Depois de uma colisão frontal entre um elegante carro desportivo e um utilitário, um anjo bondoso faz uma troca na sala de espera do Céu. Uma professora baixinha, temperamental e amante de râguebi recebe uma segunda oportunidade e encontra-se no corpo de uma americana alta, deslumbrante e promíscua. Tem um marido rico e lindo de morrer que parece ter acabado de sair de um romance -, mas por uma razão qualquer, não suporta sequer olhar para ela. Ela pensa que enlouqueceu, e se contar a alguém as pessoas saberão que isso é verdade... e irão interná-la. E ela não pode fugir e esconder-se: tem uma perna partida.

Opinião:

Pormenores desnecessários acerca da minha história com este livro:


Comprei este livro ontem à tarde, apenas porque desde o anúncio da sua publicação que tinha ficado intrigada com a sinopse. A bem dizer não gosto muito de histórias fantasiosas - do género f**k logic! – mas decidi dar-lhe uma chance. Há muito que não lia nada simultaneamente cor-de-rosa e contemporâneo. Tenho lido muitos romancezecos histórico-eróticos, mas tinha desistido de todo de historietas contemporâneas. Aborrecem-me de morte e, talvez pela premissa deste livro ser tão diferente, adquiri-o. Eram quase sete da tarde de ontem e fi-lo porque o cabeleireiro só podia atender-me em meia hora e me mandou “dar uma volta”. Fui à livraria mais próxima e, após passar a vista pela montra, decidi-me por este.

Não dava nada pelo livro, honestamente. Foi mesmo a sinopse e a ideia do marido jeitosão que me convenceu. A girl needs a little romance. No entanto, esperava uma história às três pancadas – o dito f**k logic – com personagens estúpidas e muitos erros de comunicação e mal-entendidos. Nada disso. Mesmo a pedra-base da história acaba por ser credível, porque as personagens (todas) se esforçam por compreender o que aconteceu e adaptam as suas vivências a isso. Não é daquelas histórias em que algo estranho acontece e – sendo americanos, estou a lembrar-me dos filmes – aceitam isso com a naturalidade com que saem meninas do televisor para matá-los. Uns gritinhos e tal, e depois “A sério? O que havia de te acontecer!”
Lisa Jackson é fiel a si própria desde o momento em que desperta do acidente no corpo de outra mulher. Dan está ferido pela conduta promíscua da sua mulher e a distância entre ambos deriva daí. Contudo, são duas personagens palpáveis, humanas, inteligentes. O livro denota o cuidado que a autora teve com a pesquisa – fala-se de dislexia e outras questões médicas, posto que Dan é médico. Não há pontas soltas, não há personagens vazias. Há algum humor, tensão sexual e química bem-conseguidos, há mesmo uns laivos do dia-a-dia e da cultura da Nova Zelândia que me fazem considerar que estava enganada. Isto porque já tinha planeado trocar este livro assim que acabasse de lê-lo. Não, não, é meu!
Em geral gostei muito da Lisa e do Dan, foram definitivamente feitos um para o outro. O livro é comovente, emotivo, está longe do leviano embora tenha um ambiente muito positivo. A personagem principal está grata por estar viva. Mas também a família da Lisa – a irmã, Sherry, o irmão, Ben, o pai jardineiro e a mãe fumadora me entretiveram bastante. 
Basta dizer que abri uma excepção com este livro e comecei a lê-lo ontem no cabeleireiro, vim mais cedo do café-com-amigos-pós-jantar para vir lê-lo, deitei-me às tantas para lê-lo e hoje acordei às 9 para tomar o antibiótico e não voltei a deitar-me porque cometi a imprudência de abri-lo enquanto comia os cereais. Acabei agora.
Aconselho vivamente!

Classificação: 5/5*****

sábado, 22 de junho de 2013

#88 KLEYPAS, Lisa, Paixão Sublime

Sinopse: Quatro jovens damas da sociedade londrina procuram um bom partido. Chega a vez de Evangeline Jenner, a mais tímida, mas também a mais rica, logo que cobre a sua herança. Para escapar às garras da família, Evie pede ajuda a Sebastian, Lord St. Vincent, um conhecido libertino, fazendo-lhe uma proposta irrecusável: que se case com ela, trocando riqueza por proteção. Mas a proposta impõe uma condição: depois da noite de núpcias, os dois não voltarão a encontrar-se na intimidade, pois Evie não quer ser mais um coração partido na longa lista de conquistas de Sebastian. A Sebastian resta esforçar-se mais para a seduzir… ou entregar finalmente o coração, em nome do verdadeiro amor.

[Antiga review (fruto de uma ou duas leituras num brasileiro miserável e duma terceira - e quarta, e talvez quinta - leitura em inglês)]

5*


Dei-me conta de que não fiz uma review ao Devil in Winter, o meu favorito das Wallflowers! (Em Portugal corresponde ao #3 da série À Flor da Pele da 5 Sentidos). Tendo enviado um e-mail à editora, responderam-me que não preveem, de momento, mais nenhuma publicação nesta série. Fiquei destroçada e amaldiçoei esses bandidos sem coração! Mas também me recordei que já li o livro pelo menos duas vezes numa tradução brasileira manhosa que circula na internet, em inglês idem e até o comprei no book depository e esperei por ele duas semanas vindo do UK. É uma das pérolas da minha biblioteca, uma edição com muita classe que não denuncia o seu conteúdo...

Bom, certamente que quem já leu os dois volumes anteriores da série, sobretudo o que diz respeito à Lillian Bowman, se recorda do abominável Sebastian St. Vincent que atenta contra a pobre donzela a fim de a obrigar a casar-se consigo e a embolsar uma boa quantia? E lembram-se certamente também da ruiva tímida e gaga... a Evie? Pois bem, o terceiro volume das Wallflowers começa com a pobre Evie a munir-se de uma coragem que não sabíamos que dispunha e aborda o escroque. Pede-lhe... *aclaro a voz* que se case com ela. É um negócio simples: o pai dela está a morrer e vai deixar-lhe uma casa de jogo rentável. Em simultâneo ela é maltratada pelos familiares que olham por ela e quer livrar-se da sua influência.

É aqui que a história começa a ser interessante. O St. Vincent é um sacana sedutor habituado a enrolar-se com tudo o que mexe, mas está com graves problemas financeiros e não quer abdicar do luxo a que está habituado. Por isso não hesita em casar-se com a Evie...

Começa a sentir-se útil e a ser bem sucedido na gerência da casa de jogo do pai dela e, qual é o seu espanto, sente-se responsável e protector para com ela. Mas, e apesar de se sentir atraída pelo marido, ela não tem interesse algum em sofrer uma desilusão, ver-se traída ou confirmar que a sua amiga Lillian tem razão quanto ao mau carácter do St. Vincent. Para isso exige distância ... e isso é um chamariz para o St. Vincent, pouco habituado a ser rejeitado...
Adoro o livro porque as minhas personagens favoritas são sempre aquelas que se reinventam, as que se redimem. Li muitas vezes que o St. Vincent "mudou rápido demais", visto ser desprezível no livro anterior. Mas as pessoas não mudam rápido quando finalmente descobrem o seu lugar? Não parece que "nasceram" para aquilo? É assim o St. Vincent a gerir uma casa de jogo. Idem quanto à Evie. Nasceram um para o outro, sobretudo porque ela lhe dá uns quantos "nãos" nas barbas...


Nova review, baseada na edição da 5 Sentidos (Porto Editora) em PT - leitura de 21/22 Junho 2013.


4,5*

Antes de mais, continua a ser o meu romance do género favorito. Contudo a tradução - a escolha de certas expressões, bem como alguns erros que encontrei - deturpam-lhe um pouco a essência. O St. Vincent parece um homem diferente quando se expressa em Inglês daquele que se expressa em PT:
"Vou ter cuidado, minha pomba", traduzido de "I'll be so gentle, love", é um raio duma diferença. Fá-lo parecer parvo, na versão em PT. «Pomba» soa-me a um pervertido. Não no bom sentido, como o Sebastian é.
OK, este livro é o meu guilty pleasure. Adoro as personagens, as cambalhotas deles, a dificuldade que o St. Vincent tem em admitir que se preocupa mais com a Evie do que com o seu próprio ego. Mas a versão inglesa continua a ser a minha favorita.
Em Português, entre o casal principal, ora surge o tratamento "tu" ora surge "você, o senhor, a senhora". É uma discrepância difícil de ignorar, porque acontece também com outras personagens, que ora se tratam com deferência, ora assumimos que já estão mais à vontade, ora volta a surgir um "você" para nos desenganar.
Não consigo tirar da cabeça que, caso este género de livro passasse para as salas do cinema eu ia a voar vê-lo.
E sugeriria o Aaron Johnson para St. Vincent e a Rachel Hurd-Wood para Evie <3