segunda-feira, 4 de novembro de 2013

6# Capitão Phillips

Título oficial: Captain Phillips @ 2013
Realizador: Paul Greengrass
Banda Sonora: Henry Jackman
Actores principais: Tom Hanks, Barkhad Abdi
Classificação IMDb: 8,1
Minha classificação: 7
Prémios: ~

Quando estudei Psicologia, e mais tarde Ética, lembro-me de abordar um tema delicado. O sacrifício de uma colectividade por um indivíduo, ou de um indivíduo pela colectividade. Ontem, quando saí da sala de cinema, ainda não tinha dissecado o “Capitão Philips” a fundo. Se me perguntassem o que achei do filme, diria: “Foi a América a fazer-se de bonita, heroína e salvadora do dia, como sempre”. O filme é emotivo, por vezes de uma tensão tão aguda que dei por mim a tremer na cadeira também. É violento – às vezes uma troca de olhares, um murro, são mais violentos do que o descarregar de uma metralhadora em alguém. A expectativa de violência também contribui para a mesma.
Hoje, quando me perguntei porque é que não adorei o filme, entendi. Pare de ler agora quem está interessado em vê-lo, porque vem spoilers. O filme é o esmagamento de uma pequena nação, empurrada para a dita violência e para a pirataria e outros gestos desesperados, por uma nação muito maior. É o esmagamento de quatro indivíduos convictos, corajosos – ainda que os seus motivos não sejam os melhores nem o seu incentivo o mais honrado – para promover o salvamento de um quarto. Inocente, sim, mas, à luz das circunstâncias de um país e doutro, também os outros quatro indivíduos eram meras vítimas das circunstâncias.
O que se vê é o debater de um pequeno inimigo – inculto, ingénuo, despreparado, munido apenas de armas de fogo e aspecto feroz – contra um outro incomensurável. A América monta um pequeno teatro de guerra para recuperar o capitão, para se assegurar que o salva-vidas em que segue, refém dos piratas, não abandona as águas internacionais. Fá-lo mecanicamente, como que seguindo um protocolo simples. Abater três alvos, enjaular um quarto, salvar uma pessoa cuja vida se assume mais valiosa do que as outras quatro. Ok, I get it, inocente e tal, estava muito bem na vida dele e os piratas sabiam no que estavam a meter-se mas…
Pronto, já disse o que tinha a dizer. Serei a única pessoa a achar que o filme é sobre o desespero dos Somalis? A falta de opções, de recursos desses pescadores? Serei a única pessoa a achar que o filme não deveria ser sobre o Capitão branco que viveu uma bonita vida e sim sobre os jovens negros empurrados para o seu encalce?
O filme nem sequer se deveria chamar "Captain Phillips". Eu chamar-lhe-ia, apenas, "Captain/s".

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

#104 SHREVE, Anita, Testemunho

Sinopse: Uma pequena cassete de vídeo chega às mãos do director da conceituada Academia de Avery - uma catástrofe de proporções que ninguém será capaz de prever. Mais chocante do que os actos sexuais nela gravados é o facto de terem sido protagonizados por três rapazes com idades compreendidas entre os dezoito e os dezanove anos e uma rapariga de apenas catorze. Qual caixa de Pandora, a gravação desencadeia uma tempestade de vergonha e recriminação que se abate sobre a pequena comunidade, revelando uma intrincada teia de segredos e mentiras. Homens e mulheres, adolescentes e adultos envolvidos no escândalo tentam decifrar os acontecimentos daquela noite e os seus efeitos. Mike Bordwin, o director, quer a todo o custo conter o escândalo e salvaguardar a reputação da escola; Silas Quinney, um popular aluno, sofre as consequências dos seus actos, enquanto Anna, a mãe, enfrenta as suas próprias faltas; e Sienna, uma jovem enigmática e perturbada, não olha a meios para esconder o seu passado. As imagens reveladas suscitam mais perguntas do que respostas. Como foi possível tal comportamento no seio de um ambiente tão selecto? Quem é culpado e quem é inocente? Podem as consequências de um acto imprudente ser travadas ou o futuro de todos os envolvidos será irremediavelmente destruído? À medida que o coro de vozes se levanta, revela-se a surpreendente verdade sobre os acontecimentos daquela noite, e as vidas de todos os envolvidos serão transformadas para sempre.

Opinião: Um dos meus livros favoritos, lido em 2004 salvo erro, foi escrito pela mão de Anita Shreve. “A Praia do Destino” traduz uma visão única da condição humana e derruba barreiras quanto a questões regidas pela moral do senso comum. Um caso entre uma jovem de quinze anos e um médico de quarenta e um, ainda por cima casado, ainda por cima em 1899, é um desses casos de moral indiscutível. Mas a autora conseguiu promover um debate a fazer da humanidade e das circunstâncias, e foi isso que me comoveu e me rendeu nessa leitura. Um vídeo onde uma rapariga de catorze anos (por Deus, a minha irmã tem treze!), sexualmente experiente e madura, tem relações com três rapazes de dezoito e dezanove anos cai também na condenação moral do senso comum.
Uma cassete chega à posse do director da reputada Academia de Avery, no Vermont, onde a natureza dos actos registados constitui um crime. Acusados de abuso sexual, os três rapazes enfrentam a justiça, os pais e a própria consciência.
Trouxe este livro para Itália com esperança de fazer rendê-lo mas, apesar de ter dormido apenas três horas esta noite, o apelo durante o voo suplantou o cansaço e li as últimas cem páginas de enfiada. A abordagem da autora é única; cada um dos muitos envolvidos vai-se pronunciando a respeito do caso, e com estes recortes constitui um recorte alargado das consequências daquele “deslize” para toda a gente.
Cada personagem tem uma voz única, de início pode parecer que são muitas personagens, mas os capítulos são curtos e fui apontando os nomes dos envolvidos, dos pais, do director, do director que veio substituí-lo, da empregada do refeitório, do jornalista, da enfermeira, do xerife da cidade, etc. Cada relato é multidimensional, proferido em tom pessoal, e ajuda a compor os acontecimentos da noite de 21 de Janeiro em Avery, e também as consequências que daí advieram e os motivos que levaram a esse desfecho.
Afinal, falamos de dois casamentos afundados, um desgastado, uma morte, várias demissões, dois jovens com futuros promissores expulsos, um caso amoroso trágico e uma série de acasos inofensivos que, conjugados, culminam numa catástrofe. É precisamente isto que aprecio na Shreve; como o aparente “pouco” pesa tanto consoante as circunstâncias. Com esta aurora há sempre um cair das máscaras, um cavar mais fundo, um silenciar de coisas importantes, um deduzir, um calcular, um falhar. Adorei o modo como a autora conduziu o livro e as conclusões que dele tiramos; não há inocentes nem culpados, são todos vítimas das circunstâncias e, quase no fim, quis chorar. Ela faz-me sempre isto; chorei a ler “A Praia do Destino”, chorei a ler “A Casa na Praia”, chorei próximo do fim do “Casamento em Dezembro”, e choraria certamente neste não fosse o casal britânico a meu lado no avião.


Não consigo despregar-me da certeza de que estou perante um/a dos/as melhores escritores/as contemporâneos/as da actualidade. Não é um livro para estômagos fracos, porque a escritora não força o drama – nem floreia demasiado – mas é crua. E essa crueza revela o que de mais sujo e inquieto reside em cada um de nós. Perturbador, pertinente; um triunfo por entre a obra da autora, que assim se supera de novo.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

#103 OLIVEIRA, Carlos de, Uma Abelha na Chuva

Sinopse: Uma Abelha na Chuva conta-nos as peripécias de Álvaro Rodrigues Silvestre, sujeito às “instigações” de sua esposa, D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre. O livro começa com uma confissão de Álvaro e com a sua vontade de a tornar pública na primeira página da Comarca — uma redenção consigo próprio. 
Esta história leva-nos à aldeia de Montouro num Outono chuvoso, onde conhecemos as personagens que rodeiam este casal e constituem a aldeia e pelos quais ficamos a conhecer o Portugal provinciano de meados do século XX.Como afirma o autor, “Por onde a solidão a fazia resvalar. E o quarto tão frio. Talvez os ventos, os granizos do norte, as grandes chuvas. Talvez D. Violante. Mas sobretudo a velha casa de Alva, quando a miséria não chegara ainda e, atrás dela, os Silvestres. Agora é o marido labrego e doentio, as bebedeiras, o desencanto, isto. Quer melhores nortadas, D. Violante?”.O escritor ironiza a sabedoria popular, o largo da aldeia quando acolhe um ajuntamento popular, ancestral, onde tudo se discute, onde tudo se decide num julgamento popular e, tantas vezes, tacanho. E a morte, que persegue Álvaro numa bebedeira de brandy, a morte que tolhe Jacinto e Clara, à chuva, persiste em vingar neste livro.

Opinião: Uma Abelha na Chuva, publicado em 1953, é o retrato físico de uma mulher bonita, robusta, casada por dever com um homem que a ama, e que ela despreza. Um homem fraco, bondoso, bonacheirão. É um ensaio poderoso, que consiste na submersão por inteiro num mundo rural claustrofóbico, e também no pensamento de alguns estratos sociais aqui bem representados. 

Este livro veio ter comigo através do programa Grandes Livros da RTP 2, podem aceder-lhe aqui. Enquanto o esmiuçavam, passavam imagens a preto e branco do filme homónimo de 1971, e a prestação da Laura Soveral como D. Maria dos Prazeres captou-me a atenção. Uma mulher de aspecto tão firme, e, no entanto, quebrada por dentro. Esvaziada de doçura, de calor, de suavidade. O cabelo perfeitamente arranjado, e ainda assim um torvelinho na alma, evidente sob a superfície serena. Reconheci o tipo de força sustido por aquele rosto quase passivo que, de olhar baço, se insinuava no ecrã, arrebatando-o, cena após cena. As páginas deste romance, como um mergulho no quotidiano destas pessoas e das suas relações estéreis, expõem o casamento disfuncional de Álvaro Silvestre, pequeno proprietário rural, dono de uma mercearia, quem sabe outrora lavrador, e de D. Maria dos Prazeres, oriunda de uma família nobre em declínio. Apegada aos objectos que um dia coloriram o estatuto da família, esta personagem é de uma nitidez intimidante, mas, nem por isso está melhor composta do que as restantes. Todos os rostos ali criados por Carlos de Oliveira são dotados de uma admirável multidimensionalidade: é palpável uma certa hipocrisia no cura, uma ambição desmesurada no proletariado, uma asfixia da nobreza e a decadência moral de uma burguesia de vícios e fraquezas.

D. Maria dos Prazeres é apegada à tradição, ao passado, e é também uma vítima de ambos. Foi conduzida ao altar por um pai à beira da falência, e viu-se condenada a uma vida de infelicidade ao lado de um homem que considera fraco. É ela quem dá ordens e é obedecida, nos seus domínios, é ela que se vale do padre para espiar o marido. Contudo, nem tudo está dentro dos limites rígidos do seu controlo; não manda no próprio coração nem numa coisa que tem vida própria e que pulsa a cada vez que põe os olhos no cocheiro da casa; o desejo. Deseja o cocheiro rude, risonho, despreocupado, um pouco tosco que a segue para onde ela o mandar. Talvez porque ele seja uma antítese gritante do seu marido patético. Mas o cocheiro personifica um devaneio fora do seu alcance, e ela não dá um passo para inverter essa situação, quiçá porque essa atracção a vexe, ou porque, mal-grado o chamamento da carne, o considere indigno da sua pessoa. Enquanto isso o marido, também miserável, bebe. A acção decorre num espaço circunspecto, em que o mundo rural vem descrito de forma sublime – cheira-se, toca-se, sente-se, ouve-se. 

Tudo se precipita quando Álvaro ouve o cocheiro mencionar os indesejados olhares cobiçosos que a patroa lhe deita.

Uma obra, a meu ver, incontornável para quem procura compreender melhor o panorama do micro "neorrealismo" literário português. A passinhos de bebé, cá me vou aventurando na nossa literatura lusa. E tem valido muito a pena...

Classificação: 4****/*

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

#102 GUHRKE, Laura Lee, Prazeres Proibidos

Sinopse: Toda a mulher tem os seus prazeres proibidos…Para a delicada e tímida Daphne Wade, o mais apetecível prazer proibido é observar discretamente o seu patrão, o duque de Tremore, enquanto este trabalha numa escavação na sua herdade. Daphne foi contratada para restaurar os tesouros de valor incalculável que Anthony tem estado a desenterrar, mas não é fácil para uma mulher concentrar-se no seu trabalho quando o seu atraente patrão está sempre em tronco nu. Apesar dele não reparar nela, quem a pode censurar por, mesmo assim, se ter apaixonado desesperadamente por ele? Quando a irmã de Anthony, Viola, decide transformar esta jovem e simples mulher de óculos dourados numa provocante beldade, ele declara a tarefa impossível. Daphne fica arrasada quando sabe… mas está determinada a provar que ele está errado. Agora, uma vigorosa e cativante Daphne sai da sua concha e o feitiço vira-se contra o feiticeiro. Será que Anthony conseguirá perceber que a mulher dos seus sonhos esteve sempre ali?

Observação: Esta sinopse é das enganadoras.  A Daphne não é delicada tendo crescido com os beduínos no deserto, e a Viola não a transforma em coisa alguma! Tem dois dedos de conversa com ela e vai-se embora.

Opinião: Eu gosto da Laura Lee Guhrke, as personagens dela têm alma e dinamismo. Sofrem dos mesmos problemas que o comum dos mortais e são enternecedoras. A Daphne não é exactamente bonita, nem tem dinheiro, o que é um problemão mas, em compensação, cresceu no deserto do Sahara, andou pela Palestina, por Creta e pelo Egipto, fez férias em Roma e Nápoles e tudo isso contribuiu para que fosse a criatura viva mais apta para ajudar o Duque de Tremore a inaugurar o seu museu de Arqueologia. A descoberta de ruínas romanas na sua propriedade em Inglaterra constitui a maior paixão a que o duque se permite. Enquanto ela restaura mosaicos e ânforas, ele tira a camisa e vai escavando com os outros trabalhadores. Por detrás do avental de tela e dos óculos de aros dourados, ela observa-o, sonha com ele e desenha-o incontáveis vezes, sem nunca se atrever a almejar alguém tão importante para si. A paixão platónica de Daphne correu rela  tivamente bem, até que a irmã de Anthony surge e o obriga a reparar na rapariga. A troca de palavras entre irmãos, a seu respeito, deita a auto-estima de Daphne por terra. Ao contrário do que a sinopse promete, a Viola (irmã do duque) não lhe ensina coisa alguma nem a veste de princesa. A mudança que se dá em Daphne para que ele comece a reparar nela é simples: ela já não o quer, foi-se o enamoramento. Como consequência acaba-se-lhe a polidez e passa a responder-lhe à letra. A modos que ele gosta de ser desafiado e a troca constante de farpas leva à atracção e etc., etc. Não é um enredo original, mas gosto do apontamento de Arqueologia e adorei a questão da linguagem das flores. Ou seja, na época vitoriana, uma senhora lançou um livro com o significado de cada flor. Os amantes enviavam-sebouquets completos e liam-nos como que a uma carta. Gardénias: amor secreto, inconfessado, outras flores significam prisão, fidelidade e, tudo culmina, claro, numa rosa. Confesso, contudo, que pulei ali umas quantas páginas pelo meio. Quando não estavam juntos, eu quase adormecia (mas era realmente tarde, a ansiedade é que me obrigou a terminá-lo). Ainda assim, é um romance com bons alicerces e a pesquisa histórica foi feita.


Classificação: 4,5****/*

sábado, 28 de setembro de 2013

#101 BALOGH, Mary, Ligeiramente Casados

Sinopse: Como todos os Bedwyn, Aidan tem a reputação de ser arrogante. Mas este nobre orgulhoso tem também um coração leal e apaixonado - e é a sua lealdade que o leva a Ringwood Manor, onde pretende honrar o último pedido de um colega de armas. Aidan prometeu confortar e proteger a irmã do soldado falecido, mas nunca pensou deparar com uma mulher como Eve Morris. Ela é teimosa e ferozmente independente e não quer a sua proteção. O que, inesperadamente, desperta nele sentimentos há muito reprimidos. A sua oportunidade de os pôr em prática surge quando um parente cruel ameaça expulsar Eve de sua própria casa. Aidan faz-lhe então uma proposta irrecusável: o casamento, que é a única hipótese de salvar o lar da família. A jovem concorda com o plano. E agora, enquanto toda a alta sociedade londrina observa a nova Lady Aidan Bedwyn, o inesperado acontece: com um toque mais ousado, um abraço mais escaldante, uma troca de olhares mais intensa, o "casamento de conveniência" de Aidan e Eve está prestes a transformar-se em algo ligeiramente diferente…


Opinião: Comprei este livro com alguma relutância. Sempre me pareceu que os casais da Mary Balogh se unem mais por dever e honra do que por afecto. Não falo do momento que despoleta a sua união, mas sim do que os mantém unidos posteriormente. Não se vêem grandes paixões assolapadas, grandes lágrimas de desilusão amorosa nem grandes sacrifícios pelo outro (podem haver sacrifícios, sim, mas geralmente por promessas a moribundos na guerra, por ex.). Este livro não foge ao padrão dos dois livros anteriores: as guerras peninsulares travadas contra Napoleão levam três oficiais ao altar. Nos dois primeiros livros as noivas eram mulheres desadequadas, sem grande noção de etiqueta, e neste não é excepção. Apesar de ter sido educada para ser uma dama, Eve cresceu no Oxfordshire e é por lá que pretende ficar, sem almejar uma vida em Londres ou de aventuras atrás do seu coronel de campanha militar em campanha militar. O que eu mais gosto nos livros da Mary Balogh é, contudo, a honestidade e a honradez das personagens. Não são máquinas sexuais acéfalas, como em muitos outros livros do género, em que o homem é um “libertino” e um “ocioso”. Nos livros da Mary os homens são homens, mas são-no racionalmente. Têm as suas aventuras mas o dever e essa dita honra são a sua força motriz. Por vezes sinto que falta algo nos livros dela - uma certa espontaneidade, que outras autoras conseguem atingir tão bem, entre o casal principal. Neste caso não há grande química, grande “amor à primeira vista”. Nem o coronel Aidan Bedwyn nem Eve Morris se perdem de amores ao ver-se da primeira vez e ambos lutam por combater, na sua mente, aquilo que esperavam do outro e aquilo que ele é. Não há grandes elogios ao físico de um e doutro - Eve é pálida, demasiado magra, o cinzento morre-lhe na pele, o cabelo não é vistoso, é dum castanho comum, os seios são pequenos e ela envergonha-se disso. O coronel é um homem “sombrio”, de nariz adunco, olhos e cabelo escuro, a própria pele é escura em contraste com a dela, o corpo largo do serviço militar mas também de estrutura óssea. Ele próprio receia que ela se sinta repugnada pelo seu aspecto, mas depois percorrem um caminho de aceitação mútua. E é esta humanidade que eu aprecio na Balogh. Bem como a franqueza das personagens quanto às suas intenções e desejos. Não há o jogo do homem a perseguir a mocinha bonita e ela a negar-se-lhe por palavras e depois a atirar-se-lhe para o colo sempre que pode. A Eve é honesta mesmo na intimidade, e esse entendimento mútuo beneficia o livro, que se quer mais sério do que muitos do mesmo género literário. E é por isso que gosto dele, porque me identifico com essas criaturas imperfeitas e com esse amor construído. Porque também eu sou honesta no que tenho de ser e isso é parte de nos conhecermos e de assumirmos as nossas preferências e escolhas, mesmo aquelas que não têm grande explicação lógica.

Por isso foi para mim um prazer - e um livro assim é um conforto nos dias mais difíceis - acompanhar o modo como a Eve e o Aidan se vão tornando indispensáveis para a felicidade um do outro. E como o amor pode nascer do conhecimento das histórias e dos defeitos mútuos. E que bonito foi vê-los interessar-se e dedicar-se àquilo que para o outro há de mais sagrado!
Foi uma boa leitura que me angustiou quando havia frieza entre eles, e que me enterneceu quando se permitiam ser ternos e expôr a alma perante o outro. Um casal muito bom, inesquecível.

Classificação: 4****

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

#100 SERAJI, Mahbod, Terraços de Teerão

Sinopse: Este romance de estreia passa-se em Teerão, entre os anos 1973 e 1974, antes da revolução islâmica, ainda sob o opressivo regime do Xá Reza Pahlevi. Nesta obra de inspiração autobiográfica, as figuras principais são dois adolescentes em férias escolares que passam grande parte do verão a deambular pelos terraços das casas da vizinhança... Ali trocam confidências, sonham com o futuro, mas também ganham consciência das realidades mais duras da vida. Intenso, dramático e colorido, Terraços de Teerão dá-nos a conhecer a cultura iraniana, através das vidas de personagens em que nos reconhecemos no mais essencial da experiência humana.

Opinião: Há muito que queria ler este livro. A capa é lindíssima e Teerão soa a uma cidade distante, exótica e problemática. No dia 7 de Junho, em Roma, sentei-me à mesa com um iraniano de Teerão. Disse-me que há muitos milhões de cidadãos durante o dia na cidade, e que todos a deixam à noite quando regressam a casa. Falou-me de zonas no Irão onde a temperatura ascende a 48º, e outras zonas geladas onde é impensável viver-se.

Pouco conheço do Médio Oriente, mas compreendo os conflitos de interesses EUA/URSS do século XX, e o jogo político comunismo/capitalismo. Também entendo o funcionamento de uma ditadura, mas o melhor que este livro me passou foram as pequenas curiosidades a respeito do Irão e da cultura desse povo. Herdeiros dos Persas, têm uma história de sangue e sofrimento, são na maioria Islâmicos e, em 1973, quando o livro tem lugar, são pouco simpatizantes do novo estado de Israel (pós II Guerra Mundial). O livro ilustra o ambiente de repressão e medo pré-revolução iraniana. O Xá impôs-se à população através do apoio prestado pelos EUA. Isto para evitar que o país se dobrasse às ideias marxistas. A ditadura imposta por esse chefe impede que se discuta qualquer assunto político, censura certos livros e proíbe publicações e opiniões adversas por parte dos cidadãos. A SAVAK – polícia política também financiada pelos EUA – é tanto um mito urbano quanto uma sombra de terror a pairar sobre todos. Qualquer suspeita de traição ao Xá, de raiva para com o regime, culmina num aprisionamento aparatoso, isolamento, tortura física e psicológica. Por vezes o prisioneiro é ilibado – a família é exilada e instruída a silenciar o assunto. Outras vezes morre sob tortura, o corpo é devolvido se pagarem “as balas” e enterrado num local desconhecido. A família não pode chorá-lo, visitá-lo nem prestar-lhe luto. Deve esquecer o rebelde e proceder de acordo com o esperado pelo regime.

É neste contexto de opressão intelectual que crescem o jovem Pasha e Ahmed, o seu melhor amigo. Nas noites quentes desse verão, estendem-se no terraço a partilhar as inquietações de amor, os pequenos gestos de resistência ao regime, as histórias dos seus antepassados e as particularidades de carregarem a herança dos Persas. O livro é divertido, por vezes comovente, e a narrativa é fácil de acompanhar. Conta com um leque de personagens inesquecíveis e muito humanas que o pintam de um realismo enternecedor. É um triste conto sobre jovens enérgicos e inconformados, que perdem muito daquilo que lhes é querido, lidam com o luto e a frustração e tornam uma simples roseira num símbolo de resistência ao regime. Comovente em larga medida, peca apenas pela repetição dos raciocínios. Situações passadas, características específicas de personagens/locais, desejos inconfessados, conclusões a que o personagem principal chega, são várias vezes repensados e o sofrimento é uma constante, mas esta recorrência cansa um pouco o leitor mais para o fim.
Contudo é um muito bom livro, uma boa porta de contemplação – e compreensão – para com o Médio Oriente.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

#99 KUNDERA, Milan, A Insustentável Leveza do Ser

Opinião: Digamos que não me foi difícil compreender o espírito de Milan Kundera. Mas não me foi exactamente fácil lê-lo nem acompanhá-lo. A narrativa segue ao ritmo das ideias, das emoções, da imaginação, devaneios e sonhos. As personagens são multidimensionais, vão de um extremo ao outro, são imprevisíveis, inconstantes. Causam desconcerto, empatia, repugnância, compaixão, estranheza, alienação. Tudo na mesma página. Algumas reflexões contidas nesta obra são autênticas pérolas de saber. Viver uma vida é como não viver. Uma vida sem um esquisso é, então, receita para desastre. Algo pesado é negativo e algo leve é positivo. Tudo isto mergulha em nós quando nos encontramos num espírito receptivo a “aprendizagens” mais profundas e superei as minhas expectativas ao lê-lo em quatro viagens de comboio – Richtweg-Hamburgo, Hamburgo-Richtweg, Richtweg-Hamburgo-Bremen e Bremen-Hamburgo-Richtweg. E estava lido mais este “a ler antes de morrer”.
Do que trata este livro, afinal? Meros devaneios existenciais? Não, não. Trata a Primavera de Praga, a influência do regime comunista sobre a Europa de Leste/Central. A opressão, as perseguições políticas, o sufoco do povo e dos intelectuais. A busca pela felicidade, a emigração, o exílio, o campo, a ci
dade, a fidelidade, as ânsias da alma e do corpo, as necessidades do corpo e as premências da alma. O amor a uma cadela que se trata por cão. Uma cultura um pouco “alemanhizada” aqui bem presente, sem que eu o esperasse. Ditados alemães, Nietsche a chorar abraçado a um cavalo porque o cocheiro lhe aplicou uma chibatada, Beethoven e o “es muss sein!”. Enfim, uma enxurrada de acontecimentos com pessoas mais ou menos banais que se conhecem por uma série de acasos e nas quais Kundera deposita, com habilidade, as falhas de carácter e de insustentabilidade de ser de cada e qualquer humano.

Foi lido no momento certo. Não morri de paixão por ele mas reconheço-lhe o signo do talento genuíno.


Classificação: 4.5****/*

Sinopse: A Insustentável Leveza do Ser é seguramente um dos romances míticos do século XX, uma daquelas obras raras que alteram o modo como toda uma geração observa o mundo que a rodeia.