segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A Filha do Barão


Há muito que queria escrever um romance histórico. A História é a minha grande paixão e a escrita é o meu modo de crescer e de me expressar. Há cerca de cinco anos que investigo o Terramoto de 1755 e, antes de começar a escrever o “1809”, agora apenas “A Filha do Barão”, fiz várias tentativas goradas de começar a escrevê-lo. O terramoto de 1755 é um poço sem fundo de informação. A cada passo que dava, descobria outro estudioso, outro contemporâneo, outro documentário português, europeu, brasileiro, etc., a seu respeito. No entanto, não me sentia com forças de começar esse romance.
Quando comecei a escrever “A Filha do Barão”, tudo o que sabia era que tinha alguns elementos díspares que iria tentar combinar; um inglês empreendedor, o vinho do porto nas mãos dos britânicos, uma jovem teimosa, um casamento arranjado. E era tudo. Sabendo que estava bloqueada quanto ao “1755”, decidi que este livro seria uma experiência. Seria eu capaz de criar algo que me satisfizesse no campo da ficção histórica? Perguntava-me quantas vezes tropeçaria na mesma cena. Enquanto estivessem sentados, de onde era a cerâmica?     Que motivos exibia? Como se dirigiam uns aos outros? De quantos serventes dispunham? Quais as tarefas diárias de um lar? As obrigações religiosas? O traje? As jóias? O esperado de cada estrato social? Adivinhava-se demasiado difícil. Se calhar é por isso que tanta gente opta por pegar numa rainha de vestes opulentas e investigar-lhe a vida ao pormenor. É bem mais fácil dissertar sobre alguém famoso, sobre o qual há tantos rumores e referências, do que criar alguém de raiz e implantá-lo no início do séc. XIX. Contudo, após ler vários capítulos da Gazeta de Lisboa, comecei a mergulhar na mentalidade da época. Uma notícia em especial deu-me alento para continuar: um tal de senhor Manuel morria, aos 104 anos, e conservara todos os dentes. Trabalhara até ao fim. E, com isso, estava o pontapé de saída dado. Acostumei-me aos ofícios, aos dinheiros, à forma de tratamento. Dei alma às personagens e vali-me de inúmeras notas, bem como dos diários da Clarissa Trant, para avançar na trama. Um dos pontos cruciais seria estabelecer um prisma através do qual os britâncios vislumbrassem os portugueses. Foquei-me nas diferenças, nos passados, nas alianças, nas centenas de romances de época que li passados na Inglaterra. Debrucei-me ainda na moda, no progresso, nas ligações políticas entre os dois países, na cozinha, na bebida, nos serões de cavalheiros de um e doutro país. E apaixonei-me; pela época, pelos ideais e por estas pessoas.
De todos os livros que escrevi até agora, é ao reler “A Filha do Barão” que menos me reconheço. Porque este livro foi, mais do que qualquer outro, uma criação minha para mim. Para que eu possa ler aquilo que gostaria que existisse no mercado da literatura portuguesa. Há alguns romancistas históricos no panorama nacional que me afastaram dessas leituras, alguns deles têm vários livros em séries de rainhas, personagens icónicas da nossa História, mas achei-os tão insípidos… As rainhas como mártires, como receptáculos de desgraças e profecias de catástrofes, a estrutura muito habitual, as melancolias da infância e as projecções goradas de futuros. Não me surpreenderam nem me prenderam de modo algum. Noutros casos, a pesquisa histórica estava tão atabalhoadamente incrustrada no livro que se separa, sem dificuldade, a ficção da informação que o autor insiste em despejar naquelas páginas. Confesso que nunca li a Maria Teresa Horta nem a Maria João Lopo de Carvalho, mas os traumas anteriores fazem com que a vontade seja pouca.
Precisava de ir à livraria e encontrar algo que combinasse História - do meu país, de preferência -, erotismo com nível, personagens com conteúdo e um enredo que me prendesse. Não encontrando, sentei-me a escrever sobre este amor construído. Sobre estas pessoas imperfeitas que se esforçam por se aperfeiçoar, por crescer e por fazer face aos obstáculos de uma época conturbada.
No livro abordo não apenas as invasões napoleónicas, mas também a queda da Ponte das Barcas e a partida da família real para o Brasil. São três acontecimentos de grande importância para a nação portuguesa, entrelaçados com a história de Inglaterra, da França, da Espanha e do próprio Brasil. Não foi um momento fácil para me estrear nestas andanças, mas se não encontrasse algo que me cativasse teria sido incapaz de levar este romance a bom porto.
Escrito na íntegra entre Abril de Novembro de 2012, sofreu várias revisões e ajustes. Agradeço à Ana Ferreira e à Inês Montenegro pelos conselhos a seu respeito. Houve muito a desbastar.

Em breve convosco, prometo 575 páginas daquilo que, até hoje, escrevi de melhor. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

8# 12 Anos Escravo

Título oficial: 12 Years a Slave @ 2013
Realizador: Steve McQueen
Banda Sonora: Hans Zimmer
Actores principais: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong'o
Classificação IMDb: 8,6
Minha classificação: 9
Prémios: Nomeação para Globo de Ouro de Melhor Actor Principal (Chiwetel Ejiofor)  Nomeado para Globo de Ouro de Melhor Actriz Secundária (Lupita Nyong'o) Nomeado Para Globo de Ouro de Melhor Actor Secundário (Michael Fassbender), Nomeado para Globo de Ouro de Melhor Realizador (Steve McQueen), Nomeado para Globo de Ouro de Melhor Argumento, Nomeado para Globo de Ouro de Melhor Banda Sonora (Hans Zimmer)


Quando vi o trailer deste filme fiquei ansiosa por poder vê-lo. Isto porque me interesso sobremaneira por tudo o que se relacione com a Guerra Civil americana, o sul esclavagista (E Tudo o Vento Levou) e o norte abolicionista (Lincoln). Por entre esses prismas unilaterais, surge este filme inesquecível de um realizador que me permiti ignorar durante demasiado tempo. Um filme que unifica a maneira de pensar do norte e do sul e que arrasta esta personagem de fibra, Solomon (Chiwetel), até uma nova identidade: Patt. Jamais tendo sido escravo, Solomon tinha a sua vida bem encaminhada em Nova Iorque. Era violinista e sustentava a família. De repente vê-se enganado e arrastado para aquele que identifico como o estado mais esclavagista dos EUA, a Georgia. Uma vez aí, é aconselhado a silenciar-se a respeito da sua instrução e da sua verdadeira identidade. Por entre os canaviais, as plantações de algodão e os múltiplos serviços que lhe são atribuídos, Solomon não esquece a família. Ocasionalmente é-lhe permitido tocar violino e cruza-se com pessoas de graus de humanidade variadíssimos, desde um amo bom (Benedict Cumberbatch), mas esclavagista, a um amo que lê as escrituras e tortura os escravos por mera maldade e ganância (Michael Fassbender). A esposa deste amo (Sarah Paulson) sofre com a sua obsessão por uma escrava específica, Patsey (Lupita), e canaliza os ciúmes e a humilhação por se ver assim preterida em pequenos gestos de maldade mal-contida. E assim se observa o quão expostos os negros estavam aos estados de humor dos brancos. Tratados como animais, avaliados pelo seu potencial de lavoura, chamados de "besta", privados até de um pedaço de sabão para se lavarem. O filme relata o modo como as frustrações, a honra e a virtude de um branco assentavam sobre o poderio que detinha sobre um punhado de negros. A sua riqueza, o seu dia-a-dia, tudo girava em torno daquelas criaturas que trabalhavam de sol a sol e dançavam ao som da sua música. 
De todas as vergonhas da humanidade - e temo-las em larga escala, alturas em que quem ficou imóvel permitiu que catástrofes se dessem -, destacaria a escravatura como a mais desumana. Isto porque teve lugar ao cabo de longos séculos de cega imposição de um tom de pele sobre outro. Longos séculos em que fomos todos desprovidos daquilo que define o Homem como algo de belo: a compaixão, a irmandade, a cooperação.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

#105 WILDES, Emma, Lições de Sedução

Sinopse: Uma verdadeira senhora não deveria aceitar lições de uma cortesã - ou deveria? A recente esposa do duque de Rolthven, Brianna Northfield, é distinta, recatada e educada - tudo o que uma jovem noiva deve ser. E que diria a sociedade se a visse com um exemplar de Os Conselhos de Lady Rothburg - um livro de lições de uma cortesã sobre comportamentos de boudoir? O muito respeitável duque, seu marido, não aprovaria, mas encontra-se demasiado ocupado com as suas obrigações ducais para prestar muita atenção à sua jovem esposa. Embora, se Brianna conseguir o que quer, isso esteja prestes a mudar… Quando a sua jovem, bonita e inocente esposa se torna, de súbito, entendida na arte do amor, Colton Northfield é apanhado de surpresa. Se antes a deixava por conta própria agora quer a sua companhia na ópera, na carruagem, e até durante o chá na sua propriedade da província, mas não pode deixar de ficar alarmado com os poderes sedutores. Onde terá ela aprendido tais expedientes? No entanto, a campanha escandalosa de Brianna está a desenvolver-se de formas que ela nunca poderia ter imaginado… Seguir os conselhos de uma cortesã pode ter graves consequências, mas valerá a pena se conseguir o seu desejo mais secreto: conquistar o amor do marido.


Opinião: Segui o conselho da Sandra Sousa e peguei neste primeiro livro da Emma Wildes. Não lia nada desde 16 de Outubro (Testemunho, Anita Shreve), pelo que queria algo que não exigisse demasiado de mim e, ainda assim, me permitisse abstrair-me.
Como estreia, posso dizer que o livro não foi nada de surpreendente, embora tenha sido diferente da típica ficção histórica com um toque de erotismo. Neste livro, ninguém está morto por desposar ninguém. Ao invés, o casal principal leva um casamento recente (3 meses) e aborrecido. O marido, um aristocrata qualquer, é conservador, distante e incapaz de demonstrar sentimentos ou emoções. Casou-se com a Brianna porque ela é "bonita", e essa beleza é várias vezes apregoada no livro. A cada vez que se dirigiram a ela, era a "bonita esposa de", a "bonita mulher de". Quando ele estava perante ela, eram os seus "bonitos cabelos" e a sua "bonita cara". Pronto, entendi. A mulher é linda, tem peito farto, é loira e tem olhos azuis. Ele também é um bonitão. Não me parece difícil que se amem, por isso o livro não me acrescentou grande coisa. Gosto de livros onde duas pessoas imperfeitas se complementam e evoluem juntas. Achei-o um pouco superficial, no sentido em que a Brianna começa a ler o tal livro com dicas de sedução da Madame tal e o marido responde a todos os seus jogos com prontidão. Sendo um homem tão reservado, eu teria gostado mais de ver ali algum debate interior. Também quando à Brianna, uma coisa é ler, outra coisa é parecer que nasceu ensinada, como é o caso no livro. Não tem grande receio de que os ensinamentos custem a pôr em prática, nem parece insegura, tímida ou intrigada com a espécie de intimidades que vai lendo e que, segundo o próprio marido tantas vezes salienta, a sua educação jamais teria lançado luzes sobre esses assuntos.
Gostei da reviravolta em que ele põe a possibilidade de que, para ser tão "sabida", provavelmente tem um amante. OK, isso foi novidade. Gostei do modo como nenhum dos dois se lançou em discussões sem sentido. Mas, no geral, foi um livro sem grande complexidade nem alma. E misturar o casal principal com outro é uma fórmula que, para mim, não resulta. Principalmente porque é dado o mesmo destaque e praticamente o mesmo numero de paginas a ambos. Era dividi-los ao meio e fazer dois livros com substância, na minha opinião.
Não sei se a voltarei a ler.

Classificação: 3***/**

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

7# A Queda


Título oficial: Der Untergang @ 2004
Realizador: Oliver Hirschbiegel
Banda Sonora: Blutrote Rosen
Actores principais: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara
Classificação IMDb: 8,3
Minha classificação: 6,5
Prémios:
Nomeado para Melhor Filme de Língua Estrangeira (USA),
Nomeado para Melhor Filme de Língua Não Espanhola (Argentina), 
Nomeado para Melhor Actor Bruno Ganz (European Film Awards), etc.
Melhor Filme Estrangeiro (Amanda Awards, Noruega),
Melhor Filme Nacional (Bambi Awards, Alemanha)
Melhor Filme Estrangeiro Independente (British Independent Films Awards)
Etc.

Estive o dia todo de cama, possivelmente com outra das minhas infecções respiratórias e apeteceu-me ver um filme. Die Untergang, ou Downfall, “A Queda”, de 2004, é de realizador alemão, natural de Hamburgo. Eu não sabia muito a respeito da Alemanha ou dos alemães até à minha curta estadia de uma semana em Richtweg, mas uma coisa soube ler nos seus rostos: desolação. Não entendia o porquê do peso que Hamburgo transportava em cada esquina. Toda a cidade parecia nova e cuidada, mas havia qualquer coisa que me mantinha de pêlos eriçados quando caminhava sozinha por aquelas ruas. E então descobri a Igreja e Torre de São Nicolau, o único edifício que parece velho em Hamburgo. Agregado à torre, existe um museu que é, na realidade, uma lembrança viva do que foi o suplício da II Guerra Mundial para os alemães. Em Hamburgo, ofereciam-se jogos de tabuleiro às crianças onde os ensinavam a como se proteger de um raid aéreo. Em Julho de 1943, grande parte da cidade foi arrasada por um raid aéreo – a Operação Gomorrah -, levada a cabo sobretudo por britânicos. Para a Alemanha nazi, desviar a atenção da capital para outro ponto de interesse estratégico como Hamburgo era essencial. Para as pessoas que lá viviam, foi um horror que, mesmo setenta anos depois, continua impresso nos olhares de toda a gente.

É impensável que num mundo esclarecido, num século XX tão prometedor, algumas mentes tenham sido capazes de se sobrepor a outras de modo tão efectivo que causaram a miséria de todo um continente e quase o colapso de uma civilização.
Em “A Queda”, Hitler surge como um velhinho trémulo e orgulhoso, que deixou de fazer sentido e, portanto, de ser obedecido. É educado e cortês, mas sofre assomos de fúria. Recusa-se a acreditar que o seu sonho de uma Europa unida se desfaça assim, com os Russos a sobrevoarem Berlim e a bombardearem o coração do III Reich. Mesmo nos seus últimos dias, o Führer não acredita que vá fracassar. Movimenta esquadrões militares que já pereceram a esquematiza ataques que estão fora de questão. A Alemanha já não se pode defender e os últimos crentes rodeiam-no nas suas horas finais, demonstrando fé na sua pessoa e no ideal de Nacional Socialismo.

Segundo o filme, criação alemã sobre um momento tão significativo para a história alemã, o Füher demonstra um total desrespeito para com os civis e para com a vida humana. Oficiais são executados sumariamente, civis são enforcados, hospitais são encerrados com dezenas de idosos apinhados na cave à espera que os Russos cheguem e decidam sobre os seus destinos. Toda a gente parece pronta a suicidar-se por este ideal e por este homem que lhes pede que o façam, se tudo se resumir a isso ou ao cárcere às mãos dos russos, e mesmo uma mãe é retratada a levar todas as suas crianças a engolir pílulas suicidas. A pastora alemã de Hitler e Eva Braun não se salva ao capitular do Império, sendo mais uma das vítimas inocentes que narram o absurdo desses últimos dias. Os oficiais de patentes superiores suicidam-se das mais diversas formas, sobretudo os membros da SS, que se recusam a cair nas mãos dos Russos. Dizem que não faz sentido "sobreviverem à morte de Hitler".
Destaca-se, ao longo do filme, uma jovem dactilógrafa, Traudl Junge, que só próximo do final se apercebe da loucura surreal que a rodeia e decide que é jovem demais para perecer. Esse gesto não demonstra deslealdade para com o governo, mas sim um despertar do seu alheamento, que a levou a ignorar as atrocidades que eram cometidas pelos nazis.
Todo o filme é povoado de devotos Nacionais Socialistas, sendo que o que os difere é apenas o nível de humanidade que ainda carregam no peito, bem como a sua perspectiva sobre o desperdício da vida humana para uma causa perdida. De resto todas as personagens que circundam Hitler nos seus dias finais são fiéis agentes do nazismo, pelo que não vale a pena verem o filme à procura de qualquer tipo de oposição idealista àquilo que sabemos ter sido a Alemanhã Nazi.

As emoções são um pouco confusas na construção deste retrato dos últimos dias no bunker com Hitler. Sendo este alemão, sobre alemães, os mesmos parecem impávidos perante situações que escandalizariam qualquer pessoa com um mínimo de coração, mas depois as mulheres surgem como criaturas histéricas a berrar por coisas que parecem mínimas. Não consigo, sequer, decidir se gosto do filme ou se o mesmo é bom. Todavia, Bruno Ganz, como Hitler, afigura-se-me sublime. Foi a única personagem que transmitiu emoções coesas. É difícil ler emoções nos filmes germânicos, mas penso que “A Vida dos Outros” esteja bem melhor nesse campo do que “A Queda”.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

6# Capitão Phillips

Título oficial: Captain Phillips @ 2013
Realizador: Paul Greengrass
Banda Sonora: Henry Jackman
Actores principais: Tom Hanks, Barkhad Abdi
Classificação IMDb: 8,1
Minha classificação: 7
Prémios: ~

Quando estudei Psicologia, e mais tarde Ética, lembro-me de abordar um tema delicado. O sacrifício de uma colectividade por um indivíduo, ou de um indivíduo pela colectividade. Ontem, quando saí da sala de cinema, ainda não tinha dissecado o “Capitão Philips” a fundo. Se me perguntassem o que achei do filme, diria: “Foi a América a fazer-se de bonita, heroína e salvadora do dia, como sempre”. O filme é emotivo, por vezes de uma tensão tão aguda que dei por mim a tremer na cadeira também. É violento – às vezes uma troca de olhares, um murro, são mais violentos do que o descarregar de uma metralhadora em alguém. A expectativa de violência também contribui para a mesma.
Hoje, quando me perguntei porque é que não adorei o filme, entendi. Pare de ler agora quem está interessado em vê-lo, porque vem spoilers. O filme é o esmagamento de uma pequena nação, empurrada para a dita violência e para a pirataria e outros gestos desesperados, por uma nação muito maior. É o esmagamento de quatro indivíduos convictos, corajosos – ainda que os seus motivos não sejam os melhores nem o seu incentivo o mais honrado – para promover o salvamento de um quarto. Inocente, sim, mas, à luz das circunstâncias de um país e doutro, também os outros quatro indivíduos eram meras vítimas das circunstâncias.
O que se vê é o debater de um pequeno inimigo – inculto, ingénuo, despreparado, munido apenas de armas de fogo e aspecto feroz – contra um outro incomensurável. A América monta um pequeno teatro de guerra para recuperar o capitão, para se assegurar que o salva-vidas em que segue, refém dos piratas, não abandona as águas internacionais. Fá-lo mecanicamente, como que seguindo um protocolo simples. Abater três alvos, enjaular um quarto, salvar uma pessoa cuja vida se assume mais valiosa do que as outras quatro. Ok, I get it, inocente e tal, estava muito bem na vida dele e os piratas sabiam no que estavam a meter-se mas…
Pronto, já disse o que tinha a dizer. Serei a única pessoa a achar que o filme é sobre o desespero dos Somalis? A falta de opções, de recursos desses pescadores? Serei a única pessoa a achar que o filme não deveria ser sobre o Capitão branco que viveu uma bonita vida e sim sobre os jovens negros empurrados para o seu encalce?
O filme nem sequer se deveria chamar "Captain Phillips". Eu chamar-lhe-ia, apenas, "Captain/s".

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

#104 SHREVE, Anita, Testemunho

Sinopse: Uma pequena cassete de vídeo chega às mãos do director da conceituada Academia de Avery - uma catástrofe de proporções que ninguém será capaz de prever. Mais chocante do que os actos sexuais nela gravados é o facto de terem sido protagonizados por três rapazes com idades compreendidas entre os dezoito e os dezanove anos e uma rapariga de apenas catorze. Qual caixa de Pandora, a gravação desencadeia uma tempestade de vergonha e recriminação que se abate sobre a pequena comunidade, revelando uma intrincada teia de segredos e mentiras. Homens e mulheres, adolescentes e adultos envolvidos no escândalo tentam decifrar os acontecimentos daquela noite e os seus efeitos. Mike Bordwin, o director, quer a todo o custo conter o escândalo e salvaguardar a reputação da escola; Silas Quinney, um popular aluno, sofre as consequências dos seus actos, enquanto Anna, a mãe, enfrenta as suas próprias faltas; e Sienna, uma jovem enigmática e perturbada, não olha a meios para esconder o seu passado. As imagens reveladas suscitam mais perguntas do que respostas. Como foi possível tal comportamento no seio de um ambiente tão selecto? Quem é culpado e quem é inocente? Podem as consequências de um acto imprudente ser travadas ou o futuro de todos os envolvidos será irremediavelmente destruído? À medida que o coro de vozes se levanta, revela-se a surpreendente verdade sobre os acontecimentos daquela noite, e as vidas de todos os envolvidos serão transformadas para sempre.

Opinião: Um dos meus livros favoritos, lido em 2004 salvo erro, foi escrito pela mão de Anita Shreve. “A Praia do Destino” traduz uma visão única da condição humana e derruba barreiras quanto a questões regidas pela moral do senso comum. Um caso entre uma jovem de quinze anos e um médico de quarenta e um, ainda por cima casado, ainda por cima em 1899, é um desses casos de moral indiscutível. Mas a autora conseguiu promover um debate a fazer da humanidade e das circunstâncias, e foi isso que me comoveu e me rendeu nessa leitura. Um vídeo onde uma rapariga de catorze anos (por Deus, a minha irmã tem treze!), sexualmente experiente e madura, tem relações com três rapazes de dezoito e dezanove anos cai também na condenação moral do senso comum.
Uma cassete chega à posse do director da reputada Academia de Avery, no Vermont, onde a natureza dos actos registados constitui um crime. Acusados de abuso sexual, os três rapazes enfrentam a justiça, os pais e a própria consciência.
Trouxe este livro para Itália com esperança de fazer rendê-lo mas, apesar de ter dormido apenas três horas esta noite, o apelo durante o voo suplantou o cansaço e li as últimas cem páginas de enfiada. A abordagem da autora é única; cada um dos muitos envolvidos vai-se pronunciando a respeito do caso, e com estes recortes constitui um recorte alargado das consequências daquele “deslize” para toda a gente.
Cada personagem tem uma voz única, de início pode parecer que são muitas personagens, mas os capítulos são curtos e fui apontando os nomes dos envolvidos, dos pais, do director, do director que veio substituí-lo, da empregada do refeitório, do jornalista, da enfermeira, do xerife da cidade, etc. Cada relato é multidimensional, proferido em tom pessoal, e ajuda a compor os acontecimentos da noite de 21 de Janeiro em Avery, e também as consequências que daí advieram e os motivos que levaram a esse desfecho.
Afinal, falamos de dois casamentos afundados, um desgastado, uma morte, várias demissões, dois jovens com futuros promissores expulsos, um caso amoroso trágico e uma série de acasos inofensivos que, conjugados, culminam numa catástrofe. É precisamente isto que aprecio na Shreve; como o aparente “pouco” pesa tanto consoante as circunstâncias. Com esta aurora há sempre um cair das máscaras, um cavar mais fundo, um silenciar de coisas importantes, um deduzir, um calcular, um falhar. Adorei o modo como a autora conduziu o livro e as conclusões que dele tiramos; não há inocentes nem culpados, são todos vítimas das circunstâncias e, quase no fim, quis chorar. Ela faz-me sempre isto; chorei a ler “A Praia do Destino”, chorei a ler “A Casa na Praia”, chorei próximo do fim do “Casamento em Dezembro”, e choraria certamente neste não fosse o casal britânico a meu lado no avião.


Não consigo despregar-me da certeza de que estou perante um/a dos/as melhores escritores/as contemporâneos/as da actualidade. Não é um livro para estômagos fracos, porque a escritora não força o drama – nem floreia demasiado – mas é crua. E essa crueza revela o que de mais sujo e inquieto reside em cada um de nós. Perturbador, pertinente; um triunfo por entre a obra da autora, que assim se supera de novo.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

#103 OLIVEIRA, Carlos de, Uma Abelha na Chuva

Sinopse: Uma Abelha na Chuva conta-nos as peripécias de Álvaro Rodrigues Silvestre, sujeito às “instigações” de sua esposa, D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre. O livro começa com uma confissão de Álvaro e com a sua vontade de a tornar pública na primeira página da Comarca — uma redenção consigo próprio. 
Esta história leva-nos à aldeia de Montouro num Outono chuvoso, onde conhecemos as personagens que rodeiam este casal e constituem a aldeia e pelos quais ficamos a conhecer o Portugal provinciano de meados do século XX.Como afirma o autor, “Por onde a solidão a fazia resvalar. E o quarto tão frio. Talvez os ventos, os granizos do norte, as grandes chuvas. Talvez D. Violante. Mas sobretudo a velha casa de Alva, quando a miséria não chegara ainda e, atrás dela, os Silvestres. Agora é o marido labrego e doentio, as bebedeiras, o desencanto, isto. Quer melhores nortadas, D. Violante?”.O escritor ironiza a sabedoria popular, o largo da aldeia quando acolhe um ajuntamento popular, ancestral, onde tudo se discute, onde tudo se decide num julgamento popular e, tantas vezes, tacanho. E a morte, que persegue Álvaro numa bebedeira de brandy, a morte que tolhe Jacinto e Clara, à chuva, persiste em vingar neste livro.

Opinião: Uma Abelha na Chuva, publicado em 1953, é o retrato físico de uma mulher bonita, robusta, casada por dever com um homem que a ama, e que ela despreza. Um homem fraco, bondoso, bonacheirão. É um ensaio poderoso, que consiste na submersão por inteiro num mundo rural claustrofóbico, e também no pensamento de alguns estratos sociais aqui bem representados. 

Este livro veio ter comigo através do programa Grandes Livros da RTP 2, podem aceder-lhe aqui. Enquanto o esmiuçavam, passavam imagens a preto e branco do filme homónimo de 1971, e a prestação da Laura Soveral como D. Maria dos Prazeres captou-me a atenção. Uma mulher de aspecto tão firme, e, no entanto, quebrada por dentro. Esvaziada de doçura, de calor, de suavidade. O cabelo perfeitamente arranjado, e ainda assim um torvelinho na alma, evidente sob a superfície serena. Reconheci o tipo de força sustido por aquele rosto quase passivo que, de olhar baço, se insinuava no ecrã, arrebatando-o, cena após cena. As páginas deste romance, como um mergulho no quotidiano destas pessoas e das suas relações estéreis, expõem o casamento disfuncional de Álvaro Silvestre, pequeno proprietário rural, dono de uma mercearia, quem sabe outrora lavrador, e de D. Maria dos Prazeres, oriunda de uma família nobre em declínio. Apegada aos objectos que um dia coloriram o estatuto da família, esta personagem é de uma nitidez intimidante, mas, nem por isso está melhor composta do que as restantes. Todos os rostos ali criados por Carlos de Oliveira são dotados de uma admirável multidimensionalidade: é palpável uma certa hipocrisia no cura, uma ambição desmesurada no proletariado, uma asfixia da nobreza e a decadência moral de uma burguesia de vícios e fraquezas.

D. Maria dos Prazeres é apegada à tradição, ao passado, e é também uma vítima de ambos. Foi conduzida ao altar por um pai à beira da falência, e viu-se condenada a uma vida de infelicidade ao lado de um homem que considera fraco. É ela quem dá ordens e é obedecida, nos seus domínios, é ela que se vale do padre para espiar o marido. Contudo, nem tudo está dentro dos limites rígidos do seu controlo; não manda no próprio coração nem numa coisa que tem vida própria e que pulsa a cada vez que põe os olhos no cocheiro da casa; o desejo. Deseja o cocheiro rude, risonho, despreocupado, um pouco tosco que a segue para onde ela o mandar. Talvez porque ele seja uma antítese gritante do seu marido patético. Mas o cocheiro personifica um devaneio fora do seu alcance, e ela não dá um passo para inverter essa situação, quiçá porque essa atracção a vexe, ou porque, mal-grado o chamamento da carne, o considere indigno da sua pessoa. Enquanto isso o marido, também miserável, bebe. A acção decorre num espaço circunspecto, em que o mundo rural vem descrito de forma sublime – cheira-se, toca-se, sente-se, ouve-se. 

Tudo se precipita quando Álvaro ouve o cocheiro mencionar os indesejados olhares cobiçosos que a patroa lhe deita.

Uma obra, a meu ver, incontornável para quem procura compreender melhor o panorama do micro "neorrealismo" literário português. A passinhos de bebé, cá me vou aventurando na nossa literatura lusa. E tem valido muito a pena...

Classificação: 4****/*