quinta-feira, 13 de março de 2014

#110 KLEYPAS, Lisa, Paixão Ardente

Opinião: [Ai, os nomes destes livros, Cristo!] Já tinha lido o livro em inglês e tinha a ideia de que era um pouco “sem sal”, sobretudo no rescaldo do “Devil in Winter” (recuso-me a chamar-lhe a mixórdia que lhe chamaram em português), que é o meu favorito da série.
Este livro encerra a série “Wallflowers”, dando protagonismo à última das encalhadas, Daisy Bowman.
Debruçando-me sobre um quarto livro, seria de esperar que fosse o menos imaginativo, mas é o mais romântico de todos, também porque a Daisy é a mais sensível e sonhadora, e por isso marca pontos para quem está nesse estado de espírito.
A Daisy é uma criaturinha diferente, pouco dada a questões práticas, e nisso identifico-me com ela. Só um homem com uma certa sensibilidade poderia entendê-la, e por isso Matthew Swift é o homem perfeito para ela. Com um passado um tanto obscuro, sempre lhe teve uma afeição bem disfarçada que só agora conhece a luz. É um livro sobre duas pessoas destinadas a estarem juntas, e gostei do conflito inicial gerado pela insistência do pai de Daisy em casá-la com Matthew, e também da forma como a protagonista é fiel ao seu coração e não tenta contrariar os seus sentimentos. No caso de Matthew, embora receie que o passado regresse para o assombrar, decide arriscar e tentar ser feliz. Um lutador e uma jovem de alma pura, a encerrarem com chave de ouro esta série.
Romântico, bem-disposto, foi uma leitura que conseguiu arrancar-me emoções, área em que a Kleypas nunca falha. 

Sinopse: Depois de três temporadas em Londres em busca de pretendente, o pai de Daisy Bowman informa-a de que deverá arranjar marido. E depressa. E se Daisy não conseguir desencantar um candidato adequado, terá de se casar com um homem da escolha do pai: o cruel e emproado Matthew Swift. Daisy está aterrorizada, mas uma Bowman jamais admite a derrota. E, por isso, a jovem decide fazer os possíveis para arranjar outro pretendente que não Matthew. Mas Daisy não contava com o charme inesperado de Swift… nem com a sensualidade escaldante que depressa brota entre ambos, acabando por descobrir que, apesar de segredos e intrigas que o destino teima em impor, o homem que sempre odiou poderá ser aquele com que sempre sonhou.

Classificação: 4****/*

sexta-feira, 7 de março de 2014

#12 La Grande Bellezza | A Grande Decadência

 Título oficial: La Grande Bellezza @ 2013
Realizador: Paolo Sorrentino
Actores principais: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli
Classificação IMDb: 7,8
Minha classificação: 9,0
Prémiações: Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro


A Grande Beleza é um filme arrojado, desconcertante, que nos obriga a olhar para nós próprios e para a nossa posição face à sociedade. É também uma análise dura a essa mesma sociedade, num tom ora indulgente ora acusatório. Sendo Gep Gambardella (Toni Servillo) o espectador, somos simultaneamente a sua consciência e o seu juiz. Isto porque Gep tem visão, tem consciência, tem uma voz que vai narrando a sua percepção do que o rodeia ao longo do filme.
Se mesmo Flaubert falhou ao escrever um livro sobre o nada…” Sendo esta, sem dúvida, a frase mais significativa do filme. Gep está rodeado de um nada absoluto – um nada de espírito e de beleza que o impede de criar um novo livro.
Gep, jornalista, escreveu um livro “O Aparelho Humano” há quarenta anos, o que lhe valeu um lugar na sociedade entre uma classe alta em decadência e uma nobreza falida. Desde então é um frequentador de festas, um amante de álcool, um praticante de sexo casual. As pessoas circulam pela sua vida sem deixar marca, tudo numa superficialidade que, por vezes, roça a hostilidade. Ninguém está limpo e todos conhecem os podres uns dos outros. Pessoas que teriam tudo para ser felizes – dinheiro, estatuto -, mas a quem falta nobreza de alma e força de espírito. Ainda assim, os diálogos são ilustrativos da falência dos valores e, em geral, cativantes e espirituosos. Cada linha do guião é algo de maior, susceptível a interpretação.


Gep está perdido, tem estado perdido há quarenta anos. Um assumido misantropo que pertence à classe que tanto o repugna. Não há nada de sagrado na sua vida excepto, talvez, o grande amor que perdeu na juventude. Ele próprio tem noção da mediocridade da sua “obra”, da nulidade da sua pessoa como escritor e jornalista. Nunca se sabe porque Elisa o deixou; a vida é mesmo assim, um grande e incómodo ponto de interrogação. Mas consta que o amou a vida inteira, e essa descoberta causa incredibilidade e lança-o numa reflexão pessoal. Caminha então, só e nostálgico, pelas ruas da Cidade Eterna. Terá Elisa amado o homem que se deita quando os outros se levantam? Ou terá amado a camada interior dele, a que encarcerou ao lançar-se numa vida de excessos na capital?


Roma surge fotogénica, melancólica, também ela as ruínas graciosas de um Império caído. No interior dos seus palácios arruinados consomem-se drogas, engatam-se pessoas cujos sonhos foram destruídos ou se projectam prenhes de frivolidade, dão-se festas, convive-se com anões, esquizofrénicos, adúlteros, viciados na noite, toxicodependentes, strippers, noviças, até surge uma “Santa” mais para o final da trama. Um apontamento comovente, por entre tanta loucura, o momento de nos reencontrarmos com a firmeza das crenças e da vontade de se fazer a diferença e de se honrar a obra que é o mundo. É a peça-chave do filme; alguém que vive de convicções por entre pessoas que são nada e que se arrastam vazias, sobre os tacões, de divertimento em divertimento.
Um filme de grande beleza que lida com o feio, com o absurdo. Uma voz que tem consciência do ar que respira e que, ainda assim, escolhe cirandar por esse meio, julgando-se, quem sabe, superior. Um homem que não tem nada; nem filhos, nem um grande amor, nem amigos sinceros, nem inspiração para retomar o sucesso literário, nem tempo. Dando-se conta do que perdeu, do que lhe escorreu por entre os dedos, Gep continua a sorrir, continua a ser quem sabe ser; dança e bebe no seu palazzo com vista para o Coliseu.
O absurdo da sociedade moderna, assim exposto, causa um certo incómodo. Um homem que vê, que sente – ele próprio garante ter escolhido o caminho da sensibilidade – e que nunca praticou a sua própria escolha, é decerto um homem desencontrado do seu destino.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Pássaros Feridos I

Eu já esperava bastante deste livro, mas tem sido uma surpresa avassaladora. A Colleen McCullough entrou para o meu mapa de estrelas literárias e já tenho as ideias fixas em O Toque de Midas. Vejamos se consigo chegar-lhe.
Pássaros Feridos tem mais de 600 páginas e é contemplado com um título que lhe assenta como uma luva. Todas as personagens tem a graciosidade de um tentilhão e carrega um peso bem maior. Alguns segredos já foram sendo revelados, e outros estão ainda por vir.
Não querendo fazer um resumo do livro, porque isto de partilhar opiniões não é um encarnar de “Os Apontamentos do Senhor Américo”, vou destacar algumas das maravilhas contidas no livro.
A Austrália, como personagem maior. Por fim entendo o que significa a expressão “os australianos estão demasiado ocupados em evitar que a natureza os mate para…”. Um calor abrasador (que ascende a 48º no inverno - sim, é hemisfério sul) e uma época de secas em que o frio é tão intenso que custa lavarem-se, despirem-se, deitarem-se numa cama de lençóis perceptivelmente molhados. As cobras, as aranhas, os javalis, as emas, tantas outras exoticidades que transformam a paisagem australiana, descrita no livro, num paraíso de actividade. As cheias, as secas, a difícil adaptação ao clima e às distâncias impossivelmente longas.
As personagens são outro tesouro do livro. A Maggie é fácil de ler, embora também tenha um carácter vincado, mas são sobretudo o seu irmão Frank, a tia Mary Carson e o Ralph (o padre por quem é apaixonada) que me cativam a cada virar de página.
Um livro que espelha bem o peso das obrigações, da vergonha, das escolhas. Rebate as invejas, as vaidades, a fé e a descrença com uma mão tão hábil que é certo que esta será uma daquelas obras que perdurarão comigo para sempre.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

11# Um Quente Agosto

Título oficial: August Osage County @ 2013
Realizador: John Wells
Actores principais: Meryl Streep, Julia Roberts, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch
Classificação IMDb: 7,4
Minha classificação: 9,5
 
Que filme poderoso; a prova perfeita de que não é preciso falar-se de grandes questões, genocídios ou intriga e espionagem para se obter algo intenso. Conforme ia absorvendo a míriede de personalidades - todas tão fantásticas, todas tão bem caracterizadas e com um casting tão bem direccionado! - ia desejando que houvesse um livro. Disse à minha irmã que um filme com uma riqueza de enredo e um leque tão rico de personagens teria de ter, necessariamente, um grande livro por trás. Parece que não é livro, é uma peça de Tracy Letts que ganhou o Pulitzer. Se conseguir deitar-lhe a mão, será uma leitura para breve. E pensei também que era exactamente o género de livro que eu gosto de escrever.
Cada vulto da família Weston/Aiken tem uma personalidade muito vincada, muito própria, move-se num ritmo muito seu e vem acompanhado de algumas ligações muitíssimo bem exploradas.
Temos o casal Weston, Violet e Beverly, pais de Barbara, Ivy e Karen. Beverly desaparece de casa, não pela primeira vez, e Violet chama as filhas aquando da ocorrência. Ela própria tem cancro da boca e é viciada em narcóticos. Sobre a Meryl Streep como Violet, guardo a minha opinião para o fim.
Uma Julia Roberts mais velha (azar dos azares, revi o Pretty Woman @ 1990 há duas semanas), mas também mais madura, mais mulher maculada, dá a cara por Barbara. É a filha favorita de ambos os pais - e Violet faz estandarte disso -, mas é também a mais amargurada e a mais difícil. Despreza o cantinho do Oklahoma onde os pais continuam encerrados, tal fica subentendido nalgumas das suas observações. Acho que é um papel soberbo interpretado pela actriz certa, só a Júlia exibe um misto de força e vulnerabilidade capaz de tornar a Barbara num molde da mulher real, outrora um forte, agora uma torre em chamas. Apresenta-se em casa com Bill (Ewan McGreggor) e a filha de ambos, Jean (Abigail Breslin).
Juliette Lewis encarna Karen, a irmã mais nova, pelo que julgo ter compreendido. Também a mais desmiolada, embora seja uma romântica bem intencionada e egocêntrica, com laivos de compaixão nas entrelinhas. Reúne-se com a família trazendo o “noivo” (Dermot Mulroney) de arrastão. Ninguém parece muito convencido da durabilidade da nova relação de Karen, e essa descrença, esse deboche quanto ao modo como conduz a sua vida, contribui para a melhor cena do filme, que é também a melhor cena que vi num filme nos últimos tempos (desde A Vida de Pi @ 2012, que está pejado de cenas de beleza incontornável).
A irmã mais discreta, mas cuja história vai abrindo caminho por entre as participações mais efusivas das irmãs nos assuntos de família, é Ivy (Julianne Nicholson), que se vai revelando como a filha desprezada, sempre criticada pela dureza implacável da mãe, mas também a que sempre permaneceu a seu lado. O facto de estar a começar a ser feliz com um homem vai causar dissidências na família e trazer ao de cima um segredo nunca discutido.
Depois ainda temos a tia Mattie Fae (Margo Martindale), como uma irlandesa amargurada que é quase uma bully para com o próprio filho, Little Charles (Benedict Cumberbatch). É a irmã de Violet e a tia das raparigas, e está por dentro de todos os assuntos, alem de ser a pessoa que mais se assemelha ao carácter ríspido da irmã, que suplanta todos. O filho, Little Charles, soberbamente interpretado por Cumberbatch, que gagueja, se encolhe, baixa o rosto e arregala os olhos sempre que a mãe lhe dirige uma crítica, e que recebe com complacência as carícias de apoio do pai (Chris Cooper).
A melhor cena do filme é a que reúne a tensão de todos à mesa, para um jantar que se segue a um acontecimento infeliz, e em que Meryl Streep rouba a cena. Que ritmo, que energia, que capacidade de pular da louca viciada em narcóticos para a mulher inteligente e calculista que não deixa que nada ao seu redor lhe escape. Que vitalidade numa mulher que, apesar de cada vez mais velha, continua um vulto de carisma e de feminilidade, mais nítida quanto mais alto se ergue a sua voz, quanto mais bruscos são os seus gestos. Que admirável o modo como parece carregar em si todos os azedumes que a vida a fez experimentar, guardando a tradição sem ser retrógada, e sendo, em simultâneo, a pessoa menos convencional da casa. E que par à altura descobre na Julia Roberts, que lhe faz frente com tanta mestria!
O filme é uma lufada de ar, um vir à luz, dos segredos de uma família. Poderia chamar-se assim, “Segredos de Família”, mas chama-se antes, no título original, “August Osage County”, porque é como se o calor intenso que se faz sentir, recorrente em cada cena, condicionasse o caminho escolhido por todos, vulgo, “lhes torrasse os miolos”. e fosse o principal culpado pelos erros de todos. As planície do Oklahoma, de Osage County, como as causadoras da traição, da pobreza, da ascenção económica, da rebelião, da gritaria e, sobretudo, da aridez de quase todos os carácteres femininos.
Um ensaio sobre a natureza das relações, sobre a tomada de oportunidades, sobre escolher-se a si ou escolher os outros, sobre desviar-se do caminho, perder-se (a si, ao rumo). O filme deixou-me maravilhada. Nunca eu vira uma família tão brilhantemente retratada, cuja história foi moldada pelos os outros, pelas circunstâncias económicas, pelas aspirações, pelas infâncias e pelo calor de Osage County.

Classificação: 9,5/10

domingo, 16 de fevereiro de 2014

10# Blue Jasmine

Título oficial: Blue Jasmine @ 2013


Realizador: Woody Allen
Actores principais: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins
Classificação IMDb: 7,5
Minha classificação: 8,5


Nota: O meu pensamento quando acabei de ver o filme: tenho que descobrir quem é o realizador e segui-lo. Ora bem, para mal dos meus pecados, é o génio do cinema/pedófilo Woody Allen. Já me tinha prometido não voltar a dedicar um instante a obra alguma deste criminoso que circula livre, mas aconteceu, foi inesperado. A menos que o filme tenha o nome de capital europeia, dificilmente o associo ao Allen. Por isso a minha opinião abaixo terá de seguir, independentemente dos feitos do escritor/realizador.


Opinião: Por fim, apaixono-me pela Cate Blanchett (Jasmine). É uma figura que se desdobra em emoções neste filme, oscilando entre uma classe invejável e uma alma que se desfaz em pedaços. Ela chora, ela treme, ela deixa que os objectos lhe caiam das mãos, ela sorri com a boca (nunca com os olhos), ela baba-se um bocadinho, ela deixa que a mente voe para longe e fixa a vista num pontinho distante. Ela sibila, ela sussurra, ela grita, ela descabela-se. Em geral, todo o filme é mais uma série de confrontos nevróticos contidos do que um explodir de emoções. Os confrontos dão-se, e bem no ritmo dos reais; com alguém a implorar por calma, a suplicar que se fale baixo, que se mantenha o nível.
Estamos perante Jeanette, que mudou o nome para Jasmine, e que foi durante muitos anos casaca com Alec Baldwin, um corrupto que também a traía. A Jeanette/Jasmine é do género de pessoa que vira a cara quando fareja que algo está errado, a menos que lho acenem com néons e, quando descobre que foi enganada durante todos aqueles anos, envereda por uma via de auto-destruição que está muitíssimo bem caracterizada. Sem ninguém a quem recorrer, atravessa o país, deixando New York pelo abrigo que a irmã lhe oferece.
A Sally Hawkins (Ginger) também tem um bom papel. É uma mulher de pouca auto-estima que não se acha digna de muito. Então vai-se contentando com o que tem à mão, sem hesitar em se embrenhar numa nova história que lhe pareça "um pouco" melhor. 
Não sei se vi alguma aparição do verdadeiro amor neste filme. Vi personagens muito reais, com interesses bem delineados, confusas, traídas, a trair e a enganar também, cada uma ao nível em que isso que é possível. Mas não houve uma aparição de um amor maior capaz de salvar cada um das espirais de decadência em que está mergulhado. É um filme que abre as portas ao mundo que tenho julgado começar a vislumbrar agora que entrei na idade adulta. Os contos de fada vão ficando para trás, os comprimidos ajudam a dormir e a sorrir e ninguém é cem por centro feliz, e ninguém o seria mesmo que tivesse tudo aquilo que considera essencial.

Contudo, esta citação abaixo ficou-me na ideia. Penso que seja o momento mais terno, mais sonhador do filme. Uma possibilidade de redenção e de recomeço. Ninguém é perfeito.

Diálogo entre Dwight e Jasmine.
- Hey, posso perguntar-te uma coisa?
- Claro.
- Alguma vez te imaginaste casada comigo?
- Casada?
- Eu tenho tudo planeado mas, como é evidente, podes dizer que não se te parecer terrível. Está bem? Mas vens comigo no mês que vem para Vienna, vivemos lá uns anos e eu posso ensinar-te a valsar, e podes comer todo o bolo de chocolate e beber todo o vinho que quiseres. E depois voltamos e eu invisto no meu sonho na política. E então adoptámos crianças e vivemos nesta casa, que farás um trabalho fantástico a embelezar. Que te parece? (...)
- Então estás a dizer que me amas?
- Não dá para ver?

Classificação: 8/10

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

#109 FLYNN, Gillian, Em Parte Incerta

Sinopse: Uma manhã de verão no Missouri. Nick e Amy celebram o 5º aniversário de casamento. Enquanto se fazem reservas e embrulham presentes, a bela Amy desaparece. E quando Nick começa a ler o diário da mulher, descobre coisas verdadeiramente inesperadas…Com a pressão da polícia e dos media, Nick começa a desenrolar um rol de mentiras, falsidades e comportamentos pouco adequados. Ele está evasivo, é verdade, e amargo - mas será mesmo um assassino? Entretanto, todos os casais da cidade já se perguntam, se conhecem de facto a pessoa que amam. Nick, apoiado pela gémea Margo, assegura que é inocente. A questão é que, se não foi ele, onde está a sua mulher? E o que estaria dentro daquela caixa de prata escondida atrás do armário de Amy? Com uma escrita incisiva e a sua habitual perspicácia psicológica, Gillian Flynn dá vida a um thriller rápido e muito negro que confirma o seu estatuto de uma das melhores escritoras do género.

Opinião: Não foi um livro fácil. Li até à página 173 e passei outros tantos à frente. Depois, metida num voo de 9h35, peguei-lhe de novo e li até à página 400 compulsivamente. Quando digo “compulsivamente”, significa que é pouco provável que me esqueça das revelações que sugiram no livro durante esse voo – o mais atribulado da minha vida (vida essa que analisei por entre pequenas pausas desta leitura com o avião a chocalhar como louco). No voo de regresso, mais nove horinhas e meia com uma escala interminável pelo meio, li o que restava e fechei as cerca de 520 páginas daquele que é um dos livros mais malucos que já li. Só consigo compará-lo – de modo vago, porque a outra trilogia é bem melhor – à obra-prima do Stieg Larsson. Na trilogia Millennium a Lisbeth Salander é a personagem que mais me fascinou no mundo da literatura até hoje. Ombro a ombro com a Scarlett O'Hara do “E Tudo o Vento Levou”.
No “Em Parte Incerta” temos duas pessoas em tudo comuns e, por estranho que pareça, muito familiares. O Nick (a ser interpretado no cinema pelo Ben Affleck), fica atarantado com o desaparecimento inesperado da sua esposa, Amy, na manhã em que comemoram o quinto aniversário do seu casamento. Acompanhamos as suas reacções ao decorrer da investigação intercaladas com o diário que Amy mantinha, onde ia denunciando as desilusões com o casamento por entre as expectativas e a esperança que ia mantendo de que as coisas se endireitassem.
Será que Nick matou Amy? O que terá acontecido a Amy?
Então fica impossível deixar de ler. Ninguém é bem quem diz ser. Ninguém é perfeito e são todos muito humanos – homens que choram, referências a affairs e ao asco que isso causa a quem é traído em termos pouco educados – traições, vinganças, o quotidiano de um casal contemporâneo e os sucessivos desencantos e aspirações goradas, o desemprego, o isolamento –, mentiras e uma personagem fascinante que arrepia de tão brilhantemente distorcida.
Só não consigo atribuir cinco ao livro porque detestei o final. Penso que no filme, para o render mais cinematográfico, o mesmo seja alterado para algo mais “definitivo”. De qualquer modo, é um livro que vai demorar a deixar-me.

Para quem se interessa por policiais, sociopatas e esquemas bem elaborados, está aqui uma leitura bastante satisfatória. 

Já tinha dissertado um pouco sobre o livro aqui.

Classificação: 4****

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

#108 TIAVÉA, Tuiavii, O Papalagui


Sinopse: Obra incluída no Plano Nacional de Leitura (LER+)

"Papalagui é um humilde contributo a respeito da natureza humana e da busca da felicidade que continua a tocar milhões de pessoas em todo o mundo.

Este livro resulta de uma coletânea de textos escritos por Tuiavii, chefe da tribo samoana de Tiavéa, e dados a conhecer ao ocidente em 1920 por Erich Scheurmann, que com ele conviveu naquela ilha do Pacífico Sul.
Escrito de uma forma simples e honesta – fruto de uma capacidade de observação sem igual–, oferece‐nos um relato impressionante e sincero a respeito da civilização ocidental.
Depois de uma visita à Europa, Tuiavii regressa à sua ilha natal e escreve vários discursos com a finalidade de dar a conhecer ao seu povo os usos e costumes da sociedade ocidental.

Pleno de verdade e com salpicos de humor, Tuiavii descreve ao seu povo a vida dos Papalagui (os ocidentais), narrando os seus hábitos, sensibilidades e maneiras de pensar, obstinados com a necessidade de possuir riqueza e bens materiais, cheios de ilusões e arrogância perante a natureza, mas carentes de afectos, sabedoria e verdadeira felicidade.
Oferece-nos uma visão cheia de amor e sabedoria que nos mostra como o dinheiro, o egoísmo, a produção e o consumo maciços de bens de que não necessitamos nos levaram ao individualismo, à falta de tempo e ao esgotamento dos recursos da Terra."


Opinião: Quem primeiramente me falou deste livro foi a minha professora de Psicologia do secundário. Considerei a temática interessante e fiz uma nota mental para um dia ler. O "dia" foram as horas perdidas no aeroporto no voo Lisboa-Madrid e vice-versa, quase oito anos depois. Como a sinopse indica, o conteúdo da obra são os relatos do chefe da tribo samoana de Tiavéa a respeito do que observou na Europa. Pelos seus escritos, que datam de 1914-15, subentendemos que missionários cristãos chegaram à ilha e introduziram a tribo aos hábitos europeus. Um dos pontos chave era a religião, e tentaram afastar os tribais do culto à natureza e ao Grande Espírito, empurrando-os para o "nosso" Deus de amor e penitência. A evidente inteligência e sentido crítico do chefe levam-no a compreender que o Papalagui/homem branco não segue os ensinamentos que prega, e por esse motivo começa a questionar o seu modo de vida. Tira algumas conclusões que servem para analisarmos o nosso estilo de vida e a vivência em sociedade, mas sobretudo que me puseram a pensar sobre o afastamento da natureza e sobre a montanha de apetrechos com que nos cobrimos. O chefe lamenta que nos fechemos em caixas de cimento mal arejadas, que o verdadeiro deus que louvamos seja o dinheiro e que tenhamos a "doença do pensamento". Que não baste admirar a montanha mas tenhamos que querer ver além da mesma. Que percamos tempo a medir o tempo. Que usemos caixas para guardar caixas e bolsas e bolsinhas. Que inventemos coisas de que, na realidade, pouca precisão temos.
Gostei sobretudo da conclusão, em que o chefe pede aos da sua tribo que virem as costas à escuridão, à insatisfação e às mentiras do homem branco, que prega amor, irmandade, cooperação. Informa-os de que, na realidade, o depôr das armas a que convenceu este povo é uma mera manobra de se aproximar e de os influenciar porque, na realidade, o Papalagui está armado até aos dentes a destruir o seu irmão Europa fora (I Guerra Mundial).
É o testemunho e um apelo de um líder que identifica as ameaças da sociedade ocidental, os seus vícios e fraquezas, e que suplica ao seu povo para que este dê valor à simplicidade com que vive; sem sobressaltos de maior, em plena harmonia e cumplicidade. 

«O Papalagui quer sempre chegar depressa ao destino das suas viagens. A maioria das suas máquinas tem o único propósito de transportar pessoas rapidamente; mas logo que chega ao fim do caminho quer de imediato enveredar por outro. E assim o Papalagui apressa-se pela vida sem descanso, perdendo cada vez mais a capacidade de caminhar ou correr, e sempre sem alcançar o seu destino; o destino que vem ter connosco sem que o procuremos».

Classificação: 4****