quarta-feira, 23 de julho de 2014

#115 ROSA, Carina, As Gotas de um Beijo



Sinopse: Desde que o seu casamento de vinte anos terminou, David é um homem solitário. É no stand de automóveis que dirige que afoga as memórias do passado e a solidão do presente. Afastado de casa e dos filhos, é obrigado a gerir sozinho as acções e as escolhas que fez ao longo da vida, nas quais Diana, uma amiga de infância que considera irmã, tem um papel fundamental. Diana é o seu porto de abrigo e o seu braço direito, mas foi mais do que isso durante o seu casamento agora destruído.
A afinidade entre David e Diana, também divorciada, é quebrada pela chegada de uma mulher ruiva que revela muito pouco de si própria. Laura é atraente e misteriosa, e a atracção entre si e David é mútua e intensa. Será ela a mulher doce e simples que aparenta ser? Entre a joalharia e o stand, passa a alternar-se a languidez dos dias com a turbulência das noites e David acaba por se embrenhar num mundo perigoso de segredos, mentiras e traições. Dividido entre duas mulheres, estará David a encaminhar-se para o fundo do abismo?

Opinião: Na realidade, 3,5. Já devo esta review à Carina há imenso tempo, e finalmente reencontrei o livro dela, peguei no touro pelos cornos e acabei-o. É importante ter em conta o enorme potencial desta escritora, bem como a sensibilidade que imprime às suas personagens. O ponto forte da Carina são, sem sombra de dúvida, os diálogos. Coisas que escritores como a MRP constroem banais, o TR sem alma nem sal e o PCF cria sem qualquer nexo, só pelo absurdo de cuspir palavras para o papel. A Carina dá muito ritmo ao livro com os diálogos, são realistas e fluidos e por isso merece os meus parabéns. Não é fácil para um escritor expandir-se, dar vida a outras almas. E a Carina cria personagens sólidas e credíveis, embora sempre atormentadas por dilemas interiores e demasiado rápidas a dar-se. Gostaria de vê-las mais concisas, mais resistentes à mudança e não tão permeáveis aos sentimentos. Quanto ao enredo, está bem conseguido, entendo o dilema da personagem principal, o David, mas não gostei de duas coisas: 1) não consegui simpatizar com ele de modo algum, nem jamais me apaixonaria por ele. 2) a confusão de sentimentos que nutre quanto à Laura e à Diana é pouco dignificante para elas e peca na construção dele como personagem, porque tanta divisão causa-lhe fraqueza de carácter. Achei que o timming do livro também é muito apressado, pelo que temos (leitor) pouco tempo para interiorizar as emoções das personagens. De resto, quanto à Carina, só vejo espaço para crescer e, a seu devido tempo (e o próximo passo está dado) tem todas as capacidades para se tornar a nova escritora favorita de muitos portugueses. Sem falar que é uma Nicholas Sparks de qualidade nacional!

Classificação: 3***

quarta-feira, 16 de julho de 2014

#114 SHREVE, Anita, A Vida Secreta de Stella Bain

Sinopse: Neste envolvente drama, Anita Shreve tece uma apaixonante história acerca do amor e da memória, tendo como pano de fundo uma guerra que devastou milhões de civis e deixou sequelas em todos aqueles que testemunharam os seus horrores. Um romance histórico inesquecível, sério e surpreendente. França, 1916. Uma mulher acorda na cama de um hospital de campanha em Marne, sem qualquer recordação do seu passado ou de como ali chegara. Identificou-se como Stella, mas sente que esse não é o seu verdadeiro nome. De repente, uma palavra incita-a a agir e Stella parte para Londres, onde espera encontrar algumas respostas e abrir as portas para o seu passado. «A viagem interior de Stella permite-nos vislumbrar os horrores da Grande Guerra, o dealbar da psicoterapia e a primeira vaga do movimento feminista... A história de uma mulher improvável e misteriosa.» Los Angeles Times «Contido e elegante, este romance de Anita Shreve revela um conhecimento profundo das dificuldades que as mulheres sentem quando tentam viver a vida segundo os seus próprios desejos.» People «Fascinante... Um romance afetuoso com um tema sério e complexo.» Washington Post «Um livro terno e desapiedado.» Publishers Weekly «Comovente, enternecedor, por vezes tão intenso e vivo que quase conseguimos sentir o medo.» Boston Globe «Um livro que vale mesmo a pena ler!» 

Opinião: Não há um livro da Anita Shreve que não me cative. Tudo porque a escritora tem um jeito despretensioso de apresentar as situações, e é exímia em descrever as cicatrizes que ficam na alma após um trauma.
No início do livro estava intrigada quanto a Stella Bain, a desmemoriada. Mas a autora, que é do género que permite ao leitor formar a sua própria ideia das personagens, não a descreveu fisicamente, nem sequer a pôs a ponderar sobre a sua idade. Na verdade, a primeira parte do livro é um pouco superficial e apressada, sobretudo tendo em conta que a segunda parte, a partir da “revelação”, é tão mais detalhada. Talvez esse vazio seja um relance do interior da mente de Stella, desprovida de quaisquer recordações.
A autora, contudo, não quis focar-se demasiado na situação da enfermeira de guerra sem memória, que acaba por ser o chamariz para o livro se nos basearmos apenas na sinopse. Neste âmbito é abordada a terapêutica de Freud, em voga tanto em Inglaterra como na América, e a doente é temporariamente tratada por psicoterapia. O Doutor August Bridge surge nesse contexto, como estudioso de Freud e interessado nos mistérios da Psiquiatria. O mundo ultrapassava horrores jamais vistos e, regressados das trincheiras e da frente, as capitais europeias estavam assoladas de soldados amputados, desfigurados, desmembrados.
Acabei por entender esta opção de criar uma primeira parte para o livro mais leve, posto que esse estado é apenas um reflexo do papel de Stella no cenário de guerra que a Europa atravessa, e um eco da sua própria mente confusa e amnésica. É um aparte entre o livro anterior, “Tudo o que Ele Sempre Quis”, que devo ter lido há mais de cinco anos, e o desenrolar da história de Etna Bliss. Só entendi a ligação entre os dois livros quando Stella recupera a memória.
A segunda parte do livro, que parece ter aborrecido outros leitores, é a que mais me prendeu. A ligação à sua vida passada, que eu conhecia doutro livro, os seus antigos amores, erros por corrigir e culpas formadas… Há, contudo, fortes ligações a outros livros da autora. É normal, já li várias obras suas e começo a detectar aquilo que a move e intriga. O mundo académico e a Medicina estão sempre muito presentes, bem como a forte amizade entre mulheres e homens, mesmo em épocas em que isso não era bem visto. Por fim, as sequências sobre um julgamento em tribunal pela guarda de um menor recordou-me muito o “A Praia do Destino”, que é o meu livro favorito dela.
Acho a Anita Shreve uma criativa de grande humanidade, sensível e detentora de uma classe que eu jamais terei. Em parte porque a admiro nela, é-lhe natural e intrínseca. Em parte porque a sua crueza elegante foge um bocadinho ao caos que eu gosto de explorar.
Ainda assim, cada nova obra sua é, para mim, um grande momento de leitura.

Classificação: 4****/*

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Filmes em Lista de Espera

Her (2013)
Comecei a vê-lo, acho que sou capaz de compreender essa concepção "abstracta" do amor. Impulsionado pelo fim do seu casamento e pela nova ligação possibilitade entre computador e utilizador, espero encontrar um Joaquin Phoenix introspectivo e comovente.

Sleepless in Seattle (1993)
 
Só porque celebra uma Meg Ryan pré-plásticas e promete ser uma das boas comédias românticas, de banda sonora inesquecível, dos noventas.

Nine 1/2 weeks (1986)
Porque amores perturbados e pessoas perturbadas acabam sempre por me interessar.

Labor Day (2013)
Tem a Kate Winslet e tem um amor improvável. 

Adore (2013)
Inspirado num romance da Nobel Doris Lessing, vejamos se o livro conseguiu mergulhar nas subcamadas do coração humano.

The Spectacular Now (2013)
Porque gosto da capa. E porque me pergunto o que tem esta rapariga de tão especial para andar na berra, porque ainda não a vi em acção...

The Shinning (1980)
Aclamado filme com o bom e velho Jack Nickolson. Só me assusta o facto de o realizador ser o Kubrick.

The Railway Man (2013)
Histórias de amor e guerra? Com o charmoso do Firth em grande plano? Mi piace.

Paris, Texas (1984)
Mulheres muito bonitas e muito perturbadas... e a inspiração para a Paris Texas dos Gotan Project...deal!

 Shame (2011)
Homens muito bonitos e muito perturbados também me interessam.

 Letters from Iwo Jima (2006)
Porque mesmo os americanos admitem que a versão da II Guerra Mundial na voz do Clint Eastwood comoveu mais do ponto de vista japonês.

One Flew Over The Cuckoo's Nest (1975)
A minha mãe diz que é um bom filme. And she knows movies...

#14 La Belle et la Bête

Título oficial: La Belle et la Bête @ 2014
Realizador: Chistophe Gans
Actores principais: Lea Seydoux, Vincent Cassel
Classificação IMDb: 6,4
Minha classificação: 7,8

O conto - ou fábula? - "A Bela e o Monstro" foi para mim, desde sempre, a mais querida das histórias de encantar. Uma mulher cuja bondade transparece nos traços, a imagem da delicadeza (de gestos e de sentimentos), submetida a um monstro e, contra todas as probabilidades, a amá-lo. A ser capaz de amá-lo, porque a capacidade de amar não é coisa que assista a todos.
Este filme, embora com as suas falhas - por exemplo, acho que a relação entre os protagonistas foi demasiado precipitada, e que se perdeu demasiado tempo na sequência do confronto final - é estéticamente lindo. Seja a protagonista, seja o castelo encantado, onde nos é quase possível cheirar as rosas e provar as pêras, sejam os seus vestidos, jóias e toda a magia envolvente.
Isto é uma pequena nota a respeito do filme mais belo - jogando com a palavra beleza visual que vi nos últimos tempos. Todo o filme é um lugar acolhedor para se estar.
Para amantes de grandes amores, do conto intemporal imortalizado por Jeanne Marie Leprince de Beaumont
A França encantada da minha infância...


terça-feira, 8 de julho de 2014

#113 McCullough, Colleen, Pássaros Feridos

Fora-me dito que “Pássaros Feridos” era um livro sobre o amor proibido entre uma nova zelandesa e um padre. Colocá-lo assim é simplista demais. É um livro que põe em perspectiva as vidas, os papéis, as obrigações, as dores de alma e os desafios que cada um está fadado a enfrentar.
A história começa com uma família de imigrantes irlandeses com várias crianças a passar dificuldades na Nova Zelândia, no início do séc. XX. É no seio dessa família que a única menina, Maggie, começa a procurar o seu lugar no mundo. Nesta etapa da história surgem os primeiros pontos fortes da mesma; a relação entre Fee e Patsy, os pais de Maggie, e a doçura premente entre Maggie e o irmão mais velho, Frank.
Julguei que tudo se passaria aí, nessa pequena cabana na Nova Zelândia, onde Maggie ajudaria sempre a mãe com as mil e uma tarefas do lar e os seus muitos irmãos cresceriam para se tornar tosquiadores como o pai. Mas então os ventos chamam-nos para a Austrália e, desembarcados em Sydney, seguem para Drogheda, uma próspera fazenda de criação de carneiros australiana. Como herdeiros dessa fazenda, os Cleary começam assim a adaptação a uma vida com menos desafios, mas numa terra de grande beleza e de grandes durezas também. Ora enfrentam dilúvios, ora sobrevivem a dez anos de seca. Ora a vida animal tenta atacá-los – e inclusive arrebata-lhes vidas – ou desabam tempestades com cargas eléctricas tão fortes que pegam fogo a hectares de terra.
É neste cenário de adaptação que o Padre Ralph de Bricassart conhece Maggie e a sua família, e se propõe a ajudá-los com a adaptação e a proteger Maggie, posto que a mãe parece vê-la como algo de incómodo e os irmãos se vão tornando demasiado duros para olharem pelas suas necessidades. Ralph antevê na pequena Maggie o universo de brandura e generosidade em que ela mais tarde se tornará e assim, nas circunstâncias mais improváveis, nasce um amor condenado à grandiosidade da tragédia.
O livro atravessa quase todo o século XX. Do que a II Guerra Mundial significou para a Austrália, como possessão britânica, às muitas revoluções que tomaram a Europa e a mudaram, tornando-a naquilo que é hoje. Os tempos também mudam; da avó Fee que hesita em abandonar os corpetes e em envergar um vestido leve para os quarenta e cinco graus à sombra da Austrália, à neta Justine que é actriz em Londres e adopta a irreverência da recente “mini-saia”. Mas não é somente este o ponto forte do livro – o retrato político-social do mundo ao longo de todo um século. O mais significativo do livro são, sem dúvida, as relações interpessoais.
Cada uma das personagens principais, de personalidades marcantes – Maggie, Fee, Ralph, a tia Mary, Frank, Luke, Justine, Dane, Rainer, etc., etc., etc., tem algo de tão rico em si que nos rouba o pio. Todos eles passam por verdadeiros momentos de assombro em que se dão conta de quem são realmente, do que pretendem, dos erros que cometeram, do que mais valorizam e que estão em vias de perder. É um grande livro sobre perseguir-se os objectivos pessoais e deixarmo-nos cegar por eles. É um livro sobre cometer-se erros, assumir-se compromissos, choques de interesses, abdicação. O destino, ali tão marcante, tudo o que vai a voltar, a vida a exigir pagamento para as benesses.
Já praticamente no final, o novo ritmo protagonizado por três gerações de mulheres Cleary comoveu-me bastante. Fee, Maggie e Justine são muito diferentes entre si. A primeira abraçou o seu destino sem estrebuchar, a segunda lutou pelo que queria, mas a força dos costumes subjugou-a, e a terceira vive a vida ao sabor das suas vontades.
Confesso que a Justine, embora tenha aparecido para aí a 75% do livro, se tornou facilmente na minha personagem favorita. Possuia a firmeza de carácter que faltava à Maggie, embora a própria Maggie não seja nenhum capacho, é um bocadinho mais conformada. Não me admira que causasse estranheza, posto que diz o que lhe passa pela cabeça, choca quem a rodeia e não procura agradar ninguém. Comoveu-me a sua força – em parte apenas fachada -, o amor incondicional que dedicava ao irmão e, mais tarde, as dificuldades que encontrou para dar-se ao homem da sua vida. Por medo de perder, de ser magoada, de querer e não poder ter. O amor é fraqueza, e Justine sabe-o como ninguém.
Todas as personagens sofrem grandes desenvolvimentos, grandes mudanças proporcionadas pelos tempos, as interacções e a idade. Foi agradável ver esses envelhecimentos, o tempo parece ser, ele mesmo, uma das personagens habilmente arquitectadas pela autora.
Como ponto fraco, que me impede de dar um cinco sólido, aponto duas mortes de personagens importantíssimas para a trama, que se sucedem de um modo pouco convincente e que se dão, também, sem motivo aparente. São um pouco rebuscadas, desenquadradas e inesperadas, embora tenham, claro, uma importância maior para o desenrolar do enredo.
É uma saga maravilhosa sobre uma família de trabalhadores, de mulheres de época sem a presunção de serem mais do que é esperado delas, mas também sobre o quebrar dos grilhões face aos preconceitos do passado. Um retrato de vidas, melancólico e, por vezes, doloroso. O livro lembra-me muito a filosofia budista, que defende que viver é sofrer. A obra compara os actos humanos aos do pássaro que pressiona o próprio peito contra um espinho e que, enquanto sofre, solta um trinado de beleza incomparável. Apenas que, no caso dos humanos, sabemos o que sucede ao procurarmos o espinho, e ainda assim fazemo-lo. "Pássaros Feridos" traz o conforto da inevitabilidade dos erros.
Vai directamente para a minha gaveta dos favoritos.
Classificação: 5*****

segunda-feira, 30 de junho de 2014

#13 The Normal Heart

 Título oficial: The Normal Heart @ 2014
Realizador: Ryan Murphy
Actores principais: Mark Ruffalo, Taylor Kitsch, Matt Bomer, Julia Roberts
Classificação IMDb: 8,3
Minha classificação: 9,0

Apesar de não ter andado com grande apetite para filmes, vi uma frase deste filme que me deu vontade de ir descobrir o trailer. “Man do not naturally not love. They learn not to”. Depois do Dallas Buyers Club, que adorei, surge um filme em torno do mesmo tema. Porém, aqui temos a perspectiva da comunidade nova-iorquino gay. Pessoas com acesso a altos cargos, papéis na imprensa e na saúde, que a partir de 1981 parecem começar a morrer de uma epidemia desconhecida. Um novo tipo de cancro, suspeita-se. Um cancro que apenas ataca os homossexuais. Os pacientes são submetidos a quimioterapia e tratamentos experimentais mal financiados, apenas para morrerem desse mal desconhecido. Suspeitam de uma conspiração do governo para acabar com os homossexuais. O histerismo social eleva-se; é punição pelo pecado da promiscuidade.

Neste contexto, temos o jornalista/escritor Ned Weeks (Mark Ruffalo), judeu, a conhecer o amor pela primeira vez. Foi um homossexual reprimido e, apesar da boa relação com o irmão, nem este parece considera-lo um igual. Como inconformista que é, Ned alia-se a uma médica igualmente inconformada (Julia Roberts) que está desesperada por financiamento para pesquisas e que vê os seus pacientes a morrerem sistematicamente sem que o governo atribua a devida importância ao assunto.
De mencionar que apenas em 1986 o Presidente Reagan finalmente menciona a doença perante o país, permitindo que saia do estigma das minorias sociais.
O filme demonstra, sobretudo, o esforço levado a cabo e a união da comunidade gay, que se vê vítima de ainda mais discriminação perante o desconhecido.
O filme tem uma realização e um argumento muito realistas, muito terra-a-terra. Nada de dramatismo exagerado, por vezes o conformismo com que se aceita o inevitável é mais tocante que uma cena de lágrimas e gritos. É uma obra de grande sensibilidade, que mostra o amor homossexual com mestria, de um modo que toca o coração e que não ridiculariza as diferenças nem cai em estereótipos. O filme está tão bem conseguido que, não fossem as repetidas menções aos direitos das minorias, ao facto de os gays serem igualmente cidadãos americanos, não teria atribuído qualquer importância à orientação sexual do casal principal. Ruffalo e Bomer trabalhavam com eficiência nas suas personagens – a actuação do primeiro é assombrosa, e o segundo completa-o. A química entre os dois é de louvar.
Mas o que fica no final do filme é o sabor a amargo na boca. A dúvida se uns são mais cidadãos do que outros, se há, ainda agora, um modo correcto e um modo errado de viver, se merecemos todos o mesmo tipo de respeito e protecção por parte do Estado. Se o Estado, basicamente, nos leva a todos a sério.
Ned Weeks compara a situação que atravessam ao passado recente do seu povo; todo o mundo suspeitava do que estava a suceder aos judeus e, ainda assim, ninguém fez nada. Todos lavaram daí as mãos até que o assunto “Hitler” lhes tocou também. Acrescenta que um dos grandes responsáveis pelo final da II Guerra Mundial (Green Beret) foi um homossexual que acabou por se suicidar mais tarde devido à sua orientação sexual.
É um filme sobre aceitar-se a si próprio, aceitar os outros como iguais, lutar pelos nossos direitos e abraçar causas, ainda que pareçam não nos tocar directamente. É também um trabalho sobre frustração e esforço caído no vazio, porque nem sempre as coisas recebem a importância que merecem nem na altura devida.
Até ao final de 1986 houve 24 559 mortes relatadas” devido ao HIV. Só aí Ronald Reagan finalmente se pronunciou acerca dessa epidemia. Desde aquilo que se pensa ter sido o surgimento da doença, em 1981, morreram, até hoje e em estimativa, cerca de 36 milhões de pessoas com SIDA. Isto equivale a cerca de seis vezes o holocausto.
Alerta também para que não devemos eludir-nos: o vírus não está extinto, a cura não foi encontrada, e lá porque há controlo e mesmo um certo abafo da circunstância, ninguém está livre de vê-lo bater-lhe à porta.

Comovi-me e chorei com o filme. Compadeci-me da causa. Aprendi dados que considero importantes para melhor compreender a sociedade actual e o mundo em geral. É tudo o que peço da sétima arte.

«It’s because you are too good to be true, because I’ve been waiting for a lover like you for my whole life and you haven’t showed up until now, and I am scared as shit that I might do something to fuck it up. Am I crazy?»

segunda-feira, 16 de junho de 2014

#112 ZUSAK, Markus, A Rapariga que Roubava Livros


Sinopse: Molching, um pequeno subúrbio de Munique, durante a Segunda Guerra Mundial. Na Rua Himmel as pessoas vivem sob o peso da suástica e dos bombardeamentos cada vez mais frequentes, mas não deixaram de sonhar. A Morte é a narradora omnipresente e omnisciente e através do seu olhar intemporal, é-nos contada a história da pequena Liesel e dos seus pais adoptivos, Hans, o pintor acordeonista, e Rosa, a mulher com cara de cartão amarrotado, do pequeno Rudy, assim como de outros moradores da Rua Himmel, e também a história da existência ainda mais precária de Max, o pugilista judeu, que um dia veio esconder-se na cave da família Hubermann. Um livro sobre uma época em que as palavras eram desmedidamente importantes no seu poder de destruir ou de salvar. Um livro luminoso e leve como um poema, que se lê com deslumbramento e emoção.

Opinião: A Rapariga que Roubava Livros é uma história inesquecível. Cada personagem é mais memorável do que a outra, mas o ponto mais precioso de todos, onde o autor prima, é nas relações interpessoais.

A Morte é a narradora, o que causa arrepios ocasionais ao leitor, mas também nos transmite uma sensação de pequenez que vem a calhar em certas épocas da história. Quando nos consideramos maiores e super-poderosos, vem a morte dizer que nos observa de cima. Que nos acolhe no último momento, sem se impressionar com os homens e com as suas vilezas.

A Morte, que em 1943 diz ter estado em toda a parte, graças ao Fürer, narra-nos aqui a história de Liesel Meminger e das vezes em que as duas se cruzaram. A pequena órfã da rua Himmel (Céu), nos subúrbios de Munique, fora acolhida pelo acordeonista Hans Hubberman e a sua mulher com a estrutura de um roupeiro, Rosa Hubberman.

Tantas vezes lemos sobre a II Guerra Mundial, sempre da perspectiva dos aliados, das vítimas arrastadas para um conflito acicatado pela ambição doentia de Hitler, ou da perspectiva dos judeus estilhaçados pela sua loucura. Aqui temos um romance que nos mostra os alemães perante o Fürer, pálidos, trémulos, receosos, de boca amordaçada e membros agrilhoados. Nada de se rebelarem, nada de terem pena, nada de se permitirem ser humanos, nada de desobedecer. Liesel não entende bem o que se passa, só sabe que há fogueiras de livros proibidos, fome, pessoas a serem arrebatadas aos seus lares e aprisionadas na farda da Alemanha nazi. Fanáticos – também os há -, que só atendem os clientes se estes erguerem a mão e bramirem Heil Hitler.

Esta é uma história de corações humanos que são obrigados a silenciarem-se pela loucura geral. É uma visão única da guerra, pela perspectiva alemã, que nos mostra relances de caridade e gentileza. Cada interveniente na vida de Liesel é enternecedor, pessoas vibrantes e cheias de personalidade; o papá, de cigarro ao canto dos lábios e olhos cor de prata, a mamã a chamar nomes a toda a gente – especialmente aos que ama – o seu amigo Rudy, de cabelos cor de limão, a pedir-lhe um beijo. Max e os seus desenhos, a sua saudade e a sua angústia face à família judaica que lhe foi arrebatada. As noites no abrigo antiaéreo e uma menção ao dia de Julho em que a Operação Gomorrah arrasou 45 mil vidas em Hamburgo, onde eu própria estive. Tanta dor, tanta perda... e tão real. Eu diria até, tão recente. E a Morte, como testemunha-mor, a expor os eventos de forma inesquecível, arrebatadora, única. Um livro sem igual, que quebrou o meu jejum literário de 2014. Vejam também o filme, o casting é perfeito.

Classificação: 5*****