segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

#123 GOLDING, William, O Deus das Moscas

Sinopse: Publicado originalmente em 1954, O Deus das Moscas de William Golding é um dos mais perturbadores e aclamados romances da actualidade. Um avião despenha-se numa ilha deserta, e os únicos sobreviventes são um grupo de rapazes. Inicialmente, desfrutando da liberdade total e festejando a ausência de adultos, unem forças, cooperando na procura de alimentos, na construção de abrigos e na manutenção de sinais de fogo. A supervisioná-los está Ralph, um jovem ponderado, e o seu amigo gorducho e esperto, Piggy. Apesar de Ralph tentar impor a ordem e delegar responsabilidades, muitos dos rapazes preferem celebrar a ausência de adultos nadando, brincando ou caçando a grande população de porcos selvagens que habita a ilha. O mais feroz adversário de Ralph é Jack, o líder dos caçadores, que consegue arrastar consigo a maioria dos rapazes. No entanto, à medida que o tempo passa, o frágil sentido de ordem desmorona-se. Os seus medos alcançam um significado sinistro e primitivo, até Ralph descobrir que ele e Piggy se tornaram nos alvos de caça dos restantes rapazes, embriagados pela sensação aparente de poder.

Opinião: Gostava de poder levantar-me do sofá, ligar o computador e escrever, com comodidade, a grandiosa review que este livro merece. Porém, tenho cinco quilos de gata sobre a perna, e por esse motivo não me atrevo a mexer-me a arruinar o sono de beleza do Deus dos Gatos. Terei de escrever mesmo no telemóvel.
Eu lembrava-me de ser pequena e de ver um filme, que agora sei ser o de 1990, sobre miúdos selvagens numa ilha, por sua conta. Nem esse visionamento me preparou para este romance perturbador.
Golding apresenta-nos um grupo de rapazes que não sabem grande coisa sobre as suas circunstâncias, na realidade. Os mais velhos de entre eles têm cerca de 12 anos: os mais novos totalizam metade dessa idade. Eis o que o leitor deduz: são britânicos, estão no Pacífico, a segunda guerra está no auge e chegou a esse oceano, devem ser um grupo escolar a viajar em conjunto por algum motivo nunca enunciado. Há conflitos ali próximos, porque além dos clarões de explosões dá-se uma prova ainda mais óbvia da civilização a trucidar-se ali perto. O livro também não se centra no saudosismo das crianças, na falta que o conforto do lar lhes traz, mas sim em como se constrói a sua nova organização, deixando para trás a civilidade.
Num primeiro momento, todos, mesmo a personagem principal (Ralph) são tomados de um entusiasmo contagiante por se verem livres e num belo cenário, com água fresca, piscinas naturais, fruta à mão e sem nenhum adulto a condicioná-los. Não se conhecendo entre si (excepto para o grupo de um coro, liderado por Jack Merridew e um par de gémeos inseparáveis), os rapazes procuram estabelecer uma nova ordem à semelhança da que acabam de deixar. O chefe (Ralph) é eleito por democracia, por possuir um búzio, uma espécie de tesouro na ilha em que todos chegam apenas com a roupa do corpo, e por usá-lo, por instrução de um outro rapaz (Piggy), para convocar reuniões e promover a auto-ajuda.
Nas reuniões discutem-se temas como o asseio pessoal e da ilha, a fogueira que urge manter acessa para que haja fumo na ilha e possam ser salvos, a alimentação, abrigos, exploração da ilha, etc.
Depois temos Piggy, um rapaz gordo, medroso, asmático, queixoso e preguiçoso, que não vê um palmo à sua frente sem os óculos. Piggy é vitima da troça geral por todas estas características, mas é também o rapaz mais sensato de todos pelo que, à revelia de quem o goza, se torna uma espécie de conselheiro de Ralph. Depois existe Simon, corajoso, fiel, individualista. Jack, o chefe dos rapazes do coro, desesperado por se ver à cabeça de todos. As crianças pequenas, vítimas do desinteresse dos outros miúdos, pouco mais velhos.
O livro explora as hierarquias e a ausência de lei e de um governo que institua livre sufrágio e a aplicação do resultado das eleições sem que a chefia seja sólida.Os membros do grupo dividem-se, não só por indecisão mas porque, enquanto Ralph é um chefe brando, outro se insinua com mais fervor, sob o signo do autoritarismo. O povo receia Jack, admira-o a certas o ocasiões, como quando a sua inclinação para a crueldade faz dele o líder ideal para os caçadores, por proporcionar a excitação da caçada e o consolo da carne.
Por outro lado, simpatiza com Ralph, o líder eleito por democracia, possuidor do objecto mágico: o búzio. Mas Ralph é um líder responsável entre crianças, não se regozija com a chefia nem procura nenhum mérito pessoal. Não é vaidoso nem sedento de poder, e insiste para que se faça o correcto.
O desencanto que a situação provoca, e que se vai agravando, vai separando os rapazes, trazendo ao de cima o pior de alguns deles e acicatando a ânsia de poder que atormenta Jack. Cria também uma rivalidade insustentável entre Ralph e Jack, e  de súbito a ilha parece pequena demais para dois chefes tão antagónicos.
As maiores crueldades são cometidas, levando-nos a perguntar se não seria assim, mesmo no mundo dos adultos, caso não houvesse uma entidade superior a policiar e a julgar comportamentos. Enquanto se sentem ligados à civilização, os rapazes experimentam vergonha, bom senso, cordialidade e procura por entendimento. Depois, resvalando para a bestialidade, despem-se da sua civilidade e tornam-se paus mandados de um chefe cruel. Só o receio ao novo chefe, impiedoso, os move, os faz obedecer com cegueira e, inclusive, encontrar prazer nos actos que se vão cometendo.
Este livro fez-me pensar muito e partiu-me o coração. Recordei-me da convicção de Locke e de Hobbes de que os homens não são bons por natureza, o que impede que se dispensem certas instituições que existem com o mero propósito de lhe refrear as mesquinhices.
Recomendo a todos!
Classificação: 5*****

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

#123 SOARES, Carla M., O Cavalheiro Inglês


Sinopse: Portugal. 1892. Na sequência do Ultimato inglês e da crise económica na Europa e em Portugal, os governos sucedem-se, os grupos republicanos e anarquistas crescem em número e importância e em Portugal já se vislumbra a decadência da nobreza e o fim da monarquia. Os ingleses que permanecem em Portugal não são amados. O visconde Silva Andrade está falido, em resultado de maus investimentos em África e no Brasil, e necessita com urgência de casar a sua filha, para garantir o investimento na sua fábrica. Uma história empolgante que nos transporta para Portugal na transição do século XIX para o século XX numa descrição recheada de momentos históricos e encadeada com as emoções e a vida de uma família orgulhosamente portuguesa.

Opinião: Escrevo a respeito deste livro sem primeiro consultar a autora do mesmo, que comecei a considerar, nestes anos de andanças literárias, como uma amiga. Estou a dever-lhe a leitura de A Chama ao Vento, mas infelizmente ainda não me converti aos formatos digitais. Terei de fazê-lo em breve, posto que devo a leitura de A Sombra de um Passado à Carina Rosa, e de Calor à Dra Maria José Núncio. Todos eles e-books, pelo que serei decerto obrigada a comprar um Kobo ou coisa que o valha… Ora bem, saboreando o prazer de ter um livro físico na mão, poder cheirá-lo e folheá-lo, fiquei encantada com a capa. Prometia tudo o que encontrei no seu interior. Desafio, História, intriga, romance. E assim foi. Falando das personagens, gostei da Sofia. Achei-a humana e compreendi-a. Não é fácil para um autor fazer uma personagem principal evoluir sem se contradizer, e a Carla conseguiu-o. A Sofia do início do livro, de espírito crítico mas conivente com os desmandos da nobreza em decadência, não é a Sofia ávida por se superar do fim, não é a Sofia que quebra com as regras e por fim compreende que se deve o direito de ser feliz. O Tião não é o típico idealista desmiolado, na realidade parece-me mais um menino mimado que até sofre boas influências, tem noção do certo e do errado, mas não consegue levar os seus planos a bom porto. Então, entre o influenciável e o impulsivo, acaba por ir pondo os pés pelas mãos e precisar da irmã. Depois há o Robert, o inglês calculista, homem de negócios quase sem escrúpulos, que se encanta pela Sofia. Porque sim, porque não é preciso motivos para uma pessoa se encantar por outra. Talvez seja da luz, talvez das almas que se reconhecem de há muito e se ligam na atmosfera que circunda os corpos, sem que as mentes o antevejam. Disposto a fazer tudo pela “posse” da Silva Andrade, aproveita uma janela do destino para reclamá-la.A grande jóia do livro é a época. Os cenários, os costumes, os entretenimentos. As personalidades da época, os bilhetinhos, o fervor republicano e anárquico, as Avenidas, os cabriolets, as viagens de doze horas de comboio, os bairros da capital e da Invicta, os hotéis, os transatlânticos e o contexto dos acontecimentos que vão tendo lugar. Deliciei-me nos cenários, por muito que haja quem se queixe das descrições, são os cenários que fazem um romance histórico. Vá lá leitores, não sejam preguiçosos! O que é um bailado sem tules? O que é um teatro sem setting? É meu gosto pessoal não gostar muito de mergulhar dentro da cabeça das personagens. É muito meu agir primeiro e pensar depois, daí que não atribua cinco estrelas. Gostaria de ter visto a personagem principal menos reflexiva e mais proactiva. Contudo, em nada prejudica o bonito quadro de época. Aconselho a quem queira espreitar a última década daquele que é o meu século histórico favorito.

Classificação: 4****/*

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

#122 QUINN, Julia, Para Sir Phillip, com Amor

Sinopse: Sir Phillip sabia que Eloise Bridgerton tinha já 28 anos e era, pois claro, uma solteirona. Foi por isso mesmo que pediu a sua mão em casamento. Sir Phillip partiu do princípio de que Eloise estaria desesperada por casar e não seria exigente ou caprichosa.
Só que… estava enganado. No dia em que ela lhe aparece à porta, torna-se óbvio que é tudo menos modesta e recatada.
E quando Eloise finalmente para de falar, ele percebe, rendido, que o que mais deseja é… beijá-la.
É que, quando recebeu a tão inesperada proposta, Eloise ficou perplexa. Afinal, nem sequer se conheciam pessoalmente. Mas depois… o seu coração levou a melhor e quando dá por si está numa carruagem alugada, rumo àquele que pensa poder ser o homem dos seus sonhos. Só que… estava enganada. Embora Sir Phillip seja atraente, é certo, é também um bruto, um rude e temperamental bruto, o oposto dos gentis cavalheiros que a cortejam em Londres.
Mas quando ele sorri… e quando a beija… o resto do mundo evapora-se e Eloise não consegue evitar a pergunta: será que este pesadelo de homem é, afinal, o homem dos seus sonhos?

Opinião: Tratando-se de um livro da Julia Quinn, é certo que gostaria dele. Já tinha lido algumas reviews a respeito deste livro, e não me parece que tenha sido o favorito de muitas pessoas no Goodreads. Contudo, foi um dos meus favoritos da saga dos irmãos Bridgerton, lado a lado com a história da Daphne e do Simon, e do Colin e da Penelope.
Achei a Eloisa uma personagem forte, bem construída, convicta e de grande dignidade. E o Phillip pouco tem dos heróis comuns destas novelas, posto que não é um vagabundo libertino, nem se propõe a corromper a mocinha. É um viúvo a braços com duas crianças complicadas, um botânico demasiado afogado nas suas lides para dedicar algum tempo aos filhos, e isso corrói-o de culpa.
Precisa de uma mãe para os filhos mas, conforme vai conhecendo Eloisa, começa a entender que está há tempo demais sem contacto humano e sem os abalos habituais que as relações amorosas causam a quem os experiencia.
O livro é tão terno quanto divertido, a Julia tem esse dom; o de me pôr a rir às gargalhadas a meio da noite. Depois aperta-me o coração, e é por isso que continuo a lê-la, para experienciar emoções através da mestria da pena dela neste género.
Há, contudo, algo que não gostei no livro. Perdoem-me por tentar descortinar ideologias e responsabilidade social na ficção, mas isto de facto assustou-me.
Phillip fora anteriormente casado, a esposa, Marina, suicidara-se. Pelo quadro de apatia, choros contantes e isolamento, diagnostico-a facilmente com depressão. A autora menciona que tudo isto se intensificara após o nascimento das crianças, pelo que penso que poderia querer referir-se a uma depressão pós-parto que, não curada, levou ao desespero final. O que é que detestei aqui?
Ninguém chega realmente a falar mal da Marina, mas culpabilizam-na pelo seu estado. Recriminam-na, passam longos diálogos a comparar essa mulher “triste”, na realidade doente, ao furacão de alegria que é a Eloisa. Este homem diz que tentara tudo (não sei ao certo o quê), e que Marina decidira não lutar. A autora apresenta-nos aqui uma pessoa com uma doença do foro psiquiátrico e o seu marido, que não a compreende, não sabe apoiá-la, e se regozija (embora não de forma aberta) pela sua partida. Chega a dizer que não quer rodear-se novamente de pessoas “tristes”, e que tudo o que almeja é uma esposa feliz.
Fiquei triste com esta abordagem superficial que a autora fez ao tema “depressão”. Basicamente deu a entender que o ideal é partirmos para outra, que essas pessoas estão condenadas à partida e não têm nada para oferecer que não angústia e sofrimento a quem se preocupa com elas. Este fantasma de preconceito assombrou-me durante todo o livro.
Isso e uma cena mais para o final, em que “flores” e “centenas” são mencionadas na mesma frase, recordou-me que o livro deve ser levado com leviandade, e por isso não poderia atribuir-lhe cinco estrelas.

Classificação: 4****/* 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

#121 KLEYPAS, Lisa, Tentação Perfeita

Sinopse: Foi mais do que um beijo… foi uma oração de beijos ininterruptos, com as sílabas quentes e doces dos lábios e da língua dele inebriando-a de sensações.» Londres prepara o Natal, e o americano Rafe Bowman aguarda o seu encontro marcado com Natalie Blandford, a muito bela e respeitável filha de Lady e Lord Blandford. O aspeto sedutor e físico impressionante do jovem agradariam certamente à prometida, não fosse a sua reputação de libertino e as suas maneiras americanas.As quatro amigas encalhadas dedicam-se, então, a ajudar o jovem pretendente, ensinando-lhe as regras da sociedade londrina e empenhando-se na aproximação dos futuros noivos. Contudo, o Natal é a época dos milagres, e o amor - essa emoção tão estranha a Rafe - ameaça brotar das mãos mais inesperadas.Uma encantadora viagem aos recantos do coração, pela autora bestseller Lisa Kleypas, a rainha do romance erótico.

Opinião: Eu já tinha ouvido falar do “A Wallflower Christmas”, mas não fazia ideia do que se tratava. As Wallflowers já estão felizes e casadas e agora é a vez de a família crescer uma vez mais. Rafe Bowman é o irmão mais velho de Lillian e Daisy e chega a Inglaterra para casar com a noiva que o pai lhe escolheu. Manipulativo e autoritário, Thomas Bowman espera conseguir mais uma união vantajosa para a sua família, e é-lhe conveniente que o filho queira tanto gerir parte da empresa familiar. A chantagem funciona; Rafe aceita casar-se com Natalie para assumir uma parte significativa do império dos Bowman.
Mas, por entre o espírito natalício, os olhos de Rafe vão pousar em Hannah, a prima pobre de Natalie e sua acompanhante.
O livro está imbuído dos valores do Natal, chegando até a haver uma aparição significativa de “A Christmas Carol”, de Dickens. Gostei muito de Rafe, a sua personalidade estava bem construída, entende-se que goste de Hannah e também se percebe a afeição dela para com ele.
Contudo, foi tudo muito rápido. É um livro pequeno, de 185 páginas, e está muito bem assim. A escritora teria tido espaço para desenvolver o romance, no entanto optou por atirá-los abruptamente para acima um do outro. Preferia um Rafe mais ponderado, pelo menos de início.
Ainda assim, é Lisa Kleypas e ri-me sozinha.

Classificação: 4****/* 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

#120 MAQUIAVEL, Nicolau, O Príncipe

Opinião: Maquiavel conquistou o seu lugar como pensador graças a esta obra, que dedicou a Lorenzo di Médici, o reputado mecenas que instigou a carreira artística de Leonardo da Vinci. Apesar de impregnado do espírito da época – Idade Moderna, combates religiosos, à beira da Contra-Reforma, Itália dividida em vários Estados (com destaque para a Nápoles de Ferrara, a Roma do papa Leão X, a Florença dos Médici e a Milão de Sforza -, várias alianças político-militares, a obra mantém-se, em certa medida intemporal, pois que aborda condições intrínsecas à natureza humana. Falo da ganância, da ambição, do calculismo, da crueldade e dos jogos de poder. Maquiavel é aficionado do pessimismo antropomórfico, pelo que considera a natureza dos homens algo de mau, a ser refreado e libertado conforme melhor cumprir os intentos de um Estado e do seu chefe.
Nesta obra, Nicolau procura orientar Lorenzo para o sucesso, para bem dos florentinos. Pegando em exemplos que lhe são contemporâneos e, noutros dos grandes vultos do outrora Império Romano e da Grécia Antiga, ilustra os erros e as virtudes pelas quais incorrem os grandes chefes.
Não posso dizer que tirei grande prazer do livro, nem que partilho esta visão do autor, segundo a qual a natureza do Homem é ignóbil e falível, não creio que o seja sempre com tendência ao mal. Para mim o Homem, enquanto animal, vê a sua natureza modificada pelas circunstâncias. Um gato selvagem tem de caçar para viver, cria inimigos, mete-se em escaramuças. Um gato doméstico, por ter todos estes recursos à disposição, é dócil e fiel. Não digo que o gato pode ser corrompido por desejos de superioridade ou competitividade só por despeito, como os Homens são frequentemente tomados, mas ainda assim há um termo de comparação.
Entendo que seja uma obra singular nas Ciências Sociais e Políticas, mas não é Literatura, não é um romance, não me entreteve. Informou-me, sim, sobre temas que não me  dizem muito, mas me enriquecem a nível cultural.
Porém, reconheço a assertividade e a ousadia do autor, sem dizer que o seu espírito está bem impresso nestas páginas.

Os homens têm menos receio de ofender alguém que se faça amar do que alguém que se faça temer; porque o amor mantém-se por um laço de obrigação que os homens, por serem maus, rompem sempre que surge ocasião mais proveitosa”.

“Acima de tudo [o príncipe], deve abster-se de tocar nos bens alheios; porque os homens esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda do património”.

Classificação: 3***/**

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

#16 Em Parte Incerta



Título oficial: Gone Girl @ 2014
Realizador: David Fincher
Actores principais: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil-Patrick Harris
Classificação IMDb: 8,6
 Minha classificação: 9,0

Opinião: Como disse anteriormente, o meu avião para Dublin, em Fevereiro passado, foi apanhado numa massa de ar junto ao solo, pelo que abortou a primeira aterragem, e chegou-se a equacionar uma aterragem de emergência desviada para Belfast. Eu teria ficado em pânico, não estivesse a ler o Em Parte Incerta, um livro que nos recorda que nem tudo é o que parece. Esta exploração crua de um casamento entre um “rústico” do Missouri e uma beldade Nova-iorquina foi elevada à sublimidade tanto pela autora como, numa adaptação fiel e cuidada, pelo realizador David Fincher.
Sou fã do David Fincher desde “Os Homens que Odeiam as Mulheres”. Agora que penso nisso, um filme destes com a Rooney Mara como protagonista teria sido igualmente bem-sucedido. Tanto o Ben Affleck como a Rosamund Pike primam pelas suas representações. A química entre os dois consolida a aura doentia que circunda a história do casal. Ben Affleck está perfeito como Nick Dunne, um jeitoso apegado às obrigações, tradicional, escritor frustrado e desempregado de barba e videojogo em punho. Rosamund é sublime, tão bonita e inocente quanto bonita e letal no momento a seguir.
Por favor, vejam o filme. Deixem-se conduzir pela mestria da guionista, a própria autora Gyllian Flynn. Para mim o filme do ano. Perturbador, ousado, pertinente, assertivo. Não tem nada de politicamente correcto e a própria banda sonora intensifica as emoções, constitui um floreado em torno dos muitos twists e revelações. É uma história de psicopatas, macabra, perturbadora, tormentosa, que nos obriga a reavaliar o modo como nos relacionamos, as nossas expectativas face aos outros e o papel dos media e da justiça perante os crimes mais hediondos.
Há muito que um filme não penetrava assim sob a minha pele. O último foi, provavelmente, “Os Homens que Odeiam as Mulheres”, em 2009.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

#119 SIMONS, Paullina, Alexander

Sinopse: A viver na América com o filho, Tatiana tentou esquecer a mágoa pela perda do seu grande amor, Alexander. A sua vida seria perfeita se essa memória não estivesse presente a cada momento de cada dia. E quando uma improvável réstia de esperança de encontrar Alexander vivo se apodera dela, Tatiana não hesita. Deixa o pequeno Anthony aos cuidados da amiga Vikki e parte para uma derradeira e perigosa viagem à Alemanha. Em jogo está tudo o que construiu e a sua própria vida. Se for encontrada, Tatiana sabe que não escapará. É uma mulher marcada. Tatiana e Alexander protagonizam uma das grandes histórias de amor da ficção contemporânea. Um inesquecível relato de paixão, guerra, coragem e sobrevivência.



Opinião: Na realidade, 4,5. Contudo atribuo 5 porque foi a melhor história de amor que li desde E Tudo o Vento Levou (descarto O Monte dos Vendavais porque aquilo não é um amor bonito, é um amor doentio).
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Finalmente acabei a leitura do 3º volume da trilogia “O Cavaleiro de Bronze”. Na realidade, o volume 2.5, isto porque a Asa, numa golpada de marketing indecente, decidiu dividir o segundo livro, lucrar em dobro, confundir os leitores e eliminar o terceiro volume do seu calendário de publicações. Uma coisa é certa; aqui a Célia não lhes compra mais volumes 1 de trilogia alguma, não se sabe quando eles mudam de ideias.
Este volume, na realidade uma extensão do segundo livro, avança a um ritmo muito rápido. Parece um pouco apressadinho, propõe-se a fechar este grande amor aos solavancos e com um resumo dos anos vindouros, coisa de que não sou propriamente fã. Contudo, os momentos de magia entre Alexander e Tatiana multiplicam-se. Tive de evocar os livros anteriores para me recordar da intensidade desse amor e dos obstáculos que lhe foram postos.
É importante entendermos como funcionava a mentalidade russa, a máquina soviética, e como se estabeleceu a relação de poderes entre os EUA e a URSS após a segunda guerra. Em simultâneo, temos como pano de fundo a pela Leninegrado, as suas noites brancas, o Jardim de Verão e a Catedral de St. Isaac. Depois passamos para os campos soviéticos, o cenário de guerra do segundo grande conflito mundial, os bosques e vales de uma Europa devastada. E terminamos neste volume, com a paz e o conforto americanos a contrastar com a reconstrução da Europa. Berlim, desfeita, Hamburgo, desfeita, etc., etc.
Um amor tão forte que sobrevive a todo esse horror e ainda encontra forças para lutar. Duas pessoas únicas, apostadas em salvarem-se mutuamente. Eu sou apaixonada por esta trilogia, terei de ler o último volume em inglês. Sim, porque eles ainda não terão paz, a Guerra Fria vem aí e dois soviéticos em território americano podem ser possíveis espiões. Aconselho às românticas, mas sobretudo aos enamorados da História Europeia. Que retrato fiel da guerra sentida pelos russos… Que obra-prima, esta trilogia!


Classificação: 4,5****/*