domingo, 22 de fevereiro de 2015

#18 & #19 Still Alice & We Need to Talk About Kevin

Título oficial: Still Alice @ 2014
Realizador: Richard Glatzer, Wash Westmoreland
Actores principais: Julianne Moore, Alec Baldwick, Kristen Stewart
Premiações: Óscar de Melhor Actriz para Julienne Moore
Classificação IMDb: 7,5
 Minha classificação: 7


Baseado no romance homónimo de Lisa Genova, "Still Alice", ou "O Meu Nome é Alice", em Português, é uma ficção que me encontrou por ter o Alzheimer como tema central. A minha bisavó padeceu dessa doença, o meu primeiro romance publicado girou em torno dela, e por fim uma Julianne Moore lindíssima e super competente dá vida a esta Alice. Devo dizer que o filme foi mais uma espécie de close-up do que é a vida de alguém que sofre dessa doença, que implica a degeneração das células da memória funcional, do que um grande apanhado do assunto. Não se perde em questões médicas, apesar de tanto o marido quanto um dos filhos de Alice praticarem essa profissão. 
O filme apresenta-nos uma mulher de grande tino e elegância, uma Professora universitária de mérito e presença, a definhar aos 50 anos quando começa a sentir-se desorientada e meio "esquecida das coisas"...
Na sua fase mais avançada, o Alzheimer leva a pessoa a esquecer-se de si própria, de quem o rodeia. Faz-se a mesma pergunta inúmeras vezes, é exasperante para quem está ao redor de alguém assim. Além dos queixumes constantes (eu que o dia, além da minha falecida bisavó, também o vizinho do lado passa o dia em "ais"), faltou ao filme mostrar a agressividade que toma os doentes de Alzheimer quando se sentem perdidos e expostos. A determinado momento, tudo se perde: a orientação das ruas, os nomes dos familiares e amigos, a capacidade de executar, até, as tarefas mais simples...
O filme é tocante, não haja dúvida. Até Kristen Stewart, que mantém sempre a mesma expressão impávida, pareceu ter dado mais de si neste drama. A verdade é que o Alzheimer é um teste maior ao amor e à paciência de quem nos rodeia. Do marido que começa por colaborar e depois perde as forças, à filha distante que recusava os conselhos maternais e que se dispõe, em último caso, a cuidar da mãe pessoalmente.
Vale a pena ver, e por isso fiz questão de lhe dedicar algumas palavrinhas aqui.
Título oficial: We Need to Talk about Kevin @ 2011
Realizador: Lynne Ramsay
Actores principais: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller
Classificação IMDb: 7,5
 Minha classificação: 8,5


Temos de falar sobre Kevin é um dos filmes mais perturbadores a que assisti nos últimos tempos. No final fiquei em silêncio por um bocado, e quem me conhece sabe que não sou de ficar calada. E isto é um filme sobre quê? Na minha opinião, há várias respostas, sendo que a que mais me satisfaz é: o amor materno. O amor materno em todo o seu poder de superação, perdão, regeneração, sacrifício e incondicionalidade. Foi a primeira vez que vi a Tilda Swinton a representar, embora tenha traços que lhe tornam o rosto inesquecível. Fez uma Eva credível, tanto na expressão de insegurança, como de fragilidade emocional (e até psiquiátrica) e de amor. Mas é a intriga e as coisas inconfessáveis que dominam o filme.
O trailer não é muito esclarecedor, pelo que me perguntava se seria um filme de terror. Infelizmente, penso que seja o filme de terror de algumas famílias, pois que casos assim ocorrem, lá isso ocorrem...
O filme fez-me reflectir: 
Em que falha uma mãe?
O que leva alguém a levar sentimentos como raiva contida e ciúme a transformarem-se em algo de maior, algo de letal?
Quanto horror e infelicidade pode um coração materno testemunhar sem colapsar?
O que tem um filho de fazer para que a mãe lhe vire as costas?
Não há modo de me alongar sem referir factos. Contudo, as analepses, os diversos momentos em que Eva nos é apresentada, livre a viajar pelo mundo, apaixonada, como mãe e, mais tarde, aparentemente sozinha no mundo e ostracizada, foram muito bem pensadas. Considerei o filme um trabalho artístico difícil de ultrapassar e de esquecer, de uma beleza trágica que contém tudo o que aprecio num bom filme. Permanece em nós após terminado, como que se nos assombrasse, alertando-nos para questões de difícil resolução e sem qualquer explicação.
Aconselho a todos os que perscrutam a natureza humana sem encontrarem respostas.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

#50 Sombras de Imbecilidade Colectiva

Eu gostava de poder ignorar as histerias colectivas, mesmo porque não me é muito habitual fazer parte delas, mas adiante… É difícil.
Desconfio sempre do filme muito aclamado, do músico muito premiado, do livro muito vendido. Isto porque, e perdoem-me o snobismo, tudo o que é consumido à escala de fast food é porque tem características pouco complexas, estandardizadas, que vão ao encontro das massas e que, portanto, cumprem requisitos “mínimos”. As massas, na minha opinião, são ignorantes. Encaixo-me nelas em muitos estádios de ignorância, cada um tem aquilo onde fica às aranhas e aquilo que é a sua praia. A minha praia são as artes. A literatura, sobretudo. Não significa que não me perca se se falar de steampunk. Vamos lá ver a espécie de coisas que andou nas bocas do mundo ultimamente:
Gangnan Style e as pessoas que tatuaram os seus afins na pele.
As Cinquenta Sombras de Grey (já aqui escrevi que até a minha avó, que sabe que adoro ler, me veio perguntar se tinha ficado para trás das suas amigas reformadas que andavam a ler “As Cinquenta Cores”).
A Piradinha.
Avatar.
O Show das Poderosas.
Hannah Montanah.
O Código da Vinci.
As Cinquenta Sombras de Grey.
Crepúsculo.
O Segredo, da Rhonda Byrne.
Casa dos Segredos.
Harlem Shake.
One Direction.
As Cinquenta Sombras de Grey.
Frozen.
Lady Gaga.
Pulseirinhas de elásticos.
Violetta.
As Cinquenta Sombras de Grey, já mencionei?
Em que consiste tudo isto? Além da palavra óbvia que ocorre? Diria que consiste numa linguagem universal, básica, simplista, que unifica todos sem excluir ninguém e que é acessível, pelo seu baixo grau de complexidade, a todos. Trata-se de levar as massas no bico e enriquecer com a falta de selectividade e refinamento e fraco nível de exigência do público.
Gangnan Style nunca ninguém entendeu que raio é que o homem dizia, Harlem shake idem. Avatar? Uma espécie de Atlântida da Disney mas com recurso à nova tecnologia e a óculos 3D, vamos lá pôr-nos na vanguarda da tecnologia. Crepúsculo? Ai, que inovador, transformar o mau no galã da fita. Dá comichões na passarinha das teenagers, mas o pior é que muitas adultas também se deixaram abalar.
Por que venho eu com este discurso arrogante e pretensioso, afinal? Quem sou eu para achar que os gostos se discutem? Passando adiante da certeza de que gostos são gostos, na minha modesta opinião, os gostos sempre se discutiram, e isto preocupa-me.
Preocupa-me porque a literatura foi inundada por livros eróticos, livros não mais elaborados do que os da Harlequin da caixinha de sapatos da minha avó, que eu ia quando era pequena apenas porque tinha curiosidades que não podia discutir (o Google não existia, arrisco-me a dizer!).
Assusta-me que as pessoas gastem rios de dinheiro para levar os filhos ao concerto de Tokyo Hotel e que acampem à porta do Pavilhão Atlântico (agora Meo Arena, para quem veio há umas semanas do concerto da Violetta). Assusta-me que o franchising do Frozen não cesse de render dinheiro à Disney, quando se trata de um filme perfeitamente vazio. “Ah e tal sou muito moderna e independente e o filme não fala sobre um casal, é inovador e fala do amor entre irmãos”. Uma coisa cheia de lacunas, apressada, em que os grandes protagonistas são as paisagens de neve, um boneco de neve e o vestido da “rainha da neve”. Um filme sem diálogos, sem profundida, caído em clichés e lugares-comuns, mas com uma música que fica no ouvido e que é repetida até à exaustão.
E agora As Cinquenta Cores (prefiro a versão da minha avó), essa bosta de livro. Uma coisinha insonsa em que a autora (sou só eu que acho a protagonista do filme, a Dakota Johnson, uma versão mais jovem da E. L. James?) celebra a sua inovação por ter aberto as portas a mais uma cultura de histerismo? Ah, de repente as pessoas recordaram-se que há uma coisa chamada chicote e algemas. Antes também havia, mas era coisa de malucos que passam demasiado tempo a jogar videojogos e que têm pancada e deviam ir ao médico. De repente a senhora estava aborrecida, pega no Crepúsculo e distorce-o, removendo os dentes ao vampiro e inserindo atilhos e tampões anais no enredo, e a coisa vira um fenómeno viral. De repente, pessoas que nunca liam livros inscreveram-se na rede social para bookaholics (Goodreads, não sei se há mais), atribuíam-lhe a pontuação máxima e diziam que nunca tinham lido um livro melhor. Envolviam-se em discussões intermináveis sobre o quanto os outros eram conservadores e quadrados por não entenderem o quanto a autora é arrojada (e sensual, nossa, que sensualidade!) ao colocar o senhor Grey a remover o tampão à mocinha antes de a *****. De repente, as mamãs compravam baby-grows para os bebés a dizer “Há nove meses atrás a minha mãe leu As Cinquenta Sombras de Grey”, o que até é irónico, tendo em conta a triste qualidade da informação lá passada acerca de contracepção, que poderia levar a uma gravidez indesejada. Tenho pena dos maridos, porque parece que algemas, tampões para orifícios até aí negligenciados, chicotes (e até corda e fita-cola!) começaram a voar das prateleiras. Há alturas em que me ponho no lugar dos homens e tenho compaixão deles. Imagino a cara dos chatos dos conservadores que queriam tratar a mulher com respeito e tal, e ela lhes mete a chibata na mão e pede que lhes aplique umas chicotadas.
A graça maior é que as mulheres são um público – lamento dizer – fácil de convencer. Um bocado como as crianças: os produtos que lhes são direccionados só têm de brilhar um bocadinho que elas correm a comprar.
Acredito que as mulheres ainda tenham muitas fantasias reprimidas, mas não acredito que tenha sido um livro miserável (do ponto vista literário ao do BDSM de acordo com as comunidades de entendidos) a tirá-las do armário. O que o livro abriu, e é pena que tenha sido ele a abrir, foi a porta para o diálogo. Se calhar fez as mulheres sentirem-se mais arrojadas, tomarem a iniciativa. O que até deveria ser contraditório, posto que, segundo consta, a mocinha é completamente abusada física e psicologicamente pelo homem de sonho das 46 mil mulheres que compraram o bilhete para a estreia no cinema (isso é o número de bilhetes, vamos considerar que pelo menos 6 mil são namorados forçados a ir ver o filme, sob a fachada do “mente aberta”, que são eles próprios vítimas de violência psicológica por parte das mulheres). Este Dia dos Namorados de 2015 é outra chaga que os homens terão de carregar…
Mas nem quero mencionar “chagas”, se não aí é que nunca mais me calo.
PS – Li 33 páginas do livro: tão mau, mas tão mau, que fui incapaz de forçar-me a mais. E olhem que gosto de romances picantes (desde que haja alguma complexidade nas personagens ou algum esforço da autora perante a história que constrói). Não vou ao cinema ver o filme, não darei dinheiro para tal causa e recuso-me a fazer parte da histeria colectiva que ficou com a patareca aos saltos para estar lá no dia da estreia.

Mas vou vê-lo, ah se vou! Os meus dedinhos tremem só de imaginar as atrocidades que terei a dizer depois. Muahahahahahah!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

#17 Dei-te o Melhor de Mim

Vamos ser honestas, Célia? Não vejo os filmes do Nicholas Sparks (nem leio os livros) em busca de uma boa história. Fi-lo quando, aí entre os doze e os catorze anos, comecei a lê-lo. Depois, comecei a fazê-lo só para me torturar. Só porque não sei que mais faça e às vezes é bom fingir que não cresci e que ainda acredito que existam homens assim, como ele os pinta.
Então, neste fim-de-semana, e para tentar fugir ao milhão de trabalhos que tenho para fazer, meti-me debaixo da manta, chamei a minha irmã (que é dez anos mais nova do que eu mas também dez vezes mais evoluída, e pareceu relutante em ver o filme) e pusemo-lo. Objectivamente, é o seguinte:

o tipo que faz de jovem Dawson (Luke Bracey) é um gatão e entreteve-me até metade do filme.
PS - Começo a achar que Um Refúgio para a Vida deve ter sido produzido por outra pessoa enquanto o Nicholas estava em casa com uma valente constipação...
apesar de não ir com a cara da jovem (não me lembro do nome dela, damn!), acho que havia química entre os dois e ela encarava bem a personalidade que emanava.
na minha óptica, não há qualquer química entre os actores que fazem de Dawson e Amanda (googled it!) mais tarde. A Michelle Monaghan parece, simplesmente, ser mãe do James Marsden.
À luz das histórias do Nicholas Sparks (incluindo das suas produções filmográficas, que tanto fogem aos seus próprios enredos mas são todas elas também iguais entre si):
os ingredientes são os mesmos de sempre: rapariga rica, rapaz pobre, interior da Carolina do Norte, um viúvo, muitos anos de separação, um trabalho perigoso e físico para o moço (bombeiro, trabalhador de petrolífera, soldado no Afeganistão, soldado no Iraque, etc…).
o que varia tem sempre paralelismo com as outras histórias: o outro viúvo era apegado aos quadros da mulher, o outro era apegado às flores da mulher.
os pais dela nunca gostam dele.
ela faz sempre tudo o que quer do tipo, é ela que decide onde e quando. Ele torce-se todo para a convidar para um encontro, depois leva-a a comer comida local no interior. Bebe cerveja e ela bebe cola light. No final do encontro ele não sabe se deve beijá-la, mas beijam-se porque é tradição.
há sempre um momento em que ele “tem de deixá-la ir” para provar que a ama.
há sempre um sacrifício que ele faz por ela.
 não faltou a cena do beijo à chuva, nem o "are you sure of this?" quando ele está prestes a tirar a virgindade à mocinha;
( faltou o passeio de barco, fiquei de queixo caído!)
 coincidências inexplicáveis, mortes desnecessárias to add some drama.
em 50% dos finais ela fica sozinha com as cinzas dele, o ex-marido que já não ama e os filhos que não são dele.  
 as capas são todas iguais.
Gostava de poder dizer que é a última vez que me submeti a tanto cliché, mas a verdade é que noutro domingo frio, sem nada para fazer, pego na manta e lá vou eu, rir-me mais um bocado da desgraça alheia, que é como quem diz: da dificuldade que o homem tem em reinventar-se. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

#123 GOLDING, William, O Deus das Moscas

Sinopse: Publicado originalmente em 1954, O Deus das Moscas de William Golding é um dos mais perturbadores e aclamados romances da actualidade. Um avião despenha-se numa ilha deserta, e os únicos sobreviventes são um grupo de rapazes. Inicialmente, desfrutando da liberdade total e festejando a ausência de adultos, unem forças, cooperando na procura de alimentos, na construção de abrigos e na manutenção de sinais de fogo. A supervisioná-los está Ralph, um jovem ponderado, e o seu amigo gorducho e esperto, Piggy. Apesar de Ralph tentar impor a ordem e delegar responsabilidades, muitos dos rapazes preferem celebrar a ausência de adultos nadando, brincando ou caçando a grande população de porcos selvagens que habita a ilha. O mais feroz adversário de Ralph é Jack, o líder dos caçadores, que consegue arrastar consigo a maioria dos rapazes. No entanto, à medida que o tempo passa, o frágil sentido de ordem desmorona-se. Os seus medos alcançam um significado sinistro e primitivo, até Ralph descobrir que ele e Piggy se tornaram nos alvos de caça dos restantes rapazes, embriagados pela sensação aparente de poder.

Opinião: Gostava de poder levantar-me do sofá, ligar o computador e escrever, com comodidade, a grandiosa review que este livro merece. Porém, tenho cinco quilos de gata sobre a perna, e por esse motivo não me atrevo a mexer-me a arruinar o sono de beleza do Deus dos Gatos. Terei de escrever mesmo no telemóvel.
Eu lembrava-me de ser pequena e de ver um filme, que agora sei ser o de 1990, sobre miúdos selvagens numa ilha, por sua conta. Nem esse visionamento me preparou para este romance perturbador.
Golding apresenta-nos um grupo de rapazes que não sabem grande coisa sobre as suas circunstâncias, na realidade. Os mais velhos de entre eles têm cerca de 12 anos: os mais novos totalizam metade dessa idade. Eis o que o leitor deduz: são britânicos, estão no Pacífico, a segunda guerra está no auge e chegou a esse oceano, devem ser um grupo escolar a viajar em conjunto por algum motivo nunca enunciado. Há conflitos ali próximos, porque além dos clarões de explosões dá-se uma prova ainda mais óbvia da civilização a trucidar-se ali perto. O livro também não se centra no saudosismo das crianças, na falta que o conforto do lar lhes traz, mas sim em como se constrói a sua nova organização, deixando para trás a civilidade.
Num primeiro momento, todos, mesmo a personagem principal (Ralph) são tomados de um entusiasmo contagiante por se verem livres e num belo cenário, com água fresca, piscinas naturais, fruta à mão e sem nenhum adulto a condicioná-los. Não se conhecendo entre si (excepto para o grupo de um coro, liderado por Jack Merridew e um par de gémeos inseparáveis), os rapazes procuram estabelecer uma nova ordem à semelhança da que acabam de deixar. O chefe (Ralph) é eleito por democracia, por possuir um búzio, uma espécie de tesouro na ilha em que todos chegam apenas com a roupa do corpo, e por usá-lo, por instrução de um outro rapaz (Piggy), para convocar reuniões e promover a auto-ajuda.
Nas reuniões discutem-se temas como o asseio pessoal e da ilha, a fogueira que urge manter acessa para que haja fumo na ilha e possam ser salvos, a alimentação, abrigos, exploração da ilha, etc.
Depois temos Piggy, um rapaz gordo, medroso, asmático, queixoso e preguiçoso, que não vê um palmo à sua frente sem os óculos. Piggy é vitima da troça geral por todas estas características, mas é também o rapaz mais sensato de todos pelo que, à revelia de quem o goza, se torna uma espécie de conselheiro de Ralph. Depois existe Simon, corajoso, fiel, individualista. Jack, o chefe dos rapazes do coro, desesperado por se ver à cabeça de todos. As crianças pequenas, vítimas do desinteresse dos outros miúdos, pouco mais velhos.
O livro explora as hierarquias e a ausência de lei e de um governo que institua livre sufrágio e a aplicação do resultado das eleições sem que a chefia seja sólida.Os membros do grupo dividem-se, não só por indecisão mas porque, enquanto Ralph é um chefe brando, outro se insinua com mais fervor, sob o signo do autoritarismo. O povo receia Jack, admira-o a certas o ocasiões, como quando a sua inclinação para a crueldade faz dele o líder ideal para os caçadores, por proporcionar a excitação da caçada e o consolo da carne.
Por outro lado, simpatiza com Ralph, o líder eleito por democracia, possuidor do objecto mágico: o búzio. Mas Ralph é um líder responsável entre crianças, não se regozija com a chefia nem procura nenhum mérito pessoal. Não é vaidoso nem sedento de poder, e insiste para que se faça o correcto.
O desencanto que a situação provoca, e que se vai agravando, vai separando os rapazes, trazendo ao de cima o pior de alguns deles e acicatando a ânsia de poder que atormenta Jack. Cria também uma rivalidade insustentável entre Ralph e Jack, e  de súbito a ilha parece pequena demais para dois chefes tão antagónicos.
As maiores crueldades são cometidas, levando-nos a perguntar se não seria assim, mesmo no mundo dos adultos, caso não houvesse uma entidade superior a policiar e a julgar comportamentos. Enquanto se sentem ligados à civilização, os rapazes experimentam vergonha, bom senso, cordialidade e procura por entendimento. Depois, resvalando para a bestialidade, despem-se da sua civilidade e tornam-se paus mandados de um chefe cruel. Só o receio ao novo chefe, impiedoso, os move, os faz obedecer com cegueira e, inclusive, encontrar prazer nos actos que se vão cometendo.
Este livro fez-me pensar muito e partiu-me o coração. Recordei-me da convicção de Locke e de Hobbes de que os homens não são bons por natureza, o que impede que se dispensem certas instituições que existem com o mero propósito de lhe refrear as mesquinhices.
Recomendo a todos!
Classificação: 5*****

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

#123 SOARES, Carla M., O Cavalheiro Inglês


Sinopse: Portugal. 1892. Na sequência do Ultimato inglês e da crise económica na Europa e em Portugal, os governos sucedem-se, os grupos republicanos e anarquistas crescem em número e importância e em Portugal já se vislumbra a decadência da nobreza e o fim da monarquia. Os ingleses que permanecem em Portugal não são amados. O visconde Silva Andrade está falido, em resultado de maus investimentos em África e no Brasil, e necessita com urgência de casar a sua filha, para garantir o investimento na sua fábrica. Uma história empolgante que nos transporta para Portugal na transição do século XIX para o século XX numa descrição recheada de momentos históricos e encadeada com as emoções e a vida de uma família orgulhosamente portuguesa.

Opinião: Escrevo a respeito deste livro sem primeiro consultar a autora do mesmo, que comecei a considerar, nestes anos de andanças literárias, como uma amiga. Estou a dever-lhe a leitura de A Chama ao Vento, mas infelizmente ainda não me converti aos formatos digitais. Terei de fazê-lo em breve, posto que devo a leitura de A Sombra de um Passado à Carina Rosa, e de Calor à Dra Maria José Núncio. Todos eles e-books, pelo que serei decerto obrigada a comprar um Kobo ou coisa que o valha… Ora bem, saboreando o prazer de ter um livro físico na mão, poder cheirá-lo e folheá-lo, fiquei encantada com a capa. Prometia tudo o que encontrei no seu interior. Desafio, História, intriga, romance. E assim foi. Falando das personagens, gostei da Sofia. Achei-a humana e compreendi-a. Não é fácil para um autor fazer uma personagem principal evoluir sem se contradizer, e a Carla conseguiu-o. A Sofia do início do livro, de espírito crítico mas conivente com os desmandos da nobreza em decadência, não é a Sofia ávida por se superar do fim, não é a Sofia que quebra com as regras e por fim compreende que se deve o direito de ser feliz. O Tião não é o típico idealista desmiolado, na realidade parece-me mais um menino mimado que até sofre boas influências, tem noção do certo e do errado, mas não consegue levar os seus planos a bom porto. Então, entre o influenciável e o impulsivo, acaba por ir pondo os pés pelas mãos e precisar da irmã. Depois há o Robert, o inglês calculista, homem de negócios quase sem escrúpulos, que se encanta pela Sofia. Porque sim, porque não é preciso motivos para uma pessoa se encantar por outra. Talvez seja da luz, talvez das almas que se reconhecem de há muito e se ligam na atmosfera que circunda os corpos, sem que as mentes o antevejam. Disposto a fazer tudo pela “posse” da Silva Andrade, aproveita uma janela do destino para reclamá-la.A grande jóia do livro é a época. Os cenários, os costumes, os entretenimentos. As personalidades da época, os bilhetinhos, o fervor republicano e anárquico, as Avenidas, os cabriolets, as viagens de doze horas de comboio, os bairros da capital e da Invicta, os hotéis, os transatlânticos e o contexto dos acontecimentos que vão tendo lugar. Deliciei-me nos cenários, por muito que haja quem se queixe das descrições, são os cenários que fazem um romance histórico. Vá lá leitores, não sejam preguiçosos! O que é um bailado sem tules? O que é um teatro sem setting? É meu gosto pessoal não gostar muito de mergulhar dentro da cabeça das personagens. É muito meu agir primeiro e pensar depois, daí que não atribua cinco estrelas. Gostaria de ter visto a personagem principal menos reflexiva e mais proactiva. Contudo, em nada prejudica o bonito quadro de época. Aconselho a quem queira espreitar a última década daquele que é o meu século histórico favorito.

Classificação: 4****/*

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

#122 QUINN, Julia, Para Sir Phillip, com Amor

Sinopse: Sir Phillip sabia que Eloise Bridgerton tinha já 28 anos e era, pois claro, uma solteirona. Foi por isso mesmo que pediu a sua mão em casamento. Sir Phillip partiu do princípio de que Eloise estaria desesperada por casar e não seria exigente ou caprichosa.
Só que… estava enganado. No dia em que ela lhe aparece à porta, torna-se óbvio que é tudo menos modesta e recatada.
E quando Eloise finalmente para de falar, ele percebe, rendido, que o que mais deseja é… beijá-la.
É que, quando recebeu a tão inesperada proposta, Eloise ficou perplexa. Afinal, nem sequer se conheciam pessoalmente. Mas depois… o seu coração levou a melhor e quando dá por si está numa carruagem alugada, rumo àquele que pensa poder ser o homem dos seus sonhos. Só que… estava enganada. Embora Sir Phillip seja atraente, é certo, é também um bruto, um rude e temperamental bruto, o oposto dos gentis cavalheiros que a cortejam em Londres.
Mas quando ele sorri… e quando a beija… o resto do mundo evapora-se e Eloise não consegue evitar a pergunta: será que este pesadelo de homem é, afinal, o homem dos seus sonhos?

Opinião: Tratando-se de um livro da Julia Quinn, é certo que gostaria dele. Já tinha lido algumas reviews a respeito deste livro, e não me parece que tenha sido o favorito de muitas pessoas no Goodreads. Contudo, foi um dos meus favoritos da saga dos irmãos Bridgerton, lado a lado com a história da Daphne e do Simon, e do Colin e da Penelope.
Achei a Eloisa uma personagem forte, bem construída, convicta e de grande dignidade. E o Phillip pouco tem dos heróis comuns destas novelas, posto que não é um vagabundo libertino, nem se propõe a corromper a mocinha. É um viúvo a braços com duas crianças complicadas, um botânico demasiado afogado nas suas lides para dedicar algum tempo aos filhos, e isso corrói-o de culpa.
Precisa de uma mãe para os filhos mas, conforme vai conhecendo Eloisa, começa a entender que está há tempo demais sem contacto humano e sem os abalos habituais que as relações amorosas causam a quem os experiencia.
O livro é tão terno quanto divertido, a Julia tem esse dom; o de me pôr a rir às gargalhadas a meio da noite. Depois aperta-me o coração, e é por isso que continuo a lê-la, para experienciar emoções através da mestria da pena dela neste género.
Há, contudo, algo que não gostei no livro. Perdoem-me por tentar descortinar ideologias e responsabilidade social na ficção, mas isto de facto assustou-me.
Phillip fora anteriormente casado, a esposa, Marina, suicidara-se. Pelo quadro de apatia, choros contantes e isolamento, diagnostico-a facilmente com depressão. A autora menciona que tudo isto se intensificara após o nascimento das crianças, pelo que penso que poderia querer referir-se a uma depressão pós-parto que, não curada, levou ao desespero final. O que é que detestei aqui?
Ninguém chega realmente a falar mal da Marina, mas culpabilizam-na pelo seu estado. Recriminam-na, passam longos diálogos a comparar essa mulher “triste”, na realidade doente, ao furacão de alegria que é a Eloisa. Este homem diz que tentara tudo (não sei ao certo o quê), e que Marina decidira não lutar. A autora apresenta-nos aqui uma pessoa com uma doença do foro psiquiátrico e o seu marido, que não a compreende, não sabe apoiá-la, e se regozija (embora não de forma aberta) pela sua partida. Chega a dizer que não quer rodear-se novamente de pessoas “tristes”, e que tudo o que almeja é uma esposa feliz.
Fiquei triste com esta abordagem superficial que a autora fez ao tema “depressão”. Basicamente deu a entender que o ideal é partirmos para outra, que essas pessoas estão condenadas à partida e não têm nada para oferecer que não angústia e sofrimento a quem se preocupa com elas. Este fantasma de preconceito assombrou-me durante todo o livro.
Isso e uma cena mais para o final, em que “flores” e “centenas” são mencionadas na mesma frase, recordou-me que o livro deve ser levado com leviandade, e por isso não poderia atribuir-lhe cinco estrelas.

Classificação: 4****/* 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

#121 KLEYPAS, Lisa, Tentação Perfeita

Sinopse: Foi mais do que um beijo… foi uma oração de beijos ininterruptos, com as sílabas quentes e doces dos lábios e da língua dele inebriando-a de sensações.» Londres prepara o Natal, e o americano Rafe Bowman aguarda o seu encontro marcado com Natalie Blandford, a muito bela e respeitável filha de Lady e Lord Blandford. O aspeto sedutor e físico impressionante do jovem agradariam certamente à prometida, não fosse a sua reputação de libertino e as suas maneiras americanas.As quatro amigas encalhadas dedicam-se, então, a ajudar o jovem pretendente, ensinando-lhe as regras da sociedade londrina e empenhando-se na aproximação dos futuros noivos. Contudo, o Natal é a época dos milagres, e o amor - essa emoção tão estranha a Rafe - ameaça brotar das mãos mais inesperadas.Uma encantadora viagem aos recantos do coração, pela autora bestseller Lisa Kleypas, a rainha do romance erótico.

Opinião: Eu já tinha ouvido falar do “A Wallflower Christmas”, mas não fazia ideia do que se tratava. As Wallflowers já estão felizes e casadas e agora é a vez de a família crescer uma vez mais. Rafe Bowman é o irmão mais velho de Lillian e Daisy e chega a Inglaterra para casar com a noiva que o pai lhe escolheu. Manipulativo e autoritário, Thomas Bowman espera conseguir mais uma união vantajosa para a sua família, e é-lhe conveniente que o filho queira tanto gerir parte da empresa familiar. A chantagem funciona; Rafe aceita casar-se com Natalie para assumir uma parte significativa do império dos Bowman.
Mas, por entre o espírito natalício, os olhos de Rafe vão pousar em Hannah, a prima pobre de Natalie e sua acompanhante.
O livro está imbuído dos valores do Natal, chegando até a haver uma aparição significativa de “A Christmas Carol”, de Dickens. Gostei muito de Rafe, a sua personalidade estava bem construída, entende-se que goste de Hannah e também se percebe a afeição dela para com ele.
Contudo, foi tudo muito rápido. É um livro pequeno, de 185 páginas, e está muito bem assim. A escritora teria tido espaço para desenvolver o romance, no entanto optou por atirá-los abruptamente para acima um do outro. Preferia um Rafe mais ponderado, pelo menos de início.
Ainda assim, é Lisa Kleypas e ri-me sozinha.

Classificação: 4****/*