terça-feira, 14 de abril de 2015

#131, MÁRQUEZ, Gabriel García, O Amor nos Tempos de Cólera

Sinopse: O Amor nos Tempos de Cólera constitui na obra de Gabriel García Márquez um marco equiparável ao do célebre Cem Anos de Solidão, considerado até hoje, a sua obra-prima. «O Amor nos Tempos de Cólera é um romance (...) onde se fundem o fulgor imagístico, o difícil triunfo do amor, as aventuras e desventuras da própria felicidade humana (...) Ao longo dum flash-back de quatrocentas páginas vertiginosas, compostas numa espécie de pauta estilística e musical, da qual não estão sequer ausentes o humor, a poesia e a vertigem das imagens (...) o leitor recupera o ritmo enca
ntatório duma escrita que não tem conhecido imitadores à altura.

Opinião: Em 1985, quando publicou “O Amor Nos Tempos de Cólera”, Gabriel García Márquez tinha 58 anos. Diria mesmo que é uma idade ainda precoce para uma obra tão madura quanto a que terminei agora de ler. Como sempre se disse que “Cem Anos de Solidão” era o ex-libris da obra do escritor colombiano falecido a 17 de Abril 2014 (faz depois de amanhã um ano), comecei por lê-lo nesse registo. Mas as repetições dos nomes familiares, os amores e desamores surrealistas de uma mesma família ao longo de várias gerações enevoaram-me. Terá sido há, talvez, cinco anos. Talvez vinte anos não seja idade suficiente para se compreender a grandeza de um escritor com este nível de profundidade.
“O Amor nos Tempos de Cólera” é, sim, um livro de amor. Um livro sobre um amor maior, daqueles que tudo esperam e tudo suportam. Por vezes é angustiante ver como os anos engolem as personagens principais, Fermina Daza - a “Deusa Coroada” -, Florentino Ariza, que aos 20 anos já parecia velho, e o Dr. Juvenal Urbino, pragmático e metódico em cada gesto. Faz-nos pensar acerca da vida e das suas coincidências e tragédias, como a de um homem que, tão jovem, se deixa enlevar por uma menina-mulher, e o que torna esse amor tão grande que o obriga a levar uma meia-vida, uma vida sempre vivida na expectativa de um dia vir a ganhar o afecto de Fermina. Que fez Fermina Daza para o encantar deste modo? Ela nunca se esforçou por conquistar-lhe as graças, nem por mantê-las. Pelo contrário, é teimosa, por vezes um tanto rude, e não é decerto alguém acessível ou com quem dê gosto falar. É uma mulher difícil, de mais acção do que palavra, que se deixa iludir por um amor que se lhe apresenta proibido e, dando azo à casmurrice que a caracteriza, compromete Florentino para a vida. Quando se dá conta de que o que sentia era uma mera ilusão de jovem, já Florentino vive somente para ela, e por ela gere toda a sua vida, a ela dedica todas as suas lágrimas, e nela deposita a sua única esperança de felicidade numa vida que está condenada à banalidade.
A beleza do livro consiste, claro está, na mestria com que o Nobel colombiano dirige a passagem do tempo, as perspectivas dos três personagens principais, o modo como os sentidos se conjugam para criar imagens vívidas do afável Urbino, do reservado Florentino, da volúvel Fermina. A narrativa crua do autor, que não recai em floreados mas sim num poder de descrição que só pode ser descrito como um “dom”, atribui uma beleza quase negra ao romance. Tudo nele tem um lado belo e um lado oculto. A vida que se vive de prazeres fugazes porque a felicidade total nos está vedada. A vida enganosa de quem teimou em seguir pela estrada tal, e que só se dá conta de que o faz por teimosia, e por nada mais, quando é demasiado tarde. O retrato da sociedade da época, das viúvas-alegres às carpideiras, as ruas da cidade dos vice-reis, os vícios e virtudes dos humanos, todos os estratos sociais tão bem ilustrados, caídos nas mesmas fraquezas, rastejantes nos mesmos receios… - a morte, a velhice, o desamor.
Histórias de amor há muitas, mas o imaginário de García Márquez é um só e presenteou-nos com esta obra singular: um amor diferente de todos, sofrido, calejado, cimentado ao longo de mais de cinquenta anos, mas concretizado, como todos os amores que realmente o são.
Um livro cujas páginas, mais tarde, quererei, com certeza, revisitar. Quem nunca leu um livro assim – que vejo um tanto aproximado, de facto, de um Saramago ou de uma Isabel Allende, pelo modo como as pessoas vivem em diversas dimensões (a realidade, o passado, o futuro projectado, a superstição e o sonho) – não pode, tão-pouco, imaginar a complexidade desapiedada de uma obra assim.

Classificação: 5/5*****

sexta-feira, 10 de abril de 2015

#Mal me quer, bem me quer...

A magia dos perfumes levou-me a abrir o meu blogue a esse assunto, também.

O que diz um perfume sobre a mulher?

Eu sempre fui fã de um só cheiro para cada mulher.
Na realidade, tenho dois...

Coco Mademoiselle (Chanel) para o inverno;
Amor Amor (Cacharel) para o verão.

Estou apostada em comprar um novo, então fui desenterrar as minhas memórias olfativas na hora da escolha...

Opções:

Downtown (Calvin Klein)
  Tem algo de jovial, urbano e independente. E a Rooney Mara ajudou-me a ter interesse em cheirá-lo. Foi amor à primeira cheiradela...
Cabeça
pêra, ameixa, bergamota, neroli, limão
Corpo
pimenta rosa, gardénia, folhas de violeta
Base
vetiver, olíbano, almíscar, cedrus

Daisy (Marc Jacobs)
Este perfume marcou a minha ida para a Alemanha e o primeiro perfume que comprei para mim. Fui buscar o Amor e Amor e saí, em Hamburgo, com uma amostra deste maravilhoso Daisy do Marc Jacobs. Intenso e feminino...
Cabeça
toranja, violeta, morango
Corpo
notas florais, gardénia
Base
madeira, baunilha, almíscar

Trèsor In Love
 Ah pois é, este é que eu queria! Mas é caríssimo. Parece-me que os perfumes franceses são bem mais caros que os italianos e britânicos, mas também lhes dão 10 a 0... Tem a dose certa de doçura e irreverência com que me identifico num aroma...
Cabeça
pêra, bergamota, pimenta, pêssego careca
Corpo
violeta, jasmim, rosa, pêssego
Base
almíscar, cedrus


E vocês? Têm um perfume para ocasião? Ou há um eleito para todos os momentos?

quarta-feira, 8 de abril de 2015

#130 CALDWELL, Erskine, A Estrada do Tabaco

Sinopse: O humor de Caldwell, como o de Mark Twain, tem como fonte a imaginação que agita as emoções do leitor. Durante a Grande Depressão americana, a família Lester não sabe como sobreviver à miséria que se avizinha. Residem e gerem os territórios rurais da Geórgia, cultivados com tabaco e algodão, mas já nem isso os salva. Debilitados pela pobreza ao ponto de atingirem um estado de ignorância e egoísmo cruel, os Lesters preocupam-se com a fome, os apetites sexuais que os devoram e o medo de que a hierarquia social os empurre para uma camada ainda mais desfavorecida.  A pobreza, o racismo e a bestialidade dos homens são aqui postas a nu, despindo a sociedade americana dos anos 20 com crueza e violência, numa tragicomédia de mestre. A Estrada do Tabaco é um dos grandes clássicos americanos de Erskine Caldwell.

Opinião: Foi a capa que, uma vez mais, me levou até este livro. Quando o recebi em mãos entendi que esta pequena obra de 200 páginas seria devorada com rapidez. Sucede que cada livro é uma caixinha de surpresas, e este não foi excepção... A psiquiatria, nascida na Alemanha, deu o braço a várias teorias de eriçar os pêlos no século XIX. Durante a Grande Depressão (que começou em Out 1929 na América), essa ciência relativamente recente avaliada as capacidades das pessoas, a sua utilidade social. A "Eugenia", corrente da qual o próprio autor seria aficcionado, defende a esterilização involuntária daqueles que a Sociedade considere não aptos a reproduzirem-se. Persone non grate. Enfim... O certo é que "A Estrada do Tabaco" é um desfile de algumas das personagens mais abomináveis que jamais li. Scarlett O'Hara era oportunista e fútil, mas também sensata e persistente. Cathy Earnshaw é igualmente fútil, vaidosa, demasiado dramática, mas ama Heathcliff. Que dizer dos Lester? Ignorantes, interesseiros, preguiçosos, oportunistas... Sempre à espera que "deus" venha salvá-los e o dinheiro chova do céu... A Grande Depressão é retratada, neste romance, a partir do núcleo de Lesters que vivem à beira da estrada do tabaco. Jeeter, o pai, Ada, a mãe, a avó Lester, Ellie May que tem uma fenda no lábio, de nascença, e Dude, um mal educado de 16 anos, desobediente e obtuso.   Jeeter está "aferroado" ao terreno onde nasceu na Georgia, "the old south", apenas setenta anos após o Norte industrial ocupar o sul algodoeiro e libertar os negros. É preguiçoso e vive de procrastinação: amanhá será sempre o dia em que irá pedir uma mula emprestada, revolver o solo e arranjar quem lhe conceda crédito para comprar sementes. A sociedade americana vivia de crédito: mesmo morto de fome Jeeter nunca pondera ir trabalhar para as fábricas, onde se diz que poderia ganhar até 25 dólares por semana, sendo que 2 bastariam para alimentar a família durante esse mesmo período. Nada tem, por nada luta. Apenas se lamuria e culpabiliza terceiros (ou o próprio carro, por não poder levá-lo a Augusta) da situação de miséria extrema em que se encontra. Tanto ele quanto o filho acham que os ricos deveriam abrir mão da sua riqueza para melhor a distribuir por quem nada tem. Ou, ao menos, conceder-lhes crédito. Desconfiam dos ricos, atribuem-lhes más qualidades, embora também se deixem deslumbrar pelas suas vidas e as invejem. A Irmã Bessie é uma hipócrita ignorante de 39 anos que almeja casar-se com Dude (isso mesmo, o rapazinho de 16 anos). Esta personagem sem nariz, de fé cega num deus evangélico que muito lhe convém, foi o exemplo de como a religião, sob o signo do medo e a promessa de conforto e alívio, afasta os homens da Verdade. As situações que se seguem são bizarras, retrato de uma família sem qualquer luz de conhecimento, cheios de preguiça e sonhos irrealizáveis que alimentam como pretexto para se manterem quietos. O esbanjar do que não se tem, a má gestão, mau cálculo, o despojar-se dos filhos e da avó porque em última instância são meras bocas para alimentar... A lei que existe mas não é cumprida...
O absurdo do livro estarreceu-me. Fala-se em humor negro mas não consigo discerni-lo nestas páginas, porque sei que houve e que há pessoas assim. Aconselho vivamente, ao contrário da glorificação da humanidade em horas de aperto, o autor leva-nos ao grotesco da ausência de quaisquer princípios por imposição da fome.


Classificação: 4,5****/5

sábado, 28 de março de 2015

#129 ANTOLOGIA, RECEITAS FANTÁSTICAS

Pão do Caminho - Mogu-Mogu Chan - 1,5

A referência a Tolkien salvou-o... esperava originalidade e encontrei apenas uma receita com smiles pelo meio :(

Biscoitos da Vida Eterna - Carina Portugal - 5
É isto que um conto deve ter: o poder de nos causar emoção! Ri-me com diversas partes e fiquei siderada com a imaginação da autora, que vai do grotesco ao humor adorável (ainda assim negro) com uma mestria invejável. Adorei.

Estufado de Miolos - Ana Ferreira - 4
Embora não tão elaborado quanto "Biscoitos da Vida", gostei muito, sobretudo da conclusão, e ri-me bastante. O facto de ser uma receita para zombies pareceu-me bem original.

Túbaros de Troll Estufados - Sara Farinha - 4,5
Igualmente divertida, gostei muito da receita e do elemento fantástico envolvido. Também foi engraçado ler a respeito das propriedades nutricionais da iguaria.

Bolo de Chocolate - Carlos Silva - 4,5
Adorei a ideia de se subscrever uma máquina que faz tudo por nós, que têm aplicações infindáveis, um serviço Premium para panelas! Foi muito divertido, como toda a antologia

#128 ANTOLOGIA - 7 VIRTUDES


3,75


Corpo, Alma e Coração - Carina Portugal - 4
Como li há pouco o "Gula", pareceu-me que de certo modo os dois se relacionam. O que acho mais rico na Carina é o vocabulário, que é a grande jóia da narrativa, e o imaginário, que apesar de narrar o mesmo tipo de auto-consumo do outro conto, contém laivos de originalidade e beleza.



O Que Não Cura, Satisfaz - Ana Ferreira - 3
Faltou uma revisão. Mais parágrafos seria bom, sobretudo na primeira parte. Gostei do conceito, embora não tenha entendido se o contexto (véu, jejum, preceitos) é inventado. O mais aproximado que cheguei em termos culturais foi ao islamismo... O modo como termina parece-me um tanto abrupto. Penso que seria melhor fechar o conto atrás da paciente ao deixar o consultório.



O Paciente é o Mais Forte - Pedro Pereira - 3,5
Pequenos desacordos de número, alguma influência do Senhor dos Anéis, ou talvez de GOT. Excesso de advérbios de modo. Final um tanto abrupto, gostei da ideia mas achei-a simplista (o que, de certo modo, joga com a essência do conto).



Castidade - Sara Farinha - 3,5
Conto pequeno, com pontuação por vezes em falta, onde "decadência" surge demasiadas vezes. Luxo e opulência marcam a 2ª parte do setting, que considerei exagerada em termos descritivos. A primeira parte é muito interessante, bem como o contexto do voto. Terminou de forma abrupta, reli várias vezes as frases sem entender. No geral dava um bom livro de fantasia.



Diligência - Carlos Silva - 4,5
Má articulação de algumas frases, mas um vocabulário interessante. Gostei muito do modo como o autor conduziu a mensagem. "Último folgo" será fôlego? Adorei o nome, Semião e, apesar de não chegar a ser descrito, o setting que o mesmo sugere cativou-me. Gostei.



O Documento - Ana Ferreira - 3,8
Desacordo de género e falta de parágrafos. Ai ai, Ana! Bons diálogos, gostei do antagonismo escritor/editora e da relação de ambos. Não estou certa de ter visto "fantasia" no conto, mas não me importo. A autora poderia ter continuado para uma história maior... só tem de se preocupar menos com o chocolate quente e os chás!



O Protótipo - Pedro Cipriano - 4
A ideia (e a própria conclusão) é tão semelhante à de "Nada e Tudo" que me recordei de imediato do autor. Acabei por apreciar os trejeitos técnicos, significa que sabe do que fala. E gosto do modo como conduz a alma humana, que acaba por deixar ir... Se tiver algum livro publicado, penso que gostaria de lê-lo em busca deste espírito com o qual, de certo modo, me identifico.

#127 ANTOLOGIA - 7 PECADOS

2,97



Gula - Carina Portugal - 4,5
Nunca tinha lido nada da Carina, foi a primeira vez. Gostei muito da linguagem, limpa e não demasiado floreada. Achei o imaginário admirável, um simples "capítulo" que faz sentido por si só e que, ainda assim, poderia fazer parte de algo maior.



Um Conto Acerca do Orgulho - Liliana Novais - 1,5
A pontuação surge mal colocada (vírgulas onde deveria estar dois pontos; sujeito e acção apartados), sucede o típico erro em que o condicional "poderia" surge como imperfeito "podia". "Planos do palácio" suspeito que seja "planta do palácio". Os diálogos pecam por construções como "Eu vim roubar" quando bastaria "Vim roubar". Muitos lugares-comuns, pouco original.



Ira - Pedro Pereira - 1,5
"Altos arranha-céus"/"Alguns dias atrás". Tempo verbal oscila do presente para o pretérito perfeito, deixando o leitor deslocado. Má colocação de vírgulas. "Alienígena" é a palavra de ordem. Pouco original e mal executado.



Luxúria - Sara Farinha - 2,5
Achei original na medida em que o final foi imprevisto. Porém, todo o resto são lugares-comuns, decotes generosos, sapatos de salto agulha, lábios vermelhos, homem musculoso e carro desportivo. O próprio cenário é do mais banal: um clube nocturno e uma dança sensual. Este "pecado" poderia ter rendido muito mais...



Nada e Tudo - Pedro Cipriano - 3,8
Tinha-me esquecido de cotar este conto, mas depois de ler "Generosidade", noutra antologia, recordei-me de imediato do estilo (e imaginário) do autor. Achei muito técnico, não é fácil seguir números. Achei o conceito interessante: o de alguém se apoderar de um bem na totalidade, causando o seu desgaste e fazendo com que deixe de ter qualquer importância para os outros, que aprendem a virar-se sem ele.



Preguiça - Carlos Silva - 4
Ainda estou a tentar entender quem é que, no discurso directo, diz "eu fui ter com Maria". Não falta ali um "a"? A meio do texto passou a haver artigo antes de Roberto. Porém gostei da inspiração, achei as descrições gráficas e muito interessantes. Com uma pequena correcção da construção frásica e seria muito bom. Acabou cedo demais!(Deve cortar nos advérbios de modo).



Desejos - Vítor Frazão - 3
Vírgulas sistematicamente mal aplicadas. Acho que a última frase encerra mal o pequeno conto. Senti que já tinha visto aquele final, mas o início poderia dar azo a um conto popular, fez-me sorrir e lembrar-me das historietas da terra da avó.


domingo, 22 de março de 2015

#126 APOLLINAIRE, Guillaume, As Onze Mil Vergas


Opinião: Classificado de romance “erótico” pontuado de humor, obscenidade e até erudição, é referenciado como “uma obra-prima”, por Pablo Picasso. De referir que Apollinaire e Picasso deveriam ser grandes amigos, posto que juntos levaram a cabo o roubo da Mona Lisa, em 1911. Apollinaire foi preso pelo suposto roubo. Estes pormenores da vida do autor são interessantes, mas nada nos prepara para o livro que intitulou de “As onze mil vergas”.
Por muito dúbio que o título seja, diria com grande segurança que estas “vergas” não são as óbvias, mas sim as que aplicam “vergastadas”.
O livro, de 1907, narra a história do príncipe romeno Mony Vibescu que, por questões pessoais, deixa Bucareste e viaja para Paris. A carta de despedida que dirige ao vice-cônsul com quem se encontrava amiúde ajuda a explicar esse ensejo por sair da Roménia:
Meu caro Bandi:
Estou farto de ser enrabado por ti. Estou farto das mulheres de Bucareste (…)
Por esta altura estamos na página 13 do livro e já nos deparámos com duas orgias. É assim que se desenrola o livro, todos os acontecimentos entre uma orgia e outra são meros preparativos para a próxima. Sexo em grupo é o que mais vemos no livro. As personagens só servem para se enrolar e trazer um amigo para o próximo encontro amoroso. Temos Cuculina e Alexina Come-Tudo, parisienses que se hão-de cruzar com as personagens noutras paragens. As duas amantes admitem o príncipe e o seu fiel escudeiro, Corno de Boi, na sua alcova. Há a prostituta japonesa, a polaca esposa de um general, a pobre alemã que está a amamentar, o cossaco, e tantos outros personagens que surgem em rol para se envolverem sexualmente com Mony e Corno de Boi, alguns deles vendo-se assassinados no final do interlúdio amoroso.
A sinopse do livro avisa os mais púdicos e os de estômago sensível: há orgias, masoquismo, sadismo, escatofilia (fui ver ao google o que era) e necrofilia. Esqueceram-se de mencionar zoofilia e pedofilia, mas num livro destes, em que as chibatadas se seguem na alvura das nádegas das francesas, e em que se continua a investir sobre o corpo da mulher já expirada, não era necessário mencionar-se que todos os limites seriam ultrapassados.
Duvido que, em toda a minha vida, venha a ler algo mais nojento do que isto. Mas a verdade é que, depois de tanta perversão e envolvimento doentio, por se tornar repetitivo, o livro deixa de chocar. Nem quando um pai viola o filho, ou outro pai viola a filha de quatro meses, nem quando a mãe amamenta o príncipe em vez da filha… Já tudo esperamos e já nada nos contorce o estômago, após as reviravoltas iniciais. Não fui ter com o livro, não é de todo o meu género. Caiu-me no colo e dei-lhe uma oportunidade, mesmo porque era pequeno e tão deslocado de tudo que tive de lê-lo.
Por vezes me perguntei se o livro era uma obra humorística, porque tanto absurdo só poderia resvalar para uma de duas coisas: humor ou tremenda incapacidade de expressão. Sucede que, nas últimas trinta páginas, o autor me surpreendeu um pouco. Não devido a mais cenas de promiscuidade, mas sim devido ao modo como a história (atenção: só é "história" no contexto deste livro, tão estéril) se alinha. As onze mil vergas abatem-se sobre o lombo do príncipe, que não cumpriu a promessa de fornicar vinte vezes seguidas. Depois de tanta crueldade, é Vibescu a vítima do sadismo de outrem, e o exército Japonês, em plena guerra com os Russos, põe assim fim a um livro que, de tão nojento e agoniante, me soltou francas risadas.
Não é para qualquer um, e não é livro em que jamais volte a pegar. Porém, nunca me conseguirei esquecer deste pedaço de loucura literária.

Sinopse: Guillaume Apollinaire foi um dos maiores poetas modernos de língua francesa, um homem erudito e culto, presente em todos os movimentos de vanguarda até à morte, em Paris, no ano de 1918. O presente livro circulou durante muitos anos em edições clandestinas, mas acabou por encontrar um lugar, de corpo inteiro, na obra de Apollinaire. Ninguém deixará de reconhecer o seu espírito num livro tão monstruoso como ternamente erótico.
As Onze Mil Vergas conta a história de um príncipe romeno, Mony Vibescu, no seu périplo de depravação em busca de excitação e aventura que o leva de Bucareste a Paris, passando por vários países da Europa e culminando na China. As suas peregrinações são pontuadas por cenas notavelmente cruas, em que Apollinaire explora, com um humor invulgar, as facetas mais obscenas da sexualidade, do sadismo ao masoquismo, do vampirismo ao safismo, da gerontofilia à pederastia, do onanismo à sexualidade em grupo. Leitor de Sade, Restif de la Bretonne e Andrea de Nerciat, Apollinaire constrói com as suas Onze Mil Vergas a resposta do modernismo aos velhos mestres do erotismo, expandindo e detonando os limites da obscenidade muito para além do imaginável.
Classificação: 1,8/5