quinta-feira, 18 de junho de 2015

#133 GOMES, Ivan Vera, Que Espaço Vazio Têm as Minhas Mãos

Opinião: Este livro é um achado. Não foi escrito com a cabeça nem com o coração, mas antes com as vísceras. Cruel, desconcertante, impiedoso: são os adjectivos que melhor o descrevem. A frustração de um homem que procura encontrar-se, situar-se num mundo tão vasto, enquanto se esforça por se fazer valer perante os outros. O seu círculo de amizades, a sua família…
A cada linha uma nova reflexão, o sentimento de solidão, de angústia, de estarmos rodeados mas de sermos apenas um, tantas vezes menos que isso. Cada página uma miríade de sublinhados:
As confissões intimistas do autor a propósito da vida, da morte, dos propósitos de uma e doutra. A mãe, o pai, a guitarra e o irmão, a vida que começa e outra que se finda. Os amigos: o diálogo eterno, os abraços infinitos que trocamos com os amigos. As coisas que não dizemos nem aos amigos e que tardamos a admitir perante nós mesmos. O amor desfeito e o sentimento que perpetua.
Deus, que só “está em todo o lado para não perder o sofrimento de ninguém”. Deus, o tipo que não dá nada a ninguém. Deus, que o autor vê como uma criança, “é mais fácil perdoá-lo”.
E a ideia de que “a maior viagem do homem é aquela que interfere com os seus planos”. A ideia de que somos os únicos culpados da nossa própria velhice. E a verdade incontornável de que “Quase ninguém nos vai buscar ao fundo”.
Um livro com cabeça, tronca e membros. Não consigo considera-lo crónicas, mas antes um romance. Não se dá o caso de a crónica número 1 despeitar o amarelo enquanto a 15ª o idolatra. O autor é coeso no seu pensar, não fabricou um livro: deu-o à luz de parto natural. O livro saiu-lhe, é parte dele e da sua essência, é autêntico em todo o seu linguajar. Romântico, também, na medida em que um homem quebrado consegue sê-lo. E as emoções surgem com uma tangibilidade que me pôs em lágrimas em mais do que uma parte. Mas também me ri bastante noutras, no modo como é retratado o arrumador-de-carros que conhecem num parque de estacionamento e que, simplesmente, está de bem com a vida. Ou finge estar: tão hilariante que nos cega de comoção.
Um livro de uma sensibilidade transcendente, vindo de um punho que não pode parar de escrever. O melhor que já li de um autor português – eu, que nunca terminei um livro de Lobo Antunes e que tropeço nas vírgulas do grande Saramago. O choque absoluto de considerar que um livro assim merece uma visibilidade e uma distribuição muito melhores àquelas que se dispõem a dar-lhe, porque é alguém novo – mas alguém que mais cedo ou mais tarde terá o seu trono no universo literário deste pequeno jardim.
Alguém que venha e descubra esta jóia por entre os castelos de pirite que para aí andam.
Aconselho a quem procure amor, ódio, angústia e desespero (bem como amizade), em estado bruto.

Sinopse: Uma viagem desassossegada pela angústia das relações humanas, uma reflexão acerca da morte sempre iminente e uma introspecção pelo amor ao eu que passa sempre pelo amor ao outro. A história de uma consciência profundamente sensível e lúcida. Um livro terrível, de frases e situações impactantes.

Classificação: 5/5*****

terça-feira, 2 de junho de 2015

#132 MARTIN, Charles, A Montanha entre Nós

Sinopse: Ben é um médico cirurgião e Ashley é uma atraente e simpática jornalista que está a poucos dias do seu casamento. Conhecem-se na sala de embarque de um aeroporto, enquanto esperam pelo seu voo, atrasado devido ao mau tempo. Quando a viagem é cancelada, Ben aluga um avião particular para poderem regressar a casa.
Durante a viagem o impensável acontece: o avião cai numa zona isolada e gelada no meio do nada.
Ben e Ashley sobrevivem ao acidente. Sozinhos e feridos, têm de lutar contra as adversidades e as temperaturas negativas daquele lugar inóspito.
A luta pela sobrevivência vai despertar neles os sentimentos mais sinceros e levá-los a questionar o rumo das suas vidas até então. Será que conseguem sobreviver? E se conseguirem, até que ponto esta experiência mudará os seus destinos? 

Opinião: Há imensos livros com histórias de sobrevivência. Ultimamente recordo-me de dois: “A Vida de Pi” e “Sozinhos na Ilha”. O primeiro vale por não ser um mote para o enredo romântico, pelo contrário: é sobre o ser humano e o seu lado animal. Daí que seja, de longe, o meu favorito. Depois temos o livro da Tracy Garvis-Garves, em que um rapaz jovem e a suposta explicadora de verão se perdem numa ilha paradisíaca. Tem o seu quê de sexualidade e muito pouco de condições inóspitas, pelo que não consegui gostar do livro, sobretudo do final.
Gostei de “A Montanha entre nós”. A viagem é inspiradora, dolorosa, sofrida, o escritor consegue construir um amor cúmplice e altruísta que nos comove e nos prega às páginas do romance. Gostei das coincidências, das circunstâncias, dos detalhes (Ben, que fala para o gravador, Ashley e o seu sentido de humor único, o cão cujo nome as personagens principais esqueceram). Adorei o livro até três quartos do final, presa a este homem e aos seus princípios, a esta mulher jovem e indecisa que, a dado momento, admite que está prestes a casar-se com um homem que não ama de paixão porque não podia continuar à espera de um príncipe para sempre. Depois, a vida que Ben deixou para trás começou a aborrecer-me… Acho que o autor falhou em fazer-me gostar da mulher de Ben, por muito que tenha insistido que Ben a adorava. Aquela mulher “perfeita” não justificava um amor assim, ou talvez seja eu que encontro mais complexidade, mais substância, nos defeitos, e daí que considere que o amor nasça da sua aceitação. E o dilema de Ben e da esposa, Rachel, apesar de delicado, e de conseguir comover-me, termina de modo algo “cinemático”, porque acho que o autor, que primou por ser tão terra-a-terra ao longo de 330 páginas, peca nas últimas 30. Perde a personagem, divaga, por fim. Há ali uma homenagem que acho exagerada, injustificada. As coisas precipitam-se num livro cujo ritmo foi sempre bastante lento, tanto quanto o era, na neve, arrastar-se um trenó com um ferido.
Adorei o livro pelas paisagens, pelo frio e a fome que conseguiu transmitir-me e pelo manejamento do ingrediente “esperança”. Apenas o final lhe roubou louvor, caso contrário seria um 5*****.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Em Maio na Minha Estante...

Ainda só estamos a 12 de Maio, mas não creio que vá adquirir mais livros este mês, apesar das promoções mirabolantes da FNAC, Continente e etc...

Então cá vai:

O Vermelho e o Negro;
A Quinta dos Animais;
Toda a Luz Que Não Podemos Ver;
A Bela e o Vilão.

É um mês pobrezinho em quantidade, mas com três grandes obras e uma "passa-tempo" que quem me dera conseguir despachar em 30 dias... Nem todos saíram da carteira, alguns saíram da língua... (eheh, das aulas de Inglês!).

Porém, ando a ler o Livro de Crónicas de António Lobo Antunes, e a pescar preciosidades como:
- Encontrámo-nos no pó.

E por isso não consigo dedicar, para já, tempo aos outros.

Em breve quero insistir na mestria do Gabriel García Marquez ("o coração tem mais quartos que uma casa de putas").

Se fosse uma mulher rica (ou tivesse comprado menos uma mala este mês), seriam estes a tentar-me:

Cem Anos de Solidão;
O Amor Nos Tempos de Cólera;
Contos Completos;
A Coisa à Volta do Teu Pescoço;
O Lobo das Estepes.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

terça-feira, 14 de abril de 2015

#131, MÁRQUEZ, Gabriel García, O Amor nos Tempos de Cólera

Sinopse: O Amor nos Tempos de Cólera constitui na obra de Gabriel García Márquez um marco equiparável ao do célebre Cem Anos de Solidão, considerado até hoje, a sua obra-prima. «O Amor nos Tempos de Cólera é um romance (...) onde se fundem o fulgor imagístico, o difícil triunfo do amor, as aventuras e desventuras da própria felicidade humana (...) Ao longo dum flash-back de quatrocentas páginas vertiginosas, compostas numa espécie de pauta estilística e musical, da qual não estão sequer ausentes o humor, a poesia e a vertigem das imagens (...) o leitor recupera o ritmo enca
ntatório duma escrita que não tem conhecido imitadores à altura.

Opinião: Em 1985, quando publicou “O Amor Nos Tempos de Cólera”, Gabriel García Márquez tinha 58 anos. Diria mesmo que é uma idade ainda precoce para uma obra tão madura quanto a que terminei agora de ler. Como sempre se disse que “Cem Anos de Solidão” era o ex-libris da obra do escritor colombiano falecido a 17 de Abril 2014 (faz depois de amanhã um ano), comecei por lê-lo nesse registo. Mas as repetições dos nomes familiares, os amores e desamores surrealistas de uma mesma família ao longo de várias gerações enevoaram-me. Terá sido há, talvez, cinco anos. Talvez vinte anos não seja idade suficiente para se compreender a grandeza de um escritor com este nível de profundidade.
“O Amor nos Tempos de Cólera” é, sim, um livro de amor. Um livro sobre um amor maior, daqueles que tudo esperam e tudo suportam. Por vezes é angustiante ver como os anos engolem as personagens principais, Fermina Daza - a “Deusa Coroada” -, Florentino Ariza, que aos 20 anos já parecia velho, e o Dr. Juvenal Urbino, pragmático e metódico em cada gesto. Faz-nos pensar acerca da vida e das suas coincidências e tragédias, como a de um homem que, tão jovem, se deixa enlevar por uma menina-mulher, e o que torna esse amor tão grande que o obriga a levar uma meia-vida, uma vida sempre vivida na expectativa de um dia vir a ganhar o afecto de Fermina. Que fez Fermina Daza para o encantar deste modo? Ela nunca se esforçou por conquistar-lhe as graças, nem por mantê-las. Pelo contrário, é teimosa, por vezes um tanto rude, e não é decerto alguém acessível ou com quem dê gosto falar. É uma mulher difícil, de mais acção do que palavra, que se deixa iludir por um amor que se lhe apresenta proibido e, dando azo à casmurrice que a caracteriza, compromete Florentino para a vida. Quando se dá conta de que o que sentia era uma mera ilusão de jovem, já Florentino vive somente para ela, e por ela gere toda a sua vida, a ela dedica todas as suas lágrimas, e nela deposita a sua única esperança de felicidade numa vida que está condenada à banalidade.
A beleza do livro consiste, claro está, na mestria com que o Nobel colombiano dirige a passagem do tempo, as perspectivas dos três personagens principais, o modo como os sentidos se conjugam para criar imagens vívidas do afável Urbino, do reservado Florentino, da volúvel Fermina. A narrativa crua do autor, que não recai em floreados mas sim num poder de descrição que só pode ser descrito como um “dom”, atribui uma beleza quase negra ao romance. Tudo nele tem um lado belo e um lado oculto. A vida que se vive de prazeres fugazes porque a felicidade total nos está vedada. A vida enganosa de quem teimou em seguir pela estrada tal, e que só se dá conta de que o faz por teimosia, e por nada mais, quando é demasiado tarde. O retrato da sociedade da época, das viúvas-alegres às carpideiras, as ruas da cidade dos vice-reis, os vícios e virtudes dos humanos, todos os estratos sociais tão bem ilustrados, caídos nas mesmas fraquezas, rastejantes nos mesmos receios… - a morte, a velhice, o desamor.
Histórias de amor há muitas, mas o imaginário de García Márquez é um só e presenteou-nos com esta obra singular: um amor diferente de todos, sofrido, calejado, cimentado ao longo de mais de cinquenta anos, mas concretizado, como todos os amores que realmente o são.
Um livro cujas páginas, mais tarde, quererei, com certeza, revisitar. Quem nunca leu um livro assim – que vejo um tanto aproximado, de facto, de um Saramago ou de uma Isabel Allende, pelo modo como as pessoas vivem em diversas dimensões (a realidade, o passado, o futuro projectado, a superstição e o sonho) – não pode, tão-pouco, imaginar a complexidade desapiedada de uma obra assim.

Classificação: 5/5*****

sexta-feira, 10 de abril de 2015

#Mal me quer, bem me quer...

A magia dos perfumes levou-me a abrir o meu blogue a esse assunto, também.

O que diz um perfume sobre a mulher?

Eu sempre fui fã de um só cheiro para cada mulher.
Na realidade, tenho dois...

Coco Mademoiselle (Chanel) para o inverno;
Amor Amor (Cacharel) para o verão.

Estou apostada em comprar um novo, então fui desenterrar as minhas memórias olfativas na hora da escolha...

Opções:

Downtown (Calvin Klein)
  Tem algo de jovial, urbano e independente. E a Rooney Mara ajudou-me a ter interesse em cheirá-lo. Foi amor à primeira cheiradela...
Cabeça
pêra, ameixa, bergamota, neroli, limão
Corpo
pimenta rosa, gardénia, folhas de violeta
Base
vetiver, olíbano, almíscar, cedrus

Daisy (Marc Jacobs)
Este perfume marcou a minha ida para a Alemanha e o primeiro perfume que comprei para mim. Fui buscar o Amor e Amor e saí, em Hamburgo, com uma amostra deste maravilhoso Daisy do Marc Jacobs. Intenso e feminino...
Cabeça
toranja, violeta, morango
Corpo
notas florais, gardénia
Base
madeira, baunilha, almíscar

Trèsor In Love
 Ah pois é, este é que eu queria! Mas é caríssimo. Parece-me que os perfumes franceses são bem mais caros que os italianos e britânicos, mas também lhes dão 10 a 0... Tem a dose certa de doçura e irreverência com que me identifico num aroma...
Cabeça
pêra, bergamota, pimenta, pêssego careca
Corpo
violeta, jasmim, rosa, pêssego
Base
almíscar, cedrus


E vocês? Têm um perfume para ocasião? Ou há um eleito para todos os momentos?

quarta-feira, 8 de abril de 2015

#130 CALDWELL, Erskine, A Estrada do Tabaco

Sinopse: O humor de Caldwell, como o de Mark Twain, tem como fonte a imaginação que agita as emoções do leitor. Durante a Grande Depressão americana, a família Lester não sabe como sobreviver à miséria que se avizinha. Residem e gerem os territórios rurais da Geórgia, cultivados com tabaco e algodão, mas já nem isso os salva. Debilitados pela pobreza ao ponto de atingirem um estado de ignorância e egoísmo cruel, os Lesters preocupam-se com a fome, os apetites sexuais que os devoram e o medo de que a hierarquia social os empurre para uma camada ainda mais desfavorecida.  A pobreza, o racismo e a bestialidade dos homens são aqui postas a nu, despindo a sociedade americana dos anos 20 com crueza e violência, numa tragicomédia de mestre. A Estrada do Tabaco é um dos grandes clássicos americanos de Erskine Caldwell.

Opinião: Foi a capa que, uma vez mais, me levou até este livro. Quando o recebi em mãos entendi que esta pequena obra de 200 páginas seria devorada com rapidez. Sucede que cada livro é uma caixinha de surpresas, e este não foi excepção... A psiquiatria, nascida na Alemanha, deu o braço a várias teorias de eriçar os pêlos no século XIX. Durante a Grande Depressão (que começou em Out 1929 na América), essa ciência relativamente recente avaliada as capacidades das pessoas, a sua utilidade social. A "Eugenia", corrente da qual o próprio autor seria aficcionado, defende a esterilização involuntária daqueles que a Sociedade considere não aptos a reproduzirem-se. Persone non grate. Enfim... O certo é que "A Estrada do Tabaco" é um desfile de algumas das personagens mais abomináveis que jamais li. Scarlett O'Hara era oportunista e fútil, mas também sensata e persistente. Cathy Earnshaw é igualmente fútil, vaidosa, demasiado dramática, mas ama Heathcliff. Que dizer dos Lester? Ignorantes, interesseiros, preguiçosos, oportunistas... Sempre à espera que "deus" venha salvá-los e o dinheiro chova do céu... A Grande Depressão é retratada, neste romance, a partir do núcleo de Lesters que vivem à beira da estrada do tabaco. Jeeter, o pai, Ada, a mãe, a avó Lester, Ellie May que tem uma fenda no lábio, de nascença, e Dude, um mal educado de 16 anos, desobediente e obtuso.   Jeeter está "aferroado" ao terreno onde nasceu na Georgia, "the old south", apenas setenta anos após o Norte industrial ocupar o sul algodoeiro e libertar os negros. É preguiçoso e vive de procrastinação: amanhá será sempre o dia em que irá pedir uma mula emprestada, revolver o solo e arranjar quem lhe conceda crédito para comprar sementes. A sociedade americana vivia de crédito: mesmo morto de fome Jeeter nunca pondera ir trabalhar para as fábricas, onde se diz que poderia ganhar até 25 dólares por semana, sendo que 2 bastariam para alimentar a família durante esse mesmo período. Nada tem, por nada luta. Apenas se lamuria e culpabiliza terceiros (ou o próprio carro, por não poder levá-lo a Augusta) da situação de miséria extrema em que se encontra. Tanto ele quanto o filho acham que os ricos deveriam abrir mão da sua riqueza para melhor a distribuir por quem nada tem. Ou, ao menos, conceder-lhes crédito. Desconfiam dos ricos, atribuem-lhes más qualidades, embora também se deixem deslumbrar pelas suas vidas e as invejem. A Irmã Bessie é uma hipócrita ignorante de 39 anos que almeja casar-se com Dude (isso mesmo, o rapazinho de 16 anos). Esta personagem sem nariz, de fé cega num deus evangélico que muito lhe convém, foi o exemplo de como a religião, sob o signo do medo e a promessa de conforto e alívio, afasta os homens da Verdade. As situações que se seguem são bizarras, retrato de uma família sem qualquer luz de conhecimento, cheios de preguiça e sonhos irrealizáveis que alimentam como pretexto para se manterem quietos. O esbanjar do que não se tem, a má gestão, mau cálculo, o despojar-se dos filhos e da avó porque em última instância são meras bocas para alimentar... A lei que existe mas não é cumprida...
O absurdo do livro estarreceu-me. Fala-se em humor negro mas não consigo discerni-lo nestas páginas, porque sei que houve e que há pessoas assim. Aconselho vivamente, ao contrário da glorificação da humanidade em horas de aperto, o autor leva-nos ao grotesco da ausência de quaisquer princípios por imposição da fome.


Classificação: 4,5****/5