terça-feira, 15 de dezembro de 2015

#142 HARDY, Thomas, Longe da Multidão

Sinopse: Longe da Multidão é um dos romances mais conhecidos de Thomas Hardy. Narra a história de Gabriel Oak e da sua grande paixão pela bela, independente e enigmática Bathsheba Everdene, que chegou a Weatherbury como herdeira de uma vasta propriedade rural. Mas a jovem é também pretendida pelo sedutor sargento Troy e pelo respeitável agricultor de meia-idade Boldwood. Ao mesmo tempo que os destinos destes três homens dependem da escolha de Bathsheba, ela descobre as terríveis consequências do seu coração inconstante. O jogo das personagens, com as sumptuosas paisagens rurais como pano de fundo, contribuiu para fazer deste romance notável um dos grandes clássicos da literatura inglesa.

Opinião: Thomas Hardy, romancista do século XIX, publica "Far From the Madding Crowd" em 1874. Pensando em literatura vitoriana, temos por exemplo, daquilo que li, O Monte dos Vendavais e Jane Eyre (tardo-gótico/naturalista). Em todos é explorada a psique da mulher, o peso de cenários fortes que influcenciam o desenrolar da acção e a fragilidade da mente humana, que tende a ceder sob pressão...
Considerado por alguns "o último dos vitorianos", Hardy, claramente céptico e pessimista, explora as oportunidades, as incertezas e o carácter volátil dos sentimentos. Isto de um modo que introduz já um racionalismo metódico exaustivo. Certo que ele reveu o livro duas vezes em vida exaustivamente - em 1894 e em 1901, se não estou em erro - e decerto introduziu algumas mudanças subtis.
Alguém dizia, no início da sua review a este livro, para esquecermos a ideia de um triângulo amoroso. Em “Longe da Multidão”, Thomas Hardy, este arquitecto que escolhe o mundo rural como cenário da sua obra-prima, apresenta-nos Barthsheba Everdene, Gabriel Oak, Francis Troy e William Boldwood. Não acredito que o acaso represente um papel neste romance, pois apesar da tragicidade de algumas passagens, predomina um racionalismo frio, cru, metódico. Tudo acontece sem dar grande espaço a sentimentalismos, e a narração, na terceira pessoa e alternando, por vezes no mesmo capítulo, da perspectiva de uma personagem para as outras, vem sempre revestida de uma tentativa de aligeirar as emoções sob o verniz da razão.
Barthsheba é uma personagem palpável, de tão humana. Observamos o modo como o autor desenvolve a sua personalidade, de uma jovem que respira liberdade, sem bens nem perspectivas, e depois esmagada pela responsabilidade da herança do tio, oprimida pela miríade de possibilidades que a sua nova condição lhe permite. A inovação aqui consiste em termos um autor masculino de uma erudição invejável – e por vezes constrangedora – a escolher um furacão feminino, com as suas convicções e fragilidades, para eixo central do seu romance. Gabriel Oak parece-me o coprotagonista, no sentido em que acaba por ter um parecer ou uma mão quase omnipresente em quase todos os momentos cruciais do enredo.
Apreciei o modo como a jovem Barthsheba apregoa aos quatro ventos que far-se-á respeitar como uma grande proprietária rural, sem ter de se transformar na sombra de um marido inconveniente. Mais tarde, por obrigação, quase se promete em casamento ao vizinho, Mr. Boldwood, depois segue o coração e recusa-se-lhe, apenas para ir recair numa armadilha do mesmo órgão um pouco mais adiante na estrada, ao deixar-se impressionar pela beleza e os modos do sargento Troy. Gabriel assiste a tudo isto, vivenciando-o na condição de primeiro seu pastor e depois seu maioral. É a figura que elimina todos os rumores a respeito da sua senhora, e que nela deposita uma fé apostólica.
Trata-se de uma narrativa prenhe de humanidade, de calculismo e de ingenuidade, num contraste harmonioso entre expectativa e realidade, bater de asas e consequência. Demorei quatro longos meses a lê-lo, por cada citação bíblica, mitológica ou literária que surgia a enriquecer o texto, pelas descrições extensivas e por vezes extenuantes, e pela complexidade das personagens e das suas circunstâncias.
Atribuo 4,5, os 0,5 que faltam para a perfeição devem-se ao facto de o livro não ter despertado em mim uma paixão fulminante. Entendi a Barthsheba e o Oak, bem como as outras duas personagens principais, mas faltou-me a chama que me traz lágrimas aos olhos sempre que me recordo de "E Tudo o Vento Levou" ou de um "O Monte dos Vendavais", tão grotesco quanto magnífico.
Não lhe falta, porém, elevada qualidade literária. Aconselho a quem aprecia histórias de amor e de terra atribuladas. E há sempre aquele sentimento de realização pessoal quando terminamos um livro desafiante... este foi bastante Hard (tinha a piada em mangas desde que li a segunda linha do dito cujo).

Classificação: 4,5****/*

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

2016 em Livros

Prestes a terminar o desafio de ler 25 livros em 2015 (eu sei, é absurdamente pouco), acalento a esperança de que 2016 seja um ano melhor em leituras.

Por isso quero prometer-me o seguinte:

Por mês, ler:

1 livro de autor lusófono
1 chamado "clássico"
1 livro adicional sem critérios de escolha

Não é nada de muito complicado, julgo!

Agora o plano do primeiro trimestre:

Janeiro
1) Flores, Afonso Cruz
2) A Um Deus Desconhecido, John Steinbeck
3) O Homem do Castelo Alto

Fevereiro
1) Mar Humano, Raquel Ochoa
2) Quando Nietzsche Chorou, Irvin D. Yalom
3) A Rapariga do Comboio

Março
1) Viagem ao Coração dos Pássaros, Possidónio Cachapa
2) As Paixões de Julia, Somerset Maughan
3) Não Digas Nada, Mary Kubica

Para Dezembro, a ver se ainda...

Termino o Longe da Multidão, Thomas Hardy


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

#141 PINTO, Margarida Rebelo, Mariana, meu Amor

Sinopse: No século XVII, durante a Guerra da Restauração da independência de Portugal, soror Mariana Alcoforado apaixounou-se por um oficial francês. As cartas de amor que lhe escreveu transformaram-se num símbolo da literatura romântica universal. Trezentos anos depois, Alice, uma jornalista, revisita esta história e aprende com Mariana a vencer a tristeza de um amor perdido. Mariana, meu amor é um romance dentro de um romance, uma narrativa a duas vozes de duas mulheres corajosas que, através de vivências quase opostas, conseguiram desafiar o seu destino e alcançar a paz, sem negar os seus sentimentos mais profundos.

Opinião: Vou tentar ser concisa nesta review, e portanto vou separar as águas por pontos.

Motivação: Voltei a pegar num livro da Margarida Rebelo Pinto, após o trauma anterior, sem sombra de dúvida por causa do chamariz da história da Mariana Alcoforado. Para quem não sabe (e que pelo livro dificilmente entenderá, pelo que aconselho antes a leitura de “Mariana”, da Katherine Vaz), trata-se de uma fidalga encarcerada pelo pai no Convento da Conceição de Beja, na segunda metade do século XVII. Mariana escreveu cinco cartas inflamadas ao seu apaixonado, o Marquês de Chamilly, que andava por cá a combater os castelhanos. O sucesso de vendas foi imediato e duradouro em França, e acabou por ser traduzido noutras línguas. “Cartas de uma Religiosa Portuguesa”. Como já previa, o engodo saiu gorado. A acção nem sequer decorre nessa época, mas sim na actualidade. Uma jornalista anda a registar a história da Soror Mariana. A história de amor disfuncional da jornalista Alice, bem ao estilo de todas as que a Margarida conta desde que aprendeu a escrever, é o fio condutor da história.

Revisão: O livro parece carecer de uma revisão séria. Surgem frases como “O coração, a quem…”, estrangeirismos metidos pelo meio do livro e sem itálico, tipo “out of the blue”, etc., etc. Por várias vezes tive de reler uma frase na tentativa de entender o seu sentido, posto que as vírgulas andavam desencontradas.

Romance contemporâneo: Como escritora, antiga estudante de literatura, não entendo como a Margarida pode ter adoptado este estilo. Não é “leve”, é “pena”. Profundidade nem vê-la. A escrita é acessível à minha irmã de 9 anos, com algumas deixas a respeito de tecnologias que me deixaram de sobrancelha erguida. “O Pedro mandou-me um Whatsapp”. Eu pensava que o Whatsapp era uma aplicação, e que se diria algo como “O Pedro mandou-me uma mensagem no Whatsapp”. Afinal, parece que podemos mandar a aplicação uns aos outros e com texto incorporado. O Pedro é o “vilão” deste livro. Com a Guida há sempre um tipo que lixou a vida da principal, que a ama mas é um cobarde, que a deixou e não responde às mensagens. E há a miríade de frases que começam com a filosofia barata "Os homens isto", "As mulheres aquilo". Nesta “obra” não é excepção. A Alice meteu-se com um homem casado, que não deixa a mulher e os filhos por ela. Surpreendeu-me ter gostado q.b. deste enredo até à página cem. Foi a descrição do Rio de Janeiro e dos brasileiros, e também das pessoas com quem a Alice se ia cruzando, as águas de coco, o paredão e algum conhecimento evidente da cidade sobre a qual se escrevia e dos hábitos culturais dos cariocas. Havia a certeza da Alice de que o Pedro gostava dela, mas era demasiado cobarde para arriscar mudar de vida. Pronto, até à página cem funciona. Depois torna-se maçador, é sempre mais do mesmo. Todos lhe dizem que é linda e deveria seguir em frente. Basicamente, o romance contemporâneo são duzentas e cinquenta páginas de uma Alice a lamuriar-se, enquanto se diz forte e independente, e enquanto os outros lhe elogiam a liberdade. São duzentas páginas de “ele não me liga nenhuma”, e de “não consigo esquecê-lo”, e da história da Mariana enfiada pelo meio, a ultrapassar o Nöel à força, à laia de lição de vida amorosa. Incongruências? Os pais da Alice são toxicodependentes, mas nunca bateram à porta dos pais a pedir dinheiro, nunca procuraram a filha com esse fim. Quando o pai morre, deixa mil e setecentos euros e o hospital pago em antecipado. Que rico drogado este, que em três décadas manteve sempre o controlo sobre o vício e ainda morre num hospital privado, ainda que sozinho, com quase dois mil euros no bolso. Minha gente… Uma pessoa agarrada ao “cavalo”, como a Margarida se refere à heroína, anda sempre no limiar da miséria. Garanto que não teria um euro no bolso. Enfim, um livro com este enredo, em 120 páginas, até seria minimamente tolerável. De 300 é impensável, repetitivo, aborrecido. Também não gosto da maneira como ela conduz a narrativa. “Acordei às dez, tomei um duche, comi uma maçã e fui às compras. Bebi um café, voltei para casa e escrevi dez páginas do livro novo”. E da futilidade das relações, dos melhores amigos que se fazem após uma conversa, das mil e uma personagens cuja história é resumida em dois parágrafos, do homem que amamos por causa do cheiro, da elegância e do desprezo a que nos vota, do tipo com quem dormimos porque está na hora de seguir em frente e ele estava ali, naquele bar, naquela noite, e nos disse que éramos bonitas. Mas o pior está para vir… Ah, e já vos disse que a alcunha da personagem principal é Açúcar? "Oh Açúcar, tens de o esquecer!".

Mariana Alcoforado: Completamente assassinada. Para quem leu e releu as cartas, como eu, a Mariana não é nada daquilo que a Margarida descreve. E há visões que terei de apagar da memória, para poder preservar a ideia daquela que é, para mim, a mais notável história de amor do nosso país. Maior do que a de Pedro e Inês, que julgo baseada sobretudo em luxúria, e na traição da pobre Constança. A felicidade desses dois constrói-se sobre a desgraça da princesa e a possível perda de independência do reino. No caso da Mariana, falamos da vida pessoal de uma jovem de boas famílias, cuja contrariedade por ter sido fechada num convento transparece a cada palavra das suas cartas. Uma mulher confinada cujas palavras escapam às paredes do convento e chegam aos confins da Europa para confidenciar a sua solidão e o seu amor desmesurado pelo Marquês de Chamilly. É evidente que ele a conspurcou, que ela se deixou ir por acreditar nas suas promessas de amor eterno e de que voltaria para a resgatar do Convento. Porém, e sem me alongar, a abordagem da Margarida é a seguinte: sempre na primeira pessoa, a Mariana narra, ao longo de 4 dias, a sua história de amor a uma noviça muda. Teria então 75 anos e analisa tudo em retrospectiva. Porém, a falta de sensibilidade da Margarida neste ponto do romance é constrangedora. A voz que empresta a Mariana jamais pode pertencer-lhe: esta mulher conformada, entregue à vida religiosa e que se queixa do amor da sua vida, a quem chama “crápula” e outras coisas que agora não me recordo e que me soavam igualmente abrasileiradas. A linguagem está desfasada da época, parece-me. “Devo cuidar da higiene do convento”, ou algo semelhante. Higiene? Este conceito não me parece muito seiscentista. Enfim, o pior mesmo foi o modo como, quase no fim do livro, ela continua a repetir “Benedita, vou contar-te a história deste amor, regista tudo o que digo”. E depois divaga sobre o amor e o sexo – muito entendida, esta freira que só teve um amante, e que foi enclausurada num convento aos dezasseis anos. Mas pior é mesmo o modo como há sempre descrições de sexo nas lições desta Abadessa à sua pupila, de modo vulgar e incomodativo. Toda eu me encolhia ao ler a minha “suposta” Mariana a dizer que o Marquês de Chamilly “a penetrava” assim, a “possuía” assado, mas pior ainda… Que tinha um “membro muito grande”, e que ela lho dizia, ou que uma mulher deve dar prazer ao homem de todos os modos que souber, por exemplo “montando-o”, e que o faziam todas as noites, despachando depois os lençóis para uma noviça lavar. O que me matou (fechei o livro, apaguei a luz e enrolei-me em posição fetal de olhos muito abertos no escuro), foi ler que
o Marquês se vinha no ventre ou na boca dela. Lamento assombrar-vos com o mesmo espectro, mas isto revolveu-me o estômago. Morte ao amor, viva às lições sexuais da freira enclausurada. Não acredito que uma velha abadessa de 75 anos tenha necessidade de contar tais coisas, pensei que falariam do amor, das conversas, dos detalhes do enamoramento, mas não. Aqui fala-se do modo como fornicavam, e basta. Também adorei ler a Mariana a avisar a freirinha dos homens maus, do modo como abandonam as mulheres, como “se não nos respondem às cartas é porque já não têm nada a dizer”, e como há por aí “violadores”. Espantoso o acesso à informação que uma freira enclausurada tinha, e sobretudo o quão progressistas eram estes termos e visões da sociedade. Ah e a HISTÓRIA? Enxurradas de números e datas sobre guerras, e está feito. É mentira, a Mariana é só um engodo para fingir que a MRP é capaz de escrever um romance histórico (nem de época, quanto mais histórico!!!). Se é pela Mariana que vêm, fujam!

Apreciação geral: Tirando partes do romance da tal Alice, a que até achei alguma graça, a mulher não sai do mesmo. A criatura arrasta-se, queixa-se a todos, todos lhe perguntam se está bem, se já o esqueceu… Bem, dá a ideia de que o amor é isto: na gaveta, à espera que ele precise de nós como que a um par de cuecas limpas. E já me estou a repetir, pareço ela.

Duas estrelas: 1 pelo Brasil, 1 porque reservo o 1* somente para livros que nem podem ser apelidados de tal.

Classificação: 2**/***

domingo, 29 de novembro de 2015

#140 PEIXOTO, José Luís, Em Teu Ventre


Sinopse: «Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.» Numa perspetiva inteiramente nova, Em Teu Ventre apresenta o retrato de um dos episódios mais marcantes do século XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917. Através de uma narrativa que cruza a rigorosa dimensão histórica com a riqueza de personagens surpreendentes, esta é também uma reflexão acerca de Portugal e de alguns dos seus traços mais subtis e profundos. A partir das mães presentes nesta história, a questão da maternidade é apresentada em múltiplas dimensões, nomeadamente na constatação da importância única que estas ocupam na vida dos filhos. O sereno prodígio destas páginas, atravessado por inúmeros instantes de assombro e de milagre, confere a Em Teu Ventre um lugar que permanecerá na memória dos leitores por muito tempo. 

Opinião: Na realidade 2,5. Estou por dentro do assunto "Fátima", que leva anualmente 6 milhões de turistas à cidadezinha homónima. O autor foi muito <i>low profile</i>, acho evidente que se afastou de uma tomada de posição. Deixa a porta aberta para que quem acredita considere que é tudo verdade, e para que quem apenas considere tudo um negócio fique com a sua ideia. O que, na minha opinião, dá algum interesse ao livro é o retrato do Portugal rural (a imagem dos piolhos a serem catados e da extrema pobreza em que se vivia). Também o assunto "maternidade" tem laivos de beleza nesta obra, a mãe que ama mas precisa de punir,  mãe que condena mas que ainda assim protege a cria. De resto há inúmeras coisas por mencionar - onde está o aviso, de Maio de 1916, do suposto Anjo de Portugal? Onde está o Anjo a ensiná-los a rezar? E a Virgem a falar dos Mistérios? A Virgem a exigir (e não a "concordar") a construção de uma capela em sua honra? Onde estão os media que fotografaram as 70 mil pessoas que ali se reuniram a 13 de Outubro de 1917? O aviso de que, em breve, Jacinta e Francisco se reuniriam com a Nossa Senhora no Céu? A teoria de que apenas um dos dois irmãos viu a Virgem, enquanto outro apenas a ouviu, sendo que Lúcia viu e ouviu a Virgem? Na minha óptica, o livro apenas vem aprofundar o mistério, porque as fontes são tantas, e tão díspares... Falta que se escreva ainda um grande livro sobre o assunto.

Classificação: 2,5**/***

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Livros que gostava de ter tempo para ler...

Volvidas mais de duas décadas sobre a desagregação da URSS, que permitiu aos russos descobrir o mundo e ao mundo descobrir os russos, e após um breve período de enamoramento, o final feliz tão aguardado pela história mundial tem vindo a ser sucessivamente adiado. O mundo parece voltar ao tempo da Guerra Fria. Enquanto no Ocidente ainda se recorda a era Gorbatchov com alguma simpatia, na Rússia há quem procure esquecer esse período e o designe por a Catástrofe Russa. E, desde então, emergiu uma nova geração de russos, que anseia pela grandiosidade de outrora, ao mesmo tempo que exalta Estaline como um grande homem. Com uma acuidade e uma atenção únicas, Svetlana Aleksievitch reinventa neste magnífico requiem uma forma polifónica singular, dando voz a centenas de testemunhas, os humilhados e ofendidos, os desiludidos, o homem e a mulher pós-soviéticos, para assim manter viva a memória da tragédia da URSS e narrar a pequena história que está por trás de uma grande utopia.
Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo - e constatar o quanto a sua vida se afastou dela - decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história inquietante sobre a memória e o que resta de nós quando a perdemos. Um romance comovente sobre o amor e o que este precisa de ser para merecer esse nome. «Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias.»
«Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.» Numa perspetiva inteiramente nova, Em Teu Ventre apresenta o retrato de um dos episódios mais marcantes do século XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917. Através de uma narrativa que cruza a rigorosa dimensão histórica com a riqueza de personagens surpreendentes, esta é também uma reflexão acerca de Portugal e de alguns dos seus traços mais subtis e profundos. A partir das mães presentes nesta história, a questão da maternidade é apresentada em múltiplas dimensões, nomeadamente na constatação da importância única que estas ocupam na vida dos filhos. O sereno prodígio destas páginas, atravessado por inúmeros instantes de assombro e de milagre, confere a Em Teu Ventre um lugar que permanecerá na memória dos leitores por muito tempo.
No século XVII, durante a Guerra da Restauração da independência de Portugal, soror Mariana Alcoforado apaixounou-se por um oficial francês. As cartas de amor que lhe escreveu transformaram-se num símbolo da literatura romântica universal. Trezentos anos depois, Alice, uma jornalista, revisita esta história e aprende com Mariana a vencer a tristeza de um amor perdido. "Mariana, Meu Amor" é um romance dentro de um romance, uma narrativa a duas vozes de duas mulheres corajosas que, através de vivências quase opostas, conseguiram desafiar o seu destino e alcançar a paz, sem negar os seus sentimentos mais profundos.

domingo, 8 de novembro de 2015

#139 MCNAUGHT, Judith, Perto do Paraíso

Sinopse: Lady Elizabeth Cameron, condessa de Havenhurst, tem apenas 17 anos quando conhece Ian Thornton, um enigmático homem de linhagem misteriosa e reputação sombria. Numa época em que a alta sociedade adora escândalos e valoriza títulos e dinheiro acima de tudo, Elizabeth e Ian cometem o erro de se apaixonarem.

Ian não sabe que a jovem pertence à nobreza e pede-a singelamente em casamento. Um momento de intimidade que é testemunhado por Robert, irmão de Elizabeth. Desdenhoso, Robert revela que a irmã já está prometida a outro homem, um aristocrata, como manda a tradição. Ian fica destroçado perante a ideia de ter sido um mero objeto para a sua amada. Também Elizabeth se sente traída, ao pensar que ele não passa, afinal, de um caçador de fortunas. Mas a sua reputação já está irremediavelmente manchada.Dois anos passam e os amantes voltam a encontrar-se. E mesmo após tanto tempo e tanta mágoa, os seus sentimentos revelam ser tão fortes como antes. Esta que promete ser uma segunda oportunidade para ambos será também o começo de uma dança de paixão e intriga, um caminho tortuoso desde os salões elegantes de Londres à beleza agreste das Terras Altas da Escócia… Um turbulento romance entre duas pessoas destinadas a ficar juntas, numa época em que o casamento nada tem a ver com amor.
Não é o meu favorito dela, definitivamente.
Classificação: 3,5 ***/**


Opinião: Fiquei muito decepcionada com este livro da Judith. Mas já previa… 600 páginas de um romance deste género, só podiam estar pejadas de repetições e de intriga fácil. Aquilo que a autora tem de melhor, face a todas as outras autoras do género, é o bom senso de que reveste as suas personagens. O modo como estas são sempre fiéis àquilo que sentem, mesmo quando há rumores a tentarem destruir a sua paz. É impossível não cair de joelhos pelo Ian, mas a Elizabeth é uma mosca morta. Primeiro, não gosto muito de histórias em que a protagonista é a mártir perfeita: uma carinha de anjo, complacência até mais não. É aborrecido reler centenas de vezes como é linda (mas inconsciente disso), como o luxuoso vestido lhe cai tão bem (e como ela o tentou recusar, por o achar “demais”), e como salvou o dia com a sua inteligência incomum. Claro que me ri várias vezes, sobretudo com as personagens secundárias. A criadagem da Elizabeth parece um decalque do Penrose da Alex, no livro anterior (Algo Maravilhoso), mas deu para rir quando punham purgante nas sanduíches e no chá dos convidados que desprezavam. A duquesa viúva, avó do Jason, volta a aparecer e também contribui para o divertimento do leitor. Fora isso temos Jake e Duncan, amigo e tio de Ian, respectivamente, e Lucinda, a acompanhante de Elizabeth, que também tem uma personalidade vincada. Os “vilões” são as amigas invejosaso tio avarento e ganancioso e o irmão despeitado. Se o ponto final tivesse acontecido na página 450, apesar de ser já um livro longo e que encerrava duas linhas de acção paralelas (quando se conheceram e quando se reencontram, quase dois anos depois), teria o tamanho certo. Mas a autora achou que ainda não tinham havido mal-entendidos suficientes e rouba o discernimento à mocinha. Põe-na a desconfiar do protagonista de uma maneira absurda e a cometer um acto irreflectido que eu jamais perdoaria a uma pessoa que julgasse que me amasse e que confiasse em mim. Mas enfim, disparates à parte, também os finais não variam: jardins, herdeiros e muitos risos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

#138 GOMES, Ivan Vera

Sai a 17 de Novembro 2015

Sinopse: Um livro que não olha a meios para mostrar o que somos, que nos culpa por isso, ao mesmo tempo que nos alimenta a esperança de podermos ser melhor do que aquilo que mostramos. É, nesse sentido, um livro redentor. Para quem o escreve, ao ver-se capaz de tamanha sensibilidade no meio dos monstros, e para quem o lê, quando, ao fim de um dia vulgar e baço, lhe dedicar a atenção e se concentrar nos melhores valores que um homem pode ter.

Opinião: Os livros do Ivan vão valer sempre pela viagem. Não é quando chegamos que importa, mas sim onde e como o autor nos leva até às catacumbas da sua consciência. A sua escrita será sempre visceral - como não, quando se vive e se sente? Nem todos os autores vivem de peito aberto e em ferida, por isso não esperem floreados nem eufemismos deste. O autor escreve como fala, as suas palavras saem impregnadas do seu ambiente, da sua infância, do seu círculo socio-económico, das suas vivências, amores e ódios. Não busquem eloquência a cada parágrafo, mas no todo ela está lá: os desabafos de um louco que desfruta ainda de alguns instantes de lucidez. Um homem em busca de si próprio nos meandros da noite, que ora se encontra ora de perde neste desfile de conhecidos, amigos do peito, amantes e amores impossíveis. 

Classificação: 5*****