Sinopse: Filha de um juiz de sucesso e de uma
figura do jet set reprimida, Mia Dennett sempre lutou contra a vida
privilegiada dos pais, e tem um trabalho simples como professora de artes
visuais numa escola secundária. Certa noite, Mia decide, inadvertidamente, sair
com um estranho que acabou de conhecer num bar. À primeira vista, Colin
Thatcher parece ser um homem modesto e inofensivo. Mas acompanhá-lo acabará por
se tornar o pior erro da vida de Mia.
Opinião: “Não digas nada” é o primeiro livro que
leio da Mary Kubica. Não tinha lido muito sobre ele, nem sequer no Goodreads,
onde vou sempre buscar conselho antes de investir num livro. Fiz bem, porque o
livro tem críticas muito díspares. Há quem pareça adorar, há quem o considere
um embuste, e há quem diga que não o aqueceu nem arrefeceu.
A sinopse revela um rapto, um captor e uma família
influente. O problema, na minha óptica, é que o livro é vendido como um
thriller, uma obra de suspense. Estes elementos não existem no livro, é um
romance com conteúdos policiais, diria eu. Não há nenhum quebra-cabeças a
resolver, mas a autora soube unir as pontas soltas. Quem vai ler o livro à
procura destas características vê o seu intento gorado. Entendo que fique
frustrado e que considere que o livro falhou, nesse sentido. Eu prefiro pensar
que foi o Marketing que falhou e que o livro é exactamente o que a autora quis
que ele fosse.
Elogio as personagens principais, bastante credíveis.
A Eve, o Colin e o inspector Hoffman, que são as vozes narrativas, estão bem
construídos e ajudam a compor o puzzle a respeito do rapto da Mia. É
evidente que a mestria da Mary é sobretudo visível no retrato psicológico do
Colin e da Mia. Quanto a isto, digo que ambos são palpáveis e multilaterais.
Apaixonei-me pelo Colin às primeiras linhas. Acho que a escritora soube
prender-nos a esse homem de passado tumultuoso.
Consegui lê-lo depressa, sendo que o último terço foi
de enfiada em duas horinhas. É bom sentir que tenho de chegar ao fim de um livro
para ter paz. Penso que vai ficar comigo durante algum tempo, um pouco como “A
Montanha entre nós”, se bem que esse foi arruinado pelo final…
SPOILER:
A única coisa que não entendo é porque é que a Mia
nunca contou a verdade ao Colin, teria resolvido muita coisa…
Sinopse: Capitães da Areia é o livro de Jorge Amado mais vendido no mundo inteiro. Publicado em 1937, teve a sua primeira edição apreendida e queimada em praça pública pelas autoridades do Estado Novo. Em 1944 conheceu nova edição e desde então sucederam-se as edições nacionais e estrangeiras, e as adaptações para a rádio, televisão e cinema. Jorge Amado descreve, em páginas carregadas de grande beleza e dramatismo, a vida dos meninos abandonados nas ruas de São Salvador da Bahia.
Opinião:Em Setembro de 2014 fui a Salvador da Bahia. Esperei muita coisa do Brasil e da América do Sul, mas esqueci-me da literatura. Isto é, a minha ideia estava toda errada: no meio da pobreza, e que não é pouca, há uma beleza pulsante, uma bondade comovente por entre as dificuldades e a emergência de um orgulho triste, o que advém de amarmos a terra que sabemos condenada. Parece que na Terra vem tudo em dois punhados: algo de bom e algo de mau, e a beleza é o que emerge do modo como o povo joga com estas duas energias.
Quando leio romances sul-americanos, fico sempre assombrada por quanto Gabriel García Márquez, Isabel Allende e agora Jorge Amado extraem destes solos. Atenção que a Isabel, assim como a Laura Esquível, além de excelentes romancistas que retratam os costumes da sua gente… Mas há algo de visceral na escrita do Garbo e do Amado. Sem dúvida que Jorge Amado é para seguir.
Dizia que, em Setembro de 2014, fui a Salvador da Bahia. Podem ler sobre isso aqui:http://levoyageenrose.blogspot.pt/201.... Fiquei no Pestana Bahia, que é um cinco estrelas com avisos sobre a bicharada que pode entrar pela janela à beira da praia do Rio Vermelho. Na altura, alguém disse que aquela era a praia dos Capitães da Areia. Não sabia quem eram os Capitães da Areia e agora, depois de ler sobre as suas aventuras, jamais poderei deixar de os associar ao modo como a noite caía nesse areal no Hemisfério Sul.
Jorge Amado foi bacharel em Direito, por isso um “dotôrzinho”, oriundo de um mundo a léguas de distância do areal dos Capitães da Areia. Para vos situar: os Capitães da Areia são os órfãos, as crianças maltratadas, os negligenciados, ignorados e esquecidos de Salvador da Bahia. Unidos sob a capitania de Pedro Bala, um moleque de 15 anos, formam os Capitães da Areia: primeiro um bando de ladrões, depois uma tropa de choque a favor das greves dos pobres, quando o seu capitão descobre que o próprio pai era estivador e morreu em greve pelos direitos dos seus.
Cada um dos Capitães da Areia tem uma história de abandono, violência e sofrimento. São felizes na liberdade, mas procuram o seu rumo: Gato é feliz com a brilhantina no cabelo e os sapatos engraxados, e dorme com Dalva, uma prostituta pelo menos duas décadas mais velha do que o menino. Sem Pernas foi sovado e humilhado pela polícia por ser coxo, vive no terror de voltar a ver-se nessa vulnerabilidade, e por isso se torna o mais arisco de todos, embora também ele não seja imune a rasgos de verdadeira humanidade. Professor quer ser pintor: dá cabo dos olhos à luz das velas, no trapiche, a passar em revista os livros a que consegue deitar a mão, e a lê-los para os outros capitães. João Grande é um preto enorme, que chamam de burro mas que é aquele cujo coração e a moral parecem mais intactos. Pirulito tem vocação religiosa; influenciado pelas palavras amigas do Padre José Pedro, que é contra meterem os meninos no reformatório da cidade, onde apenas receberiam surras e passariam fome, sonha em vir a trajar uma batina. Tantos outros, entre os quais surge Dora, uma menina cuja mãe sucumbiu à epidemia de varíola no seu morro, e que se junta aos meninos, tão corajosa quanto eles, e vira a primeira Capitã da Areia. Mas nem todos são felizes sem mãe, sem família, sem um carinho na cabeça, um aconchego na hora de se irem deitar. Nem todos são felizes deitados por entre os ratos, escondidos da polícia e do reformatório, a aplicar golpes em quem tem mais do que eles, a enganar os marinheiros com baralhos marcados no cais, a recolher níqueis por desenhar a giz na calçada da cidade e a recorrerem às macumbas da Mãe de Santo, don'Aninha sempre que um menino cai doente.
Os ideais comunistas pulsam aqui, pelo que não é de estranhar que o livro tenha sido aprendido após o seu lançamento, em 1937, e queimados cerca de 800 exemplares em praça pública. Mas não é apenas a política que mexe com a sociedade baiana nessa época: Jorge Amado foi mais longe. Falou de pederastia, de sexo, de sodomia, de oficiais malvados e de directores de reformatórios ambiciosos e cruéis. Tudo isto ofendeu a época… O rico na abundância e o pobre descalço, no morro. O rico com a sua vacina para a varíola e o pobre no terreiro, a suplicar a Omolu pelas vidas dos seus que caem de bexiga…
Infelizmente, o Brasil ainda não mudou tanto assim desde este retrato de desigualdade que Jorge Amado nos presenteia.É um dos livros mais belos que li na vida, de heroísmo, amadurecimento, bondade e injustiça. Espero que o Brasil encontre o seu caminho rumo ao bem-estar do seu povo, para que os corruptos sejam afastados, o povo deixe de morrer nas urgências da saúde pública e a média de assassinatos em brigas em Salvador deixe de ser de 18 pessoas por semana, como era em Setembro de 2014.
Sinopse: Um homem sofre desmesuradamente com as
notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um
dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de
bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho,
passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu
pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do
primeiro beijo – e constatar o quanto a sua vida se afastou dela – decide
ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história
inquietante sobre
a memória e o que resta de nós quando a perdemos. Um romance
comovente sobre o amor e o que este precisa de ser para merecer esse nome.
Opinião: Fiquei confusa. Não que a história não seja
clara, que a narração não seja coesa… Mas é o estilo, se é que lhe posso chamar
assim. Um desfile tão incongruente de personagens estranhas que atira o livro
para o limbo entre o misticismo de um autor sul-americano e a contemporaneidade
de um José Luís Peixoto. A insistência do autor em que todos sejam esquisitos,
em que abram a boca por três páginas de monólogo. Isto é: cada personagem que
surge, vem com o propósito de contar episódios mirabolantes da sua vida (pisar
lagartixas, ter vocação para palhaço, prometer que só volta a chorar quando
Constantinopla voltar para mãos gregas, etc.). Resumindo, não encontrei grande
originalidade no quadro geral: casamento em ruínas, criança pequena e afectada
por essa mudança, velhote solitário e vítima da degeneração das suas
capacidades mentais, neste caso a memória. E então a personagem principal, cujo
nome não julgo ter apanhado ao longo das 275 páginas, interessa-se pelo passado
que o seu vizinho, o senhor Ulme, esqueceu devido a um aneurisma. Compromete-se
a recuperar-lho, e é assim que começa o desfile dos monólogos das inúmeras
personagens, todas com alcunhas, passados esquisitos, cada uma com um ângulo
diferente a respeito do senhor Ulme. Esta é a parte que apreciei: que uns o
pintem como tirano, outros como um deus benevolente. Lamento apenas o facto de
não ter considerado o enredo muito original, li rápido porque os capítulos são
pequenos, a linguagem muito acessível (com aquela repetição em que todos os
nossos “grandes” recaem, como se por repetir a mesma frase até à exaustão desse
um selo de qualidade ao texto). Gosto do egoísmo, narcisismo e ego evidentes em
cada personagem, é nesse sentido que é um livro humano. De resto, parece-me um
lirismo um tanto forçado. Não desisto de Afonso Cruz à primeira, mas confesso
que esperava bem melhor de um autor publicado na Bulgária. Classificação: 3***/**
Sinopse:Longe da Multidão
é um dos romances mais conhecidos de Thomas Hardy. Narra a história de
Gabriel Oak e da sua grande paixão pela bela, independente e enigmática
Bathsheba Everdene, que chegou a Weatherbury como herdeira de uma vasta
propriedade rural. Mas a jovem é também pretendida pelo sedutor sargento
Troy e pelo respeitável agricultor de meia-idade Boldwood. Ao mesmo
tempo que os destinos destes três homens dependem da escolha de
Bathsheba, ela descobre as terríveis consequências do seu coração
inconstante. O jogo das personagens, com as sumptuosas paisagens rurais
como pano de fundo, contribuiu para fazer deste romance notável um dos
grandes clássicos da literatura inglesa.
Opinião: Thomas Hardy, romancista do século XIX, publica "Far From the Madding
Crowd" em 1874. Pensando em literatura vitoriana, temos por exemplo,
daquilo que li, O Monte dos Vendavais e Jane Eyre
(tardo-gótico/naturalista). Em todos é explorada a psique da mulher, o
peso de cenários fortes que influcenciam o desenrolar da acção e a
fragilidade da mente humana, que tende a ceder sob pressão... Considerado
por alguns "o último dos vitorianos", Hardy, claramente céptico e
pessimista, explora as oportunidades, as incertezas e o carácter volátil
dos sentimentos. Isto de um modo que introduz já um racionalismo
metódico exaustivo. Certo que ele reveu o livro duas vezes em vida
exaustivamente - em 1894 e em 1901, se não estou em erro - e decerto
introduziu algumas mudanças subtis. Alguém dizia, no início da sua
review a este livro, para esquecermos a ideia de um triângulo amoroso.
Em “Longe da Multidão”, Thomas Hardy, este arquitecto que escolhe o
mundo rural como cenário da sua obra-prima, apresenta-nos Barthsheba
Everdene, Gabriel Oak, Francis Troy e William Boldwood. Não acredito que
o acaso represente um papel neste romance, pois apesar da tragicidade
de algumas passagens, predomina um racionalismo frio, cru, metódico.
Tudo acontece sem dar grande espaço a sentimentalismos, e a narração, na
terceira pessoa e alternando, por vezes no mesmo capítulo, da
perspectiva de uma personagem para as outras, vem sempre revestida de
uma tentativa de aligeirar as emoções sob o verniz da razão. Barthsheba
é uma personagem palpável, de tão humana. Observamos o modo como o
autor desenvolve a sua personalidade, de uma jovem que respira
liberdade, sem bens nem perspectivas, e depois esmagada pela
responsabilidade da herança do tio, oprimida pela miríade de
possibilidades que a sua nova condição lhe permite. A inovação aqui
consiste em termos um autor masculino de uma erudição invejável – e por
vezes constrangedora – a escolher um furacão feminino, com as suas
convicções e fragilidades, para eixo central do seu romance. Gabriel Oak
parece-me o coprotagonista, no sentido em que acaba por ter um parecer
ou uma mão quase omnipresente em quase todos os momentos cruciais do
enredo. Apreciei o modo como a jovem Barthsheba apregoa aos quatro
ventos que far-se-á respeitar como uma grande proprietária rural, sem
ter de se transformar na sombra de um marido inconveniente. Mais tarde,
por obrigação, quase se promete em casamento ao vizinho, Mr. Boldwood,
depois segue o coração e recusa-se-lhe, apenas para ir recair numa
armadilha do mesmo órgão um pouco mais adiante na estrada, ao deixar-se
impressionar pela beleza e os modos do sargento Troy. Gabriel assiste a
tudo isto, vivenciando-o na condição de primeiro seu pastor e depois seu
maioral. É a figura que elimina todos os rumores a respeito da sua
senhora, e que nela deposita uma fé apostólica. Trata-se de uma
narrativa prenhe de humanidade, de calculismo e de ingenuidade, num
contraste harmonioso entre expectativa e realidade, bater de asas e
consequência. Demorei quatro longos meses a lê-lo, por cada citação
bíblica, mitológica ou literária que surgia a enriquecer o texto, pelas
descrições extensivas e por vezes extenuantes, e pela complexidade das
personagens e das suas circunstâncias. Atribuo 4,5, os 0,5 que faltam
para a perfeição devem-se ao facto de o livro não ter despertado em mim
uma paixão fulminante. Entendi a Barthsheba e o Oak, bem como as outras
duas personagens principais, mas faltou-me a chama que me traz lágrimas
aos olhos sempre que me recordo de "E Tudo o Vento Levou" ou de um "O
Monte dos Vendavais", tão grotesco quanto magnífico. Não lhe falta, porém, elevada qualidade literária. Aconselho a quem aprecia histórias de amor e de terra atribuladas. E há sempre aquele sentimento de realização pessoal quando terminamos um livro desafiante... este foi bastante Hard (tinha a piada em mangas desde que li a segunda linha do dito cujo).
Prestes a terminar o desafio de ler 25 livros em 2015 (eu sei, é absurdamente pouco), acalento a esperança de que 2016 seja um ano melhor em leituras.
Por isso quero prometer-me o seguinte:
Por mês, ler:
1 livro de autor lusófono
1 chamado "clássico"
1 livro adicional sem critérios de escolha
Não é nada de muito complicado, julgo!
Agora o plano do primeiro trimestre:
Janeiro
1) Flores, Afonso Cruz
2) A Um Deus Desconhecido, John Steinbeck
3) O Homem do Castelo Alto
Fevereiro
1) Mar Humano, Raquel Ochoa
2) Quando Nietzsche Chorou, Irvin D. Yalom
3) A Rapariga do Comboio Março
1) Viagem ao Coração dos Pássaros, Possidónio Cachapa
2) As Paixões de Julia, Somerset Maughan
3) Não Digas Nada, Mary Kubica
Sinopse: No século XVII, durante a Guerra da Restauração da independência de
Portugal, soror Mariana Alcoforado apaixounou-se por um oficial francês.
As cartas de amor que lhe escreveu transformaram-se num símbolo da
literatura romântica universal. Trezentos anos depois, Alice, uma
jornalista, revisita esta história e aprende com Mariana a vencer a
tristeza de um amor perdido. Mariana, meu amor é um romance dentro de um
romance, uma narrativa a duas vozes de duas mulheres corajosas que,
através de vivências quase opostas, conseguiram desafiar o seu destino e
alcançar a paz, sem negar os seus sentimentos mais profundos.
Opinião: Vou tentar ser concisa nesta review, e portanto vou separar as águas por pontos.
Motivação:
Voltei a pegar num livro da Margarida Rebelo Pinto, após o trauma
anterior, sem sombra de dúvida por causa do chamariz da história da
Mariana Alcoforado. Para quem não sabe (e que pelo livro dificilmente
entenderá, pelo que aconselho antes a leitura de “Mariana”, da Katherine
Vaz), trata-se de uma fidalga encarcerada pelo pai no Convento da
Conceição de Beja, na segunda metade do século XVII. Mariana escreveu
cinco cartas inflamadas ao seu apaixonado, o Marquês de Chamilly, que
andava por cá a combater os castelhanos. O sucesso de vendas foi
imediato e duradouro em França, e acabou por ser traduzido noutras
línguas. “Cartas de uma Religiosa Portuguesa”. Como já previa, o engodo
saiu gorado. A acção nem sequer decorre nessa época, mas sim na
actualidade. Uma jornalista anda a registar a história da Soror Mariana.
A história de amor disfuncional da jornalista Alice, bem ao estilo de
todas as que a Margarida conta desde que aprendeu a escrever, é o fio
condutor da história.
Revisão: O livro parece
carecer de uma revisão séria. Surgem frases como “O coração, a quem…”,
estrangeirismos metidos pelo meio do livro e sem itálico, tipo “out of
the blue”, etc., etc. Por várias vezes tive de reler uma frase na
tentativa de entender o seu sentido, posto que as vírgulas andavam
desencontradas.
Romance contemporâneo: Como
escritora, antiga estudante de literatura, não entendo como a Margarida
pode ter adoptado este estilo. Não é “leve”, é “pena”. Profundidade nem
vê-la. A escrita é acessível à minha irmã de 9 anos, com algumas deixas a
respeito de tecnologias que me deixaram de sobrancelha erguida. “O
Pedro mandou-me um Whatsapp”. Eu pensava que o Whatsapp era uma
aplicação, e que se diria algo como “O Pedro mandou-me uma mensagem no
Whatsapp”. Afinal, parece que podemos mandar a aplicação uns aos outros e com texto incorporado.
O Pedro é o “vilão” deste livro. Com a Guida há sempre um tipo que
lixou a vida da principal, que a ama mas é um cobarde, que a deixou e
não responde às mensagens. E há a miríade de frases que começam com a filosofia barata "Os homens isto", "As mulheres aquilo". Nesta “obra” não é excepção. A Alice meteu-se
com um homem casado, que não deixa a mulher e os filhos por ela.
Surpreendeu-me ter gostado q.b. deste enredo até à página cem. Foi a
descrição do Rio de Janeiro e dos brasileiros, e também das pessoas com
quem a Alice se ia cruzando, as águas de coco, o paredão e algum
conhecimento evidente da cidade sobre a qual se escrevia e dos hábitos
culturais dos cariocas. Havia a certeza da Alice de que o Pedro gostava
dela, mas era demasiado cobarde para arriscar mudar de vida. Pronto, até
à página cem funciona. Depois torna-se maçador, é sempre mais do mesmo.
Todos lhe dizem que é linda e deveria seguir em frente. Basicamente, o
romance contemporâneo são duzentas e cinquenta páginas de uma Alice a
lamuriar-se, enquanto se diz forte e independente, e enquanto os outros
lhe elogiam a liberdade. São duzentas páginas de “ele não me liga
nenhuma”, e de “não consigo esquecê-lo”, e da história da Mariana
enfiada pelo meio, a ultrapassar o Nöel à força, à laia de lição de vida
amorosa. Incongruências? Os pais da Alice são toxicodependentes, mas
nunca bateram à porta dos pais a pedir dinheiro, nunca procuraram a
filha com esse fim. Quando o pai morre, deixa mil e setecentos euros e o
hospital pago em antecipado. Que rico drogado este, que em três décadas
manteve sempre o controlo sobre o vício e ainda morre num hospital
privado, ainda que sozinho, com quase dois mil euros no bolso. Minha
gente… Uma pessoa agarrada ao “cavalo”, como a Margarida se refere à
heroína, anda sempre no limiar da miséria. Garanto que não teria um euro
no bolso. Enfim, um livro com este enredo, em 120 páginas, até seria
minimamente tolerável. De 300 é impensável, repetitivo, aborrecido.
Também não gosto da maneira como ela conduz a narrativa. “Acordei às
dez, tomei um duche, comi uma maçã e fui às compras. Bebi um café,
voltei para casa e escrevi dez páginas do livro novo”. E da futilidade
das relações, dos melhores amigos que se fazem após uma conversa, das
mil e uma personagens cuja história é resumida em dois parágrafos, do
homem que amamos por causa do cheiro, da elegância e do desprezo a que
nos vota, do tipo com quem dormimos porque está na hora de seguir em
frente e ele estava ali, naquele bar, naquela noite, e nos disse que
éramos bonitas. Mas o pior está para vir… Ah, e já vos disse que a
alcunha da personagem principal é Açúcar? "Oh Açúcar, tens de o esquecer!".
Mariana Alcoforado:
Completamente assassinada. Para quem leu e releu as cartas, como eu, a
Mariana não é nada daquilo que a Margarida descreve. E há visões que
terei de apagar da memória, para poder preservar a ideia daquela que é,
para mim, a mais notável história de amor do nosso país. Maior do que a
de Pedro e Inês, que julgo baseada sobretudo em luxúria, e na traição da
pobre Constança. A felicidade desses dois constrói-se sobre a desgraça
da princesa e a possível perda de independência do reino. No caso da
Mariana, falamos da vida pessoal de uma jovem de boas famílias, cuja
contrariedade por ter sido fechada num convento transparece a cada
palavra das suas cartas. Uma mulher confinada cujas palavras escapam às
paredes do convento e chegam aos confins da Europa para confidenciar a
sua solidão e o seu amor desmesurado pelo Marquês de Chamilly. É
evidente que ele a conspurcou, que ela se deixou ir por acreditar nas
suas promessas de amor eterno e de que voltaria para a resgatar do
Convento. Porém, e sem me alongar, a abordagem da Margarida é a
seguinte: sempre na primeira pessoa, a Mariana narra, ao longo de 4
dias, a sua história de amor a uma noviça muda. Teria então 75 anos e
analisa tudo em retrospectiva. Porém, a falta de sensibilidade da
Margarida neste ponto do romance é constrangedora. A voz que empresta a
Mariana jamais pode pertencer-lhe: esta mulher conformada, entregue à
vida religiosa e que se queixa do amor da sua vida, a quem chama
“crápula” e outras coisas que agora não me recordo e que me soavam
igualmente abrasileiradas. A linguagem está desfasada da época,
parece-me. “Devo cuidar da higiene do convento”, ou algo semelhante.
Higiene? Este conceito não me parece muito seiscentista. Enfim, o pior
mesmo foi o modo como, quase no fim do livro, ela continua a repetir
“Benedita, vou contar-te a história deste amor, regista tudo o que
digo”. E depois divaga sobre o amor e o sexo – muito entendida, esta
freira que só teve um amante, e que foi enclausurada num convento aos
dezasseis anos. Mas pior é mesmo o modo como há sempre descrições de
sexo nas lições desta Abadessa à sua pupila, de modo vulgar e
incomodativo. Toda eu me encolhia ao ler a minha “suposta” Mariana a
dizer que o Marquês de Chamilly “a penetrava” assim, a “possuía” assado,
mas pior ainda… Que tinha um “membro muito grande”, e que ela lho
dizia, ou que uma mulher deve dar prazer ao homem de todos os modos que
souber, por exemplo “montando-o”, e que o faziam todas as noites,
despachando depois os lençóis para uma noviça lavar. O que me matou
(fechei o livro, apaguei a luz e enrolei-me em posição fetal de olhos
muito abertos no escuro), foi ler que o Marquês se vinha no ventre ou na boca dela. Lamento assombrar-vos com o mesmo espectro, mas isto revolveu-me o estômago.
Morte ao amor, viva às lições sexuais da freira enclausurada. Não
acredito que uma velha abadessa de 75 anos tenha necessidade de contar
tais coisas, pensei que falariam do amor, das conversas, dos detalhes do
enamoramento, mas não. Aqui fala-se do modo como fornicavam, e basta.
Também adorei ler a Mariana a avisar a freirinha dos homens maus, do
modo como abandonam as mulheres, como “se não nos respondem às cartas é
porque já não têm nada a dizer”, e como há por aí “violadores”.
Espantoso o acesso à informação que uma freira enclausurada tinha, e
sobretudo o quão progressistas eram estes termos e visões da sociedade.
Ah e a HISTÓRIA? Enxurradas de números e datas sobre
guerras, e está feito. É mentira, a Mariana é só um engodo para fingir
que a MRP é capaz de escrever um romance histórico (nem de época, quanto
mais histórico!!!). Se é pela Mariana que vêm, fujam!
Apreciação geral:
Tirando partes do romance da tal Alice, a que até achei alguma graça, a
mulher não sai do mesmo. A criatura arrasta-se, queixa-se a todos,
todos lhe perguntam se está bem, se já o esqueceu… Bem, dá a ideia de
que o amor é isto: na gaveta, à espera que ele precise de nós como que a
um par de cuecas limpas. E já me estou a repetir, pareço ela.
Duas estrelas: 1 pelo Brasil, 1 porque reservo o 1* somente para livros que nem podem ser apelidados de tal.
Sinopse:«Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade
atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.» Numa
perspetiva inteiramente nova, Em Teu Ventre apresenta o retrato de um dos
episódios mais marcantes do século XX português: as aparições de Nossa Senhora
a três crianças, entre maio e outubro de 1917. Através de uma narrativa que
cruza a rigorosa dimensão histórica com a riqueza de personagens
surpreendentes, esta é também uma reflexão acerca de Portugal e de alguns dos
seus traços mais subtis e profundos. A partir das mães presentes nesta
história, a questão da maternidade é apresentada em múltiplas dimensões,
nomeadamente na constatação da importância única que estas ocupam na vida dos
filhos. O sereno prodígio destas páginas, atravessado por inúmeros instantes de
assombro e de milagre, confere a Em Teu Ventre um lugar que permanecerá na
memória dos leitores por muito tempo.
Opinião:Na realidade 2,5. Estou
por dentro do assunto "Fátima", que leva anualmente 6 milhões de
turistas à cidadezinha homónima. O autor foi muito <i>low
profile</i>, acho evidente que se afastou de uma tomada de posição. Deixa
a porta aberta para que quem acredita considere que é tudo verdade, e para que
quem apenas considere tudo um negócio fique com a sua ideia. O que, na minha
opinião, dá algum interesse ao livro é o retrato do Portugal rural (a imagem
dos piolhos a serem catados e da extrema pobreza em que se vivia). Também o
assunto "maternidade" tem laivos de beleza nesta obra, a mãe que ama
mas precisa de punir, mãe que condena mas que ainda assim protege a cria.
De resto há inúmeras coisas por mencionar - onde está o aviso, de Maio de 1916,
do suposto Anjo de Portugal? Onde está o Anjo a ensiná-los a rezar? E a Virgem
a falar dos Mistérios? A Virgem a exigir (e não a "concordar") a
construção de uma capela em sua honra? Onde estão os media que fotografaram as
70 mil pessoas que ali se reuniram a 13 de Outubro de 1917? O aviso de que, em
breve, Jacinta e Francisco se reuniriam com a Nossa Senhora no Céu? A teoria de
que apenas um dos dois irmãos viu a Virgem, enquanto outro apenas a ouviu,
sendo que Lúcia viu e ouviu a Virgem? Na minha óptica, o livro apenas vem
aprofundar o mistério, porque as fontes são tantas, e tão díspares... Falta que
se escreva ainda um grande livro sobre o assunto.