domingo, 24 de abril de 2016

#159 CHASE, Loretta, Sedução de Seda

Sinopse: O apelo do vestido perfeito consiste em duas partes: as senhoras devem desejar vesti-lo, e os senhores devem desejar despi-lo 
A ambiciosa e talentosa modista Marcelline Noirot é uma estrela em ascensão na chique cidade de Londres. E quem melhor beneficiaria do seu talento, se não a dama mais mal vestida de Londres, a noiva do duque de Clevedon? Conseguir o mecenato da futura duquesa significaria mais prestígio e fortuna para Marcelline e para a sua família. Para chegar até ela precisaria, contudo, de atrair as atenções do duque, um cavalheiro cujos padrões de estética são elevados, mas os padrões morais... já não.
Parece valer a pena. No entanto, quando Marcelline se encontra com ele, Clevedon projeta uma sedução tão irresistível como os vestidos que ela costura e cria, e o que começa por ser apenas uma faísca de desejo, depressa se torna num delicioso inferno... e um ardente escândalo. Será suficiente os seus destinos estarem apenas suspensos por um fio de seda?

Opinião: Comprei este livro em Setembro do ano passado. Foi um mês em que trabalhei 30 dias, todos os dias, e não só 8 horas por dia. Fui guia e agente de viagens, fiz transfers às três e às cinco da manhã para o aeroporto e deitei-me às tantas para dar o jantar aos meninos e conviver com eles. Sem falar que desci as escadas do Bom Jesus e, perto disso, as tremuras nas pernas depois da descida do castelo de Beja não foram nada. Isto para dizer que não tinha tempo, nem interesse em lê-lo. Ainda bem... Vim pegar-lhe numa fase em que não me apetecia ler nada, em que os livros "bons" são demasiado difíceis para o meu estado de espírito, e os livros de chacha (romances cor-de-rosa) já me parecem todos iguais. 
Este livro surpreendeu-me. Faz parte de uma série de quatro livros em que as personagens principais são três irmãs costureiras. Aqui começa a desconstrução dos romances do género. Marcelline não é nobre, não é desfavorecida, não é virgem. Gervase Clevedon nunca é mencionado como sendo "libertino". Finalmente! A história é diferente, tem humor, e as personagens estão muito bem construídas...
Marcelline é determinada, competente, trabalhadora árdua, ambiciosa e engenhosa. Não temos como não torcer para que os seus esforços dêem frutos. Não há aquela história do mal entendido que depois se resolve. Cada personagem é adulta e tem os seus dilemas.
Clevedon é cativante, protector, teimoso e tão determinado quanto Marcelline, mas pareceu-me a personagem mais fraca. Enquanto ela tinha garra e paixão, ele vê-a a todas as horas e parece incapaz de existir para além disso. Mas o amor é tantas vezes assim... A pessoa deixa de ver o que a rodeia e o que lhe está debaixo do nariz...
Não gostei de algumas (muitas) repetições - fizeram-me a papinha toda, não deram espaço a deduções. Não gostei de tantas menções ao diabo e a Belzebu e ao demónio e etc. É básico e old fashioned associar pessoas que jogam ou que têm vidas de moral duvidosa a coisas demoníacas, no sentido expressivo. "Eram aparentadas com o diabo, de tão traiçoeiras" - algo do género. São forças de expressão, mas houve ocasiões muito rebuscadas. Não sei se o mal é da tradução ou do original. 
No geral diverti-me, sempre soube onde isto ia, e adorei ler os detalhes todos da época com que a autora enriqueceu o livro. Localizações, a sociedade inglesa e a parisiense, os hábitos, os trajes, os jogos hierárquicos. Houve momentos de grande articulação. Adorei, mas penso que não vou ler o seguinte. Não li boas críticas a seu respeito.

Classificação: 3,5***/**

sexta-feira, 8 de abril de 2016

#158 FACIOLINCE, Héctor Abad, Oculta


Sinopse: «Emergi muito devagar à superfície do lago, tentando não fazer barulho. A minha boca aberta começou a engolir ar uma e outra vez, a toda a velocidade. Duas, três, cinco, sete vezes. O coração ribombava-me no peito como o bombo mais imponente de uma banda de aldeia. Ouvi vozes e insultos provenientes da casa. Vários feixes de luz perscrutavam o lago. Voltei a mergulhar. […] Não via nada debaixo de água, nem que abrisse os olhos: era uma barreira viscosa, negra, fria, que com a pressa de fugir parecia uma sopa de óleo que me untava os braços e as pernas e me obrigava a avançar devagar, por mais que os agitasse com todas as minhas forças.»
Assim começa um dos episódios mais dramáticos deste romance que gira em torno de La Oculta, uma propriedade escondida nas montanhas da Colômbia. Pilar, Eva e Antonio são os últimos herdeiros desta terra, que passou por várias gerações da família. Aí viveram os momentos mais felizes das suas vidas, mas também tiveram de enfrentar a violência e o terror, o desassossego e a fuga. A partir das vozes dos três irmãos, do relato que fazem dos seus amores, medos, desejos e esperanças, com uma paisagem deslumbrante como pano de fundo, Héctor Abad Faciolince mostra as vicissitudes de uma família e de uma povoação, assim como o momento em que o paraíso está a ponto de se perder. 

Opinião: “Gosta-se de uma quinta como se gosta de um marido, de uma mulher, de um velho amor a que dedicámos muito tempo e quase todas as nossas energias. Aprendemos a gostar dela quando éramos crianças, por via de uma felicidade genuína, espontânea, à primeira vista, no sol da infância e nos dias azuis.” 
“Oculta” (Quetzal, 2016) é o mais recente romance de Hector Abad Faciolince. A perspectiva deste colunista que vive em Bogotá é a de uma Colômbia desde o seu baptismo como Nueva Granada, colonizada de negros, espanhóis, missionários, judeus, mercenários e cafezeiros, até se tornar num país que começa a abrir-se ao progresso.
Ainda que a espinha do romance seja a história da família Ángel, o apeadeiro é La Oculta, a propriedade que a família detém há séculos. O livro delineia-se a partir do paralelo casa/passado. Três irmãos – Eva, Pilar e António (Toño) exprimem os seus pareceres a três vozes muito distintas.
Toño é apaixonado pelo passado, pelo que está empenhado em reconstruir os passos da família desde a sua chegada às encostas de Jericó. Homossexual, teve de deixar o meio fechado da Antioquia (que qualifica de tosco, homófobo, racista) para poder viver sem preconceitos em Nova Iorque.
Eva narra, sobretudo, as suas aventuras amorosas e um episódio que macula as lembranças felizes de La Oculta: aquele em que paramilitares e a máfia local se juntam para tentar expropriá-los da sua terra.
Pilar é a irmã um tanto tacanha, que nunca saiu da Colômbia, porém plenamente resolvida no amor. Vive um casamento de várias décadas e valeu-se do seu pragmatismo e zelo para cuidar da família, personificando assim a tradição e o imaginário do povo colombiano.
O ritmo do romance é bem compassado, porém são as personagens que ficam um pouco aquém, por até meio do romance parecerem decalques já encontrados um pouco por toda a literatura. Toño, efeminado desde pequeno por ter sido cuidado pela mãe e pelas duas irmãs, que abomina o trabalho braçal e cuida das mãos, e que não gosta de brincadeiras de rapazes e que é casado com um gay artista (e sensível).
Eva, mulher sem defeitos, linda, inteligente, várias vezes casada e outras tantas divorciada, amante de desportos e um tanto leviana.
E Pilar, a “matrona” que dedicou a vida aos interesses da família.
Algumas asserções podem gerar controvérsia, como a de que “as mulheres não querem saber do passado”, por serem práticas e viverem para as tarefas do dia-a-dia e para os desafios conforme estes se lhes apresentam, enquanto o homem parece um passo à frente na racionalidade e busca nas entrelinhas do seu passado um sentido para o seu presente.
A História do país vem assim desvendada por intermédio da história destes judeus convertidos. Os jogos políticos e o estabelecimento de hierarquias locais enriquecem em muito a narrativa, assim como a formação do poder local, sob a forma de máfias e de força militar corrupta. Sem dúvida, um autor a acompanhar.
O despertar para a intimidade dos três irmãos surge de modo delicado e explícito, o que consagra a destreza do autor para ilustrar episódios épicos e outros do foro pessoal com a mesma intensidade. 
Um romance que prima pelo retrato meticuloso da Colômbia nos últimos séculos, e que é quase um ensaio romanceado sobre a formação de um país.

Classificação: 3***/**

terça-feira, 29 de março de 2016

10 Mandamentos na Escrita

Decidi elaborar um video com 10 mandamentos a ter em conta na hora de escrever. São problemas recorrentes, fora as vírgulas, que já têm um estatuto próprio, e nas quais eu também derrapo de vez em quando.



Ora vejamos:

1. Menos é mais
Volto sempre à Margaret Mitchell. Num livro de mais de 1000 páginas, não há uma "cena" não intencional, não há um parágrafo que não acrescente algo à história, às personagens ou ao rumo da narração. Não há capítulos em que não suceda nada. Todo o livro é uma viagem, em constante avanço, não há círculos.

Em tantos romances contemporâneos, alguns cor-de-rosa, tipo "Milagre", da Deborah Smith, para quem gostaria de escrever dentro deste género: como é que um livro boy meets girl acaba com 600 páginas??? Porque 400 são palha. Isso mói o leitor e mata a história, tornara-a repetitiva. É impossível não se repetir quando a história tem 20 cm e a autora a contou em 2 metros de papel.

2. Advérbios de modo

Exemplo
1. "- Se soubesse não tinha perguntado - disse, altivamente!".

2. "Normalmente, não venho por aqui para o trabalho."

Sugestão
1. "- Se soubesse não tinha perguntado - disse, com altivez"

2. "Por hábito, não venho por aqui para o trabalho"

3. Show, don't tell

Quantos livros não começam assim?

"Manuel, que tinha olhos escuros e era o mais alto da família, tinha 35 anos quando entrou na velha pastelaria da sua infância. Achou-a vazia, sem a velha de buço aguçado que costumava atender ao balcão. Chamou-a três vezes, tocando a sineta, que lhe pareceu suja. Quando a senhora surgiu, na ombreira da pequena porta, outrora pintada de azul, vinha sem cabelo e com óculos de fundo de garrafa. O cancro apanhara-a, assim como à sua avó Beatriz, que morrera aos 72 anos, e ao seu avô Óscar, que sofrera três anos antes de morrer do mesmo mal."

Quantas oportunidades não tem o autor de passar todas estas informações ao longo da narrativa? De modo menos "óbvio"? Quantas vezes não surge a + b e o autor sente a urgência de reafirmar que o resultado é c? Deixem o leitor fazer as contas e ler nas entrelinhas.

4. Dizer tudo com menos palavras

Exemplo
"Caiu na inércia que advém das tardes de ócio em que não fazemos nada porque não há nada para fazer, mas que ainda assim desejávamos ter vontade de ser mais e de largarmos a preguiça e darmos um passo para fora da imobilidade".

Sugestão
"Caiu na inércia das tardes em que, por não fazermos nada, desejávamos ser capazes de pôr a preguiça de lado."

5. Don't state the obvious


Não é fácil arranjar exemplos para este caso, mas surge muito. O leitor ter chegado há muito à conclusão do cálculo e o escritor repetir: entenderam? 2 + 2 = 4. Porque se fosse 5 então teria de ser 2 + 3. Ou 3 + 2. Como somamos 1 + 1 + 1 + 1, então dá 4. Quando acontece comigo, sinto que o escritor não escreveu a pensar num público com dois dedos de testa.
Exemplo
Podia, mas cortaram-me a língua entretanto, ou poderia, se quisesse.



"Manuela fora sua ama desde o berço. Ele tinha agora trinta e dois anos e ela ainda lhe cortava o bife, ainda lhe engraxava os sapatos, ainda lhe fazia o nó da gravata, ainda lhe escolhia a roupa para o dia seguinte, ainda o aconchegava até que adormecesse e fazia questão de lhe deixar a luz acesa. Durante semanas a família reuniu-se para debater aquele caso, até que alguém teve um laivo de genialidade e entendeu: Manuela tratava-o como se ele ainda fosse uma criança". Plim! We didn't see that coming.




6. Erros ortográficos

É precizo ezemplo? Á maneira pior de querermos ser escritores? Não duminarmos as palavras? Atraz de um grande livro está uma peçoa que sabe mecher com a ferramenta principal: a sua língua, ou aquela em que quer trabalhar.

7. Metáforas

Exemplo
"Fiquei ali, como um cão abandonado". "Senti-me quebrado, como uma peça de porcelana rachada". "Fazia tanto frio que foi como se estivesse no Pólo Norte".

Sugestão
Dêem intensidade à vossa asserção, mas sem recair em lugares-comuns nem metáforas fáceis.

8. Tempos verbais

O condicional é sempre o mais violentado:

Exemplos
"Podia repetir o que disse, por favor?"


"Estava certo que sabia o que fazer quando lá chegasse."

Sabia, mas teve uma branca entretanto, ou saberia, se se esforçasse.

"Comecei a caminhar para lá, para onde a minha avó fora um dia feliz, e faço questão de salientar que agora era a sério, agora ia conseguir!"


9. Diálogos

"- Ontem parece que houve um cisma lá em casa.
- Entre 1309 e 1377, a residência do papado foi alterada de Roma para Avignon, na França, pois o Papa Clemente V foi levado (sem possibilidade de debate) pelo rei francês para residir em Avignon. Em 1378, o Papa Gregório XI voltaria para Roma, onde faleceria. A população italiana desejava que o papado fosse restabelecido em Roma. Foi então eleito Urbano VI, de origem italiana. No entanto, ele demonstrou ser um papa muito autoritário, de modo que uma quantidade considerável do Colégio dos Cardeais, anularia a sua votação e foi realizado um novo conclave, sendo eleito Clemente VII, que passou a residir em Avignon. (fim de cit. wikipedia)
- Tens visto o Henrique?
- Quase que me esquecia! Henrique é conhecido como o fundador da Igreja Anglicana. Suas lutas contra Roma ocasionaram a renúncia daInglaterra à autoridade papal, a Dissolução dos Mosteiros e seu próprio estabelecimento como Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra. Ainda assim ele continuou a acreditar nos principais ensinamentos católicos, mesmo após sua excomunhão.[1] Henrique supervisionou a união legal da Inglaterra e Gales com os Atos das Leis em Gales de 1535 e 1542(fim de cit. wikipedia)"



10. Dar tempo ao enredo

Ritmo! Não é fácil. Há quem perca 3 parágrafos a resolver a questão dos cortinados ao vento, e depois numa linha narra o funeral da mãe da personagem principal. E não atirem dificuldades para o caminho da personagem para resolverem na primeira esquina. Apostem na boa cimentação dos dilemas, num possível clímax, na intensidade página a página e nas várias dimensões de uma intriga.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

#157 SMITH, Deborah, Milagre

Sinopse: Sebastien de Savin é um brilhante cirurgião cuja habilidade e arrogância representam uma mistura explosiva. No passado, um segredo obscuro foi o responsável pelo endurecer do seu coração, até que um milagre acontece. O milagre dá pelo nome de Amy Miracle, uma rapariga tímida com um emprego de verão nas vinhas da família de Savin e a última pessoa pela qual alguém como Sebastien esperaria apaixonar-se.

Um acaso junta-os: graças a Sebastien, Amy escapa de uma vida de pobreza e abusos psicológicos, adquire autoconfiança e progride numa carreira de sucesso. Graças a Amy, Sebastien reaprende a rir e desperta para o amor. No entanto, a vida real separa-os. Embora tendo passado pouco tempo juntos, a memória desses preciosos momentos assombra-os durante anos. Até ao dia em que os seus caminhos se cruzam novamente…


Repleto de personagens bem-humoradas e apaixonantes, Milagre é sobretudo uma história de amor e de conflito inesquecível, que mostra como o amor pode parecer improvável, mas nunca é impossível


Opinião: “Milagre” é o terceiro livro que leio da Deborath Smith, a seguir ao best-seller “A Doçura da Chuva” e a “O Café do Amor”. Adorei tanto quanto o anterior, porém o mesmo problema perpetua-se: porquê escrever livros deste tamanho? Porque não 150 páginas a menos?
Houve momentos muito intensos, outros que teriam sido perfeitamente dispensáveis. A palavra de ordem é “drama”. Para não dizer “morte”, porque o livro é um desfile de mortes. Até conheço vidas assim, que em 10 anos a pessoa se vê num desfile de velórios de funerais, às tantas parece que já nem sente nada, embora por dentro o poço continue a aprofundar-se. Mas houve partes que considerei demais…

Amy Miracle cresce com o pai, palhaço reformado devido a uma lesão na coluna, e a madrasta, a “doce e passiva Maisie”, como a própria a descreve. O pai é violento, alcoólico e, somando todas as suas atitudes, tem pancada, pronto. A Amy não tem quaisquer ambições na vida (o que me recordou a Lousia, de Viver depois de ti), e depois surge Sebastien de Savin (que me recordou o Will, de Viver depois de ti), e abre-lhe um leque de oportunidades. O principal, claro, é a motivação. O amor inabalável que a Amy acaba por sentir por esse homem, primeiro seu patrão e depois seu benfeitor, roça muitas vezes a idolatria. Está constantemente a dizer que precisa que ele se orgulhe dela e que não vai falhar por ele. Eventualmente acaba por maturar um bocadinho e começa a fazer pela vida tendo em conta o seu próprio interesses e bem-estar. 

A jóia do livro é, a meu ver, a personalidade e a história do Sebastien de Sauvin. Para mim, amor à primeira vista, por muito que tivesse o nariz ligeiramente torto (eheh). O homem perdeu (e vai perdendo) a família toda ao longo do livro. As circunstâncias são trágicas e envolvem acidentes de carro, suicídios, abortos, quedas de aviões e simples “desabar” no chão. Às tantas já era demais… Mas isso torna-o no cirurgião cardíaco pragmático que é, ambicioso, metódico, dedicado e de um racionalismo estonteante. Às vezes, quando afastava alguém com a sua dureza, eu, como leitora, julgava finalmente compreender o tumulto por detrás dos olhos de outras pessoas que agem do mesmo modo.

Em termos de romance, é realista em quase tudo. Da intimidade às interacções. Porém, há outro momento crucial no livro em que as coisas começam a parecer frustradas. Digamos que ele e a Amy têm algo importante a resolver, e que deveriam fazê-lo juntos (isto é, lado a lado), e não com um em Paris e outro em São Francisco e a deixar as coisas andar…


Gostei do livro. Li rápido apesar da enorme extensão. As 4* dizem respeito à mestria com que a relação dos dois evolui. Não é fácil escrever-se sobre amores assim, e só por isso sei que da pena da Deborah virão sempre grandes histórias. This girl knows her love!
A que falta não é muito lisonjeira, porque realmente houve momentos de dramatismo forçado e desnecessário que me fizeram revirar os olhos.
O certo é que estarei cá sempre para lê-la.

Classificação: 4****/*

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

#156 MOYES, Jojo, Viver depois de ti

Sinopse: Lou Clark sabe muitas coisas. Sabe quantos passos deve dar entre a paragem do autocarro e a sua casa. Sabe que trabalha na casa de chá The Buttered Bun e sabe que não está apaixonada pelo namorado, Patrick. O que ela não sabe é que vai perder o emprego e que todas as suas certezas vão ser postas em causa.
Will Traynor sabe que o acidente de motociclo lhe tirou o desejo de viver. Sabe que agora tudo lhe parece triste e inútil e sabe como pôr fim a este sofrimento. O que não sabe é que Lou vai irromper na sua vida com toda a energia e vontade de viver. E nenhum deles sabe que as suas vidas vão mudar para sempre.
Em Viver depois de ti, Jojo Moyes aborda um tema difícil e controverso com sensibilidade e realismo, obrigando-nos a refletir sobre o direito à liberdade de escolha e as suas consequências.

Opinião: "I can't be the kind of man who just...accepts."

Na madrugada a seguir ao anúncio da eleição do José Rodrigues dos Santos como “melhor” escritor português, eu deito-me às 04:45 da manhã para ler, de uma enfiada só, o meu primeiro da Jojo Moyes.
Não li o livro por ter curiosidade na autora, mas sim porque saiu o trailer do “Me Before You”, inspirado neste romance, com a Emilia Clarke (A Guerra dos Tronos) e Sam Claflin (Love, Rosie). Isto significa que fui ao livro em busca daquilo que a sua sinopse e o trailer do filme prometiam: uma jovem alegre e invulgar, cheia de vida, a cuidar de um tetraplégico pouco mais velho do que ela própria, e que perdeu a vontade de viver.
Esperei algumas coisas do livro – não sou daquelas autoras que adoram um twist, digamos que prefiro jogar pelo seguro. Acho que isso se nota também naquilo que escrevo… O meu coração não bate mais forte por causa da imprevisibilidade das coisas. Eu sou mais do género de saber que alguém chegou ao ponto x e fico louca de curiosidade para saber como foi lá parar.
Então, e sabendo que saí de uma depressão há pouco tempo, atirei-me de cabeça. Eu, a manta, o candeeiro e os bichos em cima de mim. Passámos seis horas interruptas juntos. Sabem o que isso significa, para mim? Que ainda sou capaz. Que, se gostar mesmo muito, muito, de um livro, ainda consigo entregar-me de alma e coração ao mesmo. Atenção, eu disse “se gostar muito, muito”, não disse “se um livro for muito, muito bom”. É importante que se faça essa distinção. E, no meu peito, este livro ascendeu logo a um sólido 5*****. Não é o 5***** do E Tudo o Vento Levou, nem do Servidão Humana, mas é o 5***** de alguém que, num dia de semana, não conseguiu desligar-se destas pessoas nem dos seus dilemas.
O livro mexeu comigo a vários níveis. Primeiro, claro, o acidente. Eu sou daquelas pessoas que acham que devemos arriscar sempre que a vontade o exige, porque pode dar-se que acabamos atropelados por uma Scooter à porta de casa e sem ter vivido. A Louisa Clark é uma rapariga da minha idade, com um namoro de seis anos e um emprego que lhe preenche as ambições num café local. Por precisar de se sentir segura, apesar de ser bastante estouvada, esse emprego mantinha-a livre de ânsias de maior. Não almejava um salário maior nem sair para conhecer o mundo. Era feliz sabendo que fazia chás excepcionais e que trocava dois dedos de alegre cavaqueira com cada cliente. A sua família está a passar por dificuldades financeiras e, quando perde o emprego, é rapidamente catapultada para Granta House, onde é paga para cuidar de um homem que ficara tetraplégico há dois anos, na sequência de um atropelamento.
Este homem é William Traynor, um homem que escalara o Kilimanjaro, mergulhara em recifes de coral e fizera bungee jumping. Tudo isso antes de ter ficado preso a uma cadeira de rodas. Lembrei-me, de imediato, das referências artísticas que tenho em assuntos do género: O Escafandro e a Borboleta, Million Dolar Baby, Os Intocáveis e Mar Adentro. Cada um é triste e revelador ao mesmo tempo. Põe-nos a pensar onde reside, realmente, a força de uma pessoa. Como é espantoso que alguém que apenas mexa a boca possa pintar ou escrever, enquanto outros, em plena posse das suas faculdades, se afastam das coisas mais simples por se considerarem incapacitados para isso à partida.
A jóia do livro são, claro, as relações humanas. As emoções que nos tomam (não ofereci grande resistência, confesso) quando nos deparamos com os dilemas destas pessoas. Ficar ou não ficar? Deixar ir ou tentar manter? A definição de amor nunca nos é atirada para a cara, tipo “amar é deixar o outro ir quando lhe é impossível ficar”, mas está intrínseca em cada gesto. 
Lembro-me de, aqui há uns anos, andar muito angustiada a perguntar-me isto mesmo: será que existe no mundo alguém que me ame tanto que me ajudasse a morrer, se eu estivesse lúcida e viver me fosse já insuportavelmente doloroso?
A minha avó disse que nunca me ajudaria nesse sentido, porque Deus Nosso Senhor não ia aprovar. Nunca me esqueci dessa justificação fácil para se sacudir a água do capote. Já anteriormente o disse: para mim, amar é estarmos dispostos a acabar como sofrimento do outro. 
E este livro testa estas ideias ao limite. É tão diferente do esboço tosco do Nicholas Sparks, o “Uma Escolha por Amor”, que só me resta deitar a língua de fora quando penso nos disparates que li no livreco do Nicholas.
Vida e morte. E, claro, amor. O amor aqui explorado no pináculo do desespero. 
Quando a vida de Lou e Will colide, também o leitor é arrastado para os diversos prismas desta circunstância infeliz. Se Will ama Lou, deve deixá-la livre para ser feliz com alguém em plena posse das suas capacidades, ou dispor-se a alegrá-la com o que lhe pode oferecer? Se Lou ama Will, está disposta a limpar-lhe o rabo e a mudar-lhe o cateter para o resto da vida? Ou, se o ama mais ainda do que isso, poderá deixá-lo ir-se embora? Quem sabe até lho perdoar? Se a mãe de Will ama o filho, deve desistir de lutar por fazê-lo querer viver ou deve acatar e respeitar o seu desejo de alívio? 
Ri muito. Às duas da manhã ria-me que nem uma maluca. Há momentos tão bons, tão bonitos neste livro… E depois a eminência de um futuro sem floreados a pairar sobre o leitor, a cingir-lhe o peito num punho cerrado…
Depois chorei. Muito. Chorei porque a autora conseguiu meter-me, em simultâneo, na pele da Lou e na do Will. E não queria ser um nem outro. Só de pensar sinto uma angústia, uma falta de ar, como se tivesse verdadeiramente vivido aquelas seis horas a partir de uma cadeira de rodas eléctrica.
Não é um livro fácil. Acho impossível que alguém o leia e fique de coração leve.
Resta-me repensar a minha vida, entender que também eu tenho 26 anos e que estou cheia de vida e de opções. O que quero mesmo fazer com ela?
Prometo a estas personagens, que tanto o merecem, que vou pensar.
Bem sei que a autora não é o Stefan Zweig, que o livro tem laivos de clichés, mas é tão adulto e tão ponderado que me deixar embalar pelos seus ensinamentos, pelos seus cenários, pelos seus humanos inventados, e aqui estou… a suspirar.
É bem possível que volte a lê-lo um dia. Vai para a estante dos favoritos. Não quero ler a continuação. Para mim acaba assim mesmo. Matou-me e vou deixar-me ficar deitada a escutar os ruídos do universo enquanto as energias e a vontade se realinham em mim.
Quando o filme sair, vou com uma caixa de Kleenex para o cinema.
Um horror, devia ser proibido fazerem isto às pessoas.

Classificação: 5/5*****

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

#155 KUBICA, Mary, Não Digas Nada

Sinopse: Filha de um juiz de sucesso e de uma figura do jet set reprimida, Mia Dennett sempre lutou contra a vida privilegiada dos pais, e tem um trabalho simples como professora de artes visuais numa escola secundária. Certa noite, Mia decide, inadvertidamente, sair com um estranho que acabou de conhecer num bar. À primeira vista, Colin Thatcher parece ser um homem modesto e inofensivo. Mas acompanhá-lo acabará por se tornar o pior erro da vida de Mia. 

Opinião: “Não digas nada” é o primeiro livro que leio da Mary Kubica. Não tinha lido muito sobre ele, nem sequer no Goodreads, onde vou sempre buscar conselho antes de investir num livro. Fiz bem, porque o livro tem críticas muito díspares. Há quem pareça adorar, há quem o considere um embuste, e há quem diga que não o aqueceu nem arrefeceu.
A sinopse revela um rapto, um captor e uma família influente. O problema, na minha óptica, é que o livro é vendido como um thriller, uma obra de suspense. Estes elementos não existem no livro, é um romance com conteúdos policiais, diria eu. Não há nenhum quebra-cabeças a resolver, mas a autora soube unir as pontas soltas. Quem vai ler o livro à procura destas características vê o seu intento gorado. Entendo que fique frustrado e que considere que o livro falhou, nesse sentido. Eu prefiro pensar que foi o Marketing que falhou e que o livro é exactamente o que a autora quis que ele fosse.
Elogio as personagens principais, bastante credíveis. A Eve, o Colin e o inspector Hoffman, que são as vozes narrativas, estão bem construídos e ajudam a compor o puzzle a respeito do rapto da Mia. É evidente que a mestria da Mary é sobretudo visível no retrato psicológico do Colin e da Mia. Quanto a isto, digo que ambos são palpáveis e multilaterais. Apaixonei-me pelo Colin às primeiras linhas. Acho que a escritora soube prender-nos a esse homem de passado tumultuoso.
Consegui lê-lo depressa, sendo que o último terço foi de enfiada em duas horinhas. É bom sentir que tenho de chegar ao fim de um livro para ter paz. Penso que vai ficar comigo durante algum tempo, um pouco como “A Montanha entre nós”, se bem que esse foi arruinado pelo final…
SPOILER:
A única coisa que não entendo é porque é que a Mia nunca contou a verdade ao Colin, teria resolvido muita coisa…

Classificação: 4,8****/*

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

#144 AMADO, Jorge, Capitães da Areia

Sinopse: Capitães da Areia é o livro de Jorge Amado mais vendido no mundo inteiro. Publicado em 1937, teve a sua primeira edição apreendida e queimada em praça pública pelas autoridades do Estado Novo. Em 1944 conheceu nova edição e desde então sucederam-se as edições nacionais e estrangeiras, e as adaptações para a rádio, televisão e cinema. Jorge Amado descreve, em páginas carregadas de grande beleza e dramatismo, a vida dos meninos abandonados nas ruas de São Salvador da Bahia.

Opinião: Em Setembro de 2014 fui a Salvador da Bahia. Esperei muita coisa do Brasil e da América do Sul, mas esqueci-me da literatura. Isto é, a minha ideia estava toda errada: no meio da pobreza, e que não é pouca, há uma beleza pulsante, uma bondade comovente por entre as dificuldades e a emergência de um orgulho triste, o que advém de amarmos a terra que sabemos condenada. Parece que na Terra vem tudo em dois punhados: algo de bom e algo de mau, e a beleza é o que emerge do modo como o povo joga com estas duas energias.
Quando leio romances sul-americanos, fico sempre assombrada por quanto Gabriel García Márquez, Isabel Allende e agora Jorge Amado extraem destes solos. Atenção que a Isabel, assim como a Laura Esquível, além de excelentes romancistas que retratam os costumes da sua gente… Mas há algo de visceral na escrita do Garbo e do Amado. Sem dúvida que Jorge Amado é para seguir.
Dizia que, em Setembro de 2014, fui a Salvador da Bahia. Podem ler sobre isso aqui:http://levoyageenrose.blogspot.pt/201.... Fiquei no Pestana Bahia, que é um cinco estrelas com avisos sobre a bicharada que pode entrar pela janela à beira da praia do Rio Vermelho. Na altura, alguém disse que aquela era a praia dos Capitães da Areia. Não sabia quem eram os Capitães da Areia e agora, depois de ler sobre as suas aventuras, jamais poderei deixar de os associar ao modo como a noite caía nesse areal no Hemisfério Sul.
Jorge Amado foi bacharel em Direito, por isso um “dotôrzinho”, oriundo de um mundo a léguas de distância do areal dos Capitães da Areia. Para vos situar: os Capitães da Areia são os órfãos, as crianças maltratadas, os negligenciados, ignorados e esquecidos de Salvador da Bahia. Unidos sob a capitania de Pedro Bala, um moleque de 15 anos, formam os Capitães da Areia: primeiro um bando de ladrões, depois uma tropa de choque a favor das greves dos pobres, quando o seu capitão descobre que o próprio pai era estivador e morreu em greve pelos direitos dos seus.
Cada um dos Capitães da Areia tem uma história de abandono, violência e sofrimento. São felizes na liberdade, mas procuram o seu rumo: Gato é feliz com a brilhantina no cabelo e os sapatos engraxados, e dorme com Dalva, uma prostituta pelo menos duas décadas mais velha do que o menino. Sem Pernas foi sovado e humilhado pela polícia por ser coxo, vive no terror de voltar a ver-se nessa vulnerabilidade, e por isso se torna o mais arisco de todos, embora também ele não seja imune a rasgos de verdadeira humanidade. Professor quer ser pintor: dá cabo dos olhos à luz das velas, no trapiche, a passar em revista os livros a que consegue deitar a mão, e a lê-los para os outros capitães. João Grande é um preto enorme, que chamam de burro mas que é aquele cujo coração e a moral parecem mais intactos. Pirulito tem vocação religiosa; influenciado pelas palavras amigas do Padre José Pedro, que é contra meterem os meninos no reformatório da cidade, onde apenas receberiam surras e passariam fome, sonha em vir a trajar uma batina. Tantos outros, entre os quais surge Dora, uma menina cuja mãe sucumbiu à epidemia de varíola no seu morro, e que se junta aos meninos, tão corajosa quanto eles, e vira a primeira Capitã da Areia. Mas nem todos são felizes sem mãe, sem família, sem um carinho na cabeça, um aconchego na hora de se irem deitar. Nem todos são felizes deitados por entre os ratos, escondidos da polícia e do reformatório, a aplicar golpes em quem tem mais do que eles, a enganar os marinheiros com baralhos marcados no cais, a recolher níqueis por desenhar a giz na calçada da cidade e a recorrerem às macumbas da Mãe de Santo, don'Aninha sempre que um menino cai doente.
Os ideais comunistas pulsam aqui, pelo que não é de estranhar que o livro tenha sido aprendido após o seu lançamento, em 1937, e queimados cerca de 800 exemplares em praça pública. Mas não é apenas a política que mexe com a sociedade baiana nessa época: Jorge Amado foi mais longe. Falou de pederastia, de sexo, de sodomia, de oficiais malvados e de directores de reformatórios ambiciosos e cruéis. Tudo isto ofendeu a época… O rico na abundância e o pobre descalço, no morro. O rico com a sua vacina para a varíola e o pobre no terreiro, a suplicar a Omolu pelas vidas dos seus que caem de bexiga…
Infelizmente, o Brasil ainda não mudou tanto assim desde este retrato de desigualdade que Jorge Amado nos presenteia.É um dos livros mais belos que li na vida, de heroísmo, amadurecimento, bondade e injustiça. Espero que o Brasil encontre o seu caminho rumo ao bem-estar do seu povo, para que os corruptos sejam afastados, o povo deixe de morrer nas urgências da saúde pública e a média de assassinatos em brigas em Salvador deixe de ser de 18 pessoas por semana, como era em Setembro de 2014.
 
Classificação: 5/5*****