domingo, 23 de outubro de 2016

#172 HUNTER, Madeline, As Regras da Sedução


Sinopse: Hayden chega sem aviso e sem ser convidado - um estranho com motivações secretas e um forte carisma. Em poucas horas, Alexia Welbourne vê a sua vida mudar irremediavelmente. A relação entre ambos é tensa, agitada e incómoda. Para Alexia, Hayden é o culpado da sua desventura: sem dote, ela perdeu qualquer esperança de algum dia se casar. Mas tudo muda quando Hayden lhe rouba a inocência num acto impulsivo de paixão. As regras da sociedade obrigam-na a casar com o homem que arruinou a sua família. O que ela desconhece é que o seu autoritário e sensual marido é movido por uma intenção oculta e carrega consigo uma pesada dívida de honra. Para a poder pagar, ele arriscará tudo... excepto a mulher, que começa a jogar segundo as suas próprias regras…

Opinião: O rigor histórico é óptimo, os cenários encantadores; a escritora é muito boa*. A Alexia e o Hayden são deliciosos! Ele é um nobre honrado, tal como o seu irmão mais velho, o Marquês de Easterbrook. A Alexia recebia o apoio dos familiares após ter sido destituída de tudo o que tinha. Hayden, que descobre a fraude levada a cabo pelo primo da Alexia, decide tomar medidas, que incluem confiscar-lhe todos os bens. Enquanto a família dela é obrigada a deixar Londres, ele oferece-lhe uma posição de acompanhante da sua tia e prima. Claro que há um desejo imperioso entre ambos, mas bem explorado no modo como ela luta entre a virtude e a capitulação. A história por detrás do noivado da Alexia com um falecido companheiro do Hayden, na marinha, também está bem desenvolvida. Recomendo a quem aprecia um bom enredo, personagens marcantes e romance.


Classificação: 4,5****/*

*Pouco depois, apercebi-me de que não há muita reinvenção, a autora limita-se a reescrever o mesmo enredo, pelo que desisti da senhora Hunter.

LIDO (APROX.): 2008

domingo, 9 de outubro de 2016

#21 The Shining

Título oficial: The Shining @ 1980
Realizador: Stanley Kubrick
Actores principais: Jack Nicholson, Shelley Duvall
Classificação IMDb: 8,4
 Minha classificação: 4

Baseado no livro de Stephen King, “The Shining”, ou “O Iluminado”, em português, prometia ser um filme de terror de arrepiar os cabelos. Prometia ser um dos melhores filmes de todos os tempos, dentro do seu género e para além dele. Eu tenho medo de filmes de terror, não assisti a muitos por esse motivo. Mas acho que não devo deixar que os meus gostos ou limitações influenciem, a cem por centro, a minha cultura geral. Então achei que estava na hora de superar o desafio de ver este filme.
Porém, quando a este, senti sobretudo embaraço. Ao longo das duas horas e vinte minutos em que o filme roda, procurei constantemente um sentido para o enredo, um escalar para o prometido clímax, um fio condutor que me permitisse extrair alguma lógica a tudo isto. Nunca encontrei nada por onde pegar. A actuação da Shelley Duvall constrangiu-me. Não vale a pena contra-argumentar-se que o problema está no facto de o filme ter sido rodado há trinta e seis anos: o problema é ela ser má actriz. A Vivien Leigh, em 1939, era muito melhor. A Bette Davis, em 1942, era muito melhor. Portanto, é tão má actriz que o filme se estraga logo aos primeiros minutos, quando ela está a rir e a debitar frases como se as estivesse realmente a ler, a partir do guião. O próprio guião é mau – alguém deve ter recebido muito para o adaptar do livro, mas esqueceu-se de criar a ponte “literatura-cinema”, pelo que as falas galgam esse espaço e vêm estatelar-se no chão. Sobretudo as da Wendy (Duvall), e sobretudo no início, depois acabam por entrar no campo do “normal” para a época e para o género. Houve um momento em que entendi que tinha de parar de culpar a actriz pela disfuncionalidade do seu papel. O que lhe foi pedido também é parvo por si só. Não entendo como não venceu na categoria de Pior Actriz dos Razzies, para a qual foi nomeada.  
Ultrapassando esse problema, penso que a criança, Danny (Danny Loyd) teve uma óptima prestação no filme, contribuiu para nos puxar par ao ambiente lúgrube do Overlook Hotel - e na minha óptica o hotel é o vilão, e o ambiente do hotel é o elemento mórbido que acaba por ser o protagonista do filme -, ver aquele cenário pelos olhos dele é intimidante. E o Jack Nicholson, claro, parece ter sido feito para representar este papel. O rosto dele mexe mais com o espectador do que o chorrillho de disparates das falas. "Assinei um contrato" - *eye roll*, scary.
Se calhar o problema é que, tendo o filme nascido de um livro, procurei nervuras que explicassem o que sucede. Por muito que não haja explicação para tudo, e no mundo do horror e do sobrenatural menos ainda. Se me focasse apenas na banda sonora, nos pormenores que nos desconcertam e inquietam (como a cena em que a criança galga tapetes/soalho em sequência com o triciclo, e o ruído mexe com todos os nervos do nosso corpo), ficaria híper impressionada. 

De facto há uma admirável visão, inquietante, por detrás de todo o projecto. Alguém que soube captar os ângulos, plantar receios, criar ansiedade. Porém sinto que falta alma, um mal identificado, um mal localizado, um mal com cabeça tronco e membros. O hotel, por si só, é arrepiante. Mas fora isso… como se explica tanta coisa? Gosto de respostas. Inquietar só porque sim acaba por cair no esquecimento, para mim. Creio que este filme, assinado por um realizador menos mediático, estaria na lista dos maiores disparates de sempre. Fico feliz de ter visto o filme, mas não entrei para o seu clube de fãs nem creio que volte a vê-lo um dia.

Classificação: 4/10

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

#171 HANNAH, Kristin, O Rouxinol


Sinopse: Na tranquila vila de Carriveau, Vianne despede-se do marido, Antoine, que parte para a frente da batalha. Ela não acredita que os nazis vão invadir a França… mas é isso mesmo que fazem, em batalhões de soldados em marcha, em caravanas de camiões e tanques, em aviões que enchem os  céus e largam as suas bombas por cima dos inocentes. Quando um capitão alemão reclama a casa de Vianne, ela e a filha passam a ter de viver com o inimigo, sob risco de virem a perder tudo o que têm. Sem comida, dinheiro ou esperança, e à medida que a escalada de perigo as cerca cada vez mais, é obrigada a tomar decisões impossíveis, uma atrás da outra, de forma a manter a família viva. Isabelle, a irmã de Vianne, é uma rebelde de dezoito anos, que procura um objetivo de vida com toda a paixão e ousadia da juventude. 
Enquanto milhares de parisienses marcham para os horrores desconhecidos da guerra, ela conhece Gäetan, um partisan convicto de que a França é capaz de derrotar os nazis a partir do interior. Isabelle apaixona-se como só acontece aos jovens… perdidamente. Mas quando ele a trai, ela junta-se à Resistência e nunca olha para trás, arriscando vezes sem conta a própria vida para salvar a dos outros. Com coragem, graça e uma grande humanidade, a autora bestseller Kristin Hannah capta na perfeição o panorama épico da Segunda Guerra Mundial e faz incidir o seu foco numa parte íntima da história que raramente é vista: a guerra das mulheres.  O Rouxinol narra a história de duas irmãs separadas pelos anos e pela experiência, pelos ideais, pela paixão e pelas circunstâncias, cada uma seguindo o seu próprio caminho arriscado em busca da sobrevivência, do amor e da liberdade numa França ocupada pelos alemães e arrasada pela guerra. Um romance muito belo e comovente que celebra a resistência do espírito humano e em particular no feminino. Um romance de uma vida, para todos.

Opinião: A minha primeira impressão quanto a “O Rouxinol” não foi muito abonatória. Não posso abstrair-me da ideia de que a autora ainda estava à procura da sua voz – e isso é bem mais difícil do que parece. Nesse processo, surgem frases tipo slogan como "O que era o amor quando confrontado com a guerra?". Achei que o primeiro terço do livro é fraco, superficial, demasiado leviano na sua apresentação das personagens. Eu sabia que haveria aqui um contraste locus amoenus (paisagem idealizada, luminosa, verdejante) e locus horrendus (cenário horrendo, desprovido de luz). O melhor exemplo de uma saga que explora as duas é O Senhor dos Anéis , em que o Shire é tudo de perfeito e Mordor é um inferno na Terra. Porém, considerei que até para entre-guerras, o cenário inicial era perfeito demais. Segundo me recordo, tanto a França como a Alemanha sofreram imenso durante a I Guerra, e depois dela estavam pejados de estropiados, mutilados, doentes crónicos por causa dos gases, da gripe Espanhola, da tuberculose, etc., além das dívidas. Não é à toa que os principais combates foram no Somme, os terrenos continuaram cheios de minas e granadas por explodir nos anos subsequentes. Quinze anos é muito pouco tempo para que alguém se exibisse tão feliz e tão optimista, e sobretudo tão descrente de que outra guerra viesse aí. Isto é a Vianne. Na página três já ela e o marido haviam dito umas cinco vezes “Eu amo-te”. Tudo bem, deve haver casais e casais. Mas ao final de dez anos de casados ainda sentirem essa necessidade a cada vez que tiram uma garrafa de vinho do cesto de piquenique? Os olhares cruzam-se e “Eu amo-te”. Gostava de ter sentido um maior realismo nessa parte, mas posso ser só eu a embirrar, porque as minhas expectativas eram altíssimas. Durante esse primeiro terço não consegui desligar-me do papel de escritora/revisora, e o potencial era tão grande que me via a rasurar imensa coisa. Sobretudo as listagens de produtos franceses (tinha cerâmica de Limoges, e do cesto tirava vinho daqui, Camembert, Roquefort, champagne de acolá, a baguete, só se esqueceu do croissant). Achei as personagens desprovidas de profundidade. A impulsividade da Isabelle era por vezes embaraçosa, depois ao longo da segunda parte e da terceira a autora cimentou melhor o seu carácter estouvado. Pô-lo a servir um bem maior e fez o leitor se preocupar com ela.

Divido o livro em três partes: 

I: A guerra aproxima-se, Paris é invadida, um general alemão vem instalar-se na casa da Vianne.
II: Os meses vão-se passando em provações, Vianne acomoda-se e Isabelle rebela-se, começam a ser perseguidos os membros da resistência, homossexuais, comunistas, judeus.
III: A Alemanha começa a perder a guerra e a sua crueldade extravasa todos os horrores que já haviam infligido até aí.
Gostei da parte do livro que acaba por unir as duas irmãs, e em que o amor de uma pela outra triunfa. Também gostei da dificuldade que ambas tinham em relacionar-se com um pai que fechava os olhos e ainda se via nas trincheiras, a combater na I Guerra. O que aprecei, acima de tudo, foi a pesquisa histórica, muito bem distribuída pelos anos do conflito. (Estando eu própria a escrever um livro sobre a mesma época, essa foi a primeira abordagem que ponderei: seguir a cronologia da Guerra, é o mais lógico). Também gostei do facto de haver uma premissa inicial, laivos de 1995, em que se entende que uma das irmãs morreu na guerra e a outra sobreviveu. Por esse motivo, prossegui a leitura com os meus sentimentos a oscilar ora para uma, ora para outra, e a tentar adivinhar qual delas teria mais chances de sobreviver e de percorrer o caminho que a levou à América, cinquenta anos depois.
Há também outra questão premente: houve uma infinidade de crianças a perder-se dos seus progenitores, a ficarem sem família de todo, a serem, por exemplo, acolhidos temporariamente em países como Portugal (recebemos Austríacos após a guerra), e houve muitas violações que terminaram em filhos que talvez, por vergonha das mães, tenham agora setenta anos e nunca venham a saber que foram criados por um pai que não era o deles, e que a biologia os liga à Alemanha e às criaturas que destruíram a dignidade da França durante essa guerra abominável.
Aconselho vivamente; este livro recordou-me de algo importante, porque ainda há poucos anos houve uma mãe finalmente reunida com o filho: a II Guerra ainda não acabou para toda a gente.

Classificação: 4****/* 

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

#170 GASKELL, Elizabeth, Norte e Sul


Opinião: Elizabeth Gaskell, amiga íntima de Charlotte Brontë (bem como de John Ruskin e de Florence Nightingale), viveu entre 1810 e 1865, e era filha de um jornalista. Depois de casada, acompanhou o marido em causas sociais, prestando educação e apoio a crianças desfavorecidas. É um pouco desta mulher que encontramos em “Norte e Sul”.
A primeira edição em Portugal dá-se cento e sessenta e dois anos depois da sua publicação em Inglaterra, e é a de Abril de 2016, sob a alçada da Relógio d’Água.
“Norte e Sul” é um romance sobre os contrastes da Inglaterra de meados do século XIX, na qual, como à imagem de todos os países da Europa, o Norte começa por se aventurar primeiro na maquinaria, com as consequências que daí advém. Margaret é filha de presbítero e da beldade do condado, Mary Hale (née Beresford), e cresceu em Helstone, no sul. Os pais ocupavam uma posição de destaque na modesta hierarquia social do burgo, sendo o seu pai o líder espiritual da comunidade. A mãe tratava das questões sociais, ajudando os pobres e aliviando o sofrimento dos enfermos com pequenos confortos. Ainda que a aristocracia esteja em franca decadência, as relações determinam a posição de uma família na sociedade, e por isso os Hale “dão-se ares”. A tia de Margaret, com quem esta passa o período que sucede a infância, fora esposa de um general e a filha, a irritante Edith, está prestes a desposar um capitão, irmão de um advogado. Vivem em Londres, e Margaret divide-se assim em três realidades: a simplicidade idílica de Helstone, a azáfama social de Londres, e mais tarde as convulsões grevistas de Milton. É no momento em que se mudam para Milton que a acção tem início, e louvo a autora pelo modo como conduziu a percepção das suas personagens a esta nova realidade.
O valor desta obra, publicada em 1854, é o de trazer à luz os primeiros confrontos sociais que se deram num país em mudança. Alguém aqui no GR descreveu “Norte e Sul” como “Orgulho e Preconceito para socialistas”, mas julgo que a autora não tomou uma posição tão vincada. Margaret fica profundamente tocada pelo novo retrato social que encontra. Enquanto em Helstone todos tinham o seu futuro definido, e ninguém se agitava ou ambicionava ser outra coisa, em Milton o ruído dos moinhos e dos teares anuncia prosperidade e riqueza, e todos desejam deitar a mão ao seu quinhão. A indústria não funciona sem operários, e Margaret cedo se torna próxima de alguns. Os Higgins exibem todas as marcas desse capitalismo pululante; a filha que trabalhou com algodão e que ficou de pulmões destruídos, o pai que pertence ao sindicato e que acredita que as suas exigências, por muito que também lhes causem dissabores, são a via para obter condições mais justas. Porém, aos operários falta a visão geral da realidade, a formação para compreender contratos, cálculos, e para gerir. Esse lado da moeda será exposto de modo soberbo por John Thornton, um dos industriais de Milton. Thornton cresceu por entre dificuldades, o seu orgulho não é tanto que o esconda, pelo contrário: regozija-se por ter chegado à posição prestigiada na qual se encontra. Isto choca os Hale, para quem o nascimento é tudo, e em simultâneo fascina-os, porque entendem a importância que homens como Thornton têm para as cidades do Norte. Como patrão, é visto como o anti-cristo pelos seus operários, e é no debate de circunstâncias que o livro ganha. Arrisco dizer que seria uma obra muito mais aclamada se tivesse sido escrita por um homem.
O discurso de Gaskell é humano, lúcido, ainda que as personagens, nos desaires da sua complexidade, sejam quase todas questionáveis. Margaret é altiva, resoluta, e retratada como uma vítima. Todos se apoiam nela, e ela suporta, como um bom cordeiro. A mãe é hipocondríaca e não faz um único comentário que se aproveite. Idem quanto à tia. Tanto pior quando chegamos à prima, Edith, ou à irmã de John Thornton, Fanny, que parecem um decalque uma da outra. Acredito que representem as jovens inglesas de 1850, que só conseguiam ocupar os pensamentos com o casamento, os vestidos e os bailes. Talvez a autora tenha captado de modo magistral a sua essência (exasperante). O pai de Margaret começa por ser um homem de princípios e fibra moral, capaz de tomar decisões, e vai-se tornando um mentecapto dependente do conselho de estranhos. Dixon, a criada da família, é outra criaturinha difícil de suportar. A sorte é que acabamos por ver as nossas impressões reflectidas no modo como estas pessoas afectam a protagonista.
A senhora Thornton, mãe do industrial, é um dos pilares do livro, ainda que seja uma mera personagem secundária. John Thornton é o eixo sólido, na minha opinião, porque todos os outros ao seu redor caem em incongruências e sofrem alterações de personalidade. É nele que reside a fibra e a firmeza de carácter que serve como espinha-dorsal a estas 450 páginas de dissabores.
Abundam lágrimas, contrariedades, perigos, eminência de morte, mortes em efectivo, amores desencontrados e mal-entendidos. Por isso não o considero um livro superior, fiquei com a impressão de que a autora poderia ter pegado nele e rasurado uma série de passagens. Mas o momento histórico está lá, os lados da trincheira também, e terminamos a leitura um conhecimento mais nivelado daquilo que é o percurso da nossa civilização. É também uma oportunidade para se entender as circunstâncias em que nasceu o socialismo, e testemunhar a inevitabilidade do seu florescer.
Esta é uma história de triunfos conquistados com enorme esforço, onde o pensamento racional é mais valorizado do que o preconceito, e o lado humano se sobrepõe ao respeito cego pela atividade económica.
Os leitores do século XXI irão sentir-se absorvidos, à medida que a trama deste romance vitoriano os transporta até às origens de problemas e possibilidades que ainda hoje, cento e cinquenta anos mais tarde, subsistem: a complexidade das relações, públicas ou privadas, entre homens e mulheres de diferentes classes sociais. 


Classificação: 4/5****

Sinopse: A ação de «Norte e Sul» decorre em meados do século XIX, narrando o percurso da protagonista desde o ambiente tranquilo mas decadente de uma Inglaterra sulista até um norte vigoroso mas turbulento. Neste romance, Elizabeth Gaskell fala-nos de um amor incomum, para mostrar o modo como a vida pessoal e pública se entrelaçavam numa sociedade recentemente industrializada. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

#169 QUINN, Julia, Aquele Beijo

Sinopse: Gareth St.Clair vive momentos difíceis. Após a morte do irmão, passa a ser o único herdeiro da fortuna do pai. Infelizmente, o ódio deste por Gareth é tanto que prefere desbaratar o seu património a vê-lo nas mãos do filho. Resta-lhe como legado um velho diário, escrito pela avó paterna, que poderá conter os segredos do seu passado e a chave para o seu futuro. O único problema é que… o diário foi escrito em italiano, uma língua que o jovem não domina de todo.
Por um golpe de sorte, Gareth conhece Hyacinth Bridgerton, a mais jovem menina do conhecido clã, que nunca recusa um desafio, embora o seu italiano deixe muito a desejar. Além disso, Gareth intriga-a, pois parece estar sempre a rir-se dela.
Juntos, embrenham-se nas páginas do velho diário, mas aquilo que vão descobrir transcende as palavras escritas em papel, e manifesta-se sob a forma de um simples - mas inesquecível - beijo… 
Opinião: Hyacinth é hilariante, e a relação dela com o Gregory é preciosa. É o que me recordo dela - divertida e aventureira, fica bem emparelhada com Gareth. Uma vez mais, o nosso herói tem problemas com o pai e anda a tentar desvendar o passado. O livro passou-me quase ao lado, não me recordo de nenhum momento específico do mesmo. Sei que me ri, mas foi ameno. Outros da série são bem melhores.

Classificação: 3***/**

#168 QUINN, Julia, A Caminho do Altar

Sinopse: Gregory Bridgerton procura a sua alma gémea. Acredita fervorosamente no amor verdadeiro, por isso não tem dúvidas de que saberá reconhecer a mulher da sua vida com facilidade. E, de facto, ao conhecer Hermione Watson, o jovem fica rendido. Mas, oh... que tragédia!, a estonteante Hermione está apaixonada por outro. É aí que entra Lucy Abernathy, a melhor amiga dela, sempre disposta a ajudar. Mesmo quando percebe que ela própria sucumbiu ao incurável romantismo de Gregory. Infelizmente, existe um outro “mas”... Pois Lucy está noiva, e tenciona colocar a honra acima dos seus sentimentos. Quanto a Gregory, no momento em que finalmente compreende que os desígnios do coração são mais intrincados do que pensava, já a sua amada vai a caminho do altar. Será que é demasiado tarde? "A Caminho do Altar" é o oitavo volume da deliciosa série protagonizada pela família Bridgerton.

Opinião: É um 3,5, mas não creio que chegue a 4. Penso que seja o encerrar da série Bridgerton, que me entreteu durante longas horas, ao longo de 8 livros com pelo menos 350 páginas cada. Gostaria de ter tido um vislumbre de toda a família junta, mas a autora não nos brindou com esse bombom. Não faz mal, teria sido tudo demasiado perfeito. Não deve ser fácil criar oito personagens principais masculinos e oito personagens principais femininos numa série em que os cenários e as circunstâncias pouco se alteram. Gabo-lhe isso. Porém, quando chegamos a Gregory e Lucinda, só restam os pequenos detalhes, porque as personalidades fortes já tinham todas desfilado nos outros volumes. Gregory é o quarto irmão Bridgerton (Anthony, Bennedict e Colin já encontraram a felicidade) e, dado o historial da família, está convicto de que encontrará o verdadeiro amor. Mas isso do amor é uma estrada tortuosa, e tantas vezes uma pessoa se engana a si própria porque não é capaz de ver fundo o suficiente dentro de si próprio...

Não é o pior livro da série (não me recordo do da Eloise e do da Hyacinth, pelo que considero que foram mais fracos), mas está longe das emoções proporcionadas pela Daphne e o Simon, a Penelope e o Colin, ou mesmo a Sophie e o Bennedict. Ainda assim, a escritora foi competente ao criar a intriga principal, o enredo foi denso q.b. Claro que tudo evolui à velocidade da luz - estes amores-relâmpago... Mas aqui entende-se que há um esforço para se criar a ideia de "amor construído". Ainda que só tenham passado quatro ou cinco dias desde que se conhecem...
Vou sentir falta desta família. Estes livros trazem-me alguma paz, porque dão sempre a ilusão de que os nossos sonhos se vão cumprir e que o final feliz esta aí para todos.


Classificação: 3,5***/**

#167 HEMINGWAY, Ernest, O Velho e o Mar

Sinopse: Conta a história de um velho pescador que luta com um gigante espadarte em alto mar por entre a Corrente do Golfo. Apesar de ter sido alvo de apreciações muito divergentes por parte da crítica, é uma obra que permanece uma referência entre os livros de Hemingway, tendo reafirmado a importância do autor em tempo de o qualificar para o Prémio Nobel de Literatura de 1954.

Opinião: "O Velho e o Mar" é o segundo livro de Hemingway que li. Após a leitura, o tempo contribui para assentar a percepção de um livro. No caso de "Na Outra Margem, por Entre as Árvores", a cada dia que passa desprezo mais a narrativa. Sobretudo o absurdo dos diálogos. Mas este é diferente. É quase todo um monólogo (de Santiago, o pescador, para consigo próprio) mas também um diálogo de gerações. Santiago foi, em tempos, um grande pescador. Mas há oitenta e quatro dias que não tem sorte de pescar nenhum peixe. Não pescar significa não comer, e é na vergonha da pobreza que Mandolin, o rapaz, lhe estende a mão. Tem fé que o velho volte a conseguir uma grande pescaria, ao contrário do próprio Santiago, que sofre momentos de descrença. A teoria está toda viva na sua mente, mas as mãos e o restante corpo não respondem como antigamente. A fortuna também não traz os peixes para o seu esquife, e é na desolação de se achar acabado que, ao sentir que um espadarte de seis metros lhe morde o isco, Santiago decide segui-lo até encontrar o momento ideal para o abater. Grande parte do livro está centrado no esforço que este admirador de DiMaggio faz para manter tão pequena embarcação estável enquanto o peixe se debate pela vida. O respeito do pescador pelo seu sustento é, talvez, o que mais alto me falou no livro, e também a absoluta necessidade de pescar para repor a sua fé na sorte e comida na mesa.

Um livro é realista, não há grandes reviravoltas e é uma obra pequena, mas profunda. Sendo Hemingway, o diálogo está lá e desta vez faz sentido. Houve alturas em que julguei que o dito know-how do pescador era peta, pois nada funcionava dentro daquele esquife. Como não há mulheres no livro, uma só que seja, ou uma menção ao sagrado feminino, Hemingway não pôde ser machista desta vez. Ou talvez resida aí o seu machismo: em tornar as mulheres em seres dispensáveis.
Deste livro julgo que me vou lembrar com carinho conforme o tempo for passando.
Por isso, Hemingway chega às 4 estrelas comigo.


Classificação: 4****/*