segunda-feira, 28 de maio de 2018

#190 Velho, Susana Amaro, As Últimas Linhas Destas Mãos

Sinopse: Depois da morte de Alice, a sua filha Teresa recebe uma herança que a deixa intrigada: um monte de cartas, algumas com tantos anos quanto ela, que contam uma história de amor que não sabe se é ou não real. Não conhece os lugares. Não reconhece as personagens. Não sabe, sequer, quem é a própria mãe e onde se encaixa naquele enredo.


Este amor em linhas vivido por Alice, de tão intenso, tão mordaz, tão vivo e tão presente vai abrindo espaços, alimen
tando dúvidas, resgatando culpas antigas e memórias apagadas.

Mas será ele suficiente para que Teresa possa, finalmente, perceber e perdoar a mãe? Poderão as últimas linhas de Alice ser mais fortes e enlaçar o que ela em vida não conseguiu prender?


Opinião: As Últimas Linhas Destas Mãos é o primeiro romance de Susana Amaro Velho, e conquistou-me desde as primeiras linhas. Apenas o baixei por causa da oferta da Coolbooks na semana passada, em que poderíamos baixar um e-book de modo gratuito. Não sendo fã do formato, ainda assim aproveitei para explorar um pouco o que anda a ser escrito em Portugal de momento, para além das intrigas políticas (e o Vaticano) e dos romances históricos que parecem em ebulição. Não posso negar, também, que o livro me recordou, de modo muito íntimo, o meu próprio O Funeral da Nossa Mãe. A premissa parece-me semelhante, e no entanto a abordagem é diferente. Limpa, clara, plena de vocabulário que enternece e embala. Contudo, a dor está lá: a de uma mulher e a de uma mãe ausente, que sofre, que ama, que segue morta em vida, apesar de constantemente reclamada pela maternidade que desertou.

Para mim, ler este livro foi regressar às páginas que escrevi há sete, oito anos. Ao sentimento de agonia constante que andava comigo pela rua. À atenta absorção de Big My Secret, da banda sonora de O Piano. Um amor enorme, que mata. E acrescentam-se aqui outros pormenores que me parecem quase íntimos, quase meus. A mãe que se retira do seu papel, e a irmã que o assume com mais ou menos dificuldade, por ex.

”Tentei que a vida seguisse normal sem ti, mas o abismo sugou-me primeiro as pernas, depois os braços, depois as mãos e até os dedos.”

O amor é uma coisa terrível. O amor que corrói porque não é correspondido, ou não floresce, ou não cura, é como um cancro.

Neste romance de estreia, a autora pegou nas perspectivas de várias personagens para elaborar um quadro familiar. Teresa destaca-se um pouco das restantes, porque parece ter sido, de todos os que têm voz, a que se recorda da outra face da mãe. A não-deprimida, a não-morta em vida. E porque a mãe parecia confiar nela, mais do que em qualquer outra pessoa, para confessar os motivos da sua amargura. Além de Teresa há o irmão mais novo, Henrique, o pai Sebastião, a tia Cristina e a solitária Alzira. Cada um com a sua personalidade marcada, o seu grau de conhecimento dos factos, o seu papel na história.

Alice, sempre ausente, excepto pelo seu próprio punho, é um vulto nítido, outrora luz, vivacidade, criatividade. De súbito caída em desgraça. A sua lucidez tem tanto de angustiante quanto de admirável, e a única conclusão possível é, de facto, a de que demasiado amor mata.

A narrativa é poética, multiplicam-se os substantivos; tinha saudades de um livro mais sobre o substantivo do que sobre o adjectivo. Reflectindo sobre isso, há pouquíssimos adjectivos no livro, o que só por si me transporta de quadro em quadro, de imagem em imagem, dando-me a oportunidade de catalogar cada borrão como bem entender. 

"Estava sentada no terraço a ler um livro e, de repente, todos os romances eram sobre ti. Todas as músicas do mundo eram sobre ti. Todas as histórias de amor o seriam. (...) Era viva, aí. Sumo de laranja natural. Torrada com mel. Livros. Fotografia. Jornalismo. Casa de campo. Mãe viúva. Guerra. Ultramar. Animais. Música. Pouco tempo. Muita vida (...)"

Um livro multidimensional, onde as personagens são palpáveis, os seus sentimentos extrapolam as páginas, os sentidos são estimulados pela mãe que cheira a arroz doce e a tia que cheira a cigarro, e o grande amor, que tem sinais nas costas, e Alice, que tem sardas no nariz. Magnificamente bem conseguido na simplicidade e coesão com que nos traz esta aflição, e com que retrata os tempos de luz e de esperança. Uma dicotomia cruel. Um retrato de família belo e inquietante, que transborda de emoção e que, sem dificuldades, nos leva à essência de cada personagem e de nós mesmos. Sobre a queda e sobre a superação. Uma escrita poética, que apetece sublinhar, tirar apontamentos. Dei por mim a repetir a mesma frase na cabeça, e a cada vez parecia-me mais bela, mais verdadeira. De uma modéstia desarmante. Isto sim, é a literatura a exacerbar a beleza de uma língua, com uns modos despretensiosos que lhe cai muito bem.

É um amor perpétuo, como a prisão. É como um crime passional, condenada que estou a viver com ele para sempre. Às vezes, o meu amor é hipocondríaco. Age como um doente terminal. Tem neuras, tem birras. Tem dores de barriga, de peito, de coração. É um amor tão grande que vive aqui dentro que, nos dias em que o diagrama me sobe ao pescoço, sinto um pânico de entrar em pânico. Fico na dualidade do que é gerir o amor e este tropel. Quanto mais mergulhamos no caos, mais amamos. Quanto mais intensos são os dias e as emoções, mais corremos o risco de nos estatelarmos de tão bambas que estão as pernas. O meu amor é assim. Confuso e perfeito aos meus olhos. Caminha em bicos de pés, por vezes. Noutras, corta-se em estilhaços de vidro.” 

Se procuram uma nova autora portuguesa com um talento ímpar, estejam atentos a esta.

Classificação: 5/5*****

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

#189 MILAN, Courtney, A Guerra da Duquesa

Sinopse: Miss Minerva Lane é calada e discreta, talvez até banal. Mas nem sempre foi assim. Da última vez que esteve no centro das atenções, a sua reputação ficou irremediavelmente manchada. Daí o novo nome e a nova identidade, duas máscaras que terá de ostentar para sempre. E, quando, numa festa, se esconde atrás do sofá da biblioteca, quer tudo menos dar de caras com... um magnífico duque!

Mas lá está ele, escondido atrás das cortinas...
Robert Blaisdell, duque de Clermont, também sente necessidade de se esconder. Embora batalhe diariamente para corrigir os erros do seu abominável pai, as comparações com ele são inevitáveis... Pode não o mostrar, mas vive consumido pela frustração e a culpa. Não tem paciência para jogos de sedução. Mas partilhar um esconderijo com Minnie é inesperadamente excitante. Por baixo da aparência apagada, o olhar da jovem é indomável... e se há algo a que Robert não resiste é um bom enigma.
Juntos, vão enfrentar os seus medos, aprender a perdoar e ultrapassar as suas limitações. E perceber que, acima de tudo, precisam de amor nas suas vidas...
Gostei do livro porque é inteligente e franco, não há grandes mal-entendidos porque há boa comunicação entre os dois protagonistas e as restantes personagens do seu universo. Há muita honestidade nos diálogos e um bom retrato psicológico de ambos. Gostei também do modo como é evidente que foram feitos um para o outro, sendo que apenas Robert poderia aceitar a bagagem de Minnie, e apenas ela poderia afastá-lo da insegurança e do receio de se tornar no seu antigo e execrável pai.
Estarei atenta a outros títulos da autora, pois foi a primeira vez que li Courtney Milan, e este género de livro lê-se bem numa tarde de domingo, ainda que sonolenta.

Opinião: Não tenho conseguido ler. Li “A Guerra da Duquesa” na diagonal, porque é um livro que trazia por casa há meses. Não me recordava do que tenha lido, à exceção de que a personagem principal não é bonita. Isso é novo, neste género de livro, em que a heroína é sempre cobiçada pelo herói por ser linda, loira e de peito abundante. Neste romance, Minnie e Robert conhecem-se numa situação fora do comum, em que de imediato ambos subentendem que o outro não aparenta ser aquilo que é. O fascínio é mútuo e imediato, mas também jogam com a cautela, a timidez e a inteligência de ambos. Tornam-se um desafio, um enigma para o outro. Sobretudo o Duque de Clermont, um romântico incurável diferente de tantas outras personagens na mesma posição, torna-se incapaz de tirar Minnie da cabeça. O romance prima pela abordagem diferente ao género, em que o herói não é um mulherengo, e a heroína não se pode valer da beleza para ascender, mas apenas e só do seu intelecto.

Classificação: 4****/*

#188 ROBERTS, Nora, Caminhos do Amor

Sinopse: Iona Sheehan sempre ansiou por devoção e aceitação dos pais, mas foi só na terra da avó que recebeu os dois: Irlanda, país de florestas exuberantes, lagos deslumbrantes e lendas centenárias, onde o sangue e a magia dos antepassados fluem há gerações. Iona chega à Irlanda apenas com as indicações da avó, uma atitude otimista perante a vida e um talento inato com cavalos. Perto do castelo luxuoso onde está hospedada, encontra os seus primos, Branna e Connor O’Dwyer. E como família é família, eles convidam-na para a sua casa e para as suas vidas. 

Quando Iona arranja emprego nos estábulos locais e conhece o dono, Boyle McGrath, todas as suas fantasias se reúnem num só homem. Será que com ele vai conseguir viver a vida com que sempre sonhou? Infelizmente nada é o que parece. Um mal antigo espalhou-se na sua família e tem de ser combatido. E quando família e amigos lutam entre si, será possível encontrar os caminhos do amor? 

Opinião: A REVIEW CONTÉM ALGUNS SPOILERS 

Li o meu primeiro livro da Nora Roberts em 2011. Comprei-o num quiosque à saída da estação do Cais do Sodré, numa altura em que ia lá todos os dias ver as novidades a preços simpáticos. Herança de Vergonha era o terceiro volume de uma trilogia passada na Irlanda, e comprei-o precisamente porque a Irlanda era o meu sonho de terra-prometida. No ano seguinte, em Novembro, haveria de pisá-la pela primeira vez, e, a cada nova aterragem em Dublin, entendo que este modo de retratar o Éire é muito estereotipado. 

Nora Roberts é norte-americana, de ascendência irlandesa, e isso fica muito evidente nos enredos que ela revisita a cada novo livro: o sangue irlandês está muito diluído em Coca-cola. Gostei dessa trilogia da Herança, que explorava o reencontro de três irmãs, sendo Maggie a irascível, Shannon a sonhadora e Brianna a tímida que cozinhava para todos. Depois embrenhei-me noutra trilogia; a das flores (dália isto, rosa aquilo, lírio acolá), e entendi que a fórmula era a mesma. Na realidade, a N.R. pega num número limitado de ingredientes, sacode bem e volta a deitar as cartas. Este livro não é exceção, e recordou-me porque é que deixei de gastar dinheiro e tempo com os seus livros. Sem falar no quão aborrecido e repetitivo o livro se torna. Aí a partir da página 250 fui lendo apenas para chegar ao fim, porque o livro é leve sem doer, mas as páginas sucedem-se sem emoção. Talvez com alguma expectativa do final, também um tanto gorada pela superficialidade do confronto final.

Esta trilogia explora três casais, que ficam muito claros à partida: Iona e Boyle, Meara e Connor, Branna e Finn. O pano de fundo é uma feiticeiro feroz que os persegue através dos séculos, porque, por algum motivo que N.R. não se dá ao trabalho de explicar, tomou-os de ponta. Três deles são descendentes da Bruxa das Trevas (soa a conto para crianças), e têm-se debatido, de geração em geração, para aniquilar Cabhan. 
Problemas evidentes: não há uma contextualização. Há uma bruxa, há um feiticeiro que a deseja e a amaldiçoa, há a passagem do testemunho às gerações vindouras, mas não se entende de onde nasceu esta inimizade, porque é que os O’Dwyer possuem esse dom e outros não. Porque é que o vilão apenas protagoniza uma ameaça contra os “nossos heróis”, e não contra toda a comunidade? Enfim, parece-me infantil e atabalhoado, e não chego a sentir medo genuíno ao ler (como sinto do Voldemort ou de Mordor), nem o arrepiar da descoberta de um mundo mágico, que era o que me mantinha pregada a cada página do Harry Potter. Mesmo as cenas de acção parecem muito cinematografadas. Não vejo aqui nenhuma originalidade, apenas um reciclar de ideias gerais que, quiçá, já povoem outros livros seus, mas decerto já povoam o imaginário de quem vive, nesta era, o revivalismo do fantástico e da feitiçaria na literatura.

Mas eu não comprei este livro por causa da bruxa, comprei-o por causa do cenário irlandês e pela promessa de romance light e, neste campo, encontro os mesmos homens sedentos de música, de porrada e de álcool de todos os livros da Nora. 

Encontro as mesmas mulheres de barriga no fogão, a preparar petiscos que toda a família admira, porque mais ninguém sabe cozinhar à sua altura. E encontro os mesmos homens ditos rudes, que depois acendem velas quando fazem amor, lhes oferecem flores (mais ou menos voluntariamente), e lhes abrem a porta do carro. São retratos muito superficiais de histórias perfeitas, com o final feliz a cumprir-se sem excepção. Neste livro houve até o absurdo de um conflito forçado, o típico truque de se ouvir algo a meio, que não se entende mas do qual se tira conclusões precipitadas, e a separação que se segue. 

Enfim, foi uma leitura leve que não aqueceu nem arrefeceu. A Iona e o Boyle hão-de esfumar-se da minha cabeça em pouco tempo. Fiquei, contudo, cheia de curiosidade de ler o livro da Meara e da Branna. Em parte porque sou um bocado masoquista, em parte porque estas personagens foram tão meh que as outras têm (não têm?) de ser melhores.
Vamos lá prosseguir para mais duas desilusões só porque, por esta altura, já não consigo evitar o acidente de comboio.

Classificação: 2,5/5*****

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

#187 SOARES, Carla M., Limões na Madrugada

Opinião: Limões na Madrugada é uma incursão da Carla M. Soares num estilo que (julgo) lhe é novo. Digo julgo porque ainda não li A Chama ao Vento. Em termos de construção, parece-me um romance mais simples do que os anteriores. Em termos emotivos, porém, é bem mais pesado.A história é intemporal, o estilo narrativo é introspetivo, as viagens e descrições são interessantes. O enredo centra-se em Adriana, que vem da Argentina (contrariada) para receber uma herança da família (que recebe contrariada). Adorei o retrato do Porto atual, do Porto invadido de turistas e fulgurante, que tem encantado toda a gente pelo globo fora. Gostei de passear pelas suas ruas, e de visitar este seu casarão, que me pareceu tão palpável. Também apreciei a história (um tanto obscura) desta família, as muitas nuances da personalidade de cada um, o preto e o branco num cinzento muito humano. Gostei ainda mais da vida pessoal da personagem principal, tão fora da caixa, uma lufada de ar fresco na literatura. 
No entanto, senti que a dado momento fiquei encurralada nas mesmas dúvidas da personagem principal, e que a sua contrariedade me causava exasperação. Lamentei a sua falta de curiosidade pelo passado da própria família – ou a falta de coragem para explorá-lo. Também senti que a personagem que a acompanha no Porto, à descoberta, é uma espécie de grilo falante, para que a Adriana possa expressar-se e trocar ideias com alguém, mas não o senti muito vívido, nem muito intenso na narrativa. Também os frames do passado eram por vezes pouco nítidos, narrados por vozes externas ou pela imaginação da Adriana, ou seja: não há um mergulho nessas vidas, há apenas um aflorar das águas, um espelho a mostrar acontecimentos de há trinta anos, mas nunca ouvimos aquelas vozes nem sentimos o pulsar daquelas vidas. É normal, uma vez que é um livro na primeira pessoa. Porém, sinto que essa escolha da autora conteve a empatia que poderia vir a sentir pelos Branco.Considerei muito interessante a premissa que retirei do livro: a de que somos um passado tantas vezes desconhecido, tantas vezes nebuloso, e que evitamos as perguntas e os caminhos que o deixam a descoberto.Continuarei a ler a Carla, quiçá de volta ao estilo a que nos habitou, ou a acompanhá-la nestas incursões por novos modos de contar estórias.Num jogo magistralmente imaginado pela autora, entre a vida atual de Adriana e os ecos do Portugal antigo, machista e violento dos seus pais e avós, esta história, de uma família e dois continentes, é uma viagem entre o presente e o passado, uma ponte sobre o fosso cultural que separa as gerações, um tratado sobre tudo aquilo que a família pode fazer à vida de um só indivíduo.Entre a sombra e a luz, deixando que por vezes os silêncios falem mais alto do que as palavras, Limões na Madrugada é um romance sobre o amor incomum, o poder da família e a necessidade da coragem. Classificação: 3,5/5

Sinopse: Ansiosa por regressar à Argentina, mas presa a Portugal, distante do homem que ama e da mulher com quem vive, Adriana está perante um dilema universal e intemporal: manter-se comodamente na ignorância ou desvendar o passado da família, como se de um caso policial se tratasse, enfrentando assim aquilo de que andou a fugir toda a vida, por mais doloroso que seja.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

#186 MCNAUGHT, Judith, Whitney, Meu Amor

Sinopse: Whitney Stone é uma jovem de personalidade forte. Algo que o pai, um homem frio e calculista, não tolera. Decidido a acabar de uma vez por todas com a paixão que a filha nutre pelo vizinho Paul, envia-a para Paris. Sob os cuidados e carinho dos tios, a trapalhona e reguila Whitney transforma-se numa mulher lindíssima. A sua sensualidade e carisma conquistam a sociedade parisiense e captam a atenção do poderoso Duque de Claymore. Mas o coração de Whitney há muito que está tomado por Paul. Essa é, pelo menos, a convicção da jovem. Até ao dia em que dá por si a sentir-se tentada pelo duque - uma atração que a delicia e perturba, pois é a primeira vez que percebe que o seu coração tem uma vontade muito própria. Já o duque não tem qualquer dúvida. Ele deseja Whitney. E planeia tê-la, não obstante o crescente número de obstáculos, que incluem o "pormenor" de ela estar apaixonada por outro homem, a apreensão da tia e os planos do pai ganancioso, que, para se salvar da ruína, faz um acordo secreto. A moeda de troca? A sua filha…

Opinião: Este livro mexeu comigo. Não me surpreendi ao descobrir que não me lembrava de uma linha do livro a cada página que ia lendo (e são muitas). Mas iniciei a leitura sabendo que o lera uma vez, teria uns 17 ou 18 anos, em Inglês ou em PT-BR, e que tinha AMADO o livro. Foi a porta aberta para que começasse a ler estes romances cor-de-rosa de época, dos quais devo salientar que as minhas escritoras favoritas continuam a ser, sem sombra de dúvida dentro do género, a Sherry Thomas e a Julia Quinn. 

Desta vez, simplesmente, abominei cada página. Será embirrância? Será que perdi a inocência e a ingenuidade que me permitiram viver o livro quando era mais jovem? Estou mais inclinada para pensar que cresci e que a minha percepção de amor se alterou. O que encontrei nestas 630 páginas é uma versão travestida do que, para mim, é o amor.

O romance é o primeiro da Judith McNaught, como a própria salientou na nota final, e estimulou-a a iniciar a sua prolífera carreira na escrita. Ganhou prémios (não me dei ao trabalho de investigar quais), e com certeza deve ter gerado uma mina de dinheiro, porque tantos do mesmo género lhe sucederam (dela e de outras autoras)...
Escrito em 1978, apenas publicado em 1985, tornou-se um best-seller instantâneo, e até entendo porquê: é um Fifty Shades of Grey versão século XIX em rendas e folhos. Talvez, neste ponto, me deva perguntar o que atrai tanto as mulheres em livros onde a personagem masculina é doentiamente possessiva e ciumenta? Deixaremos a reflexão para daqui a pouco. 

Resumo simples do livro (sem *muitos* spoilers): 
Nas primeiras 300 páginas do livro, o duque conhece a jovem mais linda, maravilhosa, sensual, inocente, esbelta, alta, voluptuosa, espirituosa e inteligente da festa, com o nome mais estranho de sempre. A jovem põem-no a rir e insulta o seu título, duvidando que seja de facto um duque. Isso acende qualquer coisa nele, e decide ir para casa e passar um cheque ao pai dela para a "comprar". A partir daí, toma a sensata decisão de tentar que se conheçam melhor antes que ela saiba que estão noivos. Se o livro terminasse na página 300, depois desses passeios a cavalo, dessas risadas juntos, talvez tivesse merecido pelo menos quatro estrelas. Ainda assim, a impetuosidade "especial" que a autora tentou imprimir à personagem feminina principal é exasperante, mas a racionalidade do duque equilibrava as coisas, funcionava como o juízo do leitor e as coisas harmonizavam-se. Mas o problema é que o livro continuou e, a partir do momento em que Whitney descobre o acordo entre o duque e o seu pai, o livro torna-se aquilo que gosto de apelidar de uma "fantochada" onde imperam os mal-entendidos. Ora eu valorizo uma boa comunicação acima de tudo, e nem por sombras algo do género poderia suceder na minha vida. Por isso, começo logo por considerar as personagens principais muito inaptas para um relacionamento sério, e a coisa descamba para mim.

Preparem-se, porque abaixo vou embirrar com tudo, mas mesmo com tudo.

Vamos por pontos:
1) A personagem principal feminina;
2) A personagem principal masculina;
3) O vocabulário/a tradução;
4) A bajulação às duas personagens principais por parte de todas as outras;
5) O rumo dos acontecimentos a partir da página 300;
6) Mal-entendidos;
7) Conteúdo histórico;
8) O comprimento do livro.

Whitney Stone é uma beldade inglesa destrambelhada. Não me ocorre outra palavra, a escritora queria que assim fosse. E aqui iniciamos o ponto 1). «Whitney», não consigo imaginar este nome no século XIX excepto, talvez, num armazém de madeiras de Nova Iorque, tipo "Whitney&Cº". Um pouco como Jennifer Merrick do outro livro da série Um Reino de Sonho, são nomes que dificilmente existiam na época. Esta insistência em escolher um nome que distinga a personagem das restantes, não a torna especial. Torna-a irreal, e isso, somado ao traço tresloucada, que é comum a ambas, torna-as bonecos animados, mas muito bonitos, a fazer piruetas e macacadas de página para página. Depois a autora cobre-as do elogio "espirituosas", ou "corajosas", ou "orgulhosas", ou "teimosas", como se fossem sinónimo de firmeza de carácter. 


As coisas que estas personagens vão fazendo são irrealistas e impensáveis na época e, ainda que alguém pensasse assim tão "fora da caixa", a reacção da sociedade nunca seria tão complacente só porque possuem uma beleza etérea e são maravilhosas e encantadoras até à exaustão, como a narrativa não se cansa de repetir. Falta realismo, uma grande dose de realismo em coisas simples quando a construção das personagens principais.

Por falar em personagens principais, chegamos ao ponto 2). Os duques, condes, viscondes, marqueses, etc., por quem estas mulheres se apaixonam, são sempre o homem mais alto do baile, com os ombros mais largos, uma riqueza obscena e uma inteligência que arruma para o lado a de todos os outros. A sociedade inglesa do século XIX seria assim tão desprovida de pessoas sensatas? É por isso que gosto do gago da Julia Quinn, ou do seu visconde falido. Neste livro, a loucura da personagem masculina vai além de todos os outros. Primeiro é obcecado pela mocinha principal, sem que jamais se entenda o porquê (além de lhe admirar, até ao enjoo, a beleza etérea, dos maravilhosos olhos verdes, das esbeltas curvas, dos fartos seios, do lustroso cabelo castanho-avermelhado, da altivez e do queixo erguido em desafio), depois vai por caminhos tortuosos para chegar ao que quer. Se bem que meter-se por caminhos tortuosos é algo típico de todas as personagens deste livro. Se alguém quer algo, nunca diz "Serves-me um pouco de chá?"; é mais provável que finja a própria morte para que alguém lhe traga uma chávena. Depois o seu passado nunca foi bem explicado. Isto é, tudo leva a crer que tenha tido um passado tranquilo e um lar pleno de amor e protecção, além do evidente conforto financeiro. Mas, ainda assim, é inseguro e desconfiado, traços que a autora nunca se dá ao trabalho de explicar do ponto de vista psicológico. Sofreu algum abuso? Foi abandonado? Foi roubado? O pai fugiu de casa? Que raio se passa com a criatura para assumir que é vítima de conspirações a todo o instante?


Em português, todas as festas, jóias, mansões, sorrisos, etc., eram exageradamente descritos. O ponto 3) ia-me pondo louca. Não se escreve "Moveu as pernas", mas sempre "Moveu as longas/esbeltas/suaves pernas". Nunca há um "Passou um casaco nos ombros", mas sempre "ombros largos", "maravilhosos/esplêndidos olhos verdes", "intrigantes olhos cinzentos", "longos dedos", "ancas estreitas", "seios sumptuosos", "esplêndida refeição", "sorriso encantador", etc. Já não podia com tanta adjectivação, senti-me prestes a gritar perante a repetição da cor do cabelo/olhos dela, dos musculosos ombros/pernas/peito dele, etc. Que frete!

Tudo isto explica porque o ponto 4) também surge: toda a gente se pela de medo pelo duque e se verga de admiração pela duquesa. O duque é magnânimo, autoritário, arrogante, rico, inteligente, escandalosamente atraente e jovem, e ela é também jovem, inocente, pueril, divertida, espirituosa, inteligente (fala grego, italiano, alemão, inglês e francês, e com apenas 20 anos!), e são ambos excelentes cavaleiros. Como são abençoados, e toda a gente o relembra a cada duas páginas!, por entre pedidos de casamento e suspiros de admiração.


Já ia mais ou menos chateada com tanto surrealismo cómico que, quando chega o momento da revelação da identidade do vizinho, Mr. Westland (ponto 2), tudo descamba. A personagem feminina, tão cheia de fibra, começa a emburrecer gravemente. Ele perde a razão e torna-se um bruto (ponto 2). Descobrimos que estes dois seres tão inteligentes e iluminados não conseguem ter uma conversa sem tirarem N conclusões diferentes, que depois os levam a agir da maneira mais absurda imaginável. Os conflitos são-nos atirados para o colo um atrás do outro. Perdoam-se, fazem as pazes, para depois desconfiarem de novo e estarem outras tantas páginas a carpir-se enquanto os outros os lembram que são maravilhosos e encantadores e lhes garantem que o outro os ama.


Já disse que os mal-entendidos (ponto 6) me tiram do sério? Uma boa comunicação não será o que distingue duas pessoas feitas uma para a outra de dois tolos iletrados na arte de socializar?

Em termos de enquadramento histórico, só sabemos que é Inglaterra porque a autora o menciona, o ponto 7) é em tudo deficitário para uma amante dos factos como eu. Não digo que não houvesse nenhuma pesquisa, mas acho que foi mais ao nível dos cordões entrelaçados no cabelo que a duquesa usava. Além de que, a dada altura, se fala de "retratos", mais para o final do livro. Se estivesse no pós-guerra napoleónica e antes da Guerra da Crimeia, dificilmente haveria fotografia, e certamente não das gerações anteriores. Tudo se resume a carruagens, títulos e bailes. Não se fala de nada de específico, até a igreja onde se dá o tão esperado casamento é apenas "a igreja". É vago e o romance sofre com isso - para além de agonizar com todo o resto!

Por fim, o livro nunca mais acabava (ponto 8). Um horror. Quando pensávamos que tudo tinha terminado, recomeça de novo. O ciclo torna-se de tal modo insuportável que, à luz da sabedoria dos meus quase vinte e oito anos, estou certa de ter tirado o perfil psicológico destes dois. Ele vai sempre agredi-la, e ela está confortável na posição de vítima carpideira. Seria assim a vida toda.


Classificação: 2,5**/***

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

#185 DONOGHUE, Emma, O Prodígio


Sinopse: A jovem Anna recusa-se a comer e, apesar disso, sobrevive mês após mês, aparentemente sem graves consequências físicas. Um milagre, dizem.

Mas quando Lib, uma jovem e cética enfermeira, é contratada para vigiar a menina noite e dia, os acontecimentos seguem um diferente rumo: Anna começa a definhar perante a passividade de todos e a impotência de Lib. E assim se adensa o mistério à volta daquela pobre família de agricultores que parece envolta num cenário de mentiras, promessas e segredos.
Prisioneira da linguagem da fé, será Anna, afinal, vítima daqueles que mais ama?
Um drama intenso sobre os perversos caminhos do fundamentalismo, mas também sobre como o amor pode vencer o mal nas suas mais diversas formas
.
Opinião: Na segunda metade do séc. XIX, Elizabeth Wright é uma enfermeira de uma nova estirpe. Treinada por Florence Nightingale e com uma vasta experiência que incluí assistência na Guerra da Crimeia, Lib é destacada para uma missão envolta em secretismo e leva muito a sério a sua incumbência. Embarca para uma Irlanda que recupera da Grande Fome, para se apresentar perante um comité que lhe pede uma tarefa aparentemente simples: vigiar uma jovem de onze anos que, ao que parece, não ingere nenhum alimento desde há quatro meses.
A apaixonante Irlanda vem assim retratada pelos olhos de uma inglesa, e, portanto, como um recanto retrógrado, supersticioso e ignorante, no qual imperam fantasias sobre fadas, santos de trazer por casa e fitinhas com dores expiadas nos ramos das urzes. Para Lib, a Irlanda subsiste como um último reduto da Era Medieval na Europa, e é com essa certeza que se convence de que, num piscar de olhos, será capaz de desmascarar os intervenientes da farsa em curso.
Foi uma leitura muito agradável, sobretudo porque três personagens se destacam do mar um tanto ou quanto monótono das restantes: Lib, Anna (a criança que recusa alimento) e William Byrne, um jornalista católico dividido entre o sensacionalismo que a imprensa procura e a curiosidade crescente quanto ao caso. A inteligência destes três, combinada com o retrato de época da Irlanda mística e profundamente católica do século XIX, fazem valer cada página do romance. A acção desenrola-se num ritmo um pouco lento, bastante descritivo, mas é daqueles livros que, sorvido aos poucos, nos leva a grandes reflexões.
É que Anna O’Donnell é uma menina encantadora, apesar de cegamente devota, e não são claros os motivos que a levam a abandonar-se daquele modo à religião. A função de Lib é a de entender se Anna realmente sobrevive sem alimento, para êxtase dos fanáticos religiosos que rodeiam a criança, ou se alguém a tem alimentado em secretismo para lucrar com a circunstância. Nas longas horas que passa a observar a menina, várias teorias vão-se formando, e a ligação das duas vai-se adensando, até que Lib, a tão profissional enfermeira de Miss N., começa a perder o auto-controlo e ameaça destruir a sua reputação de obediente e metódica, quando o desejo incontrolável de interferir a assalta a todos os instantes.
É uma narrativa de humanidade, que mexe com o que é sagrado em nós e com o tema muito actual da tolerância religiosa, e dos limites do indivíduo perante a máquina maior.

Classificação: 4,5****/*

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

#184 SOARES, Carla M., O Ano da Dançarina

Sinopse: No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política. 



No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista. 
Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas. Este é um romance de grande fôlego, histórico, empolgante e profundo, sobre a superação pessoal e uma saga familiar num tempo de grande mudança e turbulência em Portugal.

Opinião: O Ano da Dançarina é o terceiro livro que leio da Carla M. Soares (imperdoável nunca ter lido o Chama ao Vento), e reafirma uma vez mais a minha teoria de que se cresce a cada livro.
Neste romance encontrei um retrato fiel de época, um enredo equilibrado, um livro polido, uma história cativante. Conforme o título sugere, acompanhamos um ano específico na história do nosso país – 1918 – com todas as tropelias que o pautaram. 
Para contextualizar a época: em 1918 celebrava-se o primeiro ano após as Aparições de Fátima. Não havia santuário, não havia reconhecimento do Vaticano, não havia capelinha, e os três pastorinhos ainda estavam vivos e no pastoreio. Nesse ano deu-se um golpe de estado e Sidónio Pais torna-se presidente da recente República Portuguesa, enquanto a nobreza se retorcia ainda de desencanto para com a perda dos títulos nobiliárquicos, os republicanos andam de candeias às avessas e os políticos atropelam-se pelo controlo do futuro da nação. A somar a isto (já de si bastante, contabilizando os ataques dos anarquistas ao parlamento), o Corpo Expedicionário Português perdia a vida em vão nas trincheiras francesas, e ainda surge uma doença indecifrável, um vírus desconhecido que se pensa, hoje, ser uma variante do H1N1, uma mistura de gripe das aves e gripe suína, que se estima que tenha dizimado algo como, pelo menos, 50 milhões de vidas humanas entre os anos de 1918 e 1920 (a Segunda Guerra terá resultado em 70 milhões de mortos, e foi o momento mais negro da História da humanidade, pelo que a gripe foi quase, se não tão, letal quanto isso). 
O palco do romance é a residência dos Lopes Moreira, uma família burguesa de cinco irmãos sob a alçada dócil da mãe, viúva, num mundo em constante mudança. Nicolau, Bernarda, César, Eunice, Pedro e Guilhermina vivem um ano inesquecível pelos piores e pelos melhores motivos. 
É sobretudo a partir das vivências de Nicolau, médico-tenente, que atravessamos esse ano. Nicolau e os traumas de guerra. Nicolau e a impotência perante a epidemia. Nicolau e o papel das mulheres, a vida noturna, as doenças, a imundície de um povo sem meios e analfabeto. Gostei muito dessa personagem, bem como do seu irmão, César, que reúne uma energia muito jovem e positiva, e que foi a minha personagem favorita. Também gostei de ver os sobressaltos de uma sociedade misógina e patriarcal, que olha com estranheza o desejo de emancipação do género feminino, e que se alimenta de intrigas e jogos políticos. 
Houve partes em que se exaltava a pátria – um pouco do nosso Portugal foi forjado nessa época -, e em que me senti arrepiada, porque o retrato era tão nítido que imaginava a silhueta austera do republicano elegante, de bengala, de barbas aprumadas, de chapéu, a consagrar a sua vida e a sua liberdade ao ideal que tinha para Portugal. Diria até que se tece uma exaltação à República, quiçá involuntária, porque mostra os solavancos a que muitos foram submetidos para que outros pudessem gozar de valores maiores – o sufrágio, o direito à greve, à liberdade de imprensa e de expressão. 
E a espanhola, ou pneumónica, ou influenza, ou , um horror que se infiltrou tanto em casas de ricos como de pobres, de sidonistas e seus opositores, tão familiar que lhe deram vários nomes, e que ceifou tantas vidas em três fôlegos, dois dos quais arrasadores e vividos nesse ano de 1918... É um retrato macabro da doença, da desinformação, da impotência do ser humano mais esclarecido perante as limitações do seu tempo e do chamado progresso. O Homem vergado à natureza e suas impiedades.
Louvo a meticulosidade da pesquisa, do trabalho realizado com equilíbrio e método, e do racionalismo que, apesar da época conturbada, conduz todas as páginas. Também existem passagens de evidente emotividade, que servem para recordar que os carácteres se moldam nos momentos de maiores dificuldades, ainda que a esperança oscile a cada reviravolta dos elementos.
Um livro que recomendo pelo excelente cuidado com a época, um ano até agora um tanto ignorado no panorama literário (à exceção do Mataram o Sidónio! do Moita Flores, que, pela sinopse, se assume mais político do que social). Adoro leituras que me obrigam a pausas para fazer pesquisas no google, e que me deixam com o travo agridoce do muito que aprendi e do mais que ainda tenho de aprender a respeito de um assunto que me parece agora do maior interesse.
Um livro que apelou à nacionalista que há em mim, e que apenas não me arrancou aquela quinta estrela porque, como romântica incurável, ansiava por um "Romeu e Julieta" num livro onde a Pátria, ferida, é o motivo de todos os sacrifícios.

Classificação: 4****/*