quinta-feira, 20 de junho de 2019

#223 MAGALHÃES, Helena, Raparigas como Nós

Opinião: 

"Há dois tipos de amor: aquele que serve de comparação e ao qual comparamos todas as pessoas que vamos conhecendo ao longo da vida (era o que eu fazia, comparava todas as paixonetas ao Simão) e um outro tipo de amor que tive - e tenho - com o Afonso: aquele que acaba com todas as comparações porque tudo o que vivemos até então deixa de ter relevância."

Devo começar por referir que não costumo ler YA, e que, como alguns de vocês já devem ter reparado, ando a dedicar os últimos anos à leitura de clássicos ou algo equivalente a isso. A minha review fica então em parte condicionada por me sentir desligada de muitos destes dilemas dos jovens retratados em Raparigas como Nós. Ainda assim, e sobretudo na segunda parte (chamo assim a parte em que a protagonista, Isabel, parece remeter o leitor para o seu diário de quando tinha 14 anos), comecei a sentir que regressava a essa época, e que a premissa do livro talvez esteja bastante correta. A de que estamos cada um com a sua individualidade, mas numa maré de gente não tão diferente assim.


Comecei a leitura com bastante receio, porque realmente não é a minha praia. Mas a Helena é uma querida, e as reviewstêm sido tão boas que a curiosidade venceu-me. Entrei na leitura a medo, e não consegui sentir-me muito ligada aos acontecimentos até surgir a tal "segunda parte", quando a protagonista reencontra uma personagem de (apenas) três anos antes, e me recordei de como, até aí aos 20 anos, havia mundos entre os 15 e os 17, e entre os 17 e os 20, e agora é que é tudo igual, o ter-se 24 ou 25. Já não sei distinguir com que idade aconteceu o quê, porque já não há a escola a balizá-lo.


Perante um livro destes, que aborda uma adolescência semelhante à minha, é inevitável refletirmos sobre as nossas próximas vivências. Foi esse o curioso efeito da segunda parte, efeito esse que só se dissolveu no final. Coisas com que me identifiquei, e que trouxeram a nostalgia dessa década tão delicada:
- O aparelho nos dentes e o bafo metálico;
- Os miúdos a serem cruéis só porque sim, porque parece que temos de nos debater com um mar de gente para alcançar o respeito e o nosso lugar no mundo dos adultos;
- as miúdas giras a darem-se ares;
- o sentir-me à parte, ou que nunca seria parte dos cool, que no fundo eram os que já tinham tirado o aparelho ou tinham dentes naturalmente direitos, os que tinham roupa de marca, os cujos pais os deixavam de carro à porta da escola, ou os que tinham mais dinheiro para o lanche, os que viajavam para longe da cidade, ou mesmo do país, nas férias, os que tinham namorados/namoradas, os que não liam (isso parecia-me "normal"), os que bebiam cerveja à porta da escola, ou que fumavam atrás do pavilhão, etc. (na altura, tudo servia para que a cadeia alimentar sugerisse que uns estavam acima dos outros);
- o crush avassalador para cima de quem a melhor amiga nos empurrava, e que todos sabiam que era a nossa grande paixão, os papelinhos, as cartas de amor, o recortar das fotografias de turma, o discman e as primeiras bandas/artistas que me disseram algo - estávamos em 2001/2002 e era Eminem, Dido, Pink, Linkin Park, Incubus -;
- O ser super preocupada quanto ao meu próprio corpo, bem como a guerra aberta a pelos e ocasionais borbulhas;
- O julgar que os amigos de então seriam os amigos de sempre, ou que o amor de então seria o amor de sempre, porque o tempo passava tããããããão devagar.
Isto é o que mais me marcou no romance da Helena, que ela geriu como uma boa romancista, soltando pontas aqui e unindo-as ali, ao longo de c. 420 páginas em que dei por mim a recordar todos esses rostos, a minha "Marisa das Argolas", a minha "Alice", o meu "Simão", o "Zeca" e os outros todos. Acho que só isto é digno de parabéns, porque, quer nos identifiquemos mais ou menos com um romance, lhe encontremos mais ou menos defeitos de conteúdo, de interesses, etc., NÃO É FÁCIL ESCREVER UM ROMANCE e, digam o que disserem, nem TODA A GENTE CONSEGUE ESCREVER UM ROMANCE, muito menos os que surgem nos tops com nomes inventados por miúdas do secundário. Permitam-me dizer que há autores cujo nome começa por P., termina em F. e o nome do meio começa por C., que nunca escreveram um romance (daquilo que entendo da sua vastíssima obra), e até podem chamar "romance" a textos soltos em que a personagem principal tem o mesmo nome, ou algo do género, mas nós sabemos, cá entre nós, o que é um romance. Um romance é corte e costura, desenvolvimento de personagens, pontas soltas, mudanças, twists, dilemas morais, denúncia social, qualquer coisa que contribua com algo, que seja útil a propósito de algo, que ajude a resolver um bocado do caos geral, não só muitas páginas, mas muita gente e muita complexidade. Nos romances, o "João" apaixonado pela "Maria" tem família, um cão, uma carreira, uma rotina, uma tia vesga e um tio alcóolico, um passado e um presente.


A parte das drogas e do álcool, tão pertinente, levou-me a épocas até recentes, mas sobretudo ao ter-me sempre sentido à parte, alheada da maioria dos jovens ao meu redor, porque via essas coisas - talvez por experiências familiares - com uma seriedade que não lhes via ser atribuídas. Fui-me pondo à parte, fui sempre uma chata, tipo a Isabel. Mas antes uma chata do que alguém que não consegue cumprir-se, e que, por muito que se debata, é incapaz de se resgatar a si mesmo das amarras dos excessos da adolescência, e dela mesma por arrastão.


Sobretudo para um segundo romance, a Helena está de facto de parabéns. Sabem o que vejo? Este livro a ser retomado daqui a dez anos, e a Helena a contar-nos o que foi feito desta gente toda, à medida que ela própria for vivendo e tirando as suas conclusões, fazendo as suas aprendizagens. Fantástico como precisámos de 10 anos para nos vermos em adolescentes, e de mais 10 precisaremos para nos vermos como jovens adultos, e etc., etc. Será que a Isabel voltará, num livro tipo "Mulheres como Nós?", ou "Mães como nós?". Perdoem-me se vos traço o percurso cliché da maioria das senhoras, mas talvez a Isabel não o trilhe, tal como também não sabia bem o que queria fazer aos 17, e voltemos a vê-la fugir do esperado.


Julgo entender que há mais autores que costumam partilhar as playlists dos seus livros no Spotify, ideia que acho fantástica, porque mistura as minhas duas paixões. A Dora Santos Marques já me tinha pedido que partilhasse a do Demência, mas eu sou muito verdinha nestas coisas da tecnologia. No entanto, e num livro tão ligado à música, tal como, lá está, na minha própria adolescência as cantigas insuflavam significado aos momentos, faz todo o sentido que essa playlist exista e nos seja disponibilizada. Way to go, Helena!, ouvi-a durante a leitura, recordei-me de músicas daquelas que conhecemos de ouvido mas cujo artista/nome desconhecia.


Para terminar, acharia crucial levar este livro aos adolescentes, para que entendam que a idade e os problemas que atravessam são relativos, que em breve tudo estará terminado e que o importante, mesmo, é aproveitar cada minutinho dessa época mágica, com a qual passaremos o resto da vida a sonhar e a envergonhar-nos, eheh!


Sinopse:

Festivais de Verão, tardes na praia, experiências-limite com drogas, traições e festas misturam-se com amores improváveis e velhas amizades. Um romance intemporal nos cenários de Lisboa, Cascais e Madrid, que mostra tudo o que pode esconder-se atrás da vida aparentemente normal de uma rapariga… como tu.

«Beijamo-nos ao som daquela música que ouvia em casa sozinha deitada na minha cama. Durante o resto da vida, não importaria o que estivesse a fazer ou onde, quando ouvisse os primeiros acordes […], recordar-me-ia do olhar do Afonso fixado em mim, da sua mão no meu rosto, do meu coração a tremer e de me sentir a rapariga mais feliz do mundo. Porque Lisboa está cheia de bares a abarrotar de miúdas bonitas que, num piscar de olhos, se colocariam de gatas a ronronar nas suas pernas. Mas ele viu-me a mim.»
«Se algum dia se sentirem sozinhas, estranhas, deslocadas do mundo que vos rodeia, lembrem-se da Isabel, da Alice, da Luísa, da Marina e até da Marisa das argolas… Raparigas como nós.


Uma história de amor irresistível, que é também o retrato de uma geração que cresceu sem redes sociais. Pode uma paixão da adolescência marcar o resto da vida?

Classificação: 4/5*****

quinta-feira, 13 de junho de 2019

#222 NÚNCIO, Maria José da Silveira, Brincadeiras de Irmãs

Sinopse: «E, por vezes, dava-me ideia de que tu, que és a minha irmã, sabias. Que, apesar do meu silêncio e das palavras que não se desprendiam, estranguladas na garganta, tu sabias.»


Partindo da morte de um antigo primeiro-ministro, figura prestigiada e reconhecida na sociedade, desvendam-se os segredos familiares que, em noites longas e corredores escuros, engendraram a complexa relação entre duas irmãs, presas numa teia de silêncios e entreditos, em que se confundem amor e raiva, medo e culpa, vingança e perdão.

Opinião: Já anteriormente havia lido parte de Calor, da mesma autora, e verifico que o tipo de narrativa é semelhante em "Brincadeiras de Irmãs".


Creio tratar-se de mais um caso de fluxo de consciência, em que as personagens estão cativas de uma espiral vertiginosa de acontecimentos, geralmente pouco relevantes, e em que o leitor vai extraindo o sumo dos factos que importam e que contribuíram para o trauma, a dor, a omissão em que as personagens que nos oferecem este discurso incorrem. Julgo não proferir um disparate se disser que, nestes casos, estamos sempre perante discurso direto, com um narrador presente e emocionalmente instável, incapaz de se libertar dos seus fantasmas, enleado em pensamentos circulares e claustrobóficos. Gostei do tema, da visão a partir da qual a história nos é oferecida - uma irmã, a outra - a autora parece-me prolífera em escolher assuntos pertinentes, dolorosos, do tipo que retalha famílias e corrompe pessoas que, de outro modo, seriam perfeitamente comuns e bem inseridas na sociedade. Penso que será o caso do seu O que se cala é como se não existisse, que aproveito para elogiar, mesmo sem ter lido, por saber que tem como figura central uma mulher magoada e vítima de circunstâncias difíceis. Ainda bem que, por fim, a mulher quebrada é tema na literatura nacional.

É um livro pequeno, numa edição equivalente a um livro de bolso que me parece muito prática, com uma revisão cuidada e apenas 158 páginas de discurso escorreito. O leitor é facilmente apanhado nesta torrente de acontecimentos, e iniciado ao núcleo disfuncional e enlouquecedor desta família de um ex-primeiro ministro nacional, onde nada é o que parece, porque tudo é feito ao serviço das aparências.

Um bom retrato da nossa sociedade, das nossas elites, dos nossos silêncios por vergonha e embaraço. Dos nossos muito portugueses e fatais Chius.

Também disponível em e-book.
Classificação: 4/5*****

#221 BARRY, Sebastian. Escritos Secretos

Sinopse: Roseanne McNulty tem perto de cem anos e é a doente mais antiga do hospital de saúde mental de Roscommon. O doutor Grene, o psiquiatra encarregado da avaliação dos pacientes, sente-se intrigado pela história daquela mulher, que passou os últimos sessenta anos da sua vida em instituições psiquiátricas. Enquanto o médico investiga, Roseanne faz uma retrospectiva das suas tragédias e paixões, que vai registando no seu diário secreto, desde a turbulenta infância até ao casamento que lhe prometia a felicidade. Quando o doutor Grene desvenda por fim as circunstâncias da sua chegada ao hospital, é conduzido até um segredo chocante. 

Um livro primorosamente escrito, que narra uma história trágica, fruto da ignorância e mesquinhez, mas ainda assim fortemente marcada pelo amor, pela paixão e pela esperança.

Opinião: Peguei neste romance com entusiasmo, porque une dois dos meus temas favoritos: a Irlanda e os asilos psiquiátricos. A receita tinha tudo para dar certo, e começa firme com um certo misticismo irlandês muito caraterístico, uma queda para a fábula e o sobrenatural muito acentuada. 

Esse, talvez, seja um dos problemas. A narrativa é incongruente: apesar de ser a duas vozes (Roseanne e o seu psiquiatra, William Grene), o ritmo é incerto. Senti que a escrita seguiu muito o estado de espírito do autor - foi a primeira vez que senti algo assim num livro, sobretudo num traduzido, pelo que posso estar muito enganada, mas foi a percepção com que fiquei.

Há pelo menos duas coisas que não têm resposta, ou pelo menos não consegui discerni-la na leitura, e que mancham o aprumo com que o enredo foi montado. Posto isto, a narrativa vale pela Irlanda do século XX, do IRA, da guerra civil, da separação Norte/Sul e da miséria absoluta, bem como do clima agreste e da eterna quezília protestantes/católicos. Achei que o romance falha a vários níveis humanos e narrativos, pelo que não me arrebatou. 

Classificação: 3,5/5*****

PS: Acabo de descobrir que há um filme protagonizado pela minha adorada Rooney Mara

#220 HONEYMAN, Gail, A Educação de Eleanor



Sinopse: Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal - ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe.

Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond - o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras - e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua.

A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá por fim abrir o coração.

Opinião: A Educação de Eleanor é o primeiro romance de Gail Honeyman, e, tendo em conta o número de prémios que recebeu, não deve ser o último.
(Ah e adoro, na biografia da autora no Goodreads, a menção a que escreveu o livro enquanto trabalha a Full-time... Ah ah ah ah ah... desculpem, acaba por ser triste.)
Eleanor Oliphant é uma personagem peculiar. Ao longo de 300 páginas, deixamos que nos leve pela mão a uma existência aparentemente normal, mas acabei por sentir que estava a ver o mundo com outras cores, através das lentes especiais da Menina Oliphant. O romance permite-nos aplicar um sentido crítico em eventos banais, em protocolos sociais estabelecidos e que nem nos damos ao trabalho de questionar.
O livro promoveu momentos de comoção, outros de riso e outros de reflexão. Não consegui apaixonar-me por ele tanto quanto outros leitores porque senti que faltou desenvolver melhor o passado de Eleanor. Por exemplo, alguém sugeriu que ela teria Asperger, mas não apanhei nenhuma referência a isso. Houve partes muito angustiantes, e outras que me emprestaram alguma esperança na humanidade.
Em geral, é um page turner que li naquilo que, nesta fase da minha vida, só posso considerar "um tempo recorde". Aconselho! 

Classificação: 4/5*****