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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

#229 DOSTOIEVSKI, Fiódor, Crime e Castigo

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Dostoievski, por Vasily Perov @ 1872
"Vês, eu nesse tempo perguntava sempre a mim próprio: porque sou eu tão estúpido que, se os outros são estúpidos, e eu sei que são, não quero ser mais inteligente? Depois descobri, Sónia, que se ficamos à espera que os outros se tornem inteligentes, passará demasiado tempo… Depois descobri também que isso nunca acontecerá, que as pessoas não mudarão e ninguém as fará mudar e não vale a pena o esforço!”

“Crime e Castigo”, publicado inicialmente em 1866 por capítulos no “Mensageiro Russo”, tornou-se um clássico da literatura internacional. Confesso que a minha curiosidade quanto aos tão aclamados romances russos nunca foi muito intensa – li A Sonata de Kreutzer e Fumo sem encontrar nada de extraordinário excepto, talvez, algumas reflexões acerca da condição humana e uma dificuldade imensa em acompanhar aqueles caráteres impulsivos, auto-destrutivos e aqueles nomes que me soam tão exóticos. Procurei em “Crime e Castigo” traços do romantismo que, trinta anos anos, lavrava por toda a Europa – o da tuberculose, dos amores condenados, dos suicídios. Numa Rússia profundamente influenciada pelas culturas germânica e francesa, faria todo o sentido que as vozes literárias, de cunho nacionalista, se erguessem para imortalizar a essência de um povo tão sofredor, tão martirizado quanto o russo por essa altura, no entanto, com potencial para tanta grandeza… 

De algum modo, “Crime e Castigo” moldou-me, preparou-me para apreciar melhor a riqueza de emoções humanas desses grandes antropólogos russos, e creio que se voltar agora a ler um desses outros romances, ou se me aventurar num Anna Karénina tirarei muito mais proveito deles do que antes de o ter lido. De repente, vejo-me fascinada pela realidade russa. Há livros assim, que nos expandem a compreensão e nos oferecem um conhecimento maior do mundo ao nosso redor. Há livros que criam um inequívoco antes e depois no leitor…

Creio que é nesse contexto que surgem Dostoievski, Tolstoi, Turguenev e tantos outros seus contemporâneos. Acredito que um escritor é melhor quanto mais tiver sofrido, quanto mais se inquietar com os desconfortos de ser de carne e osso, de sentir, de perder, e a Rússia da segunda metade do século XIX era prolífera nestes desconsolos, pelo que brotaram dela várias vozes superiores nesta nobre arte que é o observar e imortalizar um tempo por via das letras.

Acompanhamos Ráskolnikov numa espiral de desencanto quanto ao seu futuro, às suas circunstâncias e às das pessoas que o rodeiam, em especial a mãe, a irmã, o melhor amigo. Ao cruzar-se com um núcleo sofredor composto por um ex-funcionário público, a sua esposa que decaiu de um estatuto de filha de “quase” governador para infeliz e tísica mulher de um bêbedo (aliás, a personagem que mais me cativou, Katerina Ivánovna), e as muitas e miseráveis crianças desta malfadada união, começa a envolver-se nas misérias de outros, e acaba por ir pondo de lado, em ocasiões, os seus próprios delírios. Destaca-se ainda Sónia, que se ocupa do bem-estar de todos, “aceitando o sofrimento” para apaziguar um pouco as angústias de quem a rodeia, e que personifica uma espécie de Maria Madalena, abnegada e crente, benevolente e sacrificial.

Para mim, a cena de um certo banquete fúnebre é o momento inesquecível deste romance em seis partes, um humor tão apurado, tão delicioso, que não queria sair nunca daquela mesa e daquela companhia:

"- Essa cuca é que tem a culpa de tudo. Compreende de quem estou a falar. Dela, dela! - e Katerina Ivánovna indicava-lhe a senhoria. - Olhe para ela: arregala os olhos, sente que estamos a falar dela, mas não percebe. A coruja! Ah-ah-ah!... E o que quer ela mostrar com aquela touquinha? Gha-gha-gha! Já reparou que ela quer fazer crer a toda a gente que me ajuda e que me honra com a sua presença? Pedi-lhe, como a uma pessoa decente, que convidasse pessoas de qualidade, e concretamente os conhecidos do falecido, e olhe o que ela me trouxe: uns palhaços! Uns porcalhões! Olhe aquele, com a cara cheia de sinais: parece uma ranhoca com duas pernas. E estes polacos...ah-ah-ah! Gha-gha-gha! Ninguém, nunca ninguém os viu por aqui: e porque vieram cá, pergunto eu? Sentadinhos lado a lado, todos cerimoniosos. (...) Não faz mal, que comam. Ao menos não fazem barulho, mas... mas, na verdade, receio pelas colheres de prata da senhoria!... Amália Ivánovna - disse, dirigindo-se à senhoria, quase em voz alta -, se por acaso roubarem as suas colheres, eu não me responsabilizo por elas, aviso-a já! Ah-ah-ah! - e desatou a rir, dirigindo-se outra vez a Ráskolnikov, indicando-lhe de novo a senhoria com a cabeça e alegrando-se com a sua pilhéria. - Não percebeu, não percebeu outra vez. Olhe para ela, ali de boca aberta: uma autêntica coruja com fitas novas, ah-ah-ah!”


“Crime e Castigo” está cheio de personagens complexas, absorventes, que causam pasmo e exasperação. De algum modo, este segundo núcleo proporciona uma redenção inesperada à nossa alma-penada, o assassino torturado que vagueia por S. Peterburgo, o jovem idealista caído da graça de um futuro promissor, mas gorado. O autor criou, neste seu magnus opus, um retrato nítido de uma Rússia desgastada e decadente, sem oportunidades, onde imperam os vícios e as vilanias, pontuados de muita depravação e de uma tendência quase natural para transgredir a lei e os limites da moralidade, para se embebedar, e também por um certo regozijo perante a própria desgraça. A filosofia, a muita dialética que povoa a riqueza destes diálogos vertigionosos, a loucura quase palpável destas personagens em situações extremas de contrariedade e insatisfação, as sementes para a Rússia socialista ali tão evidentes… 

A obra de um génio das letras e da arquitetura narrativa, que me chega tão atual, tão intemporal, cento e cinquenta anos depois do seu momento. Um daqueles livros que não conseguirei esquecer pelo tom lúgubre dos cenários, a dimensão da claustrofobia e do desespero na alma de Ráskolnikov e dos seus conterrâneos. Uma obra colossal alinhavada em torno de um jovem de 23 anos que abandonou os estudos de Direito por acreditar que as pessoas de dividem em “vulgares” e “invulgares”, e que o “invulgar” é raro e é por sua ação que o mundo progride, que a antiga ordem se desfaz para que nasça uma nova, revolucionária, e que lhe é vital ultrapassar os limites das convenções para provar a si mesmo que não é um mero “piolho”, mas sim uma “pessoa”, e por isso urge cometer um crime, livrar-se de uma criatura indesejada e até nociva para a sociedade. 

"Ou supões que eu fiz o que fiz como um tolo, sem pensar? Fi-lo como um homem inteligente e foi isso que me perdeu! Pensarás que eu não sabia, por exemplo, que se começava a interrogar-me sobre se tinha o direito ao poder, precisamente por isso não tinha o direito ao poder? Ou que, se me fizesse a pergunta: é um piolho ou uma pessoa?, por conseguinte a pessoa não era um piolho para mim, mas era piolho para aquele que vai em frente sem fazer essas perguntas…”
Palpita-me que é outro livro que me ficará para a vida, que me há-de ocorrer em inúmeras situações e que voltarei a ler, quando a hora de reler os livros da minha vida chegar.

Classificação: 5/5*****

quarta-feira, 8 de abril de 2015

#130 CALDWELL, Erskine, A Estrada do Tabaco

Sinopse: O humor de Caldwell, como o de Mark Twain, tem como fonte a imaginação que agita as emoções do leitor. Durante a Grande Depressão americana, a família Lester não sabe como sobreviver à miséria que se avizinha. Residem e gerem os territórios rurais da Geórgia, cultivados com tabaco e algodão, mas já nem isso os salva. Debilitados pela pobreza ao ponto de atingirem um estado de ignorância e egoísmo cruel, os Lesters preocupam-se com a fome, os apetites sexuais que os devoram e o medo de que a hierarquia social os empurre para uma camada ainda mais desfavorecida.  A pobreza, o racismo e a bestialidade dos homens são aqui postas a nu, despindo a sociedade americana dos anos 20 com crueza e violência, numa tragicomédia de mestre. A Estrada do Tabaco é um dos grandes clássicos americanos de Erskine Caldwell.

Opinião: Foi a capa que, uma vez mais, me levou até este livro. Quando o recebi em mãos entendi que esta pequena obra de 200 páginas seria devorada com rapidez. Sucede que cada livro é uma caixinha de surpresas, e este não foi excepção... A psiquiatria, nascida na Alemanha, deu o braço a várias teorias de eriçar os pêlos no século XIX. Durante a Grande Depressão (que começou em Out 1929 na América), essa ciência relativamente recente avaliada as capacidades das pessoas, a sua utilidade social. A "Eugenia", corrente da qual o próprio autor seria aficcionado, defende a esterilização involuntária daqueles que a Sociedade considere não aptos a reproduzirem-se. Persone non grate. Enfim... O certo é que "A Estrada do Tabaco" é um desfile de algumas das personagens mais abomináveis que jamais li. Scarlett O'Hara era oportunista e fútil, mas também sensata e persistente. Cathy Earnshaw é igualmente fútil, vaidosa, demasiado dramática, mas ama Heathcliff. Que dizer dos Lester? Ignorantes, interesseiros, preguiçosos, oportunistas... Sempre à espera que "deus" venha salvá-los e o dinheiro chova do céu... A Grande Depressão é retratada, neste romance, a partir do núcleo de Lesters que vivem à beira da estrada do tabaco. Jeeter, o pai, Ada, a mãe, a avó Lester, Ellie May que tem uma fenda no lábio, de nascença, e Dude, um mal educado de 16 anos, desobediente e obtuso.   Jeeter está "aferroado" ao terreno onde nasceu na Georgia, "the old south", apenas setenta anos após o Norte industrial ocupar o sul algodoeiro e libertar os negros. É preguiçoso e vive de procrastinação: amanhá será sempre o dia em que irá pedir uma mula emprestada, revolver o solo e arranjar quem lhe conceda crédito para comprar sementes. A sociedade americana vivia de crédito: mesmo morto de fome Jeeter nunca pondera ir trabalhar para as fábricas, onde se diz que poderia ganhar até 25 dólares por semana, sendo que 2 bastariam para alimentar a família durante esse mesmo período. Nada tem, por nada luta. Apenas se lamuria e culpabiliza terceiros (ou o próprio carro, por não poder levá-lo a Augusta) da situação de miséria extrema em que se encontra. Tanto ele quanto o filho acham que os ricos deveriam abrir mão da sua riqueza para melhor a distribuir por quem nada tem. Ou, ao menos, conceder-lhes crédito. Desconfiam dos ricos, atribuem-lhes más qualidades, embora também se deixem deslumbrar pelas suas vidas e as invejem. A Irmã Bessie é uma hipócrita ignorante de 39 anos que almeja casar-se com Dude (isso mesmo, o rapazinho de 16 anos). Esta personagem sem nariz, de fé cega num deus evangélico que muito lhe convém, foi o exemplo de como a religião, sob o signo do medo e a promessa de conforto e alívio, afasta os homens da Verdade. As situações que se seguem são bizarras, retrato de uma família sem qualquer luz de conhecimento, cheios de preguiça e sonhos irrealizáveis que alimentam como pretexto para se manterem quietos. O esbanjar do que não se tem, a má gestão, mau cálculo, o despojar-se dos filhos e da avó porque em última instância são meras bocas para alimentar... A lei que existe mas não é cumprida...
O absurdo do livro estarreceu-me. Fala-se em humor negro mas não consigo discerni-lo nestas páginas, porque sei que houve e que há pessoas assim. Aconselho vivamente, ao contrário da glorificação da humanidade em horas de aperto, o autor leva-nos ao grotesco da ausência de quaisquer princípios por imposição da fome.


Classificação: 4,5****/5