sábado, 18 de janeiro de 2020

#238 ACCIAIUOLI, Filippo, O Terrível Terramoto da Cidade que foi Lisboa - Correspondência do Núncio Filippo Acciaiuoli: Arquivos Secretos do Vaticano

Sinopse: O cataclismo que desabou sobre a cidade de Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 anda ligado a uma memória indelével da história. De tão grande tragédia se faz eco na correspondência do Núncio Apostólico, que desde o dia 4 desse mesmo mês envia semanalmente para Roma informações dirigidas à Secretaria de Estado e ao Papa, às quais se devem acrescentar as cartas endereçadas ao Cardeal Secretário, que era então o Cardeal Silvio Valenti Gonzaga, e aos familiares.


É essa correspondência, depositada no Arquivo Secreto do Vaticano, que Arnaldo Pinto Cardoso traduz para português, dando a conhecer relatos vivos e quase diários das aflições vividas em Lisboa e das reacções que se fizeram sentir no Vaticano, numa obra ilustrada com iconografia da época.


Monsenhor Arnaldo Pinto Cardoso é natural de Penso, Sernancelhe. Sacerdote da diocese de Lamego, licenciou-se em Teologia pela Pontíficia Universidade Gregoriana (1967-69) e em Sagrada Escritura pelo Instituto Bíblico (1969-72), de Roma. Foi director do Serviço de Pastoral do Secretariado do Episcopado e professor na Universidade Católica. Conselheiro Eclesiástico na Embaixada de Portugal junto da Santa Sé. Prelado de Sua Santidade. É sócio da Academia Portuguesa de História. Autor de diversas obras, entre as quais Santuário da Lapa – História e Tradição (Alêtheia Editores, 2007), integrou ainda a equipa de tradutores da Bíblia Sagrada, em 1998.


Opinião: Um bom apanhado de cartas trocadas entre o Núncio Apostólico em Lisboa e o Vaticano, às quais juntou anexos de descrições do desastre elaboradas por indivíduos de nacionalidade espanhola, francesa e italiana. 

A experiência do Núncio é ilustrativa de como a catástrofe foi democrática: não poupou ninguém. A miséria atravessou-se no caminho de todos. Artistas estrangeiros a servir a corte portuguesa, embaixadores estrangeiros, a nobreza portuguesa que gozava a opulência do barroco até vésperas do desastre, a casa real e os seus projectos magnânimos, como a Ópera de Lisboa, o seu palácio real na Ribeira, a sua residência em Belém, tudo engolido pelo sacudir da terra, pela voragem das águas, pelo castigo das chamas. Estas cartas, em particular, focam-se na desgraça das elites, pois que o Núncio priva com o rei em pessoa. Assim ficamos a saber como eram as "tendas" e as "barracas", qual o espírito geral no governo aquando da catástrofe, e como Carvalho e Mello surgiu no leme das operações, cumprindo (e até antecipando) as vontades de D. José.

É um bom ilustrador do que se seguiu ao terramoto, de como se viveram os dias e meses que se seguiram, quais as dificuldades, que estados vieram oferecer apoio, quais os danos específicos que o os elementos, em fúria, inflingiram à população. Porém, a sua visão limita-se a Belém, que, apesar de tudo, não é onde se concentrava a maioria da população (portanto onde o horror terá sido maior), e o que se passa no coração da cidade, onde os danos foram apocalípticos, raramente é mencionado, e apenas o é como relatos de terceiros/notícias a que teve acesso.

As 9h30 da manhã de 1 de Novembro de 1755 foram apenas um anúncio impiedoso do que estava por vir. Estes testemunhos exploram as ondas sísmicas que se lhe seguiram, a destruição do fogo, a inquietude do mar, os moribundos e os seus gemidos sob pilhas de entulho, as estradas intransitáveis, as inundações (inclusive de hospitais trazendo a morte aos enfermos), as sepulturas colectivas, as penitências, as procissões, o horror generalizado.

Na primeira pessoa!

Classificação: 4****/*

#237 MOLESKY, Mark, O Abismo de Fogo


Sinopse: No Dia de Todos os Santos, em 1755, um sismo abalou a terra, desde o fundo do oceano Atlântico até às costas ibérica e africana. No caminho estava Lisboa, então uma das cidades mais ricas do mundo e capital de um vasto império. Em minutos, parte da cidade transformou-se em ruínas.Mas isto foi apenas o começo. Meia hora depois, um maremoto originado pelo terramoto atingiu o litoral português, provocando uma enchente no rio Tejo, arrastando milhares de pessoas para o mar. No final do dia, ondas gigantes haviam feito vítimas em quatro continentes.Completando a destruição, uma tempestade de fogo engoliu quase tudo o que restava da cidade, atingindo os sobreviventes com temperaturas que excederam os 1000 ºC. As chamas prolongaram-se por várias semanas.Tendo por base novas fontes, as últimas descobertas científicas e um profundo conhecimento da história da Europa, Mark Molesky dá-nos um relato do Grande Desastre de Lisboa e do seu impacto no Ocidente, em que se inclui a descrição do primeiro movimento de ajuda humanitária mundial, do aparecimento de uma ditadura em Portugal (que, apesar de tudo, serviu para modernizar o país) e do efeito da catástrofe no Iluminismo europeu.Muito mais do que uma crónica sobre destruição, O Abismo de Fogo é um emocionante drama humano onde surgem personagens inesquecíveis, como o marquês de Pombal, que encontra no caos o caminho para o poder, ou Gabriel Malagrida, o carismático jesuíta que acabou por ser morto devido à sua interpretação do terramoto como castigo divino.



«As batalhas perenes da humanidade entre a fé e a razão sempre foram postas à prova nos momentos de calamidade. O terramoto de 1755 foi o primeiro e mais dramático desses momentos na era moderna, e aguardava pacientemente o seu historiador. Tem finalmente, em Mark Molesky, o seu brilhante analista.»[Simon Schama]

Opinião: Li atentamente cerca de 70% do livro, as partes que se referiam aos vários rostos do desastre e da reconstrução, surpreendida pela horda de novidades sobre esta época tão complexa que o livro oferece. 

O terramoto, os seus meandros e implicações, o sol a nascer Às 06h02 desse dia fatídico, e a pôr-se às 17h47, para lá de nuvens de fumo e cinzas, fogo e gritos de desalento. Esses são os detalhes que me interessam. O livro explora e complementa muitas outras fontes. É uma obra descomunal de pesquisa e interpretação de um momento complexo que perdurou no tempo, que marcou a civilização europeia, que permitiu a ascensão de um déspota ao governo de Portugal, e que trouxe Portugal, do modo mais violento possível, para a era das luzes.

(Passei por cima das explicações científicas, isto é: daquilo que hoje se sabe sobre a possível origem deste terramoto, e também da parte do processo dos Távoras e de outras medidas do Marquês, no Douro, Coimbra, além-fronteiras, etc.).


Classificação: 4****/5

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

#236 AMY HARMON, O Que Sabe o Vento

Opinião: Mais uma das minhas desilusões literárias. A Irlanda convulsa dos anos 20 prometia um enredo intenso, com a complexidade quase indecifrável que a cultura (música, cinema) tanto tem tentado simplificar. A somar a essa expectativa, há uma desvantagem: eu acompanhei duas temporadas de Outlander, cuja publicação original é de 1991, por isso dei por mim a ter déjà-vus da história da Claire, a enfermeira de guerra do século XX, de caracóis negros, e do Jamie, o guerreiro escocês do século XVIII.
Destaco, como pontos positivos, a viagem do tempo. Aconteceu de modo subtil, com alguma inteligência. Pareceu-me credível (para quem tem a mente minimamente aberta ao surrealismo), que houvesse um portal do tempo no centro de um lago Irlandês, que afinal é a terra da magia e das fadas. Também a pesquisa me parece exaustiva e bem conseguida, embora depois falhe no encaixe no enredo.
O problema principal, em contra-partida, é a superficialidade das personagens e a ligeireza com que encaram situações inimagináveis. À excepção, talvez, do Dr. Thomas Smith, que tem ideais, uma história sólida, várias dimensões.
Várias coisas me causaram estranheza durante a leitura, e me impediram de vivê-la. Em primeiro lugar, estive na Irlanda por três vezes, e da primeira visitei o condado de Leitrim e de Sligo, entre os quais se estende o Lago Lough Gill, tantas vezes mencionado no romance. Também visitei Parke’s Castle, que se situa no lago e que surge mencionado por alto na narrativa. Conheço um pouco da história irlandesa, e gosto de pensar que compreendo a alma do Éire, por muito complexa que seja (e é).
O que dizer da Irlanda de 2019? É vasta, com povoações isoladas, com uma humildade próxima da terra e da lareira, simpática, acolhedora, tradicional. O que sei da Irlanda do século XX? Sofria de carência, de opressão, de miséria generalizada, de convulsões políticas. A Irlanda rural de 1916 e 1921, em que a autora se foca, tem casas de banho modernas, pronto-a-vestir, e ninguém passa fome. Vivem de idealismos, de honra, e falhou no retrato da opressão, do tratamento desumano que o Império Britânico lhes impôs. As informações estão lá, mas não se sentem. Pelo menos achei que não se sentiam. Os acontecimentos são desfiados quase como eventos alinhados numa cronologia, e o impacto direto nas personagens é amenizado pelo eixo central romântico da história.
Para mim tudo falhou logo de início, quando a vida da Anne se apresentou como unidimensional. Nada existia para esta mulher de 30 anos além do avô, o que começa por ser pouco credível. Segue-se a partida abrupta para a Irlanda, uma vez mais sem que se evidenciem laços à sua vida em Nova Iorque, quase como se não tivesse qualquer amarra (à exceção da agente literária). Na Irlanda as coincidências sucedem-se. Tudo muito conveniente.
O pior é a reação à viagem no tempo. Pânico? Intriga? Busca de respostas? Tentativa de regressar imediatamente a casa, como creio que seria humano fazer assim que se recuperasse do tiro? Nah, vai comprar um guarda-roupa novo na loja de pronto-a-vestir (cerca de 30 anos antes da invenção do pronto-a-vestir). Pareceu-me de uma futilidade atroz tendo em conta tudo o que se estava a passar, e páginas desperdiçadas com coisas sem importância.
O amor surge do nada, tipo wow?. Não se entende. Nada mais a acrescentar aqui.
A dada altura, o fio condutor do romance, que é o amor do Thomas e da nossa protagonista, perde-se no meio dos acontecimentos. E os acontecimentos, como mencionei antes, são difíceis de acompanhar. Significa que na última parte me desliguei tanto do casalinho quanto dos eventos políticos, e tudo se precipitou com muita rapidez.
Duas coisas de grande significância acontecem a velocidade de foguetão, o que mais contribuiu para que revirasse os olhos. A naturalidade da reação das personagens a esses revezes é exasperante. Não há consistência, lógica. As acções e decisões acabam por cimentar o caminho (mal pavimentado) para o fim almejado pela autora, tudo muito bam! In your face.
Não gostei, só a Irlanda me impediu de desistir.

Sinopse: Numa Irlanda dividida, uma história de amor épica quebra as barreiras do tempo.
«Só o vento sabe o que verdadeiramente vem primeiro.»
Anne Gallagher cresceu encantada pelas histórias do avô acerca da Irlanda. Destroçada pela morte dele, viaja até à sua casa de infância para espalhar as cinzas do avô no lago Lough Gill. Aí, invadida pelas lembranças do homem que adorava e consumida pela história que nunca conheceu, vê-se levada para uma outra época.
A Irlanda de 1921, à beira de uma guerra civil, é um sítio turbulento e instável… Mas é lá que Anne inesperadamente desperta, desorientada, ferida e ao cuidado do Dr. Thomas Smith, o homem que a resgatou do invulgar acidente que sofreu e que é tutor de um rapazinho que lhe é estranhamente familiar. Confundida por todos como a mãe perdida do rapaz, Anne adota a sua identidade, convencida de que o desaparecimento dessa mulher está ligado ao seu.
Com a tensão a escalar no país, levando Thomas a juntar-se à luta pela independência da Irlanda, Anne vê-se arrastada para o conflito e percebe que vai ter de decidir se estará disposta a desistir da vida que conhecia por um amor que nunca pensou vir a encontrar. Mas será mesmo dela a escolha?
Numa inesquecível história de amor, a viagem impossível de uma mulher através de décadas pode mudar tudo…

Classificação: 2**/5*****

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Planeamento de Leituras 2020


#1 História, Política e Personalidades
O Abismo de Fogo, Mark Molesky
A Direita e as Direitas, Jaime Nogueira Pinto
Maria Antonieta, Stefan Zweig

#2 Sátira, Distopias
A Quinta dos Animais, George Orwell
Farenheit 451, Ray Bradbury

#3 Ficção Científica
A Mão Esquerda das Trevas, Ursula Le Guin

#4 Clássicos Russos
Guerra e Paz, Leo Tolstoi
Os Irmãos Karamazov, Fiódor Dostoievski
A Morte de Ivan Iliitch, Leo Tolstoi

#5 Europa Central/Germânicos
A Marcha de Radetzky, Joseph Roth
A Oeste Nada de Novo, Enrich Maria Remarque
Morrer na Primavera, Ralf Rothmann

#6 Clássicos
Grandes Esperanças, Charles Dickens
Mansfield Park, Jane Austen

#7 Lusófonos
Memória de Elefante, António Lobo Antunes
Húmus, Raul Brandão

#8 Escandinavos
Paraíso e Inferno, Jón Kalman Stefánsson
Os Frutos da Terra, Knut Hamsun

#9 Autores favoritos
A Leste do Paraíso, John Steinbeck
Palmeiras Brancas, William Faulkner
As Paixões de Júlia, W. Somerset Maugham

#10 Grande desafio
A Morte do Comendador I, Haruki Murakami

domingo, 1 de dezembro de 2019

Leituras 2019 - Balanço

Este ano superei-me em termos de leituras. Desde 2015 que não lia tantos livros num ano (33 de momento, mas creio que consiga pelo menos acabar mais 2), e com certeza que não lia livros tão desafiantes.

O meu interesse por clássicos tem vindo a sobrepor-se aos livros contemporâneos, e sobretudo aquilo que chamo "os livros do momento". Best-sellers que surgem na lista do New York Times e que venderam aos milhões, mas que depois leio e meh. Não me inquietam. E eu, como tenho assumido várias vezes, leio para me inquietar.

Em resumo, olhando por sobre cada título a que me dediquei este ano, decidi escolher 5 que me apeteça comentar por algum motivo específico, e atribuir-lhes uma palavra que represente o que tirei da leitura.

#1 - SENTIDO
Em "O Estrangeiro", de Camus, nada faz sentido. Ou melhor, o sentido da narrativa com certeza transparece o caos da época em que foi escrito. Tendo sido publicado em 1942, é com certeza fruto da insegurança dos seus tempos, da guerra a nível global e do valor das vidas, diminuído pelos interesses das nações. Camus criou um homem indiferente, Mersault, que se deixa ir com as ondas. Um alheado da vida ao seu redor, a quem nada afecta, nada chega. Mersault é o homem inalcançável, um observador neutro do certo e do errado, sem vontade ou alento, que passa pela vida sem grande entusiasmo, mas sem se dizer, ao mesmo tempo, deprimido. O livro levou a que me questionasse se não será a nossa capacidade de reflectirmos, de nos iludirmos, de querermos, sonharmos, aquilo que nos torna humanos, espirituais. Ainda assim, não foi um livro que me tenha ficado. Não me apaixonei, e até já o vendi.




#2 CRU

Da primeira vez que tentei lê-lo, fiquei-me pela segunda página. Mas 2019 era o ano para me estrear com o nosso eterno candidato a Nobel. Fiquei surpreendida não pela narrativa do que foi o Ultramar, não pela escrita elaborada (que muito dificulta a leitura), mas pela crueza de tudo. Lobo Antunes leva-nos para um mundo frio e cruel, desprovido de calor humano, de compreensão, de abraços. Em Os Cus de Judas, é-nos apresentado um homem incapaz de esquecer África, ou de tirar a guerra da pele. Lobo Antunes lembrou-me que o Ultramar foi um desperdíciotremendo e embaraçoso para o regime português dos anos 60 e 70, e que também por isso o sofrimento dos envolvidos foi esmagado, obliterado pela ilusão colectiva de que podíamos vencer, ou de que valia a pena lutar. Apenas lamento que algumas frases levantassem voo de modo promissor, belas, pungentes, plenas de sentido, e que depois o autor as prolongasse por mais um, dois, vários raciocínios ou metáforas que despedaçavam a beleza simples da premissa inicial.


#3 MÁGICO
Creio que quando tinha uns 20 anos tentei ler Cem Anos de Solidão, sem sucesso. Não era a hora certa. Desta vez, tornou-se naquele prazer que levamos para toda a parte, que acarinhamos quando estamos distraídos e o temos no colo. Gabriel García Márquez, que recebeu o Nobel em 1982 pelo seu contributo para as letras, tem aqui a obra-prima do realismo mágico. É um Dali em versão romance, profundo, delicado, angustiante, maravilhoso. Daqueles que ficam para sempre, fruto da imaginação mais fértil com que me cruzei até hoje por estes caminhos. E pensar que as suas personagens, apesar de completamente loucas, originais, me são tão familiares!

#4 RÚSSIA
Este ano estive por duas vezes na Rússia. Primeiro em Fumo, de Ivan Turguénev, e depois nas páginas do famoso Crime e Castigo. Parece-me que a escola é à mesma, à qual também pertencia Tolstoi. O romance permitiu-me compreender melhor a natureza dos russos, os seus desafios, as suas dores, a sua melancolia. Os russos são loucos, de uma maneira maravilhosa e trágica, ou eram-no pelos olhos de Dostoievski. Um autêntico ensaio da natureza humana e da cultura de uma Rússia imensa; com rasgos de desespero, de humor negro, de esperança cega, de cobardia e de bravura, com lealdade, amizade, amor e sacrifício em boa medida. Não é um livro fácil, mas teve passagens inesquecíveis, como o banquete funerário do funcionário público, em que Katerina praticamente ofende cada um dos seus convidados com gargalhadas nervosas. Só tenho pena de não conseguir dizer (nem escrever!) o nome da personagem principal. Mas começa por R!


#5 TRANSCENDENTE

Há muito que não passava um Sábado na cama a ler (pelo menos sem me dar sono ao fim de dois parágrafos), mas foi o que aconteceu com O Fio da Navalha. Somerset Maugham é um dos meus escritores favoritos, e cada um dos seus livros que li guardei num cantinho especial da memória. Até ler este volume, julguei que Servidão Humana seria o meu livro favorito de sua autoria para sempre, mas mudei de ideias. Larry, o piloto da I Guerra Mundial em busca pelo sentido da vida - e pela resposta sobre a existência de Deus - que percorre o globo e abandona mesquinhices e materialismos conquistou-me. Esse espírito livre, ansioso por aprender, por conhecer, por descobrir, recordou-me das coisas essenciais à vida. Recordou-me o que é ser, em vez de simplesmente estar. Conduziu-me a dois momentos transcendentes, dois Nirvanas através da simples leitura dos êxtases das personagens. A compreensão da vida, a absorção da beleza da natureza pelos olhos de duas personagens, roubou-me o fôlego, encheu-me de paz. Larry é um aro de luz no centro de uma sociedade cinzenta, fútil, agarrada às tradições e encandeada pelo progresso na América e na Europa do entre guerras. Amei a passagem do tempo pelo seu punho, a evolução das personagens (oh, Elliott!), a subtileza de sentimentos, de acções, que o britânico sempre imprime nas pessoas que lhe saíram do punho... Admiro imenso o intelecto e a sensibilidade do autor, e guardo cada livrinho seu por ler como a um tesouro.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

#235 ORWELL, George, Animal Farm

Sinopse: A farm is taken over by its overworked, mistreated animals. With flaming idealism and stirring slogans, they set out to create a paradise of progress, justice, and equality. Thus the stage is set for one of the most telling satiric fables ever penned –a razor-edged fairy tale for grown-ups that records the evolution from revolution against tyranny to a totalitarianism just as terrible.
When Animal Farm was first published, Stalinist Russia was seen as its target. Today it is devastatingly clear that wherever and whenever freedom is attacked, under whatever banner, the cutting clarity and savage comedy of George Orwell’s masterpiece have a meaning and message still ferociously fresh.

Opinião: Ouvido em audiobook, em Inglês.

Beasts of England, beasts of Ireland,
Beasts of every land and clime,
Hearken to my joyful tidings
Of the golden future time.

Soon or late the day is coming,

Tyrant Man shall be o’erthrown,
And the fruitful fields of England
Shall be trod by beasts alone.

Rings shall vanish from our noses,

And the harness from our back,
Bit and spur shall rust forever,
Cruel whips no more shall crack.


Riches more than mind can picture,
Wheat and barley, oats and hay,
Clover, beans, and mangel-wurzels
Shall be ours upon that day.

(...)

For that day we all must labour,
Though we die before it break;
Cows and horses, geese and turkeys,
All must toil for freedom’s sake.


Publicado em 1946, O Triunfo dos Porcos, na minha opinião um título que lhe cai melhor do que A Quinta dos Animais (tradução literal), é uma alegoria assustadora do que vinha e viria a acontecer na Rússia Soviética durante as décadas seguintes, mas sobretudo durante o governo totalitário de Estaline.

Nesta obra do escritor britânico, também famoso por A Guerra dos Mundos e 1984, temos Mannor Farm como os limites do Estado Soviético, e os animais como os seus operários. O antigo caseiro, ou tratador, o demónio Mr. Jones, é possivelmente o czar assassinado, removido de cena para que os animais da quinta possam livrar-se das ordens, do chicote, dos símbolos da escravidão (as coleiras, os lacinhos e torrões de açúcar das éguas, as cercas, a sela, etc.). Tudo começa com uma revolução liderada pelos animais mais inteligentes e mais capazes de conduzir o discurso e, portanto, galvanizar os restantes: os porcos.



Os porcos abrem os olhos de todos os animais para a exploração de que são alvo, e para a brutalidade das condições que enfrentam, e para a injustiça da sua condição de servos dos homens. Alguns animais, como Boxer, um cavalo idealista, abraçam a essência desse espírito, vêem-lhe Verdade e sentido, e adoptam um mote "I will work harder", para que tudo seja melhor para todos, agora que os benefícios que a quinta tem para oferecer serão compartilhados por todos. Todos os animais são iguais é um dos sete mandamentos que conduzem o espírito da revolução e que servem de regras para a conduta de todos.


Esse espírito de união que os conduz, em colectivo, a uma viragem de "regime", rapidamente é deturpado a favor de um pequeno círculo de animais - os porcos, que de tanto se verem na liderança da revolução, das ideias, da criação de novas estruturas -, acabam por ser corrompidos pela própria ganância e começam eles próprios a explorá-los. Para isso valem-se de propaganda, de um discurso de medo que os recorda os horrores dos quais estão agora a salvo, da intimidação (usam cães que criaram desde o nascimento como seus guardas pessoais, diria que representam a máquina militar soviética), e em suma reescrevem a História a seu favor, convencendo os restantes de que sempre viram mais, melhor e mais além, e de que tudo o que levam a cabo é para o bem geral. Em breve os porcos estão afastados do trabalho em si, que é levado a cabo com mais ou menos entusiasmo pelos restantes animais, e começam a arrebatar-lhes os melhores frutos da terra. O Homem, inimigo da Quinta dos Animais, e do animalismo (socialismo), torna-se num parceiro conveniente de troca para os porcos, que o usam para obter luxos e extravagâncias (como álcool) que a Quinta não consegue produzir, e os quais cobiçam.

O lema de que todos os animais são iguais, com o passar dos anos, transforma-se em "Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros", e assim, de um modo simples, Orwell desmonta os princípios do socialismo. Para mim, tudo se resume a: não se pode confiar que os lobos e as ovelhas vivam em harmonia e trabalhem para a mesma causa, porque a natureza de uns e doutros leva sempre à exploração dos mais fracos.

Vou lê-lo assim que possa, não vá ter-me escapado algo no audiobook.

Delicioso!

PS: Estou apaixonada pelo Boxer e pela Molly! 

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

#234 LEVIN, Ira, Rosemary's Baby

Mia Farrow (Rosemary), no filme de Roman Polanski

Ouvi o audiobook abaixo:



Opinião: Rosemary's Baby é o primeiro livro do género "terror" que me atrevi a tocar. Ouvi o audiobook completo, disponível no Youtube.

Trata-se do segundo livro publicado por Ira Levin em 1966, e vendeu milhões de cópias, despertando o mercado da época para o potencial lucrativo do género. Creio que a adaptação para o cinema, em 1968 por Roman Polanski, tenha ajudado a imortalizar esta dona de casa dos anos 60, bem como a realidade dos nova iorquinos nessa década.

Segundo o livro nos leva a crer, não é fácil encontrar um lugar decente para viver no centro de Nova Iorque nos anos 60. O casal Woodhouse acabou de alugar um apartamento a custo, mas são surpreendidos pela notícia de que está um outro disponível, com 4 quartos, construção pré-II guerra e vista para Oeste do Central Park. É um sonho tornado realidade para o casal Woodhouse, sendo que Rosemary, de 24 anos, se mostra muito insistente para que agarrem a oportunidade de se mudar para o Bramford. Em conversa com um amigo, Hutch, os dois anunciam a boa nova sobre a mudança, e Hutch tem algumas histórias macabras para lhes contar acerca do local e dos seus antigos rendeiros. Desde mortes misteriosas a cultos satânicos, Hutch aconselha-os a ficarem longe daquele edifício porque, apesar de bem localizado, as coisas más tendem a acontecer com maior frequência nele do que em outros prédios da Big Apple.

O casal Woodhouse decide ignorar o aviso e afastar as crendices do amigo mais velho, pelo que selam o negócio e em breve se vêem no 7º Piso do Bramford. Guy é um ambicioso aspirante a ator e Rosemary é um tanto simplória e ingénua - talvez devido à juventude -, e também me parece muito submissa, de tal modo que permite que todos ao seu redor tomem disposições a seu respeito por ela. Creio que Rosemary é uma vítima da prisão domiciliária que era tantas vezes o casamento no século XX, em que o marido é o sustento da casa e a mulher lhe deve gratidão e obediência. É também vítima absoluta das circunstâncias que a rodeiam - do desejo de ascensão social do marido, das convenções sociais que a impedem de recusar a atenção desmesurada dos vizinhos, etc. A sua liberdade - inclusive ao nível do corte de cabelo - é constantemente castrada pelas exigências e palpites de quem com ela priva.

Julguei que a história tivesse a casa - e os seus ruídos e antigos ocupantes - como fonte dos horrores, mas o Mal nesta obra tem outra origem. Em breve, Rosemary vê-se prisioneira da vontade do marido, dos vizinhos Minnie e Roman, do seu obstetra aconselhado por estes últimos, e dá por si isolada, assustada, desconfortável na sua condição de grávida e enclausurada. É como se a sua gravidez fosse propriedade de todos, e todos tivessem algum interesse macabro a seu respeito.

Creio que o grande feito de Levin, nesta obra, é a de transformar uma cidade tão ampla e cheia de vitalidade, como Nova Iorque, num retiro lúgubre, claustrofóbico, onde Rosemary se sente sufocada de atenções e envolvida numa conspiração que, quando revelada, é demasiado cruel - e horripilante - para que possa acreditar!

Aconselho e estou louca por embarcar em outros enredos do género.

Classificação: 4/5*****