sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Ainda o Desacordo Ortográfico

Descobri que não sei escrever e isso, para uma pessoa que tem nas letras um hobby, uma terapia, um possível sonho, é inquietante. Antes do Acordo Ortográfico ser implantado, em 2009, eu sabia que «flôr» já não tinha acento circunflexo, como me ensinaram que tinha quando, entre 1995 e 1999, fiz o ensino primário. Quando publiquei o meu primeiro romance, em 2011, não me passava pela cabeça convertê-lo para uma grafia que me era desconhecida, que em certa medida não me parecia lógica e que foi, acima de tudo, controversa. Já se falava no Acordo, mas envolto em tanta polémica que se tornou fácil contorná-lo, ignorá-lo. 

Segui publicando romances de cariz histórico, e consegui contornar o Acordo. De algum modo, parece que é facultativo escrever-se no Português que está instituído legalmente, e que tanto trabalho e esforço deve ter arrancado a uma boa comitiva de intelectuais linguísticos (perdoem-me por não saber como se escreve intelectuais ao dia de hoje – com C ou sem C, eis a questão). Entretanto aportei no facto de que o Português das edições antigas de livros que leio – como “As Vinhas da Ira”, da coleção do Jornal Público   não é o mesmo que o das edições que adquiro recentemente, pelo que ao ler já não estou a aprender a escrever, pelo contrário, estou inclusive a desaprender algo que me era adquirido. Como se uma capacidade da qual me orgulhava me tivesse sido arrebatada sem mais. 

Mas o que me custou mais foi ter entregado um novo manuscrito à minha editora  o primeiro manuscrito em que julguei ter cedido à pressão do Acordo Ortográfico, em que julguei que simplificava, que me aproximava dos muitos mundos e letras portugueses no globo, em que, de modo ingénuo, considerei que a intuição haveria de me ajudar a pôr a minha língua por escrito na sua correta forma  e descobrir que a língua em que escrevi não existe. Há um limbo entre o que era e o que é. Escrevo na antiga grafia e afinal há uma nova para aquele vocábulo, ou arrisco eliminar um C que afinal ficou, e o manuscrito é-me devolvido rasurado a cada página. A cada parágrafo uma nota do revisor a questionar em que me baseei para escrever aquela palavra assim. Menções a vários acordos, pré e pós, isto e aquilo, e a palavra a fundar-se no lodo da incerteza, da imprecisão gráfica. “A autora tem de optar se quer manter Acordo ou não”. Ah é uma opção? Desde 2009 que cada cidadão luso tem o seu próprio Português? Faz a sua própria escolha dependendo da versão do Google Chrome e do Microsoft Word que tem instalado no computador? E quando isso está em colisão com o Outlook que tem instalado no trabalho?

Estou magoada. Não me interessam os motivos do Acordo, as intenções do Acordo. Interessa-me saber que me interesso pela Língua Portuguesa, que a tenho usado como instrumento de trabalho e de lazer, de ócio, de prazer, e que agora me é estranha. Interessa-me – desconcerta-me – saber que escrevo de um modo, os meus avós de outro, e a minha irmã mais nova de outro. Esse fosso geracional linguístico era escusado, pelo menos entre mim e ela. Não nos entendemos nos recados e nos post-its, e nem sequer temos autoridade para corrigir o Português uns dos outros. Sabemos lá nós.

O Acordo Ortográfico roubou-me a palavra, a língua, a certeza. Agora os meus manuscritos têm de ser corridos no conversor do Acordo Ortográfico. Há outro modo de registar corretamente o que tentei atabalhoadamente dizer no meu texto. O meu texto está todo errado. Tornei-me uma iletrada, o que é trágico quando se ama assim as palavras. 

Os Portugueses já não sabem escrever  o AO atirou-nos para o lodo do analfabetismo, iliteracia entre Licenciados, entre Doutores. Quantos de nós, não vivendo dire(c)tamente das Letras (como Tradutores, Editores, Professores, Linguistas), estão certos de saber escrever em Português? Quantos de nós compraram os livrinhos “Português para totós” para reaprender a sua língua, em efe(c)tivo? 

Bom, talvez alguns Portugueses ainda saibam escrever na sua língua. Eu descobri ontem que já não sei. Obrigada, Cavaco Silva.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

#232 HARRIS, Joanne, A Menina que Roubava Morangos

Sinopse: O coração de Vianne Rocher, a encantadora e inquieta maga do chocolate, parece ter finalmente serenado. A vila de Lansquenet-sous-Tannes, que em tempos a rejeitou, é agora o seu lar. Com a filha mais velha, Anouk, a viver em Paris, Vianne dedica-se por inteiro à chocolaterie e a Rosette, a filha mais nova, a sua menina "especial". A acompanhá-las estão os seus amigos do rio, os extravagantes vizinhos, e o circunspecto padre Reynaud. Mas o vento, quando sopra, traz sempre mudanças… E estas começam com a morte de Narcisse, o temperamental florista. A vila fica em alvoroço pois Narcisse deixa não só uma surpreendente herança a Rosette, mas também uma inesperada confissão.

Nada voltará a ser como dantes. E quando uma loja nova abre onde antes se dispunham as magníficas flores de Narcisse, tudo parece um prenúncio de algo: um confronto, alguma turbulência, ou talvez até… um crime? Conseguirá Vianne impedir que o vento leve tudo o que lhe é mais querido?


Há magia no ar. Há luz e sombra. Vingança e amor. Vinte anos depois da publicação de Chocolate, Joanne Harris regressa à pitoresca vila francesa num romance sobre a força do passado, o poder da memória e a aceitação das marcas que a vida deixa em nós.


Opinião: Joanne Harris foi das primeiras autoras que li e adorei, ainda em tenra idade. Comecei pelo Chocolate, segui por todos os seus outros clássicos. Mais tarde adorei reencontrar essas personagens em Sapatos de Rebuçado e O Aroma das Especiarias. Julgo ter entendido que este volume encerra o mundo de Vianne Rocher, com certeza a chocolateira mais famosa do universo literário.

Senti o a narrativa mais fraca, a entrar um bocadinho por aquele campo do espremer uma fórmula ao máximo. Como se a autora não estivesse tão inspirada como nos restantes volumes, apesar de se ler bem, porque me é território confortável. Vianne Rocher cede o protagonismo à sua filha de 16 anos, Rosette, e a M. le Curé, o Père Reynaud. Sem dúvida que as complexidades deste homem de Deus, atormentado pela própria natureza falível, dão substância à melhor personagem (pelo menos à minha favorita) criada pela autora neste universo de uma aldeia francesa à beira-rio, na qual aportam os barcos dos ciganos, onde há uma comunidade muçulmana (Les Marauds) e onde colidem o mundo tradicional das beatas e dos hipócritas com as minorias que despertam a mesquinhez nessas almas cristãs.

Adoro a temática dos livros da autora, que giram sempre em torno da diferença; do ser-se diferente e do aceitar-se o diferente. Neste volume, Rosette é a personagem diferente. Tem um discurso próprio (Bam!) pontilhado dos seus limites de discurso (terá uma doença que a arrasta para tiques nervosos?). Traz alguma pureza à narrativa. É a sua voz, mas também a de Vianne, a de Reynaud e os relatos na primeira pessoa de Narcisse, o antigo florista que morre e que deixa o seu bosque de carvalhos e morangos silvestres à curiosa Rosette que instiga a ação deste último tomo da série. É que os habitantes de Lansquenet-sous-Tannes não compreendem o porquê de um homem inescrutável ter deixado um bosque de valor precioso a uma criança com limitações, e a justificação que oferece ao executor do seu testamento, bem como a nova ocupante da sua loja de flores desocupada, diante da porta da Chocolaterie vão desenterrar os segredos de outro habitante da pequena povoação.

O interessante é a premissa de que ninguém é o que parece, combinada com a mestria da autora em criar universos mágicos, místicos, plenos de superstição e de maravilha, em que o chocolate, os desenhos, a arte em geral, o fogo nas fogueiras dos ciganos, os amuletos islâmicos, as tradições maias, se tornam formas de praticar feitiçaria e de pôr o vento a nosso favor, ou contra os nossos inimigos.

Ocorre-me uma questão interessante sobre a obra da autora: os homens costumam ser personagens voláteis, pouco confiáveis, que vêm e vão com o vento, egoístas. As mulheres têm-nos como adereços temporários. O amor nunca se sobrepõe à razão e, quando o faz, é para desgraça da mulher (recordo-me de algumas das suas mulheres, desgraçadas por homens ignóbeis). Que significa isto? Gostaria de perguntar à autora se é de algum modo feminista, e se conhece homens de integridade inabalável.

Despeço-me com saudade, e um dia regresso com o Hurakan a Lansquenet-sous-Tannes, para reencontrar todos estes amigos de longa data.

Classificação: 4/5*****

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

#231 LOCKHART, E., Quando éramos mentirosos

SinopseA família Sinclair parece perfeita. Ninguém falha, levanta a voz ou cai no ridículo. Os Sinclair são atléticos, atraentes e felizes. A sua fortuna é antiga. Os seus verões são passados numa ilha privada, onde se reúnem todos os anos sem exceção. É sob o encantamento da ilha que Cadence, a mais jovem herdeira da fortuna familiar, comete um erro: apaixona-se desesperadamente. Cadence é brilhante, mas secretamente frágil e atormentada. Gat é determinado, mas abertamente impetuoso e inconveniente. A relação de ambos põe em causa as rígidas normas do clã. E isso simplesmente não pode acontecer. Os Sinclair parecem ter tudo. E têm, de facto. Têm segredos. Escondem tragédias. Vivem mentiras. E a maior de todas as mentiras é tão intolerável que não pode ser revelada. Nem mesmo a si.

Opinião: "Ninguém falha, levanta a voz ou cai no ridículo. Os Sinclair são atléticos, atraentes e felizes. A sua fortuna é antiga. Os seus verões são passados numa ilha privada, onde se reúnem todos os anos sem exceção."

Narrativa simples, despretensiosa, que dispensa demasiadas questões.Os Sinclair são perfeitos, e são-nos apresentados pela voz de Candace, de 17 anos - umas das netas e futura herdeira da sua fortuna. Ela e os dois primos, Johnny e Mirren, juntamente com Gat, são "os Mentirosos". Os Mentirosos são jovens idealistas que convivem com a família completa Sinclair e os seus tesouros, segredos, ambições, todos os verões na sua ilha privada. Os Sinclair têm uma ilha privada onde cada uma das três filhas de Tipper e Harris tem a sua casa, sendo que depois se reúnem todos em Clairmont, a casa dos pais, para discutir quem tem mais direito a herdar o quê, e quem tem a cozinha melhor equipada, e quem deve ficar com as pérolas da mãe depois da sua morte.O que mais gostei no livro foi a prosa acessível, sem trejeitos desnecessários, que me pareceu adequada a uma adolescente com algumas preocupações existenciais, para lá da sua juventude e do seu estatuto de privilegiada. E também do contraste jovem/idealista e adulto/cínico. Li-o em dois fôlegos, fiquei surpreendida com o final e recomendo-o como uma leitura leve com alguma substância.Os Sinclair não são nada do que apregoam ser.


Classificação: 4/5*****

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

#230 CLAUDEL, Philippe, O Arquipélago do Cão

Opinião: Este livro poderia chamar-se Manual para a corrupção

Depois de ler O Barulho das Chaves e Almas Cinzentas, rendi-me a Philippe Claudel. Sobretudo o último romance marcou-me de forma inesperada, e recordou-me de outro autor Francês cujo trabalho também admiro: Sébastien Japrisot, falecido em 2003, que me encantou com Um Longo Domingo de Noivado.
Este "O Arquipélago do Cão" foca-se, como a própria sinopse indica, em torno do facto de o nosso Mediterrâneo se estar a tornar num cemitério, um repositório das vítimas de guerras, fome, crises humanitárias em geral. É clara a premissa do livro, que sugere que há uma responsabilidade coletiva no modo como gerimos a situação, mas é tudo tão mais complexo do que isso. Creio que não se discute aqui a humanidade dos três corpos que dão à costa, nem a dignidade daquelas pessoas com base na cor de pele ou crença religiosa. Parece-me que o ponto fulcral, e que passa ao lado do romance porque este tem um tom apressado de novela, ou talvez de ensaio em que a posição do autor surge clara, é que a maioria dos países europeus não tem qualquer responsabilidade sobre o desterro voluntário - e tantas vezes o perecimento - destes homens que arriscam a vida para chegar ilegalmente à Europa. Reconhece-se o desespero com que essas almas se precipitam numa travessia fadada ao insucesso, mas a verdade é que o impacto que vão ter neste Aquipélago do Cão é negativo, e é com esses "prejuízos", que vão muito além de económicos, que o núcleo central de personagens do romance se debate. Procura minimizá-los - na realidade, omiti-los -, o que constitui um evidente dilema moral, gera culpa e macula a alma coletiva daquela comunidade.
O livro deixou-me um sabor agridoce na boca - não sugere uma solução, não dá a entender que a mesma exista, limita-se a culpabilizar os governos e os povos por se alienarem desse problema, ou por o varrerem para baixo do tapete. Com laivos de superstição e de um fatalismo que não creio que tenha sido bem desenvolvidos nas curtas 180 páginas deste quase "ensaio". Faltou o que me mantém presa aos raciocínios do autor: aquelas tiradas inéditas, esclarecedoras, clarividentes, que vêm acrescentar algo aos meus conhecimentos. Ao invés, achei o livro muito dependente de frases que buscavam uma profundidade que nunca atingiam, e até de alguns clichés de discurso. Considerei-o superficial, mesmo por lidar com temas tão lúgubres e delicados. Senti-o mais um embrião do que um livro concluído. Ainda assim, interessante.

Uma nota para a edição da Sextante: não detetei uma única gralha, livro lindo do ponto de vista estético, quer em cor, textura, tipo de letra ideal, facilitou muito a leitura, papel adequado, etc. Foi um caso raro em que o próprio suporte físico do livro contribuiu para elevá-lo e tornou a leitura mais aprazível.

Classificação: 3/5*****


Sinopse: «A história que ides ler é tão real como vós o sois. Passa-se aqui, tal como teria podido desenrolar-se ali. Seria demasiado cómodo pensar que aconteceu noutro lugar. Os nomes dos seres que a povoam pouco importam. Poderiam ser alterados. Pôr os vossos no lugar deles. Assemelhais-vos tanto, procedendo do mesmo molde inalterável. Estou certo de que, mais cedo ou mais tarde, fareis a vós próprios uma pergunta legítima: terá ele sido testemunha do que nos conta? A minha resposta é: sim, fui testemunha disso. Tal como vós o fostes, mas não quisestes ver.»Três cadáveres de homens negros dão à praia, numa pequena ilha perdida do arquipélago do Cão. Dominados pela força divina do vulcão Brau, as gentes do Cão vivem da pesca, da agricultura, da vinha. Todos se conhecem. Que fazer com aqueles corpos? Philippe Claudel, com mão de mestre, escreve uma história notável, uma negra parábola sobre o cinismo, a indiferença e a apatia moral que invade o nosso tempo, tendo como pano de fundo a tragédia das migrações mediterrâneas de hoje.



quinta-feira, 15 de agosto de 2019

#229 DOSTOIEVSKI, Fiódor, Crime e Castigo

description
Dostoievski, por Vasily Perov @ 1872
"Vês, eu nesse tempo perguntava sempre a mim próprio: porque sou eu tão estúpido que, se os outros são estúpidos, e eu sei que são, não quero ser mais inteligente? Depois descobri, Sónia, que se ficamos à espera que os outros se tornem inteligentes, passará demasiado tempo… Depois descobri também que isso nunca acontecerá, que as pessoas não mudarão e ninguém as fará mudar e não vale a pena o esforço!”

“Crime e Castigo”, publicado inicialmente em 1866 por capítulos no “Mensageiro Russo”, tornou-se um clássico da literatura internacional. Confesso que a minha curiosidade quanto aos tão aclamados romances russos nunca foi muito intensa – li A Sonata de Kreutzer e Fumo sem encontrar nada de extraordinário excepto, talvez, algumas reflexões acerca da condição humana e uma dificuldade imensa em acompanhar aqueles caráteres impulsivos, auto-destrutivos e aqueles nomes que me soam tão exóticos. Procurei em “Crime e Castigo” traços do romantismo que, trinta anos anos, lavrava por toda a Europa – o da tuberculose, dos amores condenados, dos suicídios. Numa Rússia profundamente influenciada pelas culturas germânica e francesa, faria todo o sentido que as vozes literárias, de cunho nacionalista, se erguessem para imortalizar a essência de um povo tão sofredor, tão martirizado quanto o russo por essa altura, no entanto, com potencial para tanta grandeza… 

De algum modo, “Crime e Castigo” moldou-me, preparou-me para apreciar melhor a riqueza de emoções humanas desses grandes antropólogos russos, e creio que se voltar agora a ler um desses outros romances, ou se me aventurar num Anna Karénina tirarei muito mais proveito deles do que antes de o ter lido. De repente, vejo-me fascinada pela realidade russa. Há livros assim, que nos expandem a compreensão e nos oferecem um conhecimento maior do mundo ao nosso redor. Há livros que criam um inequívoco antes e depois no leitor…

Creio que é nesse contexto que surgem Dostoievski, Tolstoi, Turguenev e tantos outros seus contemporâneos. Acredito que um escritor é melhor quanto mais tiver sofrido, quanto mais se inquietar com os desconfortos de ser de carne e osso, de sentir, de perder, e a Rússia da segunda metade do século XIX era prolífera nestes desconsolos, pelo que brotaram dela várias vozes superiores nesta nobre arte que é o observar e imortalizar um tempo por via das letras.

Acompanhamos Ráskolnikov numa espiral de desencanto quanto ao seu futuro, às suas circunstâncias e às das pessoas que o rodeiam, em especial a mãe, a irmã, o melhor amigo. Ao cruzar-se com um núcleo sofredor composto por um ex-funcionário público, a sua esposa que decaiu de um estatuto de filha de “quase” governador para infeliz e tísica mulher de um bêbedo (aliás, a personagem que mais me cativou, Katerina Ivánovna), e as muitas e miseráveis crianças desta malfadada união, começa a envolver-se nas misérias de outros, e acaba por ir pondo de lado, em ocasiões, os seus próprios delírios. Destaca-se ainda Sónia, que se ocupa do bem-estar de todos, “aceitando o sofrimento” para apaziguar um pouco as angústias de quem a rodeia, e que personifica uma espécie de Maria Madalena, abnegada e crente, benevolente e sacrificial.

Para mim, a cena de um certo banquete fúnebre é o momento inesquecível deste romance em seis partes, um humor tão apurado, tão delicioso, que não queria sair nunca daquela mesa e daquela companhia:

"- Essa cuca é que tem a culpa de tudo. Compreende de quem estou a falar. Dela, dela! - e Katerina Ivánovna indicava-lhe a senhoria. - Olhe para ela: arregala os olhos, sente que estamos a falar dela, mas não percebe. A coruja! Ah-ah-ah!... E o que quer ela mostrar com aquela touquinha? Gha-gha-gha! Já reparou que ela quer fazer crer a toda a gente que me ajuda e que me honra com a sua presença? Pedi-lhe, como a uma pessoa decente, que convidasse pessoas de qualidade, e concretamente os conhecidos do falecido, e olhe o que ela me trouxe: uns palhaços! Uns porcalhões! Olhe aquele, com a cara cheia de sinais: parece uma ranhoca com duas pernas. E estes polacos...ah-ah-ah! Gha-gha-gha! Ninguém, nunca ninguém os viu por aqui: e porque vieram cá, pergunto eu? Sentadinhos lado a lado, todos cerimoniosos. (...) Não faz mal, que comam. Ao menos não fazem barulho, mas... mas, na verdade, receio pelas colheres de prata da senhoria!... Amália Ivánovna - disse, dirigindo-se à senhoria, quase em voz alta -, se por acaso roubarem as suas colheres, eu não me responsabilizo por elas, aviso-a já! Ah-ah-ah! - e desatou a rir, dirigindo-se outra vez a Ráskolnikov, indicando-lhe de novo a senhoria com a cabeça e alegrando-se com a sua pilhéria. - Não percebeu, não percebeu outra vez. Olhe para ela, ali de boca aberta: uma autêntica coruja com fitas novas, ah-ah-ah!”


“Crime e Castigo” está cheio de personagens complexas, absorventes, que causam pasmo e exasperação. De algum modo, este segundo núcleo proporciona uma redenção inesperada à nossa alma-penada, o assassino torturado que vagueia por S. Peterburgo, o jovem idealista caído da graça de um futuro promissor, mas gorado. O autor criou, neste seu magnus opus, um retrato nítido de uma Rússia desgastada e decadente, sem oportunidades, onde imperam os vícios e as vilanias, pontuados de muita depravação e de uma tendência quase natural para transgredir a lei e os limites da moralidade, para se embebedar, e também por um certo regozijo perante a própria desgraça. A filosofia, a muita dialética que povoa a riqueza destes diálogos vertigionosos, a loucura quase palpável destas personagens em situações extremas de contrariedade e insatisfação, as sementes para a Rússia socialista ali tão evidentes… 

A obra de um génio das letras e da arquitetura narrativa, que me chega tão atual, tão intemporal, cento e cinquenta anos depois do seu momento. Um daqueles livros que não conseguirei esquecer pelo tom lúgubre dos cenários, a dimensão da claustrofobia e do desespero na alma de Ráskolnikov e dos seus conterrâneos. Uma obra colossal alinhavada em torno de um jovem de 23 anos que abandonou os estudos de Direito por acreditar que as pessoas de dividem em “vulgares” e “invulgares”, e que o “invulgar” é raro e é por sua ação que o mundo progride, que a antiga ordem se desfaz para que nasça uma nova, revolucionária, e que lhe é vital ultrapassar os limites das convenções para provar a si mesmo que não é um mero “piolho”, mas sim uma “pessoa”, e por isso urge cometer um crime, livrar-se de uma criatura indesejada e até nociva para a sociedade. 

"Ou supões que eu fiz o que fiz como um tolo, sem pensar? Fi-lo como um homem inteligente e foi isso que me perdeu! Pensarás que eu não sabia, por exemplo, que se começava a interrogar-me sobre se tinha o direito ao poder, precisamente por isso não tinha o direito ao poder? Ou que, se me fizesse a pergunta: é um piolho ou uma pessoa?, por conseguinte a pessoa não era um piolho para mim, mas era piolho para aquele que vai em frente sem fazer essas perguntas…”
Palpita-me que é outro livro que me ficará para a vida, que me há-de ocorrer em inúmeras situações e que voltarei a ler, quando a hora de reler os livros da minha vida chegar.

Classificação: 5/5*****

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

#1 - Jonathan Bate on the Age of Romanticism


Wanderer above the sea of fog - Casper David Friedrich

"Romanticism is above all a movement of ideas. The idea of revolution and the idea of nacionalism. The preposterous sugestion that women, slaves and even animals might have rights. Reverence the nature, vegetarianism and enviromental conscienceness. The radical theory of anarchism and the conservative theory of the organic state. The cult of personality and the very idea of sincerity. The reinvention of poetry as the expression of the self. The belief that nothing matters more to us as human beings than our sensations, our feelings. That individualism and individuals' ideals, whatever they might be, define our freedom and our modernity (...) The modern meanings of the words imagination, creativity, genius, literature. The freedom fighter on the streets and the hiker in the mountains. (...) The alarming notion that it might be glamorous to take drugs and to commit suicide or, at the very least, to live hard and die young. The rebel and the outsider. (…) These are all ideas that emerged or grew in the Romantic Age.”

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

#228 NABOKOV, Vladimir, Lolita

Opinião: Este livro é um daqueles que se pega à pele de quem o lê e assim segue, vida afora. Não me esquecerei da mente conspurcada do Humbert, a ousadia da Lolita e o ambiente doentio que é proporcionado por estas duas pessoas, tão retorcidas, tão marcadas pelo pior da natureza humana. Foi a primeira vez que dei por mim dentro da cabeça do vilão e, consequentemente, surpreendi-me ao desejar que os seus planos se concretizarem sem embaraços. Alguma magia o Nabokov dedicou a este "Lolita"

Classificação: 5*****

Sinopse: «Quase quarenta anos depois, este romance tão artificial criou uma nova palavra internacional ("lolita"), inventou uma América — a dos motéis e autoestradas — de que se nutre ainda boa parte da narrativa americana contemporânea, é uma das obras com o inglês mais rico e preciso da literatura deste século e, ao contrário das acusações iniciais de pornografia que teve de sofrer, é talvez — e no que me diz respeito — o romance mais melancólico, elegante e lírico de quantos li.» [Javier Marías in Literatura e Fantasma]


«A única história de amor convincente do nosso século.»
[Vanity Fair]

«Nabokov escreve prosa do único modo que esta deve ser escrita, ou seja, extasiadamente.»
[John Updike]