domingo, 11 de novembro de 2018

#201 MCNAUGHT, Judith, Paraíso

Sinopse: Eles eram jovens e sonhadores. Com apenas dezoito anos, Meredith era a herdeira da fortuna Bancroft. Matthew, de origens muito humildes, tinha uma inteligência brilhante e uma energia sem fim. Conheceram-se e apaixonaram-se. Juntos, sentiam-se capazes de conquistar o mundo. Por amor, Meredith desafiou o pai pela primeira vez.Onze anos passaram... Matthew mudou muito desde os seus tempos de rapazinho pobre e tímido. Longe vão os dias em que ousou apaixonar-se por Meredith. Foi um amor sem igual, que terminou abruptamente com uma indesculpável traição. Agora, Matthew é um homem poderoso e implacável. Sob o olhar atento dos média, está prestes a lançar-se sobre o império Bancroft. Executiva de topo na empresa do pai, a solitária Meredith prepara-se para defender a todo o custo o império familiar. Mas, à medida que a tensão aumenta, tanto um como o outro se veem perturbados por memórias agridoces e perigosas tentações... Serão eles capazes de arriscar tudo numa paixão que os destroçou no passado?

Opinião: Adorei a primeira parte, mas não consegui amar de paixão porque o livro é enormeSetecentas páginas de drama familiar, acções, accionistas, mercados financeiros, etc., é dose.


Meredith é rica e não sofre do snobismo que tanto lhe afecta o pai, o que a leva a apaixonar-se por um jovem ambicioso e fora do seu elemento. A ligação, como é evidente, aflige os nervos do velho Bancroft, que não se conforma de ver a sua princesa nas mãos de um zé-ninguém.

Matthew Farrell é um pobretanas que estudou a muito custo, e cuja maior ambição é construir um império . Uma vingancinha pessoal contra o velho Bancroft funciona como catalisador nessa ascensão pessoal. 
Paraíso parte do mote dos mal-entendidos, depois aporta nos reencontros, passa pela desconfiança e mais mal-entendidos, e acaba de modo ... satisfatório, mas não arrebatador.
Ainda assim, li-o em dois dias (pulando, despudoradamente, por sobre a muita palha). Acho que, por fim, entendi o que significa um livro ser muito "palavroso". Este é-o, sem dúvida.
Acredito que fãs do género o acolham com entusiasmo e terminem a leitura de peito cheio. É o segundo romance contemporâneo que leio da Judith, e adorei ambos. Só desejava que tivessem 300 páginas a menos. Tanto pormenor desnecessário maça-me até ao limiar do coma distractivo. 

Classificação: 3,5/5*****

terça-feira, 11 de setembro de 2018

#200 QUINN, Julia, A Indomável Miss Bridgerton

Sinopse: Por vezes, o amor surge nos lugares mais inesperados…

Não é o caso, desta vez.

Todos esperam que Billie Bridgerton se case com um dos irmãos Rokesby. As famílias são vizinhas desde sempre, e Edward e Andrew os eternos companheiros de brincadeiras de Billie. Tanto um como o outro dariam um excelente marido. Por vezes, apaixonamo-nos pela pessoa que seria perfeita para nós... Outras vezes, não.

Há apenas um Rokesby que Billie não tolera de forma alguma: George. Pode ser o mais velho, e o herdeiro do título, mas é arrogante e irritante. Ainda por cima, o ódio é mútuo, algo que lhe convém na perfeição. Mas, por vezes, o Destino tem um sentido de humor perverso...

Pois quando Billie e George ficarem a sós… (certamente no mais inusitado dos locais!) e os seus lábios relutantes finalmente se unirem num beijo, os dois poderão vir a descobrir que a pessoa que não suportam pode bem ser aquela sem a qual não conseguem viver. Os fãs dos Bridgerton – para os quais o fim da saga foi o fim do mundo – têm agora uma nova razão para viver. A série Rokesby – que é uma prequela às tão adoradas histórias da família mais extravagante da Regência – não só os traz de volta como conta como tudo começou…

Opinião: O que procuro num livro destes? Amor de tirar o fôlego, talvez. Originalidade. Humor. Riso. Comoção. Achei-o tépido e desinspirado, sem mencionar que se passa no período riquíssimo do pós-Revolução Americana (1779), e que é explorado de um modo bem superficial. A relação de Billie e George é enrolada, terna mas sem percalços. O único veículo incendiário do amor é o ciúme, é isso que apressa tudo. As primeiras 50 páginas são passadas num telhado, na página 200 ainda se fala do telhado. Só diálogo, diálogo, e muito pouca contemplação. Não me disse grande coisa. 

Classificação: 2,5/5*****

segunda-feira, 23 de julho de 2018

#199 VAUGHAM, Sarah, Anatomia de um Escândalo

Sinopse: James Whitehouse é um bom pai, um marido dedicado e uma figura pública carismática e bem-sucedida. Um dia, é acusado de violação por uma colaboradora próxima. Sophie, a sua esposa, está convencida de que ele é inocente e procura desesperadamente proteger a sua família das mentiras que ameaçam arruinar-lhes a vida.

Será que é sempre interpretada da mesma forma?
Kate Woodcroft é a advogada de acusação. Ela sabe que no tribunal vence quem apresentar os melhores argumentos, e não necessariamente quem é inocente. Ainda assim, está certa de que James é culpado e tudo fará para o condenar.
De que lado estará a verdade?
Será James vítima de um infeliz mal-entendido ou o autor de um sórdido crime? E estará a razão do lado de Sophie ou de Kate? Este escândalo — que irá forçar Sophie a reavaliar o seu casamento e Kate a enfrentar os seus demónios — deixará marcas na vida de todos eles.

Opinião: Sinto que este livro tinha imenso potencial, mas nunca chegou a arrancar. 
A abordagem da autora mata qualquer possível momento de clímax. O modo como as coisas são anunciadas, como a própria acção se desenvolve, em analepses nem sempre claras (sobretudo no início, em que ainda estamos confusos e começamos a saltar entre vários meses do mesmo ano, apenas para espreitar retratos familiares), acaba por roubar o entusiasmo que um livro com um mínimo de mistério teria a oferecer.

Anatomia de um escândalo era, em março, o #7 da Best-seller list doSunday Times, nada a que preste atenção, mas é indicativo do seu sucesso. Ao lê-lo, perguntei-me porquê. Os primeiros sinais de aviso vieram quando me senti entediada de morte com o detalhe do quotidiano das personagens, e a considera-los superficiais - um drama mais explicado do que sentido - perante uma situação tão séria. Dei por mim a pensar "já li isto", logo nas primeiras cem páginas. A sinopse é muito clara: há uma advogada de acusação chamada Kate, convencidíssima de que James Whitehouse é culpado da violação de que é acusado, e há a mulher perfeita, Sophie, que não pode acreditar que o seu marido fizesse aquilo a mulher alguma. Aos capítulos que alternam de personagem (A Kate, na primeira pessoa - porquê?, e a Sophie na terceira pessoa, junta-se uma Holly de 1993.

Achei a própria estrutura do romance atrapalhada. Vários capítulos de Kate na primeira pessoa, a procurar uma proximidade com o leitor, a interpela-lo, intercalada com uma Sophie distante, sobre a qual o narrador divaga, acaba por nos deixar num limbo estranho. Depois surge uma série de capítulos sobre Oxford, aí umas 50 páginas, que são mera palha. Além de palha, são a continuação dos estereótipos já iniciados com as personagens principais. Ora vejamos: James Whitehouse é lindo de morrer, as miúdas atiram-se-lhe aos pés desde a escola - já o sabíamos antes de subir a voz de Holly, porque Sophie não se cansa de expressar gratidão por ter sido a eleita de James -, Sophie é a esposa perfeita que abandonou a carreira para cuidar dos miúdos e que, apesar de vir do mesmo berço de ouro de James, surge crítica quanto às suas amigas da alta, como se houvesse algum motivo para ela ser diferente (o que não faz sentido até ao estalar do escândalo). As crianças são decorativas, servem apenas para ilustrar a família perfeita e para sugerir que James não arriscaria tanto num momento de imprudência. Kate, apesar de ser a personagem melhor retratada, é ridícula. A autora esforça-se para que assim seja. Estava a aceitar mais ou menos bem que a própria considerasse a peruca de juíza pouco atractiva, e ainda os sapatos de fivela, mas fartei-me da descrição do seu corpo. É que a autora quis que a advogada de acusação, Kate, fosse uma espécie de andrógena. O objectivo - e suponho que esteja errado a muitos níveis - é que, não tendo nada de atraente, também não se sentisse atraída. Sendo assim, Kate parece ser a única pessoa imune ao charme e carisma naturais de James. Mesmo aqui, e apesar de serem sugeridos fantasmas no passado de Kate, pois que se fala de uma "reinvenção" logo de início, gostaria que a abordagem fosse diferente. Porquê pintar a sua personagem mais forte com o modelo estereotipado da advogada workaholic, incapaz de ter um relacionamento, de se empenhar na sua vida pessoal, escanzelada devido ao desgaste da profissão e sem qualquer outro contexto na sua vida? Familiar que fosse, uma mãe, um pai?
Para mim, o que é imperdoável neste livro é a construção do caso. O núcleo da história é baseado num momento ambíguo, à luz do movimento #metoo e da voz de várias mulheres que vieram apontar o dedo a homens por violação. Falar do assunto é sempre complicado. Um dos subtemas mais complexos é a questão de violação dentro de uma relação. Se um homem (ou uma mulher) insiste com o parceiro, com persuasão física - que dizer da verbal? - e acaba por levar a melhor, sem que o outro quisesse, em efectivo, relacionar-se… Quando pode isto ser considerado violação?

É aqui que a história peca. É um assunto demasiado delicado. Não sei o que sentiram os outros leitores, mas eu senti, ao ler o livro, que o meu entendimento era muito diferente do que, tendenciosamente, me tentavam fazer engolir. E que a Kate, sendo uma advogada tão experiente, deveria ter entendido como o caso era patético. É aqui que reside o problema: a autora fez com que duas pessoas num caso amoroso soem patéticas quando uma diz que foi forçada a sexo tendo deixado claro que não queria ("não aqui"), e que a outra pessoa, com quem já se relacionara várias vezes, inclusive em circunstâncias semelhantes que atiram por terra o "não aqui", entende que tudo aquilo é parte do jogo habitual, da dinâmica da sua relação, "não fosses tão oferecida". Que há a dizer sobre isto? Será plausível que uma simples assistente abrisse a boca, tendo por base uma história tão ambígua que a pinta como adúltera e promíscua, para ver a sua vida sexual e o seu affair com um homem bem relacionado vasculhados, devido ao trauma do breve encontro? Não seria mais humano - não procuro o certo e o errado, mas a possível humanidade da teia deste romance - arrumar para o lado, considerar que foi a gota de água, porque causou desconforto (não diria trauma, pelo menos no caso central do romance), e pegar nisso para esquecer o homem que, de outro modo, já deveria ter deixado ir? Ou será que deitaria a sua carreira e o seu nome por terra para expor um homem quase intocável por causa de um encontro sexual que não correu conforme previra?

Não sei. É tudo demasiado confuso. Em geral, parece-me pouco plausível. A meio do livro já saltava parágrafos inteiros - já não conseguia ouvir nenhum dos intervenientes perguntar de novo quem rasgara as cuecas de renda preta da vítima - e, mesmo aqui, umas cuecas rasgadas significam violação? Que significa isto? Que quando não há roupa rasgada a mulher não foi violada? E como é que ninguém, jamais, no livro inteiro, sugere que a vítima as possa ter rasgado sozinha de propósito para o incriminar? Muito menos me interessava ler sobre a Kate circunspecta na sua sala de advogada, ou sobre a descrição de todos os corredores por onde passavam, ou sobre as suas noites solitárias e atormentadas, às quais se seguiam - para ela e para Sophie, salvo erro - sessões de exercício frenético. Pior: não queria saber de ninguém. Nem da esposa que por fim desenvolve dois dedos de testa, nem do bonito James, nem dos seus ombros largos, nem do seu sorriso auto-depreciativo e da sua amizade com o PM. Também pouco me interessava que a Kate ganhasse ou perdesse o caso.

Esperei um climax durante o livro inteiro. Entendi que era suposto que o climax fosse a revelação dos eventos da noite de 5 de Junho, quando o clube de arruaceiros privilegiados a que James pertencia levou as brincadeiras habituais além da conta. Quando a descrição veio, já estava mais do que desligada. Para mim o livro já tinha morrido há muito, e não havia suporte artificial que mantivesse a minha atenção ligada naquelas pessoas unidimensionais.

Como poderia isto ter funcionado?Mais capítulos sobre James, e menos sobre Sophie a fazer chá.
Menos descrição.
Menos dia-a-dia em Oxford: é palha.
Menos estereótipos, mais atitude.
Dar voz à vítima.
Para chegar aos leitores, ao seu entendimento, acharia essencial ao menos alguns capítulos onde Olivia explicasse como tudo aconteceu, qual a sua versão dos factos fora da barra do tribunal. Faria mais sentido ainda se James fosse igualmente reflexivo do seu lado. Porque este romance é isso: um mal-entendido. Uma interpretação que diverge, o ténue conceito de consensual. É isto, mas com muita pretensão (gorada) de ser mais.


Classificação: 2,5/5*****

#198 REIS, João, A Devastação do Silêncio

Sinopse: A Grande Guerra assola a Europa do início do século XX. Um capitão do Corpo Expedicionário Português encontra-se num campo de prisioneiros alemão, sem documentos que atestem a sua patente de oficial, obrigado a partilhar a vida e o destino dos seus conterrâneos mais pobres. Tem fome, ouve detonações constantes, observa, sonha, procura um sentido para tudo aquilo que o rodeia, tenta terminar o relato de uma estranha história sobre cientistas alemães e gravações de voz, procura desesperadamente o silêncio e, acima de tudo, a paz das coisas simples. 

Opinião: Inicialmente havia considerado um 3,5 arredondado para 4, mas conforme sou obrigada a reflectir sobre a narrativa, entendo que não me tocou. É uma pena, porque é um retrato nítido, um close-up aflitivo do que foram as agruras que os portugueses passaram na Frente.

É uma abordagem interessate, na medida em que não é político. A política é o que menos interessa para aqueles homens, cujos corpos e a sanidade são postos à prova durante mais tempo do que deveria ser suportável, e que, no instante em que o autor aponta o seu foco ao momento histórico, já o seu calvário se tornara ensandecedor. É quase um ensaio, um teste. Não procura ser épico, e isso, a nível nacional, parece-me novidade.

A haver uma palavra que o resuma, esta seria fome. Sente-se a fome, como se sente a doença, como se sente o esquecimento, os percevejos, o frio, a lama, a devastação da paisagem, a influenza a aproximar-se. Salvo erro, a data específica em que a acção decorre, nunca é informada. Também não importa, trata-se de um encontro entre dois homens numa estação de comboio; e o incessante palavrear de um deles, que se dissera em tempos silencioso, revela que guarda ainda todos aqueles episódios em si, toda aquela angústia, todos aqueles recados de bons homens que iam perecendo ao seu redor.
A narrativa é muito coesa, o livro é muito bem conseguido, um pouco como se o autor o tivesse escrito todo sob o mesmo ânimo, com o mesmo princípio metódico, com a mesma cadência na respiração. Isso é algo que nunca consegui fazer, por isso é uma característica que admiro instintivamente. 

Posto isto, o que não gostei no livro? Repetição. Há uma tendência que encontro nalguns escritores nacionais em repetir uma ideia até à exaustão. Talvez neste livro haja razão de ser, e de facto acompanha a psique das personagens, a sua fraqueza física e desgaste emocional, a sua confusão geográfica, temporal, a incerteza. Quase se ouve o espírito a quebrar-se-lhes, mas a verdade é que já em 2007, quando li Cemitério de Pianos, troçava da minha melhor amiga por o ter como seu livro favorito. "A luz na janela, a luz na cortina, a luz no chão, a luz no espelho e a luz no teu olhar", parafraseando. No caso deste romance, é a fome. A fome, o "gravar a sua voz" e, a dada altura, "as margens do rio". Se lesse mais uma vez "Baden-Baden"... A dada altura o discurso tornou-se repetido até ao expoente da loucura, talvez para entendermos como a personagem principal está entediada, como tem a cabeça noutro lado (nos talos, nos nabos, nos piolhos e nos percevejos). 

Pareceu-me estar de novo no centro do furacão daquilo que me parece uma tendência muito forte nos autores lusófonos. Achei o discurso corrido difícil de acompanhar às vezes, e devo ter precisado de talvez 2/3 do romance para me ambientar a ele, para começar a distinguir nomes, personagens, temporalidade, ritmo.
Ainda assim, e acima de tudo, é um romance que envolve, que nos arrasta para a Frente. Que nos faz questionar o que nos mantém sãos, o que conseguiríamos suportar; as intempéries estão ali todas, a testar-nos a sensibilidade. Mais importante ainda: recorda-nos a heróica resistência dos portugueses em circunstâncias ignóbeis, numa guerra que nunca foi para ser nossa.


Classificação: 2,5/5*****

#197 HOOVER, Colleen, Isto Acaba Aqui

Sinopse: Grande Vencedor do Prémio Goodreads Melhor Romance de 2016

O que te resta quando o homem dos teus sonhos te magoa? Lily tem 25 anos. Acaba de se mudar para Boston, pronta para começar uma nova vida e encontrar finalmente a felicidade. No terraço de um edifício, onde se refugia para pensar, conhece o homem dos seus sonhos: Ryle. Um neurocirurgião. Bonito. Inteligente. Perfeito. Todas as peças começam a encaixar-se.
Mas Ryle tem um segredo. Um passado que não conta a ninguém, nem mesmo a Lily. Existe dentro dele um turbilhão que faz Lily recordar-se do seu pai e das coisas que este fazia à sua mãe, mascaradas de amor, e sucedidas por pedidos de desculpa.
Será Lily capaz de perceber os sinais antes que seja demasiado tarde? Terá força para interromper o ciclo?


Opinião: Este livro partiu-me o coração de um modo absolutamente inesperado. Contava com violência e com alguma ilusão, mas não estava à espera que as minhas emoções fossem catapultadas para o centro daquelas vidas, não me esperava que um assunto que não me é familiar se tornasse tão íntimo.

Acho que é sabido que o livro narra a história de uma relação abusiva, mas narra mais do que isso. É exímio em colocar-nos na vida de Lily Bloom, no entendimento profundo quanto aos seus sonhos e sentimentos. Um livro tão bom nos detalhes significativos para as personagens que senti estar sempre por dentro do que magoaria uns e outros.

Há que admirar a autora por não ter pintado a história de negro. Foi a primeira vez que li Colleen Hoover e fiquei impressionada com as dimensões que imprimiu a estas pessoas. Gosto de livros em que o bom não é só bom, e o mau não é só mau. Gostei, sobretudo, de como fiquei tão abalada quanto a Lily; de como, tal como ela, não imaginava que nada de mau pudesse vir do homem que alterara a sua vida por ela, para a incluir, e que tanto a apoiava e elogiava a cada nova conquista. Quando veio, e todos sabemos que veio, porque a sinopse o anuncia, foi de partir o coração. Pelos dois. E porque Ryle Kincaid, neurocirurgião, não é só um homem que perde as estribeiras de vez em quando: em muitos aspectos, é o homem dos sonhos da Lily e de muitas mulheres em geral. Daí que seja um livro sobre limites. Quanto estamos dispostos a suportar de mau, de indiscutivelmente mau, para podermos beneficiar do lado bom, que é genuinamente bom? Há modo de virar o rosto à mácula e continuar pela vida com a sensação de gratidão inicial?

De louvar que a autora se tenha empenhado em fazer do agressor um homem tão fascinante, para depois nos lançar para o limbo de o amarmos naquelas circunstâncias. O dilema é real: qualquer mulher - moderna, educada, consciente dos seus direitos e da lei, garantiria deixar no mesmo instante o homem que lhe levantasse a mão. Eu própria, confrontada com esse tema e viajando pelos seus meandros quando escrevi Demência, estava certa de que teria feito as coisas diferentes. Não teria sido tão passiva. Isto até ler Isto Acaba Aqui. O ângulo é diferente do meu, é uma perspectiva mais intimista. O sufoco é presente e procura ser ultrapassado enquanto, nas minhas linhas, se trata de algo resolvido.

Não esperava o final. De modo algum. Não o adivinhei nem duas linhas antes de o ver chegar. Foi do nada: estava ali a solução, o final, o caminho possível. E a cena é de uma emotividade poderosa, e o meu peito debatia-se com a razão, que concordava e aplaudia, tudo isso enquanto queria chorar de desgosto. Se soubesse que ele se aproximava, se a compreensão viesse em crescendo não tenho dúvidas de que teria quebrado em soluços.

Em geral, não esquecerei a história. Achei-a bem fundamentada, sentimentalista q.b., cheia de personagens multidimensionais, humanas e falíveis. Daí que o tenha lido num dia. Estarei atenta à autora, e pelo que vejo há bastantes outras obras da sua autoria com classificações tão boas no GR.

Classificação: 5/5*****

quinta-feira, 7 de junho de 2018

#196 STEINBECK, John, As Vinhas da Ira

"The Grapes of Wrath became the best-selling book of 1939, selling almost half a million copies (at $2.75 a copy) in the first year of publication alone. In 1940, the novel also won the Pulitzer prize for fiction, and would subsequently be taught in schools and colleges across the United States."

As Vinhas da Ira é a obra-prima de John Steinbeck, publicada em Abril de 1939. É, também, um livro controverso, e o romance americano mais lido e comentado do séc. XX. A controvérsia é facilmente explicada: onde se fala de oprimidos, traça-se, com naturalidade, o perfil do opressor. E os opressores neste livro de monumental coragem e pertinência, eram a Associated Farmers of California, bem como os bancos e os grandes proprietários capitalistas. 

As palavras chave que acompanham a narrativa, ou qualquer artigo que se aceda a propósito deste vencedor de um Pulitzer em 1940, com meio milhão de cópias vendidas só no ano do seu lançamento, são dignidade, perseverança, pobreza. Algures, numa sinopse, li algo como “Um romance sobre gente decente em condições intoleráveis”. Pensemos que é a época da Grande Depressão e um pré-II Guerra Mundial, o mundo está tenso e a economia quebrada. Há teorias académicas sobre superioridade da raça, sobre eugenia. Em 1932, Erskine Caldwell publicara A Estrada do Tabaco que, a meu ver, é a sua perspectiva sobre a indignidade da população pobre, ignorante, suja. Como se não bastasse, dá-se ainda o fenómeno ecológico Dust Bowls, são os Dirty Thirties e formam-se tempestades de poeira sobre o centro dos Estados Unidos, afectando as colheitas dos estados do Oaklahoma, Kansas, Texas e Arizona. Estima-se que, na década de trinta e até 1939, 116 mil famílias (cada uma possivelmente numerosa), se tenha deslocado das Grandes Planícies para a Califórnia, para escapar à seca, às tempestades de poeira e à pneumonia e outros males causados por essa circunstância. Fugiam também à fome, porque os bancos e grandes proprietários vieram cobrar hipotecas de gente endividada após uma década de dificuldades, e arrasaram-lhes as casas com tractores.
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"Se me não dissessem que devia ir-me embora, era provável que eu, a estas horas, estivesse na Califórnia, a papar uvas e a descascar uma laranja quando me apetecesse. Mas, mandarem-me embora estes filhos da mãe, isso não, por Jesus. Um homem como eu não se submete assim."


As Vinhas da Ira conta a saga da família Joad que, após alguns meses na estrada, se mescla por completo com os outros Okies (o modo desdenhoso como os Californianos vão recebendo cada vez mais e mais destituídos). Acompanhamos a família dos seus vários prismas. Primeiro, do ponto de vista individual, o foco principal incide sobre o jovem Tom Joad. Os contornos de cada membro da família Joad são muito nítidos, muito consistentes, e Tom é um tipo tranquilo, malgrado ter acabado de cumprir pena por homicídio. Regressa a casa sem fazer ideia de como a situação se agravou para toda a família (todo o Estado) durante a sua ausência. Steinbeck dá-nos assim a oportunidade de analisar a devastação do seu mundo pelos seus olhos de retornado. À poeira junta-se o oportunismo, e a comunidade está de cabeça para baixo, dividida entre executores de dívidas e executados. O crédito sufoca-os também. À passagem do tractor, nada fica de pé. A família carrega então a sua velha camioneta com os pertences que consideram necessários, e partem de Sallisaw, como todas as outras, rumo a Oeste.
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Não demora muito para que os Joads se dêem conta de que percorrem a Estrada 66 à semelhança de centenas de outros veículos vergados sob o peso da carga de uma vida inteira, e que vão tolhidos pela mesma necessidade de água, comida e trabalho. 

"A 66 é o caminho de um povo em fuga."


O que é de louvar é o modo como os Joad nem por um instante perdem a dignidade. Ou mesmo a generosidade, o companheirismo. Damo-nos conta do papel de amparo de um país, das suas leis. Do modo como a economia se isola de tudo isso, de como o capitalismo, por vezes tão associado à verdadeira essência da América, também causou gravíssimos danos colaterais nalguns momentos da História. Num país já adverso ao comunismo, torna-se evidente, nas linhas de Steinbeck, a necessidade da greve, da união e da subversão para a conquista de direitos básicos e inalienáveis. A etiqueta de vermelhos recai sobre os homens que exigem nada mais do que trabalho digno, respeito. Homens que, apesar de se cavar sob eles o fosso da fome, das epidemias e do desconforto físico, resistem a entregar-se à pilhagem e ao crime. Homens que, enquanto podem, recusam a mendicidade.

Os alicerces da família, cujas intempéries parecem empenhadas em desmantelar, são sem dúvida Tom – o seu espírito vivaço, a sua tranquilidade e o seu crescente sentido de dever, e a Mãe. A Mãe é ela própria uma entidade. Um elo, a alma pulsante da família. Não consigo deixar de comparar esta mulher admirável às marionetes de Hemingway, e fica desde logo claro porque Steinbeck, na minha opinião, lhe é tão superior.
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O romance tem um senso épico, civilizacional. Não admira que se escrevam canções sobre ele (a melancólica/energética The Ghost of Tom Joad, em tantas versões distintas. Que se discuta na escola. Que tenha enfurecido os opressores e granjeado o apoio de Eleonor Roosevelt. Que tenha, de facto, impresso a etiqueta de vergonha nos tornozelos dos fazendeiros impiedosos da Califórnia que, perante a situação da quantidade de a oferta de mão-de-obra ser muito superior à oferta de lavoura, contribuíram para o colapso daqueles miseráveis que, como único pecado, tinham o facto de não ser proprietários nem ter o apoio do estado nem d’o Auxílio. É um Êxodo, de facto. Não pude deixar de compará-los ao povo Judeu, em marcha para fugir à escravidão e à brutalidade dos egípcios. Aqui é o povo das Grandes Planícies, pessoas que, de repente, se dão conta de que são um todo marchante, à beira de um abismo que não cessa de se aprofundar. E vão suportando, suportando, e a ira cresce. 


"Ele disse uma vez que tinha ido para o mato, à procura da própria alma, e que, por fim, descobrira que não tinha uma alma que fosse só dele. Disse que tinha unicamente uma pequena parte de uma alma enorme. E ele achava que não valia de nada andar por sítios desertos, porque aí, a tal pequena alma que ele tinha não servia para nada. Só tinha utilidade quando estava junto das outras com quem formava um todo. (...) Mas agora sei que um indivíduo solitário não tem préstimo nenhum."

Saliento ainda a prosa acessível de Steinbeck, embora, por vezes, o seu discurso, os seus diálogos, tenham contornos Bíblicos, místicos. Quando li A Um Deus Desconhecido, reconheci traços de Jesus na personagem principal. Aqui, com facilidade, podemos reconhecer um outro Jesus em êxodo, e uma Maria sofrida mas de pé, a segurar a família ao seu redor e contra o seio.



E o discurso transcendente, que nos deixa com a garganta apertada e a sensação de estarmos perante algo maior:


"Estarei em toda a parte, em qualquer sítio para onde a senhora se puser a olhar. Onde quer que se lute para que a gente com fome possa comer... eu estarei presente. Onde quer que a polícia estar a bater num tipo, eu estarei presente. (...) Estarei onde quer que vejam criaturas a gritar de raiva... e estarei onde as crianças sorriam porque têm fome, mas saibam que a ceia não tarda. E quando a nossa gente comer aquilo que plantar e morar nas casas que construir... então também estarei presente."

É-me evidente que um dia voltarei a lê-lo.
Classificação: 5*****

#195 KLEYPAS, Lisa, Cold-Hearted Rake

Synopsys: A twist of fate . . .

Devon Ravenel, London's most wickedly charming rake, has just inherited an earldom. But his powerful new rank in society comes with unwanted responsibilities . . . and more than a few surprises. His estate is saddled with debt, and the late earl's three innocent sisters are still occupying the house . . . along with Kathleen, Lady Trenear, a beautiful young widow whose sharp wit and determination are a match for Devon's own.

A clash of wills . . .

Kathleen knows better than to trust a ruthless scoundrel like Devon. But the fiery attraction between them is impossible to deny—and from the first moment Devon holds her in his arms, he vows to do whatever it takes to possess her. As Kathleen finds herself yielding to his skillfully erotic seduction, only one question remains:
Can she keep from surrendering her heart to the most dangerous man she's ever known?

Opinion: Sei perfeitamente que a quantidade não importa tanto quanto a qualidade, mas estou surpreendida comigo mesmo por me encontrar numa fase em que, em poucas horas, e em formato e-book, despacho uns quantos romances cor-de-rosa. Conforme avisei as minhas colegas, estes livros incitam à procriação. Por isso, mantenham-se longe deles se não querem ter filhos.

Lisa Kleypas tem sido a minha escritora favorita deste género tão em voga há uns 20 anos entre leitoras vorazes – histórico-romântico-erótico. Elevou por completo o standard do género no maravilhoso "The Devil in Winter” (não menciono a tradução para português, primeiro porque não me lembro, depois porque é embaraçoso, mas é isto: Paixão Sublime). Há outros, de outras autoras, que por ventura gosto tanto quanto desse. Mas os enredos acabam por se esbater na minha ideia. Fica sempre esse. Porque gostei tanto desse livro? Não é o livro em si. Não a viagem das personagens nem os altos e baixos do seu relacionamento. É, somente, o modo como a autora conseguiu que duas pessoas tão opostas fossem de maneira tão óbvia feitas uma para a outra, e se moldassem à outra, às suas necessidades, aos seus medos, aos seus anseios. St. Vincent e Evie jamais saíram do meu imaginário romântico (o nobre inútil que arregaça as mangas, de moral mais do que duvidosa, e a ruivinha gaga, desprovida de qualquer coragem ou determinação até o conhecer).

Cold-Hearted Rake compactua com a tradição dos livros com títulos embaraçosamente maus, mas talvez seja uma espécie de código que permite aos leitores saberem ao que vão sempre que há um livro com títulos nobiliárquicos envolvidos. Também nunca é bem verdade, porque o protagonista conhece a sua alma-gémea e muda por completo de atitude. No caso de Devon, a fórmula não funciona mal. Ele não possuía nenhum título, nem nenhuma ambição ou desejo de nobreza ou propriedade. Bastava-lhe a sua vida sem responsabilidades. Quando herda o condado do primo, que acaba de falecer, traça um plano simples para voltar à sua vida confortável: desmantelar tudo, vender o que for possível desvincular do título, pôr a viúva e as irmãs do falecido a andar e voltar a Londres no próximo comboio. Só que, apesar da sua determinação, a viúva do primo, jovem e sem perspectivas de futuro, consegue desafia-lo a inverter a situação do condado, assistir os arrendatários e devolver o esplendor a Eversby Prior.

Gostei muito da época retratada, em que o mundo rural começa a colidir com a industrialização em massa. Linhas férreas ligam toda a Inglaterra, os homens de negócios e os de título são forçados a conviver e, daí, nasce uma certa admiração (por vezes desprezo) mútuos. É um mundo em mudança e foge à Regência, que parece ser a altura favorita destas escritoras de época.

Resumindo: óptima química entre a viúva irlandesa (Kathleen) e o jovem e despreocupado Devon, que acaba por se importar com o funcionamento da propriedade, os arrendatários, a torturada Kathleen e as desamparadas três irmãs do falecido conde. A parte em que trocam galhardetes via carta foi interessante, porque uma relação também pode evoluir por escrito, sem a picada da atracção física, o que cimentou melhor o afecto que nascia entre os dois.

Agora vou continuar para o volume #2 desta família, Marrying Winterborne, em torno do amigo de Devon, um comerciante sem título, e a sua sobrinha, a delicada Helen, que tem vivido uma vida de reclusão em torno das suas preciosas orquídeas. Já se sabe que, neste tipo de livros, nunca ninguém tem muito bom feitio, ou não haveria tanto conflito (drama) e tanta redenção (entrega).
Só espero conseguir começar a lê-lo mais cedo, porque terminei o outro às 3h da madrugada, o que não é nada aconselhável a meio da semana. 

Classificação: 4*****/*


Note: E-book read in English