quinta-feira, 22 de agosto de 2019

#230 CLAUDEL, Philippe, O Arquipélago do Cão

Opinião: Este livro poderia chamar-se Manual para a corrupção

Depois de ler O Barulho das Chaves e Almas Cinzentas, rendi-me a Philippe Claudel. Sobretudo o último romance marcou-me de forma inesperada, e recordou-me de outro autor Francês cujo trabalho também admiro: Sébastien Japrisot, falecido em 2003, que me encantou com Um Longo Domingo de Noivado.
Este "O Arquipélago do Cão" foca-se, como a própria sinopse indica, em torno do facto de o nosso Mediterrâneo se estar a tornar num cemitério, um repositório das vítimas de guerras, fome, crises humanitárias em geral. É clara a premissa do livro, que sugere que há uma responsabilidade coletiva no modo como gerimos a situação, mas é tudo tão mais complexo do que isso. Creio que não se discute aqui a humanidade dos três corpos que dão à costa, nem a dignidade daquelas pessoas com base na cor de pele ou crença religiosa. Parece-me que o ponto fulcral, e que passa ao lado do romance porque este tem um tom apressado de novela, ou talvez de ensaio em que a posição do autor surge clara, é que a maioria dos países europeus não tem qualquer responsabilidade sobre o desterro voluntário - e tantas vezes o perecimento - destes homens que arriscam a vida para chegar ilegalmente à Europa. Reconhece-se o desespero com que essas almas se precipitam numa travessia fadada ao insucesso, mas a verdade é que o impacto que vão ter neste Aquipélago do Cão é negativo, e é com esses "prejuízos", que vão muito além de económicos, que o núcleo central de personagens do romance se debate. Procura minimizá-los - na realidade, omiti-los -, o que constitui um evidente dilema moral, gera culpa e macula a alma coletiva daquela comunidade.
O livro deixou-me um sabor agridoce na boca - não sugere uma solução, não dá a entender que a mesma exista, limita-se a culpabilizar os governos e os povos por se alienarem desse problema, ou por o varrerem para baixo do tapete. Com laivos de superstição e de um fatalismo que não creio que tenha sido bem desenvolvidos nas curtas 180 páginas deste quase "ensaio". Faltou o que me mantém presa aos raciocínios do autor: aquelas tiradas inéditas, esclarecedoras, clarividentes, que vêm acrescentar algo aos meus conhecimentos. Ao invés, achei o livro muito dependente de frases que buscavam uma profundidade que nunca atingiam, e até de alguns clichés de discurso. Considerei-o superficial, mesmo por lidar com temas tão lúgubres e delicados. Senti-o mais um embrião do que um livro concluído. Ainda assim, interessante.

Uma nota para a edição da Sextante: não detetei uma única gralha, livro lindo do ponto de vista estético, quer em cor, textura, tipo de letra ideal, facilitou muito a leitura, papel adequado, etc. Foi um caso raro em que o próprio suporte físico do livro contribuiu para elevá-lo e tornou a leitura mais aprazível.

Classificação: 3/5*****


Sinopse: «A história que ides ler é tão real como vós o sois. Passa-se aqui, tal como teria podido desenrolar-se ali. Seria demasiado cómodo pensar que aconteceu noutro lugar. Os nomes dos seres que a povoam pouco importam. Poderiam ser alterados. Pôr os vossos no lugar deles. Assemelhais-vos tanto, procedendo do mesmo molde inalterável. Estou certo de que, mais cedo ou mais tarde, fareis a vós próprios uma pergunta legítima: terá ele sido testemunha do que nos conta? A minha resposta é: sim, fui testemunha disso. Tal como vós o fostes, mas não quisestes ver.»Três cadáveres de homens negros dão à praia, numa pequena ilha perdida do arquipélago do Cão. Dominados pela força divina do vulcão Brau, as gentes do Cão vivem da pesca, da agricultura, da vinha. Todos se conhecem. Que fazer com aqueles corpos? Philippe Claudel, com mão de mestre, escreve uma história notável, uma negra parábola sobre o cinismo, a indiferença e a apatia moral que invade o nosso tempo, tendo como pano de fundo a tragédia das migrações mediterrâneas de hoje.



quinta-feira, 15 de agosto de 2019

#229 DOSTOIEVSKI, Fiódor, Crime e Castigo

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Dostoievski, por Vasily Perov @ 1872
"Vês, eu nesse tempo perguntava sempre a mim próprio: porque sou eu tão estúpido que, se os outros são estúpidos, e eu sei que são, não quero ser mais inteligente? Depois descobri, Sónia, que se ficamos à espera que os outros se tornem inteligentes, passará demasiado tempo… Depois descobri também que isso nunca acontecerá, que as pessoas não mudarão e ninguém as fará mudar e não vale a pena o esforço!”

“Crime e Castigo”, publicado inicialmente em 1866 por capítulos no “Mensageiro Russo”, tornou-se um clássico da literatura internacional. Confesso que a minha curiosidade quanto aos tão aclamados romances russos nunca foi muito intensa – li A Sonata de Kreutzer e Fumo sem encontrar nada de extraordinário excepto, talvez, algumas reflexões acerca da condição humana e uma dificuldade imensa em acompanhar aqueles caráteres impulsivos, auto-destrutivos e aqueles nomes que me soam tão exóticos. Procurei em “Crime e Castigo” traços do romantismo que, trinta anos anos, lavrava por toda a Europa – o da tuberculose, dos amores condenados, dos suicídios. Numa Rússia profundamente influenciada pelas culturas germânica e francesa, faria todo o sentido que as vozes literárias, de cunho nacionalista, se erguessem para imortalizar a essência de um povo tão sofredor, tão martirizado quanto o russo por essa altura, no entanto, com potencial para tanta grandeza… 

De algum modo, “Crime e Castigo” moldou-me, preparou-me para apreciar melhor a riqueza de emoções humanas desses grandes antropólogos russos, e creio que se voltar agora a ler um desses outros romances, ou se me aventurar num Anna Karénina tirarei muito mais proveito deles do que antes de o ter lido. De repente, vejo-me fascinada pela realidade russa. Há livros assim, que nos expandem a compreensão e nos oferecem um conhecimento maior do mundo ao nosso redor. Há livros que criam um inequívoco antes e depois no leitor…

Creio que é nesse contexto que surgem Dostoievski, Tolstoi, Turguenev e tantos outros seus contemporâneos. Acredito que um escritor é melhor quanto mais tiver sofrido, quanto mais se inquietar com os desconfortos de ser de carne e osso, de sentir, de perder, e a Rússia da segunda metade do século XIX era prolífera nestes desconsolos, pelo que brotaram dela várias vozes superiores nesta nobre arte que é o observar e imortalizar um tempo por via das letras.

Acompanhamos Ráskolnikov numa espiral de desencanto quanto ao seu futuro, às suas circunstâncias e às das pessoas que o rodeiam, em especial a mãe, a irmã, o melhor amigo. Ao cruzar-se com um núcleo sofredor composto por um ex-funcionário público, a sua esposa que decaiu de um estatuto de filha de “quase” governador para infeliz e tísica mulher de um bêbedo (aliás, a personagem que mais me cativou, Katerina Ivánovna), e as muitas e miseráveis crianças desta malfadada união, começa a envolver-se nas misérias de outros, e acaba por ir pondo de lado, em ocasiões, os seus próprios delírios. Destaca-se ainda Sónia, que se ocupa do bem-estar de todos, “aceitando o sofrimento” para apaziguar um pouco as angústias de quem a rodeia, e que personifica uma espécie de Maria Madalena, abnegada e crente, benevolente e sacrificial.

Para mim, a cena de um certo banquete fúnebre é o momento inesquecível deste romance em seis partes, um humor tão apurado, tão delicioso, que não queria sair nunca daquela mesa e daquela companhia:

"- Essa cuca é que tem a culpa de tudo. Compreende de quem estou a falar. Dela, dela! - e Katerina Ivánovna indicava-lhe a senhoria. - Olhe para ela: arregala os olhos, sente que estamos a falar dela, mas não percebe. A coruja! Ah-ah-ah!... E o que quer ela mostrar com aquela touquinha? Gha-gha-gha! Já reparou que ela quer fazer crer a toda a gente que me ajuda e que me honra com a sua presença? Pedi-lhe, como a uma pessoa decente, que convidasse pessoas de qualidade, e concretamente os conhecidos do falecido, e olhe o que ela me trouxe: uns palhaços! Uns porcalhões! Olhe aquele, com a cara cheia de sinais: parece uma ranhoca com duas pernas. E estes polacos...ah-ah-ah! Gha-gha-gha! Ninguém, nunca ninguém os viu por aqui: e porque vieram cá, pergunto eu? Sentadinhos lado a lado, todos cerimoniosos. (...) Não faz mal, que comam. Ao menos não fazem barulho, mas... mas, na verdade, receio pelas colheres de prata da senhoria!... Amália Ivánovna - disse, dirigindo-se à senhoria, quase em voz alta -, se por acaso roubarem as suas colheres, eu não me responsabilizo por elas, aviso-a já! Ah-ah-ah! - e desatou a rir, dirigindo-se outra vez a Ráskolnikov, indicando-lhe de novo a senhoria com a cabeça e alegrando-se com a sua pilhéria. - Não percebeu, não percebeu outra vez. Olhe para ela, ali de boca aberta: uma autêntica coruja com fitas novas, ah-ah-ah!”


“Crime e Castigo” está cheio de personagens complexas, absorventes, que causam pasmo e exasperação. De algum modo, este segundo núcleo proporciona uma redenção inesperada à nossa alma-penada, o assassino torturado que vagueia por S. Peterburgo, o jovem idealista caído da graça de um futuro promissor, mas gorado. O autor criou, neste seu magnus opus, um retrato nítido de uma Rússia desgastada e decadente, sem oportunidades, onde imperam os vícios e as vilanias, pontuados de muita depravação e de uma tendência quase natural para transgredir a lei e os limites da moralidade, para se embebedar, e também por um certo regozijo perante a própria desgraça. A filosofia, a muita dialética que povoa a riqueza destes diálogos vertigionosos, a loucura quase palpável destas personagens em situações extremas de contrariedade e insatisfação, as sementes para a Rússia socialista ali tão evidentes… 

A obra de um génio das letras e da arquitetura narrativa, que me chega tão atual, tão intemporal, cento e cinquenta anos depois do seu momento. Um daqueles livros que não conseguirei esquecer pelo tom lúgubre dos cenários, a dimensão da claustrofobia e do desespero na alma de Ráskolnikov e dos seus conterrâneos. Uma obra colossal alinhavada em torno de um jovem de 23 anos que abandonou os estudos de Direito por acreditar que as pessoas de dividem em “vulgares” e “invulgares”, e que o “invulgar” é raro e é por sua ação que o mundo progride, que a antiga ordem se desfaz para que nasça uma nova, revolucionária, e que lhe é vital ultrapassar os limites das convenções para provar a si mesmo que não é um mero “piolho”, mas sim uma “pessoa”, e por isso urge cometer um crime, livrar-se de uma criatura indesejada e até nociva para a sociedade. 

"Ou supões que eu fiz o que fiz como um tolo, sem pensar? Fi-lo como um homem inteligente e foi isso que me perdeu! Pensarás que eu não sabia, por exemplo, que se começava a interrogar-me sobre se tinha o direito ao poder, precisamente por isso não tinha o direito ao poder? Ou que, se me fizesse a pergunta: é um piolho ou uma pessoa?, por conseguinte a pessoa não era um piolho para mim, mas era piolho para aquele que vai em frente sem fazer essas perguntas…”
Palpita-me que é outro livro que me ficará para a vida, que me há-de ocorrer em inúmeras situações e que voltarei a ler, quando a hora de reler os livros da minha vida chegar.

Classificação: 5/5*****

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

#1 - Jonathan Bate on the Age of Romanticism


Wanderer above the sea of fog - Casper David Friedrich

"Romanticism is above all a movement of ideas. The idea of revolution and the idea of nacionalism. The preposterous sugestion that women, slaves and even animals might have rights. Reverence the nature, vegetarianism and enviromental conscienceness. The radical theory of anarchism and the conservative theory of the organic state. The cult of personality and the very idea of sincerity. The reinvention of poetry as the expression of the self. The belief that nothing matters more to us as human beings than our sensations, our feelings. That individualism and individuals' ideals, whatever they might be, define our freedom and our modernity (...) The modern meanings of the words imagination, creativity, genius, literature. The freedom fighter on the streets and the hiker in the mountains. (...) The alarming notion that it might be glamorous to take drugs and to commit suicide or, at the very least, to live hard and die young. The rebel and the outsider. (…) These are all ideas that emerged or grew in the Romantic Age.”

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

#228 NABOKOV, Vladimir, Lolita

Opinião: Este livro é um daqueles que se pega à pele de quem o lê e assim segue, vida afora. Não me esquecerei da mente conspurcada do Humbert, a ousadia da Lolita e o ambiente doentio que é proporcionado por estas duas pessoas, tão retorcidas, tão marcadas pelo pior da natureza humana. Foi a primeira vez que dei por mim dentro da cabeça do vilão e, consequentemente, surpreendi-me ao desejar que os seus planos se concretizarem sem embaraços. Alguma magia o Nabokov dedicou a este "Lolita"

Classificação: 5*****

Sinopse: «Quase quarenta anos depois, este romance tão artificial criou uma nova palavra internacional ("lolita"), inventou uma América — a dos motéis e autoestradas — de que se nutre ainda boa parte da narrativa americana contemporânea, é uma das obras com o inglês mais rico e preciso da literatura deste século e, ao contrário das acusações iniciais de pornografia que teve de sofrer, é talvez — e no que me diz respeito — o romance mais melancólico, elegante e lírico de quantos li.» [Javier Marías in Literatura e Fantasma]


«A única história de amor convincente do nosso século.»
[Vanity Fair]

«Nabokov escreve prosa do único modo que esta deve ser escrita, ou seja, extasiadamente.»
[John Updike]

quarta-feira, 24 de julho de 2019

#227 STORK, Francisco X., The Memory of Light

"This strange feeling of not belonging, this sense that every task, even the smallest one, is unpleasant and requires effort - this is how my days will be here."

This book pierced me in places I had forgotten about. I had forgotten that it is possible to forget how it's like to be you. Depression does that for people. Back in 2014, shortly after my cat disappeared and I moved into an apartment alone, I was stroke with depression. It wasn't my first, but it was the first time I named it that way, and it got pretty serious. It stood around until about 2016. Only in January 2016 did I quit medication and started feeling like myself again. Sorry for making the review sound personal, I'll eventually get to the part in which I praise kind and loving Francisco X. Stork, who was writing the book at the time, for having had the bravery to touch his own wounds and dig into these themes. Also, I am amazed at how someone who's lived through so much was capable of writing a novel with this voice - such purity in his view of the world that I almost forgot it wasn't a teenager, but an experienced writer and gentleman, the hand behind it. Thank you, Francisco, for throwing this rope to young people, and to explaining so well that having a mental disease is like living life in the hard mode, with everyone telling you that they'd enjoy it better than you. And that the world isn't so awful, maybe your brain is forcing to see it through the goggles of depression.

"The brokeness out there seems so much greater than the strenght and life given to us."

So, back to my experience with depression, to which I've been open about in the past... I didn't know the nature of that sadness when I was 18, but somehow I was able to reset my mind and produce happy thoughts, listened to joyful songs, moved on from what was holding me to the ground. In 2014 I was firstly hurt by the disappearance of my cat. You might say it was just a cat, but pets are never just animals, and you put your heart, your responsibility, sometimes the love you're not able to share with others into the care of that little creature. And the world is cruel and takes it away with no warning. Then I found myself alone after growing up in a house full of people and noise, without a care in the world for the first time ever. And the weight of the world started to lean on my shoulders and my chest. Anxiety, later on panic attacks. Not being able of keeping the tears from falling in public places, for instance. First I'd cry once a week, only at things that would cause me pain. Soon even beauty, besides animal cruelty, ignorance, prejudice, bad weather, everything would be an excuse to cry. I lost the ability of controlling the tears; they were there several times a week, then every day. Weekends alone were dreadful. My friends were way too young and focused in their own lives - as you should be when you're 23 - to fully acknowledge my aching. And yet some of them managed to understand the seriousness of it and to help me out. 

"Is it possible to be loved and not to feel loved? Isn't love supposed to be felt by the beloved?"

Taking medication wasn't easy. It put me to sleep all day long. I could've lost my friends, my job, the support from my family, for I wasn't me anymore. Everything bothered me or left me upset or made me cry. People said they felt like they weren't allowed to smile or express happiness next to me. I reached rock-bottom, and them climbed all the way back up through months of apathy, tiredness, sleepiness and dizziness from the medication. I had to face the prejudice of going to see a Psychiatrist - everybody was telling me good thoughts and keeping busy would solve it for me. I should stay away from 'taking chemicals". My loved ones made me feel like I was damaged. They didn't realize it this way. You see, besides depression there was anxiety and panic attacks. These last two are kind of hard to ignore, or to fight off with happy thoughts. Right as I write this review, the fire of anxiety is burning in my chest. It's like my lungs can't catch enough air. I'm at peace. Got nowhere else to go. The room is fresh and the book I just finished was good. But the fisiology in me is full alert mode, sirens' on, telling me to rush, to run, to worry. It's also taking my breath away.
Don't expect happy twists and endings. When you have a mental disease, I agree you see the world from a different angle. Maybe you feel things more deeply, all the way down to the layer of your skin where it starts to hurt. Maybe you feel lonely and not fully understood. People who you love will address to you as if somehow this is a weakness of yours, a choice, a trait of softness. As if it is your responsibility that you feel this way. They won't want to hear it, because they believe speaking of it summons the thing with more intensity. Ignore it and it'll go away, as if to say. 

People will surely let you down, because no one is prepared to deal with others acting against what's normal due to mental illness or limitations. No one is ready to see you acting as being other than you. But one thing this book also reminded me, and I needed this reminder: depression may be chemical, physical, physiological, mental, and clinical. But the environment you're in is always - I guess - a trigger to it. The way the author wrapped Vicky's reality shows it pretty well. It's the hidden things, the silenced things; non processed pain, feelings, suppressed will and going against yourself that will possibly get you ill. Vicky was a sensitive girl in a toxic environment, and it doesn't require domestic violence, or poverty, or starvation and filth for once to feel like there's a toxic fog around her.

She was frustrated, silenced; she had given up on explaining herself or being heard and understood. She felt lonely and awkward in her circumstances, in her own home. You can't feel alienated from your relatives, your own space, and not become somehow ill. Also, the pressure I believe to be an American thing - such competition from such young age... I mean, what for? What's made of cooperation? It sounds sick to me that a parent would see financial success and prosperity as the only way to grant his children happiness. That's not even a need... A need would be love and care. I relate to Vicky, for I'd never survive with a sane mind in a society which expects me to compete with others at all times.
This is a novel about friendship and overcoming monumental obstacles - obstacles that only you aknowledge. About the little things you can do to help others. About the absolute necessity of making yourself clear and listen to others. Maybe that's all they need: that someone else stops pushing their idea of happiness and health on them, so that they can foresee a future and a happiness of their own.

So thank you, Francisco. You trully are a gentle soul. I'll write you an e-mail telling you what's so special about having finished this book today.

It's a 5 out of 5.

Synopsys: 16-year-old Vicky Cruz wakes up in a hospital's mental ward after a failed suicide attempt. Now she must find a path to recovery - and perhaps rescue some others along the way.


When Vicky Cruz wakes up in the Lakeview Hospital Mental Disorders ward, she knows one thing: After her suicide attempt, she shouldn't be alive. But then she meets Mona, the live wire; Gabriel, the saint; E.M., always angry; and Dr. Desai, a quiet force. With stories and honesty, kindness and hard work, they push her to reconsider her life before Lakeview, and offer her an acceptance she's never had. 

But Vicky's newfound peace is as fragile as the roses that grow around the hospital. And when a crisis forces the group to split up, sending Vick back to the life that drove her to suicide, she must try to find her own courage and strength. She may not have them. She doesn't know. 

Inspired in part by the author's own experience with depression, The Memory of Light is the rare young adult novel that focuses not on the events leading up to a suicide attempt, but the recovery from one - about living when life doesn't seem worth it, and how we go on anyway.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

#226 HEMINGWAY, Ernest, O Adeus às Armas


"- Não tens a impressão de ser um criminoso, pois não?- Não - disse eu. - Quando estou contigo não tenho.- Tu és um rapaz sem juízo - disse ela -, mas hei de olhar por ti. Não é esplêndido, querido, que eu nem sequer sinta náuseas pela manhã?- Estupendo!- Tu não sabes apreciar a esplêndida esposa que tens. Mas não me importo. Hei de arranjar um lugar onde não te possam prender, e então seremos muito felizes. - Vamos já para lá!- Sim, querido. Irei para onde quiseres e quando quiseres.- Não pensemos em nada.- Está bem."


Opinião:
 Ernest Hemingway nasceu em Julho de 1899, perto de Chicago. Com apenas 19 anos, conseguiu que o exército italiano o aceitasse nas suas fileiras, no contexto da I Guerra Mundial, ocasião em que foi condutor de ambulâncias para a Cruz Vermelha. Por essa altura, terá vivido um amor - possivelmente o seu primeiro amor -, com a enfermeira Agnes von Kurowsky. Tudo isto parece ser a matéria-prima de O Adeus às Armas, volvidos dez anos. Tal como o próprio autor, a sua personagem principal, Frederic Henry, é condutor de ambulâncias no exército italiano, pelo que Hemingway pôde pôr a uso o seu conhecimento da realidade, cultura e particularidades dos italianos (creio ter lido algures que Hemingway dizia apenas escrever sobre aquilo que conhecia bem.)


A senhorita Von Kurowsky, que terá abandonado o nosso jovem autor por outro homem, será a provável inspiração para a enfermeira escocesa Catherine Barkley, com quem Henry se envolve com a guerra como pano de fundo. Também este detalhe tem um fundamento na vida do autor, e ajuda a conferir realismo à narrativa: O Adeus às Armasnão tem nada de heróico ou de épico, é apenas o conto de um punhado de humanos enleados na complexa - e incompreensível - teia da guerra e nas provações práticas da mesma (longe das politiquices).

A primeira obra que li de Hemingway foi Na outra Margem, entre as Árvores, publicado em 1950, quando Hemingway tinha 51 anos e, portanto, uma perspectiva diferente (apurada) da guerra, do amor, das mulheres. Considerei-o machista, misógino, aborrecido. Detestei-lhe os diálogos - por um lado povoados daquela pouca coesão caraterística da comunicação oral, por outro lado desconexos ao ponto de me exasperarem. Neste último, conheci um Hemingway com 30 anos, menos cínico, menos áspero, com um toquezinho subtil de humor, mas já com a mesma carga pesada, lúgubre, que parece ser o seu cunho em cada obra.

Neste livro, compreendi-o melhor. Compreendi que um rapaz de 18, 19 anos, partiu voluntariamente para o horror de um conflito Europeu, a um oceano e a um mundo de distância, onde sofreu um ferimento que lhe cravou mais de 200 estilhaços no joelho. Não consigo imaginar o susto, a alienação. Tão longe de casa, rodeado de estranhos, cheio da energia da juventude e, no entanto, metido numa cama de hospital. Surge a enfermeira bonita, estrangeira. É tudo muito exótico, ainda para mais o rapaz sobreviveu, está apaixonado e ela retribui. Deve sentir-se invencível, imortal. De repente ela foge com outro. Ele é devolvido ao teatro de guerra. Uma vez terminado o horror, volta a casa com os seus fantasmas, e encontra a América prestes a atirar-se aos loucos anos 20. Tem a cabeça cheia de obuses, de disparos, de baionetas e de granadas, da lama das trincheiras e dos clarões de artilharia, mas ao seu redor estão todos a dançar o foxtrot.

Resultado? O capitalismo é nojento. As mulheres umas levianas desmioladas. A guerra é tudo o que conhece, e nela há-de debruçar-se uma vez e outra, e ainda assim a guerra nunca faz sentido, em livro algum que escreva. Tudo o que Hemingway sabe é que entra-se na guerra com tudo o que se é e com tudo o que se tem, e que se sai dela despojado de si mesmo. A guerra engole tudo. Engoliu-o, mastigou-o e devolveu-o a um mundo que lhe era estranho e no qual ele se sentia um alienado. Moldou-o para sempre. Não será por acaso que se suicida em 1961, depois de uma vida de controvérsia, suposto abuso de álcool e alguns escândalos. Gostava de gatos - não me posso esquecer que Hemingway gostava dos místicos felinos, que têm tão pouco de bélico.

Gostei muito desta narrativa de guerra, e os diálogos (que ainda assim, por vezes, me parecem repetitivos e sem nexo) são ligeiros e ajudam a avançar nas páginas. Julgo que uma das principais críticas a este romance é que o amor entre Henry e Catherine parece supérfluo. Acabei por (julgar) entender que na guerra se está tão sozinho, mesmo quando rodeado dos "rapazes", que não é difícil apaixonarmo-nos. Fazer planos para os tempos de paz. Estar-se com alguém, na guerra, é como a ilusão de que talvez haja um pouco da nossa essência, do nosso lado emocional, que pode ficar salvaguardado dos horrores quotidianos. 

O final tocou-me, validou o romance, principalmente porque o livro segue um mesmo tom, sem grandes altos e baixos mesmo nos momentos de suposto climax emocional. Creio que Hemingway dirigiu muito bem o tom nesses acontecimentos finais. No fim, a sensação com que se fica é que é a guerra. E não se pode fugir da guerra. 
Mal ele sabia que a guerra ainda havia de persegui-lo por mais 30 anos, até um tiro ir, por fim, alojar-se-lhe na têmpora.

Classificação: 4,5/5*****

Sinopse: "O Adeus às Armas", muito provavelmente o melhor romance americano resultante da experiência da Primeira Guerra Mundial, é a história inesquecível de Frederic Henry, um condutor de ambulâncias que presta serviço na frente italiana, e da sua trágica paixão por uma bela enfermeira inglesa. O retrato franco e sem falsos pudores que Hemingway esboça da ligação amorosa entre o Tenente Henry e Catherine Barkley, arrastados pelo inexorável turbilhão da guerra, brilha com uma intensidade sem paralelo na literatura moderna, e a sua descrição do ataque alemão ao Caporetto – com as intermináveis filas de homens a caminhar à chuva, esfomeados, exaustos e desmoralizados – é decerto um dos grandes momentos de sempre de toda a história literária. Romance de amor e sofrimento, de lealdade e deserção, O Adeus às Armas, escrito quando tinha apenas trinta anos, é uma das obras-primas de Ernest Hemingway. 

sexta-feira, 12 de julho de 2019

#225 CARVALHO, Maria João Lopo de, O Fado da Severa

Sinopse: Na Mouraria, cruzam-se dois mundos quando a noite cai. O dos marujos, dos rufiões, das mulheres de má vida, as tabernas enchem-se com os filhos enjeitados da cidade. À procura de consolo, de um regaço pago, de vinho e de fadistagem. Vão eles e os nobres, embuçados, em busca do fruto proibido. 


Longe do São Carlos, onde as damas e as joias são legítimas, dos palácios nas Laranjeiras, mergulham no mundo sórdido e apaixonante onde se canta e bate o fado. E ninguém o faz melhor do que Severa, filha de cigano e de meretriz. Do pai herda o tom de pele, o sangue quente; da mãe a profissão e as artes de prender os homens.
São muitos os que a visitam, mas só um lhe deixa marca, o conde de Vimioso. É dele e da Severa esta história, nascida entre corridas de toiros, casas de má fama, recitais privados. É esse o amor proibido que Maria João Lopo de Carvalho tão bem evoca, num tom que nos remete para uma Lisboa feroz e verdadeira. 
Uma história onde brilham sempre a luz e as sombras dessa Lisboa e o indomável espírito de Severa: a cigana que inventou o fado, a mulher que vendeu o corpo - mas que nunca vendeu a alma.

Opinião: Este livro foi uma grande surpresa.

Em primeiro lugar, tenho sempre muito receio de ler ficção nacional, sobretudo ficção histórica. As experiências que tenham tido levam a uma "santificação" das figuras da nossa História, o discurso desenrola-se em deixas afetadas, o retrato de época costuma ser feito com largo recurso a descargas de informação que cansam até ao bocejo. Mas a Severa não é bem uma figura passível de santificação, era cigana, prostituta e fadista, o que deve convergir para o fundo do poço da sociedade portuguesa no século XIX. A faixa da sociedade que, não fora ela e o fado, mal seria recordada pelos livros de História.

Houve coisas que considerei excelentes, outras que assim assim, outras que me aborreceram. A classificação transmite o prazer que senti ao longo da leitura, e que me fazia regressar a este livro de tanta presença, ainda para mais bonito e com uma letra gorda que muito facilitou a leitura e o avançar das páginas.

Separando as águas, vamos lá avaliar os ingredientes deste romance histórico.

Pontos positivos que engrandeceram a leitura: 
- O linguajar dos fidalgos e da canalha, que tão bem identifica o nível social a que cada um pertence nesta Lisboa da década de 30 e 40 do século XIX;
- O vocabulário de época, que nos imerge na magia desses tempos;
- As deixas românticas, que conseguem convencer sem ser melodramáticas, coisa que não teria sentido num amor entre um leviano e uma prostituta;
- O retrato psicológico das personagens, sobretudo do conde de Vimieiro, mas também da Marta Mamalhuda, do Nisa, etc., personagens com substância que saltam das páginas, e que povoam Lisboa, o que nos faze sentir que dominamos a capital e as suas figuras;
- A pesquisa histórica - é evidente, mesmo antes de chegar à "Bibliografia", que a autora se empenhou numa pesquisa meticulosa para montar a narrativa, tiro-lhe o chapéu por isso!
- As descrições de espaços, miseráveis e imundos, opulentos e vistosos, que tão bem separaram os dois mundos em que o romance se apoia;
- O conhecimento que passa, de modo natural, a respeito do fado, das suas origens e ritos naquela época que o imprimiu na genética dos portugueses.

E os pontos a melhorar que me causaram ocasional enfado: 
- Nem sempre as informações saem com naturalidade, pelo que é frequente haver grandes trechos descritivos e enumerações, ou mesmo quando as mulheres, em diálogo, falam da moderníssima machine à clavier e a descrevem por x polegadas vezes x polegadas, o que me pareceu pouco realista e que identifico como infodump;
- Na continuação do primeiro ponto, as descrições geográfica, aqui e ali, nomes de ruas, esquinas, etc., são informadas de modo exaustivo, o que talvez faça sentido porque as personagens moviam-se ali, mas também acaba por cansar tanto nome de Rua, Largo, Travessa, etc.;
- O ritmo temporal do romance é algo inconstante, porque começa com uma Severa já adulta, e segue até à sua morte, sendo que por 80% do tempo se concentra em dois ou três anos, e depois sofre um salto como se tivéssemos decidido abandonar a personagem e apressar-lhe o fim (consequentemente, rematar o livro);
- A publicidade pouco discreta a outra personagem que a autora abordou em romance, Marquesa de Alorna, apenas porque também não saiu natural;
- O facto de o mesmo acontecimento ser analisado por várias personagens, o que fez sentir que o livro somente se repetia, sem grande avanço;
- O sentir que, apesar de não ter de haver uma aura de misticismo em torno da Severa para explicar o porquê de ela ter ficado para a posterioridade, também não haver nada que dê a entender que ela era diferente das restantes mulheres do seu tempo, porque, além da sua beleza, não há grande ênfase atribuído às suas caraterísticas únicas (o ser meio cigana, o cantar melhor do que as outras, o dançar com mais alma, etc.).
- O facto de a Severa ser tão conhecida pelo seu amante, o conde de Vimioso, e de este lhe ter aberto - creio não estar errada contra esses factos históricos - a porta para os salões nobres do reino, onde ela terá atuado, ficando assim o seu nome para a posterioridade. Esta realidade é explorada de modo muito contido, aflorada apenas ao de leve.
- Por último, não gostei dos últimos dois capítulos do livro - o primeiro apressa o fim da Severa, como um ponto final abrupto, escrito de um modo tão sumário que voltei atrás para conferir se não estava a ler as Notas Finais. O último não me fez qualquer sentido, porque também não serve para mostrar que a Severa será lembrada, foge ao cerne do livro e só vem baralhar e roubar o travo de melancolia que poderia ficar no fim, e que julguei garantido por ser conhecida a sina da pobre fadista.

O balanço é positivo, porque o livro me entusiasmou do início ao fim. A autora criou um ambiente muito intenso e palpável, que acabou por se tornar uma deliciosa viagem ao século XIX. Infelizmente, foi a Severa quem mais se apagou, mas o Portugal do Costa Cabral surgiu-me bem nítido.

Classificação: 4/5*****