quinta-feira, 3 de agosto de 2017

#184 SOARES, Carla M., O Ano da Dançarina

Sinopse: No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política. 



No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista. 
Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas. Este é um romance de grande fôlego, histórico, empolgante e profundo, sobre a superação pessoal e uma saga familiar num tempo de grande mudança e turbulência em Portugal.

Opinião: O Ano da Dançarina é o terceiro livro que leio da Carla M. Soares (imperdoável nunca ter lido o Chama ao Vento), e reafirma uma vez mais a minha teoria de que se cresce a cada livro.
Neste romance encontrei um retrato fiel de época, um enredo equilibrado, um livro polido, uma história cativante. Conforme o título sugere, acompanhamos um ano específico na história do nosso país – 1918 – com todas as tropelias que o pautaram. 
Para contextualizar a época: em 1918 celebrava-se o primeiro ano após as Aparições de Fátima. Não havia santuário, não havia reconhecimento do Vaticano, não havia capelinha, e os três pastorinhos ainda estavam vivos e no pastoreio. Nesse ano deu-se um golpe de estado e Sidónio Pais torna-se presidente da recente República Portuguesa, enquanto a nobreza se retorcia ainda de desencanto para com a perda dos títulos nobiliárquicos, os republicanos andam de candeias às avessas e os políticos atropelam-se pelo controlo do futuro da nação. A somar a isto (já de si bastante, contabilizando os ataques dos anarquistas ao parlamento), o Corpo Expedicionário Português perdia a vida em vão nas trincheiras francesas, e ainda surge uma doença indecifrável, um vírus desconhecido que se pensa, hoje, ser uma variante do H1N1, uma mistura de gripe das aves e gripe suína, que se estima que tenha dizimado algo como, pelo menos, 50 milhões de vidas humanas entre os anos de 1918 e 1920 (a Segunda Guerra terá resultado em 70 milhões de mortos, e foi o momento mais negro da História da humanidade, pelo que a gripe foi quase, se não tão, letal quanto isso). 
O palco do romance é a residência dos Lopes Moreira, uma família burguesa de cinco irmãos sob a alçada dócil da mãe, viúva, num mundo em constante mudança. Nicolau, Bernarda, César, Eunice, Pedro e Guilhermina vivem um ano inesquecível pelos piores e pelos melhores motivos. 
É sobretudo a partir das vivências de Nicolau, médico-tenente, que atravessamos esse ano. Nicolau e os traumas de guerra. Nicolau e a impotência perante a epidemia. Nicolau e o papel das mulheres, a vida noturna, as doenças, a imundície de um povo sem meios e analfabeto. Gostei muito dessa personagem, bem como do seu irmão, César, que reúne uma energia muito jovem e positiva, e que foi a minha personagem favorita. Também gostei de ver os sobressaltos de uma sociedade misógina e patriarcal, que olha com estranheza o desejo de emancipação do género feminino, e que se alimenta de intrigas e jogos políticos. 
Houve partes em que se exaltava a pátria – um pouco do nosso Portugal foi forjado nessa época -, e em que me senti arrepiada, porque o retrato era tão nítido que imaginava a silhueta austera do republicano elegante, de bengala, de barbas aprumadas, de chapéu, a consagrar a sua vida e a sua liberdade ao ideal que tinha para Portugal. Diria até que se tece uma exaltação à República, quiçá involuntária, porque mostra os solavancos a que muitos foram submetidos para que outros pudessem gozar de valores maiores – o sufrágio, o direito à greve, à liberdade de imprensa e de expressão. 
E a espanhola, ou pneumónica, ou influenza, ou , um horror que se infiltrou tanto em casas de ricos como de pobres, de sidonistas e seus opositores, tão familiar que lhe deram vários nomes, e que ceifou tantas vidas em três fôlegos, dois dos quais arrasadores e vividos nesse ano de 1918... É um retrato macabro da doença, da desinformação, da impotência do ser humano mais esclarecido perante as limitações do seu tempo e do chamado progresso. O Homem vergado à natureza e suas impiedades.
Louvo a meticulosidade da pesquisa, do trabalho realizado com equilíbrio e método, e do racionalismo que, apesar da época conturbada, conduz todas as páginas. Também existem passagens de evidente emotividade, que servem para recordar que os carácteres se moldam nos momentos de maiores dificuldades, ainda que a esperança oscile a cada reviravolta dos elementos.
Um livro que recomendo pelo excelente cuidado com a época, um ano até agora um tanto ignorado no panorama literário (à exceção do Mataram o Sidónio! do Moita Flores, que, pela sinopse, se assume mais político do que social). Adoro leituras que me obrigam a pausas para fazer pesquisas no google, e que me deixam com o travo agridoce do muito que aprendi e do mais que ainda tenho de aprender a respeito de um assunto que me parece agora do maior interesse.
Um livro que apelou à nacionalista que há em mim, e que apenas não me arrancou aquela quinta estrela porque, como romântica incurável, ansiava por um "Romeu e Julieta" num livro onde a Pátria, ferida, é o motivo de todos os sacrifícios.

Classificação: 4****/*



quarta-feira, 24 de maio de 2017

#183 MCNAUGHT, Judith, Lembras-te de mim?

Opinião: Amei este livro, sobretudo o tecido familiar da Diana Foster, a personagem principal, e a delicadeza das expectativas e das suas acções dentro desse círculo. Não me é fácil simpatizar com uma protagonista, mas isso geralmente acontece com a mesma é uma mistura de força e fragilidade. Também apreciei muito as partes em que a autora nos permitia ver vislumbres do passado da reservada Diana e do rapaz que ajudava o seu pai nas cavalariças enquanto estudava. Gostei do desenvolvimento da relação dos dois, foi ternurento e emotivo, sentia-se de facto o afecto a florescer entre eles, e a autora deu-lhe mais sal do que às habituais histórias em que os atributos físicos são rebobinados ao ponto da exaustão. Também me deixei envolver pelos segredos familiares, a mãe um tanto leviana, o pai meio desligado. É nesse contexto que Diana e Cole se aproximam, e, mesmo depois de anos separados, nunca esquecem a familiaridade que partilharam na juventude. É sempre bom ler sobre duas pessoas que calcorrearam as estações da sua vida com garra e determinação, e que no momento certo se reaproximam, cada um com nova bagagem e as com as suas conquistas e derrotas, e reatam algo que ficara por concretizar no passado.
Não costumo ler romances contemporâneos, contam-se pelos dedos os que li (A Montanha entre nós, Sozinhos na Ilha, Segredos do Passado, poucos mais). Mas este, realmente, valeu a pena. Cativou-me e devolveu-me a vontade de ler Judith Mcnaught.
Quando o bilionário Cole Harrison se aproxima dela com dois flûtes e uma garrafa de champanhe, Diana é apanhada de surpresa, pois reconhece nele o moço de cavalariça que desapareceu da sua vida vinte anos antes. E, fazendo jus à sua reputação de magnata, Cole tem uma proposta para ela: um casamento de conveniência, pois arrisca-se a perder uma fortuna se não se casar em breve. Diana dificilmente imaginaria nessa noite que iria reencontrar Cole, muito menos sucumbir ao esquema elaborado dele, para não falar no perigo de ceder a uma paixão avassaladora


Sinopse: É a contragosto que Diana Foster se encontra num extravagante baile de caridade, rodeada pela fina-flor do Texas. O noivo acabou de a deixar, trocando-a por uma herdeira italiana, e a jovem anseia apenas por um pouco de privacidade. Mas está em jogo a sua carreira e o bom nome da família. Como gestora da empresa familiar, Diana tem uma imagem a manter. E a fasquia não podia estar mais alta pois ela é editora da revista Beautiful Living, uma publicação de referência no que toca à tranquilidade doméstica.

Classificação: 5*****/5

Lido aprox.: Dez. 2016

terça-feira, 23 de maio de 2017

#182 MCNAUGHT, Judith, Um Reino de Sonho

Opinião: "Porque será que, quando te rendes, me sinto sempre como se fosse eu que tivesse sido conquistado?"


Foi a segunda vez que li este livro, mas não sabia quando o comprei que já o tinha tido nas mãos.
Jennifer é noviça numa abadia na Escócia, e portanto católica, membro de um clã e inimiga declarada dos ingleses. Royce é o braço direito do rei Henrique nos seus avanços bélicos contra a Escócia, difere em princípios, religião e patriotismo. Neste ponto dou valor à escritora por toda a pesquisa que evidentemente levou a cabo, e por todos os detalhes que nos fornece. Nada a dizer também a nível de contexto histórico (estamos em 1499), e dos contrastes entre a Escócia e a Inglaterra, uma sustentada por clãs temerários e orgulhosos, outra sustida pela ganância de nobres que enriquecem pilhando a outra e aumentando os domínios da sua coroa. É época de torneios, de agitação política, de catolicismo fervoroso enquanto Henrique ameaça virar as costas a Roma e fundar a sua própria religião, de fortificações, cercos, violações e pilhagens.
A minha embirrância começa logo com o nome da personagem principal: Jennifer. Uma rápida incursão na wikipédia diz que é a adaptação de Guinevere, adaptada na língua inglesa durante o sec. XX. História também é um bocadinho de intuição, e não consigo imaginar um diálogo entre a princesa Cátia e a duquesa, a senhora Soraia, enquanto as assiste a boa aia Jéssica, um doce de moça.
Só neste instante fui ver a origem do nome, mas faz-me espécie que não se tenha consultado uma lista de nomes tradicionais escoceses da época, de modo a chamar-lhe Heather, Fiona ou Arabella. Irrita-me que algumas pessoas fiquem agora com a impressão de que alguém se chamava Jennifer no sec. XV.
Depois, o livro começou mais ou menos bem, mas cedo se revelaram as intenções da autora: despejar todo e qualquer conflito possível para o meio do enredo. Então ele é raptos, ele é fugas, ele é conspirações, ele é traições, ele é drama, ele é mal-entendidos, ele é tudo. Se terminasse na página 300, com tudo um pouco melhor gerido, teria sido menos exasperante. Sobre cada duas páginas de felicidade amorosa, abatiam-se cinquenta de uma nova quezília. E, pior, aquela personagem feminina é de bradar aos céus. A autora não me convenceu de modo algum. A pessoa pode cortar com as convenções da sua época, mas só até certo ponto.
Não me importo quando os livros têm obstáculos, quando os problemas se sucedem, mas ao menos o coração das personagens principais tem de ser leal, tem de ser constante. Aqui dei por mim, muito cedo, a perguntar-me o que é que o famoso Lobo Negro via nesta Jenny: eram os seios, os maravilhosos olhos azuis, o ultrasuave cabelo ruivo, o sorriso e os dentes brancos, e a coragem. Sempre a coragem e o desafio, louvados ao ponto do rolar a vista. E o retrato incongruente da noviça de dezassete anos virgem e pouco vivida, enclausurada, que brincava com os rapazes e não teme o guerreiro inglês que todos temem.E Royce? Royce tudo faz por ela, em tudo a poupa, sorri muito de repente e tem atitudes românticas. Tudo engole, o que, para mim, é difícil de entender e desmancha a consistência da personagem.
Não me conseguiram vender este livro. Ele é um mártir às mãos da criança mimada e bipolar que McNaught aqui descreve. O perfil da jovem ingénua mas fogosa, corajosa mas insegura, determinada mas submissa, orgulhosa e que humilha, a de coração bondoso que perdoa todas as provações a que a sujeitam, não funciona para mim. Salva-se a tia Elinor e o gigante Arik; emparelhados puseram-me a rir.
Lembrou-me os livros da Sveva Casatti Modignani, que devorei com os meus 14 aninhos, e que cedo abandonei porque me apercebi de que havia um padrão nas personagens femininas: eram lindas, maravilhosas, ricas mas vindas de famílias operárias, toda a gente lhes admirava a fibra, a garra, o ardor com que se batiam pelo que queriam. Todos as admiravam e lhes teciam os maiores elogios. E elas ali... sem tomarem uma decisão, sem fazerem nada que não deslumbrarem um industrial da moda milanês. Era muita conversa para pouca acção. As atitudes das suas Giulias nunca estavam à altura da admiração que lhes projectava e fartei-me.

Uma nota para a tradução portuguesa, que só melhora depois da página 200. Ler "positivamente carregado de galhos", ou "terna ingénua", "doce coração", "esbelto pescoço", etc., foi embaraçoso. Também achei que a culpa é em parte do manuscrito original, porque enjoei o número de vezes em que a escritora repetiu, não fôssemos nós esquecer, que o homem era enorme e tinha ombros muito largos, e que era bronzeado e tinha dentes muito brancos e olhos cinzentos. E ela? Os olhos dela lembram veludo molhado (não importa a cor, desde que molhado), ou safiras líquidas (?), e também tem os dentes muito brancos, a pele leitosa, os seios e os lábios generosos, a cintura muito fina, os cabelos acobreados.Foi tudo repetido ao ponto do enjoo. Mas ai, como era fácil amar no séc. XV!

Sinopse: Chamam-lhe o Lobo Negro. Nunca perde uma batalha. Temido por todos, Royce Westmoreland, duque de Claymore, é um guerreiro inglês intrépido. Tão intrépido que comete a loucura de manter sequestrada a filha do seu maior rival, o chefe do poderoso clã escocês Merrick.

Jenny Merrick pode ter sido raptada do colégio de freiras que frequentava, mas não vai ficar de braços cruzados. A bela e fogosa jovem tenciona lutar com unhas e dentes e destruir este inglês grosseiro que se julga dono de tudo - e o facto é que consegue enfurecê-lo melhor do que ninguém.
Quando, por decreto real, são obrigados a casar, espera-se o pior. A feroz batalha de vontades, porém, não tarda a dar lugar a uma paixão escaldante, mas muito breve… Agora, após uma devastadora traição e uma série de mal-entendidos, Jenny vai ter de decidir a quem deve a sua lealdade…
Um clássico romântico. Uma das obras mais aclamadas da bestseller Judith McNaught.

Classificação: 2,7***/**

quinta-feira, 11 de maio de 2017

#181 QUINN, Julia, Um Pedacinho de Céu

Sinopse: Quem conhece Honoria Smythe-Smith sabe que, para lá das suas inúmeras qualidades, a jovem tem algumas... enfim... particularidades, nomeadamente:
1. É uma entusiástica (e péssima!) violinista
2. Fica fora de si sempre que alguém diz “Bicho”
3. NÃO está apaixonada (não está!) pelo melhor amigo do irmão
3. Sobrevivem ao pior espetáculo musical do mundo



Já Marcus Holroyd, conde de Chatteris, é o seu oposto. É um rapaz tímido e responsável, mais conhecido por:
1. Ser lamentavelmente dado a entorses do tornozelo
2. Carregar o fardo de ser um dos solteirões mais cobiçados
3. NÃO estar (de todo!) apaixonado pela irmã do melhor amigo 

Juntos...
1.São grandes amigos
2. Comem quantidades escandalosas de bolo de chocolate

Julia Quinn tem para eles planos que incluem...
1. Uma febre mortífera 
2. Momentos (muito!) embaraçosos
3. Um final desesperadamente romântico 


Opinião: Foi um livro ao estilo do Amor e Enganos, da mesma autora. É mais doce e romântico do que erótico. Em termos de sequência de acontecimentos, grande parte do livro é despendido na anunciada “febre mortífera”. Não está mal feito, o leitor importa-se realmente com o herói em agonia. Marcus é um tipo porreiro e Honoria tem uma certa força intrínseca. Gostei sobretudo da interação entre a protagonista e a mãe. Achei que a mãe dela poderia ter sido melhor explorada. As aparições da Lady Danbury acrescentam sempre um toque de humor ao livro. Há química entre os protagonistas, é uma bonita história de um amor que surge de mansinho e arrebata os jovens incautos. Não é um livro que arranque suspiros, mas recorda-nos que o amor pode nascer de ajuda mútua e de afeição quase fraternal. Ao contrário daquelas histórias em que a pessoa que se almeja é alguém que parece desadequado e até nos faz mal. Em “Um Pedacinho de Céu”, duas pessoas descobrem que a outra é perfeita para si.

Classificação: 4****/*

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

#180 SMITH, Deborah, Segredos do Passado

Sinopse: Filha de uma respeitada família de Dunderry, na Geórgia, Claire Maloney era uma menina caprichosa e mimada, mas isso não a impediu de travar amizade com Roan Sullivan, um rapaz feroz, órfão de mãe, que vivia numa caravana com o pai alcoólico. Nunca ninguém conseguiu compreender o laço que unia as duas crianças rebeldes. Mas Roan e Claire pertenciam um ao outro¿ até à violenta tarde em que o terror tomou conta das suas vidas e Roan desapareceu.
Durante vinte anos, Claire procurou o rosto do seu amor de infância por entre a multidão. Durante vinte anos, esperou ansiosamente uma carta e sobressaltou-se a cada toque do telefone. No entanto, quando Roan surge novamente na sua vida, a alegria de Claire não é completa, pois ao contrário do que se afirma o tempo não apaga todas as feridas.
Algumas permanecem ocultas, prestes a reabrir-se ao mais pequeno incidente. Que segredos do passado envenenam o presente e minam o futuro?

Opinião: Sou super fã da Deborah Smith, pelo que este é o quarto livro que leio da autora. Comecei a lê-la numa idade bem tenra, em que “A Doçura da Chuva” me surpreendeu pela profundidade e complexidade das personagens. Depois avancei para “O Café do Amor”, em que uma mulher muito bonita e muito ferida regressava a casa para se reconciliar com a vida. De seguida, e de longe o meu favorito, li “Milagre”, onde a autora criou um amor devastador entre o casal protagonista, das vinhas da Califórnia para uma mansão em França.
E, por fim, li “Segredos do Passado”. Se não tivesse lido os outros, talvez não me tivesse aborrecido tanto com este livro. No topo da pilha, torna-se só “mais do mesmo”, apesar de ter sido escrito antes de alguns deles.
A primeira parte do livro valeu-lhe cinco estrelas. O tecido do passado está imaculado: os traumas a adensarem-se, o desejo de redenção, o jogo de sentimentos entre o orgulho e a vergonha, a necessidade e a resistência, foram-me preciosos. A relação entre a Claire e o Roan nasce numa pequena localidade da Georgia, quase totalmente povoada de imigrantes irlandeses. O modo como a família da personagem principal transpôs as tradições do Éire para este estado americano é muito agradável de ler, através de baptismos de montanhas, festividades e cantorias. A Claire é a menina da vila, filha da família mais influente da região – os que a povoaram e encheram de serviços. O Roan é o filho de um antigo veterano do Vietname, um homem violento e torturado que só sabe azedar-lhe a existência. O modo como duas crianças tão improváveis se unem contra o mundo é enternecedor. O meu coração estive sempre numa montanha russa nessa primeira parte do livro, oscilando entre o horror perante a crueldade e o deleite quando por fim é demonstrado algum carinho para com a criança indigente da cidade.
Na minha opinião, a escritora não soube resumir nem trazer um toque de especial à segunda parte do livro. Não era fácil, uma vez que a primeira foi tão soberba. Ainda assim, a segunda parte é como que um eco da primeira. Não há momentos muito marcantes, não há a picardia das avós da Claire, não há o oscilar de emoções da primeira. Há um reencontro e depois há muita reminiscência. Recordam-se do que passou, do que os afastou, do que gostariam de ter feito no passado. E há uns quantos segredos, mas pulsam mais ou menos à superfície, e depois de os conhecermos andamos várias dezenas de páginas a acompanhar as personagens torturadas, à espera de vê-los revelados a quem de direito.
Achei que o livro peca por cento e cinquenta páginas. Bastavam cerca de trezentas páginas para se cortarem todas as repetições, todas as personagens que nada vêm acrescentar, todas as historietas paralelas que nos afastam do foco principal e nos vão cansando. Demorei imenso tempo a ler o livro – ainda que me importasse de modo genuíno com a Claire e o Roan -, porque quando esperava algo simples vinha mais uma recordação de algo que havia lido há cem páginas atrás. Foi doce e desolador, no início, e depois doce e chato, no fim. No entanto, voltarei sempre a ler Deborah Smith, quem sabe pulando as partes que me cheirarem a palha.


Classificação: 3***/**

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

#23 As Cinquenta Sombras Mais Negras

Título oficial: Fifty Shades Darker @ 2017
Realizador: James Foley
Actores principais: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Kim Basigner

Classificação IMDb: 4,9
 Minha classificação: 2

No Dia dos Namorados, decidi cultivar o meu lado masoquista e, numa de desportiva, fui com uma amiga ao cinema ver “As Cinquenta Sombras mais Negras”. O primeiro tinha oferecido bastante material para risadas, e a minha única expectativa quanto ao filme é que pudesse rir-me do ridículo. Começo logo a rir-me pela tradução portuguesa da coisa, que lhe roupa o sentido, se é que tem algum...
De salientar que nunca tinha lido os livros (li apenas 30 páginas do primeiro, por ser tão mau que o meu cérebro se recusou a prosseguir). Já a ver “Crepúsculo” – outra vez o meu lado masoquista –, o meu cérebro vai ameaçando desligar-se, tipo corte eléctrico. Sofre assim uns apagões e tal, mas ao menos conseguia ir lendo as falas sem encontrar defeitos em todas as palavras. Mas nunca me tinha acontecido, durante uma sessão de cinema, sentir-me a ponto de explodir por não poder assinalar todas as absurdidades, e por as minhas pernas terem quase vida própria e quererem sair dali. Felizmente fui com a melhor das companhias, e apesar de sermos as duas mais odiadas da sala - devido às risadas, aos suspiros, aos "oh my God", "ridiculous" e etc., pude respirar a meio da película e despejar na língua inglesa o mal que aquilo me estava a fazer à saúde. Depois mentalizei-me que era só mais uma horinha, e que se estivesse com cólica renal seria pior, e lá assisti à segunda parte também.

Que fenómeno é este que encheu, ontem às 21:40, a sala 2 de cinema do Almada Fórum? Fileiras inteiras de mulheres de todas as idades e casais jovens pejavam o cinema de uma ponta a outra, até a Primark estava vazia ontem, porque 70% do público-alvo estava de bilhete em punho dois andares acima. Seis anos depois de sair o primeiro livro, continuo sem resposta.

Dakota Johnson continua embaraçosamente má no seu papel. Eu entendo, não é fácil ler aquelas saídas “Sim, aceito jantar contigo, mas só porque estou com fome”, ou gaguejar a cada três linhas, ou gemer a cada duas, ou soltar gritinhos de surpresa a cada vez que muda de direcção ao caminhar. 

Jamie Dornan está bem melhor neste filme, parece que conseguiu ultrapassar o pouco à-vontade do primeiro (arrumando falas como “eu não faço amor, eu fodo à bruta”), mas ainda assim teve de passar por dois momentos em que teriam de me pagar muito bem como actriz: o primeiro ao fingir que está a ter pesadelos, a rebolar-se nos lençóis e a gritar “não”, de modo a que a sua cara-metade venha consolá-lo a meio da noite. Só expliquei em que consiste a cena porque nunca viram isso em lado nenhum. O segundo é quando é obrigado a debitar estas palavras: “tu ensinaste-me a foder, ela ensinou-me a amar”. De salientar que também está bem melhor fisicamente, é da barba. Está mais confortável no personagem e acaba por ser a única coisa menos má do filme, basta imaginarem aquele perfil a dizer-vos ao ouvido “tira as cuecas”, e acabou-se. Está comprado, vamos todas ver o filme. Foi mais ou menos isso que aconteceu. Só que não… até isso se dilui no dilúvio de estupidez. Quando o filme começava a aleijar-me demasiado, punha a vista nele e ligava o piloto automático, e lá aguentava até à próxima panorâmica de Seattle.
É do livro, entende-se à terceira linha. É a escritora que não tem talento, pertinência, tacto, substância, profundidade. Acredito plenamente nela quando diz que ia escrevendo o livro no seu Blackberry, porque a preguiça está lá e qualquer pessoa sabe como se tem de abreviar a lista de compras quando usamos o bloco de notas do telemóvel. Podia ter podido a coisa depois, mas parece que não se deu ao trabalho.

A ideia do ciúme e da posse levados ao extremo é perigosa. A ideia de que uma mulher possa virar as costas a compromissos de trabalho porque o namorado tem ciúmes do seu chefe, pior ainda. E que a escritora acabe por mostrar que o namorado tinha motivos (quando nenhum tinha sido apresentado) para desconfiar do chefe *porque o chefe acaba por se atirar à rapariga* é a gota de água. O facto de este sétimo sentido do Grey acerca de quem quer comer a sua namorada desinteressante, se provar assertivo é um livre passe para que os homens deem ordens às mulheres sob o pretexto do “vais ver, acredita em mim”. Não sendo linear, porque conheço inúmeras mulheres inteligentes, independentes e capazes, mas não são elas as que metem um dia de folga para ir ver este filme. E essas não se sabem proteger, e os homens ao lado delas, ao ouvido dos quais elas explicavam que ele tem um trauma de infância (que ninguém que não tenha lido o livro entende – como eu), começam a achar que como as mães lhes bateram com a concha da sopa, agora podem usar-se de violência para com as namoradas, porque elas estavam ali a rir-se, a torcer as pernas e a soltar longos suspiros enquanto o Grey aplica umas palmadas bem energéticas nas nádegas da Miss Steele. Para quem nada entende do franchising, há palmadas e palmadas. E estas não são do tipo palmadita, são mais do tipo que a pessoa não se consegue sentar no dia seguinte.

Supondo que o cinema e as artes não influenciam assim tanto as pessoas, e que a cena da manteiga em "O Último Tango de Paris" não impulsionou a prática de sexo anal, ficamos só com uma história estúpida, vazia e cheia de incongruências. Uma escrita preguiçosa e desinspirada, em que cada conflito é uma preparação para a cena de sexo seguinte, e em que o protagonista é dono do mundo, viaja em colunas de carros para ir a uma festinha em casa da mãe, refugia-se num barco quando acha que a casa está a ser ameaçada e mantém dossiers acerca de todas as gajas com quem privou. Uma história impossível sobre um homem que compra a empresa onde a namorada trabalha, só porque é maluco, e em que lhe enfia dinheiro pela goela abaixo, quer ela queira, quer não. E ela, claro está, não quer.

De tudo o que me irritou nisto das Cinquenta Sombras de $, o pior é a fingida aura de sucesso e de independência da protagonista, sendo que toda a gente a aborda para lhe dizer que o Christian gosta de mandar e que as mulheres lhe sejam submissas, e que ela não é o tipo de mulher que se deixa controlar. Certo. Ela não é o tipo de mulher que se deixa controlar. Quando, nestas quase três horas de dois filmes assistidos, é que a personagem feminina tomou uma iniciativa? Fez uma pergunta pertinente? Tomou uma decisão? Uma mulher que deixa de cumprir compromissos de trabalho por ordem do namorado, que dá dois minutos de luta só para não ser demasiado óbvio que é unidimensional, para depois ceder sempre? Ah, está bem. No fim do primeiro, quando ele a espanca e ela lhe diz que aquilo não é para ela. (Porém, contudo, no seguimento…) De resto, da pouca vida que E.L. James soprou a esta personagem, só lhe resta gaguejar e falar para dentro, por sorte com toda a gente ao redor muito interessada em escutar o que ela tem a dizer. Nunca a expressão “mosquinha morta” se aplicou melhor.

Por último a questão do ardente, escaldante, alucinante, inigualável sexo entre as personagens principais…

O que vejo é uma história escrita por mulheres e para mulheres, em que o homem cumpre as suas fantasias, certo, mas visualmente o que se vê, o que se ouve, o que se respira são as fantasias de uma mulher. Engraçado que a câmara, como é hábito, esteja focada no corpo feminino, mas é um erro de marketing. O olhar deste lado é de mulheres, pelo que surge assim mais uma coisa para corrigirem. Entendo que depois de um século a explorarem o corpo das mulheres no cinema, a favor dos homens, agora tenham de admitir que as mulheres também têm dinheiro no bolso para gastar, por isso basta mudarem a câmara das pernas da Anastasia para os abdominais do Jamie Dornan, como na cena em que ele está a fazer ginástica em casa, para verem o que são as gajas a gritar mais alto ainda
E em que consistem essas fantasias de mulher que o Mr. Grey cumpre com tanto entusiasmo? São as de um homem que tome iniciativa, que se mexa, que paire acima dela, que lhe dê ordens (geralmente relacionadas com a roupa interior dela, não com a sua carreira), que mostre que a deseja, que se aplique em dar-lhe prazer. Pelo menos pelo filme, não parece que a Steele dê grande retorno ao pobre homem. Uma vez mais, a sua falta de iniciativa a impor-se, e também nunca a vemos empenhada em satisfazê-lo a ele. Neste sentido, não me parece que os casais possam beneficiar muito desta promessa de sexo fantabulástico. Se a mulher não se mexer, e se o homem for como muitos, à espera de ser atendidos, não me parece que as brincadeiras vão muito longe, pelo menos sob o signo das Cinquenta Sombras. Lá está: escrito por mulheres e para mulheres, num universo onírico em que o homem não busca nada e dá tudo, ou, mais perfeito ainda, em que o homem descobre nos gemidos (ainda que de dor) da mulher a sua própria satisfação, e não precisa de mais nada.

Há coisas que sinceramente preferia não saber do universo íntimo destes dois personagens monocromáticos. É que isto não é bem pornografia, mas também não é bem a típica história “rapaz conhece rapariga”, e por várias vezes pensei “já estou a saber demais”. Não quero saber em que posições eles fazem sexo – o que é esquisito, porque o assunto interessa-me. Eles é que não. Este casal tão pouco nítido, em nada palpáveis, nem através da prometida quebra de tabus ganha cor. Fica por ali, fora da sala de cinema, sem alma nem contornos reais. Como o meu cérebro, que também se recusou a entrar na sala e que só me voltou a falar hoje de manhã.
A cada vez que ele dizia que aquela casa também era dele, e a outra propriedade, e as jóias, e os carros, e as empresas, só me perguntava como tudo isto, esta inverosimilhança flagrante, pode apelar a todas as raparigas que estavam sentadas na sala de cinema, e como os seus homens, quem sabe de ordenado mínimo em carteira, podem sentir-se excitados perante uma história de um tipo novo, bom de cama e podre de rico, que faz o que quer de uma miúda descompensada. 

Para entenderem o quão má a coisa é, deixo uma lista de inconsistências. Só não escrevo mais porque não estou desempregada:
Portanto atenção spoiler alert:
- A rapariga passa a vida metida na casa dele, mas quando vai a casa para buscar algumas coisas, é na escova de dentes que pega – porca!
- Há uma antiga submissa do Grey à solta, apostada em assassinar a sonsinha de serviço, e apesar de ser uma pessoa frágil e desequilibrada, consegue infiltrar-se na garagem do Grey, cuja casa é tipo uma fortaleza, mas nunca explicam como;
- Quanto à mesma rapariga, o Grey diz que tem “o seu pessoal” em cima do acontecimento para a encontrar, mas a rapariga entra na casa da Anastasia na boa – sem chave, sem arrombar a porta, sem partir uma janela, para vê-los dormir. Como? Fica por nossa conta.
- Ainda quanto à mesma rapariga, que é o grande conflito e suspense do filme, o pessoal do Grey continua em cima dela, mas uma vez mais ela entra tranquilamente na casa da Anastasia, sem que se saiba como posto que não há nada arrombado nem fora do sítio, para a surpreender com outra das suas inspirações. Acham que nos explicariam porquê? Que se lixe a lógica;
- O matulão despenca-se com grande aparato num helicóptero acompanhado de uma assistente (julgo), acham que morre? Não, primeiro é socorrido não se sabe por quem, faz todo o caminho de Portland para Seattle não se sabe como, chega todo desgrenhado a casa sem que uma equipa de socorros tenha notificado a família de que está inteiro, e apresenta-se em casa a dizer que perdeu o telemóvel e por isso não pode ligar, enquanto a televisão notifica a sua provável morte e a família chora reunida;
- Acham que, no seguimento do acidente, o homem foi descansar e quem sabe reflectir sobre a vida? Não, foi fazer aquilo que pagámos para vê-lo fazer;
- Acham que uma pessoa com sangue na fronte vai ao hospital ou fica em repouso? Nope, o todo-poderoso Grey vai à sua festa de aniversário, com direito a foguetes, e a empregada que se despencou com ele está lá, sem uma entorsezita que seja;
- Christian Grey, com tantas empresas e investimentos, que toca piano e pilota helicópteros e barcos, que viveu uma vida de horror e traumas que o marcaram para sempre, tem que idade? Este bilionário (milionário está fora de moda, a E.L. James quis fazer tudo em grande) que no meio de todo o seu sucesso ainda tem tempo para dar uns tautaus às moças com chicotes e fivelas e coleiras na sua sala vermelha, tem que idade, vá? Um palpite? Trinta e cinco, como eu pensava? Não, não, senhores. Tem vinte e sete. Now deal with it;
- Está sempre lua cheia em Seattle, espero que a NASA já esteja em cima do acontecimento.

Para terminar, concordo com o anónimo – estou a varrer a internet à procura dessa crítica, mas não encontro –, que diz que a coisa mais profunda sobre o filme são o cordão de bolas metálicas que a Anastasia Steele usa. Agora deixo-vos a reflectir onde.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

#22 Manchester by the Sea

Título oficial: Manchester by the Sea @ 2016
Realizador: Kenneth Lonergan
Actores principais: Casey Affleck, Michelle Williams, 
Classificação IMDb: 8,5
 Minha classificação: 9

Opinião: "Manchester by the Sea" é o primeiro filme que vi em 2017 e dificilmente verei melhor, pelo menos durante este ano. A sinopse é simples: o irmão de Lee Chandler (Casey Affleck) morre, e ele é chamado como guardião do sobrinho, Patrick (Lucas Hedges). Mas isto é apenas o aflorar da questão. Lee tem um passo mal-resolvido, se bem que o seu semblante, a todos os instantes, denuncia essa mágoa. A grandiosidade do filme assenta nos diálogos, no modo despretensioso como o filme não procura passar nenhuma lição, e na autenticidade dos sentimentos das personagens. (Por exemplo, o filho que acaba de perder o pai mas que se embrenha o mais possível nos melhores anos da sua adolescência para superar isso, ou o amigo que, sem ter qualquer responsabilidade sobre o assunto, retrocede nas suas intenções para ajudar alguém que lhe é importante). Fica consolidada a ideia de que uma história não precisa de ser épica para se entranhar sob a nossa pele - e também não se celebra aqui o culto da perda no momento (do choque, do grito, das lágrimas e do desespero), explora-se sim a estrada para superá-la. São duas horas em que as perdas moldam cada personagem de um modo diferente, nada fantasioso, e em que cada actor dá o melhor de si para mostrar a miríade de emoções que compõem o seu ângulo na trama. Casey Affleck agiganta-se a cada cena, o modo como os impulsos e a inanimidade lhe dançam no olhar é sublime. Julgo que seja o género de enredo que, quando vivido, nos suga um pouquinho da alma. Como escritora, só tenho pena de não ter escrito algo assim. Mas ficou-me na alma. Ando há dias a repensar o filme, as reacções, os picos de fraqueza e de fúria, e a saborear com isso as muitas nuances da natureza dos homens.