segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

#206 CAMUS, Albert, O Estrangeiro

Sinopse: Meursault recebe um telegrama: a mãe morreu. De regresso a casa após o funeral, enceta amizade com um vizinho de práticas duvidosas, reencontra uma antiga colega de trabalho com quem se envolve, vai à praia - até que ocorre um homicídio. Romance estranho, desconcertante sob uma aparente singeleza estilística, em O Estrangeiro joga-se o destino de um homem perante o absurdo e questiona-se o sentido da existência. Publicado originalmente em 1942, este primeiro romance de Albert Camus foi traduzido em mais de quarenta línguas e adaptado para o cinema por Luchino Visconti em 1967, sendo indubitavelmente uma das obras-primas da literatura francesa do século XX.

Opinião: 
Um artigo do Expresso, de 2013, anunciava que O Estrangeiro tinha vendido oito milhões de cópias, e que estava traduzido em 40 línguas.

Não me é frequente, na literatura, precisar do estímulo do contexto para melhor perceber um livro, mas foi o caso com este. Um livro que precisa desse tipo de auxílio nunca me chega tão a fundo quanto um livro que me consegue cativar sem qualquer nota de rodapé. Acabo por sentir alguma admiração pelos livros que necessitam de contextualização - quando bem conseguidos, como é o caso-, mas acompanhada de um distanciamento que não dá para ultrapassar.

Custou-me a sentir qualquer tipo de empatia pela personagem central do livro, este Meursault. Passei o livro todo à procura de uma lógica para estas páginas. Foi ao terminar a leitura, ao reflectir sobre o ano da sua publicação- 1942 -, e ao dedicar-me a alguma leitura a respeito do autor e da época que julgo, agora, ser capaz de entender L'Étranger um bocadinho melhor.

Assumindo que não há qualquer sentido, qualquer ideal em causa, ao longo destas 85 páginas, tudo me parece mais claro. Uma vez mais, cruzo-me com o conceito de niilismo, em que nunca me tinha detido até agora. 

Neste romance, Camus narra uma série de acontecimentos, diria até que algo banais (daí que me tenha sentido aborrecida durante 75% da leitura), e imprime-os no dia-a-dia de um homem indiferente, que passa pela vida sem a analisar, sem lhe buscar um sentido, um propósito. 

Meursault passa pela vida sem lhe extrair nenhum significado superior, vivendo de momentos que, tantas vezes, são forjados por terceiros. Não se permite qualquer reflexão profunda, não disserta a respeito da vida, da morte, do amor, etc. Parece mais próximo da natureza do que da sociedade, como se esta pouco o afectasse, como se andasse pela rua sem se deixar tocar pela vivência dos outros, e como se analisasse os episódios do seu quotidiano a uma luz desprovida de expectativas sociais. Quando questionado, responde de acordo com os seus sentimentos - também eles algo superficiais, porque despidos da análise que lhes dá complexidade -, arriscando-se a ser mal-entendido.
Meursault acabou por me parecer um alienado, por vezes procurava-lhe uma patologia, convencida de que ele não sentia, mas, entretanto, dei-me conta de que, neste texto na primeira pessoa, ele chega a falar de felicidade, de satisfação, e entendi que Camus criou apenas uma personagem diferente, que não tem necessidade de se iludir ou de procurar um sentido para a existência por via da religião ou de outros misticismos tais. É o rosto daquilo que seríamos se o nosso lado espiritual - e acredito que nos é "biológico" tê-lo - não insistisse em nos fazer acreditar em algo maior.
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Por último, tratando-se de um trabalho desenvolvido durante a II Guerra Mundial, entendo que o livro traduz também um pouco da psicologia da época, numa altura em que tantas vidas foram arrancadas ao seu "caminho natural", e em que me parece evidente que os intelectuais partilhavam uma noção generalizada de "absurdo".
Como romântica assumida, continuo a preferir um romance que procure interpretar os porquês da existência, e trazer maior clareza à compreensão dos dilemas do Homem. Se possível, que me reconforte, ainda que alimentando a ilusão de haver uma consciência geral, ou um propósito para a nossa inteligência. Creio que o buscar-se sentido para as coisas é, precisamente, o que faz de nós humanos.
A ter de abraçar uma "filosofia de absurdo", prefiro, no contexto da I Guerra Mundial, as mornas conclusões a que Somerset Maugham chegou em 1915, aquando da publicação de Servidão Humana.

Classificação: 3,75***/**

#205 COELHO, João Pinto, Perguntem a Sarah Gross

Opinião: Desisti 

Não me orgulho de desistir, mas a verdade é que, daqui em diante, iria sempre gostar menos do livro. O nosso casamento já tinha azedado. Tentei ficar por aqui e guardar os pontos positivos:

- Estreia arrasadora, para uma primeira viagem nas letras o discurso é muito bom, bem articulado, com momentos de reflexão que oferecem um vislumbre do que o autor é capaz;
- A parte na Polónia é muito interessante, a pesquisa admirável e bem conjurada nos diálogos e trechos passados antes da II Guerra (onde fiquei) cimentou-o com primor. Esses capítulos do passado eram o sítio do livro onde eu gostava de estar. Eram o seu palco mais agradável, melhor composto, mais enriquecedor e exemplificador do potencial do escritor, e a solenidade em torno do núcleo de judeus e das suas tradições e ancestralidade é muito sólido e acolhedor;
- O retrato de St. Oswald's é bastante nítido e pormenorizado, as descrições não são maçadoras e parece-me que, em geral, o cenário é sólido e implanta-se com facilidade na mente do leitor.

A partir daqui, explico porque o livro não me arrebatou, ou porque não consegui ser mera leitora :
Perguntem a Sarah Gross é o romance de estreia de João Pinto Coelho, e acho que o autor tem muito de que se orgulhar por ter inaugurado a sua contribuição para a literatura com esta obra.
A nível pessoal, não li tantos livros assim sobre a Segunda Guerra Mundial, e o principal motivo é o achar que o assunto está muito explorado numa série de plataformas diferentes, sobretudo no cinema e na literatura, e a cada nova estação literária sai um novo livro sobre a sapateira de Auschwitz, ou a costureira, ou o carteiro, etc. São poucas as abordagens a esse período negro da História da Humanidade (70 milhões de vidas perdidas directa e indirectamente do início ao fim do conflito, por todo o globo) que trazem algo de novo, por muito que o horror e as suas muitas frentes sejam uma fonte quase inesgotável de histórias (de amor, de ódio, de discriminação, de vingança, de redenção, de superação, de resistência, etc... de tudo o que nas nuances do ser humano e das suas emoções há). Arriscaria dizer que é do conhecimento geral o que eram as SS, a Gestapo, as particularidades da cultura judaica que denunciavam o judeu, o que é um ghetto, o holocausto, mais ou menos quando tudo isto se passou, etc. Mais difícil, para alguns, seria entender o que foi a Batalha de Aljubarrota, quais os envolvidos e porque se deu tal conflito. Enfim, não deixa de ser um assunto interessante, mas tento manter-me longe dele e focar-me nas pequenas desgraças nacionais e/ou menos reportadas, noutro contexto menos complexo e mais pessoal. Por aqui já fica claro que não é dos meus temas favoritos, pelo menos do prisma Polónia/EUA, que é o que mais nos chega. 
Lista de romances que li a respeito do tema: Expiação, O Grande Amor da Minha Vida (foi inovador espreitar a guerra da janela de uma Leninegrado cercada), O Rouxinol, A Rapariga Que Roubava Livros, O Fim da Aventura, etc …
Não me consegui abstrair de algumas coisas que acredito que o autor venha a limar de futuro, valendo-se da sua evidente destreza expressiva:
1) Se tanto o setting quanto os intervenientes no cenário são estrangeiros, acho que não faz sentido recorrer a expressões idiomáticas portuguesas, como “c’o a breca”, ou “genica”, ou “essa encomenda” referente a uma pessoa difícil. Por vezes, quando surgem, pergunto-me como se traduziria isto para o inglês/polaco/iídiche/alemão que as personagens falam, sem chegar a uma conclusão satisfatória, o que me arranca ao diálogo e me recorda de que é uma obra, e não acontecimentos reais, quebrando o feitiço do livro;
2) Um pouco menos de tell, sobretudo quanto ao carácter das personagens: é preferível deixar-nos tirar as nossas conclusões. Até à página 115, a jovem Sarah Gross, nas analepses dos anos 20, esteve praticamente estática. Isto é, víamo-la através da preocupação dos pais e das pessoas às quais era apresentada, sem que chegasse a dirigir qualquer situação, a tomar uma iniciativa, ou sequer a tecer um comentário. Nunca "ouvimos" a sua voz. E surge descrita como complexa, muito inteligente, sentia-se o espectro da palavra “especial” a pairar muito próxima da personagem mística que o autor procura elevar, como alicerce-mor da sua primeira obra. Porém, do que nos é oferecido na acção, nada leva a crer que assim seja. Não se vê uma decisão, uma birra, uma palavra, um pensamento exposto que nos permita entender o porquê do aparente fascínio das pessoas pela jovem Sarah, à excepção da sua grandiosa beleza. 
3) As personagens Justin (negro) e Dylan (filho de um senador racista), parecem-me decalques. Têm pouca profundidade, surgem como acessórios e, a eles, juntam-se Therese, também acessório, apenas para vocalizar o horror da descriminação e provar que nem todos os brancos são maus, e que a Sarah e a Kim não estão assim tão sozinhas no mundo. 
Quando abandonei o livro, fi-lo com a sensação de que a parte de 1968/69 passada em St. Oswald's era quase dispensável. É evidente que algo haveria de vir daí, julguei que fosse a discriminação, o confronto do tradicionalismo patriota americano com a abertura dos tempos aos diferentes mas, por essa altura, os eixos desse núcleo estavam desagregados, e o assunto "racismo" esfriara. Porém, algo aconteceu, ou a sugestão de algo insinuou-se, a culminar num tema muito delicado, que me fez pôr o livro de lado para evitar mais amarguras em torno dele.

E desisti sem que conseguisse evitá-lo, porque senti que se agigantava um livro dentro de outro, e que me estava a dispersar. As parecenças entre as duas personagens principais faziam com que, na minha cabeça, as duas se misturassem a uma mesma voz.
Talvez um dia o termine, o marcador está lá. O romance é um colosso para livro de estreia, mas tem muitas falhas que não consegui ultrapassar.
Estou sedenta por um livro do Maugham, ou por retomar Steinbeck, ou, mais exigente ainda, chama-me aquele sítio que Lobo Antunes apelidou de Os Cus de Judas, e por isso ponho-o de lado por hora.


Sinopse: Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador.

Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.

Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio LeYa em 2014.


Classificação: 2**/*****

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

#204 LEE, Harper, Mataram a Cotovia

Opinião: 

"Para Maycomb, a morte do (…) era típica. Era típico um negro saltar e fugir. Era típico da mentalidade de um negro não ter planos, não pensar no futuro e limitar-se a aproveitar a primeira hipótese que lhe aparecia pela frente. (…) Isto só prova que, apesar de esse (…) ser casado legalmente, de se manter limpo e asseado, segundo dizem, de ir à igreja e tudo isso, quando chega o momento da verdade o verniz é demasiado fino. O preto aparece sempre à tona. "

Publicado em Julho de 1960, Mataram a Cotovia recebeu, no ano seguinte, o Pulitzer Prize. A autora, Harper Lee, cresceu no Alabama e, na década de trinta em que se desenvolve a narrativa, teria exatamente a mesma idade dos nossos protagonistas – Scout, a narradora, e Jem, o seu irmão mais velho.

Scout e Jem são educados pelo pai, o advogado Atticus Finch, numa localidade fictícia apelidada de Maycomb. Maycomb não é mais do que um decalque do Velho Sul fechado, elitista e preconceituoso, para além de muito hipócrita. Optando pela voz de uma menina de seis anos (no início da trama, e de oito anos quando a história se conclui), Harper Lee colocou tudo de um modo muito simples permitindo, inclusive, que Scout, na realidade Jean Louise, mudasse de opiniões ou caísse em mal-entendidos, motivados pela sua tenra idade. 

O que admirei no livro, a cada página, foi a humanidade das personagens, que acabam por revelar mundos interiores nem sempre coincidentes com os seus comportamentos ou postura. Cada um tem a sua frágil posição na fechada sociedade de Maycomb, como as crianças vão descobrindo por meio da observação e da sua ingénua participação nos eventos e rotina da cidade. Todos parecem capazes de mudar, de se elevar-se para além da sua débil de condição de humanos, ou de cometer atrocidades por receio, vergonha, preconceito. 

"No mundo há quatro tipos de pessoas. Há o tipo de pessoas normais, como nós e os nossos vizinhos. O tipo de pessoas dos bosques, como os Cunninghams, o tipo de pessoas que vivem em lixeiras, como os Ewells, e os negros.

- Então e os chineses e os índios Cajum, p'ra acolá em Baldwin County?

- Em Maycomb, quero eu dizer. O que acontece é que as pessoas como nós não gostam dos Cunninghams, os Cunninghams não gostam dos Ewells, e os Ewells odeiam e desprezam as pessoas de cor."

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(imagem da adaptação cinematográfica de 1965)


A personagem que menos se altera com a aridez dos ventos é, diria eu, Atticus Finch, que se mantém como estandarte da moralidade e da justiça. Quantas vezes o meu coração não se derreteu perante as lições, reprimendas e atenções que este pai dedica aos dois filhos ao longo das 335 páginas desta edição? Uma pessoa acaba a desejar ter um Atticus Finch a seu lado, é, um pouco como no romance de Steinbeck, A Um Deus Desconhecido, uma espécie de Jesus Cristo. E, como Jesus Cristo, as suas acções ameaçam a sociedade e os privilégios em vigor, e isso atrai retaliações e desperta a mesquinhez dos néscios. 

Destaca-se ainda outra personagem, Dill, que, segundo consta, foi esculpido pela autora à semelhança do seu amigo e vizinho de infância Truman Capote. Oferece-nos uma terceira visão pueril, um terceiro par de ouvidos que lida com o mundo dos adultos e o analisa, tecendo as suas conclusões por vezes enternecedoras, outras hilariantes.

Quando se vira a última página, instala-se um travo a segurança e melancolia. Senti mais ou menos a certeza pueril de que o mundo há-de compor-se, há-de ganhar juízo, há-de maturar, como também Scout e Jem vão crescendo e aperfeiçoando as suas capacidades e opiniões à medida que as estações se derramam nos seus quintais e alpendres, e se vão tornando capazes de distinguir o certo e o errado. Scout e Jem observam a vizinhança, e a vizinhança observa-os a eles, tecem julgamentos, enganam-se, cometem injustiças. São crianças, crianças maravilhosamente criadas pela autora, com um discurso coeso e competente, justificado pelo facto de o pai ser advogado, culto, actualizado e muito empenhado em fazê-los reflectir a cada passo da viagem em direcção ao mundo cínico dos adultos.

Ri-me muito, senti-me comovida outras tantas vezes, e terminei este conto do sul de madrugada, soltando um suspiro em seguida. Não sei porquê mas, quando suspiro ao fechar um livro e ao encaixar a sua mensagem, o livro fica. 


Sinopse: Durante os anos da Depressão, Atticus Finch, um advogado viúvo de Maycomb, uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, recebe a dura tarefa de defender um homem negro injustamente acusado de violar uma jovem branca. Através do olhar curioso e rebelde de uma criança, Harper Lee descreve-nos o dia-a-dia de uma comunidade conservadora onde o preconceito e o racismo caracterizam as relações humanas, revelando-nos, ao mesmo tempo, o processo de crescimento, aprendizagem e descoberta do mundo típicos da infância. Recentemente, alguns dos mais importantes livreiros norte-americanos atribuíram grande destaque ao livro, ao elegerem-no como o melhor romance do século XX.

Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para os 7º, 8º e 9º anos de escolaridade, destinado a leitura autónoma.


Prémio Pulitzer

Críticas de imprensa
«Sem dúvida um verdadeiro fenómeno literário, este romance sulista não apresenta a mais pequena mácula nas suas delicadas folhas de magnólia. Divertido, alegre e escrito com uma precisão cirúrgica.» 
Vogue


«O estilo de Harper Lee revela-nos uma prosa enérgica e vigorosa capaz de traduzir com minúcia o modo de vida e o falar sulistas, bem como uma imensa panóplia de verdades úteis sobre a infância no sul dos EUA.» 

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

#203 CAPOTE, Truman, Boneca de Luxo


Sinopse: Em 1958, numa América ainda não imune ao espectro da guerra fria e já marcada por uma certa ânsia de transgressão, Boneca de Luxo parecia combustanciar verdadeiramenteo espírito da época e, ao mesmo tempo, propor uma filosofia de vida capaz de converter os modelos severos de moral puritana numa prática pura de alegria, da "irreflexão", da vitalidade.
Divertido, fascinante, perfeitamente equilibrado do ponto de vista estilístico, este romance é, sem dúvida, a obra mais feliz e agradável da actividade literária de Truman Capote - apesar de estarmos na presença de um apaixonado e firme empenho de denúncia civil.
"Boneca de Luxo", publicado em 1958, é a minha primeira incursão na obra de Truman Capote. A narrativa tem lugar em 1943 - ao contrário do icónico filme protagonizado por Audrey Hepburn, ambientado nos anos 60 - e explora, a meu ver, a hipocrisia de uma sociedade sem valores, mesmo durante a Guerra. Do mar branco e preto de cidadãos comuns, com supostos princípios e moral, emerge a colorida vizinha do escritor que nos conta a história, e cujo nome nunca é mencionado. Enquanto o escritor é tímido e vive uma vida de contenção, Holly move-se noutros sítios e transpira glamour.
Holly Golightly tem 19 anos e tem tanto de sofisticada quanto de inocente e inconvencional. O escritor vê-a primeiro pelo filtro da indulgência, depois do fascínio, depois da frustração e por fim do amor, e acaba arrastado para as aventuras da vivência exuberante da vizinha, em torno da qual gravitam as restantes personagens. 
Truman Capote criou uma personagem inesquecível, uma mulher autêntica no seu fingimento, capaz de forjar amizades genuínas e de compartilhar os seus fantasmas em raros momentos de abertura com quem se sente segura. Holly não mente a si mesma nem àqueles por quem tem estima, e luta por ser feliz num mundo onde teve de se catapultar dos roubos de rua para as visitas contemplativas à Tiffany's. Muito se pode aprender com ela. "Claro que nos casamos, pois se nunca antes me casei!", ou "Claro que vou ao Brasil, ainda para mais nunca lá estive", e outras filosofias de vida de uma jovem muito magra que se coloca acima de todas as suas relações, que dá e que espera retorno, embora não deixe de sofrer desilusões, e que não é bem uma prostituta, porque a decisão é sempre sua, e que se vale da imoralidade e da hipocrisia dos outros para viver como uma mercenária honesta, mesmo que soe paradoxal.

Holly Golightly, a extraordinára protagonista, é uma rapariga alegremente avessa às convenções sociais e às conveniências, que se orienta nas sua opções por uma profunda moralidade, feita de solidariedade, de gestos generosos, de absoluta falta de malícia, e que, precisamente por isso, infringe as obtusas normas de moral burguesa. Com a pequena corte de indivíduos "esquisitos" de que se rodeia, constitui um núcleo que involuntariamente prefigura uma socialidade diferente, mais aberta e, afinal de contas, mais feliz. Mas o mundo que a circunda não aceita facilmente a sua ingénua atitude contra a corrente, e Holly será obrigada a pagar por isso: envolvida sem culpa numa questão de droga, acabará por se libertar, mas será abandonada pelo homem com quem estava para casar. E, todavia, o conformismo não triunfa, já que a rapariga parte, pronta a recomeçar a sua vida noutro lado, com uma carga vital quiçá acrescida.

Espantou-me a coragem de Capote para publicar algo assim, algo que explora a sexualidade e a psique femininas, que fortalece a sua vontade e a sua autononia, criando uma Holly independente, determinada, auto-suficiente mesmo nos seus momentos de maior fraqueza. E que criou homens que entendem o amor para além da posse. E é um livrinho delicioso de apenas 96 páginas. Lê-se num ápice. 

Opinião: Porque eu amo o José... Deixava de fumar se ele me pedisse. Ele é bondoso, faz-me rir até me passar o ferro em brasa, só que agora já não tenho assim tantos ataques, a não ser às vezes, e de qualquer modo já não são tão horríveis que precise de engolir calmantes ou de me arrastar até ao Tiffany's: levo-lhe o fato à lavandaria, ou recheio uns cogumelos, e sinto-me bem, mesmo bem. Além disso, deitei fora todos os meus horóscopos. Devo ter gasto um dólar em todas as estrelinhas do raio do planetário. É uma chatice, mas a verdade é que as coisas boas só acontecem se formos bons. Bons? É mais se formos honestos, não uma honestidade de cumprir a lei... - eu cá era capaz de profanar uma campa e de roubar os dois olhos de um morto se achasse que isso me dava gozo por um dia -, mas uma honestidade para connosco. Tudo menos ser-se cobarde, fingido, um bandido emocional, uma puta: preferia ter cancro a um coração falso. O que não tem nada de beato, é uma questão muito prática. O cancro pode matar, mas a alternativa de certeza que mata. Oh, que se lixe, passa-me a guitarra que eu canto-te um fado num português impecável."

Terminei de ler este romance ontem à noite no Canadá, numa banheira gigante, com chuva lá fora, e uma máscara de rosas no rosto e uma chávena de chá de menta ao lado da banheira. Senti-me parte do enredo. 


Classificação: 4,5****/*

#202 FAULKNER, William, O Som e a Fúria


Opinião: Ao contrário do que tinha imaginado, O Som e a Fúria é um livro que se debate com o leitor. Ler Faulkner, estando tão enamorada de Steinbeck, trouxe os escritores americanos para o topo dos meus favoritos, e a América para o foco do meu interesse e curiosidade. Lê-lo durante a viagem a Nova Iorque há-de torná-lo inesquecível na minha memória, porque ler na estrada é sempre especial.

Como simplificar a leitura e as emoções despoletadas por um livro que só compreendi após muita pesquisa paralela, muito voltar atrás, e que agora, que releio aquele primeiro capítulo dificílimo, me comove até às lágrimas?

Há algo de trágico, de lúgubre e de muito pesado e sufocante na narrativa de Faulkner. Li algures que é "demasiado dramático", mas eu acho o oposto, e é isso que fere. Os motivos para a explosão estão lá, ardem no peito de quem lê, mas as personagens de Faulkner seguram-nos a ferros dentro de si mesmos, contêm-se e implodem. 

Neste romance, publicado em 1929, que narra e
ventos fictícios de 1910 e 1928, Faulkner dá-nos a conhecer uma família de Jefferson que, segundo consta, é uma localidade por si inventada. Apresenta-nos uma família aristocrática do sul, sempre em declínio ao longo da narrativa. Dá-se a falência financeira mas, pior do que isso, assiste-se ao colapso moral da família Compson, de tal modo que uma aversão incontida e inexplicável parece brotar de uns para com os outros, e minar tudo durante os dezoito anos que separam o primeiro relance que temos da família e o último. 

O núcleo principal do romance são os quatro filhos de Caroline Compson; o deficiente Maury, rebatizado Benjamin, Jason, Quentin e Candace. Caddie, como única mulher e única personagem sem um capítulo em que expresse a sua voz, acaba por ter um travo a personagem principal, posto que é para ela que é canalizada a responsabilidade pela degeneração da família, e é também em redor dela e das suas ações que gravitam as restantes personagens. 

O livro está dividido em quatro partes, a primeira pelo ponto de vista de Benjy (1928), a segunda é um dia na vida de Quentin (1910), a terceira é narrada a partir do quotidiano de Jason (1928) e a última é uma visão mais geral, um pouco mais focada na velha criada negra da família, Dilsey.

Se a primeira e a segunda parte me deixaram desorientada, porque não conseguia deslindar o panorama geral, por outro a riqueza da narrativa manteve-me pregada às palavras, à vivacidade de cada personagem e do seu discurso, e ia sorvendo pequenos significados dos trechos desconexos que me iam chegando. O riacho. Um menino agarrado ao portão de casa. "Ela não vai voltar, do que é que está à espera?". "Disseram cala-te, e eu calei-me". "Mas já voltou ao berreiro, mas para quê, não me querem dizer?","Dêem-lhe uma flor que ele já se cala, vêem?". Entendi, ainda antes de ir ler sobre o romance, porque não pensei que precisaria de apoio para compreendê-lo, que a voz que inaugura o livro é a de uma personagem muda, uma criança ou um deficiente mental. 

Faulkner foi semeando pistas nessa primeira parte: surge a idade do narrador em diálogos (e que diálogos!), referenciada em trinta e três anos, e depois vem um trecho em que alguém lhe pega ao colo, e entendemos que estamos noutro recanto da memória de Benjy, e é tudo desfocado mas muito intenso, e o que se evidencia é o facto de esta criança ser um fardo, um constrangimento e um embaraço, e tantas vezes as únicas palavras que lhe dirigem é para lhe pedir que se cale. Ao seu ritmo, as vozes, os tempos, as personagens, andavam todos embrulhados. Com o avançar do romance, e requer concentração, vamos montando o puzzle.

Vamos entendendo a passagem do tempo pela miríade de negros que serviram a casa, outrora uma grande propriedade e de estábulos cheios, e de como tudo se reduz a uma velha que vai parando ao subir as escadas para ganhar fôlego, e a uma cocheira apenas com uma égua exausta, e em como Benjy vai sendo de novo renegado para a companhia dos mais novos a cada nova geração da família Compson e da família de Dilsey, e de como é sempre apanhado nos esquemas dos pequenos que ficam encarregues de o distrair e de o levar para fora da casa, onde a Dilsey quer trabalhar sossegada na cozinha, e a mãe está sempre doente e fechada no quarto, convencida de que foi amaldiçoada.

É interessante que não seja claro o motivo da decadência dos Compson. Talvez a fraqueza de carácter do pai, a vitimização da mãe, a alegada promiscuidade da única fêmea, a fragilidade de espírito de Quentin e a rudeza rancorosa de Jason, mas as culpas são, sem dúvida, canalizadas para Benjy e Caddie, os elos mais fracos, a mulher e o deficiente. Pensemos que a América estava à beira do crash, e que a Lei Seca já vingava, e talvez se considere que os Compson estão apenas a ser fustigados pelos tempos, mas talvez o seu passado aristocrático os impessa de procurar apoio uns nos outros, como fazem os Joad de Steinbeck em "As Vinhas da Ira". 

Faulkner explora com mestria as relações de irmãos, o tecido da autoridade entre eles, uma menina e depois mulher muito mais determinada do que qualquer outro do seu clã, e a sua doçura e paciência para quem mais precisava dela, bem como o amor cego que um homem que terá para sempre três anos de idade mental dedica àquela que mais compaixão e afecto lhe dedicou. Benjy pode ser retardado, como lhe chamam, mas entende o que é ser-se amado e é por isso que a sua lealdade está tão ancorada à irmã Caddie. Também o antigo Sul e os negros - "ainda estou para conhecer um negro que sirva para alguma coisa" - ganha vida e nitidez, por vezes até uma crueldade muito particular, que não a óbvia, num tempo em que a sociedade se começava a despir da tradição, e em que todos ambicionavam novas oportunidades.

Estou a reler as duas primeiras partes, apenas para revisitar aquelas linhas com as novas dúvidas que a leitura suscita, e para me comover e maravilhar com os detalhes que agora ganham sentido a cada parágrafo.

Não tenho dúvidas de que o guardarei na gaveta dos meus livros favoritos.

Sinopse: O Som e a Fúria é a tragédia da família Compson, apresentando algumas das personagens mais memoráveis da literatura: a bela e rebelde Caddy, Benjy, o filho varão, o assombrado e neurótico Quentin; Jason, o cínico brutal, e Dilsey, o criado negro. Com as suas vidas fragmentadas e atormentadas pela história e pela herança, as suas vozes e acções enredam-se para criar o que é, sem dúvida, a obra-prima de Faulkner e um dos maiores romances do século XX. William Faulkner afirmou muitas vezes que O Som e a Fúria era o romance mais próximo do seu coração porque era o que lhe tinha causado mais sofrimento e angústia a escrever. Neste magnífico romance, publicado pela primeira vez em 1929, Faulkner criou a «menina dos seus olhos», a bela e trágica Caddy Compson, cuja história nos conta através dos monólogos separados dos seus três irmãos: Benjy, o idiota; Quentin, o suicida neurótico; e o monstruoso Jason.

O Som e a Fúria é o seu quarto romance e a primeira das suas obras primas indiscutíveis, aquela que, mais do que qualquer outra, confirmou Faulkner como figura central da literatura do século. 

Classificação: 5/5*****

domingo, 11 de novembro de 2018

#201 MCNAUGHT, Judith, Paraíso

Sinopse: Eles eram jovens e sonhadores. Com apenas dezoito anos, Meredith era a herdeira da fortuna Bancroft. Matthew, de origens muito humildes, tinha uma inteligência brilhante e uma energia sem fim. Conheceram-se e apaixonaram-se. Juntos, sentiam-se capazes de conquistar o mundo. Por amor, Meredith desafiou o pai pela primeira vez.Onze anos passaram... Matthew mudou muito desde os seus tempos de rapazinho pobre e tímido. Longe vão os dias em que ousou apaixonar-se por Meredith. Foi um amor sem igual, que terminou abruptamente com uma indesculpável traição. Agora, Matthew é um homem poderoso e implacável. Sob o olhar atento dos média, está prestes a lançar-se sobre o império Bancroft. Executiva de topo na empresa do pai, a solitária Meredith prepara-se para defender a todo o custo o império familiar. Mas, à medida que a tensão aumenta, tanto um como o outro se veem perturbados por memórias agridoces e perigosas tentações... Serão eles capazes de arriscar tudo numa paixão que os destroçou no passado?

Opinião: Adorei a primeira parte, mas não consegui amar de paixão porque o livro é enormeSetecentas páginas de drama familiar, acções, accionistas, mercados financeiros, etc., é dose.

Meredith é rica e não sofre do snobismo que tanto lhe afecta o pai, o que a leva a apaixonar-se por um jovem ambicioso e fora do seu elemento. A ligação, como é evidente, aflige os nervos do velho Bancroft, que não se conforma de ver a sua princesa nas mãos de um zé-ninguém.


Matthew Farrell é um pobretanas que estudou a muito custo, e cuja maior ambição é construir um império . Uma vingancinha pessoal contra o velho Bancroft funciona como catalisador nessa ascensão pessoal. 
Paraíso parte do mote dos mal-entendidos, depois aporta nos reencontros, passa pela desconfiança e mais mal-entendidos, e acaba de modo ... satisfatório, mas não arrebatador.
Ainda assim, li-o em dois dias (pulando, despudoradamente, por sobre a muita palha). Acho que, por fim, entendi o que significa um livro ser muito "palavroso". Este é-o, sem dúvida.
Acredito que fãs do género o acolham com entusiasmo e terminem a leitura de peito cheio. É o segundo romance contemporâneo que leio da Judith, e adorei ambos. Só desejava que tivessem 300 páginas a menos. Tanto pormenor desnecessário maça-me até ao limiar do coma distractivo. 

Classificação: 3,5/5*****

terça-feira, 11 de setembro de 2018

#200 QUINN, Julia, A Indomável Miss Bridgerton

Sinopse: Por vezes, o amor surge nos lugares mais inesperados…

Não é o caso, desta vez.

Todos esperam que Billie Bridgerton se case com um dos irmãos Rokesby. As famílias são vizinhas desde sempre, e Edward e Andrew os eternos companheiros de brincadeiras de Billie. Tanto um como o outro dariam um excelente marido. Por vezes, apaixonamo-nos pela pessoa que seria perfeita para nós... Outras vezes, não.

Há apenas um Rokesby que Billie não tolera de forma alguma: George. Pode ser o mais velho, e o herdeiro do título, mas é arrogante e irritante. Ainda por cima, o ódio é mútuo, algo que lhe convém na perfeição. Mas, por vezes, o Destino tem um sentido de humor perverso...

Pois quando Billie e George ficarem a sós… (certamente no mais inusitado dos locais!) e os seus lábios relutantes finalmente se unirem num beijo, os dois poderão vir a descobrir que a pessoa que não suportam pode bem ser aquela sem a qual não conseguem viver. Os fãs dos Bridgerton – para os quais o fim da saga foi o fim do mundo – têm agora uma nova razão para viver. A série Rokesby – que é uma prequela às tão adoradas histórias da família mais extravagante da Regência – não só os traz de volta como conta como tudo começou…

Opinião: O que procuro num livro destes? Amor de tirar o fôlego, talvez. Originalidade. Humor. Riso. Comoção. Achei-o tépido e desinspirado, sem mencionar que se passa no período riquíssimo do pós-Revolução Americana (1779), e que é explorado de um modo bem superficial. A relação de Billie e George é enrolada, terna mas sem percalços. O único veículo incendiário do amor é o ciúme, é isso que apressa tudo. As primeiras 50 páginas são passadas num telhado, na página 200 ainda se fala do telhado. Só diálogo, diálogo, e muito pouca contemplação. Não me disse grande coisa. 

Classificação: 2,5/5*****