segunda-feira, 11 de março de 2019

#211 QUINN, Julia, O Casamento Inventado

Opinião: Há sempre algo de irresistível que me leva a comprar os livros da Julia Quinn. Acho que vem de 2012, quando comecei a ler a série Bridgerton com o primeiro volume Crónica de Paixões e Caprichos. Li a série de enfiada, conforme os livros iam saindo. Deixei-me envolver pela família barulhenta e divertida, e pela ternura dos afetos entre eles. Volvidos 7 anos, talvez não sejam os livros da Julia Quinn que mudaram, mas eu.

Estamos no final do século XVIII e a revolução Americana ainda não está decidida. Os britânicos batiam-se por manter o precioso território ultramarino. A saga da familia Rokesby começou com A Indomável Miss Bridgerton, sendo que Billie Bridgerton estaria de casamento apalavrado com o vizinho, Edward, mas acaba por se apaixonar é pelo irmão dele, George. Edward estava longe, a combater pelo Império Britânico no Novo Mundo, e estava, inclusive, desaparecido em combate.
Neste segundo volume da série, Edward Rokesby acorda num hospital de campanha em Nova Iorque após uma aparente missão falhada no Connecticut, e sofre de amnésia quanto aos últimos meses da sua vida. A irmã do seu melhor amigo e companheiro de combate, Cecilia Hartcourt, desembarca na outrora Nova Amesterdão para procurar o irmão, e acaba à cabeceira de Edward enquanto ele recupera. Uma vez que a época não permitia uma convivência tão próxima entre uma mulher e um homem fora do seu círculo familiar, Cecilia mente e diz ser casada com Rokesby.
Pronto. É uma premissa já muito vista. Deve haver pelo menos uns cinco romances destas autoras referência em torno disto. Matou o livro para mim, porque o pontapé de saída é esse cliché gigantesco. Acho que não há um motivo no mundo para uma pessoa mentir a outra, muito menos para a "manter por perto".
De qualquer modo, as referências históricas aos conflitos, a Nova Amesterdão, aos holandeses e às suas spekulaas, aos jornais que precisavam de ser passados a ferro para a tinta se fixar, etc., foram-me interessantes, mas não aqueceram um livro que senti como ameno.
É fofinho, mas não passa disso.
Comfort literature.

Sinopse: Enquanto dormias...
Órfã e com o irmão ferido nos campos de batalha da América, Cecilia Harcourt vê-se perante duas opções aterradoras: ir viver com uma tia solteirona ou casar com um primo maquiavélico. A jovem escolhe a opção... três: atravessar o Atlântico e ajudar o irmão a recuperar. Mas após uma semana de buscas, Cecilia não encontra o irmão e sim o melhor amigo dele, Edward Rokesby. O galante soldado está inconsciente e a precisar desesperadamente de cuidados. Para lhe salvar a vida, Cecilia recorre a uma pequena mentira...
Eu disse a todos que era tua mulher.
Ao recuperar a consciência, Edward constata que não recorda nada dos últimos três meses. Mas... decerto que se recordaria de ter casado... ou não? Mas se todos dizem que assim é… 
Se ao menos fosse verdade...
A mentira que Cecilia contou pode pôr em risco todo o seu futuro, mas ela fê-lo por amor... pois quanto mais tempo passa com o jovem, mais intensos (e verdadeiros!) são os sentimentos que nutre por ele. E quando a verdade vier ao de cima, quem sabe o que irá acontecer? O próprio Edward poderá ter também algumas surpresas por revelar...

Classificação: 2**/***

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

#210 MORRISON, Toni, Deus Ajude a Criança

Opinião: ”Sem aprofundarem muito, partiram do princípio de que os três viveriam juntos, pelo menos até Queen poder cuidar de si”

Nos últimos tempos, tenho lido muitos livros bons. Li O Som e a Fúria, li As Vinhas da Ira, li À Espera No Centeio, li o Mataram a Cotovia. Posto isto, peguei nesta pequena obra de Toni Morrison, uma autora nova para mim, porque o tema do racismo me interessa genuinamente. Já o explorei nalguns destes romances, e esperava algo ainda mais pungente, ainda mais avassalador, neste Deus ajude a criança, porque a ação nos chega pelo punho de uma negra laureada com o Nobel, nascida em 1931 e que, até pela época em que viveu a sua juventude, deve ter contos de arrepiar a respeito do assunto.

Não sei se comecei pelo livro errado, ainda tenho ali outro da autora na prateleira, mas o certo é que detestei. Oh, se detestei. Detestei-o da página 1 à 149, mas mais ainda da 150 à 157. Vou tentar resumir porque me causa o livro tanta aversão em termos gerais, e depois vou pôr um filtro de spoilers para dizer porque é que um pobre e inocente romance de 157 páginas me causa tanta indignação.

Comecemos do modo politicamente correto: as personagens são fúteis e superficiais. Pode dizer-se isto de personagens que saíram do punho de um Nobel? Diria que sim, se este acaso lhe fosse intencional. Só que não é. O que a autora faz neste romance já vi ser feito muitas vezes: pega-se em personagens de duas dimensões, irritantes, inconsequentes e incoerentes, e pinta-se-lhes um passado infeliz. A partir daí, é como se a tivéssemos enchido de substância. Já não é fútil, é revoltada. Já não é irritante, é reativa. E também não é inconsequente, está é perturbada. Só que as personagens deste livro, da primeira à última, são de um vazio de dar dó. 

Comecemos pela personagem principal, Bride. "Bride" é o apelido que Lula Ann escolheu para si própria. É estúpido, mas podia ser só isso. Não, na realidade, não consigo escolher um nome melhor para uma personagem tão chata como esta Bride. O nome calha-lhe que nem ginjas. De seguida, temos Brooklyn, a amiga de Bride. Nem me ponham a falar dessa amizade entre a menina preta-ónix e a menina loirinha e pálida de rastas loiras. Não acrescentou uma vírgula ao romance, exceto descrevê-las exaustivamente a nível físico, para vermos como são diferentes e como os brancos até podem ter os seus traumas. Depois temos Booker, o ex-qualquer coisa de Bride. Nunca entendemos porque é que gostam um do outro, porque é que se apaixonaram, se estão apaixonados ou se é só o sexo que era maravilhoso. Isto também me faz imensa confusão nos romances: quando os autores nos atiram personagens que são autênticos protótipos do falhanço da nossa espécie, que não conseguem conduzir um carro sem bater, que só fazem disparates, são desastrados, só se metem em problemas, mas, por acaso, são todos deuses no sexo. E como há aquele ênfase aborrecido no sexo e em como sexo de outro mundo é suficiente para forjar relações. “Ele era complicado, mas o sexo era divinal”. Pronto, isto é a relação da Bride com o Booker. Mas há mais personagens, há a Julie, a Raisin/Rain, a Sofia Huxley/ex-professora da Bride, a mãe da Bride, todas muito iguais. Demasiado iguais. Já explicarei abaixo quão iguais.

Agora, para finalizar o excerto sem spoilers… Imaginem uma história que se quer sobre o racismo, um racismo tão acutilante que a premissa principal vendida na sinopse é a de uma mãe que despreza a própria filha pela cor da sua pele. Parece-me um mundo de possibilidades e, no entanto, saíram todas goradas. Parecia-me que estava a ler um livro da Lesley Pearse, tragédia após tragédia. Não há um dedo de credível neste romance. A autora não quis saber de realismo. Pensou “quantas tragédias consigo enfiar num livro passado em para aí dois meses e em 157 páginas?”, e enfiou-as todas. Com especial incidência no racismo, abusos sexuais e desastres em geral. Pois é, esperava uma coisa composta e saiu-me este esboço sobre uma negra da cor da noite cujos atributos físicos vêm referidos até à exaustão, de uma futilidade embaraçosa, tudo num emaranhado de situações irrealizáveis que me puseram num constante estado de a sério?. Gostaria de dizer que foi isso me impediu de viver a história, mas a verdade é que não há história. Não entendo a quantidade de boas reviews. A medicação deve estar a afetar-me o discernimento. 

Para culminar, o livro segue a várias vozes que, em vez de acrescentarem algo de novo, só repetem a mesma circunstância pela segunda e às vezes terceira vez. Num livro tão pequeno, é dose.

Ora vamos lá à parte sumarenta (segue-se um resumo do livro comentado por esta leitora desgostosa):

Lula Mae, negra, tem uma filha chamada Lula Ann, que é preta-azulão. O marido, apesar de negro, não é assim tão negro e deixa-a porque a filha é uma aberração. Bam! Primeira desgraça. Lula Mae fica sozinha a cuidar da filha e a lutar contra a própria aversão à pele da criança. Não é mencionada a sua ocupação - ou estava distraída -, mas algures, quando a filha tem 7 anos e tenta denunciar o senhorio que vê a molestar uma criança atrás de casa - quem nunca?, a mãe diz-lhe que tem dificuldade em arranjar outra casa por aquele preço e exige-lhe que não abra o bico a respeito daquele assunto. Mais ou menos nessa mesma fase da infância da filha, Lula Mae menciona que já não quer saber se a olham de lado por passear uma menina tão negra e feia porque ganha melhor do que aquela gente toda. E deve ganhar, porque a filha sai de casa muito cedo - … - e, aos 23 anos, já mora num apartamentão, é ricaça, conduz um Jaguar e é tipo uma rainha da cosmética e uma fashion icon graças ao facto de ter aprendido a valorizar o seu tom de negro, que basicamente se resume a usar roupa branca, como a autora nos repete pelo menos 57 vezes. É importante recordar que a Lula Ann, que ao crescer decide auto-nomear-se “Bride” - … - tem 23 anos no decorrer desta história. 

Agora a melhor amiga de Bride, Brooklyn: branca e de rastas loiras, é colaboradora da Bride numa loja de cosmética – aquilo dá imenso dinheiro! -, e uma vez, só para ver se o namorado da Bride gostava mesmo dela, entrou no quarto da amiga e viu-o deitado na cama a ler. Então despiu-se toda e juntou-se-lhe na cama, só para testar a fidelidade dele à Bride - quem nunca fez isso por um amigo? -. Já mencionei que a Brooklyn saiu de casa muito cedo - … - e foi molestada? Isto é capaz de começar a ficar um bocado repetitivo, agora. De seguida temos Booker, o namorado trompetista de Bride, que, segundo Brooklyn relata, é mendigo porque ela o viu a pedir na rua ou a tocar na rua em várias partes da cidade. A Bride nada sabe dele, porque, como é evidente, abrimos a nossa casa a quem quer que nos possa oferecer bom sexo, e depois vamos trabalhar durante os meses que dura a relação e a pessoa vai ficando por lá. Como não falamos da vida de um nem da vida do outro, suponho que discutissem cosmética ao jantar, visto que ela nem sabia que ele tocava trompete. 

Ok, regressando a Booker. Booker é muito culto e tinha um irmão gémeo que morreu ainda no útero da mãe. Trágico? Então esperem só até dizer que o outro irmão dele, Adam, um menino prodígio, foi raptado por um predador sexual e assassinado?…. Por último, como se não bastasse, o Booker vem a casa nas férias e tem uma discussão horrível com os pais, porque os pais desmontaram o quarto do irmão falecido para fazer um closet para a irmã, e ele não podia suportar tal frieza, então saiu de casa muito novo - …. Entretanto, a Bride persegue uma Sofia Huxley que foi sua professora, leva-lhe 5000 dólares e uns itens básicos, porque a outra acabou de cumprir 15 anos de cadeia por abuso a menores - …. A professora, ao recordar-se que ela foi uma das crianças que a acusou, dá-lhe uma coça tremenda, e a amiga dela vem buscá-la e leva-a toda partidinha para o hospital. Os elementos importantes da surra são o sapato de designer que a Bride perde ao ser sovada. Que sucede então? A nossa Deusa sexual diz à melhor amiga que levou um tareão de uma ex-reclusa? Não, diz que tentaram violá-la- …. Toda a gente sabe que aos amigos conta-se a versão mais simples, que é para não se porem com muitas perguntas. 

Entretanto, assim que se põe boa, decide ir atrás do ex-namorado, afinal ele desapareceu porque disse que ela não era a mulher certa para ele. Seguindo uma pista, diz adeus à melhor amiga por bilhete, mencionando que tem de fugir e deixar os compromissos pendentes e que não lhe pode dizer onde vai - …. Seguindo o rasto do moço para uma zona rural, e mencionando que está muito escuro e que a estrada é esquisita, a nossa bonita Bride, com botins novos forrados a pele de coelho, vai contra uma árvore com grande estrépito. Fica ali uma noite inteira, com o pé esmagado nos pedais e o telefone sem rede - …. Daí que vem uma menina de olhos muito grandes verdes, e depois o pai da menina vem buscar a Bride e levá-la para sua casa. Chamam um médico e dizem-lhe que precisa de 6 semanas de repouso. Nada mais natural do que ficarmos em casa de estranhos durante seis semanas em repouso, não é? Sem uma alma no mundo a quem ligar, sem desejar aceder a cuidados preferenciais que o nosso bolso pode pagar, em vez de um médico de província a cortar-nos a preciosa bota de pêlo de coelho? Sobretudo quando se conduz um Jaguar e eles são hippies que fazem as necessidades num barraco do quintal, e que não têm chuveiro. 

Entretanto, trava-se amizade com a criança Raisin/Rain, apenas para descobrir que a criança foi posta na rua pela mãe, aos seis anos, porque a mãe recebia dinheiro para a deixar ser molestada por estranhos - … e ela se recusou. Ouviram, meninas de 6 anos abusadas sexualmente? Basta dizer que não querem. Vai daí a Bride está boa do pé e vai-se embora – não é que este impasse acrescente coisa alguma à história, além de mais um caso de abusos sexuais a menores. A Bride nunca mais coxeia nem nada. 

Chegamos então à casa de Queen, tia do Booker, e pensamos que esta porcaria de livro está quase a acabar, mas aproxima-se a tal página 150, em que tudo fica mais estúpido ainda. Portanto a Queen está no quintal a queimar um colchão por causa dos percevejos, e a nossa querida Lula Ann, cof cof, Bride, está muito preocupada porque se lhe fecharam os furos das orelhas, e as mamas estão muito pequenas, e começa a achar que se está a transformar de novo na adolescente desengonçada que a mãe detestava - não sei se já tinha dito que tudo neste livro é sobre aparência. Senta-se à mesa com Queen, apenas para a ouvir falar um bocadinho de como se casou muitas vezes e de como tem muitos filhos que nunca a visitam mas que mandam sempre dinheiro. Acabada a conversa, que dura uma ou duas páginas e que faz delas melhores amigas – ah, e que serve também para a Queen contar a história de Booker, porque já se sabe que no amor as pessoas não comunicam exceto sobre o ponto de ebulição da água - lá é informado à rapariga o paradeiro do seu adorado. Consta que o desgraçado, há poucos dias, partiu um braço (a autora nem se dá ao trabalho de inventar uma circunstância para o rapaz partir o braço, mas eu descobri-a logo adiante), mas está numa caravana ali perto. Portanto a Bride vai até lá, trocam três frases acesas, ela parte-lhe uma garrafa na cabeça - quem nunca partiu uma garrafa na cabeça do seu mais-que-tudo?, ele desmaia por uns instantes, ela acalma-se. Ele acorda e está mais calmo, mas ela adormece sentada na cadeira a meio da discussão. A tia Queen aparece, pergunta que barafunda é aquela, e ajuda-o a deitá-la na cama porque ele tem o bracinho aleijado, e vai-se embora de novo com recomendações de que não sejam estúpidos. Outra coisa que nunca entendi nas novelas/literatura rasca é como é que alguém adormece involuntariamente, mas depois alguns conhecidos dizem que se apagam a ver TV, por exemplo, que é coisa que também nunca me aconteceu. Por esse motivo, aceito que se adormeça em situações de relaxamento, mas não a meio de uma conversa - mas também esse adormecimento tinha outra fisgada, o problema é que era óbvio. E também nunca entendi, só para encerrar, isso de uma pessoa adormecida se deixar levar em braços por estranhos. Se a gata miar na sala, ao fundo do corredor, eu acordo. 

Portanto o rapaz torturado cuida da mulher que lhe deu com uma garrafa na cabeça, ela desperta e rouba comida do prato dele, afinal estava só rabugenta. Falam sobre o passado e ele diz que teve de a deixar sem explicações - as pessoas fazem imenso isso na vida, e neste livro mais ainda - porque ela ia dar dinheiro e apoio a uma condenada por molestação de menores, e o irmão dele morreu por causa de uma pessoa assim. Ela confessa que só queria reparar o que fez porque mentiu em tribunal, só disse que a professora tinha molestado as crianças para a mãe ficar orgulhosa dela - WTF?. Porque, aos 7 anos, a nossa mãe manda-nos calar a boca sobre o senhorio a ser masturbado por uma criança no pátio, mas, aos 8 (salvo erro é logo aos 8), e sem coerção, palpita-nos que a mesma mãe vai ficar super orgulhosa se acusarmos a professora em falso por nos ter molestado. E, como é esta piada de livro, a mãe fica mesmo orgulhosa, passeia de mãos dadas com a Lula Ann e tudo. Vá lá entender-se. 

Pronto, pensamos que acabou o martírio. Só que não… aproximamo-nos perigosamente da página 150. Começa a cheirar a fumo. Esperem… o colchão… os percevejos? A casa da tia Queen? Está a arder, claro. É este livro! A casa arde, e a tia tem a cara a arder, mas os nossos heróis trazem-na para fora, e a Bride tem de tirar a t-shirtdiante dos vizinhos todos para apagar as chamas do cabelo da tia Queen e fica com os seios magros à vista de todos, que horror. Entretanto, a tia vai para o hospital. E a Bride vai para a sua vida? Não, todos sabemos que quando temos alguém doente no hospital, largamos emprego, vida, contas, família e amigos, para nos postarmos à beira do moribundo. E é isso. Bride e Booker ficam ali, unidos a torcer pelo bem da tia Queen, que a Bride diz que ama (afinal, passaram meia hora juntas). Fazem planos de futuro “(…) Começaram a planear o que fazer quando Queen tivesse alta. Arranjar um sítio onde pudessem ficar todos? Uma caravana grande? Sem aprofundarem muito, partiram do princípio de que os três viveriam juntos, pelo menos até Queen poder cuidar de si.”. Quem nunca abandonou a sua vida toda, estacionou o seu Jaguar num parque de roulottes e foi ajudar uma senhora que conheceu há cinco minutos a recuperar de um acidente durante o tempo que fosse necessário? 

Por sorte, Queen está muito melhor. Vai sobreviver, uff! De salientar que os pombinhos estão separados, até porque não têm aquela estranha capacidade de alguns Homo Sapiens Sapiens têm: falar. 

Mas esperem, chegamos à página 150. Na cafetaria, Brooke conta a Bride que Queen tem um grande desgosto – isto é a autora, para gostarmos da personagem, e cheirou-me logo a esturro. A filha Hannah avisou-a que o pai a molestava - A SÉRIO? -, só que a Queen não quis saber e a filha nunca mais lhe falou. Atroz. É para aí o 17º molestado sexualmente neste livro. Entretanto, já eu regurgitava quando a Queen apanha uma bactéria hospitalar… e MORRE. Bam!Não vale a pena dizer mais nada. É um livro de doidos. Uma estupidez pegada. Um insulto aos bons romances. Uma porcaria que qualquer menina de secundário escrevia numa semana se levasse as canetas coloridas para o recreio e o bloco de notas. Pergunto-me se não é a escrita pelo negócio, para vender livros, porque se tem um selo bonito para por na cama a dizer "Prémio Nobel da Literatura", mas já não se tem mais nada a dizer. Chega. Vou tirá-lo do sistema. Péssimo. 

Sinopse: Sweetness não consegue amar a filha incondicionalmente. Bride alcança grande sucesso e beleza, mas cresce sem o apoio da mãe. No centro da discórdia está a cor da sua pele, «negra como a noite, negra do Sudão». No percurso de Bride encontramos Booker, também perturbado pela infância, e Rain, uma criança de tez clara. Neste romance intenso, Toni Morrison mostra-nos como a infância afeta todos os aspetos da vida adulta, comouma música de fundo que nunca deixamos de ouvir.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

#209 CARVALHO, J. Rentes de, O Meças

Sinopse: Novo romance de Rentes de Carvalho. Uma história de violência, em que a progressiva definição dos contornos da memória trará novas e dolorosas verdades. Romance inédito, nele se conta a história de António Roque, homem atormentado, possesso do demónio de funestas memórias. As imagens do passado que regularmente se apoderam dele transformam-no num monstro capaz dos piores atos. No entanto, a obscura história da irmã e do homem abastado que se servia dela - e que, apesar de morto, continua a instigar-lhe um ódio devastador - não é exatamente como ele pensa que se lembra. Depois de anos emigrado na Alemanha, o Meças regressa à sua aldeia de origem. Com ele vivem o filho (a quem detesta) e a nora (a quem deseja, mas inferniza a vida), atemorizando, de resto, todos os que com ele se cruzam. Uma história de violência, em que a progressiva definição dos contornos da memória revelará novas e dolorosas verdades.

Opinião: 


"Criei-me a falar sozinho, a brincar sozinho, forçado a inventar um mundo que, pela fantasia, compensasse o escasso território do pátio em que me isolavam, como se o contacto com os outros fosse um perigo ou desse peçonha.”

Este é o primeiro romance que li de J. Rentes de Carvalho, apesar de o próprio, na Feira do Livro de Lisboa do ano passado (2018) me ter aconselhado a começar pelo "Ernestina". Esse fica para depois. Na mesma ocasião, alguém mencionou que o livro projetou imagens muito sombrias na sua mente, e que acabava por ligar as luzes todas de casa à noite, enquanto o lia, nem sequer senti que a maldade desta personagem fosse de cariz tal que o livro me conseguisse roubar o sono. Não senti esse assombro, mas “O Meças” não deixa de ser um retrato pesado, por vezes agoniante e cru de uma realidade rural que continua a ser a do nosso país em 2019. Porém, como em parte fundamentadas as canalhices da personagem principal, acabo por lhe atribuir mais humanidade do que pura vileza.

Uma das ideias que o livro desenvolve, e que vai ficar comigo durante os próximos tempos, é a de que existe um desencontro entre a imagem de um meio rural português perante os estrangeiros e os que de fora o vêem, e a realidade daquelas vivências. O Portugal de montes idílicos, de ingénua iliteracia e de brandos costumes, tantas vezes elogiado na comunicação social e romanceado na literatura, não existe em “O Meças”, como não existe para mim nem para todo aquele que tenha tido contacto com o país profundo e visceral. Um Portugal de vinganças, incesto, maus fígados, copos e peneiras. Este é, para mim, a espinha dorsal que dá alento a estas 180 páginas.


O autor opta por contar a história a quatro vozes que nos chegam chegam na primeira pessoa, sendo que também surgem trechos narrados por uma voz ausente. António Roque é o Meças, e também o detentor do discurso mais ríspido, mais violento, com rasgos de um Português floreado. Um pouco como se nos chegasse, através dele, o trauma, a dureza, a ausência de remorso, a iliteracia, o preconceito sofrido e o outro, praticado, que é são a essência do livro. Por vezes torna-se difícil acompanhar-lhe os trejeitos de linguagem, mas, terminada a leitura, parece-me que era necessário distinguir esta alma das restantes.


A segunda voz é a do filho do Meças, Abel. Sobre esta relação pai e filho: “São sem conta e antigas as razões de não se gostar de um filho, abundam no Velho Testamento, na mitologia grega, com pouco esforço as encontramos à nossa volta”. Esta segunda voz assemelha-se um pouco àquela que pertence à nora do Meças, Isaura. O discurso é mais moderno, escorreito, e o tom mais leve. Por último surge-nos outra voz, num tom límpido e cristalino, nem por isso mais leviano na sua mensagem, e que diria ser a voz a que nos habituamos quando lemos o comum dos romances, sobre pessoas de parte anónima. É quase um discurso universal no qual repousamos depois da verborreia plena de obstáculos do Meças.


Gostei da história. É para isto que leio livros: para ser introduzida a cenários, a pessoas, a psiques várias – e vejo-as, neste romance, complexas e arredias –, a dramas e dilemas pessoais. O que procuro nos autores é, sempre, o seu imaginário. Entretenham-me com uma história que me cative e eu regresso. Enfadem-me com vocabulário pedante e eu viro as costas.


Apesar de alguma dificuldade em entrar no tom, “O Meças” deixou uma boa impressão das capacidades do seu criador, e estou certa de que, cedo ou tarde, farei a travessia para “Ernestina” com tanta ou maior expetativa.


Classificação: 3,5***/*****

domingo, 3 de fevereiro de 2019

#208 SALINGER, J.D., À Espera no Centeio

Sinopse: A voz do seu protagonista, o anti-herói Holden Caulfield, encontrou eco nos anseios e angústias das camadas mais jovens, tornando-o numa figura icónica do inconformismo. Da mesma forma, os temas da identidade, da sexualidade, da alienação, e do medo de existir, tratados numa linguagem desassombrada e profundamente original, fizeram de The Catcher in the Rye um símbolo da contracultura dos anos 50 e 60. Mas, passados sessenta anos sobre a sua primeira publicação, vendidos mais de 65 milhões de exemplares em quase todas as línguas, e instituído marco incontornável da literatura mundial, À Espera no Centeio mantém toda a actualidade e a frescura da rebelião.

Opinião: 
"Ponho-me a imaginar uma data de miuditos a brincar a um jogo qualquer num grande campo de centeio e tal. Milhares de miuditos, e ninguém por perto, ninguém crescido, quero eu dizer, a não ser eu. E eu fico ali na borda de um abismo lixado. E o que eu tenho de fazer é ficar à espera no centeio e apanhar todos os que desatarem a correr para o abismo..."


À Espera no Centeio foi publicado em 1951, e é ambientado nos anos 40 na escola fictícia de Pencey, e em Nova Iorque. Segue os pensamentos de Holden Caulfield, de 16 anos, ao longo dos dias que antecedem o seu internamento num sanatório.

Quando terminei este romance, em relação ao qual não fazia ideia do que esperar, pus a tocar uma versão em piano de Smoke gets in your eyes, e de repente fui inundada por uma ternura inesperada para com este adolescente desajustado. De algum modo, Salinger conseguiu levar-me de volta à minha própria adolescência e à época em que podia dar-me ao luxo de despender energias a tentar perceber o mundo e a tentar mudar as pessoas.

Holden surge-nos cheio de bazófia no início, mas vai-se tornando mais apático à medida que se vai deixando de tretas e entrando nos assuntos cruciais que se debatem na sua consciência, e que o têm lançado para a beira do precipício em que se encontra. As suas reflexões chegam-nos plenas da gíria juvenil com que o autor decidiu tecer aquilo que julgo ser a sua obra-prima, e creio que essa foi uma das grandes críticas literárias a esta obra. No entanto, não consigo imaginar esta história a ser credível de outro modo. Na minha percepção, o jovem norte-americano, que acaba de ser expulso para aí da terceira escola preparatória, está de luto e está à beira de um esgotamento emocional. Holden sente-se alienado de tudo e de todos, entende o que os pais esperam dele, não tem qualquer desejo de lhes causar desgostos, é louco pela sua irmãzinha, que, aliás, parece ser a única criatura no mundo capaz de ter uma conversa decente com ele, e fazer com que se abra. Também guarda as lembranças do falecido irmão com carinho mas, fora isso, parece não conseguir dar-se a ninguém, nem chegar a ninguém. Vive na permanente frustração de uma comunicação insatisfatória e forçada, da qual se vale para fazer valer o seu ponto de vista de que são todos uns peneirentos ao seu redor. Perante todas a outras personagens com o que jovem se vai cruzando ao longo daquele fim-de-semana em que procura esconder dos pais a sua expulsão de Pencey, Holden é céptico, provocador, desdenhoso. Mas também é obstinadamente idealista e generoso. Se, por um lado, é evidente que é ávido por conhecimento, um leitor assíduo e um miúdo inteligente, por outro é demasiado sensível para as exigências da sociedade, e está fragilizado pelos dois acontecimentos traumáticos da sua curta vida. Holden tem dificuldade em assistir impassível a vidas que lhe parecem vazias de conteúdo, num mundo que lhe parece estéril de encantos. Para ele, nada tem importância e nada tem valor, à excepção do quão bestial era o seu irmão, e do quão esperta é a sua irmã.

Penso que a rota de auto-destruição em que Salinger lança Holden, por caminhadas de quarteirões na Big Apple, e passeios em redor do lago gelado do Central Park, cimentados a álcool e tabaco, recria bem o que é a queda em depressão, ou em apatia. Isolado, o jovem Holden não consegue valer-se a si mesmo. O que lhe vale é o amor da irmã e a paciência de alguns (cada vez menos) conhecidos, que procuram repescá-lo do campo de centeio e para longe do abismo.

Alienação seria a palavra-chave deste romance. O jovem Caulfield não consegue impedir-se de se misturar com os outros, inclusive de os procurar, de lhes pedir que fiquem e que o mantenham acompanhado, mas nada é capaz de mitigar as sensações de solidão e de desgaste que o acompanham para todo o lado. Em instante algum se identifica com as pessoas que o rodeiam, ou se sente compreendido por aqueles com quem priva ao longo daqueles dias. Está constantemente à parte e a observar os outros, enquanto estes lhe recordam, sem melindres, como ele é estranho e desadaptado.

O que me parece ser a riqueza deste clássico americano é o retrato psicológico do jovem Holden, o modo como se esforça para analisar os outros à luz da sua própria juventude, e não dos rótulos sociais. Salinger faz-nos percorrer as ruas gélidas de Nova Iorque nas semanas que antecedem o Natal, na companhia de um miúdo cheio de potencial, mas que se vê enredado nas contradições de um mundo algo hipócrita, onde as pessoas vivem de fachada e se preocupam demasiado com aquilo que ele considera futilidades. 
Apenas não atribuo as cinco estrelas porque, apesar de lhe reconhecer grande beleza, e de me ter emocionado no final, ao som de Smoke gets in your eyes, não creio que seja um dos livros da minha vida. Considero também que, sem a página e meia que o encerra em jeito de epílogo, estaria ainda mais próximo das cinco estrelas. Ali era o momento certo para Salinger terminar a deambulação alucinada do jovem Holden.

Classificação : 4,5****/*

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

#207 STEINBECK, John, A Um Deus Desconhecido


Sinopse: As antigas crenças pagãs, as grandes epopeias gregas e os relatos da Bíblia servem de base a este romance extraordinário, que Steinbeck demorou cinco longos anos a escrever. Ao dar cumprimento àquele que sempre fora um dos grandes desejos do pai, criar uma quinta próspera na Califórnia, Joseph Wayne acaba por vir a acreditar que uma das mais belas árvores dessa quinta incorporou o espírito do seu progenitor. Os irmãos e respectivas famílias, que foram viver com ele, beneficiam dos êxitos e da prosperidade de Joseph, e a quinta vai-se de facto desenvolvendo – até um dos irmãos, assustado pelas suas crenças pagãs, decidir cortar a árvore, o que faz com que a doença e a fome se abatam de súbito sobre todos eles. A um Deus Desconhecido (1933) é um romance quase místico, que tem por tema central o modo como os homens tentam controlar as forças da natureza, e ao mesmo tempo compreender a sua relação com Deus e com o inconsciente. 

Opinião: "A Um Deus Desconhecido" é a minha estreia com Steinbeck. Tinha uma edição antiga de As Vinhas da Ira, mas lembro-me de começar a ler e de ficar perdida em tanta descrição. A descrição é, precisamente, aquilo que me prendeu de modo tão eficaz a este livro. O título é delicioso, e o livro dança em redor da sua simbologia com uma graciosidade admirável. 

O enredo é relativamente simples: estão a dar terras na costa Este e Joseph Wayne, que sempre sonhou em possuir algo de seu, despede-se do pai, quase um moribundo, e parte. Contudo o livro está prenhe de emotividade, de intuição e de superstição, e creio que a personagem principal não se perdoa por ter partido de modo tão impaciente, quando o seu modelo, o pai, lhe garante que pouco falta para morrer, e que então poderia acompanhá-lo em espírito até ao seu novo lar. 
O novo território é quase selvagem, e Steinbeck descreve-o de modo a que nos chega aos sentidos o perfume dos loureiros, da terra húmida, do pêlo das vacas e dos cavalos, enquanto a audição acompanha os cascos das bestas em trote, os cursos de água em confronto com as pedras, o uivo dos coiotes, a porta do celeiro que range. Em termos de cenário, o livro é a quatro dimensões.

Surpreendeu-me também a profunda humanidade em cada reacção destas pessoas, porque, em breve, ao dar notícias da sua prosperidade aos irmãos, Burton e a esposa, Jennie, e Thomas e a respectiva, Rama, juntam-se-lhes com a sua horda de filhos. Joseph é o que nos oferece mais camadas, é uma mescla de aceitação, entusiasmo, desalento, espiritualidade e depois desalento. Tudo de modo homogéneo, apesar de q sua vida estar ligada à da sua terra, aceita com facilidade as crenças dos outros e entende-as. Ao contrário dos que o rodeiam, que se melindram com os diferentes. 
Joseph ama e respeita a terra, comprometendo-se a protegê-la de qualquer ameaça - que, para o efeito, são os anos de seca cíclicos, narrados com dissabor pelos homens da população local, Nuestra Señora. Andam por ali índios, portugueses e mexicanos. Os primeiros têm crenças ligadas aos ritos da terra: sacrifícios, danças e oferendas, clareiras sagradas onde grandes rochedos cobertos de musgo convidam as grávidas à reflexão. Os segundos e os terceiros são profundamente católicos, e devem ao Padre Ângelo a sua salvação espiritual. O clã Wayne é protestante, pelo que Burton, o mais religioso dos irmãos, se sente desenraizado naquela terra, que desde o início lhe parece herege e devota ao demónio. Por outro lado, Thomas, mais rude, tem uma relação única com os animais. Respeita-os, domestica-os, inflinge-lhes a dor e a morte como se a sua alma fosse uma só com a deles. Não é tão reflexivo quanto Joseph, mas é igualmente introspectivo e de valores profundos. É o irmão cuja religiosidade é conservadora, mas a mente alcança um pouco além das escrituras. 

E depois Joseph, que, no ímpeto de se ver feliz e perante uma tal promessa de prosperidade, olha em redor e vê os animais a reproduzirem-se, a natureza em êxtase, o sol e as chuvas em harmonia, e convence-se que tanta bonança advém da bênção do seu pai, cujo espírito estaria presente nos ramos de um velho carvalho. Junto do carvalho busca conselho, regressando sempre que necessita de partilhar algo que, aos outros, poderia soar ridículo. Entende-se assim como a espiritualidade é algo de íntimo, e que se a sua vantagem é a de nos fazer sentir bem com o mundo, então os seus ritos não devem ser impostos a quem nos rodeia. Entende-se também quão destabilizador é, que alguém nos rache as crenças ao meio, só porque lhe parece desenxabidas. Joseph, de bem consigo mesmo, acaba inclusive por permitir que se celebre uma festa em honra da fertilidade do local, para a qual convida o padre Ângelo, que celebra missa e traz as imagens de Nossa Senhora e de Cristo para o altar improvisado. Isto transtorna o seu irmão Burton, que profetiza que toda aquela idolatria e paganismo acabarão por levá-los à desgraça. Na minha óptica, Burton tem receio. Crê num Deus vingativo e colérico, pouco tolerante, e sente que o irmão está a expô-los a todos a um castigo imerecido.

A morte de um humano é um processo longo e demorado. Matamos uma vaca, e a mesma está morta assim que a carne seja comida, mas a vida de um homem morre como uma comoção numa poça tranquila, em pequenas ondas, expandindo-se e regressando à imobilidade. 

A beleza da narrativa consiste nas descrições pueris da natureza, e de como a mesma ora é simples, ora é incompreensível. Mas reside, sobretudo, no modo como o universo significa coisas tão diferentes para cada personagem, e cada um é devoto àquilo que o tranquiliza, sendo que Joseph precisa da árvore para se sentir seguro, Thomas dos animais e Burton das escrituras e dos acampamentos religiosos. Há ainda quem precisa de se cobrir de peles de animais para ir festejar as chuvas, e se rebole na lama para o mesmo efeito. E depois há quem sinta que deve sacrificar a cada pôr do sol uma criatura diferente, para que na sua terra se multipliquem as sementes e a humidade a mantenha fértil. Deus é algo diferente para cada um deles, e a incompreensão por parte dos outros lança sombras sobre a existência de cada um. 

A ideia geral - e que corroboro - é que Deus é uma entidade pessoal para cada um de nós, e podemos encontrá-lo naquilo que nos traz conforto e paz, sem que exista uma explicação lógica. Um belo tratado sobre tolerância religiosa, numa altura em que o diferente voltou a significar ameaça. Se formos capazes de reconhecer a intimidade premente entre cada um e o universo, talvez o bem-estar espiritual chegue a todos.
Um elogio ainda ao evidente carácter intemporal do livro, escrito em 1933 e tão contemporâneo, bem como à feminilidade que brota desta natureza em esplendor, e à ternura e entendimento entre os homens de Steinbeck e a mulher amada. 
Mal posso esperar por voltar a ler o autor.

Classificação: 5/5*****

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

#206 CAMUS, Albert, O Estrangeiro

Sinopse: Meursault recebe um telegrama: a mãe morreu. De regresso a casa após o funeral, enceta amizade com um vizinho de práticas duvidosas, reencontra uma antiga colega de trabalho com quem se envolve, vai à praia - até que ocorre um homicídio. Romance estranho, desconcertante sob uma aparente singeleza estilística, em O Estrangeiro joga-se o destino de um homem perante o absurdo e questiona-se o sentido da existência. Publicado originalmente em 1942, este primeiro romance de Albert Camus foi traduzido em mais de quarenta línguas e adaptado para o cinema por Luchino Visconti em 1967, sendo indubitavelmente uma das obras-primas da literatura francesa do século XX.

Opinião: 
Um artigo do Expresso, de 2013, anunciava que O Estrangeiro tinha vendido oito milhões de cópias, e que estava traduzido em 40 línguas.

Não me é frequente, na literatura, precisar do estímulo do contexto para melhor perceber um livro, mas foi o caso com este. Um livro que precisa desse tipo de auxílio nunca me chega tão a fundo quanto um livro que me consegue cativar sem qualquer nota de rodapé. Acabo por sentir alguma admiração pelos livros que necessitam de contextualização - quando bem conseguidos, como é o caso-, mas acompanhada de um distanciamento que não dá para ultrapassar.

Custou-me a sentir qualquer tipo de empatia pela personagem central do livro, este Meursault. Passei o livro todo à procura de uma lógica para estas páginas. Foi ao terminar a leitura, ao reflectir sobre o ano da sua publicação- 1942 -, e ao dedicar-me a alguma leitura a respeito do autor e da época que julgo, agora, ser capaz de entender L'Étranger um bocadinho melhor.

Assumindo que não há qualquer sentido, qualquer ideal em causa, ao longo destas 85 páginas, tudo me parece mais claro. Uma vez mais, cruzo-me com o conceito de niilismo, em que nunca me tinha detido até agora. 

Neste romance, Camus narra uma série de acontecimentos, diria até que algo banais (daí que me tenha sentido aborrecida durante 75% da leitura), e imprime-os no dia-a-dia de um homem indiferente, que passa pela vida sem a analisar, sem lhe buscar um sentido, um propósito. 

Meursault passa pela vida sem lhe extrair nenhum significado superior, vivendo de momentos que, tantas vezes, são forjados por terceiros. Não se permite qualquer reflexão profunda, não disserta a respeito da vida, da morte, do amor, etc. Parece mais próximo da natureza do que da sociedade, como se esta pouco o afectasse, como se andasse pela rua sem se deixar tocar pela vivência dos outros, e como se analisasse os episódios do seu quotidiano a uma luz desprovida de expectativas sociais. Quando questionado, responde de acordo com os seus sentimentos - também eles algo superficiais, porque despidos da análise que lhes dá complexidade -, arriscando-se a ser mal-entendido.
Meursault acabou por me parecer um alienado, por vezes procurava-lhe uma patologia, convencida de que ele não sentia, mas, entretanto, dei-me conta de que, neste texto na primeira pessoa, ele chega a falar de felicidade, de satisfação, e entendi que Camus criou apenas uma personagem diferente, que não tem necessidade de se iludir ou de procurar um sentido para a existência por via da religião ou de outros misticismos tais. É o rosto daquilo que seríamos se o nosso lado espiritual - e acredito que nos é "biológico" tê-lo - não insistisse em nos fazer acreditar em algo maior.
description
Por último, tratando-se de um trabalho desenvolvido durante a II Guerra Mundial, entendo que o livro traduz também um pouco da psicologia da época, numa altura em que tantas vidas foram arrancadas ao seu "caminho natural", e em que me parece evidente que os intelectuais partilhavam uma noção generalizada de "absurdo".
Como romântica assumida, continuo a preferir um romance que procure interpretar os porquês da existência, e trazer maior clareza à compreensão dos dilemas do Homem. Se possível, que me reconforte, ainda que alimentando a ilusão de haver uma consciência geral, ou um propósito para a nossa inteligência. Creio que o buscar-se sentido para as coisas é, precisamente, o que faz de nós humanos.
A ter de abraçar uma "filosofia de absurdo", prefiro, no contexto da I Guerra Mundial, as mornas conclusões a que Somerset Maugham chegou em 1915, aquando da publicação de Servidão Humana.

Classificação: 3,75***/**

#205 COELHO, João Pinto, Perguntem a Sarah Gross

Opinião: Desisti 

Não me orgulho de desistir, mas a verdade é que, daqui em diante, iria sempre gostar menos do livro. O nosso casamento já tinha azedado. Tentei ficar por aqui e guardar os pontos positivos:

- Estreia arrasadora, para uma primeira viagem nas letras o discurso é muito bom, bem articulado, com momentos de reflexão que oferecem um vislumbre do que o autor é capaz;
- A parte na Polónia é muito interessante, a pesquisa admirável e bem conjurada nos diálogos e trechos passados antes da II Guerra (onde fiquei) cimentou-o com primor. Esses capítulos do passado eram o sítio do livro onde eu gostava de estar. Eram o seu palco mais agradável, melhor composto, mais enriquecedor e exemplificador do potencial do escritor, e a solenidade em torno do núcleo de judeus e das suas tradições e ancestralidade é muito sólido e acolhedor;
- O retrato de St. Oswald's é bastante nítido e pormenorizado, as descrições não são maçadoras e parece-me que, em geral, o cenário é sólido e implanta-se com facilidade na mente do leitor.

A partir daqui, explico porque o livro não me arrebatou, ou porque não consegui ser mera leitora :
Perguntem a Sarah Gross é o romance de estreia de João Pinto Coelho, e acho que o autor tem muito de que se orgulhar por ter inaugurado a sua contribuição para a literatura com esta obra.
A nível pessoal, não li tantos livros assim sobre a Segunda Guerra Mundial, e o principal motivo é o achar que o assunto está muito explorado numa série de plataformas diferentes, sobretudo no cinema e na literatura, e a cada nova estação literária sai um novo livro sobre a sapateira de Auschwitz, ou a costureira, ou o carteiro, etc. São poucas as abordagens a esse período negro da História da Humanidade (70 milhões de vidas perdidas directa e indirectamente do início ao fim do conflito, por todo o globo) que trazem algo de novo, por muito que o horror e as suas muitas frentes sejam uma fonte quase inesgotável de histórias (de amor, de ódio, de discriminação, de vingança, de redenção, de superação, de resistência, etc... de tudo o que nas nuances do ser humano e das suas emoções há). Arriscaria dizer que é do conhecimento geral o que eram as SS, a Gestapo, as particularidades da cultura judaica que denunciavam o judeu, o que é um ghetto, o holocausto, mais ou menos quando tudo isto se passou, etc. Mais difícil, para alguns, seria entender o que foi a Batalha de Aljubarrota, quais os envolvidos e porque se deu tal conflito. Enfim, não deixa de ser um assunto interessante, mas tento manter-me longe dele e focar-me nas pequenas desgraças nacionais e/ou menos reportadas, noutro contexto menos complexo e mais pessoal. Por aqui já fica claro que não é dos meus temas favoritos, pelo menos do prisma Polónia/EUA, que é o que mais nos chega. 
Lista de romances que li a respeito do tema: Expiação, O Grande Amor da Minha Vida (foi inovador espreitar a guerra da janela de uma Leninegrado cercada), O Rouxinol, A Rapariga Que Roubava Livros, O Fim da Aventura, etc …
Não me consegui abstrair de algumas coisas que acredito que o autor venha a limar de futuro, valendo-se da sua evidente destreza expressiva:
1) Se tanto o setting quanto os intervenientes no cenário são estrangeiros, acho que não faz sentido recorrer a expressões idiomáticas portuguesas, como “c’o a breca”, ou “genica”, ou “essa encomenda” referente a uma pessoa difícil. Por vezes, quando surgem, pergunto-me como se traduziria isto para o inglês/polaco/iídiche/alemão que as personagens falam, sem chegar a uma conclusão satisfatória, o que me arranca ao diálogo e me recorda de que é uma obra, e não acontecimentos reais, quebrando o feitiço do livro;
2) Um pouco menos de tell, sobretudo quanto ao carácter das personagens: é preferível deixar-nos tirar as nossas conclusões. Até à página 115, a jovem Sarah Gross, nas analepses dos anos 20, esteve praticamente estática. Isto é, víamo-la através da preocupação dos pais e das pessoas às quais era apresentada, sem que chegasse a dirigir qualquer situação, a tomar uma iniciativa, ou sequer a tecer um comentário. Nunca "ouvimos" a sua voz. E surge descrita como complexa, muito inteligente, sentia-se o espectro da palavra “especial” a pairar muito próxima da personagem mística que o autor procura elevar, como alicerce-mor da sua primeira obra. Porém, do que nos é oferecido na acção, nada leva a crer que assim seja. Não se vê uma decisão, uma birra, uma palavra, um pensamento exposto que nos permita entender o porquê do aparente fascínio das pessoas pela jovem Sarah, à excepção da sua grandiosa beleza. 
3) As personagens Justin (negro) e Dylan (filho de um senador racista), parecem-me decalques. Têm pouca profundidade, surgem como acessórios e, a eles, juntam-se Therese, também acessório, apenas para vocalizar o horror da descriminação e provar que nem todos os brancos são maus, e que a Sarah e a Kim não estão assim tão sozinhas no mundo. 
Quando abandonei o livro, fi-lo com a sensação de que a parte de 1968/69 passada em St. Oswald's era quase dispensável. É evidente que algo haveria de vir daí, julguei que fosse a discriminação, o confronto do tradicionalismo patriota americano com a abertura dos tempos aos diferentes mas, por essa altura, os eixos desse núcleo estavam desagregados, e o assunto "racismo" esfriara. Porém, algo aconteceu, ou a sugestão de algo insinuou-se, a culminar num tema muito delicado, que me fez pôr o livro de lado para evitar mais amarguras em torno dele.

E desisti sem que conseguisse evitá-lo, porque senti que se agigantava um livro dentro de outro, e que me estava a dispersar. As parecenças entre as duas personagens principais faziam com que, na minha cabeça, as duas se misturassem a uma mesma voz.
Talvez um dia o termine, o marcador está lá. O romance é um colosso para livro de estreia, mas tem muitas falhas que não consegui ultrapassar.
Estou sedenta por um livro do Maugham, ou por retomar Steinbeck, ou, mais exigente ainda, chama-me aquele sítio que Lobo Antunes apelidou de Os Cus de Judas, e por isso ponho-o de lado por hora.


Sinopse: Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador.

Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.

Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio LeYa em 2014.


Classificação: 2**/*****