quarta-feira, 7 de setembro de 2016

#170 GASKELL, Elizabeth, Norte e Sul


Opinião: Elizabeth Gaskell, amiga íntima de Charlotte Brontë (bem como de John Ruskin e de Florence Nightingale), viveu entre 1810 e 1865, e era filha de um jornalista. Depois de casada, acompanhou o marido em causas sociais, prestando educação e apoio a crianças desfavorecidas. É um pouco desta mulher que encontramos em “Norte e Sul”.
A primeira edição em Portugal dá-se cento e sessenta e dois anos depois da sua publicação em Inglaterra, e é a de Abril de 2016, sob a alçada da Relógio d’Água.
“Norte e Sul” é um romance sobre os contrastes da Inglaterra de meados do século XIX, na qual, como à imagem de todos os países da Europa, o Norte começa por se aventurar primeiro na maquinaria, com as consequências que daí advém. Margaret é filha de presbítero e da beldade do condado, Mary Hale (née Beresford), e cresceu em Helstone, no sul. Os pais ocupavam uma posição de destaque na modesta hierarquia social do burgo, sendo o seu pai o líder espiritual da comunidade. A mãe tratava das questões sociais, ajudando os pobres e aliviando o sofrimento dos enfermos com pequenos confortos. Ainda que a aristocracia esteja em franca decadência, as relações determinam a posição de uma família na sociedade, e por isso os Hale “dão-se ares”. A tia de Margaret, com quem esta passa o período que sucede a infância, fora esposa de um general e a filha, a irritante Edith, está prestes a desposar um capitão, irmão de um advogado. Vivem em Londres, e Margaret divide-se assim em três realidades: a simplicidade idílica de Helstone, a azáfama social de Londres, e mais tarde as convulsões grevistas de Milton. É no momento em que se mudam para Milton que a acção tem início, e louvo a autora pelo modo como conduziu a percepção das suas personagens a esta nova realidade.
O valor desta obra, publicada em 1854, é o de trazer à luz os primeiros confrontos sociais que se deram num país em mudança. Alguém aqui no GR descreveu “Norte e Sul” como “Orgulho e Preconceito para socialistas”, mas julgo que a autora não tomou uma posição tão vincada. Margaret fica profundamente tocada pelo novo retrato social que encontra. Enquanto em Helstone todos tinham o seu futuro definido, e ninguém se agitava ou ambicionava ser outra coisa, em Milton o ruído dos moinhos e dos teares anuncia prosperidade e riqueza, e todos desejam deitar a mão ao seu quinhão. A indústria não funciona sem operários, e Margaret cedo se torna próxima de alguns. Os Higgins exibem todas as marcas desse capitalismo pululante; a filha que trabalhou com algodão e que ficou de pulmões destruídos, o pai que pertence ao sindicato e que acredita que as suas exigências, por muito que também lhes causem dissabores, são a via para obter condições mais justas. Porém, aos operários falta a visão geral da realidade, a formação para compreender contratos, cálculos, e para gerir. Esse lado da moeda será exposto de modo soberbo por John Thornton, um dos industriais de Milton. Thornton cresceu por entre dificuldades, o seu orgulho não é tanto que o esconda, pelo contrário: regozija-se por ter chegado à posição prestigiada na qual se encontra. Isto choca os Hale, para quem o nascimento é tudo, e em simultâneo fascina-os, porque entendem a importância que homens como Thornton têm para as cidades do Norte. Como patrão, é visto como o anti-cristo pelos seus operários, e é no debate de circunstâncias que o livro ganha. Arrisco dizer que seria uma obra muito mais aclamada se tivesse sido escrita por um homem.
O discurso de Gaskell é humano, lúcido, ainda que as personagens, nos desaires da sua complexidade, sejam quase todas questionáveis. Margaret é altiva, resoluta, e retratada como uma vítima. Todos se apoiam nela, e ela suporta, como um bom cordeiro. A mãe é hipocondríaca e não faz um único comentário que se aproveite. Idem quanto à tia. Tanto pior quando chegamos à prima, Edith, ou à irmã de John Thornton, Fanny, que parecem um decalque uma da outra. Acredito que representem as jovens inglesas de 1850, que só conseguiam ocupar os pensamentos com o casamento, os vestidos e os bailes. Talvez a autora tenha captado de modo magistral a sua essência (exasperante). O pai de Margaret começa por ser um homem de princípios e fibra moral, capaz de tomar decisões, e vai-se tornando um mentecapto dependente do conselho de estranhos. Dixon, a criada da família, é outra criaturinha difícil de suportar. A sorte é que acabamos por ver as nossas impressões reflectidas no modo como estas pessoas afectam a protagonista.
A senhora Thornton, mãe do industrial, é um dos pilares do livro, ainda que seja uma mera personagem secundária. John Thornton é o eixo sólido, na minha opinião, porque todos os outros ao seu redor caem em incongruências e sofrem alterações de personalidade. É nele que reside a fibra e a firmeza de carácter que serve como espinha-dorsal a estas 450 páginas de dissabores.
Abundam lágrimas, contrariedades, perigos, eminência de morte, mortes em efectivo, amores desencontrados e mal-entendidos. Por isso não o considero um livro superior, fiquei com a impressão de que a autora poderia ter pegado nele e rasurado uma série de passagens. Mas o momento histórico está lá, os lados da trincheira também, e terminamos a leitura um conhecimento mais nivelado daquilo que é o percurso da nossa civilização. É também uma oportunidade para se entender as circunstâncias em que nasceu o socialismo, e testemunhar a inevitabilidade do seu florescer.
Esta é uma história de triunfos conquistados com enorme esforço, onde o pensamento racional é mais valorizado do que o preconceito, e o lado humano se sobrepõe ao respeito cego pela atividade económica.
Os leitores do século XXI irão sentir-se absorvidos, à medida que a trama deste romance vitoriano os transporta até às origens de problemas e possibilidades que ainda hoje, cento e cinquenta anos mais tarde, subsistem: a complexidade das relações, públicas ou privadas, entre homens e mulheres de diferentes classes sociais. 


Sinopse: A ação de «Norte e Sul» decorre em meados do século XIX, narrando o percurso da protagonista desde o ambiente tranquilo mas decadente de uma Inglaterra sulista até um norte vigoroso mas turbulento. Neste romance, Elizabeth Gaskell fala-nos de um amor incomum, para mostrar o modo como a vida pessoal e pública se entrelaçavam numa sociedade recentemente industrializada. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

#169 QUINN, Julia, Aquele Beijo

Sinopse: Gareth St.Clair vive momentos difíceis. Após a morte do irmão, passa a ser o único herdeiro da fortuna do pai. Infelizmente, o ódio deste por Gareth é tanto que prefere desbaratar o seu património a vê-lo nas mãos do filho. Resta-lhe como legado um velho diário, escrito pela avó paterna, que poderá conter os segredos do seu passado e a chave para o seu futuro. O único problema é que… o diário foi escrito em italiano, uma língua que o jovem não domina de todo.
Por um golpe de sorte, Gareth conhece Hyacinth Bridgerton, a mais jovem menina do conhecido clã, que nunca recusa um desafio, embora o seu italiano deixe muito a desejar. Além disso, Gareth intriga-a, pois parece estar sempre a rir-se dela.
Juntos, embrenham-se nas páginas do velho diário, mas aquilo que vão descobrir transcende as palavras escritas em papel, e manifesta-se sob a forma de um simples - mas inesquecível - beijo… 
Opinião: Hyacinth é hilariante, e a relação dela com o Gregory é preciosa. É o que me recordo dela - divertida e aventureira, fica bem emparelhada com Gareth. Uma vez mais, o nosso herói tem problemas com o pai e anda a tentar desvendar o passado. O livro passou-me quase ao lado, não me recordo de nenhum momento específico do mesmo. Sei que me ri, mas foi ameno. Outros da série são bem melhores.

Classificação: 3***/**

#168 QUINN, Julia, A Caminho do Altar

Sinopse: Gregory Bridgerton procura a sua alma gémea. Acredita fervorosamente no amor verdadeiro, por isso não tem dúvidas de que saberá reconhecer a mulher da sua vida com facilidade. E, de facto, ao conhecer Hermione Watson, o jovem fica rendido. Mas, oh... que tragédia!, a estonteante Hermione está apaixonada por outro. É aí que entra Lucy Abernathy, a melhor amiga dela, sempre disposta a ajudar. Mesmo quando percebe que ela própria sucumbiu ao incurável romantismo de Gregory. Infelizmente, existe um outro “mas”... Pois Lucy está noiva, e tenciona colocar a honra acima dos seus sentimentos. Quanto a Gregory, no momento em que finalmente compreende que os desígnios do coração são mais intrincados do que pensava, já a sua amada vai a caminho do altar. Será que é demasiado tarde? "A Caminho do Altar" é o oitavo volume da deliciosa série protagonizada pela família Bridgerton.

Opinião: É um 3,5, mas não creio que chegue a 4. Penso que seja o encerrar da série Bridgerton, que me entreteu durante longas horas, ao longo de 8 livros com pelo menos 350 páginas cada. Gostaria de ter tido um vislumbre de toda a família junta, mas a autora não nos brindou com esse bombom. Não faz mal, teria sido tudo demasiado perfeito. Não deve ser fácil criar oito personagens principais masculinos e oito personagens principais femininos numa série em que os cenários e as circunstâncias pouco se alteram. Gabo-lhe isso. Porém, quando chegamos a Gregory e Lucinda, só restam os pequenos detalhes, porque as personalidades fortes já tinham todas desfilado nos outros volumes. Gregory é o quarto irmão Bridgerton (Anthony, Bennedict e Colin já encontraram a felicidade) e, dado o historial da família, está convicto de que encontrará o verdadeiro amor. Mas isso do amor é uma estrada tortuosa, e tantas vezes uma pessoa se engana a si própria porque não é capaz de ver fundo o suficiente dentro de si próprio...

Não é o pior livro da série (não me recordo do da Eloise e do da Hyacinth, pelo que considero que foram mais fracos), mas está longe das emoções proporcionadas pela Daphne e o Simon, a Penelope e o Colin, ou mesmo a Sophie e o Bennedict. Ainda assim, a escritora foi competente ao criar a intriga principal, o enredo foi denso q.b. Claro que tudo evolui à velocidade da luz - estes amores-relâmpago... Mas aqui entende-se que há um esforço para se criar a ideia de "amor construído". Ainda que só tenham passado quatro ou cinco dias desde que se conhecem...
Vou sentir falta desta família. Estes livros trazem-me alguma paz, porque dão sempre a ilusão de que os nossos sonhos se vão cumprir e que o final feliz esta aí para todos.


Classificação: 3,5***/**

#167 HEMINGWAY, Ernest, O Velho e o Mar

Sinopse: Conta a história de um velho pescador que luta com um gigante espadarte em alto mar por entre a Corrente do Golfo. Apesar de ter sido alvo de apreciações muito divergentes por parte da crítica, é uma obra que permanece uma referência entre os livros de Hemingway, tendo reafirmado a importância do autor em tempo de o qualificar para o Prémio Nobel de Literatura de 1954.

Opinião: "O Velho e o Mar" é o segundo livro de Hemingway que li. Após a leitura, o tempo contribui para assentar a percepção de um livro. No caso de "Na Outra Margem, por Entre as Árvores", a cada dia que passa desprezo mais a narrativa. Sobretudo o absurdo dos diálogos. Mas este é diferente. É quase todo um monólogo (de Santiago, o pescador, para consigo próprio) mas também um diálogo de gerações. Santiago foi, em tempos, um grande pescador. Mas há oitenta e quatro dias que não tem sorte de pescar nenhum peixe. Não pescar significa não comer, e é na vergonha da pobreza que Mandolin, o rapaz, lhe estende a mão. Tem fé que o velho volte a conseguir uma grande pescaria, ao contrário do próprio Santiago, que sofre momentos de descrença. A teoria está toda viva na sua mente, mas as mãos e o restante corpo não respondem como antigamente. A fortuna também não traz os peixes para o seu esquife, e é na desolação de se achar acabado que, ao sentir que um espadarte de seis metros lhe morde o isco, Santiago decide segui-lo até encontrar o momento ideal para o abater. Grande parte do livro está centrado no esforço que este admirador de DiMaggio faz para manter tão pequena embarcação estável enquanto o peixe se debate pela vida. O respeito do pescador pelo seu sustento é, talvez, o que mais alto me falou no livro, e também a absoluta necessidade de pescar para repor a sua fé na sorte e comida na mesa.

Um livro é realista, não há grandes reviravoltas e é uma obra pequena, mas profunda. Sendo Hemingway, o diálogo está lá e desta vez faz sentido. Houve alturas em que julguei que o dito know-how do pescador era peta, pois nada funcionava dentro daquele esquife. Como não há mulheres no livro, uma só que seja, ou uma menção ao sagrado feminino, Hemingway não pôde ser machista desta vez. Ou talvez resida aí o seu machismo: em tornar as mulheres em seres dispensáveis.
Deste livro julgo que me vou lembrar com carinho conforme o tempo for passando.
Por isso, Hemingway chega às 4 estrelas comigo.


Classificação: 4****/*

sexta-feira, 22 de julho de 2016

#166 STEDMAN, M.L. A Luz Entre Oceanos

Sinopse: Tom Sherbourne é um homem que, regressado dos horrores da Primeira Guerra Mundial, aceita ocupar o posto de faroleiro numa remota ilha ao largo da costa oeste australiana. A ilha proporciona refúgio e consolo para os fantasmas do passado, e Tom e a mulher, Isabel, estão satisfeitos com a sua vida, exceto com o facto de não conseguirem ter filhos. Um dia, numa manhã de abril, um barco dá à costa. Nele encontram-se um homem sem vida e um bebé a chorar. Isolados como estão do mundo real, Tom e Isabel decidem quebrar as regras e seguir o que o coração lhes diz. Mas a sua decisão terá consequências devastadoras... 


A Luz Entre Oceanos é uma história sobre o bem e o mal, e de como por vezes se confundem.

Distinções:- Melhor Romance Histórico de 2012 pelo site Goodreads.
- Melhor Livro do Mês na Amazon.com.

- Melhor Livro do Mês na Apple IBookstore.
- Melhor Livro do Mês nas livrarias Indie dos EUA.
- National Blue Ribbon pelo Book of the Month Club.

Opinião: 

“Só tens de perdoar uma vez. Se preferires sentir rancor tens de fazê-lo todos os dias, a toda a hora.” 

“A Luz entre oceanos” é um livro que já devia constar da minha estante há pelo menos ano e meio. Foi vítima do meu interesse generalizado e negligência em particular. Tendo a ter alguma aversão a livros que estiveram durante muito tempo no top - agradar às massas costuma significar défice de complexidade. De facto não é um livro complexo, nem um livro difícil de acompanhar, mas sim uma obra bem articulada. Por uma vez o marketing foi certeiro (falhou na capa, apenas, posto que a original é bem mais apelativa), quando anunciou uma história em que o bem e o mal se esbatem e em que ninguém é a pior coisa que jamais fez. Pelo que entendi, não caiu nas boas graças da comunidade portuguesa no Goodreads, fora poucas excepções, todos pareceram considerá-lo algo ameno, ou houve quem o odiasse por o considerar “um chorrilho de lamechices”. Cada opinião é válida e é verdade que todo o livro transmite a sensação de angústia, de desgraça eminente; mas é esse o sentimento que corrói as personagens principais, e é por isso que me senti tão próxima dele: o medo, a culpa, o arrependimento. São coisas que devoram uma pessoa aos poucos, mas ainda assim houve momentos de doçura. 
Há um casal a viver sozinho numa ilha ao largo de Port Partageuse, Janus Rock (ambas as referências são invenções do autor, mas tão sólidas na sua descrição que fiquei um tanto desconcertada ao descobrir). Tom e Isabel anseiam por ser pais, e o sonho é-lhes arrancado uma e outra vez, com violência. (view spoiler). E há uma criança que chega num barco, anunciada por um choro desesperado que ecoa nos dois oceanos. A mãe que acaba de perder o seu bebé trá-la para junto de si e a escolhe pensar que a criaturinha está sozinha no mundo e precisa do seu leite e do seu afecto. Porém, do outro lado do estreito, uma mulher está dilacerada pelo desgosto de ter perdido a filha no mar…
Quando as duas realidades colidem, a voz de Tom Sherbourne, o faroleiro de Janus Rock, ergue-se acima do sofrimento de uma e de outra, e ainda da criança atirada para a disputa, como um pai vigilante e também como um homem íntegro, ainda que as duas coisas já não se possam conciliar.
Um livro onde todas as personagens têm um propósito, todas têm um passado e são multidimensionais . Em objectivo, é a dimensão das personagens que enriquece em muito este trabalho. Tom está particularmente bem caracterizado, emana uma essência muito masculina, pelo que fiquei surpreendida quando descobri que a escritora é uma mulher. Só posso concluir que tem um dom, porque não me recordo de um retrato tão nítido de um homem num livro, sobretudo quando intercalado com as vozes viscerais de duas mães a quem lhes é arrancada a cria. Também Isabel, uma mulher em ruínas, está bem caracterizada, e ainda Hannah, cuja educação e gentileza a tornam numa espécie de marioneta, a todo o instante submetida às opiniões alheias.
Estas páginas levaram-me a um sítio tão belo quanto fatal: a Austrália, e recordaram-me os Pássaros Feridos, no mesmo cenário, no qual a morte podia vir de qualquer canto (desabar do céu em tempestade e trovões, investir contra nós sob a forma das presas de um javali, personificar longos meses de seca ou jorrar do veneno da serpente). A esta beleza colossal junta-se a profundidade de dois oceanos, o Índico e o Antárctico, e é na junção dos dois que se ergue o farol de Janus Rock, e com ele a ilusão de estarmos sozinhos no mundo e de que os nossos actos não acarretam consequências.

Classificação: 5/5*****

segunda-feira, 11 de julho de 2016

#162, MARQUÉZ, Gabriel García, Memória das Minhas Putas Tristes

Opinião: Memória das Minhas Putas Tristes é um livro que cobicei durante anos. Depois da minha primeira experiência com Gabriel García Márquez, em que não consegui levar o Cem Anos de Solidão a bom termo, queria dar uma segunda oportunidade ao tão-aclamado Nobel Colombiano. Este livro pareceu-me o ideal, pelo tamanho, o título e a sinopse. Agora fico aliviada por ter lido o sublime O Amor nos Tempos de Cólera e Crónica de Uma Morte Anunciada antes deste livro. Não posso considera-lo mau, por ter vindo ao mundo pelo punho de quem veio, mas falta-lhe a naturalidade poética e o embalo da narração dos outros. Li-o de enfiada, o que me permitiu seguir todos os acontecimentos numa tarde, e não me relacionei. Em parte o tema descrito é controverso, difícil de digerir – um velho de noventa anos determinado a dormir com uma adolescente virgem -, por outro lado, a ideia de um amor nascido da criança que dorme e do velho que a observa desnuda é-me demasiado repulsiva. Ainda assim, e reconhecendo no autor a valentia de ter abordado um tema tão desconfortável, tentei sentir. Passei o livro a tentar colocar a hipótese de um homem de noventa anos nutrir um sentimento de paixão e obsessão por uma criança de catorze. Depois tentei descortinar de onde lhe vinha tanta energia – e quem sabe fosse o fôlego desse amor a guiar-lhe os passos e a equilibrá-lo sobre a bicicleta. Depois tentei perceber se a velhice não lhe estaria a toldar a lucidez, ou se não estariam a aproveitar-se dele, em vez de ser ele a tentar aproveitar-se da jovem. Então ocorreu-me que o amor pode ser destrutivo em qualquer idade, sob qualquer circunstância, e que para este desconhecido (Márquez não o baptizou) a tragédia vem mais tarde, a fim de conferir algum ânimo a uma vida de emoções amenas. Por último julguei entender que o autor talvez reflectisse sobre aquilo a que a solidão nos leva – ao esvaziar dos bolsos, ao percorrer das ruas em busca de um rosto, à procura de contacto, de um tipo qualquer (o de um gato ou o de uma proprietária de uma casa de meninas). Existe ainda a possibilidade de o autor nem ter um motivo para ter escrito o livro, e o tenha apenas feito porque a história lhe exigia ser contada. E nesse ponto considero que o mesmo não me aqueceu nem arrefeceu, e não experimentei nenhum dos assomos que me perturbaram aquando da leitura de O Amor Nos Tempos de Cólera.

Classificação: 3***/**

Sinopse:
 "Memória das Minhas Putas Tristes" conta a história de um velho jornalista de noventa anos que deseja festejar a sua longa existência de prostitutas, livros e crónicas com uma noite de amor com uma jovem virgem. Inspirado no romance "A Casa das Belas Adormecidas" do Nobel japonês Yasunari Kawabata, o consagrado escritor colombiano submerge-nos, num texto pleno de metáforas, nos amores e desamores de um solitário e sonhador ancião que nunca se deitou com uma mulher sem lhe pagar e nunca imaginou que encontraria assim o verdadeiro amor. Rosa Cabarcas, a dona de um prostíbulo, conduzi-lo-á à adolescente com quem aprenderá que para o amor não há tempo nem idade e que um velho pode morrer de amor em vez de velhice. A escrita incomparável de Gabriel García Márquez num romance que é ao mesmo tempo uma reflexão sobre a velhice e a celebração das alegrias da paixão.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

#161 NETO, Joel, Arquipélago

Sinopse: Açores, 1980. Quando um grande terramoto faz estremecer a ilha Terceira, o pequeno José Artur Drumonde dá-se conta de que não consegue sentir a terra tremer debaixo dos pés. Inexplicável, esse mistério há-de acompanhá-lo durante toda a vida. Usando a mestria narrativa e o apuro literário dos clássicos, bem como um dom especial para trazer à vida os lugares, as gentes e a História dos Açores, Joel Neto apresenta um romance de grande fôlego, em que a ilha é também protagonista de uma epopeia corajosa e emocionante como há muito não se via na literatura portuguesa. 

Opinião: “Arquipélago” foi tantas coisas, e nenhuma foi a que esperava. Imaginei um romance sobre um homem de meia-idade a redescobrir a sua terra – e Portugal é tão rico em “terras”, que um tratado assim sobre os Açores me faz brilhar os olhos de orgulho - quem sabe a revisitar o passado, talvez uma narrativa mais debruçada no ontem do que no agora. Porém, Joel Neto levou o que teria sido previsível muito mais além.

Ontem fechei a última página deste livro maior às 01:30. A sua riqueza assenta, sobretudo, na nitidez do retrato das ilhas, sobretudo da Terceira, que volvidas 450 páginas nos é agora familiar. O cheiro da terra, do oceano a atirar-se contra a ilha, dos jardins de hortênsias, ficam com o leitor para a posterioridade. Os nevoeiros adicionam-lhe o toque místico que, com tanta mestria, o autor veio aqui desvendar. É sempre um dom, ser-se bom a pintar retratos fictícios. É um instrumento poderosíssimo para projectar imagens na mente do leitor (e o que procura este livro é porque quer uma viagem aos Açores). Até hoje julgo que nenhum autor português (teria de revisitar Eça ou Camilo para o dizer em absoluto) teve este talento para descrever paisagens e as entranhar em nós.

Há um misticismo e um sentido de tragédia no romance, que é também o sentido de fatalidade do nosso povo, às vezes esquecido dos dois braços além-mar. A carranca, o vira-costas, a navalha para descascar fruta e o cajado para auxiliar o andar são nossos no Alentejo e na Terra Chã. O sotaque profundo, um português mais antigo, quiçá, também é nosso em Trás-os-Montes e na Terra Chã. E é-se tão português, neste livro! É-se o português intelectual e o português intelectualóide, é-se o português frustrado porque não consegue elevar a voz mais além e o português conformado que só quer sopas e descanso. É-se o português que leva tudo a peito e para quem a mínima ofensa vira a zanga de uma vida, e é-se o português que não sabe bem o que quer e que mete os pés pelas mãos e que salva o dia quase por casualidade.
As lendas, a gastronomia, os lugares, a fauna e a flora aqui tão naturalmente inseridas numa narração complexa são pedaços de um objectivo maior; a teia adensa-se e o livro culmina num climax que me manteve o coração em suspenso. Se tudo tivesse terminado aí, eu teria atribuído uma estrela suplementar – a última que lhe faltava, apesar de, fora isso, o meu único reparo ser o da primeira parte se arrastar um pouco, até quase perder o ritmo, e foi aí que parei a leitura durante uns meses. Depois, com um engasgue do tubo de escape do Boca de Sapo, voltei a levantar-me do chão e logo ao virar da esquina estava a nova bandeira, pelo que prossegui sem mais obstáculos e com entusiasmo até ao fim. Não me agradou o epílogo, e apenas isso, porque acho que sem ele o romance seria mais autêntico, ter-se-ia entranhado melhor, e salvar-se-ia a credibilidade das coisas impossíveis que por esses cerrados fora se foram sucedendo. Não é um livro menor por isso. 
Há muito que o país precisava de um autor assim, de um autor que agarrasse um livro como quem agarra a corda que da outra extremidade o touro rechaça. Portugal está mais rico na literatura hoje, e estarei sempre atenta às novas obras que este punho produza.

Classificação: 4****/*
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Uma nota para a minha personagem favorita, soberbamente criada, que foi Elias Mão-de-Ferro. Passei grande parte das férias da infância rodeada de velhos benigos, "com cheiro de velho limpo", e vê-los a fazer cestas, abrir feijão-verde, descascar frutas com a faquinha de bolso. Amei-os aí e agora, e só por isso Elias, para mim, foi todas essas pessoas que adoro e que já descansam debaixo de terra.
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A segunda nota diz respeito a Luísa, a viúva de cabelos negros e sardas que dá passeios ao cair da noite. Eu nada entendo do amor, e este é tão intrigante quanto os que tenho testemunhado... Quando uma pessoa nada diz, nada faz, nem nos olha, não há um motivo, uma racionalidade, que explique a atracção e muito menos a veneração, e o amor dá-se. Não a entendi e desconfio que era nessa incompreensão que se baseava este amor.