sexta-feira, 22 de julho de 2016

#166 STEDMAN, M.L. A Luz Entre Oceanos

Sinopse: Tom Sherbourne é um homem que, regressado dos horrores da Primeira Guerra Mundial, aceita ocupar o posto de faroleiro numa remota ilha ao largo da costa oeste australiana. A ilha proporciona refúgio e consolo para os fantasmas do passado, e Tom e a mulher, Isabel, estão satisfeitos com a sua vida, exceto com o facto de não conseguirem ter filhos. Um dia, numa manhã de abril, um barco dá à costa. Nele encontram-se um homem sem vida e um bebé a chorar. Isolados como estão do mundo real, Tom e Isabel decidem quebrar as regras e seguir o que o coração lhes diz. Mas a sua decisão terá consequências devastadoras... 


A Luz Entre Oceanos é uma história sobre o bem e o mal, e de como por vezes se confundem.

Distinções:- Melhor Romance Histórico de 2012 pelo site Goodreads.
- Melhor Livro do Mês na Amazon.com.

- Melhor Livro do Mês na Apple IBookstore.
- Melhor Livro do Mês nas livrarias Indie dos EUA.
- National Blue Ribbon pelo Book of the Month Club.

Opinião: 

“Só tens de perdoar uma vez. Se preferires sentir rancor tens de fazê-lo todos os dias, a toda a hora.” 

“A Luz entre oceanos” é um livro que já devia constar da minha estante há pelo menos ano e meio. Foi vítima do meu interesse generalizado e negligência em particular. Tendo a ter alguma aversão a livros que estiveram durante muito tempo no top - agradar às massas costuma significar défice de complexidade. De facto não é um livro complexo, nem um livro difícil de acompanhar, mas sim uma obra bem articulada. Por uma vez o marketing foi certeiro (falhou na capa, apenas, posto que a original é bem mais apelativa), quando anunciou uma história em que o bem e o mal se esbatem e em que ninguém é a pior coisa que jamais fez. Pelo que entendi, não caiu nas boas graças da comunidade portuguesa no Goodreads, fora poucas excepções, todos pareceram considerá-lo algo ameno, ou houve quem o odiasse por o considerar “um chorrilho de lamechices”. Cada opinião é válida e é verdade que todo o livro transmite a sensação de angústia, de desgraça eminente; mas é esse o sentimento que corrói as personagens principais, e é por isso que me senti tão próxima dele: o medo, a culpa, o arrependimento. São coisas que devoram uma pessoa aos poucos, mas ainda assim houve momentos de doçura. 
Há um casal a viver sozinho numa ilha ao largo de Port Partageuse, Janus Rock (ambas as referências são invenções do autor, mas tão sólidas na sua descrição que fiquei um tanto desconcertada ao descobrir). Tom e Isabel anseiam por ser pais, e o sonho é-lhes arrancado uma e outra vez, com violência. (view spoiler). E há uma criança que chega num barco, anunciada por um choro desesperado que ecoa nos dois oceanos. A mãe que acaba de perder o seu bebé trá-la para junto de si e a escolhe pensar que a criaturinha está sozinha no mundo e precisa do seu leite e do seu afecto. Porém, do outro lado do estreito, uma mulher está dilacerada pelo desgosto de ter perdido a filha no mar…
Quando as duas realidades colidem, a voz de Tom Sherbourne, o faroleiro de Janus Rock, ergue-se acima do sofrimento de uma e de outra, e ainda da criança atirada para a disputa, como um pai vigilante e também como um homem íntegro, ainda que as duas coisas já não se possam conciliar.
Um livro onde todas as personagens têm um propósito, todas têm um passado e são multidimensionais . Em objectivo, é a dimensão das personagens que enriquece em muito este trabalho. Tom está particularmente bem caracterizado, emana uma essência muito masculina, pelo que fiquei surpreendida quando descobri que a escritora é uma mulher. Só posso concluir que tem um dom, porque não me recordo de um retrato tão nítido de um homem num livro, sobretudo quando intercalado com as vozes viscerais de duas mães a quem lhes é arrancada a cria. Também Isabel, uma mulher em ruínas, está bem caracterizada, e ainda Hannah, cuja educação e gentileza a tornam numa espécie de marioneta, a todo o instante submetida às opiniões alheias.
Estas páginas levaram-me a um sítio tão belo quanto fatal: a Austrália, e recordaram-me os Pássaros Feridos, no mesmo cenário, no qual a morte podia vir de qualquer canto (desabar do céu em tempestade e trovões, investir contra nós sob a forma das presas de um javali, personificar longos meses de seca ou jorrar do veneno da serpente). A esta beleza colossal junta-se a profundidade de dois oceanos, o Índico e o Antárctico, e é na junção dos dois que se ergue o farol de Janus Rock, e com ele a ilusão de estarmos sozinhos no mundo e de que os nossos actos não acarretam consequências.

Classificação: 5/5*****

segunda-feira, 11 de julho de 2016

#162, MARQUÉZ, Gabriel García, Memória das Minhas Putas Tristes

Opinião: Memória das Minhas Putas Tristes é um livro que cobicei durante anos. Depois da minha primeira experiência com Gabriel García Márquez, em que não consegui levar o Cem Anos de Solidão a bom termo, queria dar uma segunda oportunidade ao tão-aclamado Nobel Colombiano. Este livro pareceu-me o ideal, pelo tamanho, o título e a sinopse. Agora fico aliviada por ter lido o sublime O Amor nos Tempos de Cólera e Crónica de Uma Morte Anunciada antes deste livro. Não posso considera-lo mau, por ter vindo ao mundo pelo punho de quem veio, mas falta-lhe a naturalidade poética e o embalo da narração dos outros. Li-o de enfiada, o que me permitiu seguir todos os acontecimentos numa tarde, e não me relacionei. Em parte o tema descrito é controverso, difícil de digerir – um velho de noventa anos determinado a dormir com uma adolescente virgem -, por outro lado, a ideia de um amor nascido da criança que dorme e do velho que a observa desnuda é-me demasiado repulsiva. Ainda assim, e reconhecendo no autor a valentia de ter abordado um tema tão desconfortável, tentei sentir. Passei o livro a tentar colocar a hipótese de um homem de noventa anos nutrir um sentimento de paixão e obsessão por uma criança de catorze. Depois tentei descortinar de onde lhe vinha tanta energia – e quem sabe fosse o fôlego desse amor a guiar-lhe os passos e a equilibrá-lo sobre a bicicleta. Depois tentei perceber se a velhice não lhe estaria a toldar a lucidez, ou se não estariam a aproveitar-se dele, em vez de ser ele a tentar aproveitar-se da jovem. Então ocorreu-me que o amor pode ser destrutivo em qualquer idade, sob qualquer circunstância, e que para este desconhecido (Márquez não o baptizou) a tragédia vem mais tarde, a fim de conferir algum ânimo a uma vida de emoções amenas. Por último julguei entender que o autor talvez reflectisse sobre aquilo a que a solidão nos leva – ao esvaziar dos bolsos, ao percorrer das ruas em busca de um rosto, à procura de contacto, de um tipo qualquer (o de um gato ou o de uma proprietária de uma casa de meninas). Existe ainda a possibilidade de o autor nem ter um motivo para ter escrito o livro, e o tenha apenas feito porque a história lhe exigia ser contada. E nesse ponto considero que o mesmo não me aqueceu nem arrefeceu, e não experimentei nenhum dos assomos que me perturbaram aquando da leitura de O Amor Nos Tempos de Cólera.

Classificação: 3***/**

Sinopse:
 "Memória das Minhas Putas Tristes" conta a história de um velho jornalista de noventa anos que deseja festejar a sua longa existência de prostitutas, livros e crónicas com uma noite de amor com uma jovem virgem. Inspirado no romance "A Casa das Belas Adormecidas" do Nobel japonês Yasunari Kawabata, o consagrado escritor colombiano submerge-nos, num texto pleno de metáforas, nos amores e desamores de um solitário e sonhador ancião que nunca se deitou com uma mulher sem lhe pagar e nunca imaginou que encontraria assim o verdadeiro amor. Rosa Cabarcas, a dona de um prostíbulo, conduzi-lo-á à adolescente com quem aprenderá que para o amor não há tempo nem idade e que um velho pode morrer de amor em vez de velhice. A escrita incomparável de Gabriel García Márquez num romance que é ao mesmo tempo uma reflexão sobre a velhice e a celebração das alegrias da paixão.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

#161 NETO, Joel, Arquipélago

Sinopse: Açores, 1980. Quando um grande terramoto faz estremecer a ilha Terceira, o pequeno José Artur Drumonde dá-se conta de que não consegue sentir a terra tremer debaixo dos pés. Inexplicável, esse mistério há-de acompanhá-lo durante toda a vida. Usando a mestria narrativa e o apuro literário dos clássicos, bem como um dom especial para trazer à vida os lugares, as gentes e a História dos Açores, Joel Neto apresenta um romance de grande fôlego, em que a ilha é também protagonista de uma epopeia corajosa e emocionante como há muito não se via na literatura portuguesa. 

Opinião: “Arquipélago” foi tantas coisas, e nenhuma foi a que esperava. Imaginei um romance sobre um homem de meia-idade a redescobrir a sua terra – e Portugal é tão rico em “terras”, que um tratado assim sobre os Açores me faz brilhar os olhos de orgulho - quem sabe a revisitar o passado, talvez uma narrativa mais debruçada no ontem do que no agora. Porém, Joel Neto levou o que teria sido previsível muito mais além.

Ontem fechei a última página deste livro maior às 01:30. A sua riqueza assenta, sobretudo, na nitidez do retrato das ilhas, sobretudo da Terceira, que volvidas 450 páginas nos é agora familiar. O cheiro da terra, do oceano a atirar-se contra a ilha, dos jardins de hortênsias, ficam com o leitor para a posterioridade. Os nevoeiros adicionam-lhe o toque místico que, com tanta mestria, o autor veio aqui desvendar. É sempre um dom, ser-se bom a pintar retratos fictícios. É um instrumento poderosíssimo para projectar imagens na mente do leitor (e o que procura este livro é porque quer uma viagem aos Açores). Até hoje julgo que nenhum autor português (teria de revisitar Eça ou Camilo para o dizer em absoluto) teve este talento para descrever paisagens e as entranhar em nós.

Há um misticismo e um sentido de tragédia no romance, que é também o sentido de fatalidade do nosso povo, às vezes esquecido dos dois braços além-mar. A carranca, o vira-costas, a navalha para descascar fruta e o cajado para auxiliar o andar são nossos no Alentejo e na Terra Chã. O sotaque profundo, um português mais antigo, quiçá, também é nosso em Trás-os-Montes e na Terra Chã. E é-se tão português, neste livro! É-se o português intelectual e o português intelectualóide, é-se o português frustrado porque não consegue elevar a voz mais além e o português conformado que só quer sopas e descanso. É-se o português que leva tudo a peito e para quem a mínima ofensa vira a zanga de uma vida, e é-se o português que não sabe bem o que quer e que mete os pés pelas mãos e que salva o dia quase por casualidade.
As lendas, a gastronomia, os lugares, a fauna e a flora aqui tão naturalmente inseridas numa narração complexa são pedaços de um objectivo maior; a teia adensa-se e o livro culmina num climax que me manteve o coração em suspenso. Se tudo tivesse terminado aí, eu teria atribuído uma estrela suplementar – a última que lhe faltava, apesar de, fora isso, o meu único reparo ser o da primeira parte se arrastar um pouco, até quase perder o ritmo, e foi aí que parei a leitura durante uns meses. Depois, com um engasgue do tubo de escape do Boca de Sapo, voltei a levantar-me do chão e logo ao virar da esquina estava a nova bandeira, pelo que prossegui sem mais obstáculos e com entusiasmo até ao fim. Não me agradou o epílogo, e apenas isso, porque acho que sem ele o romance seria mais autêntico, ter-se-ia entranhado melhor, e salvar-se-ia a credibilidade das coisas impossíveis que por esses cerrados fora se foram sucedendo. Não é um livro menor por isso. 
Há muito que o país precisava de um autor assim, de um autor que agarrasse um livro como quem agarra a corda que da outra extremidade o touro rechaça. Portugal está mais rico na literatura hoje, e estarei sempre atenta às novas obras que este punho produza.

Classificação: 4****/*
---------------------------
Uma nota para a minha personagem favorita, soberbamente criada, que foi Elias Mão-de-Ferro. Passei grande parte das férias da infância rodeada de velhos benigos, "com cheiro de velho limpo", e vê-los a fazer cestas, abrir feijão-verde, descascar frutas com a faquinha de bolso. Amei-os aí e agora, e só por isso Elias, para mim, foi todas essas pessoas que adoro e que já descansam debaixo de terra.
---------------------------
A segunda nota diz respeito a Luísa, a viúva de cabelos negros e sardas que dá passeios ao cair da noite. Eu nada entendo do amor, e este é tão intrigante quanto os que tenho testemunhado... Quando uma pessoa nada diz, nada faz, nem nos olha, não há um motivo, uma racionalidade, que explique a atracção e muito menos a veneração, e o amor dá-se. Não a entendi e desconfio que era nessa incompreensão que se baseava este amor.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

#160 BRAGA, Duarte Nuno, A Confissão do Navegador

Opinião: É raro o português que responde certo quando se pergunta quem foi o último rei de Portugal, mas todos sabem, na ponta da língua, que o Navegador que descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Cabral. E Cabral há-de deter essa honra, oficialmente, para sempre. Porque assim decidiram os monarcas portugueses no final do século XV, num ambiente de intrigas e conspirações nas cortes europeias. A grande competição que se seguiria pelas riquezas do Novo Mundo obrigava a secretismo e a muita cautela. Segundo os documentos em que Duarte Nuno Braga se baseou para escrever “A Confissão do Navegador”, a descoberta do Brasil foi tudo menos acidental. Foi uma grande empresa da realeza Portuguesa, no seguimento da descoberta dos arquipélagos, do desbravamento da costa Africana e da busca incessante pela rota marítima para a Índia. O livro parece debruçar-se sobre dois momentos distintos em que Duarte Pacheco Pereira pôs a sua vida ao serviço do país: o primeiro determinaria as exigências de Portugal aquando das negociações para o Tratado de Tordesilhas (1494: o Mundo fica dividido em dois, cada metade a ser concedida aos Portugueses ou aos Espanhóis para exploração de novos territórios). O segundo solidifica o comércio entre o ocidente e o oriente, porque, como aliados do rajá de Cochim, houve necessidade de combater as pretensões dos mouros na Índia e de acabar com a sua sobranceria nessas paragens. De ambas as vezes, o autor narra as dificuldades, as estratégias, os receios de um homem que pôs a vida ao serviço do reino, e que com isso alcançou a glória e sofreu amargos desgostos e desconsiderações, em parte pelo absoluto sigilo em torno das suas missões.
O trabalho histórico está bem conseguido – sobretudo a nível de vocabulário, técnicas de navegação, conhecimentos marítimos, cartografia, etc. Surgem algumas pequenas falhas a limar por parte do autor em livros futuros (a menção a eucaliptos em Portugal no séc. XV, por exemplo, quando apenas chegaram ao nosso reino em 1860, aproximadamente).
Para uma estreia no romance, a narrativa é bem ritmada – um tanto apressada, por vezes, mas não é necessário enrolar. Os diálogos demonstram a formalidade da época, pelo que de início podem soar um pouco forçado mas depressa nos sintonizamos para as vozes dessa época.
Não é nenhuma epopeia que aqui se narra, mas sim uma missão secreta que o país, ainda hoje, ignora grosseiramente. Eu própria desconhecia esse facto até ler a sinopse deste romance. Da próxima vez que me perguntarem quem descobriu o Brasil, responderei “Duarte Pacheco Pereira, em 1493”. É sempre pertinente um livro que chega e muda a nossa perspectiva do que nos era sólido, e agrada-me saber que a História de Portugal continua prenhe de eventos como este.
Classificação: 3,5***/**

Sinopse: Corre o ano de 1493. D. João II convida o navegador Duarte Pacheco Pereira a conhecer Cristóvão Colombo. Joga-se o destino de Portugal e do próprio Duarte Pacheco Pereira, incumbido de uma missão secreta que o leva aos confins do Atlântico. Neste empolgante romance histórico desvenda-se a figura pouco conhecida do navegador descrito por Camões como o «Aquiles lusitano». Do perigo dos mares ao calor da Índia e da batalha, somos levados para uma época envolta em segredos, conspirações e relações proibidas. A ambição de um reino muda a vida de um homem dividido numa busca espiritual entre a lealdade e o amor.

domingo, 24 de abril de 2016

#159 CHASE, Loretta, Sedução de Seda

Sinopse: O apelo do vestido perfeito consiste em duas partes: as senhoras devem desejar vesti-lo, e os senhores devem desejar despi-lo 
A ambiciosa e talentosa modista Marcelline Noirot é uma estrela em ascensão na chique cidade de Londres. E quem melhor beneficiaria do seu talento, se não a dama mais mal vestida de Londres, a noiva do duque de Clevedon? Conseguir o mecenato da futura duquesa significaria mais prestígio e fortuna para Marcelline e para a sua família. Para chegar até ela precisaria, contudo, de atrair as atenções do duque, um cavalheiro cujos padrões de estética são elevados, mas os padrões morais... já não.
Parece valer a pena. No entanto, quando Marcelline se encontra com ele, Clevedon projeta uma sedução tão irresistível como os vestidos que ela costura e cria, e o que começa por ser apenas uma faísca de desejo, depressa se torna num delicioso inferno... e um ardente escândalo. Será suficiente os seus destinos estarem apenas suspensos por um fio de seda?

Opinião: Comprei este livro em Setembro do ano passado. Foi um mês em que trabalhei 30 dias, todos os dias, e não só 8 horas por dia. Fui guia e agente de viagens, fiz transfers às três e às cinco da manhã para o aeroporto e deitei-me às tantas para dar o jantar aos meninos e conviver com eles. Sem falar que desci as escadas do Bom Jesus e, perto disso, as tremuras nas pernas depois da descida do castelo de Beja não foram nada. Isto para dizer que não tinha tempo, nem interesse em lê-lo. Ainda bem... Vim pegar-lhe numa fase em que não me apetecia ler nada, em que os livros "bons" são demasiado difíceis para o meu estado de espírito, e os livros de chacha (romances cor-de-rosa) já me parecem todos iguais. 
Este livro surpreendeu-me. Faz parte de uma série de quatro livros em que as personagens principais são três irmãs costureiras. Aqui começa a desconstrução dos romances do género. Marcelline não é nobre, não é desfavorecida, não é virgem. Gervase Clevedon nunca é mencionado como sendo "libertino". Finalmente! A história é diferente, tem humor, e as personagens estão muito bem construídas...
Marcelline é determinada, competente, trabalhadora árdua, ambiciosa e engenhosa. Não temos como não torcer para que os seus esforços dêem frutos. Não há aquela história do mal entendido que depois se resolve. Cada personagem é adulta e tem os seus dilemas.
Clevedon é cativante, protector, teimoso e tão determinado quanto Marcelline, mas pareceu-me a personagem mais fraca. Enquanto ela tinha garra e paixão, ele vê-a a todas as horas e parece incapaz de existir para além disso. Mas o amor é tantas vezes assim... A pessoa deixa de ver o que a rodeia e o que lhe está debaixo do nariz...
Não gostei de algumas (muitas) repetições - fizeram-me a papinha toda, não deram espaço a deduções. Não gostei de tantas menções ao diabo e a Belzebu e ao demónio e etc. É básico e old fashioned associar pessoas que jogam ou que têm vidas de moral duvidosa a coisas demoníacas, no sentido expressivo. "Eram aparentadas com o diabo, de tão traiçoeiras" - algo do género. São forças de expressão, mas houve ocasiões muito rebuscadas. Não sei se o mal é da tradução ou do original. 
No geral diverti-me, sempre soube onde isto ia, e adorei ler os detalhes todos da época com que a autora enriqueceu o livro. Localizações, a sociedade inglesa e a parisiense, os hábitos, os trajes, os jogos hierárquicos. Houve momentos de grande articulação. Adorei, mas penso que não vou ler o seguinte. Não li boas críticas a seu respeito.

Classificação: 3,5***/**

sexta-feira, 8 de abril de 2016

#158 FACIOLINCE, Héctor Abad, Oculta


Sinopse: «Emergi muito devagar à superfície do lago, tentando não fazer barulho. A minha boca aberta começou a engolir ar uma e outra vez, a toda a velocidade. Duas, três, cinco, sete vezes. O coração ribombava-me no peito como o bombo mais imponente de uma banda de aldeia. Ouvi vozes e insultos provenientes da casa. Vários feixes de luz perscrutavam o lago. Voltei a mergulhar. […] Não via nada debaixo de água, nem que abrisse os olhos: era uma barreira viscosa, negra, fria, que com a pressa de fugir parecia uma sopa de óleo que me untava os braços e as pernas e me obrigava a avançar devagar, por mais que os agitasse com todas as minhas forças.»
Assim começa um dos episódios mais dramáticos deste romance que gira em torno de La Oculta, uma propriedade escondida nas montanhas da Colômbia. Pilar, Eva e Antonio são os últimos herdeiros desta terra, que passou por várias gerações da família. Aí viveram os momentos mais felizes das suas vidas, mas também tiveram de enfrentar a violência e o terror, o desassossego e a fuga. A partir das vozes dos três irmãos, do relato que fazem dos seus amores, medos, desejos e esperanças, com uma paisagem deslumbrante como pano de fundo, Héctor Abad Faciolince mostra as vicissitudes de uma família e de uma povoação, assim como o momento em que o paraíso está a ponto de se perder. 

Opinião: “Gosta-se de uma quinta como se gosta de um marido, de uma mulher, de um velho amor a que dedicámos muito tempo e quase todas as nossas energias. Aprendemos a gostar dela quando éramos crianças, por via de uma felicidade genuína, espontânea, à primeira vista, no sol da infância e nos dias azuis.” 
“Oculta” (Quetzal, 2016) é o mais recente romance de Hector Abad Faciolince. A perspectiva deste colunista que vive em Bogotá é a de uma Colômbia desde o seu baptismo como Nueva Granada, colonizada de negros, espanhóis, missionários, judeus, mercenários e cafezeiros, até se tornar num país que começa a abrir-se ao progresso.
Ainda que a espinha do romance seja a história da família Ángel, o apeadeiro é La Oculta, a propriedade que a família detém há séculos. O livro delineia-se a partir do paralelo casa/passado. Três irmãos – Eva, Pilar e António (Toño) exprimem os seus pareceres a três vozes muito distintas.
Toño é apaixonado pelo passado, pelo que está empenhado em reconstruir os passos da família desde a sua chegada às encostas de Jericó. Homossexual, teve de deixar o meio fechado da Antioquia (que qualifica de tosco, homófobo, racista) para poder viver sem preconceitos em Nova Iorque.
Eva narra, sobretudo, as suas aventuras amorosas e um episódio que macula as lembranças felizes de La Oculta: aquele em que paramilitares e a máfia local se juntam para tentar expropriá-los da sua terra.
Pilar é a irmã um tanto tacanha, que nunca saiu da Colômbia, porém plenamente resolvida no amor. Vive um casamento de várias décadas e valeu-se do seu pragmatismo e zelo para cuidar da família, personificando assim a tradição e o imaginário do povo colombiano.
O ritmo do romance é bem compassado, porém são as personagens que ficam um pouco aquém, por até meio do romance parecerem decalques já encontrados um pouco por toda a literatura. Toño, efeminado desde pequeno por ter sido cuidado pela mãe e pelas duas irmãs, que abomina o trabalho braçal e cuida das mãos, e que não gosta de brincadeiras de rapazes e que é casado com um gay artista (e sensível).
Eva, mulher sem defeitos, linda, inteligente, várias vezes casada e outras tantas divorciada, amante de desportos e um tanto leviana.
E Pilar, a “matrona” que dedicou a vida aos interesses da família.
Algumas asserções podem gerar controvérsia, como a de que “as mulheres não querem saber do passado”, por serem práticas e viverem para as tarefas do dia-a-dia e para os desafios conforme estes se lhes apresentam, enquanto o homem parece um passo à frente na racionalidade e busca nas entrelinhas do seu passado um sentido para o seu presente.
A História do país vem assim desvendada por intermédio da história destes judeus convertidos. Os jogos políticos e o estabelecimento de hierarquias locais enriquecem em muito a narrativa, assim como a formação do poder local, sob a forma de máfias e de força militar corrupta. Sem dúvida, um autor a acompanhar.
O despertar para a intimidade dos três irmãos surge de modo delicado e explícito, o que consagra a destreza do autor para ilustrar episódios épicos e outros do foro pessoal com a mesma intensidade. 
Um romance que prima pelo retrato meticuloso da Colômbia nos últimos séculos, e que é quase um ensaio romanceado sobre a formação de um país.

Classificação: 3***/**

terça-feira, 29 de março de 2016

10 Mandamentos na Escrita

Decidi elaborar um video com 10 mandamentos a ter em conta na hora de escrever. São problemas recorrentes, fora as vírgulas, que já têm um estatuto próprio, e nas quais eu também derrapo de vez em quando.



Ora vejamos:

1. Menos é mais
Volto sempre à Margaret Mitchell. Num livro de mais de 1000 páginas, não há uma "cena" não intencional, não há um parágrafo que não acrescente algo à história, às personagens ou ao rumo da narração. Não há capítulos em que não suceda nada. Todo o livro é uma viagem, em constante avanço, não há círculos.

Em tantos romances contemporâneos, alguns cor-de-rosa, tipo "Milagre", da Deborah Smith, para quem gostaria de escrever dentro deste género: como é que um livro boy meets girl acaba com 600 páginas??? Porque 400 são palha. Isso mói o leitor e mata a história, tornara-a repetitiva. É impossível não se repetir quando a história tem 20 cm e a autora a contou em 2 metros de papel.

2. Advérbios de modo

Exemplo
1. "- Se soubesse não tinha perguntado - disse, altivamente!".

2. "Normalmente, não venho por aqui para o trabalho."

Sugestão
1. "- Se soubesse não tinha perguntado - disse, com altivez"

2. "Por hábito, não venho por aqui para o trabalho"

3. Show, don't tell

Quantos livros não começam assim?

"Manuel, que tinha olhos escuros e era o mais alto da família, tinha 35 anos quando entrou na velha pastelaria da sua infância. Achou-a vazia, sem a velha de buço aguçado que costumava atender ao balcão. Chamou-a três vezes, tocando a sineta, que lhe pareceu suja. Quando a senhora surgiu, na ombreira da pequena porta, outrora pintada de azul, vinha sem cabelo e com óculos de fundo de garrafa. O cancro apanhara-a, assim como à sua avó Beatriz, que morrera aos 72 anos, e ao seu avô Óscar, que sofrera três anos antes de morrer do mesmo mal."

Quantas oportunidades não tem o autor de passar todas estas informações ao longo da narrativa? De modo menos "óbvio"? Quantas vezes não surge a + b e o autor sente a urgência de reafirmar que o resultado é c? Deixem o leitor fazer as contas e ler nas entrelinhas.

4. Dizer tudo com menos palavras

Exemplo
"Caiu na inércia que advém das tardes de ócio em que não fazemos nada porque não há nada para fazer, mas que ainda assim desejávamos ter vontade de ser mais e de largarmos a preguiça e darmos um passo para fora da imobilidade".

Sugestão
"Caiu na inércia das tardes em que, por não fazermos nada, desejávamos ser capazes de pôr a preguiça de lado."

5. Don't state the obvious


Não é fácil arranjar exemplos para este caso, mas surge muito. O leitor ter chegado há muito à conclusão do cálculo e o escritor repetir: entenderam? 2 + 2 = 4. Porque se fosse 5 então teria de ser 2 + 3. Ou 3 + 2. Como somamos 1 + 1 + 1 + 1, então dá 4. Quando acontece comigo, sinto que o escritor não escreveu a pensar num público com dois dedos de testa.
Exemplo
Podia, mas cortaram-me a língua entretanto, ou poderia, se quisesse.



"Manuela fora sua ama desde o berço. Ele tinha agora trinta e dois anos e ela ainda lhe cortava o bife, ainda lhe engraxava os sapatos, ainda lhe fazia o nó da gravata, ainda lhe escolhia a roupa para o dia seguinte, ainda o aconchegava até que adormecesse e fazia questão de lhe deixar a luz acesa. Durante semanas a família reuniu-se para debater aquele caso, até que alguém teve um laivo de genialidade e entendeu: Manuela tratava-o como se ele ainda fosse uma criança". Plim! We didn't see that coming.




6. Erros ortográficos

É precizo ezemplo? Á maneira pior de querermos ser escritores? Não duminarmos as palavras? Atraz de um grande livro está uma peçoa que sabe mecher com a ferramenta principal: a sua língua, ou aquela em que quer trabalhar.

7. Metáforas

Exemplo
"Fiquei ali, como um cão abandonado". "Senti-me quebrado, como uma peça de porcelana rachada". "Fazia tanto frio que foi como se estivesse no Pólo Norte".

Sugestão
Dêem intensidade à vossa asserção, mas sem recair em lugares-comuns nem metáforas fáceis.

8. Tempos verbais

O condicional é sempre o mais violentado:

Exemplos
"Podia repetir o que disse, por favor?"


"Estava certo que sabia o que fazer quando lá chegasse."

Sabia, mas teve uma branca entretanto, ou saberia, se se esforçasse.

"Comecei a caminhar para lá, para onde a minha avó fora um dia feliz, e faço questão de salientar que agora era a sério, agora ia conseguir!"


9. Diálogos

"- Ontem parece que houve um cisma lá em casa.
- Entre 1309 e 1377, a residência do papado foi alterada de Roma para Avignon, na França, pois o Papa Clemente V foi levado (sem possibilidade de debate) pelo rei francês para residir em Avignon. Em 1378, o Papa Gregório XI voltaria para Roma, onde faleceria. A população italiana desejava que o papado fosse restabelecido em Roma. Foi então eleito Urbano VI, de origem italiana. No entanto, ele demonstrou ser um papa muito autoritário, de modo que uma quantidade considerável do Colégio dos Cardeais, anularia a sua votação e foi realizado um novo conclave, sendo eleito Clemente VII, que passou a residir em Avignon. (fim de cit. wikipedia)
- Tens visto o Henrique?
- Quase que me esquecia! Henrique é conhecido como o fundador da Igreja Anglicana. Suas lutas contra Roma ocasionaram a renúncia daInglaterra à autoridade papal, a Dissolução dos Mosteiros e seu próprio estabelecimento como Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra. Ainda assim ele continuou a acreditar nos principais ensinamentos católicos, mesmo após sua excomunhão.[1] Henrique supervisionou a união legal da Inglaterra e Gales com os Atos das Leis em Gales de 1535 e 1542(fim de cit. wikipedia)"



10. Dar tempo ao enredo

Ritmo! Não é fácil. Há quem perca 3 parágrafos a resolver a questão dos cortinados ao vento, e depois numa linha narra o funeral da mãe da personagem principal. E não atirem dificuldades para o caminho da personagem para resolverem na primeira esquina. Apostem na boa cimentação dos dilemas, num possível clímax, na intensidade página a página e nas várias dimensões de uma intriga.