sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

#143 CRUZ, Afonso, Flores


Sinopse: Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo – e constatar o quanto a sua vida se afastou dela – decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história inquietante sobre
a memória e o que resta de nós quando a perdemos. Um romance comovente sobre o amor e o que este precisa de ser para merecer esse nome.

Opinião: Fiquei confusa. Não que a história não seja clara, que a narração não seja coesa… Mas é o estilo, se é que lhe posso chamar assim. Um desfile tão incongruente de personagens estranhas que atira o livro para o limbo entre o misticismo de um autor sul-americano e a contemporaneidade de um José Luís Peixoto. A insistência do autor em que todos sejam esquisitos, em que abram a boca por três páginas de monólogo. Isto é: cada personagem que surge, vem com o propósito de contar episódios mirabolantes da sua vida (pisar lagartixas, ter vocação para palhaço, prometer que só volta a chorar quando Constantinopla voltar para mãos gregas, etc.). Resumindo, não encontrei grande originalidade no quadro geral: casamento em ruínas, criança pequena e afectada por essa mudança, velhote solitário e vítima da degeneração das suas capacidades mentais, neste caso a memória. E então a personagem principal, cujo nome não julgo ter apanhado ao longo das 275 páginas, interessa-se pelo passado que o seu vizinho, o senhor Ulme, esqueceu devido a um aneurisma. Compromete-se a recuperar-lho, e é assim que começa o desfile dos monólogos das inúmeras personagens, todas com alcunhas, passados esquisitos, cada uma com um ângulo diferente a respeito do senhor Ulme. Esta é a parte que apreciei: que uns o pintem como tirano, outros como um deus benevolente. Lamento apenas o facto de não ter considerado o enredo muito original, li rápido porque os capítulos são pequenos, a linguagem muito acessível (com aquela repetição em que todos os nossos “grandes” recaem, como se por repetir a mesma frase até à exaustão desse um selo de qualidade ao texto). Gosto do egoísmo, narcisismo e ego evidentes em cada personagem, é nesse sentido que é um livro humano. De resto, parece-me um lirismo um tanto forçado. Não desisto de Afonso Cruz à primeira, mas confesso que esperava bem melhor de um autor publicado na Bulgária.

Classificação: 3***/**

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

#142 HARDY, Thomas, Longe da Multidão

Sinopse: Longe da Multidão é um dos romances mais conhecidos de Thomas Hardy. Narra a história de Gabriel Oak e da sua grande paixão pela bela, independente e enigmática Bathsheba Everdene, que chegou a Weatherbury como herdeira de uma vasta propriedade rural. Mas a jovem é também pretendida pelo sedutor sargento Troy e pelo respeitável agricultor de meia-idade Boldwood. Ao mesmo tempo que os destinos destes três homens dependem da escolha de Bathsheba, ela descobre as terríveis consequências do seu coração inconstante. O jogo das personagens, com as sumptuosas paisagens rurais como pano de fundo, contribuiu para fazer deste romance notável um dos grandes clássicos da literatura inglesa.

Opinião: Thomas Hardy, romancista do século XIX, publica "Far From the Madding Crowd" em 1874. Pensando em literatura vitoriana, temos por exemplo, daquilo que li, O Monte dos Vendavais e Jane Eyre (tardo-gótico/naturalista). Em todos é explorada a psique da mulher, o peso de cenários fortes que influcenciam o desenrolar da acção e a fragilidade da mente humana, que tende a ceder sob pressão...
Considerado por alguns "o último dos vitorianos", Hardy, claramente céptico e pessimista, explora as oportunidades, as incertezas e o carácter volátil dos sentimentos. Isto de um modo que introduz já um racionalismo metódico exaustivo. Certo que ele reveu o livro duas vezes em vida exaustivamente - em 1894 e em 1901, se não estou em erro - e decerto introduziu algumas mudanças subtis.
Alguém dizia, no início da sua review a este livro, para esquecermos a ideia de um triângulo amoroso. Em “Longe da Multidão”, Thomas Hardy, este arquitecto que escolhe o mundo rural como cenário da sua obra-prima, apresenta-nos Barthsheba Everdene, Gabriel Oak, Francis Troy e William Boldwood. Não acredito que o acaso represente um papel neste romance, pois apesar da tragicidade de algumas passagens, predomina um racionalismo frio, cru, metódico. Tudo acontece sem dar grande espaço a sentimentalismos, e a narração, na terceira pessoa e alternando, por vezes no mesmo capítulo, da perspectiva de uma personagem para as outras, vem sempre revestida de uma tentativa de aligeirar as emoções sob o verniz da razão.
Barthsheba é uma personagem palpável, de tão humana. Observamos o modo como o autor desenvolve a sua personalidade, de uma jovem que respira liberdade, sem bens nem perspectivas, e depois esmagada pela responsabilidade da herança do tio, oprimida pela miríade de possibilidades que a sua nova condição lhe permite. A inovação aqui consiste em termos um autor masculino de uma erudição invejável – e por vezes constrangedora – a escolher um furacão feminino, com as suas convicções e fragilidades, para eixo central do seu romance. Gabriel Oak parece-me o coprotagonista, no sentido em que acaba por ter um parecer ou uma mão quase omnipresente em quase todos os momentos cruciais do enredo.
Apreciei o modo como a jovem Barthsheba apregoa aos quatro ventos que far-se-á respeitar como uma grande proprietária rural, sem ter de se transformar na sombra de um marido inconveniente. Mais tarde, por obrigação, quase se promete em casamento ao vizinho, Mr. Boldwood, depois segue o coração e recusa-se-lhe, apenas para ir recair numa armadilha do mesmo órgão um pouco mais adiante na estrada, ao deixar-se impressionar pela beleza e os modos do sargento Troy. Gabriel assiste a tudo isto, vivenciando-o na condição de primeiro seu pastor e depois seu maioral. É a figura que elimina todos os rumores a respeito da sua senhora, e que nela deposita uma fé apostólica.
Trata-se de uma narrativa prenhe de humanidade, de calculismo e de ingenuidade, num contraste harmonioso entre expectativa e realidade, bater de asas e consequência. Demorei quatro longos meses a lê-lo, por cada citação bíblica, mitológica ou literária que surgia a enriquecer o texto, pelas descrições extensivas e por vezes extenuantes, e pela complexidade das personagens e das suas circunstâncias.
Atribuo 4,5, os 0,5 que faltam para a perfeição devem-se ao facto de o livro não ter despertado em mim uma paixão fulminante. Entendi a Barthsheba e o Oak, bem como as outras duas personagens principais, mas faltou-me a chama que me traz lágrimas aos olhos sempre que me recordo de "E Tudo o Vento Levou" ou de um "O Monte dos Vendavais", tão grotesco quanto magnífico.
Não lhe falta, porém, elevada qualidade literária. Aconselho a quem aprecia histórias de amor e de terra atribuladas. E há sempre aquele sentimento de realização pessoal quando terminamos um livro desafiante... este foi bastante Hard (tinha a piada em mangas desde que li a segunda linha do dito cujo).

Classificação: 4,5****/*

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

2016 em Livros

Prestes a terminar o desafio de ler 25 livros em 2015 (eu sei, é absurdamente pouco), acalento a esperança de que 2016 seja um ano melhor em leituras.

Por isso quero prometer-me o seguinte:

Por mês, ler:

1 livro de autor lusófono
1 chamado "clássico"
1 livro adicional sem critérios de escolha

Não é nada de muito complicado, julgo!

Agora o plano do primeiro trimestre:

Janeiro
1) Flores, Afonso Cruz
2) A Um Deus Desconhecido, John Steinbeck
3) O Homem do Castelo Alto

Fevereiro
1) Mar Humano, Raquel Ochoa
2) Quando Nietzsche Chorou, Irvin D. Yalom
3) A Rapariga do Comboio

Março
1) Viagem ao Coração dos Pássaros, Possidónio Cachapa
2) As Paixões de Julia, Somerset Maughan
3) Não Digas Nada, Mary Kubica

Para Dezembro, a ver se ainda...

Termino o Longe da Multidão, Thomas Hardy


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

#141 PINTO, Margarida Rebelo, Mariana, meu Amor

Sinopse: No século XVII, durante a Guerra da Restauração da independência de Portugal, soror Mariana Alcoforado apaixounou-se por um oficial francês. As cartas de amor que lhe escreveu transformaram-se num símbolo da literatura romântica universal. Trezentos anos depois, Alice, uma jornalista, revisita esta história e aprende com Mariana a vencer a tristeza de um amor perdido. Mariana, meu amor é um romance dentro de um romance, uma narrativa a duas vozes de duas mulheres corajosas que, através de vivências quase opostas, conseguiram desafiar o seu destino e alcançar a paz, sem negar os seus sentimentos mais profundos.

Opinião: Vou tentar ser concisa nesta review, e portanto vou separar as águas por pontos.

Motivação: Voltei a pegar num livro da Margarida Rebelo Pinto, após o trauma anterior, sem sombra de dúvida por causa do chamariz da história da Mariana Alcoforado. Para quem não sabe (e que pelo livro dificilmente entenderá, pelo que aconselho antes a leitura de “Mariana”, da Katherine Vaz), trata-se de uma fidalga encarcerada pelo pai no Convento da Conceição de Beja, na segunda metade do século XVII. Mariana escreveu cinco cartas inflamadas ao seu apaixonado, o Marquês de Chamilly, que andava por cá a combater os castelhanos. O sucesso de vendas foi imediato e duradouro em França, e acabou por ser traduzido noutras línguas. “Cartas de uma Religiosa Portuguesa”. Como já previa, o engodo saiu gorado. A acção nem sequer decorre nessa época, mas sim na actualidade. Uma jornalista anda a registar a história da Soror Mariana. A história de amor disfuncional da jornalista Alice, bem ao estilo de todas as que a Margarida conta desde que aprendeu a escrever, é o fio condutor da história.

Revisão: O livro parece carecer de uma revisão séria. Surgem frases como “O coração, a quem…”, estrangeirismos metidos pelo meio do livro e sem itálico, tipo “out of the blue”, etc., etc. Por várias vezes tive de reler uma frase na tentativa de entender o seu sentido, posto que as vírgulas andavam desencontradas.

Romance contemporâneo: Como escritora, antiga estudante de literatura, não entendo como a Margarida pode ter adoptado este estilo. Não é “leve”, é “pena”. Profundidade nem vê-la. A escrita é acessível à minha irmã de 9 anos, com algumas deixas a respeito de tecnologias que me deixaram de sobrancelha erguida. “O Pedro mandou-me um Whatsapp”. Eu pensava que o Whatsapp era uma aplicação, e que se diria algo como “O Pedro mandou-me uma mensagem no Whatsapp”. Afinal, parece que podemos mandar a aplicação uns aos outros e com texto incorporado. O Pedro é o “vilão” deste livro. Com a Guida há sempre um tipo que lixou a vida da principal, que a ama mas é um cobarde, que a deixou e não responde às mensagens. E há a miríade de frases que começam com a filosofia barata "Os homens isto", "As mulheres aquilo". Nesta “obra” não é excepção. A Alice meteu-se com um homem casado, que não deixa a mulher e os filhos por ela. Surpreendeu-me ter gostado q.b. deste enredo até à página cem. Foi a descrição do Rio de Janeiro e dos brasileiros, e também das pessoas com quem a Alice se ia cruzando, as águas de coco, o paredão e algum conhecimento evidente da cidade sobre a qual se escrevia e dos hábitos culturais dos cariocas. Havia a certeza da Alice de que o Pedro gostava dela, mas era demasiado cobarde para arriscar mudar de vida. Pronto, até à página cem funciona. Depois torna-se maçador, é sempre mais do mesmo. Todos lhe dizem que é linda e deveria seguir em frente. Basicamente, o romance contemporâneo são duzentas e cinquenta páginas de uma Alice a lamuriar-se, enquanto se diz forte e independente, e enquanto os outros lhe elogiam a liberdade. São duzentas páginas de “ele não me liga nenhuma”, e de “não consigo esquecê-lo”, e da história da Mariana enfiada pelo meio, a ultrapassar o Nöel à força, à laia de lição de vida amorosa. Incongruências? Os pais da Alice são toxicodependentes, mas nunca bateram à porta dos pais a pedir dinheiro, nunca procuraram a filha com esse fim. Quando o pai morre, deixa mil e setecentos euros e o hospital pago em antecipado. Que rico drogado este, que em três décadas manteve sempre o controlo sobre o vício e ainda morre num hospital privado, ainda que sozinho, com quase dois mil euros no bolso. Minha gente… Uma pessoa agarrada ao “cavalo”, como a Margarida se refere à heroína, anda sempre no limiar da miséria. Garanto que não teria um euro no bolso. Enfim, um livro com este enredo, em 120 páginas, até seria minimamente tolerável. De 300 é impensável, repetitivo, aborrecido. Também não gosto da maneira como ela conduz a narrativa. “Acordei às dez, tomei um duche, comi uma maçã e fui às compras. Bebi um café, voltei para casa e escrevi dez páginas do livro novo”. E da futilidade das relações, dos melhores amigos que se fazem após uma conversa, das mil e uma personagens cuja história é resumida em dois parágrafos, do homem que amamos por causa do cheiro, da elegância e do desprezo a que nos vota, do tipo com quem dormimos porque está na hora de seguir em frente e ele estava ali, naquele bar, naquela noite, e nos disse que éramos bonitas. Mas o pior está para vir… Ah, e já vos disse que a alcunha da personagem principal é Açúcar? "Oh Açúcar, tens de o esquecer!".

Mariana Alcoforado: Completamente assassinada. Para quem leu e releu as cartas, como eu, a Mariana não é nada daquilo que a Margarida descreve. E há visões que terei de apagar da memória, para poder preservar a ideia daquela que é, para mim, a mais notável história de amor do nosso país. Maior do que a de Pedro e Inês, que julgo baseada sobretudo em luxúria, e na traição da pobre Constança. A felicidade desses dois constrói-se sobre a desgraça da princesa e a possível perda de independência do reino. No caso da Mariana, falamos da vida pessoal de uma jovem de boas famílias, cuja contrariedade por ter sido fechada num convento transparece a cada palavra das suas cartas. Uma mulher confinada cujas palavras escapam às paredes do convento e chegam aos confins da Europa para confidenciar a sua solidão e o seu amor desmesurado pelo Marquês de Chamilly. É evidente que ele a conspurcou, que ela se deixou ir por acreditar nas suas promessas de amor eterno e de que voltaria para a resgatar do Convento. Porém, e sem me alongar, a abordagem da Margarida é a seguinte: sempre na primeira pessoa, a Mariana narra, ao longo de 4 dias, a sua história de amor a uma noviça muda. Teria então 75 anos e analisa tudo em retrospectiva. Porém, a falta de sensibilidade da Margarida neste ponto do romance é constrangedora. A voz que empresta a Mariana jamais pode pertencer-lhe: esta mulher conformada, entregue à vida religiosa e que se queixa do amor da sua vida, a quem chama “crápula” e outras coisas que agora não me recordo e que me soavam igualmente abrasileiradas. A linguagem está desfasada da época, parece-me. “Devo cuidar da higiene do convento”, ou algo semelhante. Higiene? Este conceito não me parece muito seiscentista. Enfim, o pior mesmo foi o modo como, quase no fim do livro, ela continua a repetir “Benedita, vou contar-te a história deste amor, regista tudo o que digo”. E depois divaga sobre o amor e o sexo – muito entendida, esta freira que só teve um amante, e que foi enclausurada num convento aos dezasseis anos. Mas pior é mesmo o modo como há sempre descrições de sexo nas lições desta Abadessa à sua pupila, de modo vulgar e incomodativo. Toda eu me encolhia ao ler a minha “suposta” Mariana a dizer que o Marquês de Chamilly “a penetrava” assim, a “possuía” assado, mas pior ainda… Que tinha um “membro muito grande”, e que ela lho dizia, ou que uma mulher deve dar prazer ao homem de todos os modos que souber, por exemplo “montando-o”, e que o faziam todas as noites, despachando depois os lençóis para uma noviça lavar. O que me matou (fechei o livro, apaguei a luz e enrolei-me em posição fetal de olhos muito abertos no escuro), foi ler que
o Marquês se vinha no ventre ou na boca dela. Lamento assombrar-vos com o mesmo espectro, mas isto revolveu-me o estômago. Morte ao amor, viva às lições sexuais da freira enclausurada. Não acredito que uma velha abadessa de 75 anos tenha necessidade de contar tais coisas, pensei que falariam do amor, das conversas, dos detalhes do enamoramento, mas não. Aqui fala-se do modo como fornicavam, e basta. Também adorei ler a Mariana a avisar a freirinha dos homens maus, do modo como abandonam as mulheres, como “se não nos respondem às cartas é porque já não têm nada a dizer”, e como há por aí “violadores”. Espantoso o acesso à informação que uma freira enclausurada tinha, e sobretudo o quão progressistas eram estes termos e visões da sociedade. Ah e a HISTÓRIA? Enxurradas de números e datas sobre guerras, e está feito. É mentira, a Mariana é só um engodo para fingir que a MRP é capaz de escrever um romance histórico (nem de época, quanto mais histórico!!!). Se é pela Mariana que vêm, fujam!

Apreciação geral: Tirando partes do romance da tal Alice, a que até achei alguma graça, a mulher não sai do mesmo. A criatura arrasta-se, queixa-se a todos, todos lhe perguntam se está bem, se já o esqueceu… Bem, dá a ideia de que o amor é isto: na gaveta, à espera que ele precise de nós como que a um par de cuecas limpas. E já me estou a repetir, pareço ela.

Duas estrelas: 1 pelo Brasil, 1 porque reservo o 1* somente para livros que nem podem ser apelidados de tal.

Classificação: 2**/***

domingo, 29 de novembro de 2015

#140 PEIXOTO, José Luís, Em Teu Ventre


Sinopse: «Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.» Numa perspetiva inteiramente nova, Em Teu Ventre apresenta o retrato de um dos episódios mais marcantes do século XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917. Através de uma narrativa que cruza a rigorosa dimensão histórica com a riqueza de personagens surpreendentes, esta é também uma reflexão acerca de Portugal e de alguns dos seus traços mais subtis e profundos. A partir das mães presentes nesta história, a questão da maternidade é apresentada em múltiplas dimensões, nomeadamente na constatação da importância única que estas ocupam na vida dos filhos. O sereno prodígio destas páginas, atravessado por inúmeros instantes de assombro e de milagre, confere a Em Teu Ventre um lugar que permanecerá na memória dos leitores por muito tempo. 

Opinião: Na realidade 2,5. Estou por dentro do assunto "Fátima", que leva anualmente 6 milhões de turistas à cidadezinha homónima. O autor foi muito <i>low profile</i>, acho evidente que se afastou de uma tomada de posição. Deixa a porta aberta para que quem acredita considere que é tudo verdade, e para que quem apenas considere tudo um negócio fique com a sua ideia. O que, na minha opinião, dá algum interesse ao livro é o retrato do Portugal rural (a imagem dos piolhos a serem catados e da extrema pobreza em que se vivia). Também o assunto "maternidade" tem laivos de beleza nesta obra, a mãe que ama mas precisa de punir,  mãe que condena mas que ainda assim protege a cria. De resto há inúmeras coisas por mencionar - onde está o aviso, de Maio de 1916, do suposto Anjo de Portugal? Onde está o Anjo a ensiná-los a rezar? E a Virgem a falar dos Mistérios? A Virgem a exigir (e não a "concordar") a construção de uma capela em sua honra? Onde estão os media que fotografaram as 70 mil pessoas que ali se reuniram a 13 de Outubro de 1917? O aviso de que, em breve, Jacinta e Francisco se reuniriam com a Nossa Senhora no Céu? A teoria de que apenas um dos dois irmãos viu a Virgem, enquanto outro apenas a ouviu, sendo que Lúcia viu e ouviu a Virgem? Na minha óptica, o livro apenas vem aprofundar o mistério, porque as fontes são tantas, e tão díspares... Falta que se escreva ainda um grande livro sobre o assunto.

Classificação: 2,5**/***

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Livros que gostava de ter tempo para ler...

Volvidas mais de duas décadas sobre a desagregação da URSS, que permitiu aos russos descobrir o mundo e ao mundo descobrir os russos, e após um breve período de enamoramento, o final feliz tão aguardado pela história mundial tem vindo a ser sucessivamente adiado. O mundo parece voltar ao tempo da Guerra Fria. Enquanto no Ocidente ainda se recorda a era Gorbatchov com alguma simpatia, na Rússia há quem procure esquecer esse período e o designe por a Catástrofe Russa. E, desde então, emergiu uma nova geração de russos, que anseia pela grandiosidade de outrora, ao mesmo tempo que exalta Estaline como um grande homem. Com uma acuidade e uma atenção únicas, Svetlana Aleksievitch reinventa neste magnífico requiem uma forma polifónica singular, dando voz a centenas de testemunhas, os humilhados e ofendidos, os desiludidos, o homem e a mulher pós-soviéticos, para assim manter viva a memória da tragédia da URSS e narrar a pequena história que está por trás de uma grande utopia.
Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo - e constatar o quanto a sua vida se afastou dela - decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história inquietante sobre a memória e o que resta de nós quando a perdemos. Um romance comovente sobre o amor e o que este precisa de ser para merecer esse nome. «Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias.»
«Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.» Numa perspetiva inteiramente nova, Em Teu Ventre apresenta o retrato de um dos episódios mais marcantes do século XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917. Através de uma narrativa que cruza a rigorosa dimensão histórica com a riqueza de personagens surpreendentes, esta é também uma reflexão acerca de Portugal e de alguns dos seus traços mais subtis e profundos. A partir das mães presentes nesta história, a questão da maternidade é apresentada em múltiplas dimensões, nomeadamente na constatação da importância única que estas ocupam na vida dos filhos. O sereno prodígio destas páginas, atravessado por inúmeros instantes de assombro e de milagre, confere a Em Teu Ventre um lugar que permanecerá na memória dos leitores por muito tempo.
No século XVII, durante a Guerra da Restauração da independência de Portugal, soror Mariana Alcoforado apaixounou-se por um oficial francês. As cartas de amor que lhe escreveu transformaram-se num símbolo da literatura romântica universal. Trezentos anos depois, Alice, uma jornalista, revisita esta história e aprende com Mariana a vencer a tristeza de um amor perdido. "Mariana, Meu Amor" é um romance dentro de um romance, uma narrativa a duas vozes de duas mulheres corajosas que, através de vivências quase opostas, conseguiram desafiar o seu destino e alcançar a paz, sem negar os seus sentimentos mais profundos.

domingo, 8 de novembro de 2015

#139 MCNAUGHT, Judith, Perto do Paraíso

Sinopse: Lady Elizabeth Cameron, condessa de Havenhurst, tem apenas 17 anos quando conhece Ian Thornton, um enigmático homem de linhagem misteriosa e reputação sombria. Numa época em que a alta sociedade adora escândalos e valoriza títulos e dinheiro acima de tudo, Elizabeth e Ian cometem o erro de se apaixonarem.
Ian não sabe que a jovem pertence à nobreza e pede-a singelamente em casamento. Um momento de intimidade que é testemunhado por Robert, irmão de Elizabeth. Desdenhoso, Robert revela que a irmã já está prometida a outro homem, um aristocrata, como manda a tradição. Ian fica destroçado perante a ideia de ter sido um mero objeto para a sua amada. Também Elizabeth se sente traída, ao pensar que ele não passa, afinal, de um caçador de fortunas. Mas a sua reputação já está irremediavelmente manchada.Dois anos passam e os amantes voltam a encontrar-se. E mesmo após tanto tempo e tanta mágoa, os seus sentimentos revelam ser tão fortes como antes. Esta que promete ser uma segunda oportunidade para ambos será também o começo de uma dança de paixão e intriga, um caminho tortuoso desde os salões elegantes de Londres à beleza agreste das Terras Altas da Escócia… Um turbulento romance entre duas pessoas destinadas a ficar juntas, numa época em que o casamento nada tem a ver com amor.
Não é o meu favorito dela, definitivamente.
Classificação: 3,5 ***/**

Opinião: Fiquei muito decepcionada com este livro da Judith. Mas já previa… 600 páginas de um romance deste género, só podiam estar pejadas de repetições e de intriga fácil. Aquilo que a autora tem de melhor, face a todas as outras autoras do género, é o bom senso de que reveste as suas personagens. O modo como estas são sempre fiéis àquilo que sentem, mesmo quando há rumores a tentarem destruir a sua paz. É impossível não cair de joelhos pelo Ian, mas a Elizabeth é uma mosca morta. Primeiro, não gosto muito de histórias em que a protagonista é a mártir perfeita: uma carinha de anjo, complacência até mais não. É aborrecido reler centenas de vezes como é linda (mas inconsciente disso), como o luxuoso vestido lhe cai tão bem (e como ela o tentou recusar, por o achar “demais”), e como salvou o dia com a sua inteligência incomum. Claro que me ri várias vezes, sobretudo com as personagens secundárias. A criadagem da Elizabeth parece um decalque do Penrose da Alex, no livro anterior (Algo Maravilhoso), mas deu para rir quando punham purgante nas sanduíches e no chá dos convidados que desprezavam. A duquesa viúva, avó do Jason, volta a aparecer e também contribui para o divertimento do leitor. Fora isso temos Jake e Duncan, amigo e tio de Ian, respectivamente, e Lucinda, a acompanhante de Elizabeth, que também tem uma personalidade vincada. Os “vilões” são as amigas invejosaso tio avarento e ganancioso e o irmão despeitado. Se o ponto final tivesse acontecido na página 450, apesar de ser já um livro longo e que encerrava duas linhas de acção paralelas (quando se conheceram e quando se reencontram, quase dois anos depois), teria o tamanho certo. Mas a autora achou que ainda não tinham havido mal-entendidos suficientes e rouba o discernimento à mocinha. Põe-na a desconfiar do protagonista de uma maneira absurda e a cometer um acto irreflectido que eu jamais perdoaria a uma pessoa que julgasse que me amasse e que confiasse em mim. Mas enfim, disparates à parte, também os finais não variam: jardins, herdeiros e muitos risos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

#138 GOMES, Ivan Vera

Sai a 17 de Novembro 2015

Sinopse: Um livro que não olha a meios para mostrar o que somos, que nos culpa por isso, ao mesmo tempo que nos alimenta a esperança de podermos ser melhor do que aquilo que mostramos. É, nesse sentido, um livro redentor. Para quem o escreve, ao ver-se capaz de tamanha sensibilidade no meio dos monstros, e para quem o lê, quando, ao fim de um dia vulgar e baço, lhe dedicar a atenção e se concentrar nos melhores valores que um homem pode ter.

Opinião: Os livros do Ivan vão valer sempre pela viagem. Não é quando chegamos que importa, mas sim onde e como o autor nos leva até às catacumbas da sua consciência. A sua escrita será sempre visceral - como não, quando se vive e se sente? Nem todos os autores vivem de peito aberto e em ferida, por isso não esperem floreados nem eufemismos deste. O autor escreve como fala, as suas palavras saem impregnadas do seu ambiente, da sua infância, do seu círculo socio-económico, das suas vivências, amores e ódios. Não busquem eloquência a cada parágrafo, mas no todo ela está lá: os desabafos de um louco que desfruta ainda de alguns instantes de lucidez. Um homem em busca de si próprio nos meandros da noite, que ora se encontra ora de perde neste desfile de conhecidos, amigos do peito, amantes e amores impossíveis. 

Classificação: 5***** 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

#137 ROBERTS, Nora, Herança de Fogo

Sinopse: Herança de Fogo é a história de Maggie Concannon. Talentosa e rebelde, Maggie é uma artista que trabalha o vidro. As suas obras de arte são mais do que apenas objectos belos, são reflexos da sua verdadeira natureza. Até que um dia, Rogan Sweeney, dono de uma das galerias mais sofisticadas de Dublin, descobre o seu trabalho. Se por um lado Rogan é um profissional e quer fazer dela uma artista conhecida e bem sucedida, por outro o seu coração atraiçoa-o pois está completamente apaixonado por aquela mulher rebelde e explosiva. Apesar de Maggie sentir o mesmo, uma relação entre ambos nunca poderá ser fácil... ou não houvesse um passado negro a assombrar o futuro.


Opinião: Mais um livro da rainha do romance... Não li muitos dela, confesso, mas os que li foram todos iguais.
O primeiro que li foi o "Herança de Vergonha", por sinal o último desta trilogia. Depois li o do meio, da Brianna (Herança de Gelo), e por fim, anos depois, aborrecida de morte e incapaz de pegar num livro a sério, decidi obrigar-me a adquirir este volume em formato bolso e a lê-lo, apenas para terminar a trilogia. Também li uma trilogia sobre flores, "A Dália Azul", etc..., mas já estava muito aborrecida daquilo. Meto-a no saco dos autores com uma fórmula, e que a aplicam até à exaustão. Tudo bem, o leitor assim já sabe ao que vai... Mas não desenvolve. As falas são sempre parecidas, idem com as descrições, idem com os cenários, idem com a pessoa a cozinhar, os chás, as personalidades... Tem graça, é divertido, entretém, mas não são livros para se lerem de enfiada, agora este e a seguir outro dela, porque vai sempre dar ao mesmo. Também o final é sempre 100% garantido.
Este é a história da Maggie Concannon, curiosamente a irmã que eu achava menos interessante das três, porque surgiu sempre como a personagem secundária rabugenta das outras histórias. Porém, aqui, a Maggie revela a personalidade mais interessante de todas. Livre, decidida, uma artista compulsiva e uma mulher segura de si. Também tem o lado vulnerável, não se engana a si própria e é brutalmente honesta. Tudo isto é agradável de se ler, ri-me algumas vezes com algumas coisas que eles diziam. O Rogan foi, obviamente, feito como uma luva para ela… Também ele tem uma personalidade interessante. Mas a linha dos livros, sempre igual, sempre com eles a correrem atrás delas até à exaustão, sempre pacientes e amorosos, exaspera-me. E que dizer das metáforas? Já não aguentava tanta metáfora. “Fazia isto como x faz y”. “Estás para aí como um x a fazer y”, etc…
Enfim: light literature. É fácil para ela, fácil para o leitor. Não admira que esteja rica e venda tanto. Ela, o Nicholas Sparks, a Sveva Casatti Modignani, etc., etc…
É descobrir a galinha dos ovos de ouro e depená-la até ao degredo.
É pouco provável que volte a lê-la em breve, embora, de momento, me tenha sabido bem ler algo com esta leveza e, sobretudo, ambientado na Irlanda, que tanto amo.

Classificação: 3,5***/**

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

#136 TÓIBÍN, Colm, Brooklyn

Opinião: Nos últimos dias, embrenhei-me em duas histórias que me absorveram a alma, Longe da Multidão (o filme de 2015 inspirado no livro de Thomas Hardy), e North and South (a série da BBC de 2004, que de longe foi a história que mais mexeu comigo pela complexidade do retrato social e do carácter das personagens principais). Tomei também conhecimento de um filme a sair com a Saoirse Ronan, “Brooklyn”, que me pareceu igualmente interessante. Julguei que o livro abordasse os anos cinquenta numa perspectiva de retrato social. A emigração em larga escala de alguns países europeus para a América, as dificuldades e as realizações que daí adviessem. E, no campo do amor, a difícil escolha entre um italiano amoroso na sua vida nova, ou um irlandês tradicional no país que abandonou.

Aconteceram duas coisas inesperadas com este livro… A primeira é que o li de um sopro, também tem apenas cerca de 250 páginas, e ando numa fase pouco produtiva de leitura. A segunda é que detestei a personagem principal e a condução geral que o autor fez do livro. Nunca se sabe o que a Eilis pensa ou quer, a criatura é completamente frívola e passiva ao ponto da exasperação. Perdi a conta às vezes que recorreu à procrastinação para evitar confrontos ou que surgiu a frase “pensou em dizer x, mas o melhor era ficar calada”. Tudo se decide ao seu redor sem que ela tenha qualquer parecer nisso: dança com quem a convida, beija quem tenta beijá-la, aceita convites que depois declara não querer ter aceitado, muda de país sem o querer, regressa a casa para lidar com uma mãe que já não compreende, debate-se com o dilema de ficar em casa com a mãe que a chamou ou regressar a Brooklyn, onde começara uma nova vida. Nenhuma decisão é baseada no que quer, a moça não tem pulso na sua vida e isso é-me desagradável de ler. Atenção, é verdade que sou apaixonada por anti-heroínas e nem todas as personagens principais podem ter o calculismo de uma Scarlett O’Hara, a determinação cega de uma Cathy Earnshaw ou o brilhantismo de uma Lisbeth Salander, mas não há um pormenor na Eilis que seja digno de elogio.
Penso que o autor conduziu mal a história. Não há um objectivo, só me ocorre a expressão “pointless”. A pesquisa histórica está feita, os detalhes são interessantes q.b., o retrato de Brooklyn e da Irlanda são pictóricos, não se mergulha nas entranhas de um país e doutro, nos prós e contras de se decidir onde se quer envelhecer, ao lado de quem, fazendo o quê. Faltou profundidade à Eilis, assim como a quase todas as outras personagens. Nenhuma se destaca por traços bem marcados excepto, talvez, o apaixonado e leal Tony. 
O livro é superficial, light, e por isso mesmo devorei-o com tanta rapidez. Queria muito ter gostado desta obra, mesmo porque amo a Irlanda e a história do povo irlandês, e aqui estava mesclada com um passado em comum ao povo italiano, e teria sido tão proveitoso explorar-lhes as nuances… E se a Eilis tivesse dois dedos de testa e tomasse decisões, tudo poderia ter sido tão melhor desenvolvido…
A escrita de Colm Tóibín é simplista, não há um trecho que valha a pena sublinhar ou uma passagem de marcada profundidade. A natureza humana é aqui, deste modo, desperdiçada.
Pena, porque quis muito gostar dele…
Deixo também uma nota quanto ao facto de me parecer que a tradução para português peca muito. Li várias passagens que não me soaram bem, perdi a conta às vezes que li “devia de ser”, e fico sempre na dúvida se é realmente assim que se diz… E “doce”, e “encantadora”, e “maravilhado/fascinado”, etc… Pode ser problema da versão original, ou simples falta de criatividade conjunta. É disso que acuso o livro: falta de cor, falta de criatividade para preencher uma tela tão promissora.
Não é dos que aconselho.

Classificação: 2**/****

Sinopse: Numa pequena vila irlandesa dos anos cinquenta, Eilis é uma das muitas pessoas da sua geração que não consegue arranjar trabalho. Quando surge uma oportunidade na América, é-lhe evidente que tem de partir. Jovem, sozinha e saudosa, Eilis começa uma nova vida em Brooklyn e a sua tristeza vai sendo gradualmente apaziguada. Quando notícias trágicas a obrigam a regressar à Irlanda, vê-se confrontada com uma escolha terrível: entre o amor e a felicidade na terra a que pertence e as promessas que tem de manter do outro lado do oceano. Uma história de partida e regresso, de amor e perda, da escolha entre a liberdade pessoal e o dever.

sábado, 27 de junho de 2015

#Matava para ler...2






#135 MÁRQUEZ, Gabriel García, Crónica de uma Morte Anunciada

Opinião: 

"- Mataram-me, menina Wene"

A minha primeira experiência com Gabriel García Márquez foi, precisamente, com "Cem Anos de Solidão". A cada livro ou mesmo frase que leio dele, posso apenas constatar que não estava preparada para ler essa obra-prima quando me aventurei nela. Não consegui gostar, não me apaixonei pelo surrealismo sul-americano que tanta beleza imprime às obras deste autor.
Na altura alguém, vendo-me com perfil de escritora no Goodreads, veio dizer-me, em privado, que só poderia escrever caca se tinha atribuído 1 estrela à obra-prima do Gabo. Na altura evoquei o evidente: não me identifiquei, não gostei. Uma classificação a uma obra artística é sempre mais um manifesto de percepção do que algo de aproximado a uma verdade absoluta. Não há verdades absolutas quanto à arte, mas há verdades incontornáveis. E é incontornável que o Nobel colombiano é um contador de histórias exímio.
Há um grande debate aí pelas redes sociais, a propósito da qualidade das obras/gosto pessoal dos leitores. Eu digo isto: se se quer avaliar a alma de um livro, a sua qualidade humanística, olhe-se aos leitores. Quem leu? Quem gostou? E daí retirem as vossas conclusões. Já que usei a palavra caca acima, vou chamá-la de novo: escreve-se muita caca hoje em dia. Há um culto do "escrever": as palavras caras, os floreados, o cliché, a piada fácil, a tentativa de criar um tcharan no encerrar da ideia que, na maioria das vezes, me suscita um "?" e um enrugar de testa. Mas que raio...?
Onde anda o conteúdo? Onde andam os contadores de histórias? Eu digo-vos, a meu ver, onde é que eles andam:
À escuta. Atrás das portas, nas esquinas, nos becos. É o tipo de cigarro nas beiças a duas mesas da vossa, ao pequeno-almoço. É o que finge ler o jornal enquanto vocês conversam com a vizinha na paragem de autocarro. É o que olha pela janela do metro enquanto vocês falam ao telefone. É o miúdo que se põe hirto enquanto vocês discutem, em casa e de janelas abertas, confiantes que ninguém vos ouve. E que depois guarda isso para si, ou corre em busca de uma caneta e do verso de um talão para apontá-lo. É quem saca da máquina fotográfica ou do gravador, ou que digita as vossas palavras à velocidade que as verbalizam, para não perder pitada da vossa alma falada. Daquilo que vos sai com naturalidade.
E Gabriel García Márquez é um observador nato. Os diálogos são incólumes, sãos, palpáveis. Chegam-nos por entre sopros do hálito das personagens, dos seus lábios gretados, dos seus dentes lascados, das suas sinusites e dos seus catarros. O homem é um extractor de almas, e quem o é só precisa de meia dúzia de páginas para contar uma história antes de cair na repetição.
Crónica de uma Morte Anunciada tem 107 páginas na versão em que a li, e é de uma riqueza literária inegável (uma verdade incontornável).
Santiago Nasar está condenado, todos os sabem. Mas aí entram as motivações humanas, as suas fraquezas, as suas crenças pessoais "ah, eles vão lá agora matar o rapaz". "Mas alguma vez?", e joga o seu vasto conhecimento da essência de um povo que é seu e de um passado de que também comunga. A força da tradição, que nos fortalece em certas situações e nos amordaça noutras, o assassino que não quer matar mas que o deve à honra, o povo que entende as razões e, ainda assim, leva flores ao morto.
Estou deserta (vim agora do Algarve) de continuar a lê-lo. "O Amor nos Tempos de Cólera" e agora esta maravilhosa crónica puseram-me alerta para aquilo que tenho andado a perder. Espero que se deixem prender com tanta intensidade quanto eu.
Um 5***** no absoluto matemático deste número infinito.

Sinopse: Vítima da denúncia falaciosa de uma mulher repudiada na noite de núpcias, o jovem Santiago Nasar foi condenado à morte pelos irmãos da sua hipotética amante, como forma de vingar publicamente a sua honra ultrajada e sob o olhar cúmplice ou impotente da população expectante de uma aldeia colombiana: é esta a história verídica que serve de base a este romance, e que, logo nas suas primeiras linhas, é enunciada. A capacidade de Gabriel García Márquez em reconstruir um universo possuído pela nostalgia, mágica e encantatória da infância e a sua genial mestria em contar histórias fazem deste romance mais uma das obras-primas que consagraram definitivamente este autor.

sábado, 20 de junho de 2015

#134 MCNAUGHT, Judith, Algo Maravilhoso


Sinopse: Alexandra Lawrence tinha a seu favor o facto de ser bem-nascida e… nada mais. Com o seu aspeto e modos arrapazados - sabia disparar uma arma, pescar, e montar a cavalo tão bem como qualquer homem - não era propriamente a noiva perfeita.
Para piorar as coisas, vivia na penúria, o tio era um bêbado e a mãe uma senhora de temperamento irascível. Não, ninguém diria que seria ela a casar com o abastado, mulherengo e arrogante Jordan Townsende, duque de Hawthorne.
Mas a verdade é que, devido a um infeliz mal-entendido, assim foi.
Alexandra é agora duquesa, mas a sua vida é tudo menos calma. Quatro dias após o casamento, o marido desaparece sem deixar rasto. É sozinha que tem de enfrentar a sociedade londrina, que despreza o facto de um dos "seus" aristocratas ter casado com uma campónia ingénua. Quando Jordan finalmente reaparece, Alexandra já perdeu a inocência dos seus dezassete anos, mas aos poucos vai descobrir que, por detrás da fachada gélida do marido, está um homem ternurento, amável e sensual. Tragicamente, Jordan coleccionou demasiados inimigos e é agora um alvo a abater. Caberá a Alexandra salvar a vida do homem que ama. Uma missão impossível não fosse a sua teimosia em acreditar que o futuro lhes reserva… algo maravilhoso.

Opinião: Por muito que me dê conta do quanto a leitura exaustiva desta espécie de livros arruinou todos os homens (comuns, mortais) aos meus olhos, dei mais algum tempo de antena à Judith McNaught. A verdade é que o seu “Para Sempre” já me tinha comovido há uns meses, e ofereceu algumas lufadas de ar fresco face a esta enchente de livros do género que andam pelas bancas…
Agora o “Algo Maravilhoso” veio cumprir o mesmo propósito. Romântico, fórmula habitual, final previsível, e ainda assim houve algumas tiradas imprevistas…
As personagens principais, Jordan e Alexandra, são os típicos protagonistas destas histórias: ele é rico, um duque, marquês, e sei lá mais quantos títulos acumula. Ela é pobre, cresceu de modo invulgar (o avô ensinou-a a citar os grandes pensadores gregos), gosta de esgrima e de actividad
es ao ar livre. Ele é filho único, o que faz dele um alvo a abater na sociedade londrina. Ela também é filha única, à excepção de uma meia-irmã que nunca surge e que fica claro que a despreza.
O casamento é de arranjo, como todos do género. É na relação entre as duas principais e no contexto histórico e no esmero dos cenários que reside o meu apreço: por muito que estejam zangados, desiludidos, ou que oiçam mexericos um do outro, escolhem sempre acreditar que o outro é melhor do que isso. Acabam por se dar inúmeras oportunidades e não conseguem deixar de demonstrar carinho e interesse pelo outro.
Para mim o livro descambou mais perto do fim, quando o clímax da acção se dá em moldes demasiado dramáticos, com um deles a ser baleado e a ficar às portas da morte, para culminar numa recuperação miraculosa…
Enfim, já visto. Já lido.
Ainda assim, gostei.
Meninas: fujam destes livros. Nenhum homem será jamais suficientemente bom…
Dentro do género:
Classificação: 4,5****/*


quinta-feira, 18 de junho de 2015

#133 GOMES, Ivan Vera, Que Espaço Vazio Têm as Minhas Mãos

Opinião: Este livro é um achado. Não foi escrito com a cabeça nem com o coração, mas antes com as vísceras. Cruel, desconcertante, impiedoso: são os adjectivos que melhor o descrevem. A frustração de um homem que procura encontrar-se, situar-se num mundo tão vasto, enquanto se esforça por se fazer valer perante os outros. O seu círculo de amizades, a sua família…
A cada linha uma nova reflexão, o sentimento de solidão, de angústia, de estarmos rodeados mas de sermos apenas um, tantas vezes menos que isso. Cada página uma miríade de sublinhados:
As confissões intimistas do autor a propósito da vida, da morte, dos propósitos de uma e doutra. A mãe, o pai, a guitarra e o irmão, a vida que começa e outra que se finda. Os amigos: o diálogo eterno, os abraços infinitos que trocamos com os amigos. As coisas que não dizemos nem aos amigos e que tardamos a admitir perante nós mesmos. O amor desfeito e o sentimento que perpetua.
Deus, que só “está em todo o lado para não perder o sofrimento de ninguém”. Deus, o tipo que não dá nada a ninguém. Deus, que o autor vê como uma criança, “é mais fácil perdoá-lo”.
E a ideia de que “a maior viagem do homem é aquela que interfere com os seus planos”. A ideia de que somos os únicos culpados da nossa própria velhice. E a verdade incontornável de que “Quase ninguém nos vai buscar ao fundo”.
Um livro com cabeça, tronca e membros. Não consigo considera-lo crónicas, mas antes um romance. Não se dá o caso de a crónica número 1 despeitar o amarelo enquanto a 15ª o idolatra. O autor é coeso no seu pensar, não fabricou um livro: deu-o à luz de parto natural. O livro saiu-lhe, é parte dele e da sua essência, é autêntico em todo o seu linguajar. Romântico, também, na medida em que um homem quebrado consegue sê-lo. E as emoções surgem com uma tangibilidade que me pôs em lágrimas em mais do que uma parte. Mas também me ri bastante noutras, no modo como é retratado o arrumador-de-carros que conhecem num parque de estacionamento e que, simplesmente, está de bem com a vida. Ou finge estar: tão hilariante que nos cega de comoção.
Um livro de uma sensibilidade transcendente, vindo de um punho que não pode parar de escrever. O melhor que já li de um autor português – eu, que nunca terminei um livro de Lobo Antunes e que tropeço nas vírgulas do grande Saramago. O choque absoluto de considerar que um livro assim merece uma visibilidade e uma distribuição muito melhores àquelas que se dispõem a dar-lhe, porque é alguém novo – mas alguém que mais cedo ou mais tarde terá o seu trono no universo literário deste pequeno jardim.
Alguém que venha e descubra esta jóia por entre os castelos de pirite que para aí andam.
Aconselho a quem procure amor, ódio, angústia e desespero (bem como amizade), em estado bruto.

Sinopse: Uma viagem desassossegada pela angústia das relações humanas, uma reflexão acerca da morte sempre iminente e uma introspecção pelo amor ao eu que passa sempre pelo amor ao outro. A história de uma consciência profundamente sensível e lúcida. Um livro terrível, de frases e situações impactantes.

Classificação: 5/5*****