quarta-feira, 7 de setembro de 2016

#170 GASKELL, Elizabeth, Norte e Sul


Opinião: Elizabeth Gaskell, amiga íntima de Charlotte Brontë (bem como de John Ruskin e de Florence Nightingale), viveu entre 1810 e 1865, e era filha de um jornalista. Depois de casada, acompanhou o marido em causas sociais, prestando educação e apoio a crianças desfavorecidas. É um pouco desta mulher que encontramos em “Norte e Sul”.
A primeira edição em Portugal dá-se cento e sessenta e dois anos depois da sua publicação em Inglaterra, e é a de Abril de 2016, sob a alçada da Relógio d’Água.
“Norte e Sul” é um romance sobre os contrastes da Inglaterra de meados do século XIX, na qual, como à imagem de todos os países da Europa, o Norte começa por se aventurar primeiro na maquinaria, com as consequências que daí advém. Margaret é filha de presbítero e da beldade do condado, Mary Hale (née Beresford), e cresceu em Helstone, no sul. Os pais ocupavam uma posição de destaque na modesta hierarquia social do burgo, sendo o seu pai o líder espiritual da comunidade. A mãe tratava das questões sociais, ajudando os pobres e aliviando o sofrimento dos enfermos com pequenos confortos. Ainda que a aristocracia esteja em franca decadência, as relações determinam a posição de uma família na sociedade, e por isso os Hale “dão-se ares”. A tia de Margaret, com quem esta passa o período que sucede a infância, fora esposa de um general e a filha, a irritante Edith, está prestes a desposar um capitão, irmão de um advogado. Vivem em Londres, e Margaret divide-se assim em três realidades: a simplicidade idílica de Helstone, a azáfama social de Londres, e mais tarde as convulsões grevistas de Milton. É no momento em que se mudam para Milton que a acção tem início, e louvo a autora pelo modo como conduziu a percepção das suas personagens a esta nova realidade.
O valor desta obra, publicada em 1854, é o de trazer à luz os primeiros confrontos sociais que se deram num país em mudança. Alguém aqui no GR descreveu “Norte e Sul” como “Orgulho e Preconceito para socialistas”, mas julgo que a autora não tomou uma posição tão vincada. Margaret fica profundamente tocada pelo novo retrato social que encontra. Enquanto em Helstone todos tinham o seu futuro definido, e ninguém se agitava ou ambicionava ser outra coisa, em Milton o ruído dos moinhos e dos teares anuncia prosperidade e riqueza, e todos desejam deitar a mão ao seu quinhão. A indústria não funciona sem operários, e Margaret cedo se torna próxima de alguns. Os Higgins exibem todas as marcas desse capitalismo pululante; a filha que trabalhou com algodão e que ficou de pulmões destruídos, o pai que pertence ao sindicato e que acredita que as suas exigências, por muito que também lhes causem dissabores, são a via para obter condições mais justas. Porém, aos operários falta a visão geral da realidade, a formação para compreender contratos, cálculos, e para gerir. Esse lado da moeda será exposto de modo soberbo por John Thornton, um dos industriais de Milton. Thornton cresceu por entre dificuldades, o seu orgulho não é tanto que o esconda, pelo contrário: regozija-se por ter chegado à posição prestigiada na qual se encontra. Isto choca os Hale, para quem o nascimento é tudo, e em simultâneo fascina-os, porque entendem a importância que homens como Thornton têm para as cidades do Norte. Como patrão, é visto como o anti-cristo pelos seus operários, e é no debate de circunstâncias que o livro ganha. Arrisco dizer que seria uma obra muito mais aclamada se tivesse sido escrita por um homem.
O discurso de Gaskell é humano, lúcido, ainda que as personagens, nos desaires da sua complexidade, sejam quase todas questionáveis. Margaret é altiva, resoluta, e retratada como uma vítima. Todos se apoiam nela, e ela suporta, como um bom cordeiro. A mãe é hipocondríaca e não faz um único comentário que se aproveite. Idem quanto à tia. Tanto pior quando chegamos à prima, Edith, ou à irmã de John Thornton, Fanny, que parecem um decalque uma da outra. Acredito que representem as jovens inglesas de 1850, que só conseguiam ocupar os pensamentos com o casamento, os vestidos e os bailes. Talvez a autora tenha captado de modo magistral a sua essência (exasperante). O pai de Margaret começa por ser um homem de princípios e fibra moral, capaz de tomar decisões, e vai-se tornando um mentecapto dependente do conselho de estranhos. Dixon, a criada da família, é outra criaturinha difícil de suportar. A sorte é que acabamos por ver as nossas impressões reflectidas no modo como estas pessoas afectam a protagonista.
A senhora Thornton, mãe do industrial, é um dos pilares do livro, ainda que seja uma mera personagem secundária. John Thornton é o eixo sólido, na minha opinião, porque todos os outros ao seu redor caem em incongruências e sofrem alterações de personalidade. É nele que reside a fibra e a firmeza de carácter que serve como espinha-dorsal a estas 450 páginas de dissabores.
Abundam lágrimas, contrariedades, perigos, eminência de morte, mortes em efectivo, amores desencontrados e mal-entendidos. Por isso não o considero um livro superior, fiquei com a impressão de que a autora poderia ter pegado nele e rasurado uma série de passagens. Mas o momento histórico está lá, os lados da trincheira também, e terminamos a leitura um conhecimento mais nivelado daquilo que é o percurso da nossa civilização. É também uma oportunidade para se entender as circunstâncias em que nasceu o socialismo, e testemunhar a inevitabilidade do seu florescer.
Esta é uma história de triunfos conquistados com enorme esforço, onde o pensamento racional é mais valorizado do que o preconceito, e o lado humano se sobrepõe ao respeito cego pela atividade económica.
Os leitores do século XXI irão sentir-se absorvidos, à medida que a trama deste romance vitoriano os transporta até às origens de problemas e possibilidades que ainda hoje, cento e cinquenta anos mais tarde, subsistem: a complexidade das relações, públicas ou privadas, entre homens e mulheres de diferentes classes sociais. 


Sinopse: A ação de «Norte e Sul» decorre em meados do século XIX, narrando o percurso da protagonista desde o ambiente tranquilo mas decadente de uma Inglaterra sulista até um norte vigoroso mas turbulento. Neste romance, Elizabeth Gaskell fala-nos de um amor incomum, para mostrar o modo como a vida pessoal e pública se entrelaçavam numa sociedade recentemente industrializada. 

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