Opinião: "Porque será que, quando te rendes, me sinto sempre como se fosse eu que tivesse sido conquistado?"
Foi a segunda vez que li este livro, mas não sabia quando o comprei que já o tinha tido nas mãos.
Jennifer é noviça numa abadia na Escócia, e portanto católica, membro de um clã e inimiga declarada dos ingleses. Royce é o braço direito do rei Henrique nos seus avanços bélicos contra a Escócia, difere em princípios, religião e patriotismo. Neste ponto dou valor à escritora por toda a pesquisa que evidentemente levou a cabo, e por todos os detalhes que nos fornece. Nada a dizer também a nível de contexto histórico (estamos em 1499), e dos contrastes entre a Escócia e a Inglaterra, uma sustentada por clãs temerários e orgulhosos, outra sustida pela ganância de nobres que enriquecem pilhando a outra e aumentando os domínios da sua coroa. É época de torneios, de agitação política, de catolicismo fervoroso enquanto Henrique ameaça virar as costas a Roma e fundar a sua própria religião, de fortificações, cercos, violações e pilhagens.
A minha embirrância começa logo com o nome da personagem principal: Jennifer. Uma rápida incursão na wikipédia diz que é a adaptação de Guinevere, adaptada na língua inglesa durante o sec. XX. História também é um bocadinho de intuição, e não consigo imaginar um diálogo entre a princesa Cátia e a duquesa, a senhora Soraia, enquanto as assiste a boa aia Jéssica, um doce de moça.
Só neste instante fui ver a origem do nome, mas faz-me espécie que não se tenha consultado uma lista de nomes tradicionais escoceses da época, de modo a chamar-lhe Heather, Fiona ou Arabella. Irrita-me que algumas pessoas fiquem agora com a impressão de que alguém se chamava Jennifer no sec. XV.
Depois, o livro começou mais ou menos bem, mas cedo se revelaram as intenções da autora: despejar todo e qualquer conflito possível para o meio do enredo. Então ele é raptos, ele é fugas, ele é conspirações, ele é traições, ele é drama, ele é mal-entendidos, ele é tudo. Se terminasse na página 300, com tudo um pouco melhor gerido, teria sido menos exasperante. Sobre cada duas páginas de felicidade amorosa, abatiam-se cinquenta de uma nova quezília. E, pior, aquela personagem feminina é de bradar aos céus. A autora não me convenceu de modo algum. A pessoa pode cortar com as convenções da sua época, mas só até certo ponto.
Não me importo quando os livros têm obstáculos, quando os problemas se sucedem, mas ao menos o coração das personagens principais tem de ser leal, tem de ser constante. Aqui dei por mim, muito cedo, a perguntar-me o que é que o famoso Lobo Negro via nesta Jenny: eram os seios, os maravilhosos olhos azuis, o ultrasuave cabelo ruivo, o sorriso e os dentes brancos, e a coragem. Sempre a coragem e o desafio, louvados ao ponto do rolar a vista. E o retrato incongruente da noviça de dezassete anos virgem e pouco vivida, enclausurada, que brincava com os rapazes e não teme o guerreiro inglês que todos temem.E Royce? Royce tudo faz por ela, em tudo a poupa, sorri muito de repente e tem atitudes românticas. Tudo engole, o que, para mim, é difícil de entender e desmancha a consistência da personagem.
Não me conseguiram vender este livro. Ele é um mártir às mãos da criança mimada e bipolar que McNaught aqui descreve. O perfil da jovem ingénua mas fogosa, corajosa mas insegura, determinada mas submissa, orgulhosa e que humilha, a de coração bondoso que perdoa todas as provações a que a sujeitam, não funciona para mim. Salva-se a tia Elinor e o gigante Arik; emparelhados puseram-me a rir.
Lembrou-me os livros da Sveva Casatti Modignani, que devorei com os meus 14 aninhos, e que cedo abandonei porque me apercebi de que havia um padrão nas personagens femininas: eram lindas, maravilhosas, ricas mas vindas de famílias operárias, toda a gente lhes admirava a fibra, a garra, o ardor com que se batiam pelo que queriam. Todos as admiravam e lhes teciam os maiores elogios. E elas ali... sem tomarem uma decisão, sem fazerem nada que não deslumbrarem um industrial da moda milanês. Era muita conversa para pouca acção. As atitudes das suas Giulias nunca estavam à altura da admiração que lhes projectava e fartei-me.
Uma nota para a tradução portuguesa, que só melhora depois da página 200. Ler "positivamente carregado de galhos", ou "terna ingénua", "doce coração", "esbelto pescoço", etc., foi embaraçoso. Também achei que a culpa é em parte do manuscrito original, porque enjoei o número de vezes em que a escritora repetiu, não fôssemos nós esquecer, que o homem era enorme e tinha ombros muito largos, e que era bronzeado e tinha dentes muito brancos e olhos cinzentos. E ela? Os olhos dela lembram veludo molhado (não importa a cor, desde que molhado), ou safiras líquidas (?), e também tem os dentes muito brancos, a pele leitosa, os seios e os lábios generosos, a cintura muito fina, os cabelos acobreados.Foi tudo repetido ao ponto do enjoo. Mas ai, como era fácil amar no séc. XV!

Jenny Merrick pode ter sido raptada do colégio de freiras que frequentava, mas não vai ficar de braços cruzados. A bela e fogosa jovem tenciona lutar com unhas e dentes e destruir este inglês grosseiro que se julga dono de tudo - e o facto é que consegue enfurecê-lo melhor do que ninguém.
Quando, por decreto real, são obrigados a casar, espera-se o pior. A feroz batalha de vontades, porém, não tarda a dar lugar a uma paixão escaldante, mas muito breve… Agora, após uma devastadora traição e uma série de mal-entendidos, Jenny vai ter de decidir a quem deve a sua lealdade…
Um clássico romântico. Uma das obras mais aclamadas da bestseller Judith McNaught.
Classificação: 2,7***/**
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