Um livrinho tão pequeno e com tanta intensidade! Foi
a minha estreia com Tolstoi e maravilhou-me. É daqueles livros em que, de
termos experienciado apenas a amargura de um lado da moeda, nunca saberemos o
que sucedeu de resto. Este é um livro sobre um ciumento doentio, inseguro,
cronicamente insatisfeito? Ou sobre um homem honesto que, na tentativa de se
tornar num modelo de moralidade, casa como de si é esperado e é vítima duma vil
traição? Haverá, de facto, traição?
O livro começa com uma viagem de comboio onde
desconhecidos partilham a mesma carruagem. São russos numa Rússia do último
quartel do século XIX. Pessoas que procuram acompanhar o progresso tecnológico,
intelectual e, sobretudo, social da Europa, tantas vezes evocada como termo de
comparação. Em seguida a história esvoaça para um caso que sucedeu há pouco: um
marido que matou friamente a sua mulher, por suspeita de traição. Um dos
passageiros é esse marido assassino, que se dispõe a contar ao nosso narrador o
que aconteceu para o levar a esse extremo.

Tolstoi parece culpar a sociedade por todos os erros
cometidos na existência deste homem perturbado. Primeiro empurraram-no para as
mulheres, por ser o esperado de si. Depois empurram-no para um casamento com
uma jovem casta de boas famílias, para que ele a conspurque. Depois são
incapazes de tolerar-se mutuamente, mas uma separação é praticamente
impensável. Tudo isto é estranhamente contemporâneo – não a obrigação de a moça
se casar, mas a efectividade de todas estas “imundícies” que causam dissabores
e infelicidade parecem-me ainda presentes na nossa sociedade.
Acaba abruptamente, deixando-me um tanto ou quanto
desconcertada. Dividida, confusa. Virei a página e, de súbito, com o chegar de
um comboio a uma estação, há um adeus e o drama pessoal/conjugal encerra-se.
O autor é humano, contemplativo, reflexivo, provocador, capaz de analisar eventos como algo de maior, crítico e sarcástico. Um génio não apenas da literatura, mas também do coração humano.
Classificação: 5*****
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